ARQUITETURA LUZ E LITURGIA ELIVA MILANI
CAPÍTULO III - A LUZ COMO INSTRUMENTO NA AMBIENTAÇÃO
Na relação da luz com o ambiente, deve-se ter uma real compreensão da função da igreja e de cada ambiente interno para se propor uma melhor forma de iluminação, atendendo não só à necessidade de uma iluminação geral do espaço, destaques arquitetônicos, obras de arte e elementos que compõem este espaço, mas também a funcionalidade para o uso litúrgico. “A função do ambiente é também um dos fatores mais importantes para a determinação da relação entre espaço e luz, pois nos fala de nossas possibilidades e limitações” (VIANNA, GONÇALVES, 2001, p.36)
A iluminação pode ser projetada com uma determinada intenção ou para um determinado comportamento no ambiente. Um dos aspectos fundamentais da iluminação é aquele que está relacionado ao psico-emocional do usuário.
Muito além de nos permitir ver, a luz determina como vemos, o que vemos,
o que sentimos ao vermos. Por isso, um bom projeto de iluminação consiste
em um trabalho sistemático de controle de luz sobre a intenção de mostrar
as pessoas o que é adequado ou interessante e tornar o espaço agradável
para a realização das atividades que lá acontecem (FRANCO, 2000, p. 7)
A sensação visual é mais do que os dados que vemos num objeto ou num espaço, porque é subjetiva. Neste particular, a dissertação de Ingrid Chagas Leite da Fonseca (2000) descreve mais sobre como o individuo percebe o espaço. Esta pesquisa limita-se ao estudo da luz como elemento criador do espaço, que desperta emoções, cria sensações e que influencia na sua percepção.
A luz, quanto ao seu papel na criação de uma ambientação, pode ser analisada através de distintos aspectos:
A luz como uma necessidade, ou seja, para desenvolver as tarefas, para se ver o espaço e os objetos, nos seus contornos, sua textura e forma, e ainda para propor uma satisfação do usuário com o ambiente; A luz como sinalizadora do espaço, ela pode classificar e articular os espaços, e indicar um caminho ou um objeto que se quer chamar a atenção;
A luz como modificadora das sensações espaciais, como a de dar a impressão das
dimensões de um local ou um objeto serem diferentes do que são na realidade, por
exemplo, de fazer um espaço parecer maior ou menor;
A luz como ferramenta para criar efeitos e sensações no individuo.
E finalmente, o aspecto simbólico da luz, que significa a vida, o inicio, o sagrado, o
transcendente. Nas igrejas, é a relação com o divino, a luz divina. A importância da luz nas igrejas é a determinação da identidade e características do local.
Todos os objetos e arte na igreja têm (ou deveriam ter), uma específica presença no espaço e um significado simbólico. Na intenção de sugerir mensagens e sentimentos de espiritualidade, a iluminação incorpora os elementos do espaço, que estão na arquitetura, nas artes plásticas, nos ornamentos e objetos litúrgicos.
O uso da luz natural faz parte de uma estratégia arquitetônica que deve ser considerada na concepção do espaço. A maneira como a luz natural entra e interage com a forma e o espaço cria ambiências na igreja. É um marcador temporal, e sua alternação de luz e sombra cria um senso de movimento.
Na figura 30, a estrutura da igreja cria efeitos luminosos, a luz vinda da abertura encima da entrada principal, ilumina o altar, e a entrada de luz pelo o teto direciona e define o espaço.
Suaves efeitos de gradações de luz e sombra criam o efeito claro e escuro dentro do
edifício. A entrada indireta de luz e suas inter-reflexões nas superfícies produzem um
ambiente com iluminação difusa e relaxante que favorecem a calma interior propiciando o recolhimento e a oração. Uma focalização de luz com maior brilho no presbitério é desejada para dar destaque e guiar o olhar dos fiéis.
Um feixe de luz pode chamar a atenção para determinado lugar no interior do edifício, como um objeto ou uma superfície, assim como também pode representar o aspecto simbólico da luz, uma luz que vem de cima, uma luz divina. As Igrejas têm diferentes maneiras de se expressar através da luz, mas sempre é a idéia da luz significando uma conexão com o divino. (Figuras 31, 32, 33 e 34)
“O essencial no símbolo é que se trata de dois elementos – o sinal sensível e a realidade significada - relacionados, entrelaçados, completando-se mutuamente, [...]” ( BUYST, 2002, p.37). A luz física quando projetada no altar está relacionada com a luz símbolo, representa o Cristo ressuscitado, é a luz que vence as trevas e também vem clarear a vida do cristão.
As esculturas de arame brilham com a luz.
“A escultura desta forma segue o mesmo tema de luz e espaço da arquitetura propriamente dita, enriquecendo o seu simbolismo e significado sagrado.” (CLAUSEN, 1992, p. 82)
Diferentes formas de aberturas revelam a presença da luz natural dentro de um edifício, e o modo de como esta luz é tratada é que faz a ligação interior e exterior. Quando o interior de uma igreja é muito escuro e o exterior muito iluminado, a experiência com este contraste enfatiza a separação dos dois ambientes. No caso em que os aspectos do exterior aparecem no interior, a conexão com o exterior é enfatizada. A luz também pode ser filtrada, e mesmo sem a visão do exterior as pessoas se conectam com a presença da luz natural.
A figura 35 mostra que na simplicidade espacial da capela do mosteiro dominicano de La Tourette, Eveux, França, Le Corbusier criou um espaço para prece, meditação e estudos dos freis dominicanos através da articulação de volumes, planos, cores e luz. A privacidade é a maior condição de um monastério. O ambiente é de enclausuramento, predomina a sombra e a atmosfera escura convida ao recolhimento. Num outro lugar da capela, luzes atravessam as clarabóias, criam uma composição de claro-escuro, forma e cor, que orientam a variação do sol e ao mesmo tempo reforçam a diferença do externo e interno.
Na capela de Notre-Dame-du-Haut, em Ronchamp, França, um dos ícones da arquitetura moderna (abordada no capítulo IV), a utilização da luz natural provoca uma experiência sensorial diferente de La Tourette. Le Corbusier, em Ronchamp, usou uma luz controlada e filtrada que oferece gradativas percepções do exterior num clima de recolhimento. (Figura 36)
Já na Catedral de Brasília, construída na mesma década do Concílio Vaticano II, talvez com a intenção de mostrar uma nova fase da Igreja, Oscar Niemeyer projetou uma igreja mais transparente e iluminada, cuja planta baixa propicia uma melhor agregação da assembléia.
O interior é inundado pela luz natural que atravessa os painéis de vidro entremeados pelo vigamento de concreto, a luz não é direcionada para o altar, ela se espalhada em todo o espaço, o que provoca um deslumbramento, evocando o significado simbólico da luz.
Numa diferente concepção de entrada de igreja, o acesso ao interior da Catedral de Brasília se dá através de uma passagem subterrânea, na penumbra, para alcançar o contraste do interior iluminado.
O átrio ou hall sempre teve importância como um lugar de transição, presente na maioria das igrejas, separa o interior do exterior, o sagrado do profano, o escuro do claro. Este espaço tem uma relação direta com a luz, sua interpretação é diferente para o dia e para a noite, mas em cada momento a hierarquia é definida. Durante o dia, a gradação da luz natural no hall ajuda na adaptação visual aos contrates de luminosidade entre exterior e interior. À noite, o hall é definido pela luz artificial, e a igreja com suas portas abertas e o hall iluminado, é um convite para a comunidade entrar.
No período noturno, normalmente a iluminação nas igrejas é diferente do que durante o dia. A iluminação artificial tem características diferentes da natural, é uma luz controlável, tem aparência de cor e reprodução de cor.
A iluminação artificial também é utilizada como instrumento na própria concepção do espaço. Na busca de soluções para questões funcionais de iluminação, se pode explorar o espaço com diferentes aplicações de luz nas superfícies e estruturas arquitetônicas. Efeitos de sombra e luz valorizam a percepção do espaço. A não uniformidade de luz e a baixa intensidade luminosa ajudam no relaxamento e privacidade, cria um ambiente agradável de recolhimento. Por outro lado, maior intensidade na iluminação dá aspecto de um ambiente festivo. (Figuras 38, 39 e 40)
“O projeto teve como critério valorizar o
espaço arquitetônico, dotar este espaço dos
níveis de iluminação necessários ao
desempenho de suas tarefas e pontuar
elementos de interesse. A intenção foi de
guiar o olhar dos freqüentadores através da
arquitetura de maneira crescente, enfatizando
o altar principal.” (PHILIPS, 2002a)
Nesta pesquisa observou-se que os seguintes requisitos de iluminação artificial usados na ambientação de interiores de outros tipos de edifícios, tais como, residencial, comercial, e institucional, também são aplicados nas igrejas: focos de luz direta associada com luz difusa nos pontos de atenção; nível recomendado de luz e uniformidade no plano de trabalho; luz nas paredes, tetos e elementos arquitetônicos como complemento na iluminação geral.
Com este partido de iluminação, as igrejas conseguem alcançar um ambiente agradável e confortável para a celebração litúrgica. A intensidade luminosa dada aos espaços da igreja e a forma como a luz é trabalhada nos locais e objetos, fica condicionada à função.
Portanto, em primeiro lugar, deve-se conhecer as exigências da celebração, da oração pessoal e comunitária, e a organização espacial do lugar, itens estudados nos capítulos anteriores.
Através da luz, os espaços podem adquirir diferenciação de acordo com a importância, estabelecendo uma hierarquia com diferentes níveis de iluminação.
Gradações de brilho criam ambientes diferentes e o brilho concentrado atrai a atenção, mostra um caminho. “O olho, involuntariamente, procura por objetos brilhantes ou por áreas de contraste no campo visual. O uso desta técnica pode ser eficiente em situações onde se deseja direcionar a atenção e o interesse do observador para determinado detalhe.” (FONSECA, 2000, p. 45).
Um efeito discreto de claro-escuro, uma gradação de luz e sombra onde partes com mais brilho têm função maior, reforçam a organização espacial da igreja. Mesmo com todo o interior da igreja iluminado, o presbitério, local onde se desenvolvem as ações litúrgicas, é o local de maior brilho. Uma iluminação dirigida às três peças litúrgicas fundamentais – altar, ambão e cadeira da presidência – evidenciam os objetos e também as ações transcorridas neles.
Nave e presbitério juntos é que traduzem o significado do espaço na celebração, a
iluminação deve conectar estes espaços, jamais separá-los. Distintos por sua iluminação, devem fluir um para o outro de maneira que se tenha um fluxo livre, e ao mesmo tempo direcionando a atenção ao principal.
Na celebração litúrgica, a melhor ambientação é aquela que realce pelo contraste de luz o presbitério, favorecendo a atenção às ações litúrgicas desenvolvidas nele, e que contribua para a construção de uma assembléia realmente unitária.
É desejável luzes de destaque no presbitério para criar os focos de atenção e uma luz mais difusa, confortável e uniforme no espaço da assembléia. Porém, deve-se evitar um excesso de contraste entre presbitério e nave para que não provoque a separação entre estes dois espaços. A luz na nave também pode corresponder a uma iluminação para uso diário e outra para grandes celebrações. O clima festivo dado à celebração é criado com maiores intensidades de luz na nave. Ao contrário, o clima de recolhimento se dá com baixas intensidades de luz.
Além das devoções comunitárias, existe a individual. Para este momento, uma boa
iluminação seria aquela que remetesse as pessoas à introspecção e à oração. A
ambientação pode ser realizada com pouca quantidade de luz no lugar onde se encontra o fiel, e uma luz direta com mais brilho no altar, o centro da Igreja. No caso das devoções ao santo, uma iluminação mais dramática referencia a imagem.
Segundo Flynn e Segil (1970, apud FONSECA, 2000, p.43) uma iluminação que valorize as atividades e pessoas num determinado plano, subordinando elementos verticais acima, tende a aumentar o alerta para detalhes e pessoas próximas, e seus movimentos, encorajando as pessoas a uma atitude de agregação e envolvimento. E, por outro lado, ao reduzir a iluminação nestas áreas horizontais e aumentando a intensidade nas verticais acima do plano de atividade, tende a induzir uma atitude mais introspectiva nas pessoas, provocando uma atmosfera mais intimista.
O uso da luz nas suas diversas manifestações no interior da igreja católica, também pode ser concebido como elemento unificador da assembléia e ao mesmo tempo como elemento de fusão da assembléia e o local da celebração.
Efeitos visuais criados com diferentes formas de aplicação da luz dão expressão ao espaço e são usados nas igrejas para criar a ambientação de assembléia e de introspecção, e ainda expressar um pouco da função simbólica e mística do local.
Na ambientação das igrejas, a iluminação artificial, pela sua própria tecnologia, oferece muitas possibilidades de luz. Trabalha com luz, sombra, forma, texturas, cores e também com os espaços. Valoriza a arquitetura, elementos litúrgicos e simbólicos, e ainda sinaliza os espaços e objetos que se quer evidenciar.
3.2 ASPECTOS FUNCIONAIS
Nesta pesquisa verificou-se que não existem regras para iluminar igrejas, apenas
recomendações baseadas em características técnicas de iluminação, características arquitetônicas, função do próprio espaço e o conforto visual do usuário.
Para se fazer a iluminação de um ambiente, normalmente se considera parâmetros
quantitativos (de caráter objetivo) e qualitativos (de caráter subjetivo).
Dentre os parâmetros quantitativos, o nível de iluminação ou iluminância (lux) é o mais importante, porque é ele que determina a quantidade adequada de luz que incide sobre uma superfície, é baseado nas características das tarefas visuais e classificado conforme a Norma Brasileira - NBR 5413, que estabelece valores mínimos para iluminação artificial de interiores.
Os parâmetros qualitativos consideram aspectos capazes de proporcionar o bem estar ao usuário e à percepção do espaço. Para isto, são analisados a uniformidade da luz, o ofuscamento, a Temperatura de Cor (TC) e o Índice de Reprodução de Cor (IRC) das fontes de luz, a forma da distribuição da luz, e as características do espaço. Monsenhor Guilherme Schubert (1978) em seu livro Arte para a Fé, faz algumas observações de ordem prática sobre a iluminação de uma igreja. Ele diz que a igreja precisa três tipos de iluminação. Uma apenas para clarear e orientar na circulação, outra para leitura do texto e música durante os atos de culto e por último, uma iluminação para conferir um tom solene, festivo às cerimônias (missa, casamento e outras). Defende uma iluminação adicional para dar destaque à arquitetura, decoração, imagens e quadros. Mas é bem claro quando diz que se deve “solenizar os atos” e não “procurar efeitos teatrais”.
Quando Monsenhor Schubert fala de “efeitos teatrais” refere-se ao padre somente como ator e à assembléia como expectador. Se for somente neste sentido, a celebração não estaria cumprindo a sua função de assembléia reunida.
Quanto aos três tipos de iluminação a que o autor se refere, pode-se comparar com as três formas básicas de distribuição de luz usadas nos projetos em geral, e que também servem na iluminação de uma igreja. São assim descritas como: iluminação geral, de destaque e de tarefa.
Iluminação geral
Trata-se da iluminação que define o espaço, dá um conforto visual ao ambiente, é a luz ambiente. Proporciona uma certa uniformidade de luz e, por ser uma iluminação mais homogênea, os objetos parecem mais planos. Todos os espaços da igreja necessitam de uma iluminação geral e os níveis de iluminamento vão depender das necessidades do usuário em determinado ambiente.
Iluminação de destaque.
Utiliza-se a iluminação de destaque quando se pretende particularizar a iluminação,
evidenciar algum objeto ou forma. Trata-se de uma luz pontual caracterizada pelo forte contraste entre o objeto e o entorno. Para se ter este efeito de luz, aplica-se um maior nível de iluminamento ao objeto obtendo assim um contraste entre o objeto e o entorno. Pode ser empregada junto com a iluminação geral, mas com maior intensidade de iluminância para se ter o destaque. Deve-se ter cuidado para não causar sombras indesejáveis e ofuscamentos, devido à alta luminância do ponto de luz. No destaque de objetos tridimensionais, valorizase o objeto colocando-se luz em diversos ângulos, para se ter maior dramaticidade. Nas igrejas, a iluminação de destaque passa a ser nas imagens, obras de arte, quadros, formas arquitetônicas e peças litúrgicas.
Iluminação de tarefa
Este tipo de iluminação tem um nível mais elevado para as tarefas visuais
comparativamente ao entorno, que tem uma intensidade mais baixa. Na igreja, alguns espaços necessitam de iluminação para leitura.
É importante analisar a eficiência energética na iluminação de uma igreja, assim como avaliar a facilidade de manutenção dos aparelhos de iluminação. O sistema de iluminação só será realmente eficiente se conseguir unir qualidade de iluminação com economia de energia.
A iluminação de uma igreja envolve iluminação diurna e noturna. Deve-se atentar ao fato de que alguns ambientes necessitam ser iluminados durante o dia, enquanto outros necessitam de iluminação somente à noite ou na hora da celebração. É oportuno que a luz artificial se integre com a luz natural. Isto é possível através de dispositivos de controle da luz, adaptase o interior às necessidades de iluminação.
A maioria das igrejas possui vidros coloridos (vitrais) nas janelas, que filtram a luz natural.
Esta luz que atravessa os vitrais, a depender do horário, reflete o colorido dos vidros nas paredes, teto e piso, contribuindo com uma luz difusa para o ambiente. À noite,
normalmente as igrejas iluminam seus vitrais de fora para dentro com projetores cujo foco é direcionado para o vitral. Este tipo de iluminação artificial não tem o mesmo efeito que a iluminação natural que sofre variação conforme a luz do dia. Mas, quando se está dentro da igreja, a iluminação noturna dos vitrais realizada de fora para dentro contribui para o destaque destas obras de arte.
A iluminação interna de uma igreja pode ser direta ou indireta. A combinação dos dois tipos pode até ser a melhor opção, vai depender da tipologia da edificação, da altura do pé direito e dos efeitos de luz que se quer desenvolver. Mas, como qualquer outro edifício, as recomendações são as mesmas: na luz indireta tem-se que ter cuidado com o pé direito alto, com cores escuras, e com a sujeira acumulada por causa da difícil manutenção. Na luz direta o cuidado maior é com o ofuscamento. (Figura 41 e 42)
Luz direta e indireta Luz direta
Embora as igrejas observem, em linhas gerais, a um projeto padrão, cada igreja tem
características arquitetônicas específicas e, deste modo, tem-se um projeto de iluminação diferente para cada igreja.
No caso das igrejas antigas, deve-se fazer uma consulta ao Patrimônio Histórico da cidade, pois normalmente há regras e limitações para modificações. Isto pode limitar o projeto, mas de qualquer forma, no caso de reformas, os sistemas de iluminação devem adaptar-se às condições existentes no interior da igreja.
No projeto de iluminação existe uma relação entre o tratamento dado à forma de distribuição da luz, às características da fonte de luz artificial, à sua intensidade, ao Índice de reprodução de cores (IRC), à temperatura de cor (TCC) e às características do espaço como dimensões, cores, texturas e formas.
Muitas são as ferramentas que auxiliam na aplicação da luz no que diz respeito ao efeito que se quer dar ao espaço ou aos elementos. O desafio é encontrar soluções adequadas e levar em conta todos os aspectos de forma conjunta.
Com os avanços tecnológicos em relação aos sistemas de iluminação já se tem condições de produzir ambientes controlados pela luz, isto pode ser aplicado em espaços onde se pretende obter diferentes níveis de iluminação.
O projeto de iluminação de igrejas requer um estudo da arquitetura do edifício, dos móveis e objetos de uso litúrgico dos diversos espaços. A iluminação não precisa ser igual em todas as áreas, cada local tem uma função e cada atividade requer um nível específico.
3.2.1 Iluminação no átrio
O átrio é um espaço de transição entre o externo e interno. “O átrio dá idéia de passagem, de limiar entre o conhecido e o desconhecido, a luz e as trevas...” (Machado, 2001, p. 35).
Além deste lado simbólico, também é funcional, é onde estão os folhetos, os avisos da igreja, onde as pessoas se preparam para a liturgia. É também um lugar de acolhida. Este ambiente requer uma iluminação mais aconchegante, com lâmpadas de baixa temperatura de cor, com intensidade de luz mais baixa. Para a leitura dos avisos sugere-se uma luz direcionada aos quadros. As igrejas, normalmente, possuem uma iluminação geral no átrio, resolvida com luminária pendente quando o pé direito é alto, plafoniers para pé direito mais baixo e também o uso de arandelas. A forma arquitetônica, as dimensões, as cores e a textura é que vão determinar o tipo de iluminação. Pode-se ter uma iluminação mais dramática, com luzes e sombras, criando um mistério e ao mesmo tempo um convite para entrar.
3.2.2 Iluminação na nave
É o local da assembléia, onde ficam os bancos e os corredores. Algumas igrejas possuem nave principal e naves laterais.
As naves laterais, quando tiverem bancos, recebem o mesmo tratamento da nave principal ou central. Se forem somente para uso de circulação, poderão ter uma iluminação não uniforme e com menor intensidade do que a nave central, já que não haverá leitura. A iluminação pode ser nas abóbadas, nos elementos arquitetônicos, nos quadros da via sacra, ou simplesmente uma iluminação direta. (Figura 43)
Iluminação na nave lateral.
Iluminação na nave central.
As capelas laterais requerem um tratamento como obra de arte e cuidados na escolha do sistema de iluminação. Uma iluminação mais expressiva para as imagens, realçando suas formas e cores através de um efeito mais dramático de luzes e sombras. Este tratamento requer lâmpadas com elevado índice de reprodução de cores e, muitas vezes, aplicação de filtros para evitar que os raios ultravioletas danifiquem a obra.
Na nave central, as pessoas sentadas, de pé ou ajoelhadas, devem ter conforto visual, boa visibilidade do ambiente e condições visuais para leitura. Deve-se criar um ambiente que favoreça a participação nas atividades. É nesse espaço que os fiéis rezam, cantam, escutam a Palavra e lêem os ofícios. Assim, justifica-se uma iluminação geral e uniforme no local onde estão os bancos, para maior conforto visual dos fiéis. (Figura 44) A distribuição de luz não uniforme não é benéfica ao conforto, apesar de ser mais expressiva.
A iluminação da nave deverá ter níveis suficientes para a realização da tarefa de leitura e percepção do ambiente. Por outro lado, em determinados momentos, deverá ter um resultado para um ambiente mais de recolhimento. A Norma Brasileira de Iluminância de Interiores - NBR 5413 estabelece como iluminância mínima 150 lux para nave com leitura de ofícios.
Uniformidade na iluminação da assembléia e luzes de destaque no presbitério.
Quanto à forma de distribuição de luz, considera-se que a luz difusa é uma boa escolha, porque minimiza as sombras, dando mais conforto para a leitura. Dependendo do projeto, pode-se fazer um clima de mistério usando luz e sombras, mas não deve ser no nível de leitura dos fiéis e sim nos espaços vazios, ou num nível acima das pessoas.
A iluminação de destaques dos elementos arquitetônicos pode complementar a iluminação geral, a depender das superfícies de reflexão, sua forma, cores e texturas. Detalhes arquitetônicos, tais como os arcos, sancas ou capitéis das colunas, podem ser realçados com claros e escuros, ou contrastes de luz com diferentes temperaturas de cor.
Baixas intensidades de luz reforçam uma atitude mais calma, altas intensidades contribuem para a atividade. Uma iluminação muito intensa não é acolhedora nos momentos de escuta e reflexão. Por outro lado, uma maior intensidade de luz é requerida nos momentos em que a assembléia é sujeito da ação litúrgica.
Neste caso, uma igreja que tenha iluminação geral calculada para a leitura e mais a
iluminação de destaque nos elementos arquitetônicos ou litúrgicos, pode alcançar uma atmosfera mais de aconchego e de introspecção no momento da escuta ou reflexão se diminuir a intensidade da iluminação geral na nave e continuar com a iluminação de destaque.
É comum encontrar Igrejas com luminárias pendentes com grande número de lâmpadas incandescentes e arandelas nas paredes laterais. Não é um sistema energeticamente eficiente, mas são projetos originais, igrejas tombadas, e fazem parte do conjunto arquitetônico. Em alguns casos as luminárias se adaptam às lâmpadas de maior eficiência, ocasionando maior iluminamento e economia de energia. Outra opção de iluminação na nave é a colocação discreta de projetores em pontos estratégicos, que possam aumentar o nível de iluminamento para a leitura, ou mesmo a luz indireta, que possa contribuir através da reflexão numa parede ou teto de cor clara.
A escolha do tipo de sistema de iluminação vai depender muito do projeto arquitetônico, das cores e das texturas. O ideal seria usar controles de intensidade de luz na iluminação geral da nave. A utilização de dimmer torna a iluminação mais flexível. Outra boa solução seria a utilização dos dimmers programáveis, que poderiam ser controlados junto com a iluminação do presbitério.
3.2.3 Iluminação no presbitério
Presbitério é o espaço onde fica o celebrante. Conforme já mencionado anteriormente, os mais importantes elementos no presbitério são: a cadeira da presidência, a mesa e o ambão. Mas, ainda se encontram neste espaço a cruz, a imagem do padroeiro, a estante do comentarista e as cadeiras para os ministros..
O celebrante preside a assembléia. A depender do desenvolvimento da liturgia, pode estar na mesa (altar), sentado na cadeira ou no ambão, quando ele dirige a Palavra.
Com o conhecimento das ações rituais durante a celebração pode-se, através da iluminação, destacar a ação simbólica principal de cada momento, atraindo a atenção dos fiéis. Ou simplesmente, destacar as três peças litúrgicas.
Na liturgia da palavra, que é realizada no ambão, quando não há luz suficiente para a
leitura, é comum fixar no ambão uma pequena luminária para luz de tarefa. O mesmo vale para a estante, onde são realizadas as outras leituras.
Existem igrejas onde o fundo do presbitério tem muita informação, são madeiras esculpidas, imagens, sacrário dourado, etc., o que é muito comum nas igrejas antigas. Neste caso, deve-se ter cuidado com o que iluminar e com que intensidade de luz. Um contraste muito grande poderá desviar a atenção dos fiéis na hora da celebração. Apesar da beleza e das verdadeiras obras de arte das igrejas antigas, hoje se celebra uma liturgia diferente. A iluminação pode ajudar na adaptação litúrgica destas igrejas, tirando o foco de um lugar e colocando noutro, trazendo o altar para o centro de atenção.
Na figura 47, através da iluminação, destaca-se a mesa da eucaristia, podendo assim, celebrar uma liturgia de acordo com o Concílio Vaticano II, preservando o patrimônio, mas não vivendo uma Igreja do passado.
Com o uso de controles de intensidade de luz, seja através de dimmer simples ou através de sistemas mais sofisticados onde são usadas mesas digitais, pode-se obter uma iluminação de destaque com dinamismo e riqueza de propostas, ou seja, uma iluminação de cenas dentro do presbitério. Este assunto será abordado no capitulo IV.
3.2.4 Iluminação da fonte batismal
Como a fonte batismal ou pia batismal pode estar em diferentes lugares, sua iluminação depende da igreja e de seu projeto original ou de reforma. Deve-se estudar cada caso. No caso da pia batismal estar na frente da assembléia, deve-se ter o cuidado de não desviar a atenção dos fiéis do ponto central no momento da celebração. Por isso, deve-se ter uma luz mais suave, sendo que a própria iluminação geral da igreja pode iluminá-la. Uma iluminação de destaque só será importante no dia do batismo, onde se pode colocar alguns projetores de luz direcionados para a pia batismal, com circuitos independentes.
No caso de pia batismal em capelas ou na entrada da igreja, pode-se fazer uso de uma iluminação de destaque ou mais dramática, com luzes e sombras, já que o local do batismo na entrada da igreja tem um grande simbolismo.
3.2.5 Iluminação das imagens
As imagens estão no presbitério, nos altares laterais ou também espalhadas pela igreja, ora em apoios, ora em nichos. O primeiro passo ao iluminar uma imagem é avaliar, junto com o pároco e com o profissional responsável pelo projeto da igreja e até com representantes da comunidade, a importância destas imagens para a comunidade. Pode-se partir do princípio que a imagem do padroeiro ou da padroeira sempre é a mais importante, as outras são secundárias. O cuidado maior será quando houver muitas imagens, pois se houver muitos pontos de destaque, corre-se o risco de poluir o visual da igreja, chamando a atenção para as imagens, sendo que a principal é o Cristo.
Por outro lado, estas imagens às vezes estão dentro de capelas laterais no interior das igrejas e merecem ter uma iluminação de destaque até mais dramática, como obra de arte, pois muitas são obras de grande valor histórico, cultural e artístico ou de grande devoção do povo que freqüenta a igreja. A representação da imagem do padroeiro (a) ou do Cristo pode ser uma pintura ou escultura, e é comum estar localizada em algum lugar no presbitério. Para a iluminação destas imagens deve-se estudar caso a caso, dependendo das dimensões, cores e volumes, e se a imagem está num nicho ou simplesmente suspensa na parede.
Se houver iluminação uniforme no local onde se encontra a imagem é aconselhável ter uma combinação com luz de destaque com maior intensidade. Assim, se poderá destacar a plasticidade, a textura, os detalhes e a expressão da imagem. (Figura 48) A iluminação mais dramática para a escultura valoriza a expressão e a forma.
O mais importante na iluminação de uma imagem é tratá-la como obra de arte, usando uma fonte de luz com alto índice de reprodução de cores (IRC), usar filtros que protegem contra os raios ultravioleta, quando for necessário, e trabalhar com luzes e sombras para dar valor às formas, mas de maneira suave. A sombra deve ser graduada para que se possa ver bem todo o conjunto.
Se for um painel, requer uma iluminação mais uniforme para um bom entendimento da pintura e do que ela representa.
Cada igreja é um caso específico de iluminação, existem igrejas com o teto preenchido com pinturas artísticas, e/ou com pinturas que descem pelas paredes. Observa-se que as pinturas se destacam quando são bem iluminadas e fazem parte da ambientação da igreja.
CAPÍTULO IV - ILUMINAÇÃO CÊNICA NOS ESPAÇOS RELIGIOSOS
4.1 LUZ E A ARQUITETURA RELIGIOSA
A relação luz e forma sempre esteve presente nos edifícios com suas diferentes expressões do espaço. Arquitetura e luz formaram diferentes cenários nas diferentes fases da Igreja no decorrer de sua história. Até o fim do século XIX a luz natural era a principal forma de iluminação nos interiores, a estrutura refletia o clima exterior, e as igrejas sempre articulavam o uso da própria luz como parte fundamental na criação do espaço, tanto do ponto de vista estético quanto funcional, como simbólico.
As igrejas medievais sempre eram orientadas para o nascente. Projetadas para receber a luz de manhã cedo no altar, durante o dia na nave e corredores e, no fim da tarde, a luz do oeste por detrás da congregação. Este princípio era aplicado em todas as igrejas, tornando tradicional a sua orientação no eixo leste-oeste. Após escurecer, a situação era diferente, fontes de luz em chamas situavam-se nas proximidades do altar ou outro local do ritual, a localização era basicamente funcional. Assim, muitas igrejas que eram inundadas pela luz natural durante o dia, alcançavam uma aparência totalmente diferente durante a noite. (PHILLIPS, 1997)
Na arquitetura românica o ambiente era de penumbra e a arte era essencialmente simbólica. Os edifícios eram escuros, a luz entrava através das estreitas e escassas janelas, era muito pouca a comunicação com o exterior. Nas paredes as pinturas mostravam ao povo as mensagens e a manifestação de Deus, foram criadas para serem vistas com pouca luz. Por este motivo, suas cores eram vivas e suas expressão exageradas. A igreja românica se configura da seguinte forma: a abside é a cabeça de Deus, seu santuário, é orientada a leste porque é por onde nasce o sol. Deus é o sol, o começo do dia e da vida. E, a iluminação mais importante no interior da igreja é o sol nascente, onde está o altar e o celebrante. A nave é o caminho até a salvação. No cruzeiro, a luz aparece através da torrelanterna, como uma luz divina que purifica o homem preparando-o para a manifestação da presença divina na abside. (CAMPS, 2005b)
A arquitetura gótica mudou a concepção do espaço e a luz adquiriu extrema importância. As paredes coloridas do românico foram substituídas por paredes transparentes que se tornaram um agente transformador de luz através dos vitrais.
A princípio nenhum segmento da igreja poderia permanecer no escuro, sem ser definido pela luz. A luz era a essência de toda beleza visual. A ornamentação da igreja era subordinada à estrutura. A luz era utilizada não só para conseguir um efeito estético, mas também no sentido simbólico, correspondendo metaforicamente à idéia da Onipresença Divina. (CAMPS, 2005b)
Nos momentos da história da arquitetura religiosa a luz sempre esteve presente. As igrejas usavam a própria construção de seus edifícios para modelar a luz natural. A arquitetura sempre respondeu à luz, e a iluminação nos interiores das igrejas era formada pela própria forma da arte. O claro e o escuro eram resultados da forma espacial e dos diferentes materiais e estruturas arquitetônicas empregadas na composição.
O uso da luz nas igrejas representa mais que as funções de ambientação, arte e
funcionalidade no espaço, sugerem mensagens e sentimento de quem freqüenta a igreja na busca da espiritualidade. A iluminação manejada pelo arquiteto é um dos elementos mais importante e sutil na configuração do espaço construído, significa a leitura da obra. Dentre as inúmeras igrejas que poderiam ilustrar este item, optou-se por dois exemplos pertencentes a épocas distintas, de diferentes qualidades de luz natural dentro da igreja.
Um deles, inevitavelmente é a Capela de Notre Dame du Haut, Ronchamp, um dos marcos da arquitetura do século XX, qualquer estudo de luz e arquitetura sempre apresenta a conhecida capela de Le Corbusier. O outro exemplo é a Igreja da Misericórdia de Tor Tres Teste, Roma, projetada pelo arquiteto Richard Méier para ser a igreja do milênio, conhecida também como a Igreja do Jubileu. A essência de ambas as igrejas é o espaço branco, um instrumento da luz, que responde pelas nuances do céu. E o resultado do ambiente interno destas igrejas é produto da habilidade dos arquitetos em manipular a luz na superfície, no volume e nas aberturas.
4.1.1 Capela de Notre Dame du Haut – A Capela de Ronchamp
Projeto: Le Corbusier
A Capela de Notre-Dame-du-Haut, também chamada de Capela de Ronchamp, França, foi construída em 1955 no topo de uma colina para receber os peregrinos. No programa requerido para a construção constavam três capelas internas independentes, um santuário no exterior para as celebrações ao ar livre, um local para a estátua da Virgem Maria, e ainda o confessionário, um pequeno escritório, a sacristia e os elementos básicos para a liturgia. (
Figura 50)
A implantação do edifício obedece ao eixo leste-oeste e tem a orientação do altar principal a leste, de acordo à tradição. Le Corbusier, preocupado com a luz como ferramenta de projeto, controlou a qualidade da luz através de suas formas arquitetônicas. A própria construção tratou de modelar a luz natural. A principal fonte de luz está na parede sul que, através de sua grande espessura, possibilita a filtragem da luz, difundindo-a para toda a igreja. (Figura 51)
O contraste entre a luz do dia e o interior escuro é tão grande que faz com que sejam
ocultadas as extremidades das aberturas alargadas numa forma esfumaçada onde os tons de luz na escuridão escondem a forma exata. A luz decompõe as extremidades. (MILLET, 1996, p. 58) (Figura 52)
A luz natural é o elemento criador do espaço, o cenário é de uma perfeita relação da forma com a luz e a cor, o que gera um clima de recolhimento e oração dentro da capela. As aberturas, bem localizadas, propiciam ao espaço uma iluminação mística, devido aos contrastes de luz e sombra. O interior se conecta com o exterior através da luz filtrada sem, contudo, permitir a visão externa.
Efeitos dramáticos de luz estão em todo o interior. As paredes curvadas formam com a cobertura, também em curva, uma linha fina de luz que parece uma rachadura horizontal e dá um efeito de “desprendimento” da cobertura. Os efeitos de luz nas aberturas são combinados com o uso da cor e lançam luzes coloridas no interior branco da capela. Acima do altar, a parede é marcada por diversos “buracos” que deixam passar a luz e por uma única janela (nicho) onde está localizada a imagem da Virgem Maria. Neste nicho a imagem é vista simultaneamente no altar interno e no altar externo e banhada constantemente pela luz natural. (Figura 53, 54 e 55)
A capela de Notre Dame du Haut é um partido inovador que rompeu com a tradição
eclesiástica e rejeitou tradicionais elementos decorativos, tais como, figuras e esculturas de histórias bíblicas, em favor da luz, o mais abstrato símbolo da religião. Suas aberturas parecem grandes luminárias que projetam luz para dentro da capela. Luz e cor invadem o interior branco de tal modo que trazem uma atmosfera muito particular para o local.
4.1.2 Igreja da Misericórdia de Tor Tres Teste - A igreja do Jubileu
Projeto: Richard Méier A igreja da Misericórdia situa-se em Tor Ter Teste, um bairro ao sul de Roma. Projetada por Richard Méier para ser a igreja do milênio, teve um atraso e só foi concluída em 2003, coincidindo com o jubileu do pontificado do papa João Paulo II. Daí o nome Igreja do Jubileu.
A implantação do edifício é num terreno triangular e plano com acesso principal a leste. A construção é formada por uma série de retângulos e curvas, responsáveis pela distinção das funções. Ao sul se encontra a parte sacra, caracterizada pelas três curvas que, segundo o arquiteto, insinuam uma discreta alusão à Santíssima Trindade. Abrigam na sua forma convergente a nave, a capela, o batistério, a sacristia e os confessionários. Ao norte se encontra a parte profana, onde predominam as linhas retas, local onde está o centro
comunitário e a casa paroquial.
1- Acesso principal
2- Nave principal
3- Altar principal
4- Batistério
5- Capela
6- Altar da capela
7- Confessionário
8- Sacristia
9- Catequese
10- Recepção
11- Escritório
12- Jardim
13- Vazio do pátio
A partir do desenho das curvas, Méier adota componentes fundamentais para alcançar muita luz no interior da igreja. O uso de clarabóias, paredes com caixilhos de vidro e a cor branca predominante, banham o interior da igreja com luz.
A luz é o elemento essencial na caracterização do espaço. O branco presente nem sempre é o mesmo, é transformado pela luz do dia. A percepção do espaço muda de acordo com as estações do ano, com o tempo e com as horas do dia. E a igreja, na sua transparência, mostra o céu e a luz verdadeira. O espaço interior é apresentado como uma extensão do exterior, pois convivem com a mesma luz, e dentro do espaço ela ainda se torna radiante, provocando um deslumbramento que anuncia a proximidade com o sagrado. Luz e forma traduzem um espaço interior belo e envolvente. (Figura 60)
Na parede atrás do altar aparece o Cristo crucificado junto com uma luz que atravessa uma pequena abertura num grande nicho. Faz pensar numa luz simbólica, a luz do Cristo, ou, talvez, a janela que leva à Deus. (Figura 61)
Richard Méier, ao projetar uma igreja transparente e luminosa, faz do espaço da celebração de um catolicismo renovado e contemporâneo uma identidade nova e revigorada para a Igreja católica. (ARKINKA, 2004)
A luz branca e intensa revela uma Igreja que quer ser mais clara e mais transparente, cuja estrutura e luminosidade fazem um ambiente acolhedor e estimulante, próprio para reunião de uma comunidade.
4. 2 A IGREJA COMO UM ESPAÇO CÊNICO
Na igreja, a liturgia é uma grande ação ritual composta de diferentes momentos celebrativos, ou ritos, que se desenvolvem num tempo e num espaço determinados. Conforme descrito anteriormente, tem começo, meio e fim e é desenvolvida em espaços construídos para este fim, compostos por elementos simbólicos com significado específico. Lá atuam o celebrante e seus ministros voltados para uma assembléia composta de fiéis.
No teatro, a cena é o período da realização de uma ação, e o espaço cênico é o local onde ocorre a encenação, os acontecimentos e as ações.
No desenvolvimento das celebrações litúrgicas surgem as cenas, os diferentes momentos celebrativos que compõem as celebrações, tais como os ritos iniciais de constituição de assembléia, o momento de escuta da Palavra de Deus ou o rito de proclamação do evangelho.
A celebração litúrgic a tem a força comunicativa do teatro, e o espaço arquitetônico é tão importante quanto no teatro. Está a serviço da liturgia e de cada rito. Na arquitetura religiosa, o espaço também se comunica por meio de um cenário, de sua iluminação, do som, e da decoração. (TEIXEIRA, 2003)
O cenário determina o espaço e o tempo da ação. A arquitetura, a pintura, a escultura, a decoração e a iluminação se encarregam de representar este espaço. (OLIVEIRA, 1998)
Proporcionam o “pano de fundo” para o desenvolvimento das ações. O cenário deve ser cuidadosamente construído na sua forma espacial, na distribuição de seus espaços e dos objetos, nos contrastes de sombra e luz, para provocar respostas emocionais e comportamentais no indivíduo.
O cenário na igreja vai depender das relações estabelecidas entre seus espaços, da
disposição dos elementos simbólicos e litúrgicos, e das ações litúrgicas aí desenvolvidas. É importante que este cenário seja estudado para que se exerça um bom trabalho de iluminação.
“A composição é a organização dos elementos visuais que integram a cena / ambiência” (PEREIRA, 2004, p. 39).
Na composição do cenário da igreja católica destacam-se os seguintes espaços descritos anteriormente: o presbitério, lugar onde se desenvolvem os ritos e onde está localizado o altar, ambão e a cadeira da presidência; a assembléia, que na celebração é sujeito da ação litúrgica, lugar onde estão os fiéis; o lugar da fonte batismal e o lugar do tabernáculo.
Observa-se nas igrejas adaptadas à nova liturgia, um cenário novo inserido no antigo. É importante salientar que os diferentes estilos arquitetônicos gótico, barroco e o românico, por exemplo, são diferentes entre si, possuem características próprias, cenários próprios. Apesar de a liturgia ter se renovado e modificado com o tempo, ainda hoje, em algumas igrejas, as celebrações litúrgicas são feitas em cenários pertencentes a outras épocas. Nestes casos, a iluminação pode criar uma nova ambiência litúrgica ajudando a mudar o foco de atenção dos fiéis para o novo centro da igreja, ajudando-os a concentrar a sua atenção na ação litúrgica em ato e deslocando do antigo espaço devocional.
A igreja pode ser compreendida como espaço cênico na celebração através de uma
encenação interativa com a intenção de aproximar o público da cena, trazendo-lhes a participação ativa na celebração. Conforme já mencionado anteriormente, o altar é o centro da Igreja e ao redor dele o povo se reúne, e não mais é dada tanta importância à devoção aos Santos e à adoração do Santíssimo Sacramento, como na época do altar localizado no fundo da abside.
Verificam-se na igreja dois cenários principais: o da celebração e o da oração individual. No decorrer desta pesquisa constatou-se que algumas igrejas trabalham com outros cenários. São os que dizem respeito normalmente às igrejas que, pela sua expressão artística, criam momentos de visitação para a admiração e estudo da arquitetura e das obras de arte no seu interior e, ainda, as que apresentam música e canto ou algum espetáculo artístico.
Conforme descrito anteriormente, as celebrações são realizadas num determinado tempo litúrgico, como a liturgia da manhã, da tarde, do domingo e dos dias da semana, do natal, da páscoa, batizado, casamento, festa dos santos, dentre outras.
“Celebramos nossas diversas liturgias nos diferentes tempos litúrgicos sempre no mesmo espaço, o mesmo salão, com os mesmos mobiliários, a mesma igreja.” (MACHADO, 2003, p. 10).
O espaço cênico é o mesmo, com os elementos fundamentais da liturgia católica. A
encenação é que muda, ou seja, mudanças nas ações simbólicas praticadas nas diversas liturgias. E a iluminação pode ajudar, dando destaque à ação daquele momento litúrgico.
Por exemplo, no caso do batismo, a cena é no batistério e a ação simbólica principal é o mergulho na água ou derramamento de água sobre a cabeça.
Fora da celebração, quando a igreja é lugar de silêncio, reflexão, meditação e oração, o cenário é o da oração individual, diz mais respeito à percepção do espaço como casa de oração e deve conduzir à introspecção e ao recolhimento. A iluminação pode contribuir para criar uma atmosfera agradável. Observa-se, também, a presença de fiéis que reconhecem na imagem dos santos algo que está ligado com o divino. Aparece, então, neste mesmo cenário outra cena, aquela do fiel rezando diante da imagem do santo. Quando se fala do cenário de visitação de uma igreja, refere-se às igrejas famosas do ponto de vista arquitetônico e/ou artístico, e que são frequentemente visitadas por turistas ou admiradores da arte. O papel da iluminação é aquele que permite aos fiéis e visitantes a plena apreciação da arquitetura e da arte, e a observação dos elementos de valor cultural, artístico e simbólico. As características especiais do lugar são a sua imagem de lugar sagrado e a atmosfera que instila contemplação e mística. A iluminação deste cenário é a própria ambientação, mas pode ocorrer que para visualizar todos os elementos artísticos,
haja necessidade de mais luz do que a comumente usada para este espaço cumprir suas exigências religiosas.
A igreja tem suas necessidades específicas, mas, em qualquer tipo de cenário é importante manter o principal propósito da igreja como espaço para celebração dos sacramentos, unindo nave e presbitério e dando ênfase à percepção do altar, do ambão e da cadeira da presidência, que estimulam a oração individual e proporcionam referências fixas da liturgia católica dentro do espaço.
4.3 A ILUMINAÇÃO CÊNICA
O propósito da iluminação cênica é usar a luz para comunicar ao público a ação transcorrida e provocar emoção ao indivíduo na percepção do espaço.
A primeira regra da iluminação cênica indica que a luz deve ser suficiente para que se veja a cena e facilite os pontos de atenção do espectador. Como se trabalha com a subjetividade, o público deve receber a mensagem visual de cada ambiente com grande facilidade. (SÁEZ, 2000)
Com a iluminação cênica, é possível delimitar o espaço, iluminar distintas cenas, marcar a troca do espaço, manter uma cena em primeiro plano, criar ambiências, criar sombras, indicar o caminho, indicar o ponto de atenção, valorizar os volumes, figuras e objetos da cena.
Para o desenho da iluminação cênica deve-se ter em conta os distintos espaços, a
cenografia, o texto e o movimento do ator (ou atores). A luz contribui tanto na cena (ação) quanto no espaço cênico, é um meio de fazer arte e de despertar emoção.
A finalidade da iluminação cênica nas igrejas é ressaltar a subjetividade do espaço nas diferentes zonas de atuação da liturgia. É fundamental para compor os cenários que se deseja, destacando elementos estruturais ou formas arquitetônicas, pinturas, esculturas, a cruz e as peças litúrgicas. Como a liturgia é um processo dinâmico, é possível também, como no teatro, destacar as ações das celebrações usuais e solenes, e suscitar diferentes emoções que possibilitam a participação no mistério celebrado.
A utilização das formas de apresentação de luz adotadas no teatro, ou circunstâncias similares, ajuda a igreja no seu modo cenográfico.
Para a composição da iluminação do cenário, normalmente são necessárias diferentes aplicações de luz em diferentes espaços. A luz, além de auxiliar no cenário a adquirir a forma e as dimensões visuais desejadas, influencia na maneira de como o usuário se sentirá naquele espaço. (FRANCO, 2000)
A iluminação cênica serve-se de muitas possibilidades que a tecnologia da iluminação oferece, como baixar e aumentar a intensidade mediante a utilização de reguladores de luz, fazer a luz difusa ou dirigida quando necessário e marcar o ponto do cenário que se quer destacar. Este tipo de iluminação faz a cena aparecer, procura transmitir diferentes sensações através de um jogo de claro e escuro, na intensidade das luzes aplicadas, nas cores, e de todo o efeito de luz desejado, podendo dar mais dramaticidade ou não à cena.
Nos diferentes cenários e nas diferentes ações se pode estudar uma iluminação mais apropriada, como, por exemplo na indicação de cada atividade exercida; na comunicação ou interação entre o celebrante e os fiéis; para afetar o comportamento e as reações emocionais dos participantes; para propiciar a geração de um ambiente ou o desenvolvimento de uma atmosfera adequada à oração; para destacar os elementos litúrgicos e para proporcionar um encantamento com a arquitetura.
Efeitos de luz dão expressão ao espaço, criam diferentes cenas, e chamam a atenção do fiel ao que é importante e à mensagem que se pretende dar. Uma sutil diferenciação na intensidade da luz entre os espaços identifica o local da ação como o de maior brilho.
A aplicação de sistemas de controle de luz possibilita a setorização da iluminação em diferentes circuitos e ajuda a estabelecer distintos cenários com níveis diferentes de iluminação. É o poder da luz de criar e recriar ambientes numa dinâmica oferecida pela dimerização.
As ações desenvolvidas na celebração, associadas às variações de intensidade de luz, guiam o olhar do fiel, concentram sua atenção e contribui com sua participação à cena.
Um exemplo bem simples é baixar a intensidade de luz no local da assembléia nos
momentos de silêncio, de escuta e meditação, e aumentar a intensidade nos momentos de louvor, de canto e nas leituras dos fiéis.
Ainda se pode dar destaque às ações praticadas no presbitério de acordo com a
funcionalidade litúrgica. Embora as peças litúrgicas fundamentais já estejam destacadas pela luz, a ação é evidenciada se a luz incidir com maior brilho no local onde a ação ocorre naquele momento.
“Quando um facho de luz incide sobre um determinado ponto do palco,
significa que é ali que a ação se desenrolará naquele momento. Além de
delimitar o lugar da cena, a iluminação se encarrega de estabelecer
relações entre o ator e os objetos; o ator e os personagens em geral.”
(OLIVEIRA, 2005.)
Aquele que preside a assembléia (o padre) é destacado através da luz, e ao mesmo tempo os fiéis presentes também são usuários da luz e se deve incluí-los na utilização do campo de luz que dispõem em cada momento de ação.
O movimento do ator é que organiza e relaciona as seqüências das ações, ou seja, sua entrada e saída, sua posição em relação aos outros atores e aos elementos do cenário e até mesmo a sua relação com os espectadores. (OLIVEIRA, 1998).
O movimento da luz fica condicionado à ação, é uma forma de indicar o trajeto até o
acontecimento (ação) ou elemento do cenário, direcionando o foco de atenção do
espectador. A iluminação passa a ser o elemento de ligação entre todos os que compõem o cenário, mas é preciso ter o conhecimento da cena e o que é relevante.
Na celebração todos fazem parte da cena. Segundo o Prof. Mons. Giancarlo Santi (IN:
REGGIANI SPA ILLUMINAZIONE, 2001, p. 139) a celebração dos sacramentos requer dos projetistas de luz conhecimentos da liturgia que foi renovada pelo Concílio Vaticano II para poder atuar no espaço, em particular, enfatizar e contribuir para a formação de uma assembléia unida e, nos seus aspectos ministeriais, capaz de agir e de ser percebida, também visualmente, como uma unidade.
Assim, a iluminação que destaca o presbitério, a iluminação na assembléia, a iluminação arquitetural e a de outros espaços da igreja, embora estáticas na focalização, podem fazer um movimento através de maior ou menor brilho de acordo com as necessidades do momento, proporcionando, assim, uma orientação visual e criando uma atmosfera mais adequada à mensagem que se quer passar aos fiéis.
CAPÍTULO V – EXEMPLOS DE ILUMINAÇÃO DE IGREJAS
5.1 IGREJA DO CORAÇÃO DE JESUS - ALEMANHA
Esta igreja foi projetada pelos arquitetos Almann, Sattler e Wappner em 1999-2002. Situada no coração de Munique, sua implantação foi num entorno pré existente e criou uma forte presença arquitetônica por causa do seu volume, do vidro colorido e dos “andaimes” de seu campanário. Sua forma geométrica, concebida por uma modulação metálica, revela a predominância de uma racionalidade estética. O interior da igreja é encapsulado dentro de uma dupla casca, ou seja, a estrutura externa em aço e vidro gera interiormente, em ambos os lados da nave, uma galeria desassociada do interior da igreja mediante uma divisória revestida em madeira que repete o perfil retangular da igreja.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No Concílio Vaticano II, em 1963, a Igreja resgatou aspectos essenciais da liturgia que se haviam perdido por mais de um milênio na história da Igreja, como a centralidade do mistério pascal, a importância da participação do povo, a simplicidade da liturgia e sua adaptação às diferentes culturas.
Devido às mudanças na Igreja, os edifícios destinados ao culto seguem com novas formas de desenho, aparece uma igreja com espaços mais simples, representando um catolicismo menos retórico e mais essencial. A arquitetura religiosa encara as mudanças, sem deixar de representar a mística religiosa, em seus aspectos rituais, litúrgicos e simbólicos. O núcleo da Igreja é o espaço celebrativo. A nave e o presbitério juntos é que traduzem o significado da igreja durante a celebração dos católicos. A disposição das peças litúrgicas, altar, ambão e cadeira da presidência, contribuem para a definição espacial da igreja e, juntamente com a luz proporcionando o foco, criam a atmosfera propícia à celebração.
Na ambientação de uma igreja deve-se levar em conta que sentimentos e emoções fazem parte do encontro do ser humano com o divino. Portanto, na sua iluminação devem-se incorporar, além das peças litúrgicas e elementos iconográficos, os de conteúdo de mensagem que vêm com as estruturas arquitetônicas, os afrescos e os ornamentos. Mas de tal modo que não distraia o fiel e sim que o ajude a meditar.
Nas igrejas, a iluminação é utilizada para ver a ação litúrgica, para dar destaque aos pontos de ação e para entender melhor a mensagem visual do ambiente. Para contemplar a igreja, a iluminação artificial deve partir do conhecimento das exigências da celebração, da oração pessoal e comunitária. A arte luminotécnica oferece possibilidades para realizar iluminações diversas para cada ambiente.
Em síntese, os principais objetivos que se destacam na iluminação interna de uma igreja são: iluminar de acordo com a função do espaço; favorecer às ações litúrgicas; criar uma atmosfera apropriada para a meditação, oração e celebração; valorizar os elementos que constituem o espaço; e garantir o conforto visual.
Para que o projeto atenda a todos os objetivos, necessita-se entender a Igreja, a celebração e a comunidade, definir as áreas e suas funções e ainda ter conhecimento das características do local ou do projeto, tais como, cores, materiais, formas, estrutura e aberturas. Saber também, quais elementos a destacar: o altar, o ambão, a cadeira da presidência, a pia batismal, as imagens, a arte e a arquitetura.
A melhor iluminação é aquela que atende principalmente à funcionalidade do espaço para uso litúrgico, sem deixar de lado a estética e a ambientação do local. Num trabalho conjunto de luz e formas arquitetônicas, consegue-se alcançar uma unidade no espaço presbitério e nave, tão desejada na celebração. Atende-se, assim, as necessidades de concentração, oração e celebração, observação das imagens, símbolos e peças litúrgicas, observação da arquitetura e a percepção do espaço.
A iluminação artificial, usada como instrumento na concepção do espaço e na busca de soluções para questões funcionais de iluminação, pode explorar o espaço com diferentes aplicações de luz nas superfícies e estruturas arquitetônicas. Os efeitos de luz e sombra valorizam a percepção do espaço. A não uniformidade de luz e a baixa intensidade luminosa ajudam no relaxamento, e podem ser usadas nos momentos de recolhimento e oração individual. Por outro lado, maior intensidade na iluminação e uniformidade no local da assembléia dão aspecto de um ambiente festivo, ideal para os momentos de louvor e canto.
A aplicação da luz pode se dar através de sistemas de iluminação sofisticados, como os programáveis, ou mesmo na aplicação de sistemas de iluminação menos complexos onde uma simples ação de ligar e desligar ou o uso de dimmers manuais. Diferentes formas de iluminação alcançam os objetivos da igreja, tais como, uma iluminação indireta, enchendo os espaços com uma luz envolvente e completada com uma luz direta, destacando as imagens e as peças litúrgicas, ou uma iluminação na assembléia de forma direta, através de projetores ou de diferentes tipos de luminárias, bem distribuídos, de maneira tal que forneça uma iluminação mais uniforme para a leitura, e mais a luz dirigida às peças litúrgicas e/ou
presbitério.
Em diversas igrejas se verificou uma arquitetura que permite a entrada da luz natural, conduz e difunde através de suas formas geométricas. É recomendado que o sistema de iluminação artificial seja integrado com a iluminação natural dentro do espaço. Assim, a luz natural, quando escassa, pode servir de iluminação geral, e focos de luzes artificiais são acesos para destacarem o que é relevante. Na medida em que escurece, o restante da iluminação artificial é acionado para completar a ambientação programada para o uso noturno da igreja.
Neste estudo observaram-se duas abordagens cênicas nas igrejas: cenas da celebração ação litúrgica e cenas do espaço - ambiência. A iluminação cênica usa a luz tanto na ação transcorrida quanto na percepção do espaço. Os objetivos a serem alcançados com a iluminação cênica nas igrejas, em síntese, são: a visibilidade, a revelação da forma, a orientação seletiva da visão e a criação de uma atmosfera adequada. Eles são independentes e interagem entre si.
O cenário proporciona o “pano de fundo” para o desenvolvimento das ações. Na
composição do cenário para a celebração na igreja católica destacam-se: o presbitério, lugar onde se desenvolvem os ritos (ações) e a nave, o lugar da assembléia. Na formação de ambiências, a iluminação contribui para formar uma atmosfera propícia ao momento, destacando o principal e guiando o olhar do fiel.
Com a luz se consegue mudar a leitura do espaço. No caso das igrejas antigas, para
resolver a adaptação litúrgica, recorre-se à luz para criar um novo cenário, uma nova
ambiência da Igreja, trazendo o altar para a cena, valorizando o patrimônio artístico,
histórico e cultural, mas não vivendo o passado da Igreja.
A iluminação também pode ser vista com movimento, no tempo e no espaço e, para isso ocorrer, a orientação da visão e a atmosfera mudam a cada momento, passando uma mensagem para ser entendida e vivenciada.
O reconhecimento de uma iluminação que permita a dinâmica, e não a representação
estática no ambiente, se deve à luz natural como elemento da própria concepção do espaço, devido as suas variações com o tempo e aos controles de intensidade da luz na iluminação artificial. Assumindo, desta maneira, visões diferentes de dia e de noite, podendo dar uma nova leitura ao local.
A iluminação cênica nas igrejas é uma expressão artística que pode ser apreciada e sentida, é o elemento de ligação (comunicação) entre todos que compõem a cena.
A luz enfatiza a ação. As variações de intensidade de luz associadas às ações
desenvolvidas na celebração, mostram a direção da ação e influenciam na maneira como os fiéis se sentirão no ambiente. Uma sutil diferença na intensidade de luz entre o altar, o ambão e a cadeira da presidência, identifica cada momento do ritual. Como a luz artificial é controlável na direção e na intensidade, estes aspectos, quando bem trabalhados, ajudam, sobretudo na liturgia, a destacar os gestos do celebrante e contribuir na participação dos fiéis.
Efeitos visuais, criados com diferentes formas de aplicação de luz, dão expressão ao espaço e são usados nas igrejas para criar a ambientação, e ainda expressar a função simbólica e mística do local. Como na Capela de Ronchamp, onde Le Corbusier parte da simplicidade no interior para valorizar o essencial da liturgia católica. Enche o espaço com uma luz filtrada e colorida, de forma mais dramática, prevalecendo um interior mais escuro para atingir um clima de recolhimento. Richard Méier, na Igreja do Jubileu, apresenta um espaço mais de acordo com a liturgia católica renovada. A luz do exterior invade o interior, mas destaca o altar. É uma luz branca e intensa, talvez queira revelar uma Igreja mais clara e mais transparente, cuja estrutura, forma e luminosidade, fazem dela um ambiente acolhedor e estimulante, próprio para a reunião de uma comunidade.
Nos exemplos de iluminação de igrejas apresentados nesta pesquisa, verifica-se que a iluminação tem vários caminhos e formas de aplicação para atender os aspectos litúrgicos da igreja católica. Portanto, as soluções de iluminação encontradas numa igreja não são melhores que as outras, e sim mais adequadas ao contexto. O que as igrejas têm em comum é a preocupação com a luz como uma ferramenta de trabalho, controlam a qualidade da luz através de suas diferentes estruturas e formas arquitetônicas, materiais construtivos, textura e cor. A iluminação resultante é uma luz estruturada de acordo com a fonte e a superfície do ambiente.
Observa-se que a iluminação artificial nas igrejas é projetada a partir do lugar, das
características da arte e da arquitetura, levando em consideração a iluminação natural e a relação da função do espaço com a luz. A luz do dia fornece as definições principais, banhando o altar com luz. A iluminação artificial também tem os focos de luz direcionados ao principal, reforça a organização espacial, mostra o caminho e direciona a atenção do fiel.
A alternância de luz e sombra cria um senso de movimento e o dialogo entre arquitetura e iluminação é que dá expressão ao espaço. A perfeita relação da forma, da luz e da cor é que traduz nestes espaços o clima de recolhimento e de celebração. A luz como símbolo da fé e como elemento modelador do espaço, ainda caracteriza os espaços religiosos.
Esta pesquisa procura, desta forma, sensibilizar os projetistas de luz, arquitetos e demais profissionais que trabalham com igrejas, da importância da luz na compreensão e leitura do espaço religioso, e que é imprescindível o conhecimento da Igreja Católica e de sua liturgia antes de empreender qualquer tarefa no local.
O vidro permite a entrada de luz e é uma barreira acústica e térmica; as paredes em
madeira formam a barreira luminosa. A luz do dia e a luz do sol são filtradas pelos vidros da estrutura externa e pelos elementos da estrutura interna, diminuindo assim o contraste entre exterior e interior.
A estrutura interna, em madeira, é composta por louvres que, em diferentes posições, controlam e direcionam a luz natural para o altar. Um afastamento entre paredes e teto no fundo do presbitério parece uma moldura de luz, o que dá ainda maior destaque ao lugar. Esta parede, a depender da angulação da luz, deixa transparecer o desenho de uma cruz que a ocupa por completo. O interior apresenta uma composição que transmite a sensação de um ambiente sacro e acolhedor através da luz.
A iluminação artificial foi também muito bem explorada no seu interior. Projetada pelo escritório George Sexton Association, recebeu no ano 2001 um prêmio no 18ª premiação anual da IALD (International Association of Lighting Designers). Foi considerado pelo júri um “bem-sucedido exemplo de desenvolvimento verdadeiramente condutor da meditação e da prática religiosa”. (ARCOWEB, 2006).
À noite, a luz elétrica transforma a igreja numa caixa de vidro iluminada, e se torna o foco espiritual para a comunidade. Quando as grandes portas azuis abrem, à noite, aparece a segunda caixa, de madeira, também iluminada. O altar, no fundo, que é visto através de um vão aberto, permanece como foco principal. No interior, a luz é suave. A parede em madeira no fundo do presbitério se destaca porque é banhada pelos focos de luz verticais que ressaltam a cruz. O altar, fortemente iluminado, é destacado por luzes pontuais.
O tipo de iluminação “wallwashers”, ou seja, lavagem de luz na parede, ilumina
verticalmente os louvres, proporcionando a iluminação externa da caixa de madeira.
O aparecimento da cruz tem mudanças ao longo do dia e depende da quantidade de luz natural e de luz artificial que aos poucos aparecem reforçando a cruz e acentuando os destaques das peças litúrgicas. A luz é sempre direcionada para o altar.
À noite, a iluminação artificial também destaca o altar. Uma iluminação horizontal e ajustável provê a iluminação na assembléia e outros pontos de luz modelam os objetos.
Diversas cenas no interior da igreja são programadas por um sistema de controle de
iluminação que controla a intensidade de luz nas diversas zonas da nave. Assim, as funções específicas da igreja são destacadas pelo aumento da intensidade de luz quando necessário. Como exemplo, a figura 70 mostra a fonte batismal sendo destacada para a cerimônia do batismo.
A distribuição e equilíbrio de luz são responsáveis pela identidade noturna da igreja. O uso de um sistema de dimmers que controla as várias camadas de luz aplicadas na igreja cria ambiências adequadas a cada função. O resultado é um espaço iluminado onde a luz é aliada às características construtivas, a composição espacial e a funcionalidade da igreja.
5.2 IGREJA DO SALVADOR – ARGENTINA
A Igreja do Salvador situa-se numa esquina das Av Callao e Calle Tucumán, em pleno
centro de Buenos Aires, Argentina. Fundada no inicio do século XX, trata-se de um
monumento tombado pelo patrimônio histórico pela grande quantidade de afrescos e murais nas suas paredes.
O interior desta igreja era muito escuro, de aspecto sombrio e lúgubre, e não permitia que se apreciasse a beleza do espaço. Além disso, os fiéis reclamavam porque não podiam ler seus livros devido ao baixo nível de iluminação. Na Páscoa de 1999, a igreja inaugurou sua nova iluminação artificial, projetada pela arquiteta Gladys Mabel Gatti, que conseguiu uma transformação do lugar com harmonia e equilíbrio nos efeitos de luz, atendendo a todas as necessidades do espaço. Com este projeto luminotécnico da Igreja do Salvador, ela obteve uma Menção de Honra no concurso mundial de iluminação organizado pela Philips Lighting em 2002. (PHILIPS, 2005)
De acordo com o artigo divulgado pela Philips Iluminação (2005), a iluminação não se desenvolveu somente a partir de um projeto finalizado. Foi necessário se estabelecer premissas gerais com respeito às cores e às situações que se queriam alcançar em cada espaço, e depois fazer provas e ajustes no local para cada situação especial e para cada elemento arquitetônico. Somente foram assegurados, através de cálculos luminotécnicos, os níveis de iluminação geral.
No átrio, um espaço pequeno, todo construído em madeira, a iluminação teve como
princípio destacar a qualidade e textura da madeira, alcançando assim, um ambiente
acolhedor ao entrar na igreja.
Na nave principal, o teto abobadado e pintado com figuras celestiais recebe uma iluminação com projetores direcionados para cima, realçando as cores existentes no teto, outros direcionados para baixo, no plano de leitura dos bancos, e ainda projetores colocados na base de cada pilastra com foco para cima que através de uma luz mais amarelada e rasante realçam as pilastras, capitéis e a grande cornija. Assim, o teto foi destacado através da diferença de cor e brilho, obtiveram-se 300 lux no plano de leitura, e a sensação foi de maior espacialidade ao se observar os afrescos do teto. (Figura 73).
As naves laterais seguiram o mesmo conceito da nave principal, luz mais branca dirigida às abóbadas e cada pilastra marcada com luz rasante de baixo para cima. Nos santuários, uma luz mais acolhedora com tons mais quentes, projetadas para alcançar um efeito mais dramático de luzes e sombras.
No cruzeiro, uma grande cúpula dourada foi iluminada por projetores através de efeitos de luz do tipo rasante, de baixo para cima, colocados nas colunas. Resultam em um banho de luz numa tonalidade mais amarelada.
No presbitério, arcos e abóbada também se destacam por uma iluminação mais dramática nos contrastes de luz e cor. Luzes com maior brilho destacam o altar e a imagem do Senhor. O vitral no fundo recebe uma luz por trás para poder ser visto pelos fiéis.
O coro, situado sobre o átrio, foi ressaltado mediante uma luz rasante de baixo para cima na base do órgão de metal. Ainda segundo, a informação da PHILIPS (2005), a multiplicidade de efeitos de luz propostos ao interior, permitiram criar distintas cenas com a iluminação segundo a necessidade e de tal maneira que os fiéis percebam ambientes diferentes de acordo com o caráter de cada situação.
A iluminação conseguiu transformar a igreja de sua imagem “escura” para uma igreja
“iluminada”. Ao serem iluminadas, as obras de arte e a arquitetura do interior proporcionaram não só a apreciação da arte, mas também uma ambientação do espaço, com boa iluminação para a leitura dos fiéis e iluminação de destaques aos elementos litúrgicos.
5.3 IGREJA DE SÃO FRANCISCO - ALEMANHA
A igreja de São Francisco localizada em Regensburg, Alemanha, foi consagrada em maio de 2004. A construção faz limite com a igreja velha, a casa do padre, o cemitério e um campanário.
Nesta igreja, não se poderia ter uma expectativa do interior a partir apenas da percepção espacial do exterior. A forma externa, que é uma caixa retangular com algumas aberturas atípicas espalhadas nas superfícies, contrasta com seu interior, que tem uma área geométrica completamente diferente, onde prevalece um espaço litúrgico curvilíneo.
No interior da igreja, as paredes seguem um desenho, em planta baixa, de linhas elípticas, fazendo o fechamento vertical e definindo bem o local da celebração. A estrutura interna da igreja é orgânica, garante uma boa funcionalidade do espaço, e abriga a assembléia reunida em torno das três principais peças litúrgicas. O interior é despojado, limpo de qualquer ornamentação, remete de imediato ao essencial.
A iluminação da igreja, desenvolvida pela lighting designer Annette Hartung do escritório Lightplanung A. Hartung, Colônia, Alemanha, recebeu em 2005, um Prêmio por Excelência na 22ª premiação anual da IALD (International Association of Lighting Designers). A exigência principal era criar uma iluminação de baixo custo e que atendesse às necessidades diurnas e noturnas. A lighting designer conseguiu alcançar este propósito, com uma boa solução, através de uma inusitada proposta.
No teto, o fechamento através de membranas tensionadas (tenso-estrutura), faz a
composição e cumpre a função da luminosidade na igreja. A transparência da membrana é bem aproveitada, pois permite passar a luz natural e a luz artificial, de maneira difusa e agradável. Iluminação natural Iluminação artificial
A captação da luz natural é invisível desde o interior, pois se integra em um espaço entre a membrana e o telhado. O telhado é do tipo shed, tem painéis fechados e painéis envidraçados. O grau de translucidez da membrana não permite reconhecer o telhado, mas revela o desenho das sucessivas projeções de luz provindas das aberturas que, por causa do movimento do sol, trás um movimento de manchas de claro e escuro.
A iluminação artificial é constituída de projetores ocultos e distribuídos no espaço entre a membrana e o telhado. A luz, também filtrada pela membrana, cria manchas de luzes e sombras. A iluminação no ambiente é mais dramática, e se difunde por todo o espaço.
O tabernáculo é embutido na parede localizada atrás do altar, e recebe a luz do dia por detrás dele através de uma abertura na parede que se comunica com o exterior. Como o tabernáculo tem uma grande moldura de vidro, por ali transparece a luminosidade do exterior. A concepção do interior desta igreja é de um espaço fechado em si, como ele próprio se propõe, mas ao mesmo tempo se liberta para o alto, com a sensação da própria imagem do céu.
A membrana tensionada é mais que um instrumento na composição do espaço, é um fator determinante na adoção de uma estratégia de uso da luz na arquitetura. Sua aplicação nesta igreja gerou um espaço envolvente ao lidar com o aspecto cenográfico da luz.
Os dados mencionados neste texto foram obtidos da IALD (2005b) e da Königs Architekten