FERNANDO ARIAS. Até a página 159.

 


Projetar o Espaço Sagrado


Introdução


O que é uma Igreja? Como se constrói? Quando se inicia o trabalho de levantar um espaço sagrado cristão é natural fazer-se perguntas tão essenciais como essas. Por mais surpreendente que pareça, não é fácil responder a nenhuma das duas. O arquiteto e o fomentador que estão enfrentando essa árdua missão são como equilibristas que atravessam juntos, tremendo, o frágil fio que salva o abismo entre o vulgar e o sublime, o natural e o sobre-humano, o sensível e o espiritual, o humano e o divino. Como o equilibrista, diante de tão esmagadora tarefa, ambos se encontram com frequência muito sozinhos. E se isso não bastasse, agitados pelos ventos do exíguo orçamento, da escassez de referências precisas, das incompreensões e receios do outro, da dificuldade do próprio projeto. Para o bem ou para o mal, o êxito final de tão difícil trajeto depende de ambos.


Isso não é um problema novo. Diante da incumbência da construção do terribilis locus — “lugar terrível”, na expressão bíblica (Gn 28,17) — do encontro entre Deus e os homens é natural sentir um certo temor e tremor reverencial. Não se trata de um encargo qualquer, mas sim daquele que, de algum modo, é o tema arquitetônico por antonomásia: o espaço sagrado. Tantas vezes, ao longo da história, o arquiteto recebeu do fomentador do edifício de culto — a autoridade religiosa habitualmente - uma tarefa com palavras similares àquelas que dirigiu Salomão a Hiram, ao iniciar o projeto do Templo de Jerusalém:


Mandou dizer a Hiram, rei de Tiro: “Atendeste meu pai Davi, mandando-lhe madeira de cedro para a construção de uma casa para ele residir. Agora estou construindo uma Casa para o nome do Senhor, meu Deus. A ele a dedicarei para o suave incenso queimado diante dele, para o pão perpétuo da apresentação, para os holocaustos da manhã e da tarde, nos sábados, no novo mês e nas festas em honra do Senhor, nosso Deus, como prescrito a Israel para sempre. A Casa que vou construir deve ser grande, pois nosso Deus é maior que todos os deuses. Mas quem é capaz de lhe construir uma casa? Nem os céus, nem os céus dos céus são capazes de contê-lo! E quem sou eu para lhe construir uma Casa, ainda que só para queimar incenso diante dele? (...)” (1Cr 2,2-5).


Diferentemente do Templo de Jerusalém - edifício que teve o próprio Deus como inspirador e “arquiteto” - uma das principais dificuldades do projetista é a ausência prática de normas claras, precisas e harmonizadas para a construção de edifícios de culto, que conjuguem a consciência de seu caráter simbólico com os aspectos mais funcionais e práticos. Muitas Conferências Episcopais Nacionais têm emitido diretrizes ou orientações para a arquitetura sagrada. Porém, esses textos são frequentemente pouco conhecidos e nem sempre de fácil acesso para os profissionais da construção.


Este livro nasce com a pretensão de contribuir para o fecundo e tradicional diálogo entre os atores que intervêm na construção de uma igreja: os clientes (os pastores da Igreja e a própria comunidade cristã), o projetista, os artistas, os técnicos, etc., oferecendo a uns e outros uma visão integral do espaço sagrado, tanto arquitetônica e artística como teológico-litúrgica. Naturalmente, as igrejas são construídas por arquitetos, mas seria ingênuo e pouco profissional um projetista lidar com essa incumbência sem os conhecimentos teológicos e litúrgicos que esse complexo edifício requer. Qual arquiteto se atreveria a construir um hospital ou um museu sem um conhecimento prévio a respeito das enfermidades que ali serão curadas ou das obras artísticas que ali serão expostas? É necessário, pois, para o projeto, um cuidadoso assessoramento teológico e litúrgico, simbólico e funcional.


Este volume está igualmente dirigido aos fomentadores da construção de edifícios sagrados: bispos, párocos, comissões diocesanas de liturgia, de arte sacra e bens culturais. Em todas as partes, sente-se a urgência de fazer da arquitetura cristã um meio eficaz de evangelização que, ao mesmo tempo, volte a converter-se em referência para a cultura de seu tempo. Estou convencido de que se cada ator desse processo conhece bem seu papel, possui as competências específicas e sabe escutar, deixando-se guiar nos âmbitos que não são de sua especialidade, o resultado só poderá ser positivo. Este livro também interessará a qualquer estudioso da arquitetura cristã, ou a qualquer pessoa que se estremeça diante da sólida beleza de uma igreja barroca, de uma antiga catedral ou de uma humilde capela na montanha.


Para entender a perspectiva adotada neste estudo, é necessário advertir que ele adota como categoria programática o conceito de espaço litúrgico:


Tal modo de referir-se ao lugar de culto cristão reflete uma visão claramente moderna. Nasce no século XX, fruto de uma consciência de que o “lugar essencial” onde se celebra a liturgia é o espaço “vivente”, formado pelas pessoas e qualificado pelo evento comunitário. O importante achado que acima descrevemos nasceu dentro do movimento de renovação litúrgica dos séculos XIX e XX, ao pôr em destaque três aspectos da celebração cristã: a dimensão social do ato do culto, que incluía o fascinante “redescobrimento” da assembleia litúrgica; a dimensão mistério-simbólica do rito, que implicava a percepção da celebração como “forma viva” com suas palavras, cantos, ritmos e movimentos; sua dimensão participativa, que animou os fiéis a tomarem parte de modo consciente e ativo.


Estamos convencidos de que a categoria teológica e arquitetônica “espaço litúrgico” oferece-nos uma grande oportunidade: fortalecer a vigorosa e frutuosa aliança que tem unido, ao longo da história, a liturgia cristã à arquitetura. Esse conceito pode constituir um ponto de encontro entre arquitetos e teólogos. Naturalmente, embora uma igreja não seja um edifício público qualquer — construções reguladas por exaustivas, minuciosas e esgotadoras normas — deve observar alguns requisitos concretos que provêm de seu uso e de seu valor simbólico. “Espaço litúrgico” pode ser uma interessante categoria auxiliar que volta a introduzir no projeto da arquitetura cristã todo o universo de exigências práticas e simbólicas que a celebração do Mistério cristão traz consigo. Embora, em algumas ocasiões, tenham sido negligenciadas nas construções das últimas décadas, as exigências da liturgia que deram sua grandeza à arquitetura cristã, como nos recorda o belo testemunho da história.


Este trabalho não pretende ser um simples vade-mécum a ser aplicado friamente no projeto, mas um convite para entrar no Mistério através de suas diversas expressões litúrgicas e contemplativas.


No primeiro capítulo, trataremos de identificar as exigências espaciais das celebrações que têm lugar em um templo. Seguidamente, adentraremos na celebração da dedicação da igreja:


o segundo capítulo será uma breve introdução a essa grande festa do povo cristão, que analisaremos desde o ponto de vista da teologia litúrgica no terceiro capítulo.


A variedade de espaços litúrgicos que a tradição cristã nos deixou é grande. A catedral, o santuário ou a basílica de grandes dimensões, por exemplo, possuem exigências espaciais específicas, às quais só faremos referência brevemente. Analogamente, a um oratório ou capela devem-se aplicar, com a devida gradualidade, os critérios aqui descritos. Em nosso caso, o “modelo” será um espaço litúrgico de dimensões medianas — uma paróquia - onde se reúne uma comunidade cristã que participa na vida litúrgica da Igreja ao longo de um ano todo.


A fonte principal para nosso estudo serão os livros que ordenam e regulam a liturgia romana (livros litúrgicos). Cada um deles está constituído essencialmente por duas partes: uma introdução teológica, pastorale funcional ao rito - denominada em latim praenotanda (premissas) - ea parte que descreve propriamente o desenvolvimento da celebração: o ordo. Deter-nos-emos nas rubricas dessa segunda parte de modo particular. Usaremos as edições “típicas” dos livros, ou seja, Os textos originais latinos da liturgia romana. Dado que se trata de projetar um lugar de culto cristão “ideal”, que possa ser facilmente adaptado às culturais e tradições arquitetônicas e artísticas locais, consideramos que essa é a metodologia adequada. Ademais, os textos latinos permitem saborear com maior gosto o arcabouço da tradição espacial e celebrativa do culto cristão.”


Capítulo 01 | Um espaço para a liturgia romana


Como se constrói uma igreja” Diante de qualquer novo projeto, um dos fatores a levar em conta é o programa de usos. Naturalmente não é sempre o mais decisivo, mas em edifícios de usos complexos e variados não seria uma boa prática ignorá-lo desde os primeiros compassos. Em grande medida, uma causa frequente de fracasso em um projeto é a imprecisão - ou pior ainda, ignorância - do programa.” Temos visto, ao longo das últimas décadas, que é precisamente o desconhecimento do complexo programa de uma igreja que leva à edificação de templos pensados apenas para a missa dos domingos, sequer para todos os domingos do ano. Naturalmente, não pretendemos uma redução funcionalista da igreja - mais adiante falaremos extensamente sobre o caráter icônico do edificio de culto - mas começaremos pela função em nosso estudo.


Qual será então o programa funcional de uma igreja? Para responder a essa pergunta, precisamos elucidar previamente outra questão: O que nós celebramos? A resposta nos é oferecida Dela Sacrosanctum Concilium (n. 7):


Merecidamente, a Liturgia é tida como o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo. Nela, cada um a sey modo, os sinais sensíveis, significam e realizam a santificação da pessoa humana e, assim, o Corpo Místico de Cristo, isto é, Cabeça e membros, executa integralmente o culto público. Por esta razão, toda celebração litúrgica é ação sagrada por excelência por ser ação de Cristo Sacerdote e de seu Corpo, que é a Igreja, e nenhuma outra ação da Igreja lhe iguala, sob o mesmo título e grau, em eficácia. De modo semelhante à luz que se divide em um espectro de cores ao atravessar um cristal, o Mistério celebrado em seus diversos aspectos ilumina a vida dos fiéis nesta terra. Somente o conjunto completo das ações litúrgicas cristãs — sacramentos, sacramentais, liturgia das horas — nos permitirão uma visão integral de como deve ser um edifício para o culto. Cada uma das celebrações possui exigências espaciais específicas e concretas. Esses requisitos provêm, por um lado, das ações rituais-simbólicas e, por outro, das necessidades mais técnicas que, ainda não possuam um sentido particular simbólico, terão de ser igualmente contempladas no momento do projeto.? Essa dupla perspectiva de estudo será aquela que adotaremos ao longo das páginas seguintes, que completaremos com alguns exemplos significativos da história da arquitetura e da arte cristã. 1. O espaço da Eucaristia Se a Eucaristia é a “fonte e o ápice” da vida e da ação da atividade da Igreja, como recordava o Concílio Vaticano II, também tem de sê-lo o espaço da igreja. Por isso, o ambiente pará a Eucaristia será como a “estrutura de base” para a conformação do espaço litúrgico cristão. Este mistério de fé, em sua profundidade infinita, é um lugar teológico e arquitetônico dificilmente igualável, por sua riqueza e multiplicidade de facetas. Será a Eucaristia, em seus diversos aspectos, a Nos guiar no início de nosso caminho e a determinar, em linhas gerais, a forma do espaço litúrgico.


1.1. A SANTA MISSA


Qual espaço para a celebração eucarística surge das indicações que nos dá o Missal Romano? A Institutio generalis Missalis Romani — Introdução ou Premissas do Missal (IGMR) - como depositária de uma tradição ritual que remonta, em grande parte, ao século VIII, oferece-nos muitas informações sobre a forma física do lugar de culto, explicando sistematicamente as ações rituais que mais tarde aparecerão ao longo do Ordo Missae. Em seguida, apresentaremos os aspectos e os elementos da liturgia eucarística que dão forma ao lugar do culto, ou seja, aqueles cuja manifestação simbólica e prática possui implicações espaciais relevantes.” Agrupá-las-emos em dois campos: as derivadas do sujeito da celebração e as que respondem à natureza da ação.


Notas de rodapé


4 Muitas ações e elementos físicos da celebração eucarística são comuns a outras ações litúrgicas. Por isso nos deteremos mais extensamente nesta primeira seção, dedicando as seguintes às necessidades específicas de outros ritos.


7 Uma primeira aproximação aos principais lugares de uma igreja é apresentada nos n. 1182-1186 do Catecismo da Igreja Católica (CIgC). Trata-se do altar, do sacrário ou tabernáculo, do receptáculo onde se conserva o santo crisma e os outros óleos santos, da sede do bispo (cátedra) ou do presbítero, ambão, pia batismal e confessionário.


Fim da nota de rodapé



1.1.1 O presbitério e a nave


O sujeito da ação litúrgica é Cristo mesmo que, depois de sua Ressurreição e Ascensão aos céus, como Sumo e Eterno Sacerdote, não deixa de elevar ao Pai suas súplicas e orações, sua ação de graças, com todo seu Corpo Místico que é a Igreja. Nessa ação comunitária do povo de Deus, o sacerdócio comum e o ministerial, ordenados um para o outro, inter-relacionam-se, Ambos participam, à sua maneira, do único sacerdócio de Cristo, mantendo a diferença entre si, essencial e não apenas de grau (CIgC, n. 1136; LG, n. 10).º


Tradicionalmente, a arquitetura cristã distinguiu nos templos dois ambientes espaciais principais, que correspondem àqueles que ocupam quem recebeu a ordem sagrada e aos fiéis leigos: o presbitério e a nave. Esses dois ambientes, simbolicamente diferentes, pois correspondem a situações sacramentais diversas dos fiéis, não são, contudo, completamente herméticos. Além disso, poderíamos dizer que uma grande parte da ação litúrgica depende precisamente do fato de que ambos ambientes se comunicam: as coisas divinas entram para participar da vida dos homens, pois o Verbo se encarnou e habitou entre nós (Jo 1,14).º Devem manifestar a natureza orgânica e ministerial da Igreja (v) e, ao mesmo tempo, constituir uma íntima e coerente unidade, por meio da qual resplandeça claramente a unidade de todo o povo santo (IGMR, n. 294).


Notas de rodapé

A disposição geral do edifício sagrado deve manifestar a imagem da assembleia como povo reunido e organicamente constituído e, ao mesmo tempo, permitir a conveniente ordem e a correta execução de cada um dos ministérios.


Muito do sucesso no projeto do edifício eclesial encontra-se na solução correta das relações espaciais estabelecidas entre a nave e o santuário, assim como este último e o altar. A conjunção do corredor central, arco triunfal e baldaquino, como vemos nas basílicas romanas de Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros, tem sido um recurso tradicional na arquitetura cristá para enfatizar o santuário e altar


Fim das notas



A) O ESPAÇO MINISTERIAL


Enquanto ação de Cristo e da Igreja, todo o Povo santo de Deus está envolvido na ação litúr


gica. No entanto, cada um dos membros está chamado a desempenhar seu ministério ou ofício, fazendo apenas aquilo que lhe corresponde (IGMR, n. 91). Nesse sentido, a natureza hierárquica da Igreja reflete-se no espaço da igreja. A natureza do sacerdócio ministerial própria do bispo e dos presbíteros resplandecente na forma do próprio rito, pela preeminência do lugar reservado e pelo próprio ministério do sacerdote (IGMR, n. 4). Durante a celebração, são três lugares que fazem do presbitério o lugar que se sobressai sobre todos os demais: o altar, o ambão e a sede do celebrante (à qual se unem os demais assentos que são ocupados pelos outros participantes no rito).'º Por isso, deve distinguir-se adequadamente da nave da igreja, seja por estar mais elevado ou por sua especial estrutura e ornato (IGMR, n. 295)." O significado cristológico do altar cristão é percebido facilmente no incomparável altar dourado de São Ambrósio em Milão, do século IX. Em seu centro encontra-se a Maiestas Domini, rodeada pelos apóstolos e pelos símbolos dos evangelistas. De ambos os lados encontram-se cenas da vida de Cristo.


Tanto o celebrante principal quanto os concelebrantes e o diácono ocuparão um lugar no presbitério (IGMR, n. 294). A partir da sede - a cátedra no caso do bispo — se saúda o povo no início e dali são dirigidos os ritos iniciais (n. so-54), preside-se a celebração da liturgia da Palavra, podendo desse mesmo lugar pronunciar a homilia (n. 136); dirigem-se as preces da oração universal (n. 71) e eventualmente os ritos conclusivos (n. 164).


Notas de rodapé

10 Sobre as particularidades do ambão, nos deteremos quando considerarmos o Ordo lectionum Missae (OLM: Introdução ao Lecionário da Missa).


O desenho do santuário deveria assim mesmo permitir que se ponham assentos móveis (Cerimonial dos Bispos, n. so). Em ocasiões ao longo do capítulo, faremos referência a este livro, pois aponta indicações preciosas para o projeto. Em primeiro lugar, porque o espaço da catedral, que descreve o Cerimonial dos Bispos, deve ser exemplo para os outros templos da diocese (n. 46). Por outro lado, esse livro litúrgico prevê que muitos dos ritos da liturgia episcopal podem ser realizados nas paróquias.

Fim das notas


O celebrante principal preside o povo fiel reunido, proclama a mensagem da salvação, associa o povo à oferta do sacrifício diante do altar e dá aos seus irmãos o Pão da vida eterna (n. 92-93).


Na sede do celebrante, desenvolvem-se algumas ações relevantes a partir do ponto de vista simbólico e, portanto, do projeto, como a colocação do incenso no turíbulo, durante o canto do Aleluia (IGMR, n. 132).

Por outro lado, para as orações que ele pronuncia, é necessário um suporte para o livro e, se necessário, um meio técnico para amplificar a voz.” A posição mais adequada da sede é voltada para o povo, no fundo do presbitério, a não ser que se encontre muito distante, dificultando a comunicação, ou que o tabernáculo esteja localizado no meio do presbitério, atrás do altar (n. 310).


O diácono como ministro ordenado ocupa o primeiro lugar entre os que exercem seu ministério na celebração, diferentemente daquele dos concelebrantes. A ele compete a proclamação do Evangelho desde o ambão e, em algumas ocasiões, também a pregação da Palavra e a apresentação das intenções na oração universal. Na liturgia eucarística, ajuda o sacerdote, prepara o altar e distribui a Eucaristia. Em certas ocasiões, também indica, com devidas monições, os gestos e as posturas corporais do povo (n. 94). Pelas diversas ações que realizam, tanto o celebrante principal quanto o diácono trasladam-se com diversos movimentos pelo espaço do presbitério: entre os polos do altar, o ambão e a sede, até o lugar onde recebem as oferendas dos fiéis e distribuem a comunhão.


Notas de rodapé

12 Às vezes, ambas as funções podem ser realizadas por dois ministros segurando um microfone sem fio e o livro. Caso contrário, um suporte e um pedestal de microfone podem ser organizados. É conveniente, é claro, que seja claramente percebido que o púlpito não tem uma importância simbólica comparável à do ambão. Na história, há inúmeros exemplos de sedes ou cátedras de grande riqueza artística e iconográfica, como a da Igreja dos Santos Nereo e Aquiles em Roma (figura 1) ou a cadeira de Maximiano em Ravena,


13 Sobre a disposição do tabernáculo no espaço da igreja, ver: BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis (SCa), n. 69. Nesta questão nos deteremos no tópico dedicado ao culto eucarístico fora da missa.

Fim da nota


Quanto aos “ministérios peculiares”, o acólito e o leitor, a IGMR indica-nos também como é sua atividade espacial. O acólito prepara o altar e os vasos sagrados e, eventualmente, distribui aos fiéis a Eucaristia como ministro extraordinário (n. 98). O leitor, por sua vez, proclama as leituras da Sagrada Escritura, exceto o Evangelho. Pode também propor as intenções da oração universal e, na ausência do salmista, proclamar o salmo (n. 99). Vale citar também os demais ministros como aqueles que, na ausência do acólito ou do leitor instituído, carregam a cruz, as velas, o incensário; podem proclamar as leituras da Escritura; ajudam na celebração levando o pão, o vinho, a água; inclusive, podem ser designados como ministros extraordinários para distribuir a Comunhão (n. 101).


Em relação à distribuição dos lugares que ocupam o celebrante, os concelebrantes e os ministros, vemos que possui uma grande complexidade. Junto à sede do celebrante principal, deve haver outras para os concelebrantes e o diácono. Essas não serão, obviamente, iguais entre si, já que nem do ponto de vista sacramental nem ritual suas funções são equivalentes.”


Algo similar pode se dizer dos lugares que ocupam quem exerce os outros ministérios não unidos por sua natureza ao sacramento da Ordem, que servem na celebração. Parece conveniente que a estrutura ministerial e orgânica da Igreja seja manifestada também no presbitério, mediante o lugar que ocupam os diversos ministros (n. 310), distinguindo-se claramente na sede principal (figura 2).


Rodapé


14 Desse modo está construído o lugar para os sacerdotes na igreja de São Vital em Ravena. Na parede da abside está disposto um banco corrido de pedra em forma semicircular, onde se situam os ministros, com uma sede principal no centro que se destaca sobre as demais. Essa distinção espacial fundamenta-se na identificação sacramental do celebrante com Cristo.


No caso da catedral, a sede (cátedra) deve ser percebida com claridade, por exemplo, por sua elevação através de alguns degraus, distinguindo-se dos assentos para os presbíteros, bem como na falta de baldaquino. (Ver: Cerimonial dos Bispos, n. 47). A IGMR (n. 310) indica que também podem ocupar um lugar no presbitério os sacerdotes que assistem à ação litúrgica, revestidos com vestes coral, mas que não concelebram.


Fim da nota




B) O ESPAÇO DO SACERDÓCIO REAL


O espaço que reúne os fiéis - as Constituições apostólicas dirão que é “como um barco" - é nave da igreja. O sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum estão intimamente unidos na celebração do mistério cristão, pois o sacrifício espiritual dos fiéis é consumado, pelo minis. -tério do bispo e dos presbíteros, em união com o sacrifício de Cristo, que é o único Mediador (IGMR,n.5;cf. PO,n. 2).5


Como vimos, uma manifestação simbólica adequada desse mistério será a distinção sem isolamento dos espaços do presbitério e a nave, formando uma unidade orgânica. Assim fizeram, na época contemporânea, Auguste Perret em Notre Dame de Raincy (figura 3) e Benedito Calixto Neto na Catedral Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP) (figura 14). Em todo caso, a distribuição dos fiéis na nave e sua própria forma deverão facilitar a ativa participação de todos (IGMR, n. 294). Eles serão dispostos na nave em bancos ou cadeiras, de modo que lhes permitam, graças a seu desenho, assumir facilmente as posturas corporais exigidas durante a celebração e a aproximação para a Comunhão (n. 311). Também poderão ser dispostos em um lugar na nave, sem necessidade de uma distinção particular, aqueles que exercem ministérios litúrgicos não relacionados por ofício com a ordem sagrada.


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16 É o caso do sacristão, de quem realiza as coletas ou do “ostiário” (n. 105). Algo parecido pode ser aplicado a outros ministérios, como os do salmista (n. 102) e do comentarista (n. 105). Em qualquer caso, o cantor, o comentarista e o regente do coro não deverão subir ao ambão, mas desempenharão sua função de outro lugar adequado (Cerimonial dos Bispos, n. 51).

Fim da nota


1.1.2. As ações


A celebração é realizada por homens e mulheres que formam o corpo de Cristo e, portanto, é espiritual e, ao mesmo tempo, física. As ações que realizam podem ser individuais, se são efetuadas por apenas uma pessoa, ou comuns. Embora a individualidade e a dimensão social da pessoa abracem-se harmonicamente na liturgia, em algumas ações, uma ou outra pode adquirir mais relevância simbólica. Assim, por exemplo, o canto soa como uma só voz, mas é emitido por cada pessoa individualmente.


A) AÇÕES INDIVIDUAIS

i) Movimentos sem mudar de posição


Especialmente importantes para nosso estudo sobre as implicações espaciais da liturgia eucarística são os pontos de 42 a 44 da IGMR, dedicados aos gestos e posturas corporais.” Esses, por sua vez, contribuem para aumentar a consciência da natureza da ação que é realizada. É por isso que a uniformidade das posturas é incentivada, como sinal da unidade dos membros da comunidade, manifestando a intenção e os sentimentos dos participantes (n. 42).




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17 Sobre o conteúdo simbólico das posturas, ver: ALDAZÁBAL, ]. Gestos y símbolos. Barcelona: Centre de Pastoral Litúrgica, 2003, p. 109-123. Não consideramos, neste tópico, todos os gestos simbólicos na ação ritual, mas somente aqueles que tenham relevância a partir de um ponto de vista espacial para o projeto do espaço litúrgico.


18 Do ponto de vista antropológico, as diferentes posturas e gestos são manifestações externas de realidades espirituais, que permitem comunicar, através da linguagem corporal, atitudes de escuta, triunfo, adoração, penitência, alegria.


A colocação permanente de bancos ou cadeiras sem genuflexório dificulta a participação ativa na celebração. Por isso, não contribuem para fomentar o espírito da reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano Il: “Para promover a participação ativa dos fiéis incentivem as aclamações do povo, as respostas, a salmodia, as antífonas e cânticos, também sejam orientados os movimentos, gestos e postura corporal. Além disso, deve-se ajudar a assembleia a observar momentos oportunos de silêncio” (SC, n. 30).

Fim da nota



Os fiéis devem poder ficar de pé, sentados e ajoelhados facilmente durante a celebração.'* Permanecerão de pé desde o início até a Oração do Dia; durante o cântico do Aleluia e a proclamação do Evangelho, enquanto fazem a Profissão de Fé e a Oração Universal, também na lirurgia eucarística, a partir do convite à oração antes da oração sobre as oferendas (n. 43,1); igualmente se encontram de pé no momento do Rito da Paz, em que os fiéis — se se considera oportuno (pro opportunitate) - oferecem um sinal de paz (n. 82; Ordo missae, n. 128). Estarão sentados enquanto se proclamam as leituras antes do Evangelho e o Salmo Responsorial; durante a Homilia e enquanto se faz a preparação das oferendas, também, segundo as circunstâncias, enquanto se guarda o sagrado silêncio após a Comunhão (n. 43,2). O principal celebrante permanece de pé enquanto se encontra diante do altar ou diante da sede ou do ambão, nos momentos correspondentes da celebração. Permanece sentado quando se proclamam as leituras que não são o Evangelho e durante a recitação do Salmo. Também durante a preparação do altar para a apresentação das oferendas e, eventualmente, depois da comunhão, antes dos ritos finais.


A posição de joelhos, adorante, faz parte da liturgia da Igreja.” De modo particular, exorta-se o povo cristão para que na Quinta-feira Santa e na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, honre, com culto peculiar de adoração, o Sacramento (IGMR, n. 4). Por sua vez, o sacerdote que celebra faz três genuflexões: depois da elevação da Hóstia, do cálice e antes da Comunhão. Também faz genuflexão diante do tabernáculo quando este se encontra no presbitério, no início e no final da celebração (n. 274).


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19 A genuflexão significa adoração. É reservada para honrar ao Santíssimo Sacramento e à Santa Cruz, da solene adoração da Sexta-feira Santa até o início da Vigília Pascal (IGMR, n. 274). Também se faz, tradicionalmente, a genuflexão diante da relíquia da Santa Cruz exposta para a veneração. Prática-se igualmente este gesto durante o Et incamatus est do Credo no dia de Natal e na solenidade da Encarnação do Senhor (25 de março). Também quando se proclama à morte de Cristo durante a leitura da Paixão no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa, assim como quando se realizam as preces da oração universal nesta última celebração.


Fim da nota



ii) Movimentos com mudanças de posição


São diversos os movimentos individuais realizados durante a celebração, tanto dos fiéis como dos ministros e do sacerdote. Assim, na liturgia da Palavra, o ambão constitui um dos polos de ação mais importantes. Para ele se dirigem os diferentes leitores para a proclamação das leituras.

Tradicionalmente, esse trabalho não é um serviço presidencial, mas ministerial (n. 59). As leituras terão de ser proclamadas por um leitor, enquanto o diácono — ou estando este ausente, outro sacerdote — anuncia o Evangelho. No entanto, se um diácono ou outro sacerdote não estiver presente, cabe ao próprio sacerdote celebrante ler o Evangelho; e na falta de outro leitor adequado, ele também proclamará as leituras (n. 59). Essas ações implicam mudanças de posição da nave ou do presbitério em direção ao ambão. Parece adequado, portanto, que o ambão se situe em algum ponto da igreja visível e de fácil acesso para todos (n. 309).


No começo da liturgia eucarística, prepara-se o altar e sobre ele se colocam o corporal, o purificador, o missal e o cálice, quando este não é preparado na credência (n. 73). Também nela se pode terminar a purificação dos vasos sagrados sobre um corporal (n. 163; 192; 279). Essas observações colocam diante de nossos olhos um elemento do espaço litúrgico do ponto de vista prático: a credência. Dada a grande quantidade de elementos físicos que intervêm na celebração (livros, vasos sagrados, incensário, ver: n. 118-119), faz-se necessário um lugar auxiliar de tamanho suficiente que se possa acessar facilmente nos momentos oportunos.


Rodapé

20 Sobre as ações individuais do celebrante. Entre elas se encontram, por exemplo, a imposição das cinzas no primeiro dia da Quaresma ou a aspersão do povo com água benta em memória do batismo no início da Missa, rito que substitui o ato penitencial (ainda que normalmente ambos movimentos o celebrante os realize acompanhado de um ministro).


A importância desse espaço auxiliar torna-se ainda mais evidente quando se desenvolvem ritos nos quais objetos específicos são utilizados.

Fim da nota



A IGMR contempla dois momentos em que tem lugar a incensação do altar e da cruz, situada no altar ou próximo dele (n. 117; 277; 308): depois da procissão de entrada e no rito de apresentação das oferendas (n. 49;75).” Na liturgia eucarística, o sacerdote e o povo são incensados separadamente pelo diácono ou outro ministro (n. 75). Depois desse gesto, o sacerdota limpa as mãos ao lado do altar (n. 76). Um pouco mais adiante, se ocorre uma concelebração, os outros sacerdotes que se aproximarão o altar (n. 215). Depois da comunhão, o celebrante ou algum dos ministros consomem as espécies que não foram distribuídas — também se pode guardá-las no sacrário — e purificam os vasos sagrados (n. 163). É conveniente, portanto, que em torno do altar haja um espaço amplo que permita todas essas ações.


B) AÇÕES COMUNITÁRIAS

I) Procissões


Entre as ações simbólicas realizadas em comum estão as procissões. Na missa, “são movimentos processionais” os do sacerdote com o diácono e os ministros que se aproximam do altar no início, antes da proclamação do Evangelho, quando leva o Evangelho ao ambão acompanhado dos ministros com as velas, os dos fiéis quando levam as ofertas e se aproximam da Comunhão (IGMR, n. 44).? Embora não seja expressamente indicado na IGMR, nem possua um significado simbólico particular, também podemos considerar a procissão de saída. Esses últimos movimentos indicam-nos uma circunstância espacial não negligenciável:  a celebração tem sua partida e conclusão na sacristia, posto que ali se revestem os ministros (n. 119; 209). O caminho que conduz dela até o presbitério, através da nave e eventualmente outros locais como um corredor, também está envolvido na ação celebrativa. Seu desenho e disposição deverá ser considerado atentamente, de modo que permita facilmente tanto o caminho de uma procissão solene pela nave da igreja com uma saída simples de um sacerdote e de quem o ajuda.


Rodapé

22 Se o altar está separado da parede, se incensa rodeando-o. Se não está, incensa-se primeiro a parte direita e depois 2 esquerda (IGMR, n. 277).


Sobre as procissões específicas de alguns momentos do ano litúrgico, assim como as próprias dos demais sacramentos e sacra” mentais, falaremos nos tópicos seguintes.

Fim da nota




Na tradição oriental, os espaços auxiliares, equivalentes à sacristia, são as salas do diakonikon e a protesis, situadas em ambos os lados do espaço do altar, onde se revestem os ministros e se preparam as oferendas. No ocidente, não faltam exemplos de sacristias de grande valor artístico, de modo particular na Itália e na Espanha, como é o caso da cartuxa de Granada (figura 4). Permitem-nos ver até que ponto esse espaço auxiliar é importante para a liturgia romana (figura 5).


A procissão de entrada formada pelo sacerdote e os ministros — “sacerdos cum ministris ad altare accedit” (Ordo missae, n. 1) — ocorre no meio do povo. É interessante comprovar que duas das cinco procissões envolvem diretamente tanto os ministros ordenados quanto o povo: na das ofertas e na da comunhão, o povo vai até o altar e os sacerdotes e diáconos os recebem para aceitar suas ofertas ou distribuem a comunhão (n. 72-73). Isso possui um profundo significado cristológico e escatológico. Os ministros atuam in persona Christi: recebem as oferendas do povo que levam ao altar enquanto participam, de um modo especial, na mediação sacerdotal de Cristo entre Deus e os homens; também distribuem o corpo de Cristo seguindo a ordem do Senhor: “tomai e comei” (Mt 26,26). Ambas ações realizam-se na formação de uma fila que se move. À igreja é comunidade a caminho até Cristo - o ministro, o altar - meta definitiva da peregrinação terrena.


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24 Nas Igrejas mais importantes, como a catedral, pode ser oportuno projetar dois ambientes distintos: o secretareium e a sacristia. O primeiro pode ser utilizado para revestir-se nas ocasiões mais solenes, enquanto o segundo conserva os ornamentos e objetos de culto e para preparar-se para a celebração nos dias sem solenidade particular (Cerimonial dos Bispos, n. 53).


25 Também na sacristia deve haver um sacrarium ou piscina de onde verta a água com a qual será lavado o lugar onde foi derramado algo do Sangue do Senhor (IGMR, n. 280) e também aquela empregada na purificação dos vasos e na roupa de linho (n. 334). Alguns exemplos históricos de piscina que se conservam, como a da catedral de Salisbury em forma de nicho abobadado, estão à direita da nave, com uma drenagem que canaliza a água utilizada. Por outro lado, não fizemos referência a outro elemento auxiliar do espaço litúrgico, de grande importância prática: o depósito. Nele pode conter todo tipo de elementos que ocasionalmente se empreguem na Igreja. Seu desenho e localização devem ter em conta sua relação com o espaço da nave e do presbitério.

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A procissão das oferendas (n. 140) e da comunhão (n. 160) permitem a comunicação entre o espaço do altar e aquele onde se dispõem os fiéis, assim como a participação desses últimos na oblação e no sacrifício (Ordo missae, n. 22). É conveniente, portanto, que essa distinção-comunicação entre o mundo celeste e o mundo dos homens possua também uma expressão simbólica, como se tem manifestado ao longo da história da arquitetura cristã - no oriente e ocidente - de modo ininterrupto.


Também observamos a conjunção orgânica dos dois sacerdócios nos movimentos até o ambão. A procissão do diácono para a proclamação do Evangelho, que pode ter sido deixado desde a procissão inicial sobre o altar (n. 173), está fortemente marcada pelo ministério da ordem sagrada, ao que compete sua proclamação. A veneração e solenidade indicam a distinção e a honra que são dadas à Palavra de Deus (n. 60; Ordo missae, n. 14-60). Previamente, dirigiam-se ao ambão — é uma possibilidade contemplada pela IGMR - os fiéis leigos para fazer as leituras, exercendo também, assim, seu sacerdócio comum. Nas zonas setentrionais da Europa, o ambão foi integrado à jubé (ou tramezzo na Itália): tribuna elevada que distinguia o espaço da nave e do coro unido ao santuário. Alguns exemplos notáveis são as das catedrais de Chartres ou Módena, ou o da igreja de São Pantaleão em Colônia.




ii) Caminhar até o altar para participar da liturgia eucarística (ministros ordenados)


A concelebração litúrgica é recomendada pela IGMR na Missa crismal e na noite da Ceia do Senhor; na que se celebre os Concílios, nas reuniões dos bispos e nos sínodos, na missa conventual e principalmente nas igrejas e oratórios; assim como na qual se celebre qualquer tipo de encontro de sacerdotes (n. 199; 203).” Portanto, parece conveniente que o espaço litúrgico de um templo como o que estamos descrevendo contemple essa possibilidade.


Os sacerdotes dirigem-se, depois da veneração do altar na procissão inicial, para seus lugares no presbitério (n. 210). Quando começa a oração eucarística, caminham para o altar e permanecem junto a ele, sem impedir o desenvolvimento dos ritos ou o ministério do diácono, ou que a ação sagrada seja bem presenciada pelos fiéis (n. 215). Na comunhão, consomem as espécies sagradas, aproximando-se um após o outro do centro do altar ou do lugar que ocuparam durante a anáfora (n. 248-249).


Iii) Dirigir-se ao templo e sair dele


O Ordo Missae começa com duas palavras que são significativas não apenas do ponto de vista teológico, mas prático: populo congregato (“Tendo-se reunido o povo”: Ordo Missae, n. 1).


O povo chega ao templo respondendo à convocação divina, ocupando seus lugares na nave. Realiza um caminho que os leva de diversos pontos do mundo até um lugar comum. Uma vez nas imediações do edifício, o caminho de acesso ao interior é acompanhado por diversos elementos arquitetônicos que tradicionalmente possuem valor simbólico: o volume exterior e a fachada, o átrio e a porta. Transmitem a quem se aproxima de suas imediações, através das imagens, uma mensagem de salvação. Poder-se-iam citar muitos e nobres exemplos arquitetônicos de fachada-entrada.


Na cidade de Barcelona, ergue-se o Templo Expiatório da Sagrada Família, obra imortal de Antonio Gaudí. Suas fachadas, pórticos e aparência exterior constituem uma eloquente representação icônica construída do mistério cristão. Algo similar pode-se dizer de tantas catedrais dispersas ao longo da geografia europeia, como a de Amiens (figura 6). No Brasil, podemos citar a Fachada da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, Brasília-DF, onde os fiéis são recepcionados por quatro grandes esculturas em bronze representando os quatro evangelistas, e em seguida atravessam um corredor escuro que leva ao interior do templo, repleto de luz, projetado pelos vitrais que fazem o fechamento de toda a igreja (figura 7).


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27 Convém que tenha lugar a concelebração na paróquia quando o bispo preside, de modo particular, na ocasião da visita pastoral e na posse do novo pároco (Cerimonial dos Bispos, n. 171; 1181; 1187).

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Do ponto de vista prático, os acessos deverão permitir uma cômoda entrada e saída dos fiéis, também para as pessoas com necessidades especiais. Do ponto de vista teológico, é grande o valor desse ambiente simbólico de acesso também como espaço para a liturgia, como veremos mais adiante em outras celebrações. 














11.3. O lugar da Palavra


A IGMR indica a conveniência de que o ambão seja fixo e esteja colocado de tal maneira que os ministros ordenados e os leitores possam ser vistos e bem escutados. Do ambão se proclamam unicamente as leituras, O Salmo Responsorial e o pregão da Páscoa, também pode ser o lugar da homilia e das intenções da oração universal (n. 309). Além das indicações da IGMR, as premissas da Introdução ao Lecionário (Ordo lectionum Missae - OLM) indicam-nos mais alguns detalhes sobre o lugar da Palavra de Deus no templo.



No recinto da igreja, deve-se dispor de um lugar elevado e com a devida nobreza, adornada, com sobriedade, que corresponda à dignidade da Palavra de Deus (OLM, n. 32).” Ao mesmo tempo, deve facilitar que os fiéis entendam bem a proclamação, ajudados, se preciso, por meios técnicos (n. 32, 34). Não é conveniente que subam até ele outras pessoas que não sejam os leitores, o diácono e o sacerdote, como seria o caso do comentarista, o cantor ou o diretor do coro (n. 33; 16).


O espaço do ambão deve ser amplo, pois em certas ocasiões nele devem estar vários ministros, que deverão dispor de luz suficiente para ler (n. 34). Por sua vez, o Ritual de Bênçãos acrescenta que o ambão deve recordar aos fiéis que a “mesa da Palavra de Deus” está sempre posta (Ritual de Bênçãos, n. 900).


Um exemplo notável do ambão é o da basílica de São Clemente Romano, na Urbe. A ele se acessava a partir de uma escada e descia de uma segunda escada simétrica, que permitiam os movimentos processionais (figura 29).” Nó século XX, podemos destacar, por sua importância para a história da arquitetura contemporânea, a ermida de Notre Dame de Ronchamp, construída nos anos 50. Le Corbusier dispôs nela dois púlpitos monumentais — não foram projetados originalmente como ambões, embora sua disposição e dignidade façam com que possam ser empregados bem para esse fim — para a pregação: um no interior e outro no exterior da igreja, para as celebrações ao ar livre.


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Vide: IGMR, n. 309 e Ritual de Bençãos, n. 900. Por outro lado, na Exortação Apostólica de Bento XVI após o sínodo dos bispos sobre a Palavra de Deus (2008), indicava-se que os Padres sinodais haviam sugerido que nas igrejas se destinasse um lugar de relevo, visível e de honra para se colocar o livro que contém a Palavra de Deus, também fora da celebração (BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini: sobre a Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja. Documentos Pontifícios 6. Brasília: Edições CNBB, 2011, n. 68).


30 Por isso, deveria considerar a possibilidade de dispor, no templo, de um lugar com um meio de amplificação de voz e um púlpito onde apoiar um livro. A partir desse espaço, o comentarista ou cantor pode intervir. Este lugar deve distinguir-se claramente tanto do espaço da sede quanto do ambão. Crispino Valenziano defende, em Architetti di chiese (p. 156), situar o conjunto dos “ministros da Palavra” (coro, leitor) em torno do ambão, no modelo da schola cantorum.


O nome “gradual”, com que se denominou tradicionalmente o salmo responsorial, provém destes elementos arquitetônicos que são as escadas - formadas por gradus (degraus) - pelas quais se acessava o espaço do ambão.

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1.1.4. O silêncio


O silêncio tem algo a ver com o espaço? Pode-se dizer que o espaço litúrgico, além de ser um espaço de ação, é também espaço de silêncio? As referências ao silêncio como parte da celebração são constantes ao longo de toda a IGMR. No número 45, indica-se expressamente que, já desde antes da celebração, é aconselhável que se guarde o silêncio na igreja, na sacristia e nos lugares mais próximos, para fomentar um “clima” propício à participação.” Em algumas igrejas romanas, pode-se observar, nas sacristias, cartazes em que está escrito: SILENTIUM. Uma relação orgânica adequada desses espaços auxiliares com a nave e o presbitério ajudarão neste fim. Não teria sentido o desenho de uma sacristia que dificultasse guardar na procissão o devido recolhimento dos sentidos, seja por sua distância em relação à nave ou pela ausência de sinais que nos indique sua relação com o espaço sagrado.



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32 Também o OLM (n. 28) afirma que o diálogo entre Deus e os homens, que se realiza com o auxílio do Espírito Santo, requer breves momentos de silêncio, para que neles a Palavra de Deus seja acolhida interiormente e se prepare a resposta por meio da oração.


33 “Favorecem tal disposição interior, por exemplo, o recolhimento e o silêncio durante alguns momentos pelo menos antes do início da liturgia” (SCa, n. 55).

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1.1.5. O espaço para o canto e a música


Em relação ao espaço para a música e o canto,** o Graduale simplex — livro litúrgico que contém os modos mais simples do canto da missa — contempla a intervenção de dois agentes diversos: um cantor que inicia as antífonas e orienta a execução do salmo e um coetus fidelium - todo o coro ou um grupo mais reduzido dentro dele - que deve cantar as antífonas e aq partes responsoriais dos salmos (n. 18). O Ordo cantus missae, por sua vez, prevê igualmente a intervenção em diversos momentos da ação litúrgica de um grupo de cantores, assim como da um cantor apenas ou de um pequeno grupo que guie a assembleia (Ordo cantus missae, n. 1-2:5. cf. IGMR, n. 102-104), e que os componentes do coro possam acessar a comunhão (n. 17, também: IGMR, n. 86). O grupo de cantores é uma parte do povo que exerce essa função particular a favor da comunidade (IGMR, n. 103).


Também deve haver um lugar adequado para o órgão e demais instrumentos musicais, para que possam ser de ajuda tanto para os cantores como para o povo, e onde possam ser comodamente ouvidos quando intervêm sozinhos (IGMR, n. 313). Essas considerações sugerem-nos que é mais consistente que os membros do coro e aqueles que tocam os instrumentos musicais ocupem o mesmo espaço e que estejam na nave. Assim, manifesta-se que, possuindo uma função e, portanto, um espaço particular, formam, ao mesmo tempo, parte da assembleia.”


Historicamente, o lugar destinado ao coro possui um espaço próprio no templo, que destaca a centralidade da música na celebração litúrgica cristã. Sua localização tem sido muito variada: desde a schola cantorum das basílicas primitivas até o espaço fechado, no centro da nave, das catedrais espanholas, passando pelo tramezzo ou jubé medieval, onde podia, também, situar-se o órgão. Podemos encontrá-lo na tribuna elevada em algum ponto da nave, como na Capela Sistina do Vaticano, ou sobre o átrio imenso de entrada. Do mesmo modo, encontrámo-lo no ambiente do presbitério: em uma tribuna como em São Lourenço de Florença, obre de Filippo Brunelleschi, ou no plano atrás do altar (retrocoro), como o de Bernini em Santa Maria del Popolo.



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Segundo a instrução de 1967 Musicam sacram, da Sagrada Congregação dos Ritos, o coro pode ser formado, segundo os costumes do lugar e das circunstâncias, por homens ou crianças, sozinhos ou juntos, de homens e mulheres ou apenas de mulhe” res (n. 22).


A instrução parece contemplar a possibilidade de que o coro se situe no presbitério, já que afirma que “quando o grupo de cantores tenha também mulheres, este grupo deve situar-se fora do presbitério” (n. 23 in fine). Nesse sentido no caso de uma comunidade na qual o coro é formado exclusivamente por clérigos, parece que seu lugar adequado seria é presbitério (SAGRADA CONGREGAÇÃO DOS RITOS. Instrução Musicam Sacram (MSa): sobre a música na sagrada liturgia).

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1.2. AO LONGO DO ANO LITÚRGICO


Algumas celebrações particulares do ano litúrgico merecem uma atenção particular por suas exigências espaciais específicas. Seguiremos, nesse caso, as indicações correspondentes a cada celebração no Missal Romano.


A) DOIS DE FEVEREIRO


Na festa da Apresentação do Senhor, tem lugar a bênção e a procissão das velas antes da missa. Pode-se realizar uma procissão ou uma entrada solene. A procissão começa em uma igreja menor ou em um lugar adequado fora do templo.” Depois da chegada do sacerdote e dos ministros, acendem-se as velas e as asperge com água benta (n. 5), continuando a procissão até o altar (n. 8-9). No caso de entrada solene, os fiéis reúnem-se em um lugar adequado que pode ser em frente a porta da igreja ou dentro dela. Depois de acender as velas, o sacerdote as benze e se forma a procissão de entrada até o altar (n. 9-11).


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Na nave da ermida de Ronchamp, à qual acabamos de nos referir, existe uma tribuna elevada pensada para o coro. Ela atravessa a parede da frente e conecta o interior e o exterior do templo, onde uma das fachadas serve como um retábulo para as celebrações ao ar livre.

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 B) O ESPAÇO DA QUARESMA


Durante o tempo da Quaresma, o Missal Romano recomenda vivamente que se observe | costume das congregações da Igreja local, à maneira das estações romanas, em alguma igreja ou santuário particular da diocese. No caso que ocorra previamente uma procissão essa deve partir de uma igreja menor ou de outro lugar adequado. Em seguida, pode acontece, a missa ou outra celebração (Missal Romano, Tempus Quadragesimae, n. 1). Também no tempo da Quaresma acontece a bênção e a imposição da Cinza aos fiéis. Essa ação requer alguns elementos auxiliares onde seja possível depositar a cinza que é distribuída e onde o sacerdote possa lavar as mãos ao concluir o rito. Por outro lado, as cruzes e imagens, da igreja — ao menos as principais — devem estar dispostas e ter os elementos auxiliares necessários para que possam estar cobertas desde o V domingo da Quaresma até a Vigília Pascal.


C) DOMINGO DE RAMOS


O Domingo de Ramos, a comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém, tem uma dinâmica processional e espacial que deve ser considerada atentamente. A liturgia prevê três modos de ser realizada: a procissão, a entrada solene e a entrada simples.” No caso da procissão, 0 povo reúne-se em alguma igreja menor ou em outro lugar adequado fora do templo, tendo os ramos em mãos (n. 2). Depois da saudação e da monição do sacerdote, aspergem-se os ramos e o diácono proclama o evangelho da entrada em Jerusalém e pode pregar uma breve homilia (n. 5-8). Em seguida, forma-se e coloca-se em marcha a procissão até a igreja (n. 9) e, já na sede, o sacerdote muda os ornamentos (n. 11). Na entrada solene, a procissão pode formar-se antes da entrada da igreja ou dentro dela (n. 13). Durante a liturgia da Palavra, na leitura da Paixão do Senhor, que se realiza neste dia e na Sexta-Feira Santa, podem intervir três leitores (n. 21). Eles são colocados no plano do presbitério em púlpitos móveis que são retirados no final.


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Próximo à catedral, deve existir outra igreja ou sala, uma praça ou um claustro, onde a assembleia possa se reunir antes das procissões, e onde tenham lugar os ritos iniciais de algumas festas particulares ao longo do ano litúrgico (Cerimonial dos Bispos, n. s4). Algo parecido poderia projetar-se em uma paróquia de certa importância.

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DA CELEBRAÇÃO DA CEIA DO SENHOR


O Tríduo Pascal exige uma atenção particular do ponto de vista ritual, também nas igrejas paroquiais (Missal Romano, Sacrum Triduum Pascale, n. 3). Após a homilia, ocorre o lava-pés (lotio pedum: n. 10-13), em que o sacerdote limpa os pés de algumas pessoas dispostas em assentos em um “lugar adequado” (n. 11). Onde situá-las? A distinção que o Missal faz entre os “escolhidos” para este rito; o sacerdote e os ministros (n. 11), leva a pensar que é adequado que esse gesto aconteça na “entrada do presbitério”, entre o santuário e a nave. Nesse espaço, pode-se desenvolver outros ritos que interajam simbolicamente clérigos e leigos: procissão das oferendas, imposição das cinzas, adoração da Cruz.


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As premissas deste livro indicam que na leitura da Paixão há três pessoas que fazem as partes de Cristo, do historiador-cronista à sua direita e do povo-sinagoga a sua esquerda (n. 1,5). Essa leitura é realizada pelo diácono, que faz a parte de Cristo, acompanhado de dois acólitos ou ministros. Se os leitores não são diáconos, eles não pedem a bênção antes da proclamação. Por outro lado, pede-se a bênção o sacerdote leitor no caso de quem presida a liturgia seja o bispo.


Através de um decreto de 6 de janeiro de 2016, e seguindo um desejo expresso do Papa Francisco, a Congregação do Culto Divino modificou esta rubrica do Missal Romano, de modo que possam participar neste rito uma representação variada do povo de Deus: homens, mulheres, crianças, anciãos, enfermos, clérigos, leigos, consagrados e não apenas os “homens escolhidos”


Podemos considerar que o limiar do santuário é também o lugar onde a comunhão é ordinariamente dada, à qual nos referimos previamente no tópico dedicado às procissões. Em seu desenho tem que prever que distribuam a Eucaristia — em qualquer celebração ao longo do ano = mais de uma pessoa: o celebrante, outro sacerdote, o diácono.

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Depois da comunhão, deixa-se o cibório com as partículas consagradas sobre o altar e se incensa (n. 35-37). A procissão dirige-se, no final da missa, para o lugar da reserva ou o locus repositionis (n. 37-39), onde há um tabernáculo vazio desde o início da celebração (n. 5). O Santíssimo é deixado no lugar da “reposição”, preparado em alguma parte da igreja ou capela adequada e convenientemente adornada (n. 38). Volta-se à incensação deixando a porta do tabernáculo aberta: fecha-se e, após um momento de adoração silenciosa, a procissão volta à sacristia (n. 40). É, portanto, necessário que o templo possua em seu interior um espaço adequado ou capela que possa ser preparado facilmente para este fim.


E) SEXTA-FEIRA SANTA


No início da celebração da Paixão do Senhor na Sexta-Feira Santa, o sacerdote e o diácono dirigem-se, em silêncio, para o altar e, depois de fazer uma reverência diante dele, prostra-se e permanecem durante um tempo em silêncio adorante (n. 5). Mais uma vez, vemos como o espaço do presbitério deve possuir medidas suficientes que permitam, além desse gesto simbólico, todas as ações e movimentos dos ministros nas demais celebrações.


A Adoração da Santa Cruz acontece depois da oração dos fiéis (n. 14-21). A ostentação prévia pode desenvolver-se de dois modos. No primeiro, o diácono parte da sacristia levando a cruz coberta e acompanhado de dois ministros com velas. Percorre a nave da igreja e entrega a cruz ao sacerdote, que a eleva, descobrindo-a posteriormente, voltando-se, assim, para o povo diante do altar (n. 15). No segundo modo, forma-se a procissão com o sacerdote e os ministros partindo da porta da igreja levando a cruz até o presbitério. Detêm-se em três ocasiões para cantar o Ecce lignum e permanece em silêncio adorante por alguns momentos (n. 16). Nesses casos, vemos, novamente, a importância da sacristia e da entrada como pontos de partida de ações rituais, assim como da procissão até o altar como movimento ritual que configura q espaço litúrgico. A Adoração da Cruz ocorre ad ingressum presbyterii ou em outro lugar adequado, ao qual acessam os fiéis processionalmente (n. 18).


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43 Eles também podem, conforme o caso, ajoelhar-se. Sobre o significado simbólico da prostração como um gesto de reverência, penitência e humildade, usado tanto na Sexta-Feira Santa como nas ordenações, na profissão religiosa e na bênção do abade ou da abadessa

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 F) VIGÍLIA PASCAL


A bênção do fogo e a preparação do círio pascal ocorrem em um “lugar conveniente” fora da igreja onde o povo está reunido (n. 8) e de onde parte a procissão com o círio e os fiéis com as velas acesas. Tanto a natureza dessa ação como a da bênção dos ramos na procissão do domingo anterior fazem-nos pensar que seja conveniente dispor de um lugar no átrio ou em algum espaço exterior com para esse fim, devidamente preparado para suportar diferentes condições climáticas. A procissão detém-se em três ocasiões: na entrada da igreja, no meio da nave e diante do altar (esses pontos podem ser sinalizados através do desenho do pavimento). Em seguida, deixa-se o círio sobre o candelabro — candelabrum magnum, fala a rubrica do missal - perto do ambão ou no centro do presbitério (n. 15), onde permanecerá até as segundas vésperas do domingo de Pentecostes, em que será trasladado para o batistério.


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44 No caso em que não é aconselhável acender uma fogueira, o rito da bênção do fogo adapta-se às circunstâncias. Em qualquer caso, o fogo é abençoado e, se parece oportuno, prepara-se e acende-se o círio (MISSAL ROMANO, Domingo da Páscoa na Ressureição do Senhor, n. 13).


45 Alguns exemplos notáveis de castiçais para o círio pascal são os de São Clemente Romano (figura 29) ou da basílica de São Paulo Extramuros.

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Através de algumas dessas celebrações particulares ao longo do ano, constatamos que o ambiente de entrada, a porta, é um elemento relevante na arquitetura da igreja. É significativo que os momentos em que o Missal se refere à porta da igreja como espaço da liturgia, trata precisamente das procissões: na festa da Apresentação no Templo, o Domingo de Ramos, a Sexta-Feira Santa e a Vigília Pascal. Desse lugar parte a procissão com a cruz na Sexta-Feira Santa e propre ianuam é elevada pela primeira vez (Feria VI in Passione Domini, n. 16).


Também a procissão com o círio na Vigília Pascal, que na porta do templo é erguido pela primeira vez, enquanto o diácono canta Lumen Christi (Vigilia Paschalis in nocte sancta, n. 15). Comprovamos, em todos esses casos, que o ambiente da entrada entra em relação simbólica com o altar, convertendo-se em ponto de partida para o estabelecimento de uma ação processional.” Essas procissões durante todo o ano litúrgico têm relação com acontecimentos da vida do Senhor relacionados com Jerusalém, onde sua missão culmina com a Morte e a Ressurreição. E é precisamente no sacrifício do altar onde se comemora o Mistério Pascal.


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46 Nas celebrações do batismo e do matrimônio e também na dedicação da igreja, os fiéis são acolhidos na entrada do templo. Deste ponto, entram processionalmente.


47 Na porta da igreja pode ocorrer também a recepção solene do bispo durante a visita pastoral (Cerimonial dos Bispos, n. 1179). Além disso, quando se confia um novo pastor a uma paróquia, tanto ele quanto bispo são acolhidos nos confins da paróquia e se dirigem processionalmente para a porta da igreja, onde o bispo apresenta o novo pároco e lhe entrega a chave da igreja (n. 1190).

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1.3. CAPELA DO SANTISSIMO


As premissas do livro litúrgico sobre a Comunhão e culto eucarístico fora da missa** sinalizam que essas duas ações litúrgicas fazem referência à Eucaristia celebrada, que é sua origem e fim (n. 2). A Eucaristia reserva-se para possibilitar a distribuição da comunhão aos fiéis, de modo particular, aos enfermos; para a adoração do povo cristão e para prestar culto a Deus pela adoração de sua majestade.


A exigência de que os fiéis percebam tanto a importância desse mistério em suas vidas quanto a unidade do mesmo = a Eucaristia, celebrada e adorada, à qual se presta culto — faz com que a localização e a relação espacial entre altar e tabernáculo revistam-se de uma notável importância simbólica. Ambos os elementos físicos deverão ser percebidos como diferentes, mas intimamente relacionados um com o outro: para orientar e alimentar a piedade deve-se ter presente o mistério eucarístico em toda sua amplitude (n. 4), embora sem situar no projeto “em razão do sinal”, o sacrário sobre o altar (n. 6).





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Duncan G. Stroik destaca a relevância da interrelação entre altar e sacrário, como elementos litúrgicos mais destacados, para o desenho do templo. Uma possível solução - comum, por outro lado, na arquitetura católica na era moderna - é dispor ambos elementos ao longo de um mesmo eixo no edifício, podendo estar em diferentes alturas.

Mitjans, por sua vez, indica que a sábia disposição e relação entre altar, crucifixo, sacrário e iconografia permitem plasmar a orientação simbólica do edificio.

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A presença real de Cristo no tabernáculo, a mais importante do templo tanto ontológica quanto simbolicamente, é fruto da celebração eucarística e é assim que se manifestará.


Em algumas das últimas declarações magisteriais sobre a liturgia, observamos algumas indicações breves, mas preciosas para nosso estudo. A condição do sacrário não é de elemento secundário no espaço litúrgico, já que


(...) ajuda a reconhecer a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento. Portanto, é necessário que o lugar em que se conservam as espécies eucarísticas seja identificado facilmente por qualquer um que entre na igreja, graças também à lâmpada acesa. Para isso, deverá ter em conta a estrutura arquitetônica do edificio sacro: nas igrejas onde não há capela do Santíssimo Sacramento, e o sacrário está no altar maior, convém seguir usando esta estrutura para a conservação e adoração da Eucaristia, evitando por diante da sede do celebrante. Nas novas igrejas convém prever que a capela do Santíssimo esteja próxima do presbitério, se isso não for possível, é preferível pôr o sacrário no presbitério, suficientemente alto, no centro da abside, ou em outro ponto onde esteja bem visível (SCa, n. 69).


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51 A presença eucarística permanente de Cristo deriva do sacrifício e tende à comunhão, tanto espiritual quanto sacramental


Encontramo-nos aqui diante de uma questão teológica à qual a arquitetura deve dar uma resposta construtiva e simbólica. Embora o costume de preservar o Santíssimo Sacramento após a celebração eucarística remonte aos primeiros séculos da Igreja, a arquitetura dos lugares de reserva evoluiu notavelmente, da mão da teologia sacramental sobre o mistério eucarístico. Assim, encontramos tabernáculos embutidos na parede, como em São Clemente Romano ou na capela Médici da igreja de Santa Cruz em Florença; colunas ricamente adornadas na Alemanha, como as de São Lourenço em Nuremberg ou a de Salem, pombos eucarísticos como os que ainda hoje guardam as sagradas formas na abadia de Grottaferrata ou na igreja bizantina se São Atanásio em Via do Babuíno em Roma, sacrários mais ou menos preciosos situados sobre o altar em capelas secundárias ou na nave principal.


Nos templos que vimos erigir ao longo dos últimos so anos, nem sempre foi possível da! uma solução adequada a essa questão, em não pouca medida devido a uma incompleta concepção teológica sobre a presença eucarística de Cristo. No entanto, não faltam algumas construções pontuais, de modo particular nos últimos quinze anos, que tentaram relacionar visivelmente os lugares da celebração e a reserva eucarística. Como é o caso do santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia (dedicado em 2002), da paróquia de Deus Pai Misericordioso em Roma, obra de Richard Meief (dedicada em 2003) ou da paróquia de São Josemaria Escrivá em Santafé, México, DF (dedicada em 2009).

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Essas indicações, do ponto de vista da arquitetura do espaço litúrgico, são de notável importância. Nesse contexto, na Exortação Apostólica publicada após a celebração do sínodo dos bispos sobre a Palavra de Deus, Bento XVI recordou que, no templo, o centro (primarius locus, na versão original) deve corresponder ao sacrário com o Santíssimo Sacramento (VD, n. 68). Para a adoração da Eucaristia recomenda-se que se situe em uma parte digna da igreja, visível, decorosamente ornada e adequada para a oração (IGMR n. 314). A IGMR (n. 315) contempla que o lugar do sacrário é o próprio presbitério, exceto sobre o altar da celebração, ou também outra capela relacionada organicamente com a igreja. Sobre essa questão, Bento XVI expressou-se em Sacramentum caritatis (n. 41) ao especificar que tanto o altar quanto o tabernáculo são “elementos próprios” do presbitério.”


O lugar habitual para a comunhão fora da Missa é a igreja ou o oratório. Nessa ação litúrgica, utiliza-se o altar, onde se traslada o cibório com as formas e, partindo dali, leva-se a hóstia consagrada aos fiéis para a Comunhão (n. 18-19). Aqui teremos duas ações rituais que requerem soluções espaciais: o traslado do Santíssimo do sacrário ao altar e deste para o lugar que os fiéis ocupam. A ausência de um altar na capela do Santíssimo Sacramento dificulta esse rito, porque implica o traslado do celebrante de um lugar para o outro do templo levando a Eucaristia. O ordo para uma celebração da Comunhão eucarística fora da missa de um modo mais solene segue um esquema análogo ao da Santa Missa.'* Ao final, o mesmo ordo contempla, como faz para a comunhão da Missa, que se reservem as partículas restantes (n. 36).




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53 Nas igrejas “deve ressaltar a unidade entre os elementos próprios do presbitério: altar; crucifixo, tabernáculo, ambão, sede” (SCa, n. 41). A respeito da possibilidade de situar nas igrejas e paróquias o sacrário em um lugar alto e central no presbitério.


Antes do momento da Comunhão e de rezar o Pai-Nosso são levadas as sagradas espécies ao altar (n. 30).

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Quanto à exposição e bênção, indica-se que se faça com o cibório ou com o ostensório sob custódia e que se acedam velas e se use o incenso, de modo particular se a cerimônia se reveste de maior solenidade. Ao finalizar, retira-se o Santíssimo (n. 93; 99). Novamente, encontramos a duas ações rituais de traslado das espécies eucarísticas: do tabernáculo ao lugar da exposição — normalmente o altar — e vice-versa. A exposição do Santíssimo tem algumas exigências espaciais específicas, indicadas nessas premissas.


Em primeiro lugar, além da bênção, requer-se um tempo de adoração. Esse tempo pode ser breve (n. 97) ou prolongado se a exposição é solene (n. 94-96), recomendada anualmente para todos os templos onde se reserva a Eucaristia (n. 94). Essa exposição prolongada tem importância peculiar em alguns espaços particulares, como os construídos para alguma instituição da Igreja que observe regularmente a adoração eucarística prolongada (n. 98). Por último, o espaço da igreja é também o ponto de partida das procissões eucarísticas, sobretudo as que ocorrem depois da Missa na festa de Corpus Christi (n. 102).


À luz desses dados, comprovamos que o tabernáculo tem um papel de destaque na arquitetura da igreja. Não é apenas um elemento devocional, mas também um foco de ação litúrgica. O livro litúrgico que analisamos neste tópico contempla o templo sob duas perspectivas: como espaço para a ação litúrgica - Comunhão fora da missa e Exposição do Santíssimo Sacramento — e também como lugar de adoração: a Cristo, nas espécies no sacrário e exposto publicamente durante um tempo mais ou menos prolongado.




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55 lugar, como a credência, para colocar os elementos que são usados na ação litúrgica: véu umeral, livro que contém as leituras e orações, incensário.


Na capela do convento das Capuchinhas Sacramentarias (1952-1955) em Tlalpan, México DF, Luis Barragán situa em uma parede dourada, que faz as vezes de fundo do presbitério, um nicho para situar a custódia durante a exposição prolongada. No santuário de Nossa Senhora de Loreto (perto de Ancona, Itália) o espaço do altar da Capela Francesa “coroa-se” com um pilar com um baldaquino que cobre o ostensório.


Essa procissão, que parte do templo e volta a ele, deverá ser considerada de modo particular no projeto do templo principal - catedral, paróquia - de uma localidade ou um bairro. Bastará dispor de uma porta de dimensões suficientes e de um acesso adequado da rua para a nave. 58 Mais adiante, veremos como na celebração de outros sacramentos e sacramentais também o sacrário é envolvido no rito.

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A esses condicionamentos rituais, devemos acrescentar outros de natureza mais prática, como a disponibilidade de um de maior solenidade. Ao finalizar, retira-se o Santíssimo (n. 93; 99). Novamente, encontramos a duas ações rituais de traslado das espécies eucarísticas: do tabernáculo ao lugar da exposição — normalmente o altar — e vice-versa.“ A exposição do Santíssimo tem algumas exigências espaciais específicas, indicadas nessas premissas. Em primeiro lugar, além da bênção, requer-se um tempo de adoração. Esse tempo pode ser breve (n. 97) ou prolongado se a exposição é solene (n. 94-96), recomendada anualmente para todos os templos onde se reserva a Eucaristia (n. 94).


Essa exposição prolongada tem importância peculiar em alguns espaços particulares, como os construídos para alguma instituição da Igreja que observe regularmente a adoração eucarística prolongada (n. 98). Por último, o espaço da igreja é também o ponto de partida das procissões eucarísticas, sobretudo as que ocorrem depois da Missa na festa de Corpus Christi (n. 102).


À luz desses dados, comprovamos que o tabernáculo tem um papel de destaque na arquitetura da igreja. Não é apenas um elemento devocional, mas também um foco de ação litúrgica. O livro litúrgico que analisamos neste tópico contempla o templo sob duas perspectivas: como espaço para a ação litúrgica - Comunhão fora da missa e Exposição do Santíssimo Sacramento — etambém como lugar de adoração: a Cristo, nas espécies no sacrário e exposto publicamente durante um tempo mais ou menos prolongado.


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A esses condicionamentos rituais, devemos acrescentar outros de natureza mais prática, como a disponibilidade de um lugar, como a credência, para colocar os elementos que são usados na ação litúrgica: véu umeral, livro que contém as leituras e orações, incensário.


Na capela do convento das Capuchinhas Sacramentarias (1952-1955) em Tlalpan, México DF, Luis Barragán situa em uma parede dourada, que faz as vezes de fundo do presbitério, um nicho para situar a custódia durante a exposição prolongada. No santuário de Nossa Senhora de Loreto (perto de Ancona, Itália) o espaço do altar da Capela Francesa “coroa-se” com um pilar com um baldaquino que cobre o ostensório.


Essa procissão, que parte do templo e volta a ele, deverá ser considerada de modo particular no projeto do templo prin cipal - catedral, paróquia - de uma localidade ou um bairro. Bastará dispor de uma porta de dimensões suficientes e de um acesso adequado da rua para a nave.


Mais adiante, veremos como na celebração de outros sacramentos e sacramentais também o sacrário é envolvido no rito.

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2. Um espaço para a iniciação cristã


Certamente o rito que, depois da Eucaristia, mais condiciona o espaço litúrgico é a iniciação cristã. Além do mais, ao considerar os três primeiros sacramentos, tão estreitamente unidos entre si, vemos que todo o espaço eclesial permanece, em grande medida, configurado a partir do esforço iniciático que se estabelece no caminho ritual da iniciação cristã.


Os fatores mais relevantes para a ordenação do espaço da iniciação são a proclamação da Palavra de Deus: a progressiva revelação da dinâmica eclesial que se manifesta na ideia de caminho-itinerário da iniciação cristã; a acolhida que se faz dos novos cristãos na comunidade local-Igreja, na qual a paróquia constitui o lugar ordinário de evangelização.” A iniciação cristã tem grande riqueza ritual e mistagógica e, portanto, espacial (figura 8).


No início do livro litúrgico do Batismo de crianças, aparecem algumas considerações gerais sobre a iniciação cristã, comuns tanto para esse rito quanto para a iniciação cristã dos adultos.“ Em relação à acolhida que a comunidade faz dos neófitos, é bom que além do ministro, dos padrinhos, dos catequistas e dos familiares — dos pais particularmente no batismo das crianças” = e conhecidos, o espaço permita que um grupo participe no rito (Ritual do batismo de crianças, n. 7; 25). O batistério, portanto, deverá possuir as dimensões suficientes que permitam abrigar um bom número de fiéis, assim como dispor de um local adequado para a proclamação da Palavra (n. 24) é um lugar para o coro e a música (n. 33). Pode ser colocado em uma capela dentro ou fora da igreja - como os batistérios de São João de Latrão ou da catedral de Pisa (figura 20), com seu magnífico ambão para a proclamação da Palavra - ou em outro lugar visível (n. 25). Ele naturalmente abrigará uma fonte adequada para a água, que também pode fluir a partir dela (n. 19; 25), e terá uma forma que permitirá a administração do Batismo por infusão ou imersão.“ Não lhe faltarão também os meios técnicos que permitam manter a água naturalmente limpa e, se parecer apropriado, aquecê-la (n. 18-20). Ademais, a índole pascal desse sacramento faz com que o batistério seja o Jocal onde se guarda, com honra, o círio pascal (n. 25), que se acende durante o rito. Os ritos da iniciação cristã a serem realizados fora do batistério serão desenvolvidos em uma parte adequada da igreja para o número de presentes e para as diferentes ações próprias da liturgia batismal (n. 26).


2.1. A INICIAÇÃO CRISTÃ DOS ADULTOS


O Ordo da iniciação cristã dos adultos“ contém tanto a celebração dos sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia, como os ritos do catecumenato.“ O número 6 das premissas indica-nos os três momentos da estrutura geral desse itinerário: a entrada do sujeito na Igreja como catecúmeno, a admissão na fase de mais intensa preparação para os sacramentos, através do rito de eleição; a recepção dos sacramentos durante a Vigília Pascal. As premissas para esse último momento ritual parecem apontar para a catedral ou lugar de culto semelhante como o mais conveniente para sua celebração, posto que que se trata de uma liturgia preferencialmente presidida pelo bispo. Habitualmente, porém, o presbítero presidira o itinerário catecumenal e se os catecúmenos são muito numerosos, também poderão transmitir os sacramentos de iniciação durante a oitava de Páscoa e transferir-se para outros locais de culto (RICA, n. 55).


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62 Um exemplo de batistério como espaço próprio dentro de outro espaço litúrgico principal é o que é preservado em Cividale di Friul, magnífica manifestação da arte longobarda. A sede episcopal foi transferida para essa cidade a partir de Aquileia em 737. No átrio da igreja da abadia de São Nilo em Grottaferrata, encontramos uma bela pia batismal decorada de reduzidas dimensões (figura 8).


63 É também conveniente dispor no batistério de uma credência ou mesa para deixar os objetos litúrgicos utilizados durante o rito do Batismo e, se for o caso, um armário ou espaço para conservá-los (ELLIOT, P.). Guía práctica de liturgia, Op. cit., p. 32).


64 Aprovado pela Congregação para o Culto Divino em 6 de janeiro de 1972. 65 Assim se expressa Sacrosanctum Concilium (n. 64): “seja restaurado o catecumenato de adultos, dividido em diversas etapas. Desta maneira, o tempo do catecumenato seja destinado a catequeses profundas e santificado pelos ritos sagrados realizados sucessivamente em cada etapa”.


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O ingresso no catecumenato ocorre fora da missa, que pode, porém, celebrar-se em seguida (n. 72). O rito começa fora da igreja, nas imediações da entrada, no átrio ou em parte da igreja preparada para este fim (n.73), onde se reuniu uma parte do povo que acolhe os candidatos (figura 9). Após os ritos específicos, o celebrante convida os catecúmenos para que entrem com seus padrinhos no templo (n. 90).


Ao longo de seu itinerário espiritual, os catecúmenos são ajudados pela Igreja através de específicas celebrações litúrgicas da Palavra (n. 19,3), pequenos exorcismos e bênçãos. Os pequenos exorcismos ocorrem na igreja, em uma capela ou na própria casa do catecúmeno (n. 110). As bênçãos e uma unção com óleo dos catecúmenos podem ser dadas ao final das liturgias da Palavra ou de outras reuniões para os catecúmenos (n. 119; 130).


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66 É função do bispo supervisionar a iniciação cristã em sua Igreja, especialmente a dos adultos. Os sacerdotes são responsáveis pela instrução catequética e podem suprir o bispo na ação litúrgica específica (RICA, n. 44-46).


67 Mais comum na arquitetura antiga, a construção do pórtico ou átrio perde a importância ao longo dos séculos, em parte devido à difusão do batismo das crianças e a evolução da disciplina penitencial. Um exemplo característico do período medieval é o pórtico da igreja de Santa Maria Madalena em Vézelay (figura 9), localidade situada no centro da França, próximo de Auxerre.


68 O Missal Romano indica que no primeiro domingo da Quaresma acontece o rito de eleição ou inscrição do nome dos café” cúmenos. Os escrutínios preparatórios realizam-se no terceiro, quarto e quinto domingos deste tempo litúrgico.

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O rito de eleição acontece na igreja ou, se é oportuno, em outro lugar conveniente. Dentro da missa, após a homilia (n.140-141) os candidatos se aproximam um a um com seu padrinho até o celebrante, após serem chamados pelo seu nome (n. 143). Os três escrutínios, por sua vez, são celebrados igualmente dentro da Missa antes da liturgia eucarística.º O Sábado Santo, como preparação iminente para a recepção dos sacramentos, pode voltar a entregar — redditio - o Credo, o “effatá” e eventualmente a eleição do nome cristão (n. 26). O ordo não indica qual é o focal adequado para que ocorram esses últimos ritos. Na história da arquitetura cristã, não faltam exemplos de edificios-batistérios que possuíam, além do espaço litúrgico propriamente do batismo, outros locais auxiliares de diferente uso. Esse é caso do batistério merovíngio de São João em Poitiers (século VI). No centro de um piso retangular de 12 metros de largura, situa-se uma piscina octogonal com três degraus. Próximo a esse espaço se dispunham, originalmente, um nártex para a instrução dos catecúmenos e outros locais, com alguns vestiários.”


Para o rito do Batismo, uma parte da assembleia, junto com os catecúmenos, traslada-se processionalmente ao batistério. O rito propriamente do Batismo compreende a imersão na água ou a infusão, a unção com o crisma, a imposição da veste branca e a entrega da vela acesa (n. 220-226). Um olhar atento às exigências práticas dessas ações faz-nos ver a necessidade de que exista, próximo do batistério, um lugar para que se possa trocar de roupa. Em seguida, ocorrerão a Confirmação (n. 227-231) e a celebração eucarística. A primeira dessas duas ações pode acontecer tanto no batistério como na igreja (n. 227) conforme as características dos lugares. Durante o “tempo da mistagogia”, que compreende todo o tempo pascal e, de modo particular, os domingos, os neófitos devem estar dispostos em um lugar particular da nave (n. 236).


2.2. O BATISMO DE CRIANÇAS


Nas premissas do Batismo das crianças” se indicam os diversos elementos que compõem o rito: a acolhida (n. 16) pode acontecer na entrada da igreja; a celebração da Palavra, que requer a presença do ambão, à qual segue a imposição do óleo dos catecúmenos (n. 17); 0 cumprimento do sinal sacramental do lavabo implica a presença da fonte, ao que se segue a unção com o crisma (n. 18); por último, ocorre a liturgia eucarística no altar, ápice da iniciação cristã (n. 19). Esse rito ordinário acontece na paróquia, na qual não pode faltar a fonte batismal, de forte conteúdo simbólico (n. 10). Também pode celebrar-se com licença do ordinário em outras igrejas ou oratórios.


Na celebração do Batismo de várias crianças, o sacerdote e os outros ministros aproximam-se da porta da igreja ou do lugar onde o povo está reunido com as crianças (n. 35) e ocorreo interrogatório aos pais e padrinhos. Depois, pode-se levar as crianças a um lugar separado (n. 43) durante a celebração da Palavra.” Após o exorcismo e a unção pré-batismal (n. 49-51), a procissão segue até o batistério da assembleia (caso a fonte se encontre fora de seu alcance visual: n. 52). Pode dispor, como lugar do batismo, outro lugar visível adequado (n. 52). Uma vez concluídos a celebração própria do Batismo e os ritos explicativos, regressa-se processionalmente ao espaço do altar para os ritos de conclusão.



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As premissas indicam que durante a liturgia da Palavra é oportuno que as crianças sejam levadas para um lugar separado sob o devido cuidado de outras pessoas. Deste modo, as mães e madrinhas podem participar com tranquilidade da celebração (Batismo de Crianças: Observações Preliminares, n. 14). Esta indicação, de profunda sabedoria prática, indica-nos a necessidade de prever no projeto um espaço auxiliar a ser usado como creche, muito útil também em outras ações litúrgicas.


Se se planeja com os meios técnicos adequados e se relaciona organicamente com a nave e o presbitério (bastaria um vidro transparente que isolasse o som), pode abrigar às crianças e os pais que cuidam delas, também durante a Missa, facilitando sua participação na celebração. O último ponto deste ordo contempla que se observe oportunamente o costume de levar as crianças ao altar da Virgem Santíssima (n. 71). Portanto, vemos como em um livro litúrgico aparece a possibilidade de que exista uma imagem da Virgem Santíssima no espaço ritual, para que se possa realizar, assim, esse piedoso costume

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2.3. CONFIRMAÇÃO


O sacramento da Confirmação pode ser conferido dentro da iniciação cristã de adultos ou também em um rito particular dentro da celebração eucarística,” ou fora dela (especialmente se se trata de pessoas que não receberam ainda a Eucaristia: n. 13). Seu ministro original é o bispo. Quando existe uma causa ou necessidade peculiar também podem exercer esse ministério os vigários ou delegados do bispo, assim como um outro presbítero designado ou o pároco (n. 8). Parece, por isso, conveniente, quando se projeta uma igreja de uma certa importância, considerar que nela pode celebrar a Confirmação, como cerimônia dentro de uma liturgia da Palavra, com ou sem celebração eucarística.


As premissas não dão indicações explícitas sobre o lugar da celebração. Apenas indicam que deve ser a mesma pessoa a celebrar a Eucaristia e conferir o crisma (n. 13), embora nesse momento possa associar a si outros presbíteros designados ad casum. No caso da celebração dentro da Missa, depois do Evangelho, os confirmandos são apresentados pelo pároco ou outro presbítero ou catequista, sendo chamados um a um pelo seu nome, aproximando-se do presbitério. No caso de ser uma criança, o faz acompanhado de um de seus pais ou parentes. No caso de que sejam muitos, simplesmente se situam em um lugar adequado diante do bispo (n. 21). Depois da homilia e da renovação das promessas batismais, ocorre a imposição das mãos (n. 25). Em seguida, recebem a unção na fronte, aproximando-se do celebrante, embora também possa ser que esse que se aproxime dos crismandos.


O santo crisma, o óleo dos catecúmenos e dos enfermos - utilizados respectivamente no Batismo, na Confirmação e na Unção — devem ser guardados na igreja, em um receptáculo adequado. Dado que se rata de um dos lugares principais das igrejas, como afirma o Catecismo da Igreja Católica, pode ser uma poa ideia para o projeto relacionar a localização desse receptáculo com o batistério e o altar. Destacando assim, simbolicamente, a unidade entre os sacramentos da iniciação cristã.


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Como norma, a celebração da Confirmação ocorre na cátedra, mas pode ser também comunicada pelo bispo desde uma cadeira móvel diante do altar ou em outro lugar adequado (Cerimonial dos Bispos, n. 457).

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3. Outros sacramentos

3.1. PENITÊNCIA


Das quatro partes do sacramento da Penitência? — contrição, confissão, satisfação e absolvição — o espaço da Penitência deve abrigar dois desses que acontecem dentro da forma ritual: a confissão e a absolvição (Ordo Paenitentiae, n. 18).” Também a contrição em parte, embora não imponha exigências particulares especiais. Existem duas formas ordinárias de administração do sacramento do Perdão e da Reconciliação (A e B): na primeira, intervém um penitente e um sacerdote, na segunda, vários.”


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77 Os pastores de alma devem atualizar seu pedido imediato para assistir às confissões, estando disponíveis para esse sacramento em horas e dias fixos e conhecidos (n. 10b e 13). É útil, portanto, que exista algum tipo de aviso com os horários e os confessores disponíveis em um lugar visível, como na entrada. Nesse local, também podem ser colocadas as publicações do matrimônio e da iniciação cristã,


78 Contemplaremos a forma do espaço para a celebração do sacramento da Penitência nos modos que as premissas denominam Ae B, que incluem a confissão e a absolvição individual de cada penitente, único modo ordinário de reconciliação com Deus e com a Igreja (n. 31). O terceiro modo (C: n. 60-63), que inclui a absolvição geral dos penitentes, é extraordinário, Em muitas regiões, de fato, as conferências episcopais determinaram que em seus territórios as condições não sejam dadas, pelo número de sacerdotes disponíveis, para que tal ação ocorra. Sobre as normas jurídicas que regulam as absolvições coletivas.

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Na primeira forma, a ação litúrgica ocorre integralmente no confessionário com grade fixa (CIC, cân. 964),” que é um autêntico espaço litúrgico (de dimensões reduzidas). Nele acontece uma leitura da Palavra de Deus antes da confissão (n. 17). É útil, portanto, que se disponha no confessionário de um roteiro ou um pequeno livro para ajudar a seguir o rito, tanto para o penitente como para o confessor. Igualmente, haverá um assento para o sacerdote e um reclinatório — ao que se pode acrescentar um assento — para o fiel.


A celebração comunitária da Penitência — forma B — inclui uma celebração da Palavra, à homilia e o exame de consciência com a recitação do ato de contrição. Em seguida, os sacerdotes se distribuem na igreja para escutar as confissões e dar a absolvição (n. 55). Ao concluir, voltam a seus lugares (n. 28-29). Isso implica que convém no templo dispor de vários confessionários fixos, confortáveis, dispostos em local visível e com fácil acesso da nave. No caso de que sejam muitos os penitentes, podem se colocar confessionários móveis em locais adequados. A celebração é concluída com a ação de graças e despedida.



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A partir do século XVII se estende um tipo particular de lugar penitencial: o confessionário de grandes dimensões, que favorece a separação e o recolhimento, com dois lugares para ajoelhar-se em ambos os lados do confessor. Normalmente é um móvel situado na nave da igreja, embora em algumas ocasiões se integre harmonicamente nos muros. Como no caso das duas igrejas romanas: Santa Maria Madalena e Jesus e Maria, em Via del Corso.


Na igreja de Santo Estevão, em Assis, construída nos séculos XII-XIII, encontramos um confessionário em um nicho na parede do muro, com lugares para o padre e o penitente (figura 22). Sobre a história do espaço litúrgico da Penitência,

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3.2. UNÇÃO DOS ENFERMOS


O sacramento da Unção dos enfermos pode ser recebido por aqueles fiéis cristãos que, havendo chegado ao uso da razão, começam a estar em perigo de morte por enfermidade ou velhice, sendo seu ministro unicamente o sacerdote. As premissas ao rito preveem que pode ir acompanhado da comunhão sacramental em forma de Viático, se possível durante a missa (Ordo Unctionis infirmorum, n. 26).


Por outro lado, sugere-se que a celebração tenha um caráter comunitário (n. 36), particularmente através da participação de familiares e amigos do enfermo. Junto a essa possibilidade, os praenotanda sinalizam diversas variações na celebração segundo as circunstâncias do enfermo, de modo particular se o sacra. mento é administrado aos doentes ou moribundo em seu leito. As premissas não apontam maiores indicações úteis a nosso estudo sobre o espaço celebrativo.


Se a Unção ocorre dentro da missa, ela pode ser celebrada na igreja ou, com a licença do ordinário, na casa do enfermo ou no hospital (n. 80). A administração, no templo, da Unção dos enfermos com a Comunhão fora da missa (n. 78; 55-58), assim como do Viático na igreja fora da missa (n. 11-112) exigem que se possa acessar o sacrário durante a celebração.


3.3. MATRIMÔNIO


O rito do matrimônio” contempla uma notável variedade de possibilidades, podendo ser integradas nele os costumes locais (Ordo celebrandi matrimonium, n. 14-20). Embora normalmente a celebração ocorra dentro da missa (n. 8), algumas vezes as características dos assistentes e dos cônjuges podem sugerir outras formas de celebração (ver: n. 58-72). No matrimônio dentro da missa, a ação lirúrgica começa na entrada da igreja, onde o sacerdote saúdo os esposos ou no altar. No primeiro dos casos, forma-se a procissão até o altar à qual as testemunhas podem se juntar (n. 19-20). De novo, a entrada da igreja converte-se em espaço litúrgico: ponto de partida de uma procissão até o presbitério.


3.4. ORDEM


O sacramento da Ordem, por sua própria natureza, encontra-se fortemente ligado à liturgia episcopal (De ordinatione Episcopi, Presbyterorum et Diaconorum, n. 6). Sua celebração ordinariamente ocorrerá na catedral ou espaço celebrativo juridicamente assimilado. Habitualmente, as ordenações não ocorrerão em uma paróquia. No entanto, em muitos casos, também nesse tipo de lugar, ou em uma igreja reitora de tamanho suficiente, poderá ocorrer uma ordenação (n. 108), se as circunstâncias assim o aconselham. Por isso, do ponto de vista prático, será conveniente dispor de um espaço vazio na nave, na parte mais próxima ao altar, onde possam se situar os candidatos durante sua apresentação e vestição, assim como prostrar-se.


Por outro lado, as ações que acontecem no espaço da sede durante esse rito requerem que sua localização e amplitude facilitem a boa visibilidade dos gestos que nela se desenvolvem: a promessa dos candidatos, a imposição das mãos do bispo, a unção das mãos dos ordenados, a traditio instrumentorum (entrega das insígnias do ministério) e a saudação da paz.


São diversos os percursos simbólicos que se realizam nessa celebração solene: o dos candidatos do seu lugar adiantado da nave para a sede do bispo (n. 116), manifestando a natureza da ordem sagrada, pelo qual um fiel é chamado a participar do poder e autoridade do bispo, em comunhão com ele (n. 101), o deles ao altar para a celebração eucarística, à qual suas vidas estarão mais unidas a partir daquele momento; o dos outros ministros ordenados que dão a saudação da par ou que impõem as mãos. Um espaço litúrgico que abrigue uma celebração assim deveria possuir um presbitério de dimensões suficientes. Um notável exemplo, nesse sentido, tem a igreja de São Lourenço Extramuros, lugar histórico importante de peregrinação da Urbe, pela amplitude e visibilidade de seu presbitério e cátedra. Essa, com sua decoração cosmatesca do século XIII, está situada ao fundo e se levanta sobre uns degraus em relação a um banco de mármore longitudinal, onde podem se situar os presbíteros.


 

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Citamos aqui as premissas da ordenação presbiteral. Do ponto de vista do espaço litúrgico, o grau de ordem recebida não é tão importante quanto o número de candidatos.

Não obstante, como recordam as premissas, pode ser organizado em outro local adequado, se necessário, para uma melhor participação dos fiéis.

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4. Os Sacramentais

4.1. BÊNÇÃOS


A ideia de “espaço litúrgico” amplia-se de modo notável quando estudamos as Bênçãos. Essas ações litúrgicas da Igreja podem ser celebradas nos mais diversos lugares e situações. A potência redentora do Mistério Pascal “alcança”, para dizer de alguma forma, também os objetos materiais e enche de graça as pessoas e situações mais variadas. As premissas do Ritual de Bênçãos destacam , em diversos momentos, duas características dessas ações: a centralidade da Palavra de Deus e a dimensão comunitária-eclesial.


A celebração de algumas delas, por sua relação particular com certos sacramentos, pode unir-se, em certas ocasiões, à missa ou a outras celebrações (Ritual de Bênçãos, n. 28-29). A bênção das famílias, dos cônjuges por certos aniversários significativos do Matrimônio, dos anciãos - esta última também pode ser transmitida juntamente com a comunhão fora da missa - podem acontecer dentro da celebração eucarística (n. 62; 91, 277). As bênçãos dos que são enviados a anunciar o Evangelho ou para transmitir a catequese podem ocorrer den, de uma liturgia da Palavra ou da missa (n. 322; 361). A bênção dos peregrinos, por outro lado na Eucaristia ou na Liturgia das Horas que marca o início ou o final da peregrinação (n. 407 A benção de uma nova escola ou universidade também pode ser celebrada dentro da missa que ocorre na capela da instituição (n. 542), outro caso que manifesta a abertura do espaço litúrgico para além de alguns limites fixos.


O Ritual de Bênçãos também contempla a bênção, dentro de uma ação litúrgica, de alguns elementos próprios do espaço litúrgico: as imagens sagradas, os sinos — esses também dentro da missa (n. 1035) - ou o órgão. No contexto da celebração eucarística, pode-se abençoar diversos objetos que utilizam nas ações litúrgicas, como o cálice ou a patena (n. 1072). Em todos esses casos, para fins espaciais, bastará colocar o objeto que será abençoado em um lugar adequado e visível durante a celebração, como por exemplo, no espaço diante do presbitério.”


4.2. INSTITUIÇÕES DE MINISTÉRIOS


Consideramos, agora, brevemente os três capítulos do Pontifical Romano dedicados respectivamente à instituição dos ministérios laicais do Leitorato e do Acolitato; à admissão de candidatos à ordem sagrada e o “abraço” — amplector - do celibato. Trata-se de circunstâncias particulares da comunidade cristã, cuja celebração, por pertencer à liturgia episcopal, está mais associada ad espaço da catedral.” Porém, devemos considerar que, em circunstâncias particulares, essa liturgia pode ser celebrada também em uma paróquia ou igreja de importância, ou na capela do seminário diocesano ou do centro de formação análogo das diversas instituições da Igreja.


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86 A bênção da pia batismal ou do batistério pode ser unida à celebração do Batismo (Ritual de Bênçãos, n. 844-860). A cáte dra, o ambão, a sede e o sacrário podem ser abençoados dentro da missa. No caso do ambão, também dentro de um? celebração da Palavra. A sede do sacramento da Penitência pode ser benzida dentro de uma celebração penitencial, não dentro da missa (n. 931).


87 Outros objetos que podem ser abençoados no contexto de uma celebração litúrgica que ocorra na igreja são o Presépio de Natal (na missa ou nas 1 Véspera de Natal, n. 1264) e as bebidas, comidas ou outras coisas por motivo de devoção.

Fim da nota





Os candidatos situam-se em um lugar visível. Cada um deles, individualmente, responde a diversos chamados em que são interpelados. Inicialmente, são chamados por seu nome € dirigem-se ao bispo, sentado em sua cátedra, ao que fazem uma reverência (De institutione Sectorum; De institutione Acolythorum, n. 3 em ambos os casos; De sacro caelibatu, n. 6). Também se aproximam do bispo na traditio instrumentorum, no qual eles recebem o livro da Sagrada Escritura ou o recipiente (vasculum) com o pão ou com o vinho (De institutione Lectorum; De institutione Acolythorum, n. 7 em ambos os casos). Também se questiona sobre seu serviço à Igreja na admissão dos candidatos ao diaconato e presbiterato (De admissione, n. 7) e sobre sua observância do celibato (De sacro caelibatu, n. 4). Os leitores e acólitos, após a instituição, ocupam um lugar no presbitério (Caeremoniale episcoporum, n. 795; 810).


Como já vimos, no sacramento da Ordem, o espaço vazio na parte da nave mais próxima do altar é relevante para a celebração litúrgica. Nele se situam os fiéis (ministros ordenados e leigos) que se separam da assembleia para receber um ministério eclesial específico.


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89 Em cada um dos ordines citados na nota anterior, indica-se, inicialmente, que essas cerimônias sejam presididas pelo bispo ou pelo superior maior do instituto clerical correspondente. A profissão religiosa perpétua ocorrerá ordinariamente na igreja da comunidade, embora também possa ocorrer na catedral, na paróquia ou em outra igreja insigne (Cerimonial dos Bispos, n. 749; 770). Os candidatos masculinos situam-se em um lugar do presbitério. Os superiores religlosos correspondentes, tanto das comunidades masculinas quanto femininas situam-se no presbitério (n. 752; 773).


4 igreja príncipal de um mosteiro ou abadia possui requisitos espaciais específicos que se derivam da liturgia que neles se desenvolvem, começando pela presença do coro que os religiosos ocupam. Para seu desenho, é conveniente considerar.

Fim da nota



4.3. EXÉQUIAS


O Ritual das exéquias (Ordo exsequiarum) contempla três esquemas celebrativos, segundo as circunstâncias físicas e sociais nas quais se desenvolverá o rito.” O primeiro prevê três “estações” ou paradas: na casa do falecido, na igreja ou no cemitério. O segundo regula as exéquias na capela do cemitério com uma parada no jazigo. O último tem apenas uma estação: na casa do falecido (n. 4). Vemos, em qualquer caso, como as exéquias no espaço litúrgico “salta” os limites da igreja para converter-se em um itinerário que percorre os lugares sagrados e profanos, em uma sequência de estações e procissões. O valor que a tradição cristã deu aos cemitérios é testemunhado pelo valor histórico e artístico de muito deles: como se esquecer do cemitério monumental de Pisa ou o que ocupa a ilha de San Michele, na lagoa de Veneza?


No primeiro dos esquemas celebrativos, na procissão que ocorre da casa ao templo, o sacerdote e o ministro com a cruz precedem o féretro (n. 35). Já na igreja, o corpo do falecido pode, segundo o costume do lugar, situar-se na nave. Ao seu lado podem colocar velas acesas ou o círio pascal (n. 38). A estação na igreja inclui a celebração eucarística ou, pelo menos, a liturgia da Palavra (n. 6). Em seguida, ocorre o rito da última encomendação e despedida do falecido, com a aspersão da água benta e a incensação (n. 10; 47). Quando as exéquias ocorrem no cemitério, não se contempla a celebração da Missa (n. 8). Na capela, ocorre a liturgia da Palavra e a última encomendação e despedida, após o que se asperge e incensa o féretro (n. 62-69).


5, Liturgia das Horas


Como oração pública da Igreja, a celebração comunitária da Liturgia das Horas é expressão do ministério de contínuo louvor que o Filho, de cujo corpo somos membros, dirige ao Pai.” sua celebração comum com a participação dos fiéis deve ser preferida à recitação individual e constitui uma manifestação da Igreja, de modo particular, quando quem a preside é 0 bispo acompanhado dos sacerdotes, os ministros e os fiéis.


Quando a Liturgia das Horas é presidida pelo bispo, especialmente na catedral, esse deve encontrar-se rodeado por sacerdotes e ministros (n. 254). Quem preside dá início à celebração a partir do seu local, inicia a oração dominical, recita a oração conclusiva, saúda o povo, o abençoa (caso seja ministro ordenado) e o despede (n. 256). O sacerdote ou ministro pode recitar as orações, enquanto quem realiza o ofício de leitor proclama as leituras de pé do lugar adequado (n. 257; 259). Se se trata de uma celebração solene, esse lugar pode ser o ambão.


Se é simples, pode ser o próprio lugar que ocupa na nave ou no coro. As antífonas, salmos e outros cânticos são realizados por um cantor ou um coro (n. 260). Durante o canto do Benedictus o do Magnificat, nas Laudes ou nas Vésperas respectivamente, o diácono pode incensar o altar e, em seguida, também ao sacerdote e ao povo (n. 261). Os fiéis, por sua vez, permanecem de pé ou sentados segundo os diversos momentos da celebração.


Rodapé

No ambiente monástico, o espaço do coro converte-se em lugar da celebração da Liturgia das Horas. Na época medieval, os coros adquiriram uma arquitetura cada vez mais rica e desenvolvida, tendendo, às vezes, a isolar-se do resto da nave, ao ponto de construir em certas ocasiões, ao lado do presbitério, uma “igreja dentro da igreja”.


Alguns exemplos de coros particularmente desenvolvidos longitudinalmente encontramos na Inglaterra, como na abadia de Westminster ou a catedral de Lincoln.


Os requisitos espaciais da Liturgia das Horas são parecidos com os da celebração eucarística, que já comentamos com detalhe.

Fim da nota



6. Conclusões


Confiamos à conclusão final do livro a síntese das consequências arquitetônicas de cada um dos diversos ritos expostos no capítulo. Vimos que o espaço litúrgico se define a partir da ação ou ações litúrgicas que nele se desenvolverão, tanto do ponto de vista simbólico quanto prático. Nem todos os espaços litúrgicos cristãos são iguais. Nem se pode, sequer, dizer que são fruto de uma extensão ou redução de um invariável “núcleo original”: uma catedral não é uma capela do Santíssimo gigantesca. Tampouco uma discreta ermida é uma basílica em miniatura. Na maioria dos casos, será a Eucaristia que definirá o lugar, mas não esqueçamos que existem outros lugares litúrgicos, como o batistério ou o confessionário, que possuem uma estrutura definida por uma ação ritual que não é a eucarística, Naturalmente, quando se integram ao lugar de culto, serão orientados à Eucaristia, como fonte e ápice da vida cristã.


A arquitetura cristã teve, ao longo de sua história, uma forte consciência de que o espaço onde devia celebrar seu culto era simbólico: através dele, devia não apenas fornecer um suporte físico para a celebração, mas também transmitir uma mensagem através das formas. Essa mensagem, do ponto de vista arquitetônico, desdobra-se nas três direções do espaço: tanto no plano quanto na secção. No plano horizontal, manifestam-se os movimentos na ação litúrgica, a distribuição do povo e dos ministros na nave no presbitério; as relações de ambos ambientes com seu centro, que é o espaço eucarístico. No plano vertical, manifesta-se a transcendência da ação, na qual a liturgia celeste e terrestre - cujos participantes foram tantas vezes representados através da iconografia nas paredes e no teto do templo — se abraçam na luz, assim como a hierarquia de espaços e ministérios. Por último, no espaço exterior do edifício sagrado, contemplamos tanto o diálogo no qual ele entra com a cidade quanto, a partir de um certo ponto de vista, a imagem que a Igreja transmite de si para a sociedade civil.


Podemos concluir dizendo que o espaço da liturgia cristã se caracteriza por quatro notas; flexibilidade, complexidade, organicidade e abertura. É flexível porque, estando constituído por elementos físicos estáveis no espaço e no tempo, pode abrigar no curso de um ano apenas, uma infinidade de ações muito diversas, que respondem à infinita sabedoria e misericórdia do Mistério divino que celebramos.


É complexo pois resulta da sinfonia harmônica dos diversos “espaços litúrgicos” que acolhe: desde o altar e o ambão até o confessionário e o batistério, passando pelo espaço de entrada qa igreja ou outros lugares em que se desenvolve a celebração. A isso devem ser adicionados importantes lugares auxiliares para a celebração litúrgica, como a sacristia ou as credências, e outros requisitos meramente técnicos.


É orgânico porque está formado por elementos que, possuindo cada um sua própria função, relacionam-se entre si para dar lugar a um conjunto “vivo”. Isso se pode aplicar ao binômio presbitério-nave, em que a comunicação entre ambos constitui o canal que permite, em grande medida, atualizar o louvor a Deus e à santificação dos homens. Também o próprio presbitério possui elementos que se comunicam entre si com a nave, e a própria nave é uma realidade formada por órgãos diversos: o espaço do coro e da música, o lugar dos fiéis ou a área frontal da nave, onde são colocados alguns fiéis ou elementos materiais que terão um papel particular em algumas ações litúrgicas (procissões, concessão de ministérios, matrimônios, exéquias).


O espaço ritual cristão é, por fim, um espaço aberto. É o lugar de chegada das procissões que partem do exterior — a Vigília Pascal, as “estações” quaresmais, as exéquias — e também o ponto de partida de outras procissões, como a da solenidade de Corpus Christi ou mesmo das exéquias. Naturalmente, é um espaço não fechado em si mesmo: está aberto à comunicação com o Deus transcendente e com todos os homens. No espaço litúrgico, os fiéis cristãos — após  seu contato vital com Cristo e com a Igreja, que lhes transforma -- são impulsionados a levar a alegria do Evangelho às mais variadas circunstâncias de sua existência, aos seus lugares e colegas de trabalho, às suas famílias, para além dos limites do templo.


FIM DO CAPÍTULO 01


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Capítulo II


Introdução à dedicação da Igreja


Em 7 de novembro de 2010, Bento XVI dedicou solenemente o Templo Expiatório da Sagrada Família de Barcelona. Diante do olhar absorto e curioso da multidão, o sucessor de Pedro realizava uma série de ritos e sinais arcanos com os quais a Igreja indicou que, a partir daquele momento, a imortal obra de Antoni Gaudí se "arrebata" do mundo dos homens para mover-se à esfera divina. Em uma comovedora homilia, o Papa, admirado, como ele mesmo reconheceu, perante a beleza do edificio, perguntou-se:


Que fazemos ao dedicar este templo? No coração do mundo, diante do olhar de Deus e dos homens, em um humilde e gozoso ato de fé, levantamos uma imensa massa de matéria, fruto da natureza e de um incomensurável esforço da inteligência humana, construtora dessa obra de arte. Ela é um sinal visível do Deus invisível, a cuja glória se ergue estas torres, setas que apontam ao absoluto da luz e Daquele que é a Luz, a Altura e a Beleza.'


A dedicação de um templo é uma celebração paradigmática para entender o que é uma igreja e como se "constrói". Nela o próprio rito revela simbolicamente como é seu lugar genuíno: movimentos, gestos, orações, leituras e cantos nessa celebração apresentar-nos-ão, diante de nosso olhar, uma ampla informação teológica, por trás do véu de palavras e gestos. A celebração da dedicação poderá efetivamente - de modo completamente próprio - responder a algumas perguntas importantes: que ações rituais se desenvolvem em uma igreja? Quais são seus elementos essenciais e como serão os espaços que os abrigam? Que relação se estabele cem entre eles? Para que ergueu o povo cristão esse edificio de pedra?


A respeito dessa celebração, são numerosos os estudos realizados nos últimos anos. Dada a riqueza e história desse rito - já temos indícios dele no primeiro livro litúrgico conhecido como tal, o Sacramentário veronense - as facetas que poderíamos tentar iluminar são muitas A perspectiva da qual nós abordaremos agora será a do templo como o lugar da ação ritual crista. A teologia litúrgica não observa o Mistério "a partir de fora", friamente, como o estudioso de anatomia observa o objeto de seu interesse, mas "a partir de dentro", como o biólogo que vai à natureza para observar os seres vivos em seu ambiente próprio. Para este estudo, será, por isso, imprescindível que o leitor deixe sua imaginação voar e tente se situar em uma celebração como a que ocorreu em Barcelona, à qual nos referimos anteriormente. E, contemplando a ação sagrada, deixe-se "transportar" por sua simples beleza.


1. Uma festa singular


A dedicação da igreja é uma festa singular que ocorre poucas vezes -se a comparamos com outras ações rituais da Igreja - na história de cada comunidade cristã, que a recordará após um ano, em seu aniversário (figura 13). O rito é presidido, habitualmente, pelo bispo do lugar e geralmente tem uma grade presença de ministros e pessoas que dele participam.


O objeto concreto de nosso estudo é a "celebração eucarística da dedicação da igreja". É uma festa composta por um conjunto variado de sequências rituais - aspersão de água, unção do altar, incensação, iluminação - que conduzem, porém, a um só ponto: à celebração eucarística propriamente - autêntico coração do rito de dedicação. Trataremos de ver as diversas sequências rituais dessa longa celebração não como "compartimentos estanques", mas como os niveis de um "crescente" ritual que conduz à Eucaristia. Como os degraus das etapas de um santuário nos conduzem progressiva e ordenadamente ao altar, os diversos ritos de dedicação preparam para a participação no sacrificio de Cristo.' O método de estudo empregado constrói-se a par tir de dois critérios básicos: por um lado, segue a ordem temporal do próprio rito, por outro, a análise será do tipo simbólico e funcional.



1.1. A DEDICAÇÃO DA IGREJA NA HISTÓRIA


Antes de entrar nas questões mais puramente teológicas e espaciais do rito de dedicação, vale a pena deter-se brevemente em sua história. Que sentido tem para o homo religiosus a dedicação de um espaço ritual? Reservar à divindade um lugar específico para dar-lhe culto é um modo humano de dialogar com Deus. O espaço litúrgico cristão é um espaço simbólico, delimitado e dedicado especificamente ao culto. Essa natureza em certo modo sacramental do edificio litúrgico, como sinal da nova criação, confere-lhe seu caráter sagrado e, por isso mesmo, significativo. Permite-nos perceber a dimensão corporal e espiritual da pessoa humana que desenvolve a ação litúrgica, assim como a transcendência divina em relação à realidade material.


Poucos ritos da Igreja católica refletiram o esplendor da liturgia romana como a dedicação romana, que tem suas raízes mais profundas na teologia veterotestamentária da dedicação dos espaços de culto. O Antigo Testamento nos fala da dedicação de estelas, altares, casas e templos por parte dos povos primitivos e de Israel. No lugar que condensava todas as aspirações religiosas de Israel, onde o próprio Deus se manifestava e onde podiam estar seguros de sua presença consoladora, era o Templo de Jerusalém. Era o lugar sagrado por excelência, onde


entravam em contato com a divindade. No Novo Testamento, será Jesus Cristo que revelará a si mesmo como o lugar da presença de Deus, já não ligada a um espaço fisico exclusivo: o verdadeiro templo é seu corpo. Jesus será agora o novo, verdadeiro e definitivo templo, lugar do encontro e morada de Deus entre os homens (Jo 1,14)."



Nota de rodapé 

8 Do dia de sua dedicação Salomão recorda todo conteúdo simbólico (1Rs 8). Deus toma posse do Templo, sinal da Aliança, eo rei pronuncia a solene oração de dedicação (1Rs 8,22-53). Após o exilio na Babilônia, ocorrerá a construção do segundo Templo e depois a dedicação (Es 6,13-18). Sua violação durante a tentativa de helenização sob Antioco Epifanes provocará a comoção do povo hebreu. O Templo será purificado por Judas Macabeu (1Mc 4,36-61).


As cartas paulinas, através da teologia do corpo de Cristo (como em 2Cor 6,16) apresentam a Igreja como templo de Deus. No Apocalipse, contemplaremos a Jerusalém da eternidade escatologica, na qual o Senhor Todo Poderoso e o Cordeiro são o seu templo (21,22).


10 "Em última instância, a Igreja e o cristão são, na história, os herdeiros da riqueza teológica do templo veterotestamen tário e são testemunhas viventes do verdadeiro templo que é Jesus Cristo" (FLORES, 1.J. Los sacramentales. Bendiciones, exorcismos y dedicación de las iglesias. Op. cit., 313). Testemunhos como os de Ambrósio ou Agostinho recordam-nos como continuava muito viva, na consciência cristã, a obra do Espirito Santo em suas almas, que os tornara "templo espiritual", morada de Deus.

Fim da nota 



Essa consciência da diferença entre o culto inaugurado por Cristo e os das religiões ao seu redor marcou profundamente a identidade dos primeiros cristãos, seguros da morada divi nas neles mesmos e no conjunto da comunidade dos fiéis. Contudo, não abandonaram, pelo menos em algumas zonas do império, a construção de edificios para o culto." A liberdade religiosa com Constantino foi uma mudança fundamental para a liturgia romana e para a arquitetura eclesial." O favor da autoridade imperial permitiu o crescimento da riqueza e expressividade de culto e seus edificios.


Desde suas origens mais remotas, a celebração da eucaristia constituía o vértice do rito de dedicação. Entre os ritos que acompanham e precedem à celebração eucarística, aquele do qual possuímos testemunhos mais antigos - da segunda metade do século IV em Milão com Santo Ambrósio - é o da colocação das relíquias," além das unções com o crisma. A unção do sepulcro destinado às relíquias do mártir já está testemunhada na Síria no século IV, ao passo que, na Espanha e na Gália - também em Bizâncio - a partir do VI. Outro desses sinais é a ablução com água com sentido de purificação, que remonta ao século VI, embora já tenhamos notícias da sua existência desde o século IV com o Optato de Milevi. Um dos ritos mais da dedicação do templo é a inscrição dos alfabetos grego e latino na cinza espalhada sobre o pavimento do templo. Essa tradição, mantida na liturgia romana até o atual rito de dedicação (Ordo dedicationis ecclesiae et altaris, 1977), reproduz um costume antigo de origem


celta em uso na Gália, cuja origem se situa provavelmente no século VII. Certamente, manifesta a "tomada de posse" do novo edificio."


No que diz respeito à celebração da dedicação nos livros litúrgicos romanos, o precedente mais antigo é encontrado no Sacramentário veronense (século VI-VII). Nele encontramos uma missa no aniversário da dedicação da igreja de Santo Estevão, protomártir em Jerusalém.18 O Sacramentário Gelasiano vetus, que descreve a liturgia presbiteral das igrejas de Roma no século VII, reúne diversos tipos de fórmulas para a dedicação, a depender se a igreja é consagrada com relíquias ou sem elas, se é nova ou não foi dedicada, ou se era uma sinagoga." Terá que esperar o século VII com os Ordines romani para ter as primeiras descrições detalhadas no Ocidente do rito de dedicação. Serão, em ordem cronológica, os OR XLII (primeira metade do século VIII), XLI e XLIII (segunda metade do século VIII)."


O OR XVII foi composto substancialmente por quatro partes: consagração e dedicação do altar, consagração da igreja e missa inaugural. Nele, o elemento principal era a colocação das reliquias. Todo o rito possui, de fato, o caráter de "exequias" dos corpos dos mártires, cujas reliquias eram depositadas, embora não faltassem elementos próximos ao ritual batismal A imagem que neste OR XLII nos transmite da igreja-edificio é de lugar onde se obtém os beneficios divinos: casa de oração e casa santa do Senhor. O elemento no qual gira o rito será o altar do sacrificio eucarístico. No que diz respeito ao OR XLI, tem duas grandes partes: uma consagração ou purificação da igreja e da dedicação, que ocorre com a trasladação das relíquias e o arranjo do altar. A celebração eucarística aparece como menos relevante no conjunto do rito. No OR XLIII, semelhante ao XLI, o ordo tem como centro a disposição das reliquias."


O Pontifical Romano Germânico do século X (PGR) contém dois ritos da dedicação. O primeiro - Ordo romanus ad dedicandam ecclesiam - é uma combinação dos ordines XLI e XLII. O segundo - Ordo ad benedicendam ecclesiam - não é muito diferente do anterior, mas muito mais elaborado: repleto de elementos expressivos e dramáticos e de orações de exorcismo. Outra carac teristica dessa liturgia, procedente de terras francesas, será a referência ao Antigo Testamento para suas orações e simbolos. O Pontifical Romano do século XII adota, com mínimos reto ques, o segundo dos dois ritos do PGR. Os pontificais da Cúria do século XIII e de Guillermo Durand, bispo de Mende (+1296), reproduziram sem grandes variações esse ordo. De 1485 até 1961, quando se publica um novo ordo da dedicação do Pontifical Romano, o rito da dedicação da igreja permanecerá sem modificações de relevo.


O Pontifical Romano 1595 prevê um ordo para a dedicação similar ao que aparecia no Pontifical de Guillermo Durand, com quatro grandes seções rituais: a dedicação da igreja propriamente dita (vigília e procissão com as relíquias dos mártires, purificações exteriores do templo, rito dos alfabetos); a consagração da igreja (incensação, purificações e orações a partir do centro do templo com o prefácio de dedicação-consagração da igreja); a consagração do altar (incensação e purificações; antífonas e orações com o correspondente prefácio de consagração do altar); celebração da Eucaristia. O rito conserva, com sua duração e profusão 26 simbólica, a unidade dinâmica do ordo, herança da tradição medieval.


O Ordo ad ecclesiam dedicandam et consecrandam do Pontifical Romano de 1961 apresenta algumas novidades importantes em relação ao precedente de 1595. Em 1961, realizou-se uma drástica reforma do ordo de dedicação da igreja, chamada a facilitar a participação do povo. A reforma, porém, não se limitou a uma notável simplificação de um rito prolixo e longo em duração, mas que afetou aspectos mais profundos, como sua própria estrutura." Uma das diferenças que suscitou mais controvérsia foi a clara distinção entre os conceitos de "dedica ção" e "consagração", como duas ações diversas que ocorrem no rito.28 Por outro lado, no ordo de 1961, a Santa Missa aparece com mais nitidez como ápice do rito.


O Ordo dedicationis ecclesiae et altaris (Ritual da dedicação da igreja e do altar) em uso atualmente foi promulgado em 1977, depois de um processo de elaboração não sem complexida de." Dele se podem destacar as seguintes características: aparição dos praenotanda (premissas teológicas e pastorais), evolução das rubricas iniciais do ordo, consolidação da importância da procissão de entrada, embora a vigília de oração não faça mais parte do próprio rito; a bênção da água e as aspersões retomam sua importância como rito específico (no ordo de 1961 dava-se a opção de realizar a bênção fora da celebração); a liturgia da Palavra integra-se dentro dos ritos da dedicação, introduz-se a opção de não depositar reliquias no altar; na sequência ritual da terceira parte (oração de dedicação e unções), a consagração da igreja e do altar são novamente relacionados, conexão que em 1961 se desvaneceu. Quanto à nova variação no título do ordo, seus autores argumentaram que os termos "dedicação" e "consagração" haviam sido, ao longo da história deste rito, equivalentes. Convinha reservar, portanto, o termo "consagrar" para a transformação das espécies eucarísticas, enquanto que "dedicar" era conveniente como termo univoco para o rito que estamos tratando."



1.2. PER RITUS ET PRECES


Espero que o leitor nos permita introduzir aqui algumas breves notas sobre o método de estudo que nos dispomos a empregar no capítulo seguinte. Desejamos que este trabalho seja uma mistagogia: uma autêntica catequese sobre a dedicação da igreja, que contribua para que, entendendo o seu sentido, os fiéis possam participar da sagrada ação consciente, piedosa e ativamente através dos ritos e orações (per ritus et preces).


A celebração, que culmina na liturgia eucarística, encontra-se estruturada em sequências rituais. Em sua exposição, consideramos quatro aspectos: referências a cada uma delas nas premissas do livro litúrgico, que esclarecem seu sentido e função; antecedentes históricos, especialmente na tradição romana; relação com o conjunto do rito e análise de seu conteúdo teológico-litúrgico. Existem dois campos principais de estudo:


1. As orações, monições e fragmentos da Bíblia (código verbal), lidos, cantados ou proclamados, manifestam a especialidade do rito, a partir da dupla dimensão da celebração do mistério e da experiência religiosa da comunidade cristã. Procuraremos identificar na eucologia" e nas leituras da Sagrada Escritura as alusões, explícitas ou implícitas, ao rito em sua dimensão espacial em relação ao lugar que se está dedicando-consagrando ao culto. Nos deteremos nas referências às ações rituais que se realizam ou realizarão nele, aos espaços fisicos que as abrigam, aos polos celebrativos e às características dos componentes da assembleia litúrgica, cuja localização determina a estrutura essencial do espaço.



As leituras bíblicas formam parte integrante da celebração eucarística. Para sua correta interpretação teológica-litúrgica, deve-se partir da peculiaridade do texto bíblico que se pro clama." Serão interpretadas como parte de uma liturgia da Palavra (contexto literário) que se integra em um rito mais amplo (contexto ritual). Por outro lado, o rito da dedicação da igreja caracterizou-se, ao longo dos séculos, pela profusão de salmos, antífonas e hinos cantados, que, desde a antiguidade mais remota, contribuíram para dar à celebração da dedicação da igreja grande cor e caráter popular. Também prestaremos bastante atenção nesses elementos, especialmente ao binômio antífona-salmo.


2. Em um estudo sobre a teologia da dedicação da igreja, os gestos e ações rituais junto aos símbolos (código não verbal) apresentam-se como um fator de singular importância (CIgC, n. 1146). O desenvolvimento do rito no espaço "produz" situações e unidades espaciais locais que constituem o elemento que mais genuinamente descreve como é um espaço ritual. A assembleia litúrgica organicamente estruturada é um símbolo: através de sua forma e movimento no espaço, significa um conteúdo teológico concreto.


Por "unidades espaciais locais" entendemos as configurações que são geradas durante a celebração em cada sequência ritual. Essas configurações manifestam-se tanto no núcleo de fluxos dos movimentos individuais (posturas corporais e deslocamentos) e coletivos (procissões e reuniões) de ministros e povo, como na sinergia entre os fluxos e polos-ambientes celebrativos.



2. Marco teológico de referência


O decreto de aprovação do Ordo dedicationis ecclesiae et altaris (doravante: ODEA) e os primeiros pontos dos praenotanda de seu segundo capítulo (ODEA2) apontam um contexto interpretativo adequado para o estudo teológico-litúrgico da dedicação da igreja. Indica-nos, sinteticamente, a natureza e função do edificio sagrado.


2.1. A IGREJA, ESPAÇO LITÚRGICO CRISTÃO


O livro litúrgico do ODEA inicia-se com o decreto de promulgação da Sagrada Congregação para o Culto Divino, datada de 29 de maio de 1977. Já em seu primeiro parágrafo, encontramos uma definição sintética do templo como espaço litúrgico cristão:


O lugar em que a comunidade cristã se reúne para escutar a Palavra de Deus, dirigir a Deus orações de intercessão e louvor e, principalmente, para celebrar os sagrados mistérios [lugar] no qual se conserva o santíssimo sacramento da Eucaristia, é uma imagem singular da Igreja, templo de Deus edificado com pedras vivas; também o altar, que o povo santo circunda para participar do sacrificio do Senhor e alimentar-se com o banquete celeste, é um sinal de Cristo, [que é] sacerdote, vítima e altar de seu próprio sacrificio.


A igreja é definida como "lugar onde a comunidade cristã se reúne". Não se trata de uma reunião indeterminada com fins poucos precisos, mas que o decreto a coloca em um horizonte cultural. O povo reúne-se "para" um triplo fim litúrgico: escutar a Palavra de Deus; dirigir a Ele orações de intercessão e louvor e celebrar os sagrados mistérios. Certamente a Eucaristia em primeiro lugar, mas também os outros sacramentos. Juntamente com esses fins, a definição de igreja é completada com a referência à reserva da Eucaristia. O templo cristão aparece, pois, a partir do início do ODEA como lugar de ação e de presença, tanto divina como humana. Por outro lado, é feita referência ao altar da celebração da Eucaristia, aproximando-se da qual o povo cristão participa do sacrificio do Senhor e banquete celestial, que "reconstitui", "refaz", "reedifica" a Igreja. A amplitude dos conceitos "escuta da Palavra", "orações" e "celebração dos mistérios" abrem a perspectiva dessa visão do espaço litúrgico para outras dimensões da celebração do mistério cristão (figura 14). 


Nos deteremos agora no verbo circumdo (circundar), com o qual o decreto expressa a relação dos fiéis com o altar. A Vulgata Latina recorre a esse verbo em numerosas ocasiões e em uma ampla gama de sentidos. Expressa, de modo geral, a ação de rodear um objeto fisico ou uma pessoa, de modo estático ou em movimento. A única ocasião que encontramos seu uso no âmbito cultual é a conhecida passagem do salmo 25: lavabo inter innocentes manus meas et circumdabo altare tuum Domine (SI 25,6). Trata-se do início do salmo que o sacerdote lia no lavabo durante a celebração eucarística nas sucessivas edições do Missal Romano até 1970. Santo Agostinho põe em relação o "lavar as mãos" da primeira parte do versículo com o "circumdare" da segunda, expondo como a pureza de coração é necessária para realizar o conjunto de movimentos espirituais com os quais o fiel cristão exerce seu sacerdócio durante a Eucaristia: oferecer seus dons e orações ao Senhor com uma consciência limpa; confessar a majestade divina e os próprios pecados." Santo Tomás de Aquino, comentando esse versículo como parte da fórmula litúrgica do lavabo, esclarece que o "altar" a que faz referência pode ser interpretado em três sentidos: o altar do coração do homem justo; Cristo que é o altar do templo da Igreja; o terceiro altar é a misericórdia divina e o terceiro templo é o próprio Deus. Nos três casos, o fiel deve circumdare o altar: no primeiro caso, voltando sempre a Cristo, o segundo rem que o rodear para estar com todo seu coração junto Dele; no terceiro caso, circumdare realiza-se através do anseio da alma." O Missal Romano (editio typica tertia reimpressa, 2008) recorre a ele em diversas ocasiões, todas elas no sentido figurado." A antiga literatura cristã fez uso dele, de modo mais amplo, para indicar a ação de vestir-se, rodear-se ou estar envolto, privilegiando, em todo caso, também o sentido figurado.


Permitimo-nos essa digressão sobre a interpretação do termo circumdo pois ele tem, para

a construção do espaço litúrgico, uma grande importância. À luz desses dados, não se pode concluir que o verbo em questão, utilizado em âmbito litúrgico para expressar a relação dos fiéis com o altar, transmita a ideia espacial de "rodear fisicamente formando um círculo". Deve ser interpretado no sentido espiritual, indicando a atividade interior com a qual os cristãos "envolvem" ou "preenchem", com seus próprios dons, o altar, para associá-los, assim, ao sacrificio redentor.




2.2. UM POVO REUNIDO QUE ESCUTA, REZA E CELEBRA


A natureza da igreja como ambiente ritual é iluminada particularmente pelos três primeiros números das premissas ao ordo da dedicação da igreja, segundo capítulo do ODEA. Tratam da natureza e dignidade das igrejas e descrevem brevemente os ritos, usos e lugares simbóli cos essenciais do espaço litúrgico cristão.


Suas primeiras palavras situam-nos no horizonte essencial, cristológico e unitário da Igreja, a partir da qual se expõe a natureza da igreja-edificio. Contempla-se Cristo que por sua morte e ressurreição se tornou templo da Nova Aliança (Jo 2,21) e congregou um povo adquirido pelo preço de seu sangue (n. 1,1) Por sua Encarnação, o Verbo, ao pôr sua tenda entre os homens (Jo 1,14), inaugura um novo modo de presença divina em seu povo. Através da incorporação ao Corpo de Cristo pela graça batismal, cada cristão é templo do Espírito Santo (1Cor 6,19). A Nova Aliança selada com o sangue redentor do Cordeiro de Deus permitiu que esses homens e mulheres se fizessem povo reunido por vontade do Pai por meio do Espírito, em Cristo. Os praenotanda (n. 1,2) remetem-se à definição de Igreja de São Cipriano, reunida na Constituição Lumen Gentium. Enquanto que em Israel existia uma identificação profunda entre o Templo, lugar da morada da santidade divina, e o próprio povo eleito, agora incorporados ao Corpo de Cristo, são o "templo edificado com pedras vivas" (1Pd 2,4-5), onde o Pai é adorado "em Espírito e em Verdade" (Jo 4,23) (CIgC, n. 1179). Desse modo, a Ecclesia - convocação, assembleia reunida - aparece como resultado da "convocação" definitiva que é fruto do Mistério Pascal de Cristo.


“Igreja" foi também o nome que desde os tempos antigos se deu ao edificio no qual se con gregava, para o culto, a comunidade cristã. Tal culto apresenta-se através de quatro atividades:


escutar a palavra de Deus, rezar a uma só voz, frequentar os sacramentos, celebrar a Eucaristia (ODEA2, n. 1,3). A primeira ação na qual o povo "é reunido" consiste em escutar a Palavra de Deus: a igreja é "casa da Palavra" (VD, n. 52)." Com efeito, "a celebração litúrgica converte-se em uma contínua, plena e eficaz exposição desta Palavra de Deus", até o ponto em que "se converte em fundamento da ação litúrgica" (Introdução ao Lecionário, n. 4; 9). Portanto, toda celebração litúrgica que ocorre no templo participa do "escutar a Palavra", embora vejamos “a Palavra de Deus distribuída ao longo do tempo, particularmente na celebração eucarística e na Liturgia das Horas" (VD, n. 52). Essa “chamada" identifica-se com a morte e a ressurreição de Cristo, o Mistério Pascal, fonte da qual emana toda a eficácia do organismo sacramental e de todas as ações da celebração do mistério cristão (figura 15).


Consequência dessa atitude de escuta é a segunda atividade para que a comunidade cristã se reúne: una oret (ODEA2, n. 1,3), orar unida. Essa expressão conduz-nos de modo natural aos sumários que o livro dos Atos dos Apóstolos realiza da atividade da primeira comunidade cristã." A unidade da oração dos discípulos fundamenta-se em sua comunhão com Cristo, que assume e eleva a Deus nossas orações: "Ele mesmo [Jesus Cristo] une a si toda a comunidade dos homens para juntos cantarem este divino hino de louvor" (SC, n. 83). A função sacerdotal de oração de louvor e intercessão da Igreja, resposta à Palavra divina dirigida ao povo con igualmente pela Palavra feita carne, realiza-se de diversas maneiras nas celebrações rituais (SC, n. 83)."



A expressão sacramenta frequentet - terceira finalidade do edificio de culto - faz referência à participação assídua do povo cristão nos ritos litúrgicos. Desse modo, as celebrações dos sacramentos e sacramentais da Igreja são contempladas também como fim da "casa de ora ção". Eles próprios são oração, diálogo de amor entre Deus e seu povo, são resposta à convocação divina e à escuta da Palavra. Entre essas celebrações, a Eucaristia (quarto fim para o qual a comunidade cristă se reúne) é a principal de todas elas." Entre as diversas atividades realizadas na igreja, que fazem do edificio de pedra espaço litúrgico, contempla-se, em primeiro lugar, a ação divina que congrega seu povo para escutar, de modo sempre novo, sua Palavra. Como consequência, o povo reza unido e participa dos mistérios de culto por meio dos quais a ação benéfica do Mistério Pascal se atualiza.


O segundo ponto dos praenotanda fala-nos a respeito da dimensão simbólica-escatológica do edificio ritual, imagem da igreja peregrina na terra e da Igreja do Céu (n. 2,1). Em seguida, diz seu segundo parágrafo:


Convém, pois, que, ao se erigir um edificio única e estavelmente destinado à reunião do povo de Deus e à celebração das ações sagradas, seja esta igreja dedicada ao Senhor em rito solene, segundo anti quissimo costume (ODEA2, n. 2).


Com esta última expressão - sacra peragenda (n. 2,2) - são denominadas as ações que a serem realizadas na igreja. Em virtude da natureza simbólico-sacramental dos sinais litúrgicos - que significam e, ao mesmo tempo, realizam, cada um à sua maneira, a santificação do homem - considera-se o rito litúrgico "ação sagrada", por sua capacidade real de realizar a santificação das almas: "toda celebração litúrgica é ação sagrada por excelência [actio sacra praecellenter] por ser ação de Cristo Sacerdote e de seu Corpo, que é a Igreja, e nenhuma outra ação da Igreja lhe iguala, sob o mesmo título e grau, em eficácia" (SC, n. 7).


A razão, portanto, para que o edificio seja dedicado-consagrado é para que possa congregar o povo cristão e nele celebrar os sagrados mistérios: a Eucaristia e os demais sacramentos, em suas diversas dimensões; em primeiro lugar, o Batismo e a Penitência (ODEA2, n. 3,2). Desse modo, o ODEA2 entende a celebração desses três sacramentos, em suas diversas dimensões, como o fator determinante de maior grau: a arquitetura do espaço litúrgico cristão. No que diz respeito, em particular, aos lugares que devem ser organizados no templo, o terceiro número dos praenotanda cita o presbitério, o altar, a sede, o ambão e o lugar de custódia do Santíssimo Sacramento, elementos que, claro, não apenas "são ativados" na celebração eucarística, mas também em outros ritos litúrgicos do mistério cristão. Além disso, faz uma referência ao fato de que o local de culto deve favorecer o desenvolvimento e a ordem de cada ministério litúrgico durante as celebrações (n. 3,1). É conveniente que a disposição geral do edificio sagrado seja tal que a imagem que reflete o povo nele reunido manifeste simbolicamente a Igreja (n. 3,1).


2.3. A CELEBRAÇÃO EUCARISTICA DA DEDICAÇÃO DA IGREJA


"A celebração da Missa está intimamente unida ao rito de dedicação da igreja" (ODEA2, n. 8;17). O rito que estamos estudando é, de fato, uma celebração eucarística singular, composta por ações que preparam, conduzem e culminam na atualização do Mistério Pascal na liturgia eucarística. Essa é a parte "específica e mais antiga" de todo o rito (ODEA2, n. 17). O ODEA2 estabelece um paralelo entre a santificação que a Eucaristia produz na alma dos que comungam e a consagração que, de certo modo, a celebração realiza no edificio e no altar (ODEA2, n. 17).49 Uma vez que nele foi celebrado o sacrificio eucarístico, o lugar encontra-se para o culto.


As palavras do decreto de publicação do ODEA e das premissas do rito de dedicação per mitiram-nos apresentar a igreja como espaço litúrgico cristão. O ponto de partida para a teo logia do espaço litúrgico é a convocação que se realizou através da morte e ressurreição de Jesus Cristo, Palavra de Deus encarnada: "quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim Jo 12,32). Essa convocação e união com a Trindade em Cristo, por meio do Espírito Santo, constitui a congregação litúrgica, reunida para celebrar os mistérios sagrados e escutar a Palavra de Deus. Com essa atitude de escuta, o povo de Deus, reunido por Cristo, pode ser instruído e animado. A tal chamado, a assembleia cristã responde com a oração conjunta de louvor e ação de graças e com a celebração sacramental, especialmente da Eucaristia. A oração e o rito cristão que se desenvolvem no espaço eclesial devem ser considerados como respostas aos vários chamados da misericórdia de Deus, que, depois de falar de diversas maneiras aos homens, dirigiu-se definitivamente a eles por meio de sua Palavra encarnada (Hb 1,1-2).



Capítulo III


A Celebração da dedicação da Igreja


Antes do momento da dedicação da Igreja, antes inclusive de iniciar a construção, pode-se celebrar o Rito da colocação da pedra fundamental ou do início da construção de uma igreja (ODEA1). Nessa celebração, que inclui a bênção da área da igreja e a bênção e colocação de sua primeira pedra, manifesta-se já o valor que possui o espaço que ocupará, no futuro, o próprio edificio litúrgico. O costume de delimitar um terreno no qual se situará uma construção possui um importante valor simbólico para a comunidade cristã (ODEA1, n. 5). Essa área será aspergida pelo bispo com água benta, acompanhado dos ministros, partindo do centro da superficie, ou caminhando no próprio perímetro do espaço consagrado (n. 25). Desse modo, expressa-se ritualmente a "sacralidade" do espaço litúrgico: toma-se posse de uma parte da superficie do mundo, uma parte da criação entregue por Deus sob cuidado dos homens, para convertê-la simbolicamente no espaço de manifestação teofânica e lugar de salvação, dedicada ao culto.


No lugar onde se disporá o futuro altar, deve-se situar uma cruz de altura suficiente (ODEA1, n. 6). Desse modo simbólico, parece expressar como, de certo modo, o evento da Paixão e Morte de Cristo, que se atualiza sacramentalmente na celebração eucarística, "marca" com seu selo o espaço litúrgico já antes de iniciar sua construção. Quando esta se concluir, a cruz do altar no presbitério ocupará o lugar originário da cruz de madeira. O espaço reservado para a celebração aparece, desde seu início, como lugar orientado a Cristo em seu Mistério Pascal, com cuja graça multiforme os fiéis entram em contato no edificio que se erguerá no lugar delimitado-consagrado.


De acordo com as premissas, já no dia da dedicação é muito conveniente que se realize uma vigília de oração diante das relíquias dos mártires ou santos que serão colocadas no altar (nos casos em que haja possibilidade desse rito: ODEA2, n. 24), depositadas "em uma igreja próxima ou outro lugar adequado" (n. 29). Estamos assistindo ao rito de dedicação de uma igreja, em que uma comunidade cristã consagrará a Deus um novo edificio para o culto.' De uma igreja-edificio mais antiga se caminha para a nova. Percebe-se, assim simbolicamente, como a Igreja gera a Igreja: de uma comunidade nasce outra. Essa sequência ritual inicial manifesta como a fé é transmitida de um lugar para outro da geografia fisica através das comunidades cristãs.


1. Ritos Iniciais


O conjunto de sequência dos ritos iniciais, entre o inicio da ação celebrativa e a liturgia da Palavra, são particularmente ricas. A liturgia da dedicação começa com a chegada do bispo e dos sacerdotes e demais ministros investidos, para o lugar onde o povo se reuniu (ODEA2, n. 30).


1.1. PROCISSÃO DE ENTRADA


O caráter da procissão de entrada é naturalmente popular, alegre e festivo, dentro do clima de oração que marca toda a celebração: orantes et psallentes (orando e cantando), diz a rubrica do ODEA2 (n. 11). Após a saudação inicial, o bispo dirige umas palavras à congregação. 



Exsultantes, fratres dilectissimi, huc convenimus ad novam eccle siam sacrificii Dominici cele bratione dedicandam. His sacris ritibus pia adsimus devotione, verbum Dei audientes cum fide, ut communitas nostra, ex uno bap tismatis fonte renata atque eadem mensa nutrita, in templum spiri tale crescat et superno provehatur amore ad unum altare congregata (ODEA2, n. 30).


Com grande alegria estamos aqui reunidos, meus irmãos e minhas irmãs, com o intuito de dedicar a nova igreja pela celebração do sacrifício do Senhor. Participemos destes ritos sagrados com todo o fervor, ouvindo com fé a palavra de Deus, para que a nossa comunidade, renascida da mesma fonte batismal e alimentada na mesa comum, cresça e forme um templo espiritual; e, reunida em torno do único altar, aumente o seu divino amor (ODEA2, n. 30).



Esta menção à nova composição resume muito bem o caráter e os traços essenciais de todo o rito da dedicação da igreja. Desde o primeiro momento, depois de expressar a alegria característica da festa (exsultantes), a Eucaristia aparece como o elemento que é ao mesmo tempo razão e fim da dedicação da igreja. Realiza-se, nessas palavras, um espécie de "biografia espiritual" da comunidade cristã do lugar: comunidade à escuta da Palavra (verbum Dei audientes cum fide) que nasce do Batismo (ex uno baptismatis fonte renata) e se constrói e cresce com a Eucaristia (eadem mensa nutrita, in templum spiritale crescat... ad unum altare congregata) faz-se presente explicitamente a igreja como lugar fisico onde os cristãos poderão receber os meios de salvação e a Instrução na Palavra, que os constituem e os fazem crescer como templo espiritual (Ef 2,21). Dizemos que a "estrutura espacial sacramental" é seguramente o elemento que, com mais força, determina a ordenação do espaço litúrgico. Desde o início do rito, a igreja apresenta-se como um espaço, por assim dizer, "narrativo": o fiel que nela entra percebe que toda sua vida cristã, estruturada interiormente pela recepção dos sacramentos, encontra uma ressonância na mesma ordenação geral do templo.


A sequência da procissão de entrada constitui-se por uma estação de reunião, um trajeto em direção ao tempo, uma nova estação antes da porta fechada e da sucessiva procissão pela nave da igreja, até que todos os componentes da procissão cheguem a seus lugares correspondentes no espaço celebrativo. A celebração eucarística da dedicação da Igreja aparece com características similares às de uma Missa estacional celebrada pelo bispo local (IGMR, n. 203).7


"A procissão é uma assembleia litúrgica em marcha"." O número 31 do ODEA2 descreve com detalhes sua configuração. A procissão é encabeçada pelo ministro que leva a cruz. Atrás dele, encontramos outros ministros e as relíquias levadas pelos diáconos ou pelos presbíteros, aqueles que acompanham os ministros ou fiéis que levam as luzes. Depois deles, os concelebrantes, o bispo e finalmente os fiéis. Durante o caminho processional, não deixará de ressoar uma antifona em forma de alegre aclamação: "Que alegria quando me disseram: 'Vamos à Casa do Senhor!"" (Sl 121,1).



E um canto gozoso do povo hebreu em peregrinação a Jerusalém, quando entra na cidade e no santuário ansiado por tanto tempo. No Salmo 121, nas palavras de Gianfranco Ravasi, "o paradigma espacial é obviamente o fundamental". A procissão que se dirige para o novo edificio de culto revela profeticamente à Igreja como povo de Deus a caminho. Dirige-se, ordenadamente estruturado, percorrendo os caminhos do mundo e da história até Cristo.


A ação litúrgica começa fora do próprio edificio. A primeira epifania da Igreja que temos no rito acontece no exterior e se encontra marcada pela tensão direcional que impõe a mesma procissão. O edificio-igreja que será dedicado é o "polo de atração" a cuja direção a Igreja se encaminha. O aspecto externo é assim inserido na ação litúrgica de modo direto. Esses dados põem em destaque dois elementos do espaço litúrgico, chaves na história da arquitetura cristã: a inserção do edificio ritual na cidade e o aspecto externo que a igreja mostra. Ou o que é o mesmo, a relação do edificio de culto com o espaço próximo e remoto e com a cultura circundante. A partir de um ponto de vista arquitetônico, essa relação manifesta-se em dois aspectos: a aparência externa do edificio litúrgico, particularmente através da fachada, e o espaço público que se estende antes da entrada: a "praça", ou "sagrato" em ita liano (figura 16). Encontramo-nos diante de dois fatores de relevância indiscutível para o projeto.


A presença significativa e relevante dos edificios religiosos no contexto urbano é uma constante da cultura religiosa. Uma igreja é um edificio sagrado: não é uma construção como as demais. Não há mais que percorrer as cidades e povoados dos países onde existem comunidades cristas, de maior ou menor ascendência, para comprovar que uma igreja é um edificio singular com vocação comunicativa. Naturalmente, essa singularidade tem sido vivenciada de diversos



modos conforme o momento histórico, o grau de liberdade do qual goza a Igreja, as capacidades e meios artísticos da comunidade local e o grau de evangelização da cultura autóctone. Desde os anos 60 do século passado, temos visto a uma corrente antirritual e secularizadora das expressões religiosas que propunha uma imagem do templo cristão indiferenciada da arquitetura circundante. Sem entrar nessa polêmica teológica e cultural, em boa medida já superada na discussão contemporânea, podemos afirmar que a vocação testemunhal da igreja dentro do tecido urbano é imagem da vocação evangelizadora da Igreja no mundo, que consiste na transmissão da alegria do Evangelho, o serviço da caridade e a acolhida fraterna. Essa missão é animada e fortalecida pelo alimento e a instrução da Palavra de Deus e pela graça sacramental recebidos no edificio litúrgico, que possui, desse modo, na cidade uma dimensão "diaconal" (de serviço)."


Ao longo da Idade Média, a cidade europeia contemplou como se levantavam espléndidas e monumentais fachadas em suas catedrais. Somente após o Barroco, os arquitetos converteram a fachada em um elemento essencial para dar ao espaço externo da igreja uma precisa arti culação e um efeito cenográfico para atingir o tecido urbano, como magnificamente fizeram Bernini e Borromini com suas igrejas romanas (figura 17). A dimensão narrativa da fachada manifesta-se não apenas pela iconografia que vemos aparecer nela, mas também porque nos "conta" que o espaço que a protege é um lugar de manifestação do Mistério de Deus. Quem contempla a fachada da catedral de Orvieto percebe que a história da Salvação tem alguns protagonistas que não são apenas do Antigo e do Novo Testamentos, mas também os santos da Essa história está constituída tanto pelos eventos que narra a Sagrada Escritura como pelas celebrações rituais que têm lugar dentro do duomo orvietano.


No que diz respeito à praça como elemento urbano articulado com o espaço litúrgico, há que se dizer que não se consolida sua identidade própria até o final da Alta Idade Média. Nesse momento, vemos na Itália a separação de alguns elementos do espaço litúrgico - como o batistério, o campanario ou o cemitério - do volume da igreja, para entrar em diálogo com o espaço urbano, como vemos em Veneza, Parma, Pisa e Pistoia. A dimensão urbana da igreja em relação à praça se desenvolve cenograficamente no Barroco, às vezes, através da escadaria monu mental. Certamente, um dos mais notáveis exemplos é a praça de Espanha em Roma com a igreja de Trinità dei Monti, ou a Igreja de São Bernardino em L'Aquila.


Voltemos à procissão de entrada. O gesto de caminhar em direção à Igreja tem um particular sentido catequético e mistagógico. O movimento humano de deixar a própria casa para entrar na igreja é uma peregrinação, símbolo da resposta do homem ao convite divino." O fato de que nessa ocasião o caminho à igreja tenha lugar processionalmente expressa que essa resposta do homem não acontece isoladamente, mas em comunhão com a Igreja.


Antes da entrada do templo, o povo congrega-se em torno de seu pastor. Alguns membros do próprio povo ou os autores da construção (arquitetos, artistas, artesãos), entregam simbolicamente o edificio ao bispo através de elementos como as plantas, a maquete, as chaves ou outros objetos que representem a construção (ODEA2, n. 33). Na estação, antes da porta da igreja, manifesta-se a primeira unidade espacial local propriamente dita do templo cristão: a entrada (n. 11 e 33-34).


A articulação espacial do ambiente de entrada com o interior desse espaço celebrativo possui uma longa história. O espaço antes da fachada permite que se reúnam os fiéis e formem as procissões em algumas ocasiões particulares do ano litúrgico." O pórtico como estrutura coberta de acesso à igreja, às vezes, chegando a formar um átrio quadrangular, é um elemento tipico das basílicas cristãs desde o século IV. Na arte medieval, enriqueceu progressivamente o programa iconográfico das portas, fachadas e pórticos com temas relacionados com a segunda vinda de Cristo (figuras 6 e 18). Vale a pena valorizar ainda mais, na arquitetura cristã, esse elemento espacial, limite entre a cidade e o espaço religioso, entre o dentro e o fora, que de algum modo dialoga simbolicamente com ambos os mundos. Um modo possível seria o projeto unitário do conjunto do ambiente de entrada - pórtico, fachada, entrada e porta - não apenas como elemento bidimensional, mas projetando-se até o espaço urbano (pensemos no átrio de entrada da primitiva basílica vaticana ou no pórtico da catedral de Santiago de Compostela).


1.2. ENTRADA NA IGREJA


Obispo convida a atravessar o limiar da igreja depois da abertura de suas portas com estas palavras: Introite portas Domini in confessione, atria eius in hymnis (entrai pela porta do Senhor com louvores, passando por seus tribunais com hinos). Eles são tirados do Salmo 99,4 e faziam parte do canto dos peregrinos que entravam no Templo de Jerusalém. O salmo participa do espírito de alegria e louvor de toda a procissão e, como o Salmo 121 da procissão, tem um caráter marcadamente espacial.




A porta como elemento simbólico fala-nos de modo natural tanto da ideia de inacessibi lidade quanto de comunicação (porta fechada - porta aberta). Sua localização como limiar, simbolo da passagem do profano para o sagrado, significa a comunicação do mundo celeste dos favores divinos aos homens.


" Na passagem da Biblia em que Jacó desperta do sonho onde viu a escada com os anjos, aparece a porta como elemento simbólico de comunicação com as realidades divinas. Esse cenário é um dos lugares recorrentes da teologia do lugar de culto ao longo da história. "Ao despertar, Jaco disse: 'Sem dúvida, o Senhor está neste lugar, e eu não sabia'. E cheio de pavor, acrescentou: 'Quão temivel é este lugar! É nada menos que a casa de Deus e a porta do céu. De madrugada, Jacó levantou-se, pegou a pedra que lhe servira de travesseiro, ergueu-a em pé como marco e sobre ele derramou azeite" (Gn 28,16-18). Durante séculos, a missa de aniversário da dedicação da igreja, até a inclusão de 1962, começou com as palavras de Jacó: Terribilis est locus iste!"


 No Antigo Testamento, "porta" é utilizada também para identificar, através da sinédoque, todo o conjunto do espaço sagrado: "o Senhor ama as portas de Sião mais que todas as tendas de Jacó" (SI 87,2). No Novo Testamento, desenvolve-se todo o significado da porta como meio para acessar à bem-aventurança eterna." Conhecemos o conteúdo simbólico da porta do edificio cristão através da teologia bíblica, dos testemunhos arqueológicos e dos próprios exemplos arquitetônicos antigos que nos tem chegado até hoje. Esse símbolo cristão possui dois significados principais: cristológico, relacionado com a pai sagem do evangelho de João (10,7.9) em que Cristo se identifica como a porta pela qual entram as ovelhas (ostium ovium) e soteriológico, como símbolo da passagem a um estado de salvação." Como Mediador da salvação, "por meio" ou "através" de Cristo, entramos em comunhão com Deus na Igreja, "cuja única e obrigatória porta é Cristo" (LG, n. 6). 20


Com o rito de entrada da comunidade no edificio de culto, manifesta-se a tomada de posse do novo templo por parte de Cristo, representado agora por sua Igreja caput et corpus: o com seu presbítero e os fiéis." Essa faceta encontra-se destacada pelo canto do Salmo 23 durante esse momento, tradicional para a abertura da porta em dedicação da Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente. Na tradição de Israel, esse salmo exalta, de modo particular, nos versículos 7-10, a entrada triunfal do Senhor em seu templo na plenitude dos tempos." O salmo é interpretado, agora, tanto na perspectiva espacial (a porta do Templo é a porta da igreja) quanto epifànica (Cristo faz-se presente para tomar posse do espaço litúrgico)," bispo


Esses elementos encorajam uma valorização mais incisiva das portas da igreja como um elemento simbólico. Não apenas através de seu tamanho - recordemos as altíssimas portas da igreja de Álvaro Siza em Marco de Canaveses ou mais a mais recente fachada-porta da Igreja do Sagrado Coração em Munique (figura 19) - mas também por meio da iconografia. São um lugar muito adequado para representar os mistérios centrais da história da Salvação, tradicionalmente associados às portas da igreja como o de Cristo bom Pastor ou o da Encarnação: entrada do Verbo de Deus no mundo. Alguns exemplos paradigmáticos são as portas da Igreja de Santa Sabina em Roma ou as da igreja de São Miguel de Hildesheim. Nas realizações mais recentes, encontram-se as portas feitas no século XX para a basílica vaticana, onde os acontecimentos da história da Salvação se entrelaçam com a história da comunidade cristã.


O canto de entrada na igreja continua: "Este receberá do Senhor a bênção e a justificação, de Deus, seu salvador" (Sl 23,5). No contexto da entrada no templo, essas palavras adquirem um relevo particular. O sujeito que "receberá" a bênção é o homem inocente em suas obras e limpo de coração (23,4). A dimensão da limpeza moral como exigência para participar da morada divina se encontra presente no salmo. Nesse lugar, a bênção do Senhor descerá sobre o homem justo e, de modo particular, o perdão de seus pecados. O exultante versículo 7 - "Levantai, ó portas, vossos frontões, levantai-vos, portas eternas, para que entre o rei da gló ria!"-é, para Santo Agostinho, um convite à penitência e à conversão, a retirar as barreiras que a concupiscência e o temor levantam para deixar entrar Deus na alma.


O nártex (átrio ou vestíbulo na entrada) das basílicas paleocristãs, além de reunir os fiéis para a celebração, eram também o espaço para os penitentes e os catecúmenos que não se encontravam na nave da igreja durante a liturgia eucarística. Sua distância fisica do santuário era uma de sua distância espiritual (figura 9).26 O átrio ou espaço de entrada, como símbolo do início do caminho em direção a Cristo, desenvolve seu conteúdo simbólico em duas direções principais: como ponto de partida "absoluto" na iniciação cristã e como ponto de retorno penitencial, para voltar à vida de Cristo e à comunhão com a Igreja. Em toda a sequência de entrada e de aspersão da água, como veremos adiante, nos movemos no vasto campo simbólico da penitência e da conversão.



Quando ministros e fiéis distribuem-se no espaço celebrativo, as reliquias acompanhadas de umas luzes são depositadas em uma pequena mesa no presbitério (n. 24; 35). O bispo dirige-se para a cátedra, os sacerdotes, diáconos e ministros para os seus lugares correspondentes no presbitério (ODEA2, n. 35), enquanto o povo vai aos seus assentos. O modo que os componentes são distribuídos da assembleia litúrgica fala-nos simbolicamente na estrutura orgânica da ordem sacerdotal-povo de Deus (ordoplebs) da assembleia litúrgica. Ao contemplar o povo cristão exercendo seu sacerdócio no espaço litúrgico durante o rito, contemplaremos sua união a Cristo elevando suas orações ao Pai no espaço e tempo deste mundo. A partir desse momento, a dinâmica própria da comunidade sacerdotal manifestar-se-á através das ações que desenvolvem nos espaços litúrgicos principais - presbitério e nave - e daquelas outras que relacionam ambos espaços. Toda a ação ritual será um grande diálogo dos participantes com Deus, que se situam e movem em e a partir desses dois grandes ambientes.



1.3. BÊNÇÃO DA ÁGUA E ASPERSÃO


A partir da cátedra, obispo convida à oração os fiéis antes de abençoar a água. Recomenda-se rezar a Deus para abençoar a água para que a assembleia litúrgica possa ser aspergida in paenitentiae signum ac baptismi memoriam (como sinal de penitência e em memória do batismo), e para novae abluentur parietes novumque altare (purificar as paredes e o altar da nova igreja)." Asperge-se água sobre a Igreja-comunidade e sobre a igreja-edificio. O sinal da aspersão é realizado com um duplo significado: nos fiéis será sinal de penitência e memória do batismo; nas paredes e o altar da nova igreja será sinal de purificação (abluentur). Ambas abluções têm um significado análogo.


1.3.1. Oração de bênção da água


A fórmula de bênção da água e a oração que conclui a sequência ritual da aspersão (ODEA2, n. 48 e 50), ambas de nova composição, destacam a dimensão purificadora da aspersão. Os esquemas que serviram de preparação do ODEA2 de 1977 previam que a bênção da água se realizasse na pia batismal." O batistério teria se tornado parte desse caminho dos espaços diretamente envolvidos no desenvolvimento do ordo. A igreja teria aparecido ainda mais explicitamente como um espaço para a iniciação cristã.


Deus, per quem omnis creatura ad vitae prodit tanta homines prosequeris dilectione ut eos non solum paterna alas cura, sed carita tis rore a peccatis clementer emundes et ad Christum Caput constanter reducas: misericordi enim consilio statuisti ut qui in sacram descendis sent undam peccatores, Christo com mortui, insontes resurgerent eiusque membra fierent atque acterni praemii coheredes (ODEA2 n. 48).


Ô Deus, por vós toda criatura chega à luz da vida; mostrais tanto amor pelo ser humano que, não apenas o sustentais com paterna solicitude, mas ainda apagais seus pecados com o orvalho da caridade, e, incansavelmente, o reconduzis a Cristo, sua cabeça. Por designio de misericórdia decidistes que os pecadores, mergulhados na fonte sagrada e mortos com Cristo, ressurgissem purificados de toda culpa, se tornassem seus membros e co-herdeiros dos bens eternos (ODEA2, n. 48).


O verbo de movimento "descendo" - presente na expressão qui in sacram descendissent undam peccatores, Christo commortui, insontes resurgerent, dessa primeira parte da bênção da água - expressa uma mudança de posição em direção um lugar mais baixo. A "descida" às águas batismais supõem uma incorporação à morte de Cristo por meio das águas do Batismo (Rm 6,3-4) para ressurgir sem culpa (insontes) como membros de seu Corpo e herdeiros da bem-aventu rança eterna: aeterni praemii coheredes. A imagem da "descida" como meio de incorporar-se à morte de Cristo foi integrado logo à arquitetura crista por meio dos batistérios na forma de piscina, em cuja água o catecúmeno submergiu "sepultando-se com Cristo" (Cl 2,12).


Estamos diante de um rito que revive a memória do Batismo nos presentes. A Antífona que o coral e a assembleia cantam nesses momentos faz presente a água salvadora que emanava do lado do Templo na profecia de Ezequiel: vi a água que saia do templo do lado direito, aleluia; e se salvaram todos a quem chegou esta água e dirão: aleluia, aleluia (Ez 47,1-2.9). Na bênção de uma nova fonte batismal, quando não ocorre dentro da celebração do Batismo, depois de fazer memória e renovar as promessas batismais, o celebrante asperge o povo com a água da pia recém abençoada, enquanto se canta uma antífona que pode ser escolhida entre duas possibilidades: precisamente os dois textos de Ezequiel que são entoados durante a aspersão na dedicação do templo.32


O primeiro batistério que conhecemos, uma piscina simples decorada ao fundo de uma sala comprida, é o de Dura Europos na Síria, dos anos 232-260. O local da iniciação cristã foi, nos primeiros séculos da Igreja, um dos elementos mais cuidadosos da arquitetura cristã. Os testemunhos arqueológicos mostram como a liturgia batismal encontrava-se amplamente difundida pelos territórios banhados pelo Mediterrâneo nos primeiros séculos. Os exemplos de espaços batismais no Oriente Próximo não são homogêneos, o que manifesta seguramente a não uniformidade ritual nesse período. No Oriente, a prática tende a colocar a piscina no centro de um espaço específico. Que podia ter um plano quadrangular, poligonal ou circular. Progressivamente, veremos a diminuição das dimensões significativas da fonte batismal e o desaparecimento dos batistérios como espaços independentes da nave da igreja. Esse processo é paralelo à evangelização do Império Romano, que fará que cada vez menos sejam frequentes os batismos de adultos e mais comuns os de crianças." Um dos elementos comuns aos batistérios no Ocidente é a importância dada à iconografia." A partir dos séculos X e XI, assistimos, no norte da Itália e no centro, o retorno da construção de batistérios monumentais como edificios independentes, erguidos na cidade em estreita relação com a catedral (figura 20). A disposição de capelas batismais nas paróquias, situadas na nave próxima da entrada, difun de-se a partir dos séculos XIII e XIV, convertendo-se na localização comum do Batismo após o Concilio de Trento."


Hanc ergo creaturam aquae tua benedictione sanctifica, ut, in nos et huius ecclesiaen parieles aspersa signum existat illius salutaris lava i que, in Christo abluti, templum Spiritus tui sumus effecti: nos autem cum omnibus fratribus, qui in hac ecclesia divina celebrabunt mysteria, ad caelestem lerusalem pervenire concedas Per Christum Dominum nostrum (ODEA2, n. 48).


For vossa bênção, santifical esta água, vossa criatura. Aspergida sobre nós e as paredes deste templo, seja lembrança de nosso batismo, pelo qual, lavados em Cristo, nos tornarnos templo do vosso Espirito. Concedei-nos a nós e a todos os irmãos e irmãs que nesta igreja celebrarem os divinos mistérios, chegar à Jerusalém celeste. Por Cristo, nosso Senhor (ODEA2, n. 48).



Na segunda parte da fórmula de bênção da água, implora-se que ela, aspergida em nós e nas paredes dessa igreja, seja revelada sinal da ablução salvadora (o Batismo) pela qual, lavados em Cristo, temos sidos feitos templo do teu Espírito. Tanto o templo fisico quanto a assembleia reunida parecem ser conduzidas nessa oração por um caminho iniciático que culminará com a celebração eucaristica junto com os irmãos na Igreja: nos autem cum omnibus fratribus, in hac ecclesia divina celebrabunt mysteria.


Qual a relação espacial entre o espaço do Batismo e o da Eucaristia? O local da iniciação cristă possuía, durante séculos, certa autonomia espacial em relação ao volume da sala litúr "Essa separação fisica permitiu que o trajeto que o neófito teve que percorrer durante gica." a iniciação cristã, da fonte batismal ao altar, simbolicamente manifestasse seu caminho até a comunhão plena com Cristo, como "pedra viva" da Igreja e membro de seu Corpo místico. Na Antiguidade, esse trajeto estava carregado de uma profunda importância simbólica. Isso significa que a articulação entre espaço de recepção no Batismo e de participação na Eucaristia era um elemento importante na construção do templo." É apropriado que, sendo o batistério um espaço litúrgico autônomo ou integrado à própria nave, seja organizado de tal maneira que a ligação do Batismo com a Palavra de Deus e com a Eucaristia, ápice da iniciação cristã, seja claramente percebida." Isso poderia realizar-se através de uns indícios no pavimento que sugerissem essa rota, como no batistério do complexo episcopal de Aosta, ou no de Pisa ou Florência (figuras 20 e 21). Também por meio de eixos de perspectiva que conectaram visualmente os lugares litúrgicos do ambão, a fonte batismal e o altar; sobretudo estes dois últimos. Por outro lado, é apropriado situar uma pia com água benta em algum lugar próximo à entrada da igreja -talvez associado com o percurso anteriormente descrito - por parte dos fiéis. Desse modo, poderão assinalar-se e fazer memória da salvação pessoal por meio da água do Batismo (Cerimonial dos Bispos, n. 110). ""


Detenhamo-nos agora na expressão da fórmula de bênção da água onde encontramos uma referência explícita às paredes como elemento do espaço litúrgico: in nos et huius ecclesiae parie tes aspersa [a água]. A versão grega do Antigo Testamento utiliza as expressões pavτiouós (subs tantivo) y pavtiču (verbo) para expressar a ação de jogar um matéria - quase exclusivamente líquida - que se pulveriza ("aspersão", "aspergir"). O uso mais significativo dessas expres 40 sões está relacionado com o culto. As matérias que aspergem podem ser o sangue expiador dos animais ou a água misturada com cinzas, com sentido expiatório e lustral (Nm 19,9.13.20.21). Seu sentido é o de purificação e remissão dos pecados ou das impurezas em geral, seja naqueles em quem é aspergido ou naqueles que usam os objetos materiais aspergidos. O objeto da aspersão pode ser o santuário, pessoas ou coisas.


Na passagem do Levítico (16,14-20) - certamente a mais importante do Antigo Testamento em que observamos uma aspersão sobre um lugar de culto -, descreve-se a aspersão do sangue do animal sacrificado sobre a tenda do encontro e o altar indicado pelo Senhor a Aarão, para a expiação do santuário dos pecados dos israelitas. A aspersão com sangue do sacrificio. A aspersão com o sangue do sacrificio torna eficaz a força expiatória do próprio sacrificio sobre o objeto aspergido. No Novo Testamento, a Epístola aos Hebreus, sempre na perspectiva do culto, contrapõe essas aspersões à aspersão do sangue de Cristo (Hb 12,24) como Mediador da Nova Aliança. A mesma Epístola (10,1-22) interpreta os sacrificios expiatórios de sangue do Antigo Testamento à luz do sacrificio de Cristo na perspectiva da teologia batismal."


A aspersão com água encontra-se entre os sinais dos sacramentos. Visa suscitar nos fiéis a recordação do Mistério Pascal e a renovação da fé batismal (Ritual de Bençãos, n. 26d). Os sacramentais são sinais sagrados que, à imitação dos sacramentos, "são significados efeitos principalmente espirituais, obtidos pela impetração da Igreja" (CIgC, n. 1667). Não conferem a graça do Espírito, mas preparam para recebê-la e dispõem à colaborar com ela (CIgC, n. 1670). A aspersão sobre a comunidade, portanto, está voltada à preparação os corações dos fiéis para receber a Eucaristia, através da recordação da expiação dos pecados que teve lugar em seu Batismo.


Qual o sentido da ablução das paredes da Igreja? No rito da Dedicação de uma igreja onde já se costuma celebrar os sagrados mistérios (ODEA3), omite-se a aspersão da água (ODEA3, n. 2c). Os praenotanda desse ordo que especificam que o rito tem caráter lustral, isto é, purificató rio-expiatório (ODEA3, n. 2c). O fator que faz que não seja necessário aspergir a igreja é que nesse espaço já se celebra a Eucaristia, que, com sua presença, já tornou santo o lugar de culto. O caráter lustral da ablução é naturalmente simbólico: um pouco de água nas paredes não limpa um edificio, mas indica sim que o espaço que acolherá o Cristo Eucarístico não é um lugar qualquer, mas que necessita ser expressamente preparado (consagrado) para esse fim.


No livro dos Números, observamos uma aspersão ritual de Moisés ao povo de Israel com sentido purificador em ordem ao culto (Nm 19,12-13.20-21), que a Vulgata denomina acqua expiationis (v. 13) e acqua lustrationis (v. 20). Tanto a religião hebreia quanto as religiões pagas conheciam as lavagens rituais com sentido purificador, apoiados no valor lustral natural da água, também nos ritos de dedicação de espaços sagrados." A aspersão com sentido apotropaico sobre as coisas e, indiretamente, também sobre as pessoas, encontra-se em numerosas fontes dos sacramentários latinos antigos. Manifestava, em sentido cristão, a proteção divina e a defesa diante das forças do mal." O emprego de água exorcizada para a purificação dos templos pagãos e para a dedicação de novos edificios de culto remonta-se a uma época antiga. Temos noticias dela desde o século IV."


O sinal da limpeza fisica dos elementos materiais expressa a limpeza da alma que cada membro da comunidade deve aspirar. Essa limpeza realiza-se na ordem sacramental através do Batismo e da Penitência, cuja recepção terá lugar habitualmente na igreja. A menção explícita na eucologia durante a bênção da água às paredes do templo e às sucessivas ações que ao longo do rito de dedicação terão lugar sobre elas, indicam que as paredes se encontram entre os elementos significativos destacados do espaço litúrgico. Embora naturalmente não possuam a importância do altar e do ambão, os muros do templo, aspergidos nesses momentos, são objetos privilegiados da ação ritual durante nossa celebração. Teremos ocasião mais adiante, quando tratarmos dos ritos específicos, de verificar esse dado e de aprofundar em seu valor simbólico. Por hora, podemos apontar que a dignidade e a presença das paredes, expressada através da linguagem arquitetônica com o material, a cor e o detalhe construtivo, contribuirão para ressaltar seu valor. Não se trata apenas de levantar uns limites materiais, nus e rígidos, para o mero "recipiente de eventos coletivos" que seria a igreja. Certamente, esse é um calcanhar de Aquiles de um dos espaços litúrgicos mais importantes do século XX: a igreja do Corpus em Aquisgrán (1928-1930), obra de Rudolf Schwarz. A abstração extrema das paredes desse espaço, em prol de uma pureza formal que não "distraia" a atenção do evento comemorativo, não é um veículo simbólico adequado para perceber a importância significativa do templo das pedras vivas.


1.3.2. Rito de aspersão


Após a bênção, o bispo, auxiliado pelos diáconos, asperge o povo e as paredes caminhando pela nave (per aulam ecclesiae transiens: "percorrendo toda a igreja") e, voltando ao presbitério, asperge o altar (ODEA2, n. 49). Nesse momento do ritual, a nave da igreja manifesta-se como espaço da conversão e da penitência. Lembremos que a aspersão se realizava in paenitentiae signum, como rezava a rubrica que introduz essa sequência (ODEA2, n. 48).


Essa dimensão penitencial manifesta-se nas duas antífonas possíveis que enquadram a realização do gesto litúrgico. Durante essa ação, o povo entoa a antífona: Vidi aquam egredientem de templo, tirada do livro de Ezequiel (47,1-2.9) em que recordamos a água benéfica que brotava do lado direito do tempo." Essa passagem pertence à profecia de Ezequiel durante o exílio - intimamente aparentada com o texto de Levítico sobre a expiação que mostramos anteriormente - e trata sobre o renascimento da nação de Israel e sobre o novo Templo. O tema da purificação para acesso aos mistérios sagrados, iniciados na procissão, prolonga-se no rito da aspersão. Parece natural que seja desse modo, porque o acesso aos bens divinos que nos chegam a partir do santuário exige, como vimos no salmo da procissão de entrada (SI 23,3-4), a limpeza de coração.


A conversão para os fiéis incorporados a Cristo após o Batismo tem sua forma ritual no sacramento da Reconciliação, que de modo ordinário será administrado no espaço litúrgico dos confessionários. No rito de bênção de uma nova sede para a administração do sacramento da Penitência, o Ritual de Bênçãos oferece como uma das possíveis leituras, para a liturgia da Palavra, um texto de Ezequiel (18,20-32): Ritual de Bençãos, n. 936. Este encontra-se intimamente relacionado com aqueles que compõem as antifonas possíveis para o rito da aspersão da água. Trata-se de um chamado à conversão: "Lançai longe de vós todos os crimes cometidos contra mim. Formai-vos um coração novo e um espírito novo" (18,31). Na leitura da bênção do confessionário, o "coração novo" no homem é o resultado da conversão de seus próprios pecados (18,30-31). O "coração novo" da antifona do tempo da Quaresma é fruto da ação da água regeneradora divina (Ex 36,25-26).


Se damos uma olhada na história, tratando de revelar a relação entre perdão sacramental e espaço litúrgico, vemos como a partir do século IV existem indicios que apontam a igreja como o lugar onde se recebem as confissões. No período compreendido entre os séculos IV e XIII, houve a tendência de distinguir temporariamente o momento da acusação dos pecados e o da absolvição sacramental, que constituía uma cerimônia pública na igreja na presença da comunidade. As vezes, encontramos nas fontes históricas detalhes do lugar onde se devia colocar quem recebe as confissões: no átrio, no presbitério, diante do altar, em um ângulo da igreja, na sacristia. A razão do costume da confissão secreta no lugar público da igreja é também simbólica: destaca a eclesialidade do perdão sacramental. Desde o século XI, assistimos ao progressivo desaparecimento da reconciliação ritual pública. Os primeiros confessionários que conservamos, para um só penitente, datam de pouco depois, dos séculos XIII-XIV (figura 22). O modelo de móvel-confessionário situado na nave da igreja difunde-se amplamente a partir do final do século XVI, seguindo o modelo promovido por São Carlos Borromeu em Milão. É constante na tradição crista que a igreja seja espaço litúrgico penitencial.


A celebração do sacramento da penitência no espaço litúrgico, seja quando se celebra com apenas um penitente (forma A) seja com vários com confissão e absolvição individuais (forma B) exige a existência na igreja de um número suficiente de confessionários. Especialmente quando se celebra a forma B, é necessário que sua localização seja facilmente percebida pelos fiéis. Nessa segunda forma, após a celebração da Palavra, a homilia e o exame de consciência com a recitação do ato de contrição, os sacerdotes se distribuem em diversos lugares para rece ber as confissões e dar a absolvição. No que se refere a seu regime jurídico, o CIC (cânone 964, §1) adverte que o lugar próprio (locus proprius) para ouvir confissões é a igreja ou o oratório. Em relação a sua sede (o confessionário), as Conferências Episcopais devem assegurar que essas se encontrem em lugar claro, visível (in loco patente: § 2).


O rito de bênção da nova sede para o sacramento da Penitência faz uma leitura simbólica -espacial de sua localização. Seu lugar, "a igreja", expressa a dimensão eclesiológica da confissão como ação litúrgica, ordenada para facilitar uma participação renovada no sacrificio de Cristo e da Igreja: a Eucaristia celebrada no altar (Ritual de Bênção, n. 930). Vemos, pois, como o confessionário integrado ao espaço litúrgico é o lugar idôneo para a administração do sacramento da Reconciliação a partir do ponto de vista simbólico, pastoral e prático.



A localização dos confessionários em um lugar bem visível, entre a entrada e o presbitério -"um lugar evidente na igreja" - ajudaria os fiéis a perceber como o sacramento da Penitência acompanha o caminhar terreno do cristão rumo à comunhão com Deus na Igreja, perdida ou debilitada pelo pecado depois do Batismo. De algum modo, a vida cristã, do seu início ao seu fim, dos momentos mais ordinários até as situações mais singulares, está representada na sequência espacial que leva da entrada ao santuário (no matrimônio e nas exéquias também se atravessa processionalmente a nave da igreja).


A oração que encerra esse rito é pronunciada pelo bispo a partir da cátedra:


Deus, misericordiarum Pater, adsit in hac orationis domo et Spiritus Sancti gratia templum purificet habitationis suae; quod nos sumus (ODEA2, n. 50).


Deus, o Pai das misericórdias, esteja presente nesta casa de oração, e a graça do Espírito Santo purifique o templo de sua morada que somos nós (ODEA2, n. 50).


A invocação inicial a Deus é ampliada pelo vocativo "Pai de misericórdias", muito adequado à sequência ritual que estamos concluindo, na qual a conversão dos homens a Deus foi contemplada na perspectiva do projeto de Seu amor misericordioso aos homens. O texto faz referência à ação da Terceira Pessoa da Trindade no espaço da igreja e em cada cristão. Na referida passagem paulina da primeira Carta aos Coríntios (3,17), recorda-se a realidade da morada divina na Igreja por obra do Espírito Santo. O desejo de que a graça do Paráclito "purifique o templo de sua morada, que somos nós" revela uma equivalência com duplo sentido: a igreja deve expressar a comunidade dos fiéis em que o Espírito Santo habita e vice-versa, cada fiel deve ser e comportar-se em correspondência com a Igreja.


Mesmo que, praticamente, o batismo e o confessionário não apareçam explicitamente durante a dedicação da igreja, o espaço litúrgico manifesta-se nesse rito implicitamente como lugar para o Batismo e para a Reconciliação sacramental, tradicionalmente associados ao espaço de ingresso e a nave. Na sequência ritual da bênção e aspersão com a água (também sutilmente na procissão de entrada), o espaço litúrgico apareceu como lugar para a vida nova e a conversão." A igreja apresenta-se como ambiente de encontro do homem com a misericórdia divina, especialmente no sacramento do Batismo: porta da Igreja e da Salvação. Ao mesmo tempo, não faltaram alusões ao exercício da Penitência no espaço Litúrgico.


1.4. HINO GLORIA IN EXCELSIS


Em seguida, canta-se o Gloria in excelsis Deo (ODEA2, n. 51). Com esse hino, que faz presente o louvor dos anjos na noite de Natal (Lc 2,13-14), "a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro" (IGMR, n. 53; cf. Ordo missae, n. 8). Seu uso na liturgia romana remonta a uma época primitiva, provavelmente anterior ao século V. Tradicionalmente, possuía um caráter festivo, pelo menos desde a época do papa Símaco (498-514), que estendeu seu uso aos domingos e festas dos mártires.50


Esse canto venerável possui três dimensões: trinitária, laudatória e de súplica ao perdão. Louva e glorifica a Trindade em sua natureza transcendente e em seu projeto misericordioso para o homem. Cantado na celebração objeto de nosso estudo, expressa, com tons particulares, a natureza do espaço litúrgico como casa de oração (como vimos na oração final do rito de aspersão que procede imediatamente o Glória) em suas poliédricas facetas. Laudamus te, benedicimus te, adoramus te, gratias agimus tibi: o louvor, bênção, adoração e ação de graças dirigidas ao Pai são próprios da oração, tanto individual quanto coletiva. No contexto da celebração eucarística da dedicação, o espaço litúrgico aparece como grande ambiente de glorificação e adoração ao Verbo encarnado, cordeiro divino que tira os pecados do mundo (Jo 1,29). Contempla-se o mistério de Cristo na Trindade na perspectiva da economia da salvação. A ele se dirige a oração da assembleia litúrgica, que implora o perdão de seus pecados com um ato de contrição - qui tollis peccata mundi, miserere nobis (tu que tiras o pecado do mundo, tende piedade de nós) - e implora ser escutada em suas orações: suscipe deprecationem nostram (atende nossa súplica).


Quando se invoca Cristo como Domine Deus, Agnus Dei, Filius Patris (Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho do Pai), faz-nos presente as aclamações reverentes da liturgia celeste ao Cordeiro sacrificado no Apocalipse (5,9-13; 7-10; 11,2-3; 15,3-4). Tanto aqui quanto em outros momentos do rito de dedicação, manifesta-se a união com a liturgia celeste da Igreja e da comunidade litúrgica. Dispensa dizer que essa dimensão fundamental da celebração cristã não pode deixar de refletir sobre arquitetura. Teremos oportunidade, mais adiante, de nos aprofundarmos nesse aspecto simbólico do edificio de culto.


1.5. ORAÇÃO DA COLETA


A oração da coleta reza:


Omnipotens sempiterne Deus, effunde super hunc locum gratiam tuam, et omnibus te invocantibus auxilii tui munus impende, ut hic verbi tui et sacramentorum virtus omnium fide lium corda confirmet. Per Dominum (ODEA2, n. 52).


Deus eterno e todo-poderoso, inundai este lugar com vossa graça, e a todos os que vos invocam, prestai vosso socorro; aqui o poder de vossa palavra e de vossos sacramentos confirme o coração de todos os fiéis. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo (ODEA2, n. 52).


A coleta provém da oração Deus, qui loca nomini tuo dicanda sanctificas, presente no antigo Gelasiano e é tradicional para o rito de dedicação da Igreja. Na coleta, faz-se anamneses 51 da onipresença divina de todos os tempos, destacando a grandeza do designio de Deus para os homens realizado através de Cristo (Per Dominum), vértice do projeto salvífico divino. Na parte epiclética, implora-se dois favores: o derramamento da graça sobre o lugar que se dedica (effunde) e o favor divino transbordante sobre a comunidade reunida (impende), impres cindível para a construção da Igreja.


O verbo effundere referido diretamente à graça e, por isso mesmo, ao Espírito de Deus, aparece fundamentalmente na literatura profética. O Espírito aparece como virtude para profetizar, que Deus envia de modo abundante sobre seu povo (JI 2,28-29).


A referência mais interessante encontra-se em Zacarias (12,10): "Derramarei [effumdam] sobre a casa de Davi e sobre o habitante de Jerusalém um espírito de graça e súplica". Essa passagem permite-nos pôr em relação o derramamento da graça sobre o lugar de culto com a comunidade, representada pelo edificio. No Novo Testamento, encontra-se em várias ocasiões, todas elas nos Atos do Apóstolos. Na primeira delas (2,17-18.33), é Pedro no discurso depois de Pentecostes quem cita o texto de Joel e o refere ao momento atual, em que Jesus der ramará (Exxew, literalmente: "verter um fluido") o Espírito Santo sobre seu povo. Mais adiante, o livro dos Atos narrará o estupor que causava entre os cristãos procedentes do judaismo que o dom do Espírito tenha sido "derramado" também entre os gentios (10,45). O Espírito Santo aparece como o princípio unificador do povo cristão, cujo dom se recebe nas diversas ações sacramentais que terão lugar na igreja."


A feliz introdução da coleta do ODEA2 de 1977 do complemento do nome verbi tui amplia o horizonte da petição, de modo que a Palavra e a força dos sacramentos aparecem expressamente como meios para fortalecer os corações dos fiéis. A intenção de fazer parecer a igreja -edificio como espaço de anúncio da Palavra e celebração dos sagrados mistérios é uma das principais intenções dos redatores do ordo." Embora a alusão à sacramentorum virtus (força dos sacramentos) possa ser interpretada como uma alusão implícita à Eucaristia, parece -nos melhor que deve ser considerada uma referência à celebração sacramental em geral. Ou seja, o espaço litúrgico não seria apresentado na coleta apenas como um lugar de celebração eucaristica, mas como um espaço ritual de caráter mais amplo. De fato, a inserção de verbi tui (de tua palavra) faz parecer a ação sacramental genérica de que fala a coleta como ação misteriosa na qual se recebe o alimento da Palavra de Deus e da graça sacramental, Nesse esquema se adequa qualquer celebração dos sacramentos da Igreja que tenha lugar no templo (Introdução ao Lecionário, n. 3).


Essa consideração lança uma luz interessante no o desenho do espaço eclesial. Uma razão para o empobrecimento da arquitetura eclesiástica que vimos em algumas áreas na segunda metade do século XX veio, em grande parte, do foco exclusivo no elemento do altar no projeto do espaço litúrgico. Tornou-se, sim, o indiscutível centro e motor gerador do espaço, mas às custas de passar para um plano muito secundário outros focos de ação litúrgica tradicional mente integrados ao desenho da igreja (embora nem sempre com grande sucesso e equilíbrio): o ambão, o sacrário, o espaço batismal e a entrada. Seria desejável considerar o espaço litúrgico não apenas como lugar para abrigar a Eucaristia, mas também como espaço de celebração do Mistério cristão nos sacramentos, sacramentais e a Liturgia das Horas ao longo de todo o ciclo anual. Isso implica um desenho de espaço celebrativo "plurilitúrgico" - que não é multifuncional - certamente mais complexo, mas indubitavelmente mais rico e, sobretudo, mais útil.


2. Liturgia da Palavra


A liturgia da Palavra começa com a procissão dos leitores e do salmista. O percurso dessa procissão realiza-se em duas sessões: o primeiro no presbitério até a cátedra do bispo, que faz a entrega do lecionário ao primeiro dos leitores, o segundo a partir desse lugar até o ambão (ODEA2, n. 53). Encontramo-nos diante da inauguração litúrgica do ambão através da primeira proclamação da Palavra de Deus, o que poderia considerar a "dedicação do ambão"."


Obispo, na monição, ao mostrar o lecionário, dirá: Semper resonet in hac aula Dei verbum quod Christi mysterium vobis aperiat et vestram salutem in Ecclesia operetur (ODEA2, n. 53). Deseja-se que ressoe sempre, nesta aula, a Palavra de Deus, que faça conhecer aos fiéis o mistério de Cristo e realize sua salvação na Igreja. A igreja-edificio aparece, nesse momento, explicitamente como espaço de proclamação da Palavra. Essa proclamação "abre" aos fiéis o mistério de Cristo, preparando seus corações para o contato salvador com a graça sacramental, tanto na liturgia eucarística quanto em outras celebrações rituais. "A Eucaristia nos ajuda a entender a Sagrada Escritura, assim como a Sagrada Escritura, por sua vez, ilumina e explica o mistério eucarístico. De fato, sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, a compreensão da Escritura fica incompleta" (SCa, n. 55). A liturgia da Palavra aparece em intima conexão com a celebração sacramental, a qual prepara e conduz como seu fim, sem poder separar-se uma da outra.


A procissão dos leitores antes da primeira leitura é um rito atípico. Na liturgia romana, conhecemos a procissão solene ao ambão do diácono para a leitura do Evangelho. Em todo caso, para nosso estudo, o dado relevante é a manifestação espacial significativa durante a dedicação da igreja do caminho percorrido processionalmente que conduz da sede ao ambão. A riqueza simbólica com que são revestidos esses movimentos dão razão da dignidade e importância - também espacial - que tem esse lugar litúrgico (v).


Em muitas basílicas antigas do Oriente do Ocidente, encontramos, desde o século VI, um elemento construído no espaço liturgico que permitia a conexão do altar com o ambão: a solea. Ela tem sua origem no movimento ritual dos leitores até o lugar de proclamação da Palavra. Tratar-se-ia de uma prolongação espacial do presbitério até a nave ao longo de um eixo. Além da solea, é comum encontrar, na arquitetura cristã desses primeiros séculos, uma série de estruturas espaciais que per mitiam conectar o ambão com o presbitério, como a schola cantorum ou o iconostasio. Uma vez que a proclamação do Evangelho é confiada ao ministério ordenado, é coerente que o espaço do ambão esteja no presbitério ou fisicamente ligado a ele, de modo que o santuário seja percebido como uma unidade espacial na qual o lugar de proclamação da Palavra seja um dos seus principais focos."


Não é em detrimento da participação dos fiéis que o ambão se encontre a uma distância relativamente considerável do altar e da sede. Dessa maneira, permite-se que a procissão até o espaço de proclamação da Palavra percorra uma longitude suficiente, facilitando que se converta em um gesto verdadeiramente significativo, de modo que, realmente, os fiéis "se voltem" para o ambão (IGMR, n. 133). Estas considerações animam a valorizar mais atentamente dois aspectos do espaço litúrgico: o trajeto simbólico que conduz até o ambão, ao longo do qual tem lugar a procissão da liturgia da Palavra, a relação estilística coerente entre o ambão e a sede dentro do presbitério. A respeito do diálogo entre ambão e altar, falaremos mais adiante.


2.1. PRIMEIRA LEITURA


A liturgia da Palavra conterá três leituras, propostas no Lecionário III, para o rito de dedicação da igreja. A primeira delas há de ser sempre do livro de Neemias na qual se descreve o 60 povo de Deus reunido em Jerusalém após o exílio na Babilônia, para escutar a proclamação da Torah (ODEA2, n. 12):


O sacerdote Esdras apresentou a Lei diante da assembleia de homens, de mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Assim, na praça a frente da porta das Águas, Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até ao meio-dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei. Esdras, o escriba, estava de pé sobre um estrado de madeira, erguido para esse fim. Visivel a todos, por estar mais alto, Esdras abriu o livro. Quando o abriu, todo o povo ficou de pé. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: "Amém! Amém!" Depois inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com o rosto em terra. Leram o livro da Lei de Deus distintamente e explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. O governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras e os levitas que instruíam o povo disseram ao povo inteiro: "Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus! Não lamenteis nem choreis" - pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. E disse-lhes: "Ide e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e dai porções àqueles para quem nada se preparou, pois este dia é santo para o nosso Senhor. Não é dia de luto, pois a alegria pelo Senhor é vossa força" 


O relato do livro de Neemias (8,2-17) no qual o sacerdote Esdras lê a Lei diante do vem a ser como uma nova "constituição" do povo eleito após o exílio na Babilônia, que apa rece como assembleia reunida pela voz de Deus: qehal YHWH. Já no contexto da primeira Aliança, a qehal YHWH identifica a comunidade de Israel: tanto em seu conjunto como atra vés das diversas assembleias locais restritas no espaço e no tempo, que contemplamos ao longo da história da Salvação." Ekklesia é a palavra que a versão grega do Antigo Testamento utilizou com mais frequência para traduzir a palavra hebreia qehal: convocação do povo de indole religiosa e ativa, especialmente cultual, na presença de Deus (1Cr 28,8 e Ne 8,2), que contemplamos de modo paradigmático nas assembleias no Sinai, na terra de Moab e em Siquém (Dt 4,10, 31,30; Js 8,35), nas quais Israel recebe a Lei e é constituído como povo Santo de Deus pela vontade gratuita divina." A Comunidade cristã "nasce da Palavra": do próprio Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, que se reuniu a esse novo povo através de sua morte e ressurreição: a "convocação" definitiva." povo, Esdras leu de pé "uma parte" da Lei de Deus (8,3), uma passagem da Escritura santa, a partir de um estrado alto erguido para a ocasião, que permitia estar à vista de todos (8,4.6). A passagem de Neemias representa a liturgia da Palavra no povo hebreu após o exílio. Esse rito veterotestamentário tem íntimas conexões com a proclamação da Palavra da celebração cristã,


herdeira em boa parte da liturgia sinagogal da diáspora. Como não ver, nesse estrado alto, um antecedente remoto do ambão cristão?


Já desde sua origem, existe uma ampla gama de formas do ambão na igreja. Quer fossem feitos de madeira - às vezes cobertos com metais preciosos, como na antiga Capela Palatina de Aachen (v) - ou mármore, eles podiam ser feitos de uma plataforma simples com uma balaustrada ou um parapeito semicircular em um pedestal, com uma escada de acesso. Alguns têm forma poligonal e estão em uma base, elevados, por sua vez, em colunas que frequentemente apoiam-se em outra plataforma. O tipo mais difundido até meados do século V era equipado com duas escadas opostas para que o leitor pudesse subir e descer; às vezes, podia até ser coberto com um dossel. Por outro lado, seu caráter simbólico como "tumba vazia" da ressurreição de Cristo (Mc 16,1-4 e Mt 28,2) e lugar do anúncio pascal - como visualmente expressa o ambão do santuário do Padre Pio em San Giovani Rotondo (figura 24) torna adequado que o candelabro para o círio pascal se encontre próximo ao ambão durante o tempo pascal."


Durante a procissão de leitores ao ambão, a rubrica indica que a segunda etapa desse movimento seja realizada omnibus aspiciendum (na frente de todos) (ODEA2, n. 52). Essa indicação parece banal, tendo em conta que cada parte do rito se realiza à vista de todos. Sua aparição, no entanto, parece evocar momentos em que, na Sagrada têm lugar uma proclamação da Palavra de Deus de modo ritual.66 A posição destacada do ambão no espaço litúrgico permitirá que a ele "se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra, como deseja a 1GMR (n. 309). Algo tão simples como elevar a altura do ambão no conjunto da nave facilita extremamente essa relevância. Além disso, a decoração iconográfica contribui para ressaltar seu caráter singular. Infelizmente, o ambão no espaço litúrgico cris tão tem perdido frequentemente, nas realizações dos últimos séculos, o relevo monumental e simbólico que havia desfrutado durante longo tempo na arquitetura cristã. Quem contempla os belos ambões de Nicola Pisano no batistério de Pisa ou a catedral de Siena (1260-70) pode perceber, com nitidez, a importância que a igreja - e na Igreja, com maiúscula - possui a proclamação da Palavra de Deus."


2.2. SALMO


No salmo responsorial, os componentes da assembleia litúrgica fazem suas as palavras da oração de Israel, convertendo-as em resposta da Igreja à Palavra divina:


A lei do Senhor é sem mancha, conforto para a alma; o testemunho do Senhor é fiel, torna sábios os simples. Os preceitos do Senhor são retos, alegram os corações; o mandamento do Senhor é lúcido, ilumina os olhos. O temor do Senhor é puro, e permanece para sempre; os julgamentos do Senhor são verdadeiros, todos justos igualmente. Sejam te agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração na tua presença. Senhor, meu auxilio e meu redentor (Sl 19[18]).


A parte selecionada do Salmo 18 é um hino à Torá (v. 8-10) que culmina com o oferecimento ao mesmo Deus do canto do salmo (v. 15). Nessa elogiosa "ladainha da Lei" se percebe a profunda estima que Israel tinha dos preceitos divinos: mais precioso que o ouro mais fino, mais doce que o mel (Sl 18,11). Na economia do Novo Testamento, a Palavra que nos vem de Deus é, antes de tudo, seu Verbo encarnado. A liturgia dessa festa facilita para nós, efetivamente, uma leitura cristológica do salmo, como se percebe no responsório:


Verba tua, Domine, spiritus et vita sunt

Tuas palavras, Senhor, são espírito e vida


É tirado das palavras com que Jesus interpela seus discípulos ao final do discurso eucarístico: "As palavras que vos falei são espírito e vida" (Jo 6,63). Agora a comunidade que crê faz suas essas palavras de Cristo, com a atitude de fé confiante de Pedro em sua confissão ao acabar o discurso: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna" (6,68). As palavras com as quais Cristo termina seu discurso eucarístico do sexto capítulo de João apresentam o Salvador como alimento espiritual, tanto em sua carne - que recebemos na comunhão sacramental - quanto em suas palavras (6,63), que os cristãos "devoramos" na liturgia da Palavra."


2.3. SEGUNDA LEITURA


Como segunda leitura para o rito de dedicação da igreja, elegemos a primeira Carta de Pedro. O título que a OLM dá à leitura é "Como pedras vivas sois edificados como edificio espiritual".


Aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e valiosa aos olhos de Deus. Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formais um edificio espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrificios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. Com efeito, na Escritura se le: "Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e valiosa; quem nela confiar, não será confundido". Para vós, que credes, ela é valiosa! Mas para os que não creem, "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular" e "pedra de tropeço, pedra que faz cair". Eles tropeçam por não crerem à Palavra; essa é a situação deles. Vós, ao contrário, sois a geração escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele adquiriu, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa (1Pd 2,4-9).


Nessa passagem petrina, de uma grande densidade teológica, a Igreja aparece como "edi ficio espiritual" - domus spiritalis - destinada a oferecer sacrificios como povo santo, propriedade de Deus, que exerce seu sacerdócio batismal transmitindo aos demais as bondades divinas. A alusão à oferta dos "sacrificios espirituais" (2,5) e à proclamação das "maravilhas" (2,9) de Deus indica que o exercício do sacerdócio dos fiéis projeta-se para além dos limites da assembleia litúrgica."


A segunda leitura da celebração da dedicação apresenta-nos a igreja-edificio como imagem singular e do conjunto de fiéis, edificio santo onde habita a Trindade e onde é dado o culto feito de sacrificios espirituais. O primeiro valor simbólico será importante, como veremos mais adiante, para expressar a qualidade hospitaleira do edificio de culto. Ao mesmo tempo, a igreja é símbolo da assembleia eclesial reunida como povo sacerdotal, que exerce o culto de sua existência firmemente edificado em Cristo: por meio Dele, com Ele e em caminho até o Pai através dele. Sua união com Cristo como membros do mesmo Corpo- que é representada por sua unidade espacial na igreja - faz deles um povo sacerdotal. A sala litúrgica é, portanto, espaço onde os fiéis cristãos, unidos na comunhão na Igreja, exercem seu sacerdócio batismal durante a ação litúrgica.


O desenho da nave da igreja implica a distribuição dos lugares onde se encontram os fiéis. Sua disposição geral e sua articulação com o espaço do presbitério pode manifestar a profunda unidade orgânica do povo santo (IGMR, n. 294). No que se refere ao modo de dispor os lugares dos fiéis, convém que este transmita, de modo simbolicamente eficaz, o exercício do sacerdócio batismal em comunhão. A forma da montagem tendendo à circularidade, na qual os participantes estão distribuídos ao longo de vários eixos que convergem para o altar central, não parece simbolicamente adequada, por seu estatismo, para expressar a dinâmica dialógica "escuta da Palavra - oferta do sacrificio". Uma disposição análoga pode ser atribuída à distribuição desestruturada da assembleia litúrgica em espaços dispersos, ou à posição frente a frente de uma grande parte de seus componentes.


A leitura da primeira Carta de Pedro aponta-nos, ainda, algum elemento a mais que pode iluminar a questão da distribuição na nave do povo sacerdotal. O texto apresenta, através de sucessivas imagens e termos provenientes da linguagem cultual, boa parte da teologia do culto neotestamentária. Os cristãos são apresentados como os que se aproximam - prosechonai (1Pd 2,4) - de Cristo pedra viva, os que "caminham processionalmente" na direção do santuá rio. O processo que descreve o apóstolo e que faz dos cristãos um sacerdócio real consiste, em primeiro lugar, em "aproximar-se dele" ritualmente."


Esta natureza cristológica - por Cristo, com Ele e nele - da oração litúrgica cujo "ponto de partida é o altar convida-nos a determo-nos na questão da orientação da oração ritual comum.


Que influência tem sobre a arquitetura o fato de que a oração litúrgica implica rezar em Cristo e em direção a Cristo? Se olharmos a história, vemos que o costume de rezar dirigindo-se para o oriente marcava fortemente a oração tanto privada quanto litúrgica nos primeiros séculos da Igreja, de modo particular, na parte oriental do Império romano.74


Na tradição cristã, temos assistido a um desenvolvimento histórico no modo de conceber a orientação do espaço litúrgico. Inicialmente, encontrava-se fortemente condicionada pelo ponto cardinal Leste, como símbolo cristológico e escatológico." Pelos dados arqueológicos, sabemos que há muitas variantes, conforme as regiões, na orientação geográfica do edificio e na disposição do altar, permanecendo, no entanto, como uma constante a tensão direcional do espaço celebrativo da igreja." A estrutura do edificio de culto se encontrava, em geral, influenciada por este costume." Com o passar dos séculos, a orientação, sem excluir sua referência à direção da saída do sol como símbolo natural, carregou-se de conteúdo teológico e sua expressão material na igreja foi embelezada através dos elementos iconográficos. Nesse contexto, deve-se entender o antiquíssimo costume de situar um crucifixo sobre a mesa eucaristica, elemento simbólico relacionado com a oração litúrgica que terá lugar a partir do espaço do altar. A cruz é o modo cristão de sintetizar a Redenção do mundo e da história em Cristo, cujo memorial se celebra no altar. Esse elemento ilumina o olhar dos fiéis para o fato de que o "oriente", ao qual a oração dos cristãos é dirigida, é Cristo como mediador para o Pai." Nessa mesma perspectiva, a posição do altar que permite que o celebrante, junto a toda assembleia, olhe durante a oração ritual na mesma a direção transmite, de um modo simbolicamente mais nítido, a direção comum da oração.


A sequência espacial da igreja é determinada pelo sacerdócio batismal do povo cristão: a partir do lugar que o recebeu - o batistério relacionado com a entrada da igreja – até a nave, lugar onde acolhe a Palavra proclamada e se orienta até o sacrifício, oferecido sacramental mente sobre o altar no presbitério. A igreja resplandece como espaço para uma comunidade peregrina que exerce liturgicamente sua delegação ao culto divino. Por outro lado, a questão da orientação do edificio poderia ser secundária, mas é fundamental para esclarecer um aspecto importante: a anáfora eucarística, coração da liturgia cristã, não consiste em um diálogo entre o sacerdote e o povo, mas uma oração comum que todo o povo dirige a Deus por meio do celebrante; com ela, unimo-nos à oração de Cristo ao Pai.


A tensão direcional é, portanto, uma das características paradigmáticas do espaço da assembleia litúrgica. A perda desse sentido direcional em detrimento do favorecimento de formas espaciais que olham para um centro foi uma tendência da arquitetura litúrgica no século passado, particularmente acentuada a partir dos anos 50. Certamente, esses favorecem a percepção da celebração eucarística como um encontro de convívio do ponto de vista antropológico, mas, de fato, eles geraram espaços litúrgicos que não transmitem, com clareza, a estrutura ritual da escuta da Palavra-oferta do sacrificio espiritual, expressada na primeira e segunda leitura da liturgia da Palavra de nosso rito de dedicação.








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