Arquitetura Timorense - Mendes, Almeida, Cinatti.
Introdução
Tem este livro, por primeiro objetivo, ser uma compilação de formas da construção nativa timorense, patente, nos seus variados tipos, por todo o território insular onde nos foi possível chegar, observar, fazer fotografias e desenhar. Impôs-se, durante a recolha do material, o estudo analítico dos diferentes habitats rurais, sua interpretação e classificação. Constitui-se, então, um conjunto de conhecimentos subordinado ao tema habitat, essencial para o estudo da geografia humana do território — síntese das ações e reações do binómio homem-invólucro natural.
Houve que, para explicitar as manifestações arquitetônicas timorenses, enquadrá-las no nível material e cultural da sua civilização, descrita nos seus aspetos principais: estrutura social e económica, religião, artesanato, festas, etc. Relacionou-se, deste modo, o habitat, determinado até certo ponto por condicionamentos vários, com a vida quotidiana nativa. Ordenou-se o material recolhido no desenrolar de um capítulo descritivo que traduz a paisagem geográfica e humana de Timor, constituindo, porventura, um conjunto de dados suficiente para base de outros trabalhos de investigação ou de concretização de ordem prática.
Inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, o ritmo e manifestações da vida tradicional autóctone desaparecerão gradualmente, absorvidos ou profundamente modificados na sua estrutura pela evolução expansiva do tecnicismo moderno. Com o presente estudo sobre o habitat timorense, ficarão
para sempre arquivadas as formas de vida do seu povo e, em especial, uma das realizações mais interessantes da cultura insular: a casa.
Cremos também que o aparecimento de "O habitat no Timor Português" chamará decerto a atenção de quantos se interessam pelos assuntos tropicais, bem como do grupo de responsáveis pela administração daquela parcela de território português para o estado em que se encontram as populações, o seu grau de evolução técnico-cultural, o seu nível de vida expresso na alimentação, no
vestuário e, sobretudo, na habitação.
Consideramos, por outro lado, que a análise da habitação rural insular, por constituir uma verdadeira lição de adaptação ao meio ambiente, poderá vir a fornecer valiosos ensinamentos ao habitat urbano (designamos com tal os aglomerados urbanizados formados na sua maioria por construções de raiz não autóctone). Será sem dúvida das construções timorenses que se poderão e deverão extrair os princípios orientadores e inspiradores da arquitetura urbana, quase sempre desenraizada na sua conceção.
Uma outra utilidade, não imediata, ocorre-nos para o presente trabalho. O desenvolvimento industrial e agrícola da Ilha será um facto inevitável e natural dentro dos anos mais próximos, a tal ponto que cremos que se tornará urgente e inadiável, dentro em breve, a construção de novos aglomerados populacionais destinados a albergarem os trabalhadores rurais e o operariado. É então que surgirá com acuidade o problema da integração do homem timorense dentro de um quadro diferente do seu habitat tradicional. Pensamos poder vir a ser o presente Inquérito à habitação rural o material de base para futuros estudos regionais aprofundados que constituirão a realidade programática do projetista.
Porque, e o problema aqui é essencial, não se trata de enquadrar o homem asiático num habitat de raiz europeia mas, ao dignificar a civilização insular colocando-a no lugar que merece, fornecer ao timorense casas que, pelos materiais, pela sua organização interna e adaptação climática, se afirmem como um organismo embebido de toda a realidade local.
Tal critério, longe de despersonalizar a cultura tradicional timorense, atrofiando-a, antes a enriquecerá,
deixando-a afirmar-se livremente.
Uma velha lenda timorense relacionada com a origem de antigos reinos conta que... ... Um dia, quatro tribos habitantes da península de Malaca tizeram-se ao mar em grandes e sólidas jangadas de bambu em demanda de novas terras a oriente. Durante a segunda jomada de viagem, grande temporal se formou; os emigrantes creram ver na porcela um ato do próprio Deus que Ihes ordenava 0 regresso às suas tenas em busca dos mochos sagrados esquecidos, por descuido, nos templos. Reparada a falta, mal as aves foram encarrapitadas nos mastros das embarcaçôes, estas adquiriram grande velocidade, deslizando suavemente num mar tranquilo.
Dias passados, por alturas de Macassar, nova tormenta se levantou, destroçando as jangadas e arremessando os navegantes para as praias da Ilha. Apesar de bem recebidos pela população local, os sobreviventes nao quiseram aí permanecer: a ideia de prosseguir viagem atormentava-os. Num novo veleiro construído em Macassar, arribaram a Flores onde parte dos homens e mulheres da tripulação, seduzidos pelos encantos da terra, resotveu estabelecer-se. O grupo principal continuou viagem até vir a atingir, finalmente, Timor, por alturas do reino de Amatung.
Cedo, duras lutas se travaram entre os recém-chegados e os insulares, os Melus povos primitivos e guerreiros, conseguindo os primeiros infligir pesadas derrotas conquistar muitas terras aos naturais. Tiés das tribos invasoras, cujos chefes eram irmãos, haviam trazido de Malaca três plantas que foram colocadas nos locais onde cada tribo primeiro acampou. Os nomes destas árvores — ai hali, ai hico e ai timo — deram origem aos reinos dc Uai•Hali, Uai-Hico e Hai-Timo; a quarta tribo ocupou a região de Fatu Aruim. Com o decorrer do tempo, o reino de Uai•Hali veio a alcançar grande prestígio e hegemonia entre os povos vizinhos. Aos seus reis, que se intitulavam Filhos de Deus (Maromac-oan) atribuiam-se poderes sobrenaturais; a eles dirigiam os povos as suas preces.
Mito e Tradição
Em Macassar, na ilha dos Celebes, vivia um crocodilo. Isto passou-se muito antes dos tempos que já Iá vão. Velho, sem velocidade para os peixes da ribeira, não teve outro recurso senão pôr pé no seco e aventurar-se terras adentro a ver se topava cão ou porco que Ihe matasse a fome.
Andou, andou e nada topou. Resolveu regressar, mas o caminho era longo e o sol ardia. Abrasado, sentiu o crocodilo que as forças iam faltar-lhe e que, mais passo, menos passo, ficaria para ali como uma pedra.
Mas o acaso fez que Ihe passasse mesmo à mão e a tempo um rapaz. Este, condoído, ajudou-o a arrastar-se até à ribeira. O crocodilo ficou-lhe gratíssimo, oferecendo-se para, a partir daquele dia, o levar às costas pelas águas dos rios e do mar.
Cena vez, apertado pela fome e sem cão ou porco que a matasse, decidiu-se a comer o rapaz. Antes, porém, para alívio da consciência, consultou os outros animais sobre se devia ou não comê-lo. Desde a baleia ao macaco, todos ralharam muito com ele, acusando-o de ingrato.
Inclinando-se perante a opinião geral e no receio de que a sua presença passasse, de futuro, a ser mal tolerada, o crocodilo dispôs-se a partir mar em fora e a levar consigo o dedicado rapaz por quem, vencida a tentação, sentia amizade quase paternal. Foi nesta disposição que convidou o rapaz a pular-lhe para as costas.
Fazendo-se, então, ao mar, nadou, onda após onda, em demanda das terras onde nasce o sol, convencido de que Iá havia de encontrar um disco de ouro semelhante ao outro que o norteava. Porém quando, já cansado de nadar, pensou em dar meia volta e regressar às terras de origem, sentiu que o corpo se Ihe imobilizava e se transformava rapidamente em pedra e tena, crescendo, crescendo até atingir as dimensões de uma Ilha.
Caminhou então o rapaz sobre o dorso da Ilha, rodeou-lhe com o olhar e chamou-a de Timor, que, em
língua malaia, quer dizer oriente.
SÚmula Geográfica
A Ilha de Timor, situada entre 80 1 7' e 100 22' de latitude sul e 1230 25' e 1270 19' de longitude este, pertence ao arco meridional, só esporadicamente vulcânico, das ilhas da Pequena Sonda que são o prolongamento que abeira da Austrália o Arquipélago Malaio e se ramifica depois pelas Molucas e adjacentes à Nova Guiné. Mede cerca de 32.300km2, superfície repartida em partes desiguais pela Indonésia e Portugal. A parte oriental constitui a Província de Timor, em conjunto com a ilha de Ataúro, o ilhéu Jaco e o enclave de Ocussi-Ambeno, sito na costa norte do território indonésio que, no seu todo, abrange um total de 19.000km2; nela se registam ainda as maiores altitudes, que atingem quase 3,000m no monte Tata-Mai-Lau.
A população, cerca de 500.000 habitantes de raça e grupos étnicos diversos, abrange os timorenses, os chineses e os europeus em graus diferentes de mistura, preponderando os timorenses da família malasiana. Administrativamente, a Província Portuguesa divide-se em II concelhos e 1 circunscrição, subdividida, por sua vez, em cinquenta e dois postos, total este que inclui as sedes de administração. Esta divisão baseou-se, desde 1960, em factores de ordem política que, com maior ou menor acerto, estruturaram a divisão estabelecida atualmente.
A TERRA
Aspetos Geológicos e Morfológicos
Timor é uma ilha de formação comparativamente moderna. O aparecimento de recifes de coral em altitudes por vezes elevadas e o encaixamento marcado das ribeiras, indício de movimentos verticais recentes, confirma a hipótese de o território ter estado submerso em tempos geológicos não muito recuados, facto que é corroborado pela mitologia nativa. A sua estrutura, muito complicada, inclui formações metamórficas e sedimentares e algumas rochas eruptivas cuja ocorrência é mais frequente na costa norte.
O relevo da Ilha define-se, na metade portuguesa, por sistemas de montanhas alinhadas, respetivamente, segundo as direções WSW-ENE e SSW-NNE. Os primeiros, extremamente acidentados, formam imponentes cordilheiras que percorrem a Ilha a quase todo o seu comprimento: é a zona ocidental composta, junto à costa norte, pela fiada de elevações que principiam no maciço de Guguleur (l. 157m) e terminam abruptamente nos montes de Hilimanu (l .370m) junto à vila de Manatuto; o litoral, cortado por vales profundos, é quase sempre escarpado, dando a impressão que as montanhas entram pelo mar dentro. Um pouco mais a sul, ainda na mesma zona, surge o maciço central, dorso da Ilha, do qual derivam numerosos cursos de água que, na época das chuvas, se transformam em caudalosas ribeiras: compreende toda a espécie de elevações mais ou menos ligadas, por parentesco orogénico, à cordilheira do Ramelau: Tata- Mai-Lau (2.980m), Cabiac (2.300m), Cailaco (1.916m), Lamilau (1.724m), etc.
Os contrafortes virados a sul deste maciço descem suavemente para o litoral, esbatendo-se, por fim, em extensa faixa de planícies de aluvião. Para leste, o conjunto diminui intermitentemente de altitude até atingir a zona oriental. Esta é constituída por extensos planaltos de formação coralígena (Baucau,
Fuiloro), do qual emergem, insólitos, os relevos de vertentes escarpadas conhecidos tipologicamente
por fatu; compreendem, entre outros, os montes de Maté-Bian (2.315m), do Mundo Perdido (1.700m)
e, no extremo leste da Ilha, os montes de Mua Pitine (916m). As ribeiras desta região escoam-se por grutas e canais subterrâneos, reaparecendo aqui e ali antes de desaguarem no mar.
O sistema hidrográfico, muito complexo, compõe-se das principais ribeiras:
Aspetos Climáticos
Uniforme quanto à temperatura, por serem sensíveis apenas as variações motivadas pela altitude, o clima de Timor revela-se extremamente contrastante quanto à precipitação, podendo dizer-se que a Ilha se reparte num mosaico de microclimas. Esta realidade, comprovada pela vegetação, sujeita-se, no entanto, a tendências suficientemente definidas para que possam demarcar-se fisionomias com expressão meteorológica, zonas de maior amplitude cuja razão de ser se fundamenta na situação geográfica de Timor, sua orientação frente aos ventos dominantes e ao relevo insular, muito vigoroso.
A influência das monções define-se, por sua vez, em duas estações, de acordo com as modalidades do regime. A primeira, decorrente de novembro a março, corresponde à monção de noroeste: é caracterizada por chuvas abundantes que abrangem a Ilha toda. A segunda, correspondente à monção de sueste, australiana, faz-se sentir de junho a outubro: é a estação seca dos ventos frescos, apenas entrecortada na costa sul, e, no princípio da estação, por chuvas de origem local. Entre ambas, estabelecem-se períodos de transição com características comuns a cada uma delas.
As zonas em questão, a par das considerações acima referidas, refletem-se no revestimento vegetal,
constituindo, para os fins em vista, regiões naturais. São as seguintes:
1— Zona quente e seca da Costa norte ]
Do litoral a 600m de altitude: temperatura média anual de 270, precipitações anuais circunscritas principalmente Costa norte — Lois, Comoro, Lacló, Laleia, Seisal e Malai-Lada;
Costa sul — Tapara, Bé-Lulic, Carau-UIun, Sui, Lacló sul, Cléric, Sahem, Dilor, Coa, Irabere e Chino.
São ainda de considerar como acidentes morfológicos caraterísticos os vulcões de lama de Ocussi e de Viqueque, as fontes de água termal e as Iagoas das regiões de Maubara e Surubec, está contida no centro sul do atol sobreelevado que constitui o planalto de Fuiloro, na circunscrição de Lautem.
aos meses de dezembro a abril e variando, conforme as localidades, entre 500mm e l. l()()mm.
2 — Zona quente e húmida da Costa sul
Do litoral a 600m de altitude: temperatura média anual de 260, precipitações anuais circunscritas principalmente aos meses de novembro ajulho e variando, conforme as localidades, entre I .200mm e 2.500mm.
3 — Zona temperada de meia montanha
De 600m a 1.200m de altitude: temperatura média anual igual ou superior a 240, precipitações anuais
circunscritas principalmente aos meses de outubro a julho e variando, conforme as localidades, entre 1.600mm e 3.000mm.
4 — Zona fria de montanha
A partir de 1.200m de altitude: temperatura média anual igual ou inferior a 180, precipitação anual de 3.000mm mais uniformemente distribuída, mas com um mês de precipitação inferior a 6()mm, pelo menos.
O esboço climatológico da Província de Timor baseia-se na classificação climática de Schmidt e Ferguson e segue o método cartográfico utilizado pelos mesmos autores no mapa climatológico do Timor Indonésio.
A classificação referida, aplicável a regiões de clima isotérmico, estabelece distinção entre 8 tipos de
clima a partir do quociente entre os números médios dos meses secos e húmidos contados, ano a ano, por período determinado e consoante os limites indicados a seguir. Considera-se mês seco ou mês húmido o que tem, respetivamente, precipitação inferior a 60mm ou superior a 100mm.
Vegetação
Estruturada em complexos florísticos empobrecidos, mas ricos de significação específica e associativa, a vegetação de Timor assume ainda aspetos paisagísticos que a relacionam, dos pontos de vista climático e filogenético, com regiões de diferente parecença. Esta singularidade, aparentemente paradoxal, resolve-se no facto de Timor se situar, por um lado, numa encruzilhada geográfica de caminhos de dispersão das espécies vegetais e de a sua orografia permitir, por outro, ambiente propício
ao desenvolvimento de comunidades afins das que se encontram em latitudes superiores.
Daí não ser de estranhar que povoamentos de cunho australiano se encaixem em formações pertencentes ao domínio insulíndico, menos ainda que reapareçam e se afirmem, até, na identidade dos seus elementos constituintes, fisionomias de expressão longínqua. Se as florestas de eucaliptos-pretos nos transportam à Nova Gales do Sul e à Tasmânia, já perto do círculo antártico, os parques de tamarindos e de zizifos recordam a paisagem do Mediteffâneo.
As comunidades de montanha, de folha sempre verde, refletem, por sua vez, aparências europeias, não só quanto à forma e distribuição dos povoamentos, como ainda pela presença de violetas, gencianas, ranúnculos, silvados...espécies menos conspícuas comuns a ambas as regiões. A par disto, Timor constitui prolongamento florístico de Samatra, Java e outras ilhas do complexo malasiano. Como tal, a vegetação dominante é de porte arbóreo.
Podem enumerar-se em cinco as comunidades florestais de Timor, a saber: floresta do litoral, mangal, floresta primária mista, floresta secundária e savana. A floresta do litoral e o mangal são formações muito definidas que não diferem qualitativamente das que ocorrem nas restantes ilhas do Arquipélago. Compreendem vários tipos de associação, dos quais se mencionam como principais os que associam os géneros Calophyllum, Terminalia e Barringtonia e Rhizophora, Bruguiera e Sonneratia, respetivamente. O primeiro desenvolve-se, principalmente, na Costa Sul.
A floresta primária está bastante reduzida devido às queimadas e à ocupação agrícola. Só na costa sul e nas zonas de montanha se encontram maciços florestais de relativa importância. A variabilidade climática tem efeito considerável na distribuição destes povoamentos, podendo os seus tipos representativos definir-se pelas zonas climáticas e, consequentemente, pela localização em altitude. Compreendem as florestas das zonas baixas, médias e de montanha, todas elas subdivididas em floresta de folha perene e de folha decídua, de acordo com as comunidades a que pertencem.
A floresta de folha perene das zonas baixas e médias é caraterizada pelos seguintes géneros dominantes: Eugenia, Intsia, Canarium, Pomotia, Elaeocarpus, FiC11S, Parinarium, etc.
A floresta de folha decídua ou das monções que prepondera na costa norte é inteiramente dominada por Schleichera oleosa e por Ptemcarpus indicus. A floresta de montanha, inclusa no tipo de folha perene, evidencia-se pela presença de Podocarpus, Ácer, Litsea, Pygeum, Vaccinium, etc., e pelas áreas florestais do palavão-preto (Eucalyptus nsp.) que, a partir dos 800m, recobrem quase todas as cumeadas de Timor. Com exceção da floresta de montanha, tanto a floresta de folha perene como a de folha decídua se apresentam muito misturadas.
A maior parte de Timor está revestida pela floresta secundária em vários graus de transformação. A ocupação humana, nas suas diferentes formas, e os processos de destruição implacável a que a floresta primária foi sujeita no último decénio têm impedido que essa transformação se afirme progressiva. Atualmente, a floresta secundária tende para um estado de equilíbrio negativo, facto a que não é estranha a influência de determinados tipos de clima, especialmente os de precipitação reduzida. A savana, por sua vez, ocupa áreas definidas, sob o controle direto do clima. Em certos estádios de sucessão, a floresta secundária quase se identifica com a savana.
Excetuando os tratos de terreno revestidos por tufos de bambu e por mantos graminosos, a floresta secundária compõe-se fundamentalmente de povoamentos gregários de Eucalyptus alba, Corypha utan, Zizyphus mauritiana e várias leguminosas dos géneros Acacia, Baubenia e Erythrina. Aleurites molucanna, Leucoena glauca e Albizzia molucanna são espécies introduzidas pelo Homem desde longa data. Tamarindus indica e Acacia lencophloea formam florestas-parque e estabelecem zonas de transição com a savana onde o celebérrimo Santalum album persiste em sobreviver. Ao longo das ribeiras, distribuemse povoamentos de Casuarinajunghllniana e, nas regiões secas do litoral, ocorre Borassusflabeliffer. De acordo com o mapa-esboço apresentado, as formações florestais ocupam as seguintes áreas, expressas em percentagem:
Mangal;
Savanas e pastagens;
Floresta secundária;
Floresta primária.
AS GENTES
Línguas e Raças
Em Timor, a unidade linguística não corresponde a uma unidade rácica, mas a uma heterogeneidade de tipos e de subtipos, de tal forma que um estudo classificativo das populações autóctones só poderá ser feito utilizando como elemento seletor a língua ou o dialeto falado.
Assim, marcaram-se no mapa as percentagens dos tipos rácicos principais segundo as grandes divisões territoriais linguísticas.
Para Mendes Correia, os tipos raciais fundamentais presentes em todas as regiões de Timor são os seguintes: o protomalaio, de estatura baixa, pele clara, cabelos negros, face losângica e dolicocéfalo; o deuteromalaio, mais alto do que aquele e braquicéfalo, de mongoloidismo mais aparente; o veda-australoide aparentando-se com os tipos vedaicos industânicos e por vezes com caraterísticas australianas; por último, o melanesoide, de estatura pequena, pele escura, cabelos frisados, fronte affedondada. As proporções em que entram estes diversos elementos rácicos no Timor Português são os seguintes: Também a diversidade das línguas não tem permitido chegar a acordo nem quanto ao seu número, nem quanto a uma classificação. No entanto, umas há que são faladas por minorias extremamente reduzidas tendendo a desaparecer absorvidas pelas de maior expressão.
Entre estas, o tétum pode ser considerado como uma verdadeira língua franca, falada, pelo menos, por metade da população da Ilha.
O tétum, quêmaque, mambai, tocodede, galoli, mucassai e baiqueno pertencem, segundo Leite de Magalhães, ao grupo das línguas malasianas. O búnaque, dagadá e outros dialetos menores não teriam, segundo o mesmo autor, qualquer afinidade com as línguas malaias e australianas, estando por determinar as suas filiações. É de notar que as línguas principais partem todas (à exceção do búnaque) do litoral em direção ao interior, onde penetram mais ou menos profundamente.
Densidade de População
Segundo o último censo da população de Timor, efetuado durante o ano de 1950, tem esta província uma densidade de vinte e três habitantes por quilómetro quadrado. Condições climáticas favoráveis, a fertilidade das terras, a existência de plantações extensas determinam elevadas concentrações de população. As regiões mais povoadas englobam toda a região central das montanhas (Ermera, Bobonaro, Suro e Maubisse) e o fértil planalto de Baucau. Na Ermera, devido à exploração de vastas áreas de plantações de café, manifesta-se a mais elevada densidade populacional da Ilha. Na região do Luro e, sobretudo, no Leste, em Baucau, concentram-se numerosos núcleos de população da mais progressiva de Timor, aí fixados pela amenidade do clima e pela riqueza agrícola do solo.
Também Díli exerce sobre a população das regiões circunvizinhas uma moderada atração urbana. Manifestam-se, por outro lado, ao longo de todo o litoral de Timor, climas muito quentes e doentios, condição inteiramente desfavorável ao estabelecimento de densos aglomerados populacionais nessas regiões. Em Manatuto, Lautem e Ocussi, as densidades são muito baixas, cerca de 1/4 das regiões precedentes, devido principalmente ao seu atraso económico, à pobreza do solo e à secura e ao
rigor do clima.
O Sistema Político e as Classes Sociais
Quando, por meados do século XVI, os portugueses aportaram a Timor, já a sociedade timorense se tinha estruturado na forma que ainda hoje se mantém. O sistema vigente, que reflete a diversidade rácica, pela sua complexidade, não podia ser gerado numa sociedade primitiva. Ele vincula-se a uma das sociedades mais ricas que existiram, a civilização hindu, que se espalhou, através dos grandes potentados javaneses, com mais ou menos profunda estratificação, por todas as ilhas do Arquipélago e cuja formulação se deve aos povos da língua tétum, também conhecidos por Belos.
Os missionários chamavam reis aos chefes nativos e, mesmo, a um deles deram o nome de imperador. Isto supõe uma estruturação de tipo feudal que mais se complicou por se justapor à noção de classe, um sistema mais íntimo e rígido que é índice iniludível das relações culturais mantidas com o Sudeste Asiático. O regime de castas ainda hoje se confunde com o sistema de classes, sendo muitas vezes
razão de impedimento de vária ordem, mormente no que diz respeito à sucessão e ao matrimónio.
Ainda hoje, porém, se encontram, em remotos sítios de Timor-Leste, principalmente nas montanhas, vestígios de um outro sistema político, anterior ao advento do atual.
A forma de viver dessa gente denuncia um sistema com características democráticas, espécie de gerontocracia em que o chefe eleito é apenas um "primus inter pares" com poder limitado pelo consenso geral e sem possibilidade de sucessão hereditária.
Estes dois sistemas coexistem, embora com supremacia do primeiro. Enquanto a influência europeia se não faz sentir, a organização social timorense estruturava-se num feudalismo primitivo chefiado por um monarca (liurai). O soberano administrava as terras dos seus domínios através de uma complexa rede hierárquica. Por intermédio de nobres da sua confiança, transmitia as suas ordens aos chefes de cada suco (de suku, em malaio, que significa clã), fração do reino que abrange várias aldeias. Eram os porta-vozes reais junto dos chefes de aldeamento.
Os chefes de suco e de aldeia e os régulos eram escolhidos livremente entre a classe nobre, formando uma poderosa e rica classe dirigente detentora da autoridade e da justiça e, por atribuição sobrenatural, senhora da terra. Alguns régulos importantes intitulavam-se Maromac-oan (filhos de Deus), considerando.se descendentes diretos de entidades divinas.
Os liurais eram escolhidos, em eleição, pelos seus pares reunidos, os datós e "principais" (familiares),
havendo uma única condição seletora: o descenderem de familias reais pelos lados paterno e materno. Podiam contrair matrimônio com mulheres do povo do seu reino, mas um dos casamentos tinha de ser com a filha de outro régulo, pois só entre a descendência desta união se poderia eleger o novo chefe.
Em 1702. com António Coelho Guerreiro, primeiro governador de Timor, a classe nobre foi agraciada com o tratamento de dom e com títulos militares, sendo o liurai denominado tenente-coronel; e as restantes autoridades com títulos hierarquicamente inferiores, até à categoria de cabo. Este titulo podia também ser atribuído a um homem do povo que se tivesse distinguido por qualquer feito guerreiro e merecesse, por parte da população, o cognome de açu-ain.
A massa do povo, ou êma, sustentava a classe privilegiada, prestando-lhe trabalho gratuito, pagando
os impostos e cumprindo inúmeras obrigações, entre as quais arrotear, limpar, semear e colher as plantações dos seus senhores, guardar e levar rebanhos às pastagens, fornecendo-lhes ordenanças, presenteá-los com reses e viveres, assegurar as rações diárias de tabaco e masca, etc. Ao povo, era permitido cultivar a terra mediante o pagamento de um imposto, o rai-ten.
Na base da viviam os escravos, prisioneiros de guerra (lutuhum) ou gente comprada (ata).
A escravatura, pouco rígida, permitia aos servos tomarem-se, frequentemente, homens livres. Escrevia Osório de Castro: "Suponho que há entre os timores a adoção, talvez que ela só disfarce agora, aos olhos das autoridades portuguesas, a escravatura. Antigamente as guerras ou razzias entre reinos e mesmo entre sucos forneciam de escravos o povo vencedor. Chamavam-se, chamam-se ainda, Itittihton, 'os de cercado a dentro' (de hitu pagar e hum cercado, bardo, redil), valem uns cinco búfàlos os escravos crianças, os bichas, como dizetn; um ou dois búfalos apenas os escravos adultos". Tat era a orgânica da sociedade timorense nos princípios do século XX.
Após as revoltas nativas, a administração iniciou urna política sistematicamente desmanteladora da organização tradicional de tal forma que, rapidamente, os nativos poderosos perderam grande parte da sua fortuna. do seu prestígio e da sua autoridade, Os plebeus já não prestam usualmente serviço gratuito aos seus chefes e, quando o fazem, são sempre recompensados com grandes banquetes e festas. Os impostos já não se cobram e os presentes aos liurais limitam-se, hoje, a ofertas simbólicas de cestos de arroz e milho quando das primeiras colheitas.
Proibida e perseguida a escravatura, a classe dos lutuhum desapareceu totalmente, afora urn ou outro caso esporádico. Ainda hoje subsiste na linhagem a recordação desses tempos, quando os timorenses se injuriam chamando-se "filhos de escravos", tratamento considerado profundamente ofensivo por lembrar uma ascendência vergonhosa.
A Família
A família é a forma primeira e indivisa a partir da qual se edifica toda a complexa estrutura social timorense. O casamento (barlaque, em português de Timor), ato natural de constituição de família e o compromisso mais importante assumido pelo homem e pela mulher nativos durante as suas vidas, é rodeado de um código complexo de direitos e deveres que tem por objetivo dificultar a sua dissolução. O valioso dote oferecido pela família do noivo, em reses, oiro e panos, representa a compensação material entregue à família da noiva pela perda de um seu elemento ativo e é a base e o esteio material do casamento. Funciona o dote, em última análise, como garantia do bom comportamento dos cônjuges: pode a consorte abandonar o lar, se for maltratada pelo esposo, o que obrigará este, quando contrair novo matrimónio, a pagar segundo dote; por seu lado, é permitido ao marido repudiar a mulher quando ela 'he for infiel, exigindo da família a devolução do dote.
Também o levirato (união do cunhado com a viúva) evita que a mulher saia do agregado familiar e leve consigo os filhos, valiosa mão de obra futura.
Até à idade de casarem, os rapazes quase não têm responsabilidades, gozando uma vida livre, passada grande parte fora da casa paterna (em Lautem, vivem em casas de solteiros). As raparigas casadoiras (as oán fetorá) trabalham ajudando as maes nas lides caseiras e nao Ihes é permitido o abandono do lar, ainda que usufruam de plena liberdade sexual.
A livre escolha de noivo ou de noiva é também limitada por regras precisas que têm por objetivo manter as riquezas em dotes dentro de uma determinada região, por vezes apenas entre dois clãs familiares.
Os casamentos processam-se, em última análise, como um negócio entre dois grupos (exogamia): o primeiro é o dosfeto-sana, o da família do indivíduo que vem para barlaquear; o segundo, o dos uma-mane, o da família que barlaqueia. Desta forma, nas famílias ligadas por feto-sana-uma--mane, a um rapaz de uma delas em idade casadoira tem a outra família a obrigação de dar, em barlaque, uma rapariga da casa, só por falta de noivo ou noiva se criando outrofetosana- uma-mane. Entre as famílias dos régulos observa-se a exogamia da classe social: o liurai (régulo) casa-se com filhas de nobres, mas um dos seus barlaques há de ser infalivelmente com a filha de outro régulo.
Em Bobonaro, um rapaz pertencente ao clã familiar de uma casa sagrada casa-se com rapariga pertencente a outro clã, assim como em Manatuto e Manufai há clãs fornecedores de maridos e clãs fornecedores de esposas.
Os princípios exogâmicos permitem e asseguram o uso do barlaque, sem que seja comprometida a estabilidade económica da sociedade timorense por desvios de riquezas, representada por sucessivos dotes, de uma terra para outra.
A sociedade timorense admite a poligamia, considerada como sinal de nobreza e distinção, ainda que atualmente se verifique o desaparecimento do costume nas regiões onde o catolicismo exerce infiuência.
O homem casado com várias esposas é considerado rico porque teve posses para pagar mais do que um dote: a poligamia é usufruto dos privilegiados, dos liurais.
O polígamo solicita sempre à primeira esposa a A Religião Dois mundos se opõem perante o Timorense: o seu "mundo", o Cosmos, o território onde ele habita, e o espaço desconhecido e indeterminado que o cerca, o Caos, povoado de mil demónios e de um sem-número de almas dos mortos. Situar-se num lugar, organizá-lo, habitá-lo são ações que pressupõem a sua consagração e paflicipação da santidade da obra divina. A instalação num território equivale à fundação de um mundo: a divisão da aldeia sua concordância para as núpcias posteriores sem que nenhum direito assista a esta de repontar desde que o esposo se disponha a lavrar hofia e várzea para cada uma das mulheres e, caso a primeira o exija, as mantenha separadas em suas casas. Aliás, a primeira esposa passará a ser chamada a "mulher grande", sendo obedecida pelas outras, beneficiando ainda da redução de trabalho caseiro e do oferecimento de presentes do polígamo e das outras mulheres. Obrigado a cumprir os seus múltiplos deveres conjugais, o marido habita periodicamente os seus lares, estabelecendo a ligação e união entre a família.
"É certo que, em geral, a situação da mulher em Timor parece bastante subalterna, no entanto ela tem os seus direitos, apesar de, na aparência, não passar de um objeto de comércio da parte dos próprios pais. A falta de satisfação de certas cláusulas do contrato conjugal pode levar até à quase-escravização do marido por estes" (Mendes Correia — Timor Português).
Segundo o mesmo autor, embora em certas regiões de Timor (no Suai) subsista o matriarcado, com a
predominância do elemento feminino na descendência e autoridade familiar, correspondendo a uma cultura do ciclo matriarcal mais recente (o neomatriarcal), a organização da família e das classes sociais ergue, sem dúvida, os timorenses dos ciclos culturais inferiores para o austronesoide, largamente difundido por todo o domínio indonésio malaio e definido por Montadon da seguinte forma: patriarcado livre, sem exogamia regular; hierarquia feudal, com classes sociais separadas com reis respeitados e quase divinizados; estado territorial definido com fronteiras limitadas; escravatura; grande crueldade e sacrificios humanos; direito de asilo.
A Religião
Dois mundos se opõem perante o Timorense: o seu “mundo”, o Cosmos, o território onde ele habita, e o espaço desconhecido e indeterminado que o cerca, o Caos, povoado de mil demônios e de um sem-número de almas dos mortos.
Situar-se num lugar, organizá-lo, habitá-lo são ações que pressupõem a sua consagração e participação da santidade da obra divina. A instalação num território equivale à fundação de um mundo: a divisão da aldeia em quatro setores corresponderá à divisão do Universo conhecido em quatro horizontes: no meio da aldeia erguer- -se-á a casa cultual (a uma-lulic) cujo telhado representa o Céu, bem como a copa da árvore grande ou a escarpada montanha. Por baixo da terra, na outra extremidade, situa-se o mundo dos moños, simbolizado pelas serpentes e pelos crocodilos.
O pequeno mundo timorense, a aldeia, está organizado num sistema inteligível: o lugar, sacralizado, provocou uma rotura na homogeneidade do espaço, tornando possível, assim, a comunicação dos três níveis cósmicos entre si: Céu, Terra e regiões inferiores, através de uma abertura, casa cultual, altar ou poste sagrado (avis mundi).
Tal eixo cósmico situa-se no próprio centro do Universo porque a totalidade do mundo habitável estende-se à volta dele. Os ai-arabaudiu, grandes postes de seis e sete metros, que se encontram nas aldeias mantbai das montanhas, são colocados em sítios dominantes, assentes sobre enormes socos de pedra, em grupos de dois e três, e ornamentados com numerosos chifres de búfalos abatidos durante os estilos.
Na estrutura da habitação, revela-se o simbolismo cósmico: a casa é uma imagem do mundo, a sua cobertura é o Céu, o pilar ou poste principal é assimilado ao "eixo do mundo" que sustenta o imenso teto celeste e desempenha um papel ritual importante: é na sua base que têm lugar os sacrificios em honra do ser supremo, Mammac, Dois postes grandes e grossos irrompem na grande sala e suportam por si sós grande parte do peso da cobertura: são o Kakaluk rai e o Kakaluc lor. O Kakaluc lor, símbolo do culto da casa, é objeto de especiais atenções: no chão, junto dele, o chefe da família coloca um prato de pedra, o Iorfi(fuhum e, sobre a lareira, dispôe um outro, o lor hun.
Toda a construção e inauguração de uma moradia equivalem a um começo, a uma nova vida: para que a obra dure e 'viva', deve ser animada, isto é, deve receber ao mesmo tempo uma vida e uma alma. A transferência da alma só é possível pela via de um sacrificio sangrento.
O animismo destas relações, tão presente em toda a vida timorense, representa tào-só a expressão de um estado de espirito que não faz a distinção entre o procedimento a ter para com as pessoas e o procedimento a seguir com 'as coisas'. Todo o mundo exterior é tratado pelo timorense segundo o modelo apreendido nas relações com a sociedade, transferindo para as coisas vida, atos e emoções familiares na esfera das relações humanas.
Mil coisas insólitas, tudo o que causa estranheza ou receio de misterioso maleficio, guarda o nativo nas uma-hllic (casas sagradas) dos seus reinos. Uma espada, uma pedra de feitio singular, um saco de masca que foi pertença de um seu avô, sao hilic (sagrados) e conservados dentro da casa, dependurados na coluna principal, se, como tal, os declararam o dató-hdic (adivinho do reino) ou a autossugestão.
Tudo o que é hdic tem alma como a gente:
"... e os hali ou gondões (Ficus benjamina) têm os lidic próprios, com figura de gente, homens, mulheres, crianças, mas todos encarnados e de cabelos vermelhos, de barbas também vermelhas os homens. Mesmo no pino do dia muita gente os tem visto brincando, dançando, cozinhando, à sombra dos altos gondões de mil raízes adventícias, grossas como troncos. O próprio Lôi os viu um dia, o sol do alto do céu. Felizes daqueles a quem esses lulics deixam levar uma panela da sua cozinha; vai toda cheiinha de mútissalas, uma riqueza" (A. Osório de Castro).
Tudo tem alma, as pedras, as árvores, em especial as de grande porte, os gondões frondosos, as montanhas elevadas que são habitadas pelas almas dos mortos (maté-bian), as ribeiras tumultuosas, as florestas primárias, impenetráveis e sempre verdes.
O grau de cultura timorense, ainda que tenha ultrapassado as culturas inferiores, enquadrando-se as suas características gerais no nível superior ou malaio do ciclo austronesoide de Montandon (segundo A. Mendes Correia), nele subsiste ainda muito das suas culturas procedentes nomeadamente restos de totemismo e exogamia e de um passado matriarcal.
O tótem (geralmente um animal), antepassado venerado do grupo e seu espírito protetor, castiga com
a destruição o clã quando é morto por algum dos seus componentes e proíbe o casamento ou as relações sexuais entre membros da mesma tribo. O crocodilo (lafai) ainda em muitas regiões é
animal sagrado e chamado de avô, restos de um passado totémico.
Como outros indonésios, sobrevivências de cultura matriarcal, teve Timor o costume memorial de decapitar os inimigos mortos em combate, cujas cabeças, durante as cerimónias e os cânticos fúnebres, são expostas pelos valentes guerreiros (açuaim) na árvore hilic do povoado atadas com fibras de gamúti aos troncos. Os crânios têm alma e necessidades como as gentes, por isso os açuaim, e só eles, Ihes vão ofertar carne e arroz. Sinal de valentia era comer estes alimentos sujos pelas escorrências dos crânios, conseguindo-se assim assimilar a bravura dos guerreiros mortos.
Como era uso na magia medieval, é praticado o embruxamento de ódio ou quebranto sobre o simulacro da vítima, qualquer objeto que Ihe haja pertencido, pelos curandeiros ou feiticeiros (os matan doc) que têm mil e uma outras atribuições, como defender as gentes dos buan (espíritos maus), vender remédios, recitar orações e práticas.
Nas hortas e cultivos, é vulgar os agricultores colocarem os ai-tós, que são troncos de madeira em forma antropomórfica e simbolizam os antepassados de linhagem. Estes cipós assentam em socos de pedras soltas sobre os quais, antes das colheitas, se dispõem as espigas de milho ou de arroz.
Desta forma, o agricultor, ao oferecer alimento ao espírito tutelar da plantação, pretende obter a sua proteção para as colheitas futuras.
Os altares (foho), montes arredondados de pedra solta, encimados pelos pratos de sacrificio (fatu bui
solés), são os locais onde se reuniam os sacerdotes e velhos para o exame das entranhas de animais e
a exposição das oferendas de milho e arroz em sacos de fibra vegetal. Outros altares (ai-tós) são postes de madeira ou de pedra trabalhados em forma de coluna com complexas incisões geométricas espiraladas contidas em molduras e terminando em capitéis com cabeças humanas esculpidas. Sobre os ai-tós coloca o dató-lulic, um pano e um cesto nativos, após o que inicia as orações mágicas.
Há festas gerais do povo, oferendas de arroz cozido e carne assada dos animais sacrificados, acompanhadas de dança ante a uma-lulic da povoação, por ocasião de casamento de régulos, na volta da guerra ou quando das colheitas. Mas o estilo mais importante ainda é o acoi-maté (enterro dos moños). Toda a família do defunto se reúne, o que leva certo tempo, trazendo muitos alimentos, e inicia um grande banquete, que é repetido um ano depois, comemorando o fim do luto.
Os moños pertencentes a famílias nobres são transportados em troncos de árvore escavados, ou simplesmente envoltos em esteiras, quando plebeus, e enterrados diante da casa mais importante do aglomerado habitada pelo homem mais idoso da aldeia (região norte dos Belos). Reunidas em grupo, segundo os parentescos familiares, as sepulturas são grandes amontoados regulares de pedra solta, em forma de paralelepípedo, cobertas por grandes lajes e adornadas de variados objetos simbólicos: postes de madeira encimados por caveiras e ossadas de animais sacrificados ou pequenos blocos líticos coroando o volume da alvenaria (região de Lautem).
O simbolismo cósmico do mundo expresso na aldeia e na casa de habitação é retomado na casa cultual, na uma -hllic. Ela é habitada pelos espíritos dos antigos guerreiros, antepassados dos que habitam o povoado ou o reino.
Construída por uma ou várias famílias, é propriedade de toda a população e o elemento de união entre o clã: se a uma-lzdic desaparecer por ruína ou incêndio, uma grande desgraça abater-se-á sobre o povo e as famílias dispersar-se-ão. Quando de um incêndio ou de uma má colheita, os velhos e entendidos sao consultados e, geralmente, a razão apontada é a incúria ou descuidos a que foi votada a casa; o remédio é repará-la quanto antes ou construir uma nova para que os espíritos dos avós não tenham de se queixar. A guarda da uma-lulic é confiada a um velho ou velha do clã que são responsáveis por ela perante a população.
Em Malilaite, peño de Louro-Ba, existe um grupo de vinte Ilina-hllic situadas na crista de um monte escarpado, com uma única entrada de dificil acesso e envolvida por vedações de espinhosas. Cada casa, propriedade de uma grande familia, protege-a, simboliza e fortalece a união entre o clã.
Inúmeros objetos são venerados e guardados ciosamente nas uma-hllic: zagaias, catanas, sacos de masca que foram pertença dos antepassados guerreiros, espigas de milho dispostas uma por cada chefe de família, pretendendo-se desta forma agir sobre a qualidade e quantidade das colheitas', pratos semelhantes aos que, em tempos, eram usados nas refeições em comum, correntes de ouro e luas, cabelos de mulher e até imagens cristãs.
As casas sagradas, em tudo iguais às habitações familiares, distinguem-se destas pelos ornamentos e esculturas de aves em madeira dos remates das coberturas e pelos lagartos, crocodilos, tokés, ou seios de mulher, incisos ou esculpidos no madeiramento das pofias, os quais, a par de uma intenção puramente decorativa, possuem acentuado significado totémico e dão notícia do simbolismo dualista religioso timorense.
Festas e Vestuário
A grande festa é um acontecimento social e de regozijo em toda a região. Os estilos, que reúnem centenas ou milhares de participantes, têm lugar por ocasião de casamento de régulos, enterros de importantes ou visita de individualidades e duram dias ou até semanas, durante os quais se abatem numerosas reses e se comem as suas carnes com arroz cozido e batata-doce.
Nas festas, todo o povo se apresenta ataviado com vestimentas limpas e vistosas, guardadas especialmente para esses acontecimentos. Os homens colocam à volta da cintura panos de algodão de cores vivas, às riscas (taís ou lipa), chegando da cintura aos joelhos. Usam o tronco nu, apenas parcialmente coberto por um pano traçado sobre os ombros, e no alto da cabeça atam lenços estampados, à moda malaia. Sobre o peito, pendentes do pescoço, exibem as ricas luas ou grandes discos de ouro e prata, nos punhos e ao meio dos braços (por vezes também nos tornozelos) adornam-se com braceletes de prata martelada ou cobre.
As mulheres, quando ricas ou de certa categoria social, vestem o sarong batikado e a cabaia branca ou estampada à moda javanesa. O comum traja o taís-feto, bem apertado, de cores escuras, tecido nos teares domésticos e que remonta dos tomozelos até às axilas, cobrindo os seios.
Como os homens, usam manilhas de cobre e de prata, lisos ou delicadamente lavrados, do pescoço pendem cordões de mutissalas, pequenas pedras amareladas importadas das ilhas vizinhas e que valem uma fortuna, ramais de missangas variadas e contas de ouro.
Não há festa ou estilo sem o concurso de músicos, de cantores e danças em grupo ou isoladas. medida que se vão reunindo, os festeiros esboçam batuques logo secundados pelo entusiasmo dos dançarinos e a atenção de todos os assistentes. A chegada das personagens ilustres, dança-se o tebedai ou dança dos cerimoniais, acompanhado pelo tanger dos tamboris, dos gongs de Macassar e até por pífaros e flautas de bambu. Em grupos, os rapazes cantam lentas estrofes rítmicas, de entonação gutural, secundados por toscas guitarras de fabrico local, réplica dos instrumentos civilizados. "... No lindo batuque de Oékussi, a imitação música por ceño do adorável Gamelan de Java, a rapariga tangedora dispõe de quatro gongs suspensos de um bambu, e cada um de seu timbre diferente. Outra rapariga tange um tambor comprido, percutindo-o com uma vaqueta como as dos gongs.
O efeito musical é extraordinariamente agradável. Os homens, vestidos ao modo antigo dos malaios javaneses, axorcados de guixos que soam ao compasso, toucados de lâminas argentinas os longos cabelos, ou de lenços postos em forma de gorra, tecem-se uns pelos outros, num relampejante revolutear, brandir de espadas" (A. Osório de Castro).
As dançarinas esmeram-se na sua apresentação: vestem belos panos negros de algodão decorados com largas faixas vermelhas, brancas e verdes, enfeitam o cabelo esmeradamente penteado com omatos de folhas, moedas e luas de ouro e prata, penduram colares de mutissalas em profusão.
Estrugem os tambores e gongs para a famosa "dança da cobra" do Suai, revolteiam as dançarinas agrupadas em fila, duas a duas, coleantes, tangendo os leves tamboris suspensos do ombro, dirigidas por um bailarino de braços abeflos empunhando um lenço branco numa mào e uma catana na outra, marcando os movimentos e a direção pelo batimento e pequenos passos dos pés e artelhos cobertos de chocalhos.
Na "dança do lenço", a mais conhecida e apreciada da região, participam só mulheres que, exibindo grandes panos brancos, iniciam, afastadas umas das outras, movimentos lentos e graciosos do corpo e dos braços.
Nos bailados masculinos, dois homens defrontam-se executando movimentos tensos de braços e pernas, imitando combates guerreiros ou traduzindo plasticamente o voo das aves, no centro de um círculo apertado de mulheres, que os rodeiam marcando o ritmo cadenciado com os gongs e tambores e pequenos passos laterais, ostentando na cabeça toucados de penas coloridas (Baucau e Lautem). Os dançarinos das montanhas guarnecem os artelhos com barbas de bode, conferindo-lhes agilidade para os pulos e contorções dos bailados. Homens e mulheres também dançam isolados no meio dos músicos e assistentes, um ao lado do outro, ela agitando um lenço, ele empunhando a espada na mão direita e a bainha na esquerda, conduzindo a companheira nos movimentos e passos rítmicos.
Separados da gente adulta, os jovens divertem-se formando uma grande roda, rapazes de um lado, raparigas do outro, com as mãos cruzando-se atrás das costas e entoando estrofes em que se fala de namoro. Os rapazes cantam primeiro, as jovens respondem, depois, saltam todos com grandes pulos cadenciados e movimentos dos corpos para a frente e para o lado no meio de grandes risadas (Bobonaro).
O Habitat Rural
A distribuição da habitação rural em Timor efetua-se segundo dois modos fundamentais de povoamento: a aglomeração das casas em aldeamentos e o povoamento disperso em pequenos núcleos familiares isolados.
Nas regiões montanhosas centrais, em Maubisse, Huatu-Builico, Lete-Foho, Tariscai e Laclubar, o povoamento disperso é dominante; nas planícies e nos planaltos do Leste da Ilha, as casas reúnem-se de preferência em povoados.
Os dois modos de povoamento surgidos em regiões de características orográficas distintas levam-nos a afirmar que o fator geográfico não é o único a dever ser considerado: nas montanhas do Centro de Timor, na circunscrição de Bobonaro, surgem densos aldeamentos enquanto nas planícies litorálicas da Costa Norte domina o povoamento disseminado em pequenos grupos de cabanas. Assim, três fatores conjugam-se para determinar em certas áreas de Timor o modo de povoamento em dispersão. O primeiro manifesta-se de natureza geográfica, o segundo de caraterísticas sociais e culturais, e o terceiro resulta da interação destes dois, podendo conduzir, de acordo com as circunstâncias, quer à dispersão, quer à concentração em aldeamentos.
E o caráter montanhoso de Timor, determinante da fragmentação dos recursos naturais, e o tipo predominante de economia de subsistência: as culturas itinerantes e a horticultura mista, que conduzem a uma disseminação do habitat. De facto, as pequenas e disseminadas superfícies de terras cultiváveis nas montanhas apenas podem fornecer alimentação a poucas famílias praticantes da cultura itinerante, a qual exige uma área múltipla das terras cultivadas num dado ano. As famílias vivem afastadas umas das outras, em pequenos núcleos escondidos numa depressão do terreno ou em evidência no cimo de um monte de dificil acesso, as casas protegidas pelo arvoredo rodeando-se de pequenos hortejos ladeados por caminhos tortuosos de pé posto. Tudo nos dá a impressão de uma paisagem quase despovoada, quando, de facto, a densidade da população nestas áreas é relativamente elevada. A dependência dos pequenos núcleos dispersos dos grandes aglomerados, à parte o trabalho nos campos de propriedade coletiva, cifra-se nas trocas de produtos durante os mercados semanais nos postos administrativos vizinhos.
As guerras eram constantes entre os sucos, por iniciativa dos seus chefes, surgindo como meio de dignificar o velho costume enraizado da caça de cabeças.
Para se defenderem das guerrilhas e rapinagens, acentua-se, então, entre os nativos, a tendência de se agruparem em grandes aglomerados fortificados em locais de difícil acesso, bem mais fáceis de defender do que os antigos lugarejos familiares. Mas se, por um lado, a população se inclina a reunir-se dentro de unidades territoriais de forte poder político, a natureza da estrutura feudal timorense, com a sua acentuada descentralização em sucos autónomos ou quase, conduz fortemente à dispersão.
Mais tarde, depois de assegurada a paz entre os reinos nativos rivais devido à ação da administração portuguesa, os timorenses, não mais obrigados a reunirem-se em aldeias fortificadas ou em lugarejos inacessíveis, espalham-se por todos os recantos da Ilha. Em poucas décadas, a proliferação de núcleos isolados desenvolveu- -se a tal ponto que os novos aldeamentos tornam-se raros, exceto nas planícies do Sul devido a condições naturais, e nas montanhas, onde o poder político tradicional ainda manteve a sua força de coesão.
O núcleo familiar com seus limites territoriais demarcados estabelece-se num espaço sagrado, constituindo um microcosmo autónomo, reflexo do Universo. A adoração comum dos antepassados reforça a solidariedade e as ligações genealógicas entre os seus membros, e a casa sagrada, a árvore, os lugares votivos tendem a ter, em conjunto, um efeito estabilizador na estrutura da pequena comunidade.
Com a fundação de novos núcleos, dá-se um processo contínuo de fissão social à medida que, da célula inicial, proliferam pequenos grupos autónomos que, apesar das ligações religiosas e de parentesco com os locais antigos de origem, conservam sempre a sua existência semi-independente. As vezes, a "aldeia-mãe" despovoa-se mas mantém-se o local sagrado com os seus altares e casas, habitado apenas por um velho guardião.
O isolamento das casas dá ao timorense o sentimento de segurança contra os frequentes incêndios e epidemias que devastam os aldeamentos; também Ihe é vantajoso porque conserva-o, a si e ao seu grupo, junto do local de trabalho, reduzindo o tempo de deslocamento da casa para as terras que cultiva. O timorense sabe bem que os núcleos de casas isoladas evitam e até impedem o contacto entre a população e as autoridades, retardando prejudicialmente a penetração cultural, a assistência médica e a evolução da agricultura.
Todos os aglomerados que encontramos em Timor, constituindo aldeamentos, são a expressão da mesma necessidade de fixar num dado local a exploração agrícola do solo. A necessidade de os homens se reunirem para o arranjo de um meio propício à agricultura leva-os a aproximarem-se, a cooperarem em certos métodos de exploração agrícola, como acontece com o cultivo comunal do arroz, definindo um organismo autónomo bem definido, a aldeia com a sua vida própria. volta do povoado, distribuem-se os quintais, as várzeas, os campos de milho, mandioca, feijão e batata-doce, todos ligados àquele por caminhos de utilização quotidiana.
Onde há estabilidade política e autoridade centralizada, a concentração das populações em aldeamentos surge apenas da importância do fator geográfico que, em condições normais, é o elemento determinante e decisivo. Assim acontece na região de Bobonaro onde, dentro de reinos há longo tempo estabelecidos, subsistem ainda alguns aldeamentos muito populosos. Alguns administradores têm compelido os timorenses a construírem as suas moradas em locais acessíveis, sem respeito pelas suas ligações genealógicas ao território e ao local que habitam.
Artificialmente, grandes aldeias têm surgido, originando a lenta dissolução das velhas estruturas geográficas: em certas zonas, a unidade genealógica tem vindo a ser substituída por comunidades locais puramente aldeãs.
Mapa de Habitação e Quadro Tipológico
Neste mapa, procedeu-se a um zonamento do território da Ilha, segundo os diferentes tipos da habitação timorense.
Os limites geográficos de cada tipo são naturalmente imprecisos, constatando-se interpenetrações e áreas de transição de um tipo para o outro.
Na região a leste de Díli, compreendendo Manatuto, Lacló e Laleia até Vemasse, o habitat é de caraterísticas indefinidas ou mistas, não se apresentando, desta forma, a área abrangida por qualquer zonamento tipológico.
Inclui-se no quadro tipológico uma apresentação esquemática e classificativa das habitações quanto às suas caraterísticas formais (plantas e alçados) e, ainda, quanto aos materiais de revestimento das coberturas.
As construções são, em qualquer caso, integralmente realizadas com materiais de origem vegetal (madeiras, bambu, capim, fibras vegetais, etc.), razão pela qual se utilizou como critério de classificação os diferentes revestimentos das coberturas. Assinale-se que estas diferenças são em função do material existente na região, o qual, por sua vez, é função do clima e da altitude.
Será de acentuar que os tipos de habitat correspondem muito sensivelmente aos diversos grupos linguísticos (e não rácicos) mais importantes. Assim, por exemplo, as construções do tipo 4 correspondem quase rigorosamente aos povos de língua dagadá.
No esquema tipológico, agruparam-se as habitações segundo as analogias arquitetónicas. Reconhece-se, assim, que os números I e 2 (habitat das montanhas) apresentam flagrantes semelhanças entre si e que os tipos 5, 6 e 7 (habitat das planícies) se aproximam nitidamente, entre outros, nestes aspetos: distância do pavimento ao solo, natureza do revestimento da cobertura, planta retangular, paredes visíveis, etc.
Todos os tipos apresentados são de habitações de piso elevado do solo, variando a sua altura de menos de um metro a mais de três. Existem também habitações assentes diretamente no solo, mas que não constituem o tipo dominante de qualquer região, sendo, na maior parte dos casos, apenas um resultado da influência europeia ou simples construções provisórias.
As caraterísticas fundamentais do povoamento nas sete regiões consideradas são as seguintes:
1.0 — Região de Bobonaro
Predomina o povoamento disperso. Em determinados sucos, porém, as casas agrupam-se em densos aldeamentos e distribuem-se ao longo de caminhos de pé posto que convergem irregularmente para o esboço de centro social definido pela árvore sagrada. Cada núcleo de habitações é delimitado por muros de pedra solta e assenta em plataformas empedradas. Em qualquer dos casos, a entrada dos estranhos no aglomerado é única. As culturas de subsistência e de exploração (café) desenvolvem-se
em redor sobre socalcos de terra batida ou ligeiramente reforçada.
A povoação de Loro-Bá é constituída por 100
habitações.
2.0 — Região de Maubisse
Povoamento disperso. As casas agrupam-se em núcleos familiares de 2 a 3 e distribuem-se irregularmente desde o topo das montanhas aos vales mais emsombrados; cada núcleo é delimitado por muros, alguns fortificados.
A exiguidade de espaços nivelados conduz a um aproveitamento cuidado do terreno; os campos de cultura são armados em terraços amuralhados. Pratica-se a agricultura mista e a cultura do café.
3.0 — Região de Baucau
Povoamento disperso e concentrado. As casas agrupamse em aldeamentos e em lugarejos, sem que os dois tipos de povoamento demarquem zonas distintas. Cada núcleo familiar, num como noutro caso, é delimitado por muros de pedra solta. As atividades agrícolas repartem-se pela cultura do arroz de várzea, pela cultura do milho e pela exploração do coqueiro.
A povoação de Gari-Uai compõe-se de 60 casas.
4.0 — Região de Lautem
Predomina o povoamento concentrado. Os aldeamentos, compostos por 40 a 50 casas, algumas de usufruto coletivo, dispõem-se ao longo das estradas ou junto das orlas florestais. Pratica-se a agricultura mista e a cultura do coqueiro (Pehe-Fito).
5.0 — Região de Viqueque
Predomina o povoamento disperso. Os aglomerados desenvolvem-se em extensão, nascendo do somatório de vários grupos de casas disseminadas pelas clareiras e ligados por caminhos abertos na floresta. Exploração comunal das várzeas de arroz; agricultura mista. As culturas de exploração compreendem o coqueiro, a arequeira e o tabaco.
A povoação de Mane-Hat é constituída por 60 habitações.
6.0 — Região de Suai
Povoamento concentrado. As casas agrupam-se em aldeamentos, distribuindo-se por largos terreiros vedados por sebes vivas e pagares — entrelaçados de bambu ou de pecíolos de palmeira. As atividades agrícolas são semelhantes às de Viqueque.
A povoação de Matai compõe-se de 50 habitações.
7.0 — Região de Ocussi
Povoamento concentrado nas planicies e disperso nas montanhas. Os aldeamentos da planície são do tipo linear e formam-se pela justaposição de quintais com 2 a 3 casas (Nuno-Heno). As atividades agrícolas compreendem a cultura hortícola e a cultura do arroz de várzea. Pratica-se a pesca nas ribeiras. A copra é o principal produto de exploração.
A povoação de Manuim-Pena compõe-se de 50 habitações.