FERNANDO ARIAS. Parte 03






2. Um espaço para a iniciação cristã


Certamente o rito que, depois da Eucaristia, mais condiciona o espaço litúrgico é a iniciação cristã. Além do mais, ao considerar os três primeiros sacramentos, tão estreitamente unidos entre si, vemos que todo o espaço eclesial permanece, em grande medida, configurado a partir do esforço iniciático que se estabelece no caminho ritual da iniciação cristã.


Os fatores mais relevantes para a ordenação do espaço da iniciação são a proclamação da Palavra de Deus: a progressiva revelação da dinâmica eclesial que se manifesta na ideia de caminho-itinerário da iniciação cristã; a acolhida que se faz dos novos cristãos na comunidade local-Igreja, na qual a paróquia constitui o lugar ordinário de evangelização.” A iniciação cristã tem grande riqueza ritual e mistagógica e, portanto, espacial (figura 8).


No início do livro litúrgico do Batismo de crianças, aparecem algumas considerações gerais sobre a iniciação cristã, comuns tanto para esse rito quanto para a iniciação cristã dos adultos.“ Em relação à acolhida que a comunidade faz dos neófitos, é bom que além do ministro, dos padrinhos, dos catequistas e dos familiares — dos pais particularmente no batismo das crianças” = e conhecidos, o espaço permita que um grupo participe no rito (Ritual do batismo de crianças, n. 7; 25). O batistério, portanto, deverá possuir as dimensões suficientes que permitam abrigar um bom número de fiéis, assim como dispor de um local adequado para a proclamação da Palavra (n. 24) é um lugar para o coro e a música (n. 33). Pode ser colocado em uma capela dentro ou fora da igreja - como os batistérios de São João de Latrão ou da catedral de Pisa (figura 20), com seu magnífico ambão para a proclamação da Palavra - ou em outro lugar visível (n. 25). Ele naturalmente abrigará uma fonte adequada para a água, que também pode fluir a partir dela (n. 19; 25), e terá uma forma que permitirá a administração do Batismo por infusão ou imersão.“ Não lhe faltarão também os meios técnicos que permitam manter a água naturalmente limpa e, se parecer apropriado, aquecê-la (n. 18-20). Ademais, a índole pascal desse sacramento faz com que o batistério seja o Jocal onde se guarda, com honra, o círio pascal (n. 25), que se acende durante o rito. Os ritos da iniciação cristã a serem realizados fora do batistério serão desenvolvidos em uma parte adequada da igreja para o número de presentes e para as diferentes ações próprias da liturgia batismal (n. 26).


2.1. A INICIAÇÃO CRISTÃ DOS ADULTOS


O Ordo da iniciação cristã dos adultos“ contém tanto a celebração dos sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia, como os ritos do catecumenato.“ O número 6 das premissas indica-nos os três momentos da estrutura geral desse itinerário: a entrada do sujeito na Igreja como catecúmeno, a admissão na fase de mais intensa preparação para os sacramentos, através do rito de eleição; a recepção dos sacramentos durante a Vigília Pascal. As premissas para esse último momento ritual parecem apontar para a catedral ou lugar de culto semelhante como o mais conveniente para sua celebração, posto que que se trata de uma liturgia preferencialmente presidida pelo bispo. Habitualmente, porém, o presbítero presidira o itinerário catecumenal e se os catecúmenos são muito numerosos, também poderão transmitir os sacramentos de iniciação durante a oitava de Páscoa e transferir-se para outros locais de culto (RICA, n. 55).


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62 Um exemplo de batistério como espaço próprio dentro de outro espaço litúrgico principal é o que é preservado em Cividale di Friul, magnífica manifestação da arte longobarda. A sede episcopal foi transferida para essa cidade a partir de Aquileia em 737. No átrio da igreja da abadia de São Nilo em Grottaferrata, encontramos uma bela pia batismal decorada de reduzidas dimensões (figura 8).


63 É também conveniente dispor no batistério de uma credência ou mesa para deixar os objetos litúrgicos utilizados durante o rito do Batismo e, se for o caso, um armário ou espaço para conservá-los (ELLIOT, P.). Guía práctica de liturgia, Op. cit., p. 32).


64 Aprovado pela Congregação para o Culto Divino em 6 de janeiro de 1972. 65 Assim se expressa Sacrosanctum Concilium (n. 64): “seja restaurado o catecumenato de adultos, dividido em diversas etapas. Desta maneira, o tempo do catecumenato seja destinado a catequeses profundas e santificado pelos ritos sagrados realizados sucessivamente em cada etapa”.


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O ingresso no catecumenato ocorre fora da missa, que pode, porém, celebrar-se em seguida (n. 72). O rito começa fora da igreja, nas imediações da entrada, no átrio ou em parte da igreja preparada para este fim (n.73), onde se reuniu uma parte do povo que acolhe os candidatos (figura 9). Após os ritos específicos, o celebrante convida os catecúmenos para que entrem com seus padrinhos no templo (n. 90).


Ao longo de seu itinerário espiritual, os catecúmenos são ajudados pela Igreja através de específicas celebrações litúrgicas da Palavra (n. 19,3), pequenos exorcismos e bênçãos. Os pequenos exorcismos ocorrem na igreja, em uma capela ou na própria casa do catecúmeno (n. 110). As bênçãos e uma unção com óleo dos catecúmenos podem ser dadas ao final das liturgias da Palavra ou de outras reuniões para os catecúmenos (n. 119; 130).


O rito de eleição acontece na igreja ou, se é oportuno, em outro lugar conveniente. Dentro da missa, após a homilia (n.140-141) os candidatos se aproximam um a um com seu padrinho até o celebrante, após serem chamados pelo seu nome (n. 143). Os três escrutínios, por sua vez, são celebrados igualmente dentro da Missa antes da liturgia eucarística.º O Sábado Santo,


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66 É função do bispo supervisionar a iniciação cristã em sua Igreja, especialmente a dos adultos. Os sacerdotes são responsáveis pela instrução catequética e podem suprir o bispo na ação litúrgica específica (RICA, n. 44-46).


67 Mais comum na arquitetura antiga, a construção do pórtico ou átrio perde a importância ao longo dos séculos, em parte devido à difusão do batismo das crianças e a evolução da disciplina penitencial. Um exemplo característico do período medieval é o pórtico da igreja de Santa Maria Madalena em Vézelay (figura 9), localidade situada no centro da França, próximo de Auxerre.


68 O Missal Romano indica que no primeiro domingo da Quaresma acontece o rito de eleição ou inscrição do nome dos café” cúmenos. Os escrutínios preparatórios realizam-se no terceiro, quarto e quinto domingos deste tempo litúrgico.

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como preparação iminente para a recepção dos sacramentos, pode voltar a entregar — redditio - o Credo, o “effatá” e eventualmente a eleição do nome cristão (n. 26). O ordo não indica qual é o focal adequado para que ocorram esses últimos ritos. Na história da arquitetura cristã, não faltam exemplos de edificios-batistérios que possuíam, além do espaço litúrgico propriamente do batismo, outros locais auxiliares de diferente uso. Esse é caso do batistério merovíngio de São João em Poitiers (século VI). No centro de um piso retangular de 12 metros de largura, situa-se uma piscina octogonal com três degraus. Próximo a esse espaço se dispunham, originalmente, um nártex para a instrução dos catecúmenos e outros locais, com alguns vestiários.”


Para o rito do Batismo, uma parte da assembleia, junto com os catecúmenos, traslada-se processionalmente ao batistério. O rito propriamente do Batismo compreende a imersão na água ou a infusão, a unção com o crisma, a imposição da veste branca e a entrega da vela acesa (n. 220-226). Um olhar atento às exigências práticas dessas ações faz-nos ver a necessidade de que exista, próximo do batistério, um lugar para que se possa trocar de roupa. Em seguida, ocorrerão a Confirmação (n. 227-231) e a celebração eucarística. A primeira dessas duas ações pode acontecer tanto no batistério como na igreja (n. 227) conforme as características dos lugares. Durante o “tempo da mistagogia”, que compreende todo o tempo pascal e, de modo particular, os domingos, os neófitos devem estar dispostos em um lugar particular da nave (n. 236).


2.2. O BATISMO DE CRIANÇAS


Nas premissas do Batismo das crianças” se indicam os diversos elementos que compõem o rito: a acolhida (n. 16) pode acontecer na entrada da igreja; a celebração da Palavra, que requer a presença do ambão, à qual segue a imposição do óleo dos catecúmenos (n. 17); 0 cumprimento do sinal sacramental do lavabo implica a presença da fonte, ao que se segue a unção com o crisma (n. 18); por último, ocorre a liturgia eucarística no altar, ápice da iniciação cristã (n. 19). Esse rito ordinário acontece na paróquia, na qual não pode faltar a fonte batismal, de forte conteúdo simbólico (n. 10). Também pode celebrar-se com licença do ordinário em outras igrejas ou oratórios.


Na celebração do Batismo de várias crianças, o sacerdote e os outros ministros aproximam-se da porta da igreja ou do lugar onde o povo está reunido com as crianças (n. 35) e ocorreo interrogatório aos pais e padrinhos. Depois, pode-se levar as crianças a um lugar separado (n. 43) durante a celebração da Palavra.” Após o exorcismo e a unção pré-batismal (n. 49-51), a procissão segue até o batistério da assembleia (caso a fonte se encontre fora de seu alcance visual: n. 52). Pode dispor, como lugar do batismo, outro lugar visível adequado (n. 52). Uma vez concluídos a celebração própria do Batismo e os ritos explicativos, regressa-se processionalmente ao espaço do altar para os ritos de conclusão.



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As premissas indicam que durante a liturgia da Palavra é oportuno que as crianças sejam levadas para um lugar separado sob o devido cuidado de outras pessoas. Deste modo, as mães e madrinhas podem participar com tranquilidade da celebração (Batismo de Crianças: Observações Preliminares, n. 14). Esta indicação, de profunda sabedoria prática, indica-nos a necessidade de prever no projeto um espaço auxiliar a ser usado como creche, muito útil também em outras ações litúrgicas.


Se se planeja com os meios técnicos adequados e se relaciona organicamente com a nave e o presbitério (bastaria um vidro transparente que isolasse o som), pode abrigar às crianças e os pais que cuidam delas, também durante a Missa, facilitando sua participação na celebração. O último ponto deste ordo contempla que se observe oportunamente o costume de levar as crianças ao altar da Virgem Santíssima (n. 71). Portanto, vemos como em um livro litúrgico aparece a possibilidade de que exista uma imagem da Virgem Santíssima no espaço ritual, para que se possa realizar, assim, esse piedoso costume

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2.3. CONFIRMAÇÃO


O sacramento da Confirmação pode ser conferido dentro da iniciação cristã de adultos ou também em um rito particular dentro da celebração eucarística,” ou fora dela (especialmente se se trata de pessoas que não receberam ainda a Eucaristia: n. 13). Seu ministro original é o bispo. Quando existe uma causa ou necessidade peculiar também podem exercer esse ministério os vigários ou delegados do bispo, assim como um outro presbítero designado ou o pároco (n. 8). Parece, por isso, conveniente, quando se projeta uma igreja de uma certa importância, considerar que nela pode celebrar a Confirmação, como cerimônia dentro de uma liturgia da Palavra, com ou sem celebração eucarística.


As premissas não dão indicações explícitas sobre o lugar da celebração. Apenas indicam que deve ser a mesma pessoa a celebrar a Eucaristia e conferir o crisma (n. 13), embora nesse momento possa associar a si outros presbíteros designados ad casum. No caso da celebração dentro da Missa, depois do Evangelho, os confirmandos são apresentados pelo pároco ou outro presbítero ou catequista, sendo chamados um a um pelo seu nome, aproximando-se do presbitério. No caso de ser uma criança, o faz acompanhado de um de seus pais ou parentes. No caso de que sejam muitos, simplesmente se situam em um lugar adequado diante do bispo (n. 21). Depois da homilia e da renovação das promessas batismais, ocorre a imposição das mãos (n. 25). Em seguida, recebem a unção na fronte, aproximando-se do celebrante, embora também possa ser que esse que se aproxime dos crismandos.


O santo crisma, o óleo dos catecúmenos e dos enfermos - utilizados respectivamente no Batismo, na Confirmação e na Unção — devem ser guardados na igreja, em um receptáculo adequado. Dado que se rata de um dos lugares principais das igrejas, como afirma o Catecismo da Igreja Católica, pode ser uma poa ideia para o projeto relacionar a localização desse receptáculo com o batistério e o altar. Destacando assim, simbolicamente, a unidade entre os sacramentos da iniciação cristã.


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Como norma, a celebração da Confirmação ocorre na cátedra, mas pode ser também comunicada pelo bispo desde uma cadeira móvel diante do altar ou em outro lugar adequado (Cerimonial dos Bispos, n. 457).

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3. Outros sacramentos


3.1. PENITÊNCIA


Das quatro partes do sacramento da Penitência? — contrição, confissão, satisfação e absolvição — o espaço da Penitência deve abrigar dois desses que acontecem dentro da forma ritual: a confissão e a absolvição (Ordo Paenitentiae, n. 18).” Também a contrição em parte, embora não imponha exigências particulares especiais. Existem duas formas ordinárias de administração do sacramento do Perdão e da Reconciliação (A e B): na primeira, intervém um penitente e um sacerdote, na segunda, vários.”


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77 Os pastores de alma devem atualizar seu pedido imediato para assistir às confissões, estando disponíveis para esse sacramento em horas e dias fixos e conhecidos (n. 10b e 13). É útil, portanto, que exista algum tipo de aviso com os horários e os confessores disponíveis em um lugar visível, como na entrada. Nesse local, também podem ser colocadas as publicações do matrimônio e da iniciação cristã,


78 Contemplaremos a forma do espaço para a celebração do sacramento da Penitência nos modos que as premissas denominam Ae B, que incluem a confissão e a absolvição individual de cada penitente, único modo ordinário de reconciliação com Deus e com a Igreja (n. 31). O terceiro modo (C: n. 60-63), que inclui a absolvição geral dos penitentes, é extraordinário, Em muitas regiões, de fato, as conferências episcopais determinaram que em seus territórios as condições não sejam dadas, pelo número de sacerdotes disponíveis, para que tal ação ocorra. Sobre as normas jurídicas que regulam as absolvições coletivas.

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Na primeira forma, a ação litúrgica ocorre integralmente no confessionário com grade fixa (CIC, cân. 964),” que é um autêntico espaço litúrgico (de dimensões reduzidas). Nele acontece uma leitura da Palavra de Deus antes da confissão (n. 17). É útil, portanto, que se disponha no confessionário de um roteiro ou um pequeno livro para ajudar a seguir o rito, tanto para o penitente como para o confessor. Igualmente, haverá um assento para o sacerdote e um reclinatório — ao que se pode acrescentar um assento — para o fiel.


A celebração comunitária da Penitência — forma B — inclui uma celebração da Palavra, à homilia e o exame de consciência com a recitação do ato de contrição. Em seguida, os sacerdotes se distribuem na igreja para escutar as confissões e dar a absolvição (n. 55). Ao concluir, voltam a seus lugares (n. 28-29). Isso implica que convém no templo dispor de vários confessionários fixos, confortáveis, dispostos em local visível e com fácil acesso da nave. No caso de que sejam muitos os penitentes, podem se colocar confessionários móveis em locais adequados. A celebração é concluída com a ação de graças e despedida.



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A partir do século XVII se estende um tipo particular de lugar penitencial: o confessionário de grandes dimensões, que favorece a separação e o recolhimento, com dois lugares para ajoelhar-se em ambos os lados do confessor. Normalmente é um móvel situado na nave da igreja, embora em algumas ocasiões se integre harmonicamente nos muros. Como no caso das duas igrejas romanas: Santa Maria Madalena e Jesus e Maria, em Via del Corso.


Na igreja de Santo Estevão, em Assis, construída nos séculos XII-XIII, encontramos um confessionário em um nicho na parede do muro, com lugares para o padre e o penitente (figura 22). Sobre a história do espaço litúrgico da Penitência,

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3.2. UNÇÃO DOS ENFERMOS


O sacramento da Unção dos enfermos pode ser recebido por aqueles fiéis cristãos que, havendo chegado ao uso da razão, começam a estar em perigo de morte por enfermidade ou velhice, sendo seu ministro unicamente o sacerdote. As premissas ao rito preveem que pode ir acompanhado da comunhão sacramental em forma de Viático, se possível durante a missa (Ordo Unctionis infirmorum, n. 26).


Por outro lado, sugere-se que a celebração tenha um caráter comunitário (n. 36), particularmente através da participação de familiares e amigos do enfermo. Junto a essa possibilidade, os praenotanda sinalizam diversas variações na celebração segundo as circunstâncias do enfermo, de modo particular se o sacra. mento é administrado aos doentes ou moribundo em seu leito. As premissas não apontam maiores indicações úteis a nosso estudo sobre o espaço celebrativo.


Se a Unção ocorre dentro da missa, ela pode ser celebrada na igreja ou, com a licença do ordinário, na casa do enfermo ou no hospital (n. 80). A administração, no templo, da Unção dos enfermos com a Comunhão fora da missa (n. 78; 55-58), assim como do Viático na igreja fora da missa (n. 11-112) exigem que se possa acessar o sacrário durante a celebração.


3.3. MATRIMÔNIO


O rito do matrimônio” contempla uma notável variedade de possibilidades, podendo ser integradas nele os costumes locais (Ordo celebrandi matrimonium, n. 14-20). Embora normalmente a celebração ocorra dentro da missa (n. 8), algumas vezes as características dos assistentes e dos cônjuges podem sugerir outras formas de celebração (ver: n. 58-72). No matrimônio dentro da missa, a ação lirúrgica começa na entrada da igreja, onde o sacerdote saúdo os esposos ou no altar. No primeiro dos casos, forma-se a procissão até o altar à qual as testemunhas podem se juntar (n. 19-20). De novo, a entrada da igreja converte-se em espaço litúrgico: ponto de partida de uma procissão até o presbitério.


3.4. ORDEM


O sacramento da Ordem, por sua própria natureza, encontra-se fortemente ligado à liturgia episcopal (De ordinatione Episcopi, Presbyterorum et Diaconorum, n. 6). Sua celebração ordinariamente ocorrerá na catedral ou espaço celebrativo juridicamente assimilado. Habitualmente, as ordenações não ocorrerão em uma paróquia. No entanto, em muitos casos, também nesse tipo de lugar, ou em uma igreja reitora de tamanho suficiente, poderá ocorrer uma ordenação (n. 108), se as circunstâncias assim o aconselham. Por isso, do ponto de vista prático, será conveniente dispor de um espaço vazio na nave, na parte mais próxima ao altar, onde possam se situar os candidatos durante sua apresentação e vestição, assim como prostrar-se.


Por outro lado, as ações que acontecem no espaço da sede durante esse rito requerem que sua localização e amplitude facilitem a boa visibilidade dos gestos que nela se desenvolvem: a promessa dos candidatos, a imposição das mãos do bispo, a unção das mãos dos ordenados, a traditio instrumentorum (entrega das insígnias do ministério) e a saudação da paz.


São diversos os percursos simbólicos que se realizam nessa celebração solene: o dos candidatos do seu lugar adiantado da nave para a sede do bispo (n. 116), manifestando a natureza da ordem sagrada, pelo qual um fiel é chamado a participar do poder e autoridade do bispo, em comunhão com ele (n. 101), o deles ao altar para a celebração eucarística, à qual suas vidas estarão mais unidas a partir daquele momento; o dos outros ministros ordenados que dão a saudação da par ou que impõem as mãos. Um espaço litúrgico que abrigue uma celebração assim deveria possuir um presbitério de dimensões suficientes. Um notável exemplo, nesse sentido, tem a igreja de São Lourenço Extramuros, lugar histórico importante de peregrinação da Urbe, pela amplitude e visibilidade de seu presbitério e cátedra. Essa, com sua decoração cosmatesca do século XIII, está situada ao fundo e se levanta sobre uns degraus em relação a um banco de mármore longitudinal, onde podem se situar os presbíteros.


 

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Citamos aqui as premissas da ordenação presbiteral. Do ponto de vista do espaço litúrgico, o grau de ordem recebida não é tão importante quanto o número de candidatos.

Não obstante, como recordam as premissas, pode ser organizado em outro local adequado, se necessário, para uma melhor participação dos fiéis.

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4. Os Sacramentais


4.1. BÊNÇÃOS


A ideia de “espaço litúrgico” amplia-se de modo notável quando estudamos as Bênçãos. Essas ações litúrgicas da Igreja podem ser celebradas nos mais diversos lugares e situações. A potência redentora do Mistério Pascal “alcança”, para dizer de alguma forma, também os objetos materiais e enche de graça as pessoas e situações mais variadas. As premissas do Ritual de Bênçãos destacam , em diversos momentos, duas características dessas ações: a centralidade da Palavra de Deus e a dimensão comunitária-eclesial.


A celebração de algumas delas, por sua relação particular com certos sacramentos, pode unir-se, em certas ocasiões, à missa ou a outras celebrações (Ritual de Bênçãos, n. 28-29). A bênção das famílias, dos cônjuges por certos aniversários significativos do Matrimônio, dos anciãos - esta última também pode ser transmitida juntamente com a comunhão fora da missa - podem acontecer dentro da celebração eucarística (n. 62; 91, 277). As bênçãos dos que são enviados a anunciar o Evangelho ou para transmitir a catequese podem ocorrer den, de uma liturgia da Palavra ou da missa (n. 322; 361). A bênção dos peregrinos, por outro lado na Eucaristia ou na Liturgia das Horas que marca o início ou o final da peregrinação (n. 407 A benção de uma nova escola ou universidade também pode ser celebrada dentro da missa que ocorre na capela da instituição (n. 542), outro caso que manifesta a abertura do espaço litúrgico para além de alguns limites fixos.


O Ritual de Bênçãos também contempla a bênção, dentro de uma ação litúrgica, de alguns elementos próprios do espaço litúrgico: as imagens sagradas, os sinos — esses também dentro da missa (n. 1035) - ou o órgão. No contexto da celebração eucarística, pode-se abençoar diversos objetos que utilizam nas ações litúrgicas, como o cálice ou a patena (n. 1072). Em todos esses casos, para fins espaciais, bastará colocar o objeto que será abençoado em um lugar adequado e visível durante a celebração, como por exemplo, no espaço diante do presbitério.”


4.2. INSTITUIÇÕES DE MINISTÉRIOS


Consideramos, agora, brevemente os três capítulos do Pontifical Romano dedicados respectivamente à instituição dos ministérios laicais do Leitorato e do Acolitato; à admissão de candidatos à ordem sagrada e o “abraço” — amplector - do celibato. Trata-se de circunstâncias particulares da comunidade cristã, cuja celebração, por pertencer à liturgia episcopal, está mais associada ad espaço da catedral.” Porém, devemos considerar que, em circunstâncias particulares, essa liturgia pode ser celebrada também em uma paróquia ou igreja de importância, ou na capela do seminário diocesano ou do centro de formação análogo das diversas instituições da Igreja.


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86 A bênção da pia batismal ou do batistério pode ser unida à celebração do Batismo (Ritual de Bênçãos, n. 844-860). A cáte dra, o ambão, a sede e o sacrário podem ser abençoados dentro da missa. No caso do ambão, também dentro de um? celebração da Palavra. A sede do sacramento da Penitência pode ser benzida dentro de uma celebração penitencial, não dentro da missa (n. 931).


87 Outros objetos que podem ser abençoados no contexto de uma celebração litúrgica que ocorra na igreja são o Presépio de Natal (na missa ou nas 1 Véspera de Natal, n. 1264) e as bebidas, comidas ou outras coisas por motivo de devoção.

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Os candidatos situam-se em um lugar visível. Cada um deles, individualmente, responde a diversos chamados em que são interpelados. Inicialmente, são chamados por seu nome € dirigem-se ao bispo, sentado em sua cátedra, ao que fazem uma reverência (De institutione Sectorum; De institutione Acolythorum, n. 3 em ambos os casos; De sacro caelibatu, n. 6). Também se aproximam do bispo na traditio instrumentorum, no qual eles recebem o livro da Sagrada Escritura ou o recipiente (vasculum) com o pão ou com o vinho (De institutione Lectorum; De institutione Acolythorum, n. 7 em ambos os casos). Também se questiona sobre seu serviço à Igreja na admissão dos candidatos ao diaconato e presbiterato (De admissione, n. 7) e sobre sua observância do celibato (De sacro caelibatu, n. 4). Os leitores e acólitos, após a instituição, ocupam um lugar no presbitério (Caeremoniale episcoporum, n. 795; 810).


Como já vimos, no sacramento da Ordem, o espaço vazio na parte da nave mais próxima do altar é relevante para a celebração litúrgica. Nele se situam os fiéis (ministros ordenados e leigos) que se separam da assembleia para receber um ministério eclesial específico.


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89 Em cada um dos ordines citados na nota anterior, indica-se, inicialmente, que essas cerimônias sejam presididas pelo bispo ou pelo superior maior do instituto clerical correspondente. A profissão religiosa perpétua ocorrerá ordinariamente na igreja da comunidade, embora também possa ocorrer na catedral, na paróquia ou em outra igreja insigne (Cerimonial dos Bispos, n. 749; 770). Os candidatos masculinos situam-se em um lugar do presbitério. Os superiores religlosos correspondentes, tanto das comunidades masculinas quanto femininas situam-se no presbitério (n. 752; 773).


4 igreja príncipal de um mosteiro ou abadia possui requisitos espaciais específicos que se derivam da liturgia que neles se desenvolvem, começando pela presença do coro que os religiosos ocupam. Para seu desenho, é conveniente considerar.

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4.3. EXÉQUIAS


O Ritual das exéquias (Ordo exsequiarum) contempla três esquemas celebrativos, segundo as circunstâncias físicas e sociais nas quais se desenvolverá o rito.” O primeiro prevê três “estações” ou paradas: na casa do falecido, na igreja ou no cemitério. O segundo regula as exéquias na capela do cemitério com uma parada no jazigo. O último tem apenas uma estação: na casa do falecido (n. 4). Vemos, em qualquer caso, como as exéquias no espaço litúrgico “salta” os limites da igreja para converter-se em um itinerário que percorre os lugares sagrados e profanos, em uma sequência de estações e procissões. O valor que a tradição cristã deu aos cemitérios é testemunhado pelo valor histórico e artístico de muito deles: como se esquecer do cemitério monumental de Pisa ou o que ocupa a ilha de San Michele, na lagoa de Veneza?


No primeiro dos esquemas celebrativos, na procissão que ocorre da casa ao templo, o sacerdote e o ministro com a cruz precedem o féretro (n. 35). Já na igreja, o corpo do falecido pode, segundo o costume do lugar, situar-se na nave. Ao seu lado podem colocar velas acesas ou o círio pascal (n. 38). A estação na igreja inclui a celebração eucarística ou, pelo menos, a liturgia da Palavra (n. 6). Em seguida, ocorre o rito da última encomendação e despedida do falecido, com a aspersão da água benta e a incensação (n. 10; 47). Quando as exéquias ocorrem no cemitério, não se contempla a celebração da Missa (n. 8). Na capela, ocorre a liturgia da Palavra e a última encomendação e despedida, após o que se asperge e incensa o féretro (n. 62-69).


5, Liturgia das Horas


Como oração pública da Igreja, a celebração comunitária da Liturgia das Horas é expressão do ministério de contínuo louvor que o Filho, de cujo corpo somos membros, dirige ao Pai.” sua celebração comum com a participação dos fiéis deve ser preferida à recitação individual e constitui uma manifestação da Igreja, de modo particular, quando quem a preside é 0 bispo acompanhado dos sacerdotes, os ministros e os fiéis.


Quando a Liturgia das Horas é presidida pelo bispo, especialmente na catedral, esse deve encontrar-se rodeado por sacerdotes e ministros (n. 254). Quem preside dá início à celebração a partir do seu local, inicia a oração dominical, recita a oração conclusiva, saúda o povo, o abençoa (caso seja ministro ordenado) e o despede (n. 256). O sacerdote ou ministro pode recitar as orações, enquanto quem realiza o ofício de leitor proclama as leituras de pé do lugar adequado (n. 257; 259). Se se trata de uma celebração solene, esse lugar pode ser o ambão.


Se é simples, pode ser o próprio lugar que ocupa na nave ou no coro. As antífonas, salmos e outros cânticos são realizados por um cantor ou um coro (n. 260). Durante o canto do Benedictus o do Magnificat, nas Laudes ou nas Vésperas respectivamente, o diácono pode incensar o altar e, em seguida, também ao sacerdote e ao povo (n. 261). Os fiéis, por sua vez, permanecem de pé ou sentados segundo os diversos momentos da celebração.


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No ambiente monástico, o espaço do coro converte-se em lugar da celebração da Liturgia das Horas. Na época medieval, os coros adquiriram uma arquitetura cada vez mais rica e desenvolvida, tendendo, às vezes, a isolar-se do resto da nave, ao ponto de construir em certas ocasiões, ao lado do presbitério, uma “igreja dentro da igreja”.


Alguns exemplos de coros particularmente desenvolvidos longitudinalmente encontramos na Inglaterra, como na abadia de Westminster ou a catedral de Lincoln.


Os requisitos espaciais da Liturgia das Horas são parecidos com os da celebração eucarística, que já comentamos com detalhe.

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6. Conclusões


Confiamos à conclusão final do livro a síntese das consequências arquitetônicas de cada um dos diversos ritos expostos no capítulo. Vimos que o espaço litúrgico se define a partir da ação ou ações litúrgicas que nele se desenvolverão, tanto do ponto de vista simbólico quanto prático. Nem todos os espaços litúrgicos cristãos são iguais. Nem se pode, sequer, dizer que são fruto de uma extensão ou redução de um invariável “núcleo original”: uma catedral não é uma capela do Santíssimo gigantesca. Tampouco uma discreta ermida é uma basílica em miniatura. Na maioria dos casos, será a Eucaristia que definirá o lugar, mas não esqueçamos que existem outros lugares litúrgicos, como o batistério ou o confessionário, que possuem uma estrutura definida por uma ação ritual que não é a eucarística, Naturalmente, quando se integram ao lugar de culto, serão orientados à Eucaristia, como fonte e ápice da vida cristã.


A arquitetura cristã teve, ao longo de sua história, uma forte consciência de que o espaço onde devia celebrar seu culto era simbólico: através dele, devia não apenas fornecer um suporte físico para a celebração, mas também transmitir uma mensagem através das formas. Essa mensagem, do ponto de vista arquitetônico, desdobra-se nas três direções do espaço: tanto no plano quanto na secção. No plano horizontal, manifestam-se os movimentos na ação litúrgica, a distribuição do povo e dos ministros na nave no presbitério; as relações de ambos ambientes com seu centro, que é o espaço eucarístico. No plano vertical, manifesta-se a transcendência da ação, na qual a liturgia celeste e terrestre - cujos participantes foram tantas vezes representados através da iconografia nas paredes e no teto do templo — se abraçam na luz, assim como a hierarquia de espaços e ministérios. Por último, no espaço exterior do edifício sagrado, contemplamos tanto o diálogo no qual ele entra com a cidade quanto, a partir de um certo ponto de vista, a imagem que a Igreja transmite de si para a sociedade civil.


Podemos concluir dizendo que o espaço da liturgia cristã se caracteriza por quatro notas; flexibilidade, complexidade, organicidade e abertura. É flexível porque, estando constituído por elementos físicos estáveis no espaço e no tempo, pode abrigar no curso de um ano apenas, uma infinidade de ações muito diversas, que respondem à infinita sabedoria e misericórdia do Mistério divino que celebramos.


É complexo pois resulta da sinfonia harmônica dos diversos “espaços litúrgicos” que acolhe: desde o altar e o ambão até o confessionário e o batistério, passando pelo espaço de entrada qa igreja ou outros lugares em que se desenvolve a celebração. A isso devem ser adicionados importantes lugares auxiliares para a celebração litúrgica, como a sacristia ou as credências, e outros requisitos meramente técnicos.


É orgânico porque está formado por elementos que, possuindo cada um sua própria função, relacionam-se entre si para dar lugar a um conjunto “vivo”. Isso se pode aplicar ao binômio presbitério-nave, em que a comunicação entre ambos constitui o canal que permite, em grande medida, atualizar o louvor a Deus e à santificação dos homens. Também o próprio presbitério possui elementos que se comunicam entre si com a nave, e a própria nave é uma realidade formada por órgãos diversos: o espaço do coro e da música, o lugar dos fiéis ou a área frontal da nave, onde são colocados alguns fiéis ou elementos materiais que terão um papel particular em algumas ações litúrgicas (procissões, concessão de ministérios, matrimônios, exéquias).


O espaço ritual cristão é, por fim, um espaço aberto. É o lugar de chegada das procissões que partem do exterior — a Vigília Pascal, as “estações” quaresmais, as exéquias — e também o ponto de partida de outras procissões, como a da solenidade de Corpus Christi ou mesmo das exéquias. Naturalmente, é um espaço não fechado em si mesmo: está aberto à comunicação com o Deus transcendente e com todos os homens. No espaço litúrgico, os fiéis cristãos — após  FALTOU A PÁGINA 80.


FIM DO CAPÍTULO 01


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