OTTO VON SIMSON Cap V - VI - Sens e Chartres Ocidental - O Palácio da Virgem



 

V - SENS E CHARTRES OCIDENTAL Otto Von Simson


A Catedral de Sens é a primeira catedral gótica. O seu plano pode mesmo anteceder St.-Denis de Suger. Iniciada sob o arcebispo Henrique (m. 1142), cognominado o Porco, as fundações recem ter sido lançadas pouco depois de 1130. As abóbadas de cruzaria de ogivas e a integral lógica de todo o sistema tectónico típico do Gótico foram mesmo contempladas no plano original: na nave, as bases das colunas de suporte das nervuras diagonais estão colocadas obliquamente, prova de que as colunas foram desenhadas com esse propósito desde o princípio”. Para além disso, o sistema de Sens revela a clara distinção entre o «esqueleto» tectónico, nervuras e meias-colunas, e os segmentos de parede entre elas — estes últimos, enquanto meras <obturações», reduzidos ao mínimo — que temos vindo a identificar como Gótico. Alguns elementos isolados, como sejam a articulação de colunelos individuais em feixes de suportes ou a abóbada sextipartida, são talvez importações da Normandia. Mas a disposição oblíqua das colunas de base sob as nervuras diagonais está para além dos modelos conhecidos naquela região. Nenhum dos exemplares sobreviventes da arquitetura normanda emprega consistentemente meias-colunas colocadas diagonalmente em todo o seu sistema; de facto, os mais antigos exemplos conhecidos deste expediente, onde quer que seja, não ocorrem mais de uma década antes do seu aparecimento em Sens'. Esteticamente, este detalhe aparentemente insignificante é de grande importância. Induz a vista, tal como salientou o Professor Sedlmayr, a ver todo o edifício, abóbadas e suportes, como uma unidade: as nervuras que despontam das meias-colunas diagonais podem ser vistas como se se elevassem directamente do nível do chão".


Outra importante realização da Catedral de Sens é a abóbada da sua ábside. Tal como em St.-Denis, é uma genuína abóbada em ogiva, com os seus diferentes painéis suportados por nervuras que convergem para uma chave de abóbada comum. Somente alguns anos antes, o mestre da grande Abadia normanda de St.-Georges de Boscherville procurara superar a discrepância entre a abóbada de ogiva de cobertura da nave e do antecoro e a meia-cúpula sobre a cabeceira colocando «falsas nervuras» sob a meia-cúpula'. Não podemos dizer ao certo se a de longe mais satisfatória solução «gótica» fora antes alcançada em Sens ou St. Denis. O coro de Sens foi provavelmente terminado muito mais tarde do que o de St.-Denis, mas o seu projeto original poderá anteceder o de Suger.


Noutros aspectos, porém, a Catedral de Sens é muito mais conservadora. A luminosidade não foi, evidentemente, uma preocupação primordial. Se se comparar Sens e St.-Denis em relação a este aspecto, compreender-se-á muito mais claramente a singularidade das aspirações de Suger. As janelas do clerestório em Sens eram pequenas. Um século mais tarde, quando o anseio geral pela luz impeliu também ao alargamento das janelas de Notre Dame de Paris, foi decidido encetar o mesmo passo em Sens. As janelas da catedral foram alteradas, mau grado o facto de esta medida requerer a tarefa particularmente difícil de mudar a curvatura das abóbadas?.


O aspecto não menos importante da Catedral de Sens no que respeita ao futuro desenvolvimento da arquitetura gótica é o seu alçado tripartido. Em vez do plano quadripartido adotado por todas as catedrais francesas durante a segunda parte do século XII — uma tribuna e um trifório colocados entre as arcadas da nave e o clerestório — o arquiteto de Sens limitou-se a construir um «falso trifório», isto é, aberturas no forro acima das naves laterais, e não

gem. O alçado tripartido não lhe veio da Normandia mas da Borgonha (Autun Langres). As suas consequências estéticas são dúplices: ela reduziu grandemente a zona existente entre as aberturas das arcadas e janelas e aumentou, por consequência, ainda mais a importância dos suportes em detrimento das paredes entre eles. Segundo, o alçado tripartido teve um profundo efeito sobre as proporções do edifício. Reduziu obviamente a sua altura; mas esta «moderação» — no sentido de São Bernardo — tornou também possível uma harmonia de proporções que é borgonhesa no mais específico sentido da arquitetura cisterciense: tendo a planta de Sens sido desenhada ad quadratum, os tramos quadrados da nave têm o dobro da largura dos das naves laterais; devido ao alçado tripartido, foi possível dar a mesma proporção às alturas relativas da nave principal e das laterais. O alçado da nave até ao despontar das abóbadas é, além disso, subdividido ao nível dos assentamentos da arcada, em duas partes iguais: a oitava relação de 1:2 penetra todo o edifício.


Dificilmente podemos duvidar de que esta catedral decisivamente despretensiosa, suavizada a austeridade das suas formas pela harmonia das suas proporções, traga a marca das visões estéticas de São Bernardo. O construtor da catedral, arcebispo Henrique, foi talvez o mais forte expoente, entre os prelados do domínio francês, das ideias bernardianas de reforma. Após a sua anterior conduta mundana ter provocado as críticas de Bernardo, submeteu-se, em 1126, às idéias eclesiásticas e ascéticas do abade de Claraval a tal ponto que, tanto ele como o seu sufragâneo, o bispo de Paris, incorreu na ira momentânea e, aparentemente, até mesmo na perseguição de Luís VI, que mesmo Suger foi incapaz de evitar'. É sintomático que nesta emergência Henrique tenha apelado para o capítulo geral dos Cistercienses, o qual acabava de se reunir em Cister, pedindo a intervenção da ordem, dado que, como ele o disse, ela se achava ligada por fraternal afeição tanto ao rei bem como a ele mesmo. Dada a sua conversão, o arcebispo podia contar com Bernardo de Claraval como seu amigo e aliado. O abade apelou diretamente para Luís VI, e, repreendido pelo rei, recorreu para Roma. Na sua carta ao papa Honório, na qual associava as assinaturas dos abades de Cister e Pontigny à sua, Bernardo chama a Herodes disposto a destruir os bispos recentemente reformados, os quais ele compara com Inocentes de Belém dado que tinham «renascido» para a nova vida.



Não pode haver dúvida acerca da sinceridade da estima de Bernardo por Henrique. Pelo final da sua carreira (1137), o carácter inflexível e tempestuoso do arcebispo conduziu-o a sérias dificuldades com a sua hierarquia e eventualmente com o papa. Até mesmo na irada reprimenda que Bernardo dirigiu a Henrique nessa ocasião, se sente real preocupação por um amigo que fornece Os inimigos com armas de ataque que deixam os seus apoiantes impotentes para o defenderem "


Mais aprendemos acerca da relação entre os dois homens pelo tratado Sobre a Conduta e Ofício de um Bispo, composto por Bernardo a pedido de Henrique, pouco depois da «conversão» deste último, a qual é mencionada com grande elogio no preâmbulo. No tratado, Bernardo perspectiva aquilo que ele considera a conduta exemplar de um bispo, seguramente com um olho posto no carácter especial e nas obrigações do arcebispo de Sens


Entre os pontos que Bernardo especificamente impõe ao prelado, está a moderação na construção 13. Este facto é-nos relembrado ao olharmos a Catedral de Sens. Iniciada apenas alguns anos depois da ''conversão» de Henrique e da conclusão do tratado, o santuário estava condenado a refletir os postulados arquitetônicos do partido da reforma. É um pensamento tentador embora não mais do que uma simples possibilidade- que o sínodo que, em 1140, Henrique convocou para Sens se possa ter reunido no recém-terminado coro da catedral ¹³. O 15 sínodo resultou na derrota completa de Abelardo e no maior triunfo teológico de Bernardo de Claraval. Bernardo poderá ter visto naquela ocasião, pelo menos parte da primeira catedral gótica terminada, o que testemunhava, na veemente linguagem do seu estilo, a espantosa ascendência alcançada naquela hora pelo abade de Claraval sobre toda a hierarquia de França.


Era significativo que a primeira catedral gótica tivesse sido construída em Sens, e foi indubitavelmente importante para a sorte do novo estilo. A sé de Sens não fora capaz de manter as suas elevadas pretensões ao primado «de toda a Gália e Germânia», embora dentro do domínio francês propriamente dito fosse sem dúvida a primeira 16. À insistência de Luís VI, que considerava insofrível que a principal arquidiocese do seu reino estivesse sujeita ao primaz «<estrangeiro» de Lyons, o papa Calisto II consentira em romper este vínculo ¹. A província de Sens incluía entre os seus sufragâneos os bispos de Paris e Chartres. Era um facto de grande importância que o arcebispo de Sens, juntamente com os bispos de Paris e Chartres, tivesse sido vencido pela ideia de reforma eclesiástica de Bernardo. O estilo gótico da catedral de Henrique não presta, no entanto, apenas tributo à espiritualidade de Claraval; a própria monarquia, tal como vimos, se tinha submetido àquela espiritualidade. A arquitetura da Catedral de Sens é como que um símbolo do conceito da «conduta e ofício de um bispo, a qual se tornou exemplar para o episcopado francês durante a mais grandiosa fase da soberania capetíngia.


O terceiro membro do triunvirato de construtores góticos foi um dos sufragâneos do arcebispo Henrique, o bispo de Chartres. Godofredo de Lèves, filho de uma antiga e poderosa da sua geração". Era amigo comum de Henrique de Sens, a quem na verdade casa do Beauce, é uma daquelas raras personalidades que parecem abarcar os movimentos importantes da sua geração. Era amigo comum de Henrique de Sens, a quem na verdade converteu às ideias de São Bernardo, e de Suger de St.-Denis. Ainda mais íntimas, no entanto, eram as suas relações com o abade de Claraval; os dois pareciam inseparáveis aos seus contemporâneos. A pedido de Godofredo, Bernardo dirigiu-se a Chartres em 1146 no intuito de pregar a Cruzada; nessa ocasião, o grande cisterciense impressionou tão profundamente a cavalaria local, que em vão lhe foi implorado que assumisse a liderança da Guerra Santa 20 Bernardo menciona o bispo de Chartres, a quem ele ocasionalmente acompanhava nas suas missões, com admiração, nos seus próprios escritos.


Godofredo era acima de tudo o mais um homem de Estado; durante quinze anos legado papal, esteve presente em não menos de dez concílios 22. E, como membro do círculo íntimo do rei, foi provavelmente ele, a seguir a Suger, o responsável pelo rapprochement entre Luís VI e São Bernardo, o qual viria a ter tão importantes consequências.


Ao mesmo tempo, porém, o bispo era um distinto teólogo por direito próprio, com um profundo e extremamente alargado interesse pelas correntes intelectuais da época. Godofredo não achava a amizade e o respeito por São Bernardo incompatíveis com a sua admiração pelo gênio de Abelardo 24. O seu principal direito à imortalidade assenta, talvez, no facto de ter sido sob o seu episcopado e devido à sua iniciativa que a Escola de Chartres atravessou o mais esplendoroso período da sua história, o período «mais fértil em produções literárias e mais rico em estudiosos eminentes» 25. Godofredo nomeou os três grandes chanceleres da Escola da Catedral, Bernardo, Gilberto e Thierry 26. Em 1137, quando João de Salisbúria viajou para Chartres, a faculdade incluía Thierry, Guilherme de Conches e Richard l'Évêque 27. Mas mesmo estes nomes mais não dão do que uma imagem parcial do número de eminentes teólogos associados à Escola de Chartres durante o episcopado de Godofredo. Os seus professores e alunos exerceram, durante o século XII, uma influência que se estendia da Inglaterra à Sicília e possivelmente também ao mundo muçulmano. Sem o encorajamento e a proteção do esclarecido amigo de São Bernardo, o ousado sistema cosmológico delineado no Capítulo 2 não poderia ter sido desenvolvido.


Foi sob as ordens de Godofredo que a fachada ocidental da Catedral de Chartres, mesmo na sua presente forma compósita a mais bela de todas as fachadas medievais, foi construída. A sua conclusão, a par com a construção das duas grandes torres de flanco, despertaram em toda a população um entusiasmo até então inaudito 28. Toda a fachada foi desenvolvida em passos sucessivos. A torre norte, ainda isolada do resto do edifício, foi iniciada após um incêndio em 1134 que causara prejuízo considerável à catedral românica do bispo Fulbert. O magnífico Portal Real, a par da torre sul, foram iniciados algo mais tarde. Por volta de 1145 trabalho progredia em ambas as torres. É possível que o programa de esculturas do Portail Royal tenha sido desenvolvido gradualmente em vez de um só fôlego. 


Estes trabalhos revelam a importância da arte religiosa naquele tempo; eles sugerem uma surpreendente preocupação com problemas de plano e composição, sobretudo e para além de quaisquer considerações práticas. As partes arquitetonicas mencionadas eram desnecessárias de um ponto de vista prático. A sua função era primordialmente simbólica. É de considerável interesse que muitos largos recursos e uma acumulação de talento artístico tenham sido empreguese por um amigo de São Bernardo- num empreendimento arquitetonico deste género.


A fachada ocidental de Chartres tem para a escultura gótica o mesmo significado que a Catedral de Sens e o coro de St.-Denis têm para a arquitetura gótica. Ela está, para além disso, estreitamente relacionada com a fachada ocidental de St.-Denis. O bispo de Chartres era um amigo chegado de Suger e visita frequentemente St.-Denis. Suger menciona uma missa que Godofredo celebrou no coro rudimentarmente concluído, e também a sua presença na consagração final 30 As afinidades estilísticas entre as duas fachadas refletem as relações pessoais entre os dois prelados e as afinidades básicas nas suas convicções e gostos. A fachada de St.-Denis antecede a de Chartres e pode mesmo, nalguns aspectos, ter-lhe servido como modelo. Parece ter havido permuta de artesãos entre as duas obras. Mas os detalhes respeitantes à relação entre as duas fachadas têm até aqui desafiado clarificação satisfatória. Dado que as figuras do umbral do portal de Suger não são mencionadas na sua descrição do mesmo, não podem ter sido executadas até à morte do abade em 115131. Neste caso, poderiam ser posteriores às estátuas correspondentes do Portal Real de Chartres. Em contrapartida, os desenhos reproduzindo as estátuas de St.-Denis, publicados por Montfaucon (as estátuas foram destruídas em 1771), bem como três cabeças, agora em museus americanos, que podem ser atribuídas àquelas mesmas estátuas, sugerem um estilo mais primitivo do que o de Chartres ocidental, pelo menos mais primitivo do que o das figuras atribuídas ao mestre escultor 32. A mesma impressão é confirmada pelas recentes análises de W. São Stoddard aos detalhes ornamentais de ambas as fachadas. Definitivamente arcaico e de inferior qualidade é um grupo de pequenas cabeças, agora no Louvre, que parecem ter pertencido às estátuas do tímpano e arquivoltas de St.-Denis.


A comparação das duas fachadas sublinha a singular realização de Chartres. É aqui que o novo estilo, sob a condução de um grande escultor, parece subitamente ter-se definido, realizando a visão estética do primeiro Gótico com definitiva claridade e grandeza. Nenhuma outra obra de escultura medieval produziu idêntica impressão sobre os seus contemporâneos; ainda hoje podemos seguir a sua influência muito para além dos limites do domínio franco ou mesmo de França. E nenhuma outra obra supera de tal forma os seus possíveis protótipos ou modelos. Na medida em que a estatuária de Chartres ocidental é essencialmente uma parte da arquitetura e sublinha dramaticamente o impulso estilístico que a arte gótica inicial produziu, deve ser dita uma palavra acerca do seu significado bem como das suas origens possíveis. Segundo uma tese que conquistou larga aceitação entre os estudiosos, a statue colonne foi na verdade inspirada pela iluminaura de livros cisterciense, onde a figura humana está ocasionalmente ligada à inicial I de uma forma que sugere, de facto, a associação de coluna e estátua na escultura das catedrais da Île-de-France". As influências borgonhesas sobre esta escultura são prováveis, dado que, pelo menos no detalhe ornamental, foram descobertas várias correspondências em obras de ambas as regiões 14. Mas derivar a statue colonne das iniciais cistercienses parece-me a mim uma questão muito diferente, e isto por duas razões. Em primeiro lugar, o que importa numa obra de arte não é o «<objecto» iconográfico mas a «<fórmula»> estilística: ligar a figura humana a uma coluna, pintada ou esculpida, é uma coisa; coordená-las de tal forma que o ritmo de uma penetre também a outra é algo bastante diferente. Mesmo se desprezarmos a diferença de tamanho e de material que separa as estátuas de St.-Denis e Chartres das miniaturas cistercienses, estas últimas são inteiramente falhas na coordenação entre estátua e suporte. Segundo, mesmo o motivo enquanto tal não se confina às iluminuras borgonhesas (mau grado nelas tenha possivelmente surgido pela primeira vez); ocorre, de meados do século XII em diante, em inúmeros manuscritos produzidos em regiões tão distantes como o Norte de França e a Inglaterra, por um lado, e a Alsácia e o Sudoeste da Alemanha, por outro. Em particular, parece ter sido em obras do «<estilo do Canal>>> produzido dentro da órbita normanda em ambos os lados do canal - que uma verdadeira integração monumental de figura e inicial (ou moldura) foi primeiro alcançada, convidando à comparação com a statue colonne 35. A possibilidade de tais laços com o Norte merece a nossa atenção principalmente em vista da notável evidência das origens normandas da arte gótica inicial, especialmente a de Suger, para as quais chamei à atenção no capítulo anterior.



Não deveremos esquecer, no entanto, que as afinidades entre a escultura gótica inicial, e a iluminura sua contemporânea, são talvez menos devidas à influência de uma sobre a outra, do que a uma tendência estilística geral que lhes está subjacente. E essas afinidades não explicam na realidade o que há de tão novo e veemente nas estátuas de St.-Denis e, mais ainda, de Chartres ocidental: apenas podemos descrevê-lo como sendo a ideia de um ícone em pedra. O mais próximo paralelo formal desta extraordinária ideia ocorre, bastante caracteristicamente, nas verdadeiramente esculturais figuras de santos em certos mosaicos da Sicília normanda, como por exemplo, as imagens das duas zonas inferiores das paredes laterais do presbitério de Céfalu, e sobretudo as dos Padres Gregos na parede do transepto norte da Capela Palatina de Palermo e de oito outros santos na face dos pilares da nave no mesmo santuário. Estas obras foram criadas pouco depois de 1150 sendo, pois, exactamente contemporâneas das mais maduras esculturas de Chartres ocidental. 37 Dados os estreitos laços políticos e culturais que então existiam entre a França capetíngia e a Sicília normanda, surge como inteiramente plausível a existência de uma fonte de inspiração comum para os mosaicos e esculturas 38. A influência bizantina, está presente nas três grandes janelas acima do Portal Real. É mesmo verificável nos manuscritos iluminados de Cister 39. Não pode haver dúvida de que o fascínio que a arte da Igreja Grega exerceu sobre a época de São Bernardo, está também refletido na arte gótica inicial. 


A parte tais considerações estilísticas, poderemos perguntar se algo de tangível pode ser constatado relativamente à relação entre a arte de Chartres ocidental e as correntes intelectuais e espirituais do tempo que temos vindo a discutir. Será mera coincidência que uma obra de tão singular importância fosse executada no preciso momento em que tanto a influência de São Bernardo como o prestígio da Escola da Catedral de Chartres se encontravam no seu zénite? O bispo Godofredo estava intimamente ligado com ambos os movimentos; é improvável que as suas visões estéticas deixassem de ser reflectidas no grande - e, até mesmo para os seus contemporâneos, memorável - empreendimento artístico pelo qual ele foi responsável. Mas é muito mais fácil presumir a existência de tais influências do que dizer especificamente de que natureza elas foram. 


Uma abordagem relativamente cómoda é a iconográfica. Assim a torre norte, a que foi começada dez anos antes do resto da fachada e aparentemente sem qualquer ideia de um pro grama abrangente (os seus doadores eram dois dignitários do capítulo), tem ainda alguns dos <<monstruosos>> capitéis mitológicos que foram condenados por São Bernardo. Na torre sul, contudo, os capitéis estão reduzidos a formas vegetais austeramente estilizadas, o que corresponde aos postulados da Reforma 41. Além disso, a composição dos três portais é muito mais extraída de influências ou modelos cluniacenses do que mesmo a dos de St.-Denis. E o benevolente Salvador do tímpano central, tão diferente do temível juiz da escultura românica, é como que uma ilustração monumental do «amor vincit timorem» que resume a nova, mais lírica, Piedade de São Bernardo. 






O portal direito da fachada de Chartres reflete, na sua iconografia, as ideias da Escola de Chartres. No seu tímpano surge a Mãe de Deus entronizada, rodeada, nas arquivoltas, 29 pelas personificações das artes liberais, que são acompanhadas pelos grandes mestres clássicos de cada uma dessas disciplinas; é a primeira interpretação deste tema na escultura monumental. O seu aparecimento neste portal estava muito plausivelmente associado ao facto de o cultivo das artes liberais, especialmente do quadrivio, ser do particular interesse da Escola de Chartres, ao tempo, seu principal motivo de fama 2. A feliz ideia de conciliar este tema com a figura de Maria como Base da Sabedoria revela o objetivo último e o propósito dos estudos liberais na Escola da Catedral. Numa sequência sobre a Encarnação, Alan de Lille retrata as artes liberales como confundindo-se com este mistério 43. Enquanto estudioso, é bem provável que ele tenha estado perante o portal de Chartres. A Encarnação é o tema geral ao qual o seu programa é dedicado, e foi aí que a reputada escola reconheceu esse acto de fé em que o seu conhecimento e sabedoria começavam e findavam.


Mas teria o platonismo cristão de Chartres exercido também influência sobre o estilo, o projeto formal, da fachada ocidental? Está, é claro, fora de questão atribuir ao pensamento abstrato de teólogos ou filósofos a realização de um muito grande artista. Por outro lado, capítulo e bispo assumiam normalmente um importante papel no planeamento e supervisão da arte de uma catedral. E nós tendemos a subestimar o alcance da intervenção das ideias e anseios dos seus patronos eclesiásticos na condução da obra do artista medieval. É precisamente a singularidade e a novidade do estilo alcançado em Chartres ocidental que leva a perguntar se esse mesmo estilo não terá sido criado em resposta aos anseios e ideais expressos pelo capítulo da catedral.


O aspecto singular e único deste estilo é a completa integração de arquitetura e escultura. A figura humana parece fundir-se no rígido padrão das colunas e arquivoltas; talvez seja mais adequado dizer que este padrão ganhou vida na serena e nobre ordem das estátuas. E a concordância de arquitetura e escultura torna visível o elemento geométrico que está na base de toda a composição. Tal como anteriormente foi salientado, as fórmulas geométricas foram também empregues na escultura românica, mas como dispositivos técnicos que ajudam o artista e na obra terminada permanecem largamente despercebidas. O mestre de Chartres tornou a sua composição transparente, como sói dizer-se, no intuito de revelar o princípio geométrico como lei que conduzirá a sua inspiração artística. 


Isto não é mera impressão. Quem quer que fosse o desenhador da fachada, era um mestre da geometria empírica. Por volta de 1150, à luz das especulações da sua Escola da Catedral, Chartres parece ter sido o mais provável de todos os locais onde tal conhecimento poderia ter sido conquistado, bem como aplicado à arquitetura.


No que respeita à fachada ocidental, a largura total dos três portais foi prescrita, ou pelo menos limitada, pelas duas torres laterais, mas o enquadramento superior para a composição é proporcionado pelo frizo horizontal. O rectângulo daí resultante em que os portais estão inscritos, está proporcionado «de acordo com a verdadeira medida», dado que os seus lados se relacionam de forma idêntica aos lados de dois quadrados cujas áreas tenham uma relação de 1:2. O quadrado e o triângulo equilátero prevalecem em cada um dos três portais e seus timpanos; mas de ainda maior interesse é o uso da «secção dourada». Esta proporção-um dos «dois autênticos tesouros» e a «jóia preciosa da geometria», como Kepler lhe chamou ocorre tanto nas estátuas mais aperfeiçoadas dos umbrais como nos grupos das artes e seus correspondentes filósofos, nas arquivoltas do portal da Encarnação. As medições de Messe são tão exactas, e o uso da secção dourada tão óbvio divide as figuras dos umbrais pela






dobra dos cotovelos, a mais notável divisão horizontal das figuras que não há dúvida pos A Escola de Chartres conhecia a importância matemática da secção dourada através de sível quanto a este facto.


Euclides"; Thierry possuía os Elementos, na tradução latina por Adelardo de Bath 46. Além disso, podia-se aprender a forma de construir geometricamente a sectio aurea pelo Almagesto de Ptolomeu. Não é desprovido de interesse o facto de uma tradução latina desta obra, atri 47 buída ao mesmo Adelardo de Bath, parecer ter sido terminada por volta de 1150 e ter sido dedicada, ou a Thierry de Chartres, ou ao seu sucessor como chanceler da escola, Bernardo.


Em conclusão, poder-se-á aventar a seguinte sugestão. O sistema geométrico usado na fachada ocidental de Chartres foi fornecido ao seu mestre, ou mestres, pela Escola da Catedral. A escola ansiava por sublinhar o significado teológico das quatro disciplinas matemáticas, representando-as, nas alegorias do quadrívio, no portal da Encarnação. E para os membros da academia platónica, a geometria surgia como o único princípio de ordem que podia transmitir aos sentidos a visão da glória suprema à qual toda a fachada era dedicada. A fachada evoca, ainda mais perfeitamente do que a de St.-Denis, o carácter místico do santuário como «casa de Deus e porta do céu». Rodeando a majestade de Cristo retratada no tímpano central, nela aparecem os coros de anjos e santos no «<concerto>> da hierarquia celeste. Na «medida e número e peso», Thierry de Chartres procurou apreender o princípio primordial da Criação. O grande escolástico poderá ter vivido para ver o inesquecível tributo prestado ao mesmo princípio pelo mestre artesão que criou a fachada da catedral. 




VI O PALÁCIO DA VIRGEM Otto Von Simson


Não podemos estar certos quanto à data exacta em que o Portal Real da Catedral de Chartres foi terminado. No entanto, dado que a estatuária influenciou as figuras do portal sul da Catedral de Le Mans, executado anteriormente a 1158, pelo menos algumas das esculturas de Chartres ocidental dificilmente poderão ser posteriores a 1155. Mas o trabalho na fachada como um todo, incluindo as três magníficas janelas acima do Portal Real, poderá ter continuado ao longo de todo o terceiro quartel do século, ou mesmo por mais tempo. A grande torre sul - algo desprezivelmente designada vieux clocher, dado que, na realidade, tinha sido começada depois da sua correspondente norte- não estava terminada até cerca de 11642. E as doações individuais «ad opus ecclesiae» feitas em anos subsequentes por elementos individuais do capítulo da catedral, sugerem que os planos estivessem em execução, ou que o trabalho tivesse mesmo sido começado, para a conclusão da torre norte quando ocorreu a catástrofe que deve ter alterado todos os planos existentes³.


Durante a noite de 10 para 11 de Junho de 1194, uma conflagração geral, cujas causas são desconhecidas, destruiu uma grande parte da cidade de Chartres, o esplêndido palácio episcopal construído pelo bispo Yves, e toda a catedral, excepção feita à fachada ocidental. A impressão que o desastre deixou nos seus contemporâneos foi tremenda. Guillaume le Breton, o historiador e poeta da corte de Filipe Augusto, menciona-a tanto no seu Philippid como na sua história do rei. O autor da Crónica de Auxerre registou também o acontecimento, e este passou dessa fonte para o celebrado Speculum historiale de Vincentius de Beauvais. Para lá do Canal, o leitor inglês descobria um registo do grande fogo na Crônica de Guilherme de Newbridge".


Não surpreende que a calamidade que atingiu Chartres, sobretudo a destruição da sua catedral, despertasse tão prolongados e distantes ecos. O santuário era um dos mais venerados relicários do Ocidente. A sua principal relíquia, a túnica ou camisa que se dizia ter a Virgem Maria usado no nascimento de Cristo, atraíra durante séculos largo número de peregrinos. No início do século XII, Guibert de Nogent observou que a relíquia, bem como




o nome da Virgem de Chartres, eram venerados «por quase todo o mundo latino». O abade de Nogent não olhava sem cepticismo o culto de relíquias tal como o encontrava entre vários contemporâneos seus. Não obstante, olhava com a mais reverente afeição para a Sagrada Túnica de Chartres..


No entanto, a catedral nem só a esta relíquia devia a sua associação com o culto de Maria. Ao presenteá-la à basílica em 876, o Imperador Carlos o Calvo tanto pode ter desejado estabelecer este santuário como um grande centro de peregrinação, como pode meramente ter tido conhecimento da existência de uma tradição muito mais antiga. Acreditava-se que, a Divina Providência chamara Chartres, como a primeira das igrejas da Gália, ao conhecimento do mistério da Encarnação. De facto, dizia-se que o próprio santuário fora construído mais de um século antes do nascimento de Maria, em resposta aos oráculos de profetas e sibilas acerca da Virgo paritura. A Sé de Chartres converteu-se a si mesma em porta-voz de tais crenças. Antes do fim da Idade Média, elas tinham mesmo sido corporizadas na autorizada e solene linguagem da sua liturgia.


A basílica de Chartres era, assim, o centro do culto de Maria em França, senão na Europa ocidental. Não admira que a sua devastação despertasse as mais profundas emoções humanas. O historiador tem toda a razão em tomar a sério tais emoções. Elas fornecem o impulso sem o qual os grandes esforços colectivos são impossíveis e ininteligíveis. Em Chartres, a consternação pela destruição do antigo templo provocou, pouco depois de a calamidade ter ocorrido, a resolução de reconstruí-lo com maior esplendor do que aquele que alguma vez tivera antes. A disposição geral durante aqueles dias poderá talvez explicar por si só o esforço quase inacreditável que produziu, no breve lapso de uma geração, a catedral que admiramos hoje em dia como o mais nobre exemplar da arte medieval.


Estamos razoavelmente informados acerca do estado de espírito que prevaleceu em Chartres após o incêndio, graças a um curioso documento escrito por um clérigo, porventura um cónego da catedral, que, se não foi uma testemunha ocular da conflagração, estava certamente bem familiarizado com os acontecimentos e sentimentos que descreveu. O tratado, Milagres da abençoada Virgem Maria na Igreja de Chartres, data de cerca de 1210, isto é, dos anos em que decorria a construção da nova catedral, e foi provavelmente escrito para ajudar a recolher fundos para este empreendimento. Meio século mais tarde, e depois de a construção ter sido concluída, a pequena obra foi ainda considerada suficientemente meritória por um membro do capítulo da catedral que tinha inclinações literárias - um certo Jehan le Marchand - para ser traduzida para verso francês".


O tratado abre com uma vívida descrição dos enormes prejuízos causados pelo grande incêndio. O autor disserta sobre a angústia daqueles cujas casas e propriedades pessoais tinham sido destruídas, mas mantém que tal dor era inteiramente obscurecida pela consternação sentida por todos perante a devastação da catedral, em cujas cinzas perecera também, ou assim se cria, a Sagrada Túnica.


O povo de Chartres olhara por muito tempo para esta relíquia como a sua proteção contra todos os perigos. Em 911, quando o normando Rolando assediou Chartres, o bispo Gau celinus subira o portão da cidade e, desfraldando a sancta camisia como um estandarte em frente deles, precipitou os terríveis guerreiros normandos no pânico e na fuga 10. 


Dois séculos mais tarde, em 1119, a relíquia, transportada em procissão solene pelo clero e pelo povo, levará Luis VI, então em guerra com Thibault de Chartres a poupar a cidade". O desastre de 1194, que parecia ter destruído tanto a relíquia como o santuário, era geralmente olhado como um sinal da ira divina. Devido aos pecados do povo, a Virgem tinha abandonado o seu relicário, o qual tinha sido «a glória da cidade, o orgulho do país, uma incomparável casa de culto» 12 O seu desaparecimento fez com que todos esquecessem momentaneamente as suas perdas pessoais. A primeira reação, bastante significativamente, foi a de que seria fútil reconstruir quer a basilica quer a cidade. Com a destruição da catedral, o poder numinoso ao qual Chartres devia a sua prosperidade, a sua segurança, e, em verdade, a sua existência, parecia ter partido.


Aconteceu o cardeal Melior de Pisa estar por esse tempo a pernoitar na cidade. Famoso canonista, parecia reunir grandes dons como professor e orador com inusitada argúcia diplomática. Celestino III designara-o como legado papal em França. 13 Segundo os Milagres da Abençoada Virgem, foi em grande medida este homem o responsável pela mudança de estado de espírito do capítulo da catedral, bem como do povo de Chartres, do desespero para o entusiasmo. O cardeal estava bem familiarizado com o capítulo. Tinha assistido o bispo, Renaud de Mouçon, na então recém-terminada reforma da organização administrativa do capítulo (ver adiante, p. 141). Agora, imediatamente após o incêndio, Melior encetou duas iniciativas. Reuniu-se com o bispo e os prebendários, e nesta conferência salientou com grande poder de argumentação que a única resposta adequada à calamidade que atingira Notre Dame era reconstruir a catedral. A impressão das suas palavras foi tal, que o bispo e o capítulo decidiram empenhar a maior parte dos seus rendimentos nos três anos seguintes, exceptuando apenas o que fosse necessário para a sua subsistência, na reconstrução da igreja.


O cardeal de Pisa escolheu em seguida, um dia de festa para convocar uma assembleia do povo de Chartres. Perante essa multidão repetiu o seu apelo com uma eloquência que provocou lágrimas nos olhos da sua audiência. E, pelo que parecia ser uma feliz coincidência, nesse preciso momento apareceram o bispo e o capítulo transportando em solene procissão a Sagrada Túnica, que ao contrário da crença geral tinha, a salvo na cripta da catedral, sobrevivido imune à conflagração. A espantosa ocorrência causou uma incrível impressão. Todos empenharam os bens que tinham salvo na reconstrução do santuário. O temperamento medieval, como frequentemente poderemos ver, era dado a mudanças súbitas, do desespero à alegria. Em Chartres era agora subitamente pretendido que a própria Virgem permitirá a destruição da antiga basílica «porque queria que em sua honra fosse construída uma nova e mais bela igreja.


Guillaume le Breton faz eco deste sentimento. «Naquele tempo»>, escreve ele no seu grande poema latino em honra de Filipe Augusto, «a Virgem e Mãe de Deus, que é chamada e em verdade revelada como sendo a Senhora de Chartres, queria que o santuário que é tão especialmente seu, fosse mais digno de si. Permitiu, pois, que a antiga e inadequada igreja se tornasse vítima das chamas, criando assim espaço para a atual basílica, a qual não tem igual através do mundo inteiro. O primeiro a dar voz a esta convicção poderá na verdade ter sido o cardeal de Pisa. Tal como Suger de St.-Denis, ele representava a construção de um magnífico santuário como um acto de edificação espiritual, uma obra de verdadeira penitência que exige que todo o esforço seja colocado ao serviço de Cristo e de sua mãe." 


As emoções daqueles que estavam em vias de empreender o grande projeto arquitetônico são dignas de nota em ambos os aspectos que descrevi. Há antes de mais a intensidade da dor na perda do santuário. Seria um erro ver na descrição dessa dor um piedoso ou poético lugar-comum ou simplesmente um exagero por parte do autor dos Milagres da Abençoada Virgem. A religião do homem medieval era uma comunicação com uma realidade sagrada, que era invisível, mau grado imediata e constantemente presente. A veneração de santos e suas relíquias, as repercussões que este culto exerceu sobre quase todas as fases da vida medieval - Suger e St.-Denis forneceram-nos disso um exemplo são ininteligíveis a menos que o imediatismo dessa relação com o sobrenatural seja devidamente compreendido. A vida da cidade dependia do poder divino e, mais diretamente, da proteção e intercessão do seu santo padroeiro. Este sentimento, tal como os Milagres da Abençoada Virgem tornam perfeitamente claro, prevalecia entre a população de Chartres. A catedral era referida como sendo «<a corte celeste da Mãe de Deus», escolhida pela Virgem como sua «especial residência na terra», e por ela preferida a todos os outros santuários dedicados a Notre Dame 17 Céu e terra estavam próximos um do outro naqueles dias. Eram como um só no santuário. Era aqui que Nossa Senhora permanecia entre o seu povo. Poderemos nós surpreender-nos com o facto de a presumida destruição da Santa Túnica - provavelmente a mais venerável relíquia de Maria possuída pela Cristandade parecer ter ditado a condenação da cidade; que fosse genericamente considerada uma ominosa indicação de que a Virgem tinha abandonado Chartres?


Inversamente, a miraculosa recuperação da relíquia parecia ser um sinal do seu persistente afecto pela sua cidade. E a destruição da catedral era agora vista, não como uma calamidade mas, quase paradoxalmente, como um sinal de que Maria tinha realmente destinado Chartres a ser a sua residência especial, e de que ela esperava a fidelidade para dirigir todo o esforço para a erecção de um santuário digno desse elevado destino. Daí a súbita mudança do desespero para a alegria confiante.


Mas, ao exortar a que a tarefa de reconstrução fosse empreendida de imediato, o cardeal de Pisa não exprimia apenas o sentimento religioso da comunidade; tornou-se também porta -voz dos seus interesses económicos e políticos. O prestígio e prosperidade da cidade dependiam a tal ponto do elemento religioso, que era necessário reconstruir a consagrada igreja se se quisesse assegurar a sua sobrevivência.


Não imaginamos facilmente até que ponto as esferas religiosa e política se entrecruzavam naquele tempo. A idade das igrejas de peregrinação e das catedrais foi, economicamente falando, a idade das grandes feiras. É bem sabido quão poderosamente estes mercados recorrentes-espasmódicas concentrações da vida económica de regiões inteiras - estimularam o desenvolvimento da cidade medieval. As feiras, contudo, são inseparáveis da vida religiosa da Idade Média; com efeito, nela tinham origem. «Os festivais religiosos»>, escreveu o historiador de feiras medievais, «pela sua solenidade, pelo número de pessoas que atraíam, pela sua repetição regular, e pela segurança que a protecção divina alarga a todas as congregações que têm lugar sob os auspicios de tais festivais, proporcionam necessariamente oportunidades para transacções comerciais. O templo tem sempre atraído o mercador apenas porque atrai os fiéis... Não há nenhuma grande festa sem a sua feira, nenhuma feira sem a sua festa: uma apela à outra.


As feiras eram naturalmente reunidas naqueles dias de festa que atraíam as maiores multidões de fiéis a um dado santuário. Nessas ocasiões, a incorporação dos interesses religiosos e económicos tornava-se manifestamente evidente. Os mercadores achavam frequentes vezes conveniente adoptar a aparência de viajantes piedosos no intuito de conseguirem os muitos benefícios atribuídos aos peregrinos. Em regra, no entanto, este expediente era desnecessário. A própria igreja tinha todo o interesse em proteger, como valiosas fontes de rendimento, os mercados e feiras reunidos sob o seu patrocínio. Algumas das mais importantes feiras do tempo foram na realidade estabelecidas por mosteiros e catedrais. Nesse caso, o elemento religioso mantinha-se um fator decisivo no desenvolvimento dessas feiras. Tal como vimos, o Lendit teve origem na festa estabelecida em honra das relíquias preservadas em St.-Denis. As pretensões jurisdicionais da abadia sobre a feira baseavam-se neste facto; bem como no vasto rendimento que a casa retirava das feiras.


Esta curiosa inter-relação é apenas um outro aspecto do «personalismo»> religioso da época. Qualquer concessão atribuída a uma instituição religiosa, qualquer atividade econômica da qual ela retirasse benefícios materiais, eram consideradas tributos pessoais ao santo padroeiro. A sua infracção era um ultraje cometido contra ele. Carlos o Calvo deu ocasionalmente ordem aos seus oficiais para protegerem as possessões de um mosteiro «como se fossem oferecidas 19 e consagradas a Deus». O abade de St.-Denis ameaçou de excomunhão quem quer que ousasse molestar de qualquer forma os mercadores que frequentavam o Lendit 20. Pensava -se que a segurança e até mesmo os benefícios comerciais de todos aqueles que se dirigiam å feira eram zelosamente guardados pelo santo patrono da abadia. Na realidade, de tal forma se acreditava que ele interferisse diretamente nestas concentrações comerciais, que um súbito declínio dos preços ocorrido num dos Lendits foi interpretado como uma miraculosa intervenção de St. Denis em favor dos consumidores.


Tudo isto é igualmente verdade no que respeita a Chartres. Aqui, toda a vida económica da cidade se centrava primordialmente em quatro grandes feiras, as quais, pelo final do século XII, tinham quase adquirido a reputação das feiras de Brie e de Champagne 22. As maiores feiras de Chartres coincidiam com as quatro festas da Virgem (Purificação, Anunciação, Assunção e Natividade), as quais atraíam inumeráveis peregrinos à catedral. Como as feiras, com toda a probabilidade estabelecidas pelo capítulo da catedral, tinham origem nestes festivais, deles se mantinham dependentes. As recordações religiosas e objetos votivos eram adquiridos pelos peregrinos em quantidades muito consideráveis. Na feira da Natividade (chamada Setembresca, dado que o nascimento da Virgem era celebrado em 8 de Setembro), tais artigos parecem ter constituído o núcleo de todos os bens vendidos 23. Estes objectos votivos eram, as mais das vezes, pequenas imagens em chumbo de Nossa Senhora ou da Sagrada Túnica, mas os peregrinos mais afortunados gostavam de levar para casa autênticas camisetas, as quais, quando benzidas por um sacerdote, se pretendia serem benéficas para a mulher grávida e até mesmo como protecção para o cavaleiro que as usasse sob a sua armadura, em batalha.


Assim até mesmo a manufatura e venda de têxteis - o mais famoso produto da região - beneficiava, tanto direta como indiretamente, do culto da Sagrada Túnica. Isto é ainda mais Assim, até mesmo a manufactura e venda de têxteis - o mais famoso produto da região verdade para os produtores de vitualhas os padeiros, carniceiros, peixeiros e os mercadores de vinho de Beauce, cuja qualidade foi em tempos famosa. Durante os festivais da Virgem, o negócio prosperava para todos estes comerciantes. As suas organizações profissionais, as guildas, figuram muito conspicuosamente, tal como o moderno visitante verifica com espanto, entre os doadores dos vitrais do santuário reconstruído. De facto, as cinco grandes janelas da capela-mor, que honram a Virgem e são em certo sentido as mais importantes de todas, foram presente de mercadores, principalmente os carniceiros e padeiros 26. Estas trans lúcidas composições parecem, assim, ter retido algo das emoções, do sentido de apego à sua catedral, que animava os mercadores e artesãos de Chartres em 1194.


Sem a grande basílica, a sua vida profissional teria sido na realidade dificilmente imaginável. As feiras da Virgem eram organizadas no cloître de Notre Dame, isto é, nas ruas e praças imediatamente adjacentes que constituíam a propriedade do capítulo e ficavam sob a sua jurisdição. O deão mantinha paz e a segurança das feiras. Os mercadores erguiam as suas tendas em frente das casas dos cónegos. As três praças contíguas à catedral eram cenário da mais animada atividade. Combustível, vegetais e carne, eram vendidos junto ao portal sul da basílica, os têxteis, próximo do portal norte 27. À noite, os forasteiros dormiam sob os portais da catedral ou em certas partes da cripta Pedreiros, carpinteiros e outros arte 28 sãos juntavam-se na própria igreja, esperando por um empregador que os contratasse. Mesmo a venda de comida na basílica não era considerada imprópria se conduzida de uma forma ordenada 29. Anteriormente, o capítulo tinha proibido os mercadores de vinho de vender o seu produto na nave da igreja, mas atribuíram parte da cripta para essa finalidade, permitindo assim aos mercadores evitarem os impostos levantados pelo conde de Chartres sobre vendas transaccionadas no exterior 30. As várias ordenanças passadas pelo capítulo para prevenir que a ruidosa e intensa vida do local do mercado transbordasse para o interior do santuário apenas demonstram até que ponto os dois mundos eram, na realidade, inseparáveis.


Ainda mais reveladora do que estes factos, é a íntima interconexão entre os elementos religioso e económico na vida corporativa de artesãos e mercadores. Era habitual para as guildas medievais colocarem-se sob a protecção de um santo patrono e cumprirem na observância regular de certas práticas votivas. Noutros sítios, porém, estas eram confiadas a confrarias que, embora formadas no seu seio e recrutadas entre membros de uma dada guilda, mantinham uma existência independente 31. Em Chartres, no entanto, guilda e confraria tendiam a fundir-se. Os dirigentes da guilda encabeçavam também a confraria. Uma tesouraria servia ambas as organizações, e parece ter sido impossível aderir a uma sem integrar a outra. É interessante verificar que em Chartres várias profissões estivessem originalmente organizadas como confrarias religiosas, muito antes de terem recebido os seus estatutos como guildas. Numa das janelas da capela-mor da catedral, vemos uma bandeira com umas meias vermelhas, certamente o emblema dos mercadores de meias, que se tornaram numa comunidade ajuramentada apenas três séculos mais tarde 32 De igual modo, na segunda capela da parte norte do deambulatório, uma janela é dedicada a São Vicente pelos tecelões de linho, que não receberam os seus primeiros estatutos até 1487. Na inscrição dedicatória da janela, eles identificam-se como «<confrères de St. Vincent», o santo patrono da sua profissão 33. Mesmo a vida corporativa dos artesãos de Chartres estava pois enraizada numa realidade religiosa cujo sustentáculo era a catedral. Sem o santuário, a existência corporativa de Chartres era inconcebível.


Este aspecto da vida medieval é estranho à nossa perspectiva. Nós admitimos e aprecia sinceridade das convicções religiosas. Mas a penetração de tais convicções no mundo dos negócios e da política é já uma outra questão. Tem sido aventado que a invocação de mos a sanções religiosas em favor de tais atividades era hipócrita. E o dispêndio de vastos esforços públicos e de recursos de toda uma comunidade num projeto religioso parece igualmente incompreensivel. Compare-se o passo de caracol a que, no nosso vasto e opulento país, avançam os trabalhos nas catedrais de Washington, D. C., e Morningside Heights em Nova Iorque com a construção de Notre Dame de Chartres por uma pequena comunidade de menos de 10 000 habitantes em menos de uma geração; ou comparem-se as nossas empresas de construção de igrejas na sua totalidade, com o incrível total de oitenta catedrais e quase quinhentas abadias que o Abbé Bulteau, habitualmente um historiador cauteloso, insiste terem sido construídas em França entre 1180 e 1270. No entanto, nós não discernimos a Virgem, como o fazia o povo de Chartres, invisível embora radiosamente entronizada no meio de nós. «<Se pretendermos conseguir o gozo pleno de Chartres», escrevia Henry Adams, «temos, antes de mais, de acreditar em Maria como Bernardo... acreditava, e de sentir a sua presença como


os arquitetos sentiram em cada pedra que colocaram, e em cada toque que cinzelaram.>> Esta relação com o sobrenatural explica o ânimo e o esforço públicos que criaram a Catedral de Chartres. O padrão peculiar da vida medieval torna bastante provável que a comunidade pudesse não ter sobrevivido à destruição da relíquia da Virgem; e a reconstrução de um santuário digno da Sagrada Túnica era uma tarefa tão inevitável como a reconstrução da colmeia para uma colónia de abelhas.


Mas o sentimento religioso que exigia um tão grande empreendimento proporcionava também os meios para a sua realização. Tem vindo a ser recentemente sugerido que a construção eclesiástica, do ponto de vista da história económica, foi o mais destrutivo empreendimento da Idade Média; que as catedrais arruinaram a saúde económica da época 34. Como se as forças econômicas e espirituais desse tempo fossem antagônicas ou pudessem ser concebidas como independentes uma da outra! Na realidade, a construção eclesiástica desvendou novos recursos naturais, desenvolveu potencialidades e perspectivas técnicas, proporcionou trabalho a um largo número de pessoas, e criou mesmo novas profissões.


Tanto no caso de St.-Denis como no de Chartres, a magnífica pedra aparelhada com que estas igrejas foram construídas foi fornecida por pedreiras cuja existência tinha permanecido desconhecida até que a determinação de construir tivesse levado à sua descoberta. Na esfera tecnológica, o século XIII tem sido chamado uma idade de «grandes ideias, mais do que de grandes feitos» 35. Todavia, o abobadar e contrafortar das grandes igrejas góticas representaram realizações que bem poderão ter dado um novo impulso à ciência da estática (que começa o seu prodigioso desenvolvimento precisamente naquele tempo)36 e que alargaram grande mente a amplitude da arte do pedreiro. Isto é ainda mais verdade para a profissão do vidreiro. Esta arte poderia ter honrado o Apóstolo de França como seu santo patrono, tanto mais que a metafísica da luz produzia igrejas translúcidas cujas vastas superfícies vidradas deram um impulso súbito à arte e às técnicas da fabricação do vidro.



O impulso religioso era um elemento tão penetrante da vida medieval, que até mesmo a estrutura econômica dele dependia. De outra forma quase estática, a economia recebeu dos costumes e experiências religiosas o impulso de que precisava para crescer. <<Em Chartres, a construção da catedral atraiu numerosos artesãos. O trabalho nesta empresa transformou indubitavelmente a parte alta da cidade num imenso espaço de construção que ocupava, directa ou indirectamente, toda uma população de trabalhadores.>> 37


Mas como eram financiados projetos de tal magnitude? Uma relíquia celebrada era um objecto valioso, até mesmo em termos financeiros. O imperador Balduíno II de Constantinopla não hesitou em oferecer a Coroa de Espinhos como caução para um vasto empréstimo; e ela foi imediatamente aceite pelos Venezianos, que não podem ser censurados por falta de acuidade comercial 38. A aquisição de uma relíquia famosa e a subsequente construção de um santuário permitindo a sua exposição solene perante largo número de peregrinos representava, financeiramente falando, não um desperdício mas um judicioso investimento. Embora este aspecto do culto de reliquias não fosse o mais importante tido em mente pelos seus responsáveis, não podia por certo ser ignorado. O fantástico leilão (nenhum outro termo parece tão adequado) do grande despojo de relíquias pilhado em 1204 pelos cruzados em Constantinopla, e a subsequente transferência dessas relíquias para os centros religiosos do Ocidente, oferecem um bom exemplo. Uma das relíquias foi enviada para Châlons-sur-Marne. Esperava-se que ela atraísse um grande número de peregrinos e que estes deixassem oferendas substanciais no santuário. Esta mera expectativa foi considerada suficientemente sólida para ser julgada aceitável como contrapartida para um largo empréstimo, parte do qual foi aplicado na conclusão da Catedral de Châlons, parte na construção da ponte da cidade. Notre Dame de Chartres recebeu de igual modo uma oferenda do acervo sagrado de Constantinopla. Luís, conde de Chartres, adquiriu e enviou para a catedral a cabeça de Sant'Ana, relíquia que constituiu indubitavelmente um incentivo para as doações adicionais para o fundo de construção 40.


Qual foi a efetiva quantia dessas piedosas doações? Tal como vimos, Suger obteve desta fonte a maior parte dos recursos requeridos para a construção do seu novo coro. Um outro exemplo é-nos proporcionado pela Abadia de St.-Trond na Bélgica 2. Durante a segunda metade do século XI os milagres que ocorreram no túmulo do santo titular produziram um dilúvio de peregrinos. As doações que eles ofereciam «<excediam de longe», segundo um posterior abade da casa, «<todo o rendimento então ou agora coletado pela abadia». As contribuições para o altar de São Tomás da Cantuária ascendiam em 1220, por ocasião da transladação das suas relíquias, aproximadamente a £ 1,075, escassamente o equivalente ao poder de compra de £ 43,000 nos princípios dos anos 30, segundo a regra de conversão do Professor Coulton 43. Passados alguns anos, o altar de São Tomás produzia um quarto dos rendimentos anuais da catedral.




Era uma vantagem acrescida o facto de tal rendimento, produzido pela popular relíquia, quase não filtrar os recursos locais, mas ser mormente da contribuição de peregrinos do «estrangeiro». E se um acontecimento extraordinário, como fosse a necessidade ou o desejo de reconstruir o santuário protector da relíquia, apelava a despesas extraordinárias, a área visada para doações podia ser ainda mais aumentada pelo envio das relíquias ao exterior, numa campanha de recolha de fundos. No início do século XII, os cónegos de Laon enviaram as suas relíquias até Inglaterra, no intuito de solicitar fundos de construção". As relíquias de Chartres foram levadas ao exterior com o mesmo propósito, no século XI, quando a basílica românica estava a ser construída e ainda, como veremos ao presente, após a sua destruição em 1194. Se as relíquias praticavam milagres, a sua atracção era, é claro, sobremodo eficaz. No início do século XIII, após o trabalho na fachada ocidental de St. Albans ter de ser interrompida por falta de fundos, o abade organizou uma digressão de pregação através de várias dioceses. «Mandou relíquias e também um clérigo chamado Amphibalus a quem o Senhor tinha erguido da morte ao fim de quatro dias, pelos méritos de St. Albano e St. Amphibalus, de tal modo que podia produzir testemunho ocular para os milagres destes santos. Somos informados de que, através desse apelo, foi recolhida uma grande quantidade de dinheiro.


Pelo século XIII, a prática das indulgências proporcionou possibilidades adicionais para o financiamento da reconstrução de uma famosa igreja com a ajuda das contribuições vindas do exterior. Em 1272, o bispo de Regensburg tirou partido da sua presença no Concílio de Lyons para persuadir vinte e dois dos seus confrades bispos, incluindo os das distantes cidades de Toledo e Compostela, a proclamarem indulgências nas suas dioceses para aqueles que dessem dinheiro para a construção da Catedral de Regensburg 45. Ao representar a reconstrução de Notre Dame de Chartres como um acto de penitência que mereceria recompensas espirituais para todos os participantes, o cardeal de Pisa pode bem ter proclamado em 1194 aquilo que seria de facto, se não no nome, uma indulgência em favor daquele projeto 48.


No que respeita a esta catedral, uma relíquia tão universalmente venerada através da Europa como era a Santa Túnica não só exigia a rápida reconstrução do santuário destruído, como estava também destinada a atrair os fundos adequados para a execução do mais grandioso plano. Esta era foi de facto a era da Virgem. As suas mais nobres aspirações eram dirigidas ao culto da Rainha do Céu. E a Catedral de Chartres era o seu palácio. Em retrospectiva, é de crer que nenhuma outra cidade ou diocese tenha estado naquela, ou em qualquer outra altura mais bem preparada, espiritual, política, ou economicamente, do que Chartres para erigir um santuário que, como escreveu Guillaume le Breton, não deveria ter igual na Cristandade.


Politicamente falando, a Sé de Chartres era um dos «<episcopados reais» que tão grande mente tinham ajudado os reis da dinastia capetíngia a aumentar a sua ascendência sobre a França 49. Os condes de Chartres estavam certamente em posição de ameaçar essa ascendência. Thibault o Grande era o soberano de Champagne bem como de Chartres e Blois. Neto de Guilherme o Conquistador, era aliado de Inglaterra e da Normandia, e vimos já que for





midável inimigo de Luís VI e Luís VII continuou a ser por vários anos. Sob tais condições, era sumamente importante para o rei ser capaz de nomear o bispo que dirigia espiritualmente a capital condal e exercia tanto controlo político sobre a cidade de Chartres como o próprio conde 50. Os bispos designados eram, é claro, leais apoiantes do rei. O bispo Godofredo, construtor de fachada ocidental de Notre Dame, era um amigo tão chegado de Luís VI, que Thi bault o Grande o impediu por algum tempo de tomar posse da sua sé. À morte de Godofredo em 1149, Suger lembrou o capítulo da lealdade que qualquer bispo de Chartres devia ao rei de França 52.


Estando, por conseguinte, a Sé de Chartres nas suas mãos, os soberanos capetíngios usaram-na como uma cunha para estabelecer o seu poder em território hostil. Mesmo quando as suas relações com os condes de Chartres eram tensas, os reis reuniram não raro a curia regis, a Assembleia Real, naquela cidade 53. E quando, em 1150, convocou a assembleia que deveria decidir sobre o seu plano para uma cruzada, Suger escolheu Chartres como local da reunião que ele tinha todas as razões para tornar tão impressiva e representativa quanto possível. É revelador o facto de, pelo menos desde meados do século XII, a épica popular nomear Chartres, par de Paris, como uma das capitais e residências reais 55


Este papel político da cidade exigia a demonstração e representação simbólica da autoridade real. A Catedral de Chartres, como o prova a sua liturgia, estava destinada à solene encenação das festivas curiae coronatae em que o soberano, para o exultante acompanha mento das Laudes regiae, aparecia investido com a insígnia do seu poder real, corporificação viva da dignidade à semelhança de Cristo, que o seu ofício lhe atribuía 56. A munificência dos reis capetíngios em relação a Notre Dame de Chartres destinava-se a sublinhar e intensificar a importância da basílica como catedral real.


Durante a segunda metade do século XII, as relações entre as casas de França e de Chartres -Champagne sofreram gradualmente uma mudança completa. Luís VII designou o filho de Thibault o Grande, Thibault V, grão-mestre e senescal de França. Alguns anos mais tarde (1160), o rei casou com a irmã do conde, Alice; e o subsequente nascimento do futuro Filipe Augusto uniu as duas ilustres casas para sempre. Em 1164, um irmão de Thibault V, Guilherme, cardeal de Champagne, foi nomeado para a sé episcopal de Chartres. Ao mesmo tempo, o conde casou com Adèle, filha de Luís VII pelo seu anterior casamento com Eleanor da Aquitânia. Foi um significativo incremento da nova aliança o facto de, em 1167, as tropas do conde bem como as do seu irmão, o bispo de Chartres, se terem reunido às forças de Luís VII na sua campanha contra o rei de Inglaterra. A casa de Chartres-Champagne, fundidos o seu sangue e fortuna com os da dinastia francesa, atingiu o zénite do seu poder. Quando Filipe Augusto, em 1188, partiu para a Terra Santa, designou um conselho de regência com posto pela sua mãe, Alice de Champagne, pelo cardeal Guilherme, e pela sua meia-irmã, Adèle,




condessa de Chartres. A França, poder-se-á dizer, foi momentaneamente governada pela casa de Chartres-Champagne 57.


O prestígio e a prosperidade da Sé de Chartres apenas podiam lucrar com uma tão estreita aliança do rei, do bispo e do conde. Foi auspicioso que esta constelação política tenha coincidido com a reconstrução da catedral. O grande santuário, como veremos, constitui eloquente testemunho de que os governantes de França e de Chartres competiram um com o outro no seu embelezamento. O particular interesse e apoio que o projeto recebe de Filipe Augusto pode ser justificado pelo facto de o sangue de ambas as casas correr nas suas veias. O bispo sob o qual a obra na nova catedral foi iniciada era Renaud de Mouçon (1182-1217) da família dos duques de Bar. Mas era também sobrinho da rainha de França e do cardeal de Champagne, dado que a sua mãe fora uma filha de Thibault o Grande. As relações de família de Renaud, bem como a sua destreza como administrador, foram de importância decisiva em tornar a construção da basílica possível e em alinhar o seu capítulo em apoio do empreendimento. Há uma palavra a dizer acerca deste corpo.


O capítulo de Notre Dame era um dos mais ilustres da Idade Média. «<Li clerc nostre Dame de Chartres>> tornou-se sinónimo de um capítulo igualmente distinto pelo nascimento dos seus prebendários e pelos seus atributos culturais, pelo esplendor com que executaram a liturgia, e pelas suas possessões". A província eclesiástica de Chartres era naquele tempo possivelmente a maior e mais rica de França; mesmo Roma se lhe referia muito simplesmente como a <<grande diocese». Abrangendo uma área de 100 por 130 milhas - 911 igrejas paroquiais, não contando com as da cidade de Chartres as suas colheitas de trigo e a prata rendiam ao bispo, por si sós, a imensa renda anual de aproximadamente $1 500 000 em moeda actual 60. Os rendimentos totais do seu capítulo excediam de longe os do bispo. Só o deão auferia um rendimento que hoje seria de mais de $700 000 por ano 61


Se o tratado dos Milagres da Abençoada Virgem pretende ser credível, e em vista da sua autoria não vemos razão para presumir o contrário, a maior parte desta enorme riqueza foi, em 1194 e por um período de três anos, atribuída à reconstrução da catedral. Esta decisão a longo prazo por parte do capítulo deve ter sido grandemente facilitada pelo facto de, apenas um ano antes, a administração dos seus rendimentos ter sido retirada das mãos dos pre bostes (cuja exorbitância deu por muito tempo razão de queixa tanto ao capítulo como à população) para ser directamente colocada sob a autoridade do capítulo 62. Pretende-se que a medida tenha quase duplicado os rendimentos dos prebendários 63. A reforma tinha sido iniciada pelo cardeal de Champagne; foi completada pelo seu sobrinho e sucessor, Renaud de Mouçon, cujas relações com o seu capítulo parece terem sido geralmente excelentes, e pelo cardeal de Pisa na sua qualidade de legado papal 64. Não é de admirar que ambos os prelados tenham obtido uma reação favorável por parte do capítulo quando, após o incêndio, apelaram para sacrifícios extraordinários para bem da nova catedral. Mas os próprios cónegos tiveram, é



claro, uma participação muito palpável neste projeto. A catedral era propriedade sua. Eles retiravam uma renda considerável dos seus altares". Não se poderia esperar outra coisa que não fosse um progressivo aumento da renda à medida que aumentava a fama do santuário e as suas relíquias se espalhavam pelo mundo cristão. A decisão do capítulo, em 1194, foi, pois, em termos orçamentais, sensata e mesmo inevitável. A anterior reforma administrativa tornou possível recolher uma vasta soma quase de imediato. Mesmo assim, a decisão deve ter envolvido grandes deliberações.


Como é de lamentar que nós nada saibamos acerca da sua exacta natureza! Que quantia retiveram os cónegos para a sua subsistência? As responsabilidades do bispo medieval e do seu capítulo assemelham-se em muitos aspectos às de um governo moderno. Os rendimentos têm de ser confrontados com as dotações orçamentais que não podem ser canceladas de um dia para o outro, não importa que emergência possa ocorrer. Por acidente, o registo de um pagamento de algo superior a 307 libras sobreviveu, aparentemente nada mais do que uma prestação de uma obrigação regular que o bispo de Chartres pagou, em 1202, ao beleguim de Filipe Augusto em Étampes 66. Nesse tempo, o trabalho na catedral estava em plena evolução. A quantia paga, aproximadamente $100 000 em moeda actual, é muito favorável se comparada com a soma de 200 libras que o mesmo rei ofereceu alguns anos mais tarde a Notre Dame «para a construção do santuário» 67. Tais obrigações regulares tornavam possível ao bispo e ao capítulo arcarem com o encargo que tinham assumido em 1194 por mais de um par de anos.


Mas o capítulo podia contar com a cooperação da cidade, que nunca tinha sido mais próspera do que era então. «La vile esteit mult bone, de grant antiquité, Burgeis i aveit riches et d'aveir grant plente» («<A cidade era muito boa e de grande antiguidade, e nela havia uma rica e opulenta população»), escreveu Wace acerca de Chartres no seu Roman de Rou por volta de 116068. Os têxteis de Chartres eram vendidos nas feiras de Fréjus, na longinqua Provença 69. Na mesma província, os arneses e as armas de famosos armeiros da cidade competiam com os de Edessa 70. A riqueza acumulada de tais transacções nunca era de forma a iludir as necessidades e as admoestações da Igreja medieval. O bispo Maurice de Sauly, sob cuja administração Notre Dame de Paris foi iniciada, tinha por hábito retratar o diabo nos seus sermões como um mercador e bramar contra os ricos que eram relutantes em fazer ofertas caridosas". Tais admoestações eram escusadas em Chartres. Vimos já quão intimamente a prosperidade da cidade estava ligada à fama de Notre Dame. Mas imediatamente antes do grande incêndio, ocorreu um acontecimento que salientou o significado da aliança entre cidade e catedral.


Durante várias gerações, os cónegos tinham reclamado e exercido o direito de admitir no seio das suas famílias domésticas um burguês de Chartres que eles escolhessem. Aqueles que assim se tornavam avoués de Notre Dame, participavam das liberdades do cloître, isto é, gozavam do valioso privilégio de isenção da jurisdição bem como da tarifação do conde. Este último, é claro, olhava com hostilidade para este costume que reduzia a sua autoridade bem como o seu rendimento e conduzia frequentemente a estreitas alianças entre os cónegos e burgueses influentes, ansiosos por se evadirem da jurisdição do conde. Daí resultavam escaramuças armadas, e mesmo invasões do cloître. Em tais casos, o capítulo recorria às suas armas espirituais, a interdição e a excomunhão, as quais se mostravam invencíveis


Em 1192, porém, a perigosa situação degenerou numa crise aguda. Tendo Thibault V sido morto em cruzada no ano anterior, o governo de Chartres passou para as mãos da sua viúva, Adèle, enquanto seu filho, Luís, residia em Blois. Aquela princesa, filha de Luís VII, resolveu deixar a querela chegar a um extremo. Houve actos de violência de ambos os lados.


Apelou-se para a intervenção do papa Urbano III, que designou a rainha mae e o cardeal de Champagne como árbitros. Os seus esforços de nada serviram. Mas um novo comité de arbitragem, designado pelo papa seguinte, Celestino III, chegou finalmente a uma decisão que apoiava por completo o capítulo e reconhecia formalmente os seus privilégios em matéria de avoués. Os principais partidos desta contenda, a condessa donatária Adèle e o bispo Renaud, eram parentes, e a estreita aliança entre as casas de França e de Chartres evitou que quaisquer outros problemas políticos mais sérios fossem levantados. Enquanto este facto pode ter facilitado a aquiescência no veredito por parte da condessa, não diminuiu o significado da vitória para o capítulo, bem como para a cidade. A cidade não foi reconhecida como comuna até um século mais tarde. O veredito na questão dos avoués, como tem sido justamente observado, abriu para a cidade de Chartres a porta que eventualmente conduziu à liberdade municipal. O veredito provou também ser o capítulo da catedral um campeão dessa mesma liberdade.


O papa Celestino designou o comité de arbitragem quatro dias antes do grande incêndio. O desastre que atingiu a catedral encontrou cidade e capítulo em estreita aliança. Notre Dame provará ser a fonte e principal suporte da liberdade da cidade bem como da sua prosperidade. O povo da cidade tinha todas as razões para fazer da reconstrução da catedral a sua própria causa.


Mas as contribuições da casa real, do conde, do povo, e do bispo e capítulo de Chartres não bastavam ainda para levar à conclusão do grande edifício. Foram recolhidos fundos adicionais com a ajuda das relíquias da catedral. O procedimento é uma vez mais refletido no tratado dos Milagres da Abençoada Virgem. No fim do período de três anos, durante o qual o bispo e o capítulo subscreveram a maior parte das despesas de construção, eclodiu uma crise de tal modo aguda que nem sequer foi possível pagar os salários dos operários, na altura mobilizados na construção. Segundo o autor do tratado, a emergência sucum biu quando uma nova onda de entusiasmo foi despertada por uma série de milagres através dos quais Nossa Senhora tornou manifesto «que ela tinha de facto escolhido Chartres como sua especial residência>> e <<desejava que a sua igreja fosse reconstruída com incomparável magnificência». Desta vez, as contribuições para a basílica foram solicitadas e recebidas a grande distância de Chartres. O capítulo mandou relíquias acompanhadas por pregadores para o exterior numa tentativa de angariar fundos adicionais. Os Milagres da Abençoada Virgem foram provavelmente escritos com o mesmo propósito. A devoção à Virgem de Chartres difundiu-se por toda França e até mesmo para além dela. Ouvimos falar de um cavaleiro da Aquitânia a quem protegerá em Batalha de um jovem estudante de Londres a quem, ao regressar a casa após completar os estudos em França, aconteceu entrar numa Igreja onde  um pregador estava nesse momento a pronunciar um sermão em favor do novo santuário de Chartres. O jovem foi de tal forma arrebatado que após um conflito interior se separou do único valor que possuía, um colar de ouro que tencionava levar consigo para a rapariga que amava; deu-o, em vez disso, a Nossa Senhora.


Até mesmo Ricardo Coração-de-Leão ouviu falar deste episódio e da visão da Virgem que se pretendia ter o jovem tido depois de ter oferecido a sua doação. Também o rei ficou emocionado. «<Embora, então, em guerra com o rei de França», recebeu os emissários de Chartres com grande amabilidade, insistiu «<qual outro David» em transportar ele mesmo a caixa que continha as relíquias sagradas que os clérigos traziam consigo, e concedeu-lhes salvo -conduto através do seu reino 76. O êxito material desta viagem pode ser atestado por uma janela da catedral doada por Stephan Langton, arcebispo de Cantuária".


Como um todo, Notre Dame de Chartres é, porém, um monumento nacional. O bispo Fulbert obtivera, para a basílica românica, contribuições de Knut, rei de Inglaterra e da Dinamarca, do duque da Normandia e do duque da Aquitânia. " Mais tarde, foi doada uma torre 78 por Guilherme o Conquistador. E no início do século XII, numa altura em que as suas relações como rei Filipe de França eram tensas, Yves de Chartres assegurou substanciais contribuições de Henrique I de Inglaterra e da sua rainha para a «<preservação e embelezamento>>> da basílica 79. Segundo Suger, também a Abadia de St.-Denis tinha sido construída com as doações de príncipes e prelados. Ele não achou necessário mencionar os inumeráveis benfeitores menores cujas ofertas nas festas de St.-Denis ajudaram a erigir a sua igreja. Mas um século mais tarde, a nave e a fachada da Catedral de Estrasburgo eram construídas apenas pelos burgueses que, hostis ao bispo e ao capítulo, lhes não permitiram participar no projeto.


A Catedral gótica de Chartres foi obra de França, e de toda a França, como nenhum outro grande santuário tinha sido antes. As janelas da catedral dão magnífico testemunho do esforço nacional 80 Mencionei aquelas com que as guildas tinham contribuído. A par das mesmas surgem as antigas casas feudais da Île-de-France como doadoras: Courtenay, Montfort, Beau mont, Montmorency 81. Os condes de Chartres, mas especialmente a casa real, fizeram grandes contribuições. Toda a composição na fachada norte, consistindo na rosácea e janelas de lanceta e exaltando Maria e os seus bíblicos antepassados, foi dada pela rainha Blanche, a mãe de São Luís. Todas as janelas correspondentes no transepto oposto foram doadas por Pedro de Dreux, duque da Bretanha 83.


O esplendor e ostentação desta contribuição originou sempre uma grande especulação. O que foi que impeliu a esta dádiva que quase parecia destinar-se a sobrepor-se à da rainha de França? A casa de Dreux era um ramo da Dinastia Capetíngia, Pedro, bisneto de Luís VI. Tendo adquirido a Bretanha pelo seu casamento com a herdeira, Alice de Thouars, ele começou a aumentar o poder do ducado no preciso momento em que as outras grandes dinastias feudais -os ducados da Aquitânia e da Normandia (cujo duque tinha em tempos sido suserano do senhor da Bretanha), os condados de Toulouse, Champagne, e Flandres - iam sucumbindo um a um ao irresistível progresso do poder capetingio. Pedro devia o seu ducado a Filipe Augusto; os seus planos não parecem ter perturbado o rei, e até à morte do monarca em 1223 Pedro manteve-se, regra geral, leal à monarquia.  


Nenhum outro príncipe francês do seu tempo poderia ter tido em mente a ideia de surgir, juntamente com a casa real, como o principal benfeitor de Notre Dame de Chartres. Era, em todo o caso, uma excelente propaganda política, como nós diríamos, devido, talvez, em grande parte, a haver em Chartres uma influente e próspera colónia de bretões, cujos membros deram entusiástico apoio à reconstrução da catedral. Anteriormente à sua doação das janelas do transepto, onde o seu retrato, juntamente com os de sua mulher e filhos, aparecia por debaixo das figuras dos profetas e evangelistas, Pedro tinha também oferecido a estatuária do grande portal sul: a sua imagem e a de Alice de Thouars aparecem sob os pés da estátua de Cristo no trumeau central . A decisão de enriquecer cada extremidade do transepto com três portais e pórticos esculpidos não fazia parte do plano inicial para a catedral. Foi tomada tão tardiamente que se tornou necessário cortar os contrafortes já terminados das fachadas 87. Até que ponto esta mudança de plano terá sido possível pela generosidade de Pedro de Dreux? Ele apenas tinha adquirido o ducado em 1212, e a sua grande doação a Notre Dame de Chartres parece ter estado entre os primeiros actos da sua governação. Filipe Augusto, a quem ele devia a sua súbita ascensão, levava o santuário muito a peito; através da contribuição que fez para o seu embelezamento, Pedro poderá ter desejado expressar a sua lealdade para com o soberano, bem como para com a Mãe do Céu.


Para esta pública demonstração da sua piedade e prestígio, Pedro poderá bem ter escolhido o local mais imponente que a catedral oferecia. Erler provou que o transepto e o portal sul da Catedral de Estrasburgo serviram, durante o século XIII, como cenário e pano de fundo aos tribunais convocados e presididos pelo bispo, na sua qualidade de senhor espiritual e secular da cidade; tanto aqui como noutros lugares, as representações do Juízo Final destinavam-se a lembrar o juiz, defensores e testemunhas, da origem eterna do poder judicial do bispo e dos eternos princípios de justiça aos quais o veredito do juiz humano se devia ater. O espaçoso pórtico sul da Catedral de Chartres poderia perfeitamente ter servido o mesmo propó sito, e a cena do Juízo no tímpano, doada por Pedro de Dreux, poder-se-ia dirigir à preocupação de justiça dos homens bem como à sua esperança de redenção. De acordo com um texto jurídico medieval, citado por Erler, deveria ser colocada no tribunal uma representação do Juízo Final porque «onde quer que o juiz se sente no julgamento, aí, e à mesma hora, Deus está sentado no seu juízo divino acima do juiz e do júri.





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