OTTO VON SIMSON Cap III - SUGER DE ST.-DENIS
III - SUGER DE ST.-DENIS - Otto Von Simson
Nenhum outro mal-entendido constituiu maior obstáculo ao nosso entendimento da arquitetura gótica do que a sua interpretação como sendo a consequência «<lógica» do Românico, como sendo o desenvolvimento coerente dos princípios estilísticos e métodos técnicos desenvolvidos durante o período anterior. Em verdade a arquitetura gótica não é a herdeira mas a rival do Românico, criada como sua enfática antítese. A primeira arte gótica (como os Fran ceses lhe chamam) teve origem por volta de 1140, culminância daquelas mesmas tendências anti-românica e anticluniacense em arte, que observámos no capítulo anterior. Naquele tempo, porém, a arte românica estava ainda florescente em muitas partes da Europa. Terá sido porventura a grande força deste adversário que evocou, em parte dos seus oponentes, uma resposta artística tão enérgica e clara como foi a polémica de S. Bernardo. Esta resposta é a arquitetura gótica.
As grandes obras de arte as grandes obras do espírito humano em geral - são sempre submetidas ao processo dialético que Toynbee definiu como sendo a lei do desafio e resposta. Tal interacção, na criação da obra de arte, é a resposta a uma fonte, a um modelo, ou a uma influência. Mas os historiadores de arte e literatura estão aptos a valorizar ou a substimar o papel de tais influências e por conseguinte a ver o desenvolvimento da arte governado por uma espécie de lei darwiniana, consistente, previsível, e inevitável. Este é, como é claro, um caminho seguro para menosprezar e não apreender na obra de arte tudo quanto é significativo, original, autêntico. Uma obra de arte é criada porque um indivíduo, ou um grupo de individuos, é compelido a transmitir uma experiência que é particularmente sua ou deles. Um tal incentivo pode muito bem ter sido provocado, e é-o habitualmente, pelo contacto com uma influência ou modelo que agiram como um catalizador. Mesmo assim, quanto mais significativa uma obra de arte, mais vincados serão os elementos de revolta, de tendências destrutivas, mesmo em relação à obra que serviu como protótipo. Contrariamente, a transparência de influências, a docilidade da sua aceitação numa obra de arte, são quase sempre sinais de mediocridade. A partir do momento em que compreender uma obra de arte significa participar na expressão singular de uma experiência singular, é habitualmente mais importante aperceber o elemento de «revolta» do que o reflexo de influência sobre ele.
Tudo isto se aplica particularmente à génese da arquitetura gótica. Nenhum dos seus elementos constituintes foram invenções. A arquitetura românica, especialmente a da Normandia e da Borgonha, contribuiu em grande parte. Os primeiros construtores góticos empregaram, coordenaram e transformaram esses elementos e ao fazê-lo alcançaram um sistema arquitetónico que era novo e anti-românico precisamente devido à novidade da mensagem espiritual que pretendia transmitir'.
Esta visão da relação entre Gótico e Românico é confirmada pela geografia bem como pela cronologia do novo estilo. O Gótico inicial está tão nitidamente identificado com um território limitado, a Île-de-France - mais exatamente, o domínio da monarquia Capetíngia que o falecido Henri Focillon sugeriu sabiamente, porventura algo paradoxalmente, que o Gótico fosse definido como o Românico da Île-de-France2. Nenhum outro estilo artístico estivera mais estreitamente ligado a uma ideia politica, à sua realização histórica e ao seu crescimento. «Propomo-nos demonstrar», observava Viollet-le-Duc há um século atrás, <<que a catedral fancesa... nasceu com o poder monárquico. Investigação mais recente apenas confirmou esta tese. Criado em pleno coração do poder capetíngio³, o Gótico avançou na esteira da sua consolidação e expansão. Todas as grandes catedrais se elevavam em território submetido à coroa francesa.
Nenhuma outra região fez mais, arquiteturalmente falando, para preparar o advento do novo estilo do que a Normandia. Não obstante, a Normandia apenas começou a construir gótico após a sua conquista por Filipe Augusto. Aliás, a Catedral de Le Mans, capital do Maine, foi construída no estilo românico ou melhor, no estilo angevino numa altura em que as primeiras construções góticas tinham feito já o seu aparecimento na Île-de-France. Estruturalmente, a grande abóbada de arcos cruzados de Le Mans - tal como a da Catedral de Angers é o equivalente à abóbada gótica. É particularmente significativo que nessa co - mo nas outras igrejas desta escola, a organização das paredes, especialmente na zona do clerestório, não revele traço das tendências góticas no que respeita à luminosidade e à redução das superfícies inertes. Após a anexação do Maine pela coroa francesa, contudo, o capítulo da Catedral de Le Mans decidiu construir o coro gótico que veio a ser considerado perfeito no seu género.
Aquelas regiões da moderna França que, por outro lado, permaneceram fora de órbita do poder capetingio, mantiveram as suas catedrais românicas. Mas na Provença, o apareci mento da escultura gótica (um elemento manifestamente estrangeiro) desde o último quartel do século XII foi devido aos laços políticos crescentemente estreitados entre o episcopado da Provença e o rei francês'; a introdução da arte da França nesta região pressagiou sinistramente a sua conquista na cruzada albigense. Este significado político do Gótico é ainda mais aparente além-fronteiras. Na cidade apuliana de Lucera, a catedral ergue um severo, ascético monumento à vitória do francês Charles de Anjou sobre a alegre cultura «românica» do Ho henstaufen. Mesmo nesta forma, tão tristemente diferente do seu espírito original, o Gótico prenunciava a sua ligação com a monarquia francesa.
Estas impressões são confirmadas se considerarmos o desenvolvimento do Gótico através da Europa. Em lado nenhum fora da esfera de influências francesa ele surgiu como desen volvimento espontâneo do Românico. O Gótico foi importado para a Alemanha pelos Cis tercienses mais de meio século após a sua criação; foi considerado um estilo «francês>> até ao século XIV. Em Inglaterra, o novo estilo apareceu primeiro na Catedral de Cantuária, iniciada em 1175 por Guilherme de Sens. Sens recebera o exilado Thomas Becket com particular hospitalidade alguns anos antes, fato que pode bem ter contado para a escolha do arquiteto, que reproduziu o modelo da Catedral de Sens em muito aspectos da catedral inglesa. Em Inglaterra, bem como na Alemanha e na Itália, o Gótico confrontou-se com fortes tradições indígenas e por conseguinte sofreu modificações que o transformaram em algo inteiramente diferente.
Concluindo, o Gótico é o estilo da Île-de-France; está tão estreitamente ligado aos destinos da monarquia capetíngia e foi encorajado por ela a tal ponto que temos de concluir que o Gótico era considerado a expressão das ideias a que a coroa desejava ser associada. Se assim for, como aconteceu esta associação?
Para uma resposta a esta pergunta, viremo-nos para os primeiros santuários góticos e para a personalidade dos seus autores. O Gótico começou por aparecer em três grandes igrejas, todas elas de uma área limitada, todas elas em locais de particular importância para a monarquia francesa, todas projectadas, senão executadas, durante uma década: a primeira catedral gótica foi a de Sens; a primeira abadia gótica foi a de St.-Denis; as fachadas ocidentais de St.-Denis e, especialmente, de Chartres são as primeiras manifestações da escultura arquitetônica gótica. Responsáveis por estas três construções foram os bispos Henrique de Sens e Godofredo de Chartres, e o abade Suger de St.-Denis. Estes prelados eram amigos pessoais e partilhavam as mesmas convicções. Tal como indagamos sobre a origem e significado da arquitetura gótica, devemos tentar compreender as ideias destes prelados bem como os monumentos que mantiveram viva a sua memória.
O mais famoso dos três homens é Suger de St.-Denis. A sua personalidade é hoje tão fascinante como o era para os seus contemporâneos". A sua carreira, que o conduziu de origens muito humildes à regência de França, deu-lhe campo para a aplicação de uma extraordinária variedade de dons. As capacidades diplomáticas de Suger chamaram a atenção do seu abade para o jovem monge. Ele estava apenas na casa dos vinte anos quando representou o seu mosteiro no Concílio de Poitiers (1106) e subsequentemente perante o papa 10 Nos anos que imediatamente se seguiram, Suger, como deputado do seu abade, revelou igual habilidade como administrador e como expedito e corajoso chefe militar que defendeu com sucesso as possessões do seu rei e do seu mosteiro contra alguns rapaces feudatários da terra".
Essas façanhas militares levaram-no de novo ao contacto directo com o rei Luís VI, que fora educado com Suger em St.-Denis. O que aqui tinha começado como amizade entre dois jovens de muito diferentes origens, desenvolveu-se num laço que uniu os dois homens para o resto das suas vidas 12. O rei empregou Suger, que a partir daí parece nunca ter deixado de ser o principal conselheiro político do seu soberano, e seu embaixador junto do papa. Foi durante umas dessas missões a Itália, em 1122, que Suger soube da sua eleição para a Abadia de St.-Denis 13. Para entender o significado integral da nomeação, devemos ter em mente que este mosteiro não era uma casa beneditina vulgar. Mesmo na idade do monaquismo, mesmo entre os grandes mosteiros de França, St.-Denis ocupava uma posição de poder e prestígio sem paralelo 14. Os antigos historiadores de S. Mauro chamaram-lhe, não sem justiça, a principal de todas as abadias francesas e porventura europeias 15. As fontes medievais abundam em referências à sua proeminência. Designavam St.-Denis mãe das igrejas francesas e coroa do reino 16. Nenhuma outra instituição eclesiástica, talvez nenhuma instituição de qualquer espécie estava mais estreitamente identificada com a monarquia capetíngia". St.-Denis era o altar do santo patrono de França e da casa real, e o sepulcro dos reis franceses desde tempos merovingios 18. Por muito tempo recipiente de munificentes doações da coroa, a casa estava, como uma das abadias <<reais>> isenta de qualquer dominação feudal ou eclesiástica, e apenas sujeita ao rei.
Na primeira metade do século XII, St.-Denis tornou-se a pedra angular da política real a fonte da ideia da monarquia cristã que estabeleceu a ascendência capetíngia através da França, nalguns aspectos através da Europa. A conquista desta posição e a sua influência foi obra, principalmente, de Suger. Ele trouxe à sua elevada posição eclesiástica aquele peculiar misto de dons que caracterizam o homem de estado. Como administrador, ele tanto tinha o conhecimento de jurisprudência necessário para manter e expandir as vastas possessões da sua casa, como o sentido do pormenor prático que o predispunha a ir ao encontro de questões tais como a provisão de melhores alfaias para os seus inquilinos e a iniciação de um competente programa de preservação florestal 20. Como diplomata e político, Suger teve um raro sentido do possível, predisposição para o compromisso, e acima de tudo nunca hesitou na preferência para a conciliação pacífica. Luís VI era um dirigente de dons muito consideráveis; mas é duvidoso que pudesse ter atingido a estatura que a história lhe atribuiu, não tivesse ele tido a seu lado um conselheiro sempre disponível e frequentes vezes capaz de conter a temeridade e disposi ção violenta do seu soberano, uma disposição que ele viveu para vir a deplorar na sua velhice¹¹. 21 E entre os homens de Estado esclesiáticos da Idade Média, Suger é um dos muito poucos cujo zelo religioso não tornou insensível à precariedade do fraco, do humilde, do derrotado, mesmo que estes tivessem previamente obstruído o curso da sua governação.
O que unia estes dons políticos e morais num todo era o poder da imaginação. Uma visão política singularmente lúcida unificou as suas inúmeras ocupações. Essa visão, a qual ele viveu para ver realizada, está por detrás da grande realização artística a Igreja abacial de St.-Denis que é o motivo deste capítulo. Mas como ele mesmo pretendia este monumento - para transmitir as suas ideias políticas e religiosas, devemos primeiro familiarizar-nos nós mesmos com essas ideias.
A vida de Suger decorre na época da história europeia marcada pela luta entre imperium e sacerdotium, centrando-se principalmente na fonte da investidura. Mas a posição da França diferia profundamente da do Império Germânico. A herança carolingia que suplementou as modestas possessões capetingias na Île-de-France era principalmente eclesiástica. Ao longo do perímetro da sua fronteira, da Borgonha à Flandres e com efeito à Normandia, o reino era circundado por certo número de episcopados que, enquanto sés «<reais», estavam sujeitas à coroa Francesa. Os dirigentes de seis deles. - - o arcebispo de Reims, os bispos de Laon, Langres, Châlons, Beauvais e Noyon: eram duques e condes do reino e nessa qualidade, grandes senhores feudais cujas possessões, em conjunto, excediam de longe o tamanho do dominio real. Como vassalos do rei, os ocupantes das sés «<reais» juravam fidelidade como todos os outros senhores feudais. E na medida em que a ocupação dos feudos eclesiásticos não era hereditária, o direito do rei de nomear os seus bispos aumentava grandemente o seu poder.
Tal composição do seu domínio não podia deixar de afectar o carácter político da monarquia. Como pares de França, os seis prelados acabados de mencionar constituíam metade de um colégio de doze 24. Nas assembleias do reino, a hierarquia estava proeminentemente representada, e os seus pontos de vista eram frequentemente decisivos. Os arcebispos de Reims e Sens, sob cuja jurisdição eclesiástica se achava a maior parte de todos os territórios da co roa, estavam quase invariavelmente presentes nessas reuniões. As assembleias mais importantes coincidiam com as grandes festas do ano litúrgico e circunscreviam-se de costume a localidades com catedral. Nesse acontecimento, em que não só o bispo local mas o seu capítulo e frequentemente o clero tinham assento na assembleia, o estado eclesiástico suplantava em número a nobreza secular 25.
Tal influência eclesiástica teve importantes efeitos nas relações entre a coroa francesa e os seus vizinhos. Era de acrescido significado que o mais poderoso dos episcopados <<reais>> estivesse situado em território estrangeiro, agindo os enclaves franceses como pontas de lança da expansão real e como espinhos na carne dos dirigentes territoriais. Num ato óbvio de autopreservação, muitos destes agarraram a oportunidade que se lhes parecia oferecer com a reforma gregoriana e cluniacense. É quase surprendente encontrar o duque da Borgonha e os condes de Anjou, Troyes e Chartres lado a lado com os papas nas suas tentativas de libertar a Igreja da dominação real. As cidades capitais de todos eles eram espiritualmente dirigidas por um bispo que o rei de França designará.
Este alinhamento de forças induziu Filipe I a olhar o movimento de reforma com considerável hostilidade. Mas cedo se tornou claro que o seu progresso era irresistível. Durante o reinado do filho de Filipe I, Luís VI, as sés de Sens, Paris e Chartres ignoraram a feroz oposição do rei e abraçaram o partido de S. Bernardo 26. Contudo, se os resultados de uma luta com a Igreja, análogos aos que perturbaram a Alemanha e temporariamente até mesmo a Inglaterra, nunca existiram em França, os acontecimentos cedo impeliram o seu curso político na direcção oposta. No seu obstinado duelo com o imperador germânico, o papado voltou -se para a França em busca de protecção e auxílio.
Ameaçado por Henrique V, o papa Pascoal II entrou em França para aí iniciar uma longa estada. Em 1107, teve um muito amigável encontro com o idoso Filipe I e o Príncipe Luis em St.-Denis. Mas visitou previamente Chartres e encontrou-se com o seu bispo, o grande Yves, que foi acima de tudo responsável pela definição do relacionamento entre Igreja e Estado que poupou à França uma guerra de investiduras?". Yves teve ocasião de recordar ao papa que, mais do que qualquer outro dirigente cristão, o rei francês fora leal à Sé Apostólica, que nunca nenhuma divisão entre imperium e sacerdotium tornara a França distante. Estes desenvolvimentos ocorreram durante os anos de formação da vida de Suger; ele
Esta testemunhou-os a curta distância. Conheceu Pascoal II pessoalmente e acompanhou-o durante 28 grande parte da sua estada em França. O jovem monge conquistou os seus pergaminhos políticos perante este pontifice ao defender o caso do seu mosteiro contra o bispo de Paris, «com bravura, com sonante raciocínio e válido argumento canónico»; as palavras são suas é uma das poucas ocasiões em que Suger falou com explícito orgulho de si mesmo. Nos anos subsequentes, como emissário do rei à Santa Sé e mais tarde como abade de St.-Denis e primeiro- ministro de Luís VI, Suger teve uma acção decisiva ao formular e pôr em prática a politica que determinou as relações entre França e a Igreja. Esta política consistiu na incrementação das perspectivas de Yves de Chartres, o qual Suger venerava: uma aliança firme com o papa contra o imperador, e com os bispos contra a nobreza predatória do reino; segundo, sancionamento pelo rei das ideias básicas sobre a reforma eclesiástica, e reconhecimento pelo papa da continuidade de dominação pelo rei dos episcopados «<reais», dominação essa que, a partir daí, foi exercida por meios menos violentos, se igualmente efectivos, do que sob o antecessor de Luís VI 29
No campo das relações estrangeiras, os resultados deste curso político depressa se revelaram significativos. Em 1119 Guy da Borgonha, arcebispo de Viena, era elevado ao papado. Tomou o nome de Calisto II. Filho do conde da Borgonha, inclinou-se para o movimento de reforma que tão poderosos aderentes teve no seu próprio país. Insatisfeito com a linha de compromisso de Pascoal II, ele tinha, quando ainda arcebispo, censurado veementemente o papa, convocado um sínodo da sua sé em Viena, e daí declarado anátema contra o impera dor Henrique V. Como tio de Adelaide, rainha de França, Calisto era parente do rei de França. É Suger que insinua que estes laços de família tiveram importantes consequências políticas.
Dos quatro papas mencionados nos escritos de Suger, Calisto é aquele que ele de longe mais estimava. O que atraía os dois homens, cujos temperamentos diferiam tão grandemente, era a completa identidade das convicções políticas e dos interesses. O seu conhecimento intimo redundou em amizade. O fato de Suger ter ascendido à Abadia de St.-Denis enquanto repre sentando a França na Santa Sé dificilmente terá sido apenas uma coincidência, muito embora Luís VI, a julgar pela sua ira momentânea quanto ao voto monástico, pareça não ter tido disso conhecimento prévio. Mas a sua insatisfação por não ter sido consultado passou bastante depressa; Suger encontrou o seu soberano todo benevolência aquando do seu retorno a França. Se a elevação de Guy da Borgonha ao papado era um acontecimento afortunado para St.-Denis bem como para a França, a nomeação de Suger para a abadia provou ser de igual vantagem para o rei e para o papa. Como intransigente campeão da reforma, Calisto II quase imediatamente retomou a luta dos seus predecessores com o império. As suas relações de família, a tradição política, e acima de tudo a política eclesiástica de França tornaram inevitável que ele tivesse de se inclinar para essa potência.
A crise europeia depressa atingiu um climax. Como tantos outros papas, Calisto procurou refúgio em França. E perante o concílio reunido em Reims, na presença do rei de França, declarou excomungado o imperador como inimigo da Igreja (30 de Outubro de 1119) 32. Nesta política de firmeza, que terá eventualmente induzido Henrique V a capitular, Suger teve indubitavelmente a sua parte. Em 1123 participou no primeiro Concilio Ecuménico reunido em Latrão, em que os embaixadores do imperador anunciaram os termos conciliatórios de Hen rique a uma assembleia de mais de trezentos bispos. Os inusitados sinais de estima do papa que Suger recebeu à sua partida sugerem que Calisto quisesse manifestar o seu apreço pelo apoio francês nas negociações que ele tão bem sucedidamente concluíra":
Mas se Henrique V tinha feito as pazes com Roma, a sua posição era muito diferente em relação a França. Em Agosto de 1124, o imperador, coligado com o seu sogro, Henrique I de Inglaterra, decidiu invadir a França. A sua inimizade contra Luís VI vinha-se inflamando desde há muito, mas Suger estava provavelmente certo ao pressentir que o que tinha precipitado as hostilidades fora a aliança aberta de França e do papado, que permitira a Calisto II excomungar o imperador num concílio convocado em solo francês 34. A ameaça do ataque em duas frentes que agora se perspectivava parecia mortífera. Nesta emergência, Luis VI precipitou-se para St.-Denis. No seu antigo santuário, as relíquias do santo patrono e dos seus companheiros Rústico e Eleutério estavam solenemente expostas. Ajoelhando-se perante elas em oração, o rei invocou a intercessão de S. Dinis, seu «patrono especial»>, ao qual ele designara como sendo «depois de Deus, o único protector do reino»>, prometendo ao santo ricas doações para a sua abadia em caso de vitória.
Terminadas as preces, Luís VI ergueu-se para receber do altar do Apóstolo de França, «como do seu Senhor», o estandarte de S. Dinis. Na realidade, este insignia era o estandarte de Vexin, um feudo da abadia, cuja possessão tornou o rei vassalo do seu abade, ou, em termos medievais, vassalo do abade como representante do santo patrono. Nesta ocasião, a investidura com o estandarte servia para indicar que Luís VI se considerava a si mesmo como vassalo de S. Dinis, que partia para a batalha pela causa do santo, e que a bandeira era um sinal da protecção deste último. Após Suger ter apresentado o estandarte a Luís, o rei, perante o capítulo dos monges, reconheceu formalmente a sua vassalagem, acrescentando que teria prestado homenagem à abadia se a sua autoridade real não lho proibisse 38. Após o que, provavelmente ainda em frente ao altar como Bohemond de Antioquia na Catedral de Chartres rezando pela sua cruzada 39, o rei apelou à assembleia para se juntar a ele em defesa do reino. A resposta foi extraordinária. Os contingentes de Reims e Châlons, Laon e Soissons, Étampes e Paris, Orléans e St.-Denis foram engrossados pelas forças de grandes senhores cujas relações com a coroa tinham por muito tempo sido hostis ou frias. Os duques da Borgonha e da Aquitânia, os condes de Anjou, Chartres, Flandres, e Troyes, seguiam agora o apelo real.
Dos eventos acabados de mencionar, fez-se o próprio Suger cronista. Ele era um homem de notáveis interesses e realizações literárias. A sua memória infalível, o seu conhecimento dos autores clássicos, Horácio e Luciano sobretudo, espantavam os seus monges não menos do que o leitor moderno". Homem de infatigável energia, mau grado a sua frágil saúde, encontrou tempo para escrever profusamente. Mas entre os autores monásticos do seu tempo, ele é provavelmente o único que não compôs um só tratado teológico. Foi aos escritos de caráter histórico, bem como aos seus interesses artísticos, que ele devotou os anos de relativo afastamento político (1137-1144).
Estes escritos, sobretudo a sua vida, de Luís VI e a de Luís VII, da qual Suger apenas pôde completar os primeiros capítulos, podem bem valer ao seu autor, a acrescentar aos seus muitos outros títulos, o de primeiro historiador sistemático desde a Antiguidade. Os grandes arquivos do seu mosteiro, depositários de documentos reais e eclesiásticos, tinham despertado o interesse de Suger numa idade precoce. No princípio do século XII, foi compilada uma colecção de crónicas em St.-Denis 44. Em vista dos interesses de Suger, não se afigura impossível que ele mesmo possa ter começado essa obra quando ainda jovem monge, e que tenha dirigido e supervisionado a sua continuação nos anos subsequentes. As suas próprias histórias, admiradas, utilizadas, e complementadas por historiadores tanto contemporâneos como posteriores , parecem ter sido apenas concebidas como parte de um projecto muito mais vasto. Há boas razões para crer que Suger planeara transformar a sua abadia, já então arquivo real, no instituto para a historiografia oficial do reino. No século seguinte, St.-Denis assumiu de fato essa função",
É nos escritos históricos de Suger que aquilo a que chamei a sua visão política, a meta suprema da sua carreira de estadista, se torna tangível. Para o abade de St.-Denis, bem como para Richelieu, a historiografia foi uma parte da sua carreira de Estado: justificação das suas acções, clarificação dos seus princípios, autorizada interpretação para benefício das gerações futuras. É significativo que o abade destinasse certos capítulos da sua Vida de Luís VI para serem lidos no coro como parte da observância litúrgica anual da morte do rei.
O estilo de Suger tende a obscurecer a sua realização, pelo menos para o leitor moderno. A Vida de Luís VI está densamente escrita; abunda em inexactidões gramaticais; existem mesmo omissões óbvias de palavras. Composta à pressa, inacabada e por rever, algumas das suas partes não constituirão porventura mais do que um primeiro rascunho, tal como as Mémoires de Richelieu, destinado a uma revisão futura. Há pelo menos razões para crer que o proprio Suger retomou o trabalho nos seus últimos anos, corrigindo e clarificando o seu estilo e reforçando o argumento principal que inspira cada frase Este argumento é claro. Não obstante os seus parcos recursos estilísticos, Suger é um escritor com um sentido evidente para o dramático, ocasionalmente mesmo para o melodramático, como quando narra o massacre de La Roche Guyon"". Tinha um olho apurado para as grandes personalidades e para os grandes momentos históricos; tinha idêntica habilidade para trazê-los de novo à vida. É com este espírito que ele reinvoca o conflito entre as maiores potências do seu tempo, o qual testemunhara e no qual tomara parte tão decisiva. É um drama representado em dois níveis, o politico e o teológico, o humano e o divino, e Suger tenta de contínuo tornar visíveis os laços que ligam as duas esferas. Não obstante o que, a sua obra não é uma teodiceia, nem filosofia da história, como o é a do seu contemporâneo, Otto de Freising. Suger não era um espectador mas um actor. Ele mesmo forjara e utilizara as crises de que faz a crónica, e é esse papel, bem como os seus dons como historiador, que dirigem irresistivelmente a sua narrativa, e com ela os nossos olhos, em direcção ao local onde o his tórico e o providencial se intersectam. Esse local é St.-Denis.
A Vida de Luís VI de Suger representa o governo deste rei como a rigorosa realização do grande desígnio político que estava, acima de tudo, na própria mente de Suger. Transpõe em silêncio aqueles atos do seu soberano que ele desaprovava e que era incapaz de evitar, tais como a perseguição do arcebispo de Sens e do bispo de Paris. Em vez disso, Suger retrata Luís VI como sendo um governante profundamente piedoso de quem todo e qualquer ato, qual ilustração do dito virgiliano, «parcere subjectis et debellare superbos», se destinava a proteger o cumpridor da lei e o humilde e a punir, de espada na mão, o orgulhoso e o fora -da-lei. Para Suger, o humilde e o justo são sumamente representados pelo clero de França, 50 o orgulhoso pelos seus opressores feudais. Assim, o terrível Hugo du Puiset é acusado, em 1111, perante uma grande assembleia de «<arcebispos, bispos, clérigos e monges>> conduzida pelos bispos de Sens, Chartres e Orléans, cujas terras ele devastara, de «mais rapace que um lobo». Hugo é condenado, e a guerra daí resultante, na qual o próprio Suger toma parte 51 activa, termina com a derrota completa do tratante. Uma vez mais, Suger discorre largamente sobre a campanha que Luís VI encetou dez anos mais tarde para libertar o bispo de Clermont do seu opressor, o conde de Auvergne.
Mas ao longo de toda a narrativa, a Abadia de St.-Denis permanece o foco do grande panorama. Suger começa por dar conta do precoce amor e devoção do rei pelo seu santo patrono que continua ao longo de toda a sua vida e o predispõe a fazer ricas doações à abadia 52. Antes da sua morte, quis despojar-se em St.-Denis da sua insignia real, na intenção de a trocar pelo hábito de monge", A biografia termina com o enterro do rei no santuário, 53 no local preciso que ele designara antes da sua morte (1137), e o qual, contrariamente à opi nião geral, foi quase miraculosamente dado como tendo exatamente o tamanho necessário para receber os seus restos.
Estes eventos, contudo, são apenas a estrutura para a crise de 1124 e para a posição que a abadia assumiu naquele momento. A sua narração forma a parte mais vivida e intensa da história de Suger". Fora nela que ele alterara mesmo ligeiramente os fatos e reelaborara a sua sequência no intuito de tornar o seu significado, tal como pretendia que ele fosse entendido, mais claro para os seus leitores. Segundo ele, os estados reuniram-se em apoio do seu 56 rei na Assembleia de St.-Denis como nunca o tinham feito antes. A impressão causada por aquela demonstração de determinação em manterem-se unidos na defesa do reino foi tal que o imperador foi dominado pelo medo e retirou de solo francês. A vitória, nota Suger, foi tão grande como, ou ainda maior, se tivesse sido conquistada no campo de batalha.
E num sentido mais profundo, a apresentação de Suger dos acontecimentos de 1124 estava longe da falsidade. Para o prestigio da monarquia francesa, as consequências da Assembleia de St.-Denis foram consideráveis; foram momentosas para a própria abadia. Ao ler Suger, sente-se que o tortuoso curso das graduais evoluções políticas revela subitamente um modelo claro e simples, um modelo realizado pela própria visão de Suger. Igreja e monarquia tornaram-se então aliados inseparáveis. A França uniu-se ao redor do seu rei no intuito de defender a causa do reino, que, tendo em vista a pessoa e o cadastro do seu atacante, o imperador, era também a causa da Igreja. Este fato caracteriza as novas relações entre a monarquia francesa e a Igreja, de que até mesmo Bernardo de Claraval refere agora Luís VI como «o primeiro dos reis»
A grande reunião teve lugar em St.-Denis. A bandeira de St.-Denis, que distinguira o rei como vassalo do Apóstolo de França, tornou-se, daí em diante, a insígnia de batalha oficial das armas reais, «St.-Denis» o grito de guerra. Na imaginação popular, o estandarte da aba dia confundia-se com o pavilhão da Chanson de Roland, a mítica bandeira de Carlos Magno 58. E era natural, portanto, que o abade, que naquela hora solene investira Luís VI com a insígnia, devesse tornar-se no prelado francês mais intimamente associado à coroa; que devesse assumir dignidades que, em certos aspectos, o colocavam à cabeça da hierarquia francesa. Em 1147, Luis VII embarcou na Segunda Cruzada. Anteriormente à partida do rei, a Assembleia Real reunida em Étampes nomeou Suger regente de França. Ao anunciar o resultado da eleição, Bernardo de Claraval apresentou o abade de St.-Denis e o conde de Nevers à Assem bleia com a metáfora bíblica que o próprio Bernardo tornara portentosa na controvérsia política da sua era: <<Olhai as duas espadas.»59 Na realidade, ambas as espadas, o poder espiritual e o temporal, passaram subsequentemente para as mãos de Suger 60. Durante a sua regência, as duas esferas pareceram ter-se fundido.
A França estivera sem uma capital religiosa até essa altura 61. A partir de 1124, St.-Denis ocupou esse lugar. Findo o perigo de guerra, diz-nos Suger, Luís VI empenhou-se em renovar os votos que tinha feito em vésperas da iminente invasão. Num documento público de vastas consequências para o futuro da abadia, o rei relembra como, face ao perigo nacional, se precipitara para St.-Denis «segundo o costume dos nossos ancestrais». Denomina a abadia de capital do reino («<caput regni nostri»), na medida em que a providência colocara nas mãos de St.-Denis e dos seus companheiros a protecção da dinastia francesa 62. A doação real ao mosteiro, que é então revelada, é apresentada como uma dádiva pessoal ao santo patrono <<para a salvação da nossa alma bem como para benefício do governo e defesa do reino» 63. É característico do tempo que o documento não distinga entre a instituição religiosa e o santo ao qual ela é dedicada. Tal como a investidura do rei com o pendão o torna num vassalo do santo protector de França, também as doações ao mosteiro de St.-Denis eram consideradas doações ao próprio santo. As interferências com tais possessões eram ultrajes contra o santo protector, os quais era certo atraírem a sua fúria contra o ofensor, apenas assegurando a sua benevolência como caridade em seu nome 64. É fácil ver as incalculáveis consequências que tais crenças estavam destinadas a ter na fortuna de uma instituição identificada, como St.-Denis o estava, com o patrono de todo o reino. No caso presente, a doação do rei tinha por intenção tanto sublinhar o prestígio espiritual da abadia, como suprir a casa com os meios materiais requeridos para a adequada expressão física dessa posição.
Suger fala de uma dupla doação. Ao regressar da sua campanha, diz ele, Luís VI doou à abadia a coroa de seu pai, Filipe I, a qual ele retivera indevidamente, na medida em que por direito ela pertencia a St.-Denis. Na verdade, o rei fizera esta oferta quatro anos antes, reconhecendo nesta ocasião que, «por lei e costume», a insígnia real pertencia a St.-Denis, «nosso Senhor e protector» 65. O desvio de Suger da verdade cronológica é característico. De fato, a oferta da coroa de Filipe a St.-Denis tivera lugar, não sob a sua influência mas sob a do seu predecessor. Ele quis que esse ato parecesse ter sido inspirado pelo prestigio político que a abadia alcançara em consequência dos acontecimentos de 1124 com os quais a sua personalidade e os seus desígnios estavam tão intimamente ligados. E é verdade que à luz desses acontecimentos até mesmo esse ato que lhes era anterior ganhou um significado que não poderia ter tido antes. Vimos já como Luís VI, antes da sua morte, desejou despojar-se da sua coroa em St.-Denis. O seu neto, Filipe Augusto, devolveu a insígnia à abadia imediatamente após a sua coroação" 66. Daí em diante, St.-Denis parece ter sido o tradicional depositário da coroa. Este fato assegurava automaticamente ao abade da casa uma parte na consagração real. Há algumas razões para acreditar, como poderemos ver, que foi Suger quem primeiro insistiu neste privilégio. Os seus sucessores estavam aptos a exercê-lo 67.
Suger menciona, embora superficialmente, uma segunda subvenção real recebida pela sua abadia em 1124. O rei, diz ele, restituiu a St.-Denis o «Indictum exterior»" A breve frase 68 refere uma doação de muito grande significado. O indictum, o famoso Lendit*, denota uma feira, uma das mais famosas da França medieval, reunida sob os auspícios de St.-Denis. Embora apenas iniciada em meados do século XII, era geralmente aceite, na Idade Média, ser muito mais antiga 69. Segundo uma lenda, produzida e divulgada pela abadia, o Lendit termo indictum significava a instituição de uma festa religiosa) fora estabelecido em honra de certas relíquias da Paixão de Cristo, que tinham sido oferecidas a St.-Denis por Carlos o Calvo, o imperador estreitamente associado à casa. (Ele mesmo assumira a abadia após a morte do abade Luís, que também era chanceler imperial). Carlos o Calvo era também designado como tendo instituido a festa anual em honra das relíquias. Tais festas, e as multidões de peregrinos que elas atraíam, conduziam habitualmente ao estabelecimento de feiras anuais, que coincidiam com a festa e desempenhavam um papel extremamente importante na vida económica do tempo. O Lendit é um bom exemplo. Estabelecida em 1048, a 70 festa recebeu lustre acrescido quando em 1053 os túmulos de St.-Denis e seus companheiros foram abertos e revelaram de fato conter as relíquias daqueles santos.
Tendo a fama de St.-Denis aumentado como centro de peregrinação, aumentou também o sucesso económico do Lendit. Na verdade, este sucesso foi tal que Luis VI, numa altura em que as suas relações com a abadia ainda não eram cordiais, se decidiu por um empreendimento concorrente". Notre Dame de Paris recebera uma partícula da Verdadeira Cruz em 1109; o rei instituiu um indictum em sua honra. Este segundo Lendit, ou «<Lendit exterior", como Suger the chamou, foi estabelecido na planície de St.-Denis, entre a abadia e Paris. Localizada sob a jurisdição do bispo de Paris, os seus rendimentos iam directamente para a coroa. Para a Abadia de St.-Denis, este Lendit exterior apenas podia ser um espinho na carne, furtando-se ao seu esplendor espiritual e diminuindo os seus rendimentos. Constituiu por isso um feito de primeira ordem o fato de, em 1124, Suger ser capaz de persuadir o rei a pôr o Lendit exterior, juntamente com o território em que ele ficava, sob a jurisdição da abadia, a esta casa todos os rendimentos da feira. Para o mosteiro, a proeza abriu uma fonte de substanciais rendimentos adicionais. Mas o aspecto económico não era o mais importante.
No seu documento, Luís VI declara que Cristo se dignara nobilitar todo o reino francês através das relíquias da Sua Paixão em honra das quais o Lendit fora estabelecido". Teria sido impossível declarar mais enfaticamente a importância destas relíquias e da sua singular relação para a monarquia. A implicação, é claro, foi a de que a relíquia da Catedral de Paris, que rivalizava com tesouros sagrados de St.-Denis enquanto o Lendit exterior rivalizava com o Lendit propriamente dito, teve apenas significado secundário. A apropriação de ambas as festas pela abadia denotava não só mais uma vitória na sua luta secular pela completa independência dos bispos de Paris mas estabelecia St.-Denis como o centro religioso do reino.
Para apreciar o completo significado deste fato, devemos recordar que o século XII foi a idade das peregrinações e das cruzadas. Estas arriscadas viagens para lugares remotos satisfaziam o sentido romântico da aventura elevada, a ânsia pelo prodigio de regiões desconhecidas, que possui as gentes de todos os tempos. Mas para os homens e mulheres medievais, o transpor do limiar que separava o conhecido do desconhecido, o usual do maravilhoso, significava passar da esfera humana para a sagrada. No termo destas piedosas viagens, ao file marem pé em solo consagrado pela Paixão de Cristo ou ao penetrarem nos santuários que abrigavam as relíquias de santos, os cruzados e os peregrinos experimentavam a presença palpável do sobrenatural.
Para a geração de Suger, as peregrinações e as cruzadas deixaram de ser distintas. A própria Igreja apresentava as Cruzadas como peregrinações armadas empreendidas em defesa dos lugares sagrados e, por conseguinte, até mesmo mais meritórias do que as peregrinações ordinárias"
Em conformidade, o mais celebrado centro da Europa ocidental, Santiago de Compostela, e algumas das localidades maiores nas estradas que a ele conduziam eram, na imaginação dos peregrinos, tornados veneráveis pelas memórias dos guerreiros cristãos que neles tinham lutado e morrido na defesa da sua fé contra os infiéis. Durante a segunda metade do século XI, as guerras contra os Almorávidas de Espanha mobilizaram a flor da cavalaria francesa. A gló ria militar destas campanhas recebeu merecido esplendor da Igreja, que prometia recompen sas celestes para os combatentes cristãos.
Era uma idade cujos santos favoritos eram cavaleiros, uma idade capaz de olhar para o cavaleiro cristão defendendo a sua Igreja, como um santo. A chanson de geste propor cionou larga simpatia popular a este tema, ao evocar a memória da campanha de Espa nha, de Carlos Magno, como uma proeza incrementadora da missão divina da nação fran cesa em defesa da fé crista". Estas lendas tornaram-se intimamente ligadas à peregrinação de Compostela. Eram postas a circular, senão mesmo compostas, pelos monges dos gran des mosteiros que flanqueavam as estradas para Santiago e agora clamavam por associa ção com os grandes acontecimentos da lenda carolingia. Os monges de Lérins tornaram assim S. Honorato, o primeiro cristão fundador da sua abadia, num amigo de Carlos 76 Magno Não era suficiente que as necrópoles romanas de Aliscamp em Arles estivessem santificadas pelos túmulos de vários santos; a lenda asseverava e acreditava-se zelosamente que os heróis de Roncevaux tivessem sido para ali levados e enterrados por Carlos Magno 77 E St.-Guilhem-le-Désert, fundação e túmulo do santificado conde Guilherme, tornou-se um importante local religioso na estrada para Compostela. Todos estes locais eram santuá rios num duplo sentido: invocavam sentimentos tanto patrióticos como religiosos. No século XII, as estradas de peregrinação tornaram-se assim vias de comunicação, e as igre jas principais localizadas nestas estradas tornaram-se os centros da vida espiritual em França; devido às antigas glórias que reclamavam em virtude da sua ligação com o passado caro língio, e devido às actividades económicas que tal fama atraía, estes mesmos locais tornaram -se igualmente centros políticos e económicos.
Suger era filho da sua época. Em 1123, após participar no Concílio de Latrão, e mau grado as suas prementes obrigações como abade, dispôs de tempo para visitar todos os centros de peregrinação famosos do Sul de Itália 79. A ideia da cruzada tinha uma igualmente firme influência na sua imaginação. Tinha apenas vinte e cinco anos quando ouviu Bohemond de Tarent, príncipe de Antioquia argumentar na Catedral de Chartres pela defesa do Santo Sepulcro. Tal pensamento jamais abandonou Suger. A sua designação como regente tornou-lhe impossível acompanhar o seu rei na Cruzada de 1147. A sua ausência nesta empresa, que ele ter antevisto, abalou-o profundamente. Em 1150, já no termo da sua vida, Suger preparou com o auxílio de S. Bernardo uma outra cruzada, em favor da qual apelou primeiro para o papa e, em duas grandes assembleias reunidas em Laon e Chartres, para o episcopado e cavalaria de França 80. A reposta foi desinteressada, mas Suger manteve-se intrépido. Quando S. Bernardo declinou a sua liderança efectiva devido à saúde abalada, Suger, então homem dos seus setenta anos, assumiu ele mesmo a suprema responsabilidade. E, tendo os subsídios por que ele esperava sido recusados, decidiu que o seu próprio mosteiro teria de suportar o enorme encargo financeiro sozinho 2. A doença à qual ele viria a sucumbir acometeu-o enquanto os seus pensamentos e a sua energia remanescente estavam centrados neste projecto de uma cruzada que deveria ter origem e ponto de chegada em St.-Denis, ligando assim o coração religioso de França a Jerusalém, o centro do mundo.
Este último desígnio sugere a luz a que St.-Denis surgia ao seu abade. O seu mosteiro tinha em tempos sido reformado por Cluny 3; as duas grandes casas partilhavam muitos ideais e 83. ambições. Mas a histórica reunião levou Suger à aberta rivalidade com Cluny. Tal como San tiago de Compostela, como todas as outras igrejas de peregrinação sob influência ou domínio cluniacense, St.-Denis estava a tornar-se um centro de peregrinação onde a ideia da Cruzada se misturava com a memória de Carlos Magno. Este desígnio era ditado, não só pelo ânimo religioso do tempo, mas também pela singular posição política do mosteiro de Suger.
A crescente ascendência da dinastia capetíngia deu-se, como sói dizer-se, na sombra histórica e lendária de Carlos Magno. A ideia de que a governação dos Capetíngios representava um verdadeiro renovatio da era carolíngia animava tanto Luís VI como Luís VII 4. O porta voz desta ideia, senão mesmo o seu originador, foi o próprio Suger. Precisamente no início da sua Vida de Luís VI ele apresenta o rei como o herdeiro legítimo do grande imperador 5. No seu discurso perante a Assembleia de 1124, como o regista Suger, Luís VI 85 afirmava que os Franceses eram chamados a governar a Alemanha da mesma forma que a França, implicando isso que não fosse o imperador alemão mas sim o rei francês o herdeiro legítimo da tradição carolíngia 86. Tais pretensões eram suficientemente perturbadoras para serem pelo menos em parte responsáveis pela decisão do imperador Frederico I de fazer canonizar Carlos Magno (1165) e de fixar o seu culto em Aachen 87. Em França estas medidas mantiveram-se sem efeito. As suas memórias da dinastia carolíngia convergiam para St.-Denis.
Não deixava certamente de ter significado o fato de o discurso programático de Luís VI ter sido proferido nesta abadia. Nela receberam Carlos Magno bem como o seu pai, Pepino, a consagração real. Carlos Martel, Pepino e Carlos o Calvo foram enterrados em St.-Denis. Carlos Magno e outros membros da sua casa tinham enriquecido o santuário com doações que Suger assinalava aos seus visitantes três séculos mais tarde. Estas oferendas incluíam, ou melhor dizia-se incluírem, as relíquias de Lendit. Suger teve particular cuidado em fazer dessas reliquias
parte da lenda Carolíngia, e em usar essa lenda no intuito de intensificar o esplendor das reliquias. Os meios que Suger empregou com esse fim surgem ao leitor moderno como bastante peculiares. Não devemos ignorá-los, na medida em que fazem parte da sua actividade de esta dista e, acima de tudo, nos permitem compreender a ideologia política da qual a igreja de St.-Denis viria a tornar-se a expressão monumental.
Vimos já que Suger empregava a historiografia como instrumento político. Por esta mesma razão a história não era para ele meramente, nem mesmo primordialmente, a documentação de fatos, mas antes a criação da realidade política. Ele não estava mais inclinado do que os seus contemporâneos a deixar a prova factual interferir com os voos da imaginação. Para realizar os seus objectivos políticos, Suger recorria à poesia e à fábula. Daí que esses objectivos não só aparecessem na história oficial que ele escreveu ou inspirou, mas também nas len das populares dos jograis que eram lançadas pela abadia e depressa se tornaram o meio mais eficaz através do qual o grande santuário se estabeleceu na mente do público.
«<Se»>, escrevera Joseph Bédier, «no tempo da Primeira Cruzada algum infortúnio tivesse arruinado a Abadia de St.-Denis e dispersado a sua comunidade, várias das nossas chansons 88 de geste, incluindo as mais famosas, nunca teriam vindo a existir.» Não resta dúvida alguma de que os monges desta instituição proviam os jograis com o material para os seus poemas épicos e nalguns casos eles mesmos os compunham' Os jograis, em contrapartida, asseve 89 ravam que tinham encontrado as suas histórias registadas nas crónicas oficiais do reino, com 90 postas e preservadas em St.-Denis. E as afinidades entre essas crónicas e alguns dos poe mas épicos vão ao ponto de obstar a qualquer outra dúvida relativamente à sua fonte comum. Isto aplica-se acima de tudo aos poemas épicos e lendas em que St.-Denis é retratado como o centro espiritual de França.
Tal recurso à ficção com intenções políticas era, senão justificado, pelo menos tornado desculpável pelos hábitos de pensamento e de crença que, naquela época, moldavam a opi nião pública. Sob o predecessor de Luís VI, o relativamente fraco Filipe I, as tendências cen trífugas que agiram nos grandes centros feudais de França não só foram refletidas mas pode rosamente reforçadas por chansons de geste nas quais o zelo do patriotismo local exaltava as glórias religiosas e históricas daquelas pequenas capitais". Sob Luís VI, e em larga medida graças à acção de estadista de Suger, o poder da monarquia foi gradualmente consolidado. A coro foi bem sucedida ao reivindicar as suas pretensões de superioridade mesmo em rela ção aos maiores senhores do reino. E é este desenvolvimento que é, desde o tempo de Suger, uma vez mais refletido na chanson de geste: St.-Denis surge agora como a capital da França carolíngia, um grande centro de peregrinação que está particularmente próximo do coração de Carlos Magno.
Tudo isto poderia não ter mais do que interesse marginal no presente contexto, fossem estas lendas somente popularização do fato histórico. Mas para as suas audiências, senão mesmo para os seus autores, nenhuma distinção clara separava o fato da ficção. Assim, aquilo que nos surge somente como uma imagem lendária da grande abadia, ou como produto do pensamento cúpido por parte da sua comunidade, fora na realidade projectado como um instrumento para a realização das pretensões sobre as quais repousavam as aspirações eclesiásticas da casa.
Isto é particularmente válido para duas obras literárias. A primeira destas é a Descriptio latina da viagem lendária de Carlos Magno à Terra Santa, e a sua popularização, a Péleri nage de Charlemagne. Ambas remodelaram inteiramente a lenda com o único propósito de propagar a fama das relíquias da Paixão que St.-Dinis possuía e em nome das quais o Lendit fora instituído. Carlos Magno é mencionado como tendo recuperado as relíquias da Terra Santa e como tendo-as trazido para Aachen. Daí, Carlos o Calvo transferiu-as para St.-Dinis. A Pélerinage, contudo, afirma que o próprio Carlos Magno presenteou o mosteiro com as relíquias. Para cores mais vívidas a esta lenda, ela é fundida com a grande saga nacional do passado recente: na Descriptio, a viagem do imperador aparece como uma cruzada; a Terra Santa é retratada na precisa condição em que os cruzados de 1096 a encontraram".
A segunda obra, não sendo chanson de geste, embora inteiramente fictícia, pretende ser 94 a vida de Carlos Magno e de Rolando, composta pelo amigo íntimo do imperador, o arcebispo Turpin, que fora monge e tesoureiro de St.-Denis antes de ser elevado à Sé de Reims 4. Muitos detalhes da origem desta estranha obra são obscuros e assim podem permanecer para sempre. Foi composta em meados do século XII; e ao reviver as memórias da «cruzada» espanhola de Carlos Magno, o Pseudo-Turpin, como a obra é comummente chamada, presta forte apoio às pretensões da Abadia de St.-Denis Isto surge na sua forma mais notável no Capí 95 tulo 30%. Nele nos é dito que Carlos Magno regressou da «<cruzada»> para St.-Denis. Uma vez ai chegado, convocou uma grande assembleia no intuito de proclamar os singulares privilégios que decidira atribuir à abadia. Toda a França pertencerá a St.-Denis. Os seus reis e bispos deverão submeter-se ao abade como representante do santo. Sem o seu consentimento, nem o rei nem os bispos podem ser consagrados. Em suma, o abade de St.-Denis deverá ser o primaz da França. O que torna a história mais significativa é o fato de num capítulo anterior ser referida uma idêntica proclamação imperial em favor de Santiago de Compostela" E neste caso a história está muito próxima de reflectir a realidade histórica, tanto mais que o arcebispo de Compostela, que devia a sua dignidade metropolitana a Calisto II, tinha, no início do século XII, reivindicado com efeito as suas pretensões de primado sobre a Igreja Espanhola.
Que o Pseudo-Turpin era considerado uma autêntica obra histórica, é certo. Em 1180, Godofredo, prior de St.-Pierre de Vigeois, e um notável historiador no seu tempo, enviou uma cópia desta obra para os religiosos de St.-Martial em Limoges. Por esse tempo o livro era já famoso. Godofredo declara que transcrevera essas «<ilustres vitórias do invencível Carlos e as suas batalhas do grande Conde Rolando em Espanha» com o maior cuidado possível, tanto mais que até então esses acontecimentos apenas tinham sido conhecidos através das fábulas dos jograis. Nalguns sítios, onde o texto se tinha tornado ilegível, o prior tentara preencher as lacunas através de pequenos acrescentos. Mas tão certo ele está da autoria de Turpin que o preocupa a possível irreverência de tal correcção e conclui invocando a intercessão do arcebispo, que agora está no céu, perante o divino Juiz.
O Pseudo-Turpin bem como o Descriptio qualiter Karolus eram tidos com ainda maior seriedade em St.-Denis. As duas passagens acima sumariadas estavam eventualmente inseridas na edição Francesa das Crónicas de St.-Denis, prova de que o grande mosteiro considerava ambas as obras meios através dos quais «podia comunicar aos espíritos de uma nova e multiplicada elite a sua visão da França cristã» 100. Isto não é tudo. Antes do final do século um falso decreto, pretensamente de Carlos Magno, revelava ponto por ponto os extraordinários privilégios que o imperador, de acordo com o Pseudo-Turpin, conferira a St.-Denis, incluindo a dignidade primacial do seu abade.
Com efeito, se as duas histórias fossem assumidas como verdadeiras, estavam destinadas a aumentar imensamente o prestígio da abadia. Ambas exaltam St.-Denis como sendo o santuário de relíquias particularmente veneradas pelo próprio Carlos Magno: o capítulo no Pseudo-Turpin gravita em torno das reliquias do Apóstolo de França e dos seus companhei ros, a Descriptio em torno das relíquias da Paixão. Entretecendo habilidosamente os motivos da cruzada, da peregrinação, e do mito carolíngio, as duas lendas retratam, além disso, St.-Denis não só como um grande centro religioso como Santiago, mas também como a capital do reino; dai, o imperador parte para a Terra Santa, e aí regressa vindo de Jerusalém bem como da sua «cruzada» espanhola.
Mas para o leitor francês do século XII, estas histórias não só revivificavam o grande passado da abadia; os acontecimentos registados articulavam-se tão curiosamente com certas ocor rências que os próprios leitores tinham testemunhado, que poderá ter sido difícil não ver o presente à luz transfiguradora do passado. Com os acontecimentos de 1124, St.-Denis tornara -se, pela própria declaração do rei, o santuário nacional de França. A campanha contra o imperador alemão, que começou e terminou em St.-Denis, teve algo de cruzada aos olhos dos Franceses. Suger, pelo menos, apresentou-a a esta luz e foi muito provavelmente responsável pela cerimónia que na abadia culminou na investidura de Luís VI com o estandarte do santo, a mesma cerimónia que precedeu a partida de Luís VII para a cruzada de 1147. Na sua história, Suger alega que o imperador não só tinha sido ignominosamente derrotado, mas que pouco depois sucumbiu misteriosamente, assediado pela cólera dos patronos de França cujo repouso ele tinha sacrilegamente perturbado 102. Além disso, a posição de Suger desde 1124 era tal que bem pode ter inspirado as pretensões primaciais que a lenda carolingia criara em favor do abade de St.-Denis. Ele apresentara a Luís VI, como vassalo do santo, o vexilo de St.-Denis. A insistência de Suger de que a insígnia da coroa «pertencia» por direito a St. -Denis parece encerrar a pretensão de que o abade de St.-Denis fosse também investido da função primacial na consagração real. E durante os anos da sua regência, Suger foi de fato, senão de nome, primaz da França.
O que tornou a narrativa destas «histórias»> carolíngias tão eficaz politicamente foi a inca pacidade medieval de distinguir passado e presente, mais exatamente, a tendência para ver no passado histórico a justificação para o presente político. O próprio Suger, tal como vimos, procurou fazer os seus contemporâneos entenderam o plano da sua governação como uma renovação da idade carolingia. A épica popular demonstra como ele foi bem sucedido ou como compreendeu bem o seu tempo: o Professor Olschki salientou que a figura do abade de St. -Denis, tal como parece nas chansons de geste, não é de todo a de um prelado que foi contemporâneo de Carlos Magno, mas antes a do próprio Suger, o grande estadista eclesiástico de quem todos os jograis tinham ouvido falar e a quem muitos poderão mesmo ter visto na presença do rei.
Seria Suger responsável por falsificações históricas e poéticas, das quais a intenção era certamente promover os objectivos políticos da sua abadia? O falso decreto, pelo menos, não foi composto até depois da sua morte, e aquilo que conhecemos da sua personalidade torna a falsificação deliberada, na nossa opinião, muito improvável. Por outro lado, que o Pseudo -Turpin tenha tido origem em St.-Denis é no mínimo possível; que a Descriptio a tenha tido, é certo. O conteúdo e implicações de ambas as obras estão demasiado próximas das perspectivas de Suger para nos permitirem presumir que ele as ignorasse. Não podemos explicar a licença poética com que tratavam a verdade histórica com intenções políticas a menos que tenhamos em mente que o que constituía a realidade para o homem medieval não era o fato palpável, mas o seu significado transcendental; à luz de ideias e crenças, qualquer fenómeno surgia romanticamente transformado. É esta perspectiva quixotesca que torna Suger simultaneamente um informador defectível e um grande artista. Tais considerações gerais, no entanto, não são resposta adequada à vexatória pergunta formulada no parágrafo anterior. O Professor Walpole sugeriu, com argumentos que não podem ser facilmente rejeitados, que quem quer que tivesse a responsabilidade geral pelas prodigiosas actividades histórica e «<épica>>> levadas a cabo em St.-Denis durante o segundo quartel do século XII estava ciente da fronteira que separa o fato histórico da lenda piedosa. Essa pessoa no poder, é claro, apenas podia ter sido Suger. Ele conhecia o Pseudo-Turpin bem como a Descriptio e é, pelo menos dentro da órbita de St.-Denis, de longe a pessoa mais plausível para ter sido responsável pela distribuição e até mesmo pela encomenda destas obras-primas da propaganda eclesiástica. Mas Suger não era menos responsável, tal como vimos, pelo impulso dado à historiografia em St. -Denis. E não há razão para que não devamos creditá-lo directa ou indirectamente com a surpreendente omissão do Pseudo-Turpin bem como da Descriptio da história do reino, muito embora ambas as lendas tenham originalmente sido incluídas na colecção de «fontes>> documentais na qual a obra histórica se devia basear 104. O próprio Suger, tal como vimos, tinha ocasionalmente obliquado, nos seus próprios escritos históricos, a narrativa de acontecimentos no intuito de enfatizar o seu significado tal como o via e tal como pretendia que os leitores com ele o vissem. Mas não permitiu que a lenda política penetrasse a sua obra histórica - é significativo que ele se abstenha, tal como Mrs. Loomis assinalou 105 da momentosa identificação do vexillum S. Dionysii com o pendão sagrado, muito embora a sua descrição da investidura de Luís VI com a bandeira de St.-Denis fosse de tal modo que convidou à sua subsequente identificação.
Não recordará a capacidade para distinguir entre a história factual e a lenda patriótica, embora habilmente para fazer uso de ambas quando as exigências e as limitações de uma dada audiência o pudessem requerer, uma distinção semelhante numa outra esfera? S. Bernardo, tal como vimos, baniu toda a imaginária dos claustros da sua ordem, como inviabilizando a elevação espiritual dos seus monges. Ele próprio, contudo, concedeu que o uso de tal imaginária podia ser permissível e mesmo necessário para despertar o fervor religioso de um laicado mais «carnal». Suger, parece, usou similarmente a lenda para imprimir na mente do laicado a causa à qual devotou a sua carreira eclesiástica; mas excluiu esta mesma lenda das obras históricas que escreveu ou encomendou para proveito do clero ilustrado. Lenda e historiografia, porém, tinham a mesma intenção; ambas desdobram a mesma ideologia perante nós; é apenas o meio que difere.
Quando considerarmos conjuntamente os escritos de Suger, com a sua inclinação política, e as mencionadas lendas carolíngias, compreendemos o «grande designio» do abade para St.-Denis bem como para a França. E é à luz destas actividades literárias que o grande projeto artistico ao qual devemos agora voltar tem de ser compreendido. Suger empreendeu a reconstrução da sua igreja na intenção de concretizar o seu plano-mestre na esfera da política. A sua visão como homem de Estado impôs-se ao projecto arquitetónico; ele concebeu -o como a expressão monumental dessa visão. Não só como local sagrado mas como obra de arte, o santuário devia eclipsar os grandes centros de peregrinação da Europa ocidental; devia resistir à comparação, como veremos, com Constantinopla e em certo sentido com Jerusalém. A nova igreja é, num sentido muito real, parte do «mito» de St.-Denis. A sua arquitetura e a retórica pictórica das suas esculturas e dos seus vitrais dirigem-se à mesma audiência que Suger procurou alcançar enquanto autor, ou através das obras históricas e épicas que encomendou no seu mosteiro. É sumamente significativo que entre as celebradas janelas com as quais ele adornou o santuário duas invocassem as suas acarinhadas ideias de cruzada e 106 peregrinação. Uma representava a Primeira Cruzada, a outra a viagem de Carlos Magno' Esta lenda recebeu, assim, a sanção oficial de Suger: aos visitantes da grande igreja não era permitido questionarem a origem carolíngia do culto das relíquias que os chamava a St.-Denis na festa do Lendit. (Ver Ad.)
