FERNANDO ARIAS. Parte 04
Capítulo II
Introdução à dedicação da Igreja
Em 7 de novembro de 2010, Bento XVI dedicou solenemente o Templo Expiatório da Sagrada Família de Barcelona. Diante do olhar absorto e curioso da multidão, o sucessor de Pedro realizava uma série de ritos e sinais arcanos com os quais a Igreja indicou que, a partir daquele momento, a imortal obra de Antoni Gaudí se "arrebata" do mundo dos homens para mover-se à esfera divina. Em uma comovedora homilia, o Papa, admirado, como ele mesmo reconheceu, perante a beleza do edificio, perguntou-se:
Que fazemos ao dedicar este templo? No coração do mundo, diante do olhar de Deus e dos homens, em um humilde e gozoso ato de fé, levantamos uma imensa massa de matéria, fruto da natureza e de um incomensurável esforço da inteligência humana, construtora dessa obra de arte. Ela é um sinal visível do Deus invisível, a cuja glória se ergue estas torres, setas que apontam ao absoluto da luz e Daquele que é a Luz, a Altura e a Beleza.'
A dedicação de um templo é uma celebração paradigmática para entender o que é uma igreja e como se "constrói". Nela o próprio rito revela simbolicamente como é seu lugar genuíno: movimentos, gestos, orações, leituras e cantos nessa celebração apresentar-nos-ão, diante de nosso olhar, uma ampla informação teológica, por trás do véu de palavras e gestos. A celebração da dedicação poderá efetivamente - de modo completamente próprio - responder a algumas perguntas importantes: que ações rituais se desenvolvem em uma igreja? Quais são seus elementos essenciais e como serão os espaços que os abrigam? Que relação se estabele cem entre eles? Para que ergueu o povo cristão esse edificio de pedra?
A respeito dessa celebração, são numerosos os estudos realizados nos últimos anos. Dada a riqueza e história desse rito - já temos indícios dele no primeiro livro litúrgico conhecido como tal, o Sacramentário veronense - as facetas que poderíamos tentar iluminar são muitas A perspectiva da qual nós abordaremos agora será a do templo como o lugar da ação ritual crista. A teologia litúrgica não observa o Mistério "a partir de fora", friamente, como o estudioso de anatomia observa o objeto de seu interesse, mas "a partir de dentro", como o biólogo que vai à natureza para observar os seres vivos em seu ambiente próprio. Para este estudo, será, por isso, imprescindível que o leitor deixe sua imaginação voar e tente se situar em uma celebração como a que ocorreu em Barcelona, à qual nos referimos anteriormente. E, contemplando a ação sagrada, deixe-se "transportar" por sua simples beleza.
1. Uma festa singular
A dedicação da igreja é uma festa singular que ocorre poucas vezes -se a comparamos com outras ações rituais da Igreja - na história de cada comunidade cristã, que a recordará após um ano, em seu aniversário (figura 13). O rito é presidido, habitualmente, pelo bispo do lugar e geralmente tem uma grade presença de ministros e pessoas que dele participam.
O objeto concreto de nosso estudo é a "celebração eucarística da dedicação da igreja". É uma festa composta por um conjunto variado de sequências rituais - aspersão de água, unção do altar, incensação, iluminação - que conduzem, porém, a um só ponto: à celebração eucarística propriamente - autêntico coração do rito de dedicação. Trataremos de ver as diversas sequências rituais dessa longa celebração não como "compartimentos estanques", mas como os niveis de um "crescente" ritual que conduz à Eucaristia. Como os degraus das etapas de um santuário nos conduzem progressiva e ordenadamente ao altar, os diversos ritos de dedicação preparam para a participação no sacrificio de Cristo.' O método de estudo empregado constrói-se a par tir de dois critérios básicos: por um lado, segue a ordem temporal do próprio rito, por outro, a análise será do tipo simbólico e funcional.
1.1. A DEDICAÇÃO DA IGREJA NA HISTÓRIA
Antes de entrar nas questões mais puramente teológicas e espaciais do rito de dedicação, vale a pena deter-se brevemente em sua história. Que sentido tem para o homo religiosus a dedicação de um espaço ritual? Reservar à divindade um lugar específico para dar-lhe culto é um modo humano de dialogar com Deus. O espaço litúrgico cristão é um espaço simbólico, delimitado e dedicado especificamente ao culto. Essa natureza em certo modo sacramental do edificio litúrgico, como sinal da nova criação, confere-lhe seu caráter sagrado e, por isso mesmo, significativo. Permite-nos perceber a dimensão corporal e espiritual da pessoa humana que desenvolve a ação litúrgica, assim como a transcendência divina em relação à realidade material.
Poucos ritos da Igreja católica refletiram o esplendor da liturgia romana como a dedicação romana, que tem suas raízes mais profundas na teologia veterotestamentária da dedicação dos espaços de culto. O Antigo Testamento nos fala da dedicação de estelas, altares, casas e templos por parte dos povos primitivos e de Israel. No lugar que condensava todas as aspirações religiosas de Israel, onde o próprio Deus se manifestava e onde podiam estar seguros de sua presença consoladora, era o Templo de Jerusalém. Era o lugar sagrado por excelência, onde
entravam em contato com a divindade. No Novo Testamento, será Jesus Cristo que revelará a si mesmo como o lugar da presença de Deus, já não ligada a um espaço fisico exclusivo: o verdadeiro templo é seu corpo. Jesus será agora o novo, verdadeiro e definitivo templo, lugar do encontro e morada de Deus entre os homens (Jo 1,14)."
Nota de rodapé
8 Do dia de sua dedicação Salomão recorda todo conteúdo simbólico (1Rs 8). Deus toma posse do Templo, sinal da Aliança, eo rei pronuncia a solene oração de dedicação (1Rs 8,22-53). Após o exilio na Babilônia, ocorrerá a construção do segundo Templo e depois a dedicação (Es 6,13-18). Sua violação durante a tentativa de helenização sob Antioco Epifanes provocará a comoção do povo hebreu. O Templo será purificado por Judas Macabeu (1Mc 4,36-61).
As cartas paulinas, através da teologia do corpo de Cristo (como em 2Cor 6,16) apresentam a Igreja como templo de Deus. No Apocalipse, contemplaremos a Jerusalém da eternidade escatologica, na qual o Senhor Todo Poderoso e o Cordeiro são o seu templo (21,22).
10 "Em última instância, a Igreja e o cristão são, na história, os herdeiros da riqueza teológica do templo veterotestamen tário e são testemunhas viventes do verdadeiro templo que é Jesus Cristo" (FLORES, 1.J. Los sacramentales. Bendiciones, exorcismos y dedicación de las iglesias. Op. cit., 313). Testemunhos como os de Ambrósio ou Agostinho recordam-nos como continuava muito viva, na consciência cristã, a obra do Espirito Santo em suas almas, que os tornara "templo espiritual", morada de Deus.
Fim da nota
Essa consciência da diferença entre o culto inaugurado por Cristo e os das religiões ao seu redor marcou profundamente a identidade dos primeiros cristãos, seguros da morada divi nas neles mesmos e no conjunto da comunidade dos fiéis. Contudo, não abandonaram, pelo menos em algumas zonas do império, a construção de edificios para o culto." A liberdade religiosa com Constantino foi uma mudança fundamental para a liturgia romana e para a arquitetura eclesial." O favor da autoridade imperial permitiu o crescimento da riqueza e expressividade de culto e seus edificios.
Desde suas origens mais remotas, a celebração da eucaristia constituía o vértice do rito de dedicação. Entre os ritos que acompanham e precedem à celebração eucarística, aquele do qual possuímos testemunhos mais antigos - da segunda metade do século IV em Milão com Santo Ambrósio - é o da colocação das relíquias," além das unções com o crisma. A unção do sepulcro destinado às relíquias do mártir já está testemunhada na Síria no século IV, ao passo que, na Espanha e na Gália - também em Bizâncio - a partir do VI. Outro desses sinais é a ablução com água com sentido de purificação, que remonta ao século VI, embora já tenhamos notícias da sua existência desde o século IV com o Optato de Milevi. Um dos ritos mais da dedicação do templo é a inscrição dos alfabetos grego e latino na cinza espalhada sobre o pavimento do templo. Essa tradição, mantida na liturgia romana até o atual rito de dedicação (Ordo dedicationis ecclesiae et altaris, 1977), reproduz um costume antigo de origem
celta em uso na Gália, cuja origem se situa provavelmente no século VII. Certamente, manifesta a "tomada de posse" do novo edificio."
No que diz respeito à celebração da dedicação nos livros litúrgicos romanos, o precedente mais antigo é encontrado no Sacramentário veronense (século VI-VII). Nele encontramos uma missa no aniversário da dedicação da igreja de Santo Estevão, protomártir em Jerusalém.18 O Sacramentário Gelasiano vetus, que descreve a liturgia presbiteral das igrejas de Roma no século VII, reúne diversos tipos de fórmulas para a dedicação, a depender se a igreja é consagrada com relíquias ou sem elas, se é nova ou não foi dedicada, ou se era uma sinagoga." Terá que esperar o século VII com os Ordines romani para ter as primeiras descrições detalhadas no Ocidente do rito de dedicação. Serão, em ordem cronológica, os OR XLII (primeira metade do século VIII), XLI e XLIII (segunda metade do século VIII)."
O OR XVII foi composto substancialmente por quatro partes: consagração e dedicação do altar, consagração da igreja e missa inaugural. Nele, o elemento principal era a colocação das reliquias. Todo o rito possui, de fato, o caráter de "exequias" dos corpos dos mártires, cujas reliquias eram depositadas, embora não faltassem elementos próximos ao ritual batismal A imagem que neste OR XLII nos transmite da igreja-edificio é de lugar onde se obtém os beneficios divinos: casa de oração e casa santa do Senhor. O elemento no qual gira o rito será o altar do sacrificio eucarístico. No que diz respeito ao OR XLI, tem duas grandes partes: uma consagração ou purificação da igreja e da dedicação, que ocorre com a trasladação das relíquias e o arranjo do altar. A celebração eucarística aparece como menos relevante no conjunto do rito. No OR XLIII, semelhante ao XLI, o ordo tem como centro a disposição das reliquias."
O Pontifical Romano Germânico do século X (PGR) contém dois ritos da dedicação. O primeiro - Ordo romanus ad dedicandam ecclesiam - é uma combinação dos ordines XLI e XLII. O segundo - Ordo ad benedicendam ecclesiam - não é muito diferente do anterior, mas muito mais elaborado: repleto de elementos expressivos e dramáticos e de orações de exorcismo. Outra carac teristica dessa liturgia, procedente de terras francesas, será a referência ao Antigo Testamento para suas orações e simbolos. O Pontifical Romano do século XII adota, com mínimos reto ques, o segundo dos dois ritos do PGR. Os pontificais da Cúria do século XIII e de Guillermo Durand, bispo de Mende (+1296), reproduziram sem grandes variações esse ordo. De 1485 até 1961, quando se publica um novo ordo da dedicação do Pontifical Romano, o rito da dedicação da igreja permanecerá sem modificações de relevo.
O Pontifical Romano 1595 prevê um ordo para a dedicação similar ao que aparecia no Pontifical de Guillermo Durand, com quatro grandes seções rituais: a dedicação da igreja propriamente dita (vigília e procissão com as relíquias dos mártires, purificações exteriores do templo, rito dos alfabetos); a consagração da igreja (incensação, purificações e orações a partir do centro do templo com o prefácio de dedicação-consagração da igreja); a consagração do altar (incensação e purificações; antífonas e orações com o correspondente prefácio de consagração do altar); celebração da Eucaristia. O rito conserva, com sua duração e profusão 26 simbólica, a unidade dinâmica do ordo, herança da tradição medieval.
O Ordo ad ecclesiam dedicandam et consecrandam do Pontifical Romano de 1961 apresenta algumas novidades importantes em relação ao precedente de 1595. Em 1961, realizou-se uma drástica reforma do ordo de dedicação da igreja, chamada a facilitar a participação do povo. A reforma, porém, não se limitou a uma notável simplificação de um rito prolixo e longo em duração, mas que afetou aspectos mais profundos, como sua própria estrutura." Uma das diferenças que suscitou mais controvérsia foi a clara distinção entre os conceitos de "dedica ção" e "consagração", como duas ações diversas que ocorrem no rito.28 Por outro lado, no ordo de 1961, a Santa Missa aparece com mais nitidez como ápice do rito.
O Ordo dedicationis ecclesiae et altaris (Ritual da dedicação da igreja e do altar) em uso atualmente foi promulgado em 1977, depois de um processo de elaboração não sem complexida de." Dele se podem destacar as seguintes características: aparição dos praenotanda (premissas teológicas e pastorais), evolução das rubricas iniciais do ordo, consolidação da importância da procissão de entrada, embora a vigília de oração não faça mais parte do próprio rito; a bênção da água e as aspersões retomam sua importância como rito específico (no ordo de 1961 dava-se a opção de realizar a bênção fora da celebração); a liturgia da Palavra integra-se dentro dos ritos da dedicação, introduz-se a opção de não depositar reliquias no altar; na sequência ritual da terceira parte (oração de dedicação e unções), a consagração da igreja e do altar são novamente relacionados, conexão que em 1961 se desvaneceu. Quanto à nova variação no título do ordo, seus autores argumentaram que os termos "dedicação" e "consagração" haviam sido, ao longo da história deste rito, equivalentes. Convinha reservar, portanto, o termo "consagrar" para a transformação das espécies eucarísticas, enquanto que "dedicar" era conveniente como termo univoco para o rito que estamos tratando."
1.2. PER RITUS ET PRECES
Espero que o leitor nos permita introduzir aqui algumas breves notas sobre o método de estudo que nos dispomos a empregar no capítulo seguinte. Desejamos que este trabalho seja uma mistagogia: uma autêntica catequese sobre a dedicação da igreja, que contribua para que, entendendo o seu sentido, os fiéis possam participar da sagrada ação consciente, piedosa e ativamente através dos ritos e orações (per ritus et preces).
A celebração, que culmina na liturgia eucarística, encontra-se estruturada em sequências rituais. Em sua exposição, consideramos quatro aspectos: referências a cada uma delas nas premissas do livro litúrgico, que esclarecem seu sentido e função; antecedentes históricos, especialmente na tradição romana; relação com o conjunto do rito e análise de seu conteúdo teológico-litúrgico. Existem dois campos principais de estudo:
1. As orações, monições e fragmentos da Bíblia (código verbal), lidos, cantados ou proclamados, manifestam a especialidade do rito, a partir da dupla dimensão da celebração do mistério e da experiência religiosa da comunidade cristã. Procuraremos identificar na eucologia" e nas leituras da Sagrada Escritura as alusões, explícitas ou implícitas, ao rito em sua dimensão espacial em relação ao lugar que se está dedicando-consagrando ao culto. Nos deteremos nas referências às ações rituais que se realizam ou realizarão nele, aos espaços fisicos que as abrigam, aos polos celebrativos e às características dos componentes da assembleia litúrgica, cuja localização determina a estrutura essencial do espaço.
As leituras bíblicas formam parte integrante da celebração eucarística. Para sua correta interpretação teológica-litúrgica, deve-se partir da peculiaridade do texto bíblico que se pro clama." Serão interpretadas como parte de uma liturgia da Palavra (contexto literário) que se integra em um rito mais amplo (contexto ritual). Por outro lado, o rito da dedicação da igreja caracterizou-se, ao longo dos séculos, pela profusão de salmos, antífonas e hinos cantados, que, desde a antiguidade mais remota, contribuíram para dar à celebração da dedicação da igreja grande cor e caráter popular. Também prestaremos bastante atenção nesses elementos, especialmente ao binômio antífona-salmo.
2. Em um estudo sobre a teologia da dedicação da igreja, os gestos e ações rituais junto aos símbolos (código não verbal) apresentam-se como um fator de singular importância (CIgC, n. 1146). O desenvolvimento do rito no espaço "produz" situações e unidades espaciais locais que constituem o elemento que mais genuinamente descreve como é um espaço ritual. A assembleia litúrgica organicamente estruturada é um símbolo: através de sua forma e movimento no espaço, significa um conteúdo teológico concreto.
Por "unidades espaciais locais" entendemos as configurações que são geradas durante a celebração em cada sequência ritual. Essas configurações manifestam-se tanto no núcleo de fluxos dos movimentos individuais (posturas corporais e deslocamentos) e coletivos (procissões e reuniões) de ministros e povo, como na sinergia entre os fluxos e polos-ambientes celebrativos.
2. Marco teológico de referência
O decreto de aprovação do Ordo dedicationis ecclesiae et altaris (doravante: ODEA) e os primeiros pontos dos praenotanda de seu segundo capítulo (ODEA2) apontam um contexto interpretativo adequado para o estudo teológico-litúrgico da dedicação da igreja. Indica-nos, sinteticamente, a natureza e função do edificio sagrado.
2.1. A IGREJA, ESPAÇO LITÚRGICO CRISTÃO
O livro litúrgico do ODEA inicia-se com o decreto de promulgação da Sagrada Congregação para o Culto Divino, datada de 29 de maio de 1977. Já em seu primeiro parágrafo, encontramos uma definição sintética do templo como espaço litúrgico cristão:
O lugar em que a comunidade cristã se reúne para escutar a Palavra de Deus, dirigir a Deus orações de intercessão e louvor e, principalmente, para celebrar os sagrados mistérios [lugar] no qual se conserva o santíssimo sacramento da Eucaristia, é uma imagem singular da Igreja, templo de Deus edificado com pedras vivas; também o altar, que o povo santo circunda para participar do sacrificio do Senhor e alimentar-se com o banquete celeste, é um sinal de Cristo, [que é] sacerdote, vítima e altar de seu próprio sacrificio.
A igreja é definida como "lugar onde a comunidade cristã se reúne". Não se trata de uma reunião indeterminada com fins poucos precisos, mas que o decreto a coloca em um horizonte cultural. O povo reúne-se "para" um triplo fim litúrgico: escutar a Palavra de Deus; dirigir a Ele orações de intercessão e louvor e celebrar os sagrados mistérios. Certamente a Eucaristia em primeiro lugar, mas também os outros sacramentos. Juntamente com esses fins, a definição de igreja é completada com a referência à reserva da Eucaristia. O templo cristão aparece, pois, a partir do início do ODEA como lugar de ação e de presença, tanto divina como humana. Por outro lado, é feita referência ao altar da celebração da Eucaristia, aproximando-se da qual o povo cristão participa do sacrificio do Senhor e banquete celestial, que "reconstitui", "refaz", "reedifica" a Igreja. A amplitude dos conceitos "escuta da Palavra", "orações" e "celebração dos mistérios" abrem a perspectiva dessa visão do espaço litúrgico para outras dimensões da celebração do mistério cristão (figura 14).
Nos deteremos agora no verbo circumdo (circundar), com o qual o decreto expressa a relação dos fiéis com o altar. A Vulgata Latina recorre a esse verbo em numerosas ocasiões e em uma ampla gama de sentidos. Expressa, de modo geral, a ação de rodear um objeto fisico ou uma pessoa, de modo estático ou em movimento. A única ocasião que encontramos seu uso no âmbito cultual é a conhecida passagem do salmo 25: lavabo inter innocentes manus meas et circumdabo altare tuum Domine (SI 25,6). Trata-se do início do salmo que o sacerdote lia no lavabo durante a celebração eucarística nas sucessivas edições do Missal Romano até 1970. Santo Agostinho põe em relação o "lavar as mãos" da primeira parte do versículo com o "circumdare" da segunda, expondo como a pureza de coração é necessária para realizar o conjunto de movimentos espirituais com os quais o fiel cristão exerce seu sacerdócio durante a Eucaristia: oferecer seus dons e orações ao Senhor com uma consciência limpa; confessar a majestade divina e os próprios pecados." Santo Tomás de Aquino, comentando esse versículo como parte da fórmula litúrgica do lavabo, esclarece que o "altar" a que faz referência pode ser interpretado em três sentidos: o altar do coração do homem justo; Cristo que é o altar do templo da Igreja; o terceiro altar é a misericórdia divina e o terceiro templo é o próprio Deus. Nos três casos, o fiel deve circumdare o altar: no primeiro caso, voltando sempre a Cristo, o segundo rem que o rodear para estar com todo seu coração junto Dele; no terceiro caso, circumdare realiza-se através do anseio da alma." O Missal Romano (editio typica tertia reimpressa, 2008) recorre a ele em diversas ocasiões, todas elas no sentido figurado." A antiga literatura cristã fez uso dele, de modo mais amplo, para indicar a ação de vestir-se, rodear-se ou estar envolto, privilegiando, em todo caso, também o sentido figurado.
Permitimo-nos essa digressão sobre a interpretação do termo circumdo pois ele tem, para
a construção do espaço litúrgico, uma grande importância. À luz desses dados, não se pode concluir que o verbo em questão, utilizado em âmbito litúrgico para expressar a relação dos fiéis com o altar, transmita a ideia espacial de "rodear fisicamente formando um círculo". Deve ser interpretado no sentido espiritual, indicando a atividade interior com a qual os cristãos "envolvem" ou "preenchem", com seus próprios dons, o altar, para associá-los, assim, ao sacrificio redentor.
2.2. UM POVO REUNIDO QUE ESCUTA, REZA E CELEBRA
A natureza da igreja como ambiente ritual é iluminada particularmente pelos três primeiros números das premissas ao ordo da dedicação da igreja, segundo capítulo do ODEA. Tratam da natureza e dignidade das igrejas e descrevem brevemente os ritos, usos e lugares simbóli cos essenciais do espaço litúrgico cristão.
Suas primeiras palavras situam-nos no horizonte essencial, cristológico e unitário da Igreja, a partir da qual se expõe a natureza da igreja-edificio. Contempla-se Cristo que por sua morte e ressurreição se tornou templo da Nova Aliança (Jo 2,21) e congregou um povo adquirido pelo preço de seu sangue (n. 1,1) Por sua Encarnação, o Verbo, ao pôr sua tenda entre os homens (Jo 1,14), inaugura um novo modo de presença divina em seu povo. Através da incorporação ao Corpo de Cristo pela graça batismal, cada cristão é templo do Espírito Santo (1Cor 6,19). A Nova Aliança selada com o sangue redentor do Cordeiro de Deus permitiu que esses homens e mulheres se fizessem povo reunido por vontade do Pai por meio do Espírito, em Cristo. Os praenotanda (n. 1,2) remetem-se à definição de Igreja de São Cipriano, reunida na Constituição Lumen Gentium. Enquanto que em Israel existia uma identificação profunda entre o Templo, lugar da morada da santidade divina, e o próprio povo eleito, agora incorporados ao Corpo de Cristo, são o "templo edificado com pedras vivas" (1Pd 2,4-5), onde o Pai é adorado "em Espírito e em Verdade" (Jo 4,23) (CIgC, n. 1179). Desse modo, a Ecclesia - convocação, assembleia reunida - aparece como resultado da "convocação" definitiva que é fruto do Mistério Pascal de Cristo.
“Igreja" foi também o nome que desde os tempos antigos se deu ao edificio no qual se con gregava, para o culto, a comunidade cristã. Tal culto apresenta-se através de quatro atividades:
escutar a palavra de Deus, rezar a uma só voz, frequentar os sacramentos, celebrar a Eucaristia (ODEA2, n. 1,3). A primeira ação na qual o povo "é reunido" consiste em escutar a Palavra de Deus: a igreja é "casa da Palavra" (VD, n. 52)." Com efeito, "a celebração litúrgica converte-se em uma contínua, plena e eficaz exposição desta Palavra de Deus", até o ponto em que "se converte em fundamento da ação litúrgica" (Introdução ao Lecionário, n. 4; 9). Portanto, toda celebração litúrgica que ocorre no templo participa do "escutar a Palavra", embora vejamos “a Palavra de Deus distribuída ao longo do tempo, particularmente na celebração eucarística e na Liturgia das Horas" (VD, n. 52). Essa “chamada" identifica-se com a morte e a ressurreição de Cristo, o Mistério Pascal, fonte da qual emana toda a eficácia do organismo sacramental e de todas as ações da celebração do mistério cristão (figura 15).
Consequência dessa atitude de escuta é a segunda atividade para que a comunidade cristã se reúne: una oret (ODEA2, n. 1,3), orar unida. Essa expressão conduz-nos de modo natural aos sumários que o livro dos Atos dos Apóstolos realiza da atividade da primeira comunidade cristã." A unidade da oração dos discípulos fundamenta-se em sua comunhão com Cristo, que assume e eleva a Deus nossas orações: "Ele mesmo [Jesus Cristo] une a si toda a comunidade dos homens para juntos cantarem este divino hino de louvor" (SC, n. 83). A função sacerdotal de oração de louvor e intercessão da Igreja, resposta à Palavra divina dirigida ao povo con igualmente pela Palavra feita carne, realiza-se de diversas maneiras nas celebrações rituais (SC, n. 83)."
A expressão sacramenta frequentet - terceira finalidade do edificio de culto - faz referência à participação assídua do povo cristão nos ritos litúrgicos. Desse modo, as celebrações dos sacramentos e sacramentais da Igreja são contempladas também como fim da "casa de ora ção". Eles próprios são oração, diálogo de amor entre Deus e seu povo, são resposta à convocação divina e à escuta da Palavra. Entre essas celebrações, a Eucaristia (quarto fim para o qual a comunidade cristă se reúne) é a principal de todas elas." Entre as diversas atividades realizadas na igreja, que fazem do edificio de pedra espaço litúrgico, contempla-se, em primeiro lugar, a ação divina que congrega seu povo para escutar, de modo sempre novo, sua Palavra. Como consequência, o povo reza unido e participa dos mistérios de culto por meio dos quais a ação benéfica do Mistério Pascal se atualiza.
O segundo ponto dos praenotanda fala-nos a respeito da dimensão simbólica-escatológica do edificio ritual, imagem da igreja peregrina na terra e da Igreja do Céu (n. 2,1). Em seguida, diz seu segundo parágrafo:
Convém, pois, que, ao se erigir um edificio única e estavelmente destinado à reunião do povo de Deus e à celebração das ações sagradas, seja esta igreja dedicada ao Senhor em rito solene, segundo anti quissimo costume (ODEA2, n. 2).
Com esta última expressão - sacra peragenda (n. 2,2) - são denominadas as ações que a serem realizadas na igreja. Em virtude da natureza simbólico-sacramental dos sinais litúrgicos - que significam e, ao mesmo tempo, realizam, cada um à sua maneira, a santificação do homem - considera-se o rito litúrgico "ação sagrada", por sua capacidade real de realizar a santificação das almas: "toda celebração litúrgica é ação sagrada por excelência [actio sacra praecellenter] por ser ação de Cristo Sacerdote e de seu Corpo, que é a Igreja, e nenhuma outra ação da Igreja lhe iguala, sob o mesmo título e grau, em eficácia" (SC, n. 7).
A razão, portanto, para que o edificio seja dedicado-consagrado é para que possa congregar o povo cristão e nele celebrar os sagrados mistérios: a Eucaristia e os demais sacramentos, em suas diversas dimensões; em primeiro lugar, o Batismo e a Penitência (ODEA2, n. 3,2). Desse modo, o ODEA2 entende a celebração desses três sacramentos, em suas diversas dimensões, como o fator determinante de maior grau: a arquitetura do espaço litúrgico cristão. No que diz respeito, em particular, aos lugares que devem ser organizados no templo, o terceiro número dos praenotanda cita o presbitério, o altar, a sede, o ambão e o lugar de custódia do Santíssimo Sacramento, elementos que, claro, não apenas "são ativados" na celebração eucarística, mas também em outros ritos litúrgicos do mistério cristão. Além disso, faz uma referência ao fato de que o local de culto deve favorecer o desenvolvimento e a ordem de cada ministério litúrgico durante as celebrações (n. 3,1). É conveniente que a disposição geral do edificio sagrado seja tal que a imagem que reflete o povo nele reunido manifeste simbolicamente a Igreja (n. 3,1).
2.3. A CELEBRAÇÃO EUCARISTICA DA DEDICAÇÃO DA IGREJA
"A celebração da Missa está intimamente unida ao rito de dedicação da igreja" (ODEA2, n. 8;17). O rito que estamos estudando é, de fato, uma celebração eucarística singular, composta por ações que preparam, conduzem e culminam na atualização do Mistério Pascal na liturgia eucarística. Essa é a parte "específica e mais antiga" de todo o rito (ODEA2, n. 17). O ODEA2 estabelece um paralelo entre a santificação que a Eucaristia produz na alma dos que comungam e a consagração que, de certo modo, a celebração realiza no edificio e no altar (ODEA2, n. 17).49 Uma vez que nele foi celebrado o sacrificio eucarístico, o lugar encontra-se para o culto.
As palavras do decreto de publicação do ODEA e das premissas do rito de dedicação per mitiram-nos apresentar a igreja como espaço litúrgico cristão. O ponto de partida para a teo logia do espaço litúrgico é a convocação que se realizou através da morte e ressurreição de Jesus Cristo, Palavra de Deus encarnada: "quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim Jo 12,32). Essa convocação e união com a Trindade em Cristo, por meio do Espírito Santo, constitui a congregação litúrgica, reunida para celebrar os mistérios sagrados e escutar a Palavra de Deus. Com essa atitude de escuta, o povo de Deus, reunido por Cristo, pode ser instruído e animado. A tal chamado, a assembleia cristã responde com a oração conjunta de louvor e ação de graças e com a celebração sacramental, especialmente da Eucaristia. A oração e o rito cristão que se desenvolvem no espaço eclesial devem ser considerados como respostas aos vários chamados da misericórdia de Deus, que, depois de falar de diversas maneiras aos homens, dirigiu-se definitivamente a eles por meio de sua Palavra encarnada (Hb 1,1-2).
Capítulo III
A Celebração da dedicação da Igreja
Antes do momento da dedicação da Igreja, antes inclusive de iniciar a construção, pode-se celebrar o Rito da colocação da pedra fundamental ou do início da construção de uma igreja (ODEA1). Nessa celebração, que inclui a bênção da área da igreja e a bênção e colocação de sua primeira pedra, manifesta-se já o valor que possui o espaço que ocupará, no futuro, o próprio edificio litúrgico. O costume de delimitar um terreno no qual se situará uma construção possui um importante valor simbólico para a comunidade cristã (ODEA1, n. 5). Essa área será aspergida pelo bispo com água benta, acompanhado dos ministros, partindo do centro da superficie, ou caminhando no próprio perímetro do espaço consagrado (n. 25). Desse modo, expressa-se ritualmente a "sacralidade" do espaço litúrgico: toma-se posse de uma parte da superficie do mundo, uma parte da criação entregue por Deus sob cuidado dos homens, para convertê-la simbolicamente no espaço de manifestação teofânica e lugar de salvação, dedicada ao culto.
No lugar onde se disporá o futuro altar, deve-se situar uma cruz de altura suficiente (ODEA1, n. 6). Desse modo simbólico, parece expressar como, de certo modo, o evento da Paixão e Morte de Cristo, que se atualiza sacramentalmente na celebração eucarística, "marca" com seu selo o espaço litúrgico já antes de iniciar sua construção. Quando esta se concluir, a cruz do altar no presbitério ocupará o lugar originário da cruz de madeira. O espaço reservado para a celebração aparece, desde seu início, como lugar orientado a Cristo em seu Mistério Pascal, com cuja graça multiforme os fiéis entram em contato no edificio que se erguerá no lugar delimitado-consagrado.
De acordo com as premissas, já no dia da dedicação é muito conveniente que se realize uma vigília de oração diante das relíquias dos mártires ou santos que serão colocadas no altar (nos casos em que haja possibilidade desse rito: ODEA2, n. 24), depositadas "em uma igreja próxima ou outro lugar adequado" (n. 29). Estamos assistindo ao rito de dedicação de uma igreja, em que uma comunidade cristã consagrará a Deus um novo edificio para o culto.' De uma igreja-edificio mais antiga se caminha para a nova. Percebe-se, assim simbolicamente, como a Igreja gera a Igreja: de uma comunidade nasce outra. Essa sequência ritual inicial manifesta como a fé é transmitida de um lugar para outro da geografia fisica através das comunidades cristãs.
1. Ritos Iniciais
O conjunto de sequência dos ritos iniciais, entre o inicio da ação celebrativa e a liturgia da Palavra, são particularmente ricas. A liturgia da dedicação começa com a chegada do bispo e dos sacerdotes e demais ministros investidos, para o lugar onde o povo se reuniu (ODEA2, n. 30).
1.1. PROCISSÃO DE ENTRADA
O caráter da procissão de entrada é naturalmente popular, alegre e festivo, dentro do clima de oração que marca toda a celebração: orantes et psallentes (orando e cantando), diz a rubrica do ODEA2 (n. 11). Após a saudação inicial, o bispo dirige umas palavras à congregação.
Exsultantes, fratres dilectissimi, huc convenimus ad novam eccle siam sacrificii Dominici cele bratione dedicandam. His sacris ritibus pia adsimus devotione, verbum Dei audientes cum fide, ut communitas nostra, ex uno bap tismatis fonte renata atque eadem mensa nutrita, in templum spiri tale crescat et superno provehatur amore ad unum altare congregata (ODEA2, n. 30).
Com grande alegria estamos aqui reunidos, meus irmãos e minhas irmãs, com o intuito de dedicar a nova igreja pela celebração do sacrifício do Senhor. Participemos destes ritos sagrados com todo o fervor, ouvindo com fé a palavra de Deus, para que a nossa comunidade, renascida da mesma fonte batismal e alimentada na mesa comum, cresça e forme um templo espiritual; e, reunida em torno do único altar, aumente o seu divino amor (ODEA2, n. 30).
Esta menção à nova composição resume muito bem o caráter e os traços essenciais de todo o rito da dedicação da igreja. Desde o primeiro momento, depois de expressar a alegria característica da festa (exsultantes), a Eucaristia aparece como o elemento que é ao mesmo tempo razão e fim da dedicação da igreja. Realiza-se, nessas palavras, um espécie de "biografia espiritual" da comunidade cristã do lugar: comunidade à escuta da Palavra (verbum Dei audientes cum fide) que nasce do Batismo (ex uno baptismatis fonte renata) e se constrói e cresce com a Eucaristia (eadem mensa nutrita, in templum spiritale crescat... ad unum altare congregata) faz-se presente explicitamente a igreja como lugar fisico onde os cristãos poderão receber os meios de salvação e a Instrução na Palavra, que os constituem e os fazem crescer como templo espiritual (Ef 2,21). Dizemos que a "estrutura espacial sacramental" é seguramente o elemento que, com mais força, determina a ordenação do espaço litúrgico. Desde o início do rito, a igreja apresenta-se como um espaço, por assim dizer, "narrativo": o fiel que nela entra percebe que toda sua vida cristã, estruturada interiormente pela recepção dos sacramentos, encontra uma ressonância na mesma ordenação geral do templo.
A sequência da procissão de entrada constitui-se por uma estação de reunião, um trajeto em direção ao tempo, uma nova estação antes da porta fechada e da sucessiva procissão pela nave da igreja, até que todos os componentes da procissão cheguem a seus lugares correspondentes no espaço celebrativo. A celebração eucarística da dedicação da Igreja aparece com características similares às de uma Missa estacional celebrada pelo bispo local (IGMR, n. 203).7
"A procissão é uma assembleia litúrgica em marcha"." O número 31 do ODEA2 descreve com detalhes sua configuração. A procissão é encabeçada pelo ministro que leva a cruz. Atrás dele, encontramos outros ministros e as relíquias levadas pelos diáconos ou pelos presbíteros, aqueles que acompanham os ministros ou fiéis que levam as luzes. Depois deles, os concelebrantes, o bispo e finalmente os fiéis. Durante o caminho processional, não deixará de ressoar uma antifona em forma de alegre aclamação: "Que alegria quando me disseram: 'Vamos à Casa do Senhor!"" (Sl 121,1).
E um canto gozoso do povo hebreu em peregrinação a Jerusalém, quando entra na cidade e no santuário ansiado por tanto tempo. No Salmo 121, nas palavras de Gianfranco Ravasi, "o paradigma espacial é obviamente o fundamental". A procissão que se dirige para o novo edificio de culto revela profeticamente à Igreja como povo de Deus a caminho. Dirige-se, ordenadamente estruturado, percorrendo os caminhos do mundo e da história até Cristo.
A ação litúrgica começa fora do próprio edificio. A primeira epifania da Igreja que temos no rito acontece no exterior e se encontra marcada pela tensão direcional que impõe a mesma procissão. O edificio-igreja que será dedicado é o "polo de atração" a cuja direção a Igreja se encaminha. O aspecto externo é assim inserido na ação litúrgica de modo direto. Esses dados põem em destaque dois elementos do espaço litúrgico, chaves na história da arquitetura cristã: a inserção do edificio ritual na cidade e o aspecto externo que a igreja mostra. Ou o que é o mesmo, a relação do edificio de culto com o espaço próximo e remoto e com a cultura circundante. A partir de um ponto de vista arquitetônico, essa relação manifesta-se em dois aspectos: a aparência externa do edificio litúrgico, particularmente através da fachada, e o espaço público que se estende antes da entrada: a "praça", ou "sagrato" em ita liano (figura 16). Encontramo-nos diante de dois fatores de relevância indiscutível para o projeto.
A presença significativa e relevante dos edificios religiosos no contexto urbano é uma constante da cultura religiosa. Uma igreja é um edificio sagrado: não é uma construção como as demais. Não há mais que percorrer as cidades e povoados dos países onde existem comunidades cristas, de maior ou menor ascendência, para comprovar que uma igreja é um edificio singular com vocação comunicativa. Naturalmente, essa singularidade tem sido vivenciada de diversos
modos conforme o momento histórico, o grau de liberdade do qual goza a Igreja, as capacidades e meios artísticos da comunidade local e o grau de evangelização da cultura autóctone. Desde os anos 60 do século passado, temos visto a uma corrente antirritual e secularizadora das expressões religiosas que propunha uma imagem do templo cristão indiferenciada da arquitetura circundante. Sem entrar nessa polêmica teológica e cultural, em boa medida já superada na discussão contemporânea, podemos afirmar que a vocação testemunhal da igreja dentro do tecido urbano é imagem da vocação evangelizadora da Igreja no mundo, que consiste na transmissão da alegria do Evangelho, o serviço da caridade e a acolhida fraterna. Essa missão é animada e fortalecida pelo alimento e a instrução da Palavra de Deus e pela graça sacramental recebidos no edificio litúrgico, que possui, desse modo, na cidade uma dimensão "diaconal" (de serviço)."
Ao longo da Idade Média, a cidade europeia contemplou como se levantavam espléndidas e monumentais fachadas em suas catedrais. Somente após o Barroco, os arquitetos converteram a fachada em um elemento essencial para dar ao espaço externo da igreja uma precisa arti culação e um efeito cenográfico para atingir o tecido urbano, como magnificamente fizeram Bernini e Borromini com suas igrejas romanas (figura 17). A dimensão narrativa da fachada manifesta-se não apenas pela iconografia que vemos aparecer nela, mas também porque nos "conta" que o espaço que a protege é um lugar de manifestação do Mistério de Deus. Quem contempla a fachada da catedral de Orvieto percebe que a história da Salvação tem alguns protagonistas que não são apenas do Antigo e do Novo Testamentos, mas também os santos da Essa história está constituída tanto pelos eventos que narra a Sagrada Escritura como pelas celebrações rituais que têm lugar dentro do duomo orvietano.
No que diz respeito à praça como elemento urbano articulado com o espaço litúrgico, há que se dizer que não se consolida sua identidade própria até o final da Alta Idade Média. Nesse momento, vemos na Itália a separação de alguns elementos do espaço litúrgico - como o batistério, o campanario ou o cemitério - do volume da igreja, para entrar em diálogo com o espaço urbano, como vemos em Veneza, Parma, Pisa e Pistoia. A dimensão urbana da igreja em relação à praça se desenvolve cenograficamente no Barroco, às vezes, através da escadaria monu mental. Certamente, um dos mais notáveis exemplos é a praça de Espanha em Roma com a igreja de Trinità dei Monti, ou a Igreja de São Bernardino em L'Aquila.
Voltemos à procissão de entrada. O gesto de caminhar em direção à Igreja tem um particular sentido catequético e mistagógico. O movimento humano de deixar a própria casa para entrar na igreja é uma peregrinação, símbolo da resposta do homem ao convite divino." O fato de que nessa ocasião o caminho à igreja tenha lugar processionalmente expressa que essa resposta do homem não acontece isoladamente, mas em comunhão com a Igreja.
Antes da entrada do templo, o povo congrega-se em torno de seu pastor. Alguns membros do próprio povo ou os autores da construção (arquitetos, artistas, artesãos), entregam simbolicamente o edificio ao bispo através de elementos como as plantas, a maquete, as chaves ou outros objetos que representem a construção (ODEA2, n. 33). Na estação, antes da porta da igreja, manifesta-se a primeira unidade espacial local propriamente dita do templo cristão: a entrada (n. 11 e 33-34).
A articulação espacial do ambiente de entrada com o interior desse espaço celebrativo possui uma longa história. O espaço antes da fachada permite que se reúnam os fiéis e formem as procissões em algumas ocasiões particulares do ano litúrgico." O pórtico como estrutura coberta de acesso à igreja, às vezes, chegando a formar um átrio quadrangular, é um elemento tipico das basílicas cristãs desde o século IV. Na arte medieval, enriqueceu progressivamente o programa iconográfico das portas, fachadas e pórticos com temas relacionados com a segunda vinda de Cristo (figuras 6 e 18). Vale a pena valorizar ainda mais, na arquitetura cristã, esse elemento espacial, limite entre a cidade e o espaço religioso, entre o dentro e o fora, que de algum modo dialoga simbolicamente com ambos os mundos. Um modo possível seria o projeto unitário do conjunto do ambiente de entrada - pórtico, fachada, entrada e porta - não apenas como elemento bidimensional, mas projetando-se até o espaço urbano (pensemos no átrio de entrada da primitiva basílica vaticana ou no pórtico da catedral de Santiago de Compostela).
1.2. ENTRADA NA IGREJA
Obispo convida a atravessar o limiar da igreja depois da abertura de suas portas com estas palavras: Introite portas Domini in confessione, atria eius in hymnis (entrai pela porta do Senhor com louvores, passando por seus tribunais com hinos). Eles são tirados do Salmo 99,4 e faziam parte do canto dos peregrinos que entravam no Templo de Jerusalém. O salmo participa do espírito de alegria e louvor de toda a procissão e, como o Salmo 121 da procissão, tem um caráter marcadamente espacial.
A porta como elemento simbólico fala-nos de modo natural tanto da ideia de inacessibi lidade quanto de comunicação (porta fechada - porta aberta). Sua localização como limiar, simbolo da passagem do profano para o sagrado, significa a comunicação do mundo celeste dos favores divinos aos homens.
" Na passagem da Biblia em que Jacó desperta do sonho onde viu a escada com os anjos, aparece a porta como elemento simbólico de comunicação com as realidades divinas. Esse cenário é um dos lugares recorrentes da teologia do lugar de culto ao longo da história. "Ao despertar, Jaco disse: 'Sem dúvida, o Senhor está neste lugar, e eu não sabia'. E cheio de pavor, acrescentou: 'Quão temivel é este lugar! É nada menos que a casa de Deus e a porta do céu. De madrugada, Jacó levantou-se, pegou a pedra que lhe servira de travesseiro, ergueu-a em pé como marco e sobre ele derramou azeite" (Gn 28,16-18). Durante séculos, a missa de aniversário da dedicação da igreja, até a inclusão de 1962, começou com as palavras de Jacó: Terribilis est locus iste!"
No Antigo Testamento, "porta" é utilizada também para identificar, através da sinédoque, todo o conjunto do espaço sagrado: "o Senhor ama as portas de Sião mais que todas as tendas de Jacó" (SI 87,2). No Novo Testamento, desenvolve-se todo o significado da porta como meio para acessar à bem-aventurança eterna." Conhecemos o conteúdo simbólico da porta do edificio cristão através da teologia bíblica, dos testemunhos arqueológicos e dos próprios exemplos arquitetônicos antigos que nos tem chegado até hoje. Esse símbolo cristão possui dois significados principais: cristológico, relacionado com a pai sagem do evangelho de João (10,7.9) em que Cristo se identifica como a porta pela qual entram as ovelhas (ostium ovium) e soteriológico, como símbolo da passagem a um estado de salvação." Como Mediador da salvação, "por meio" ou "através" de Cristo, entramos em comunhão com Deus na Igreja, "cuja única e obrigatória porta é Cristo" (LG, n. 6). 20
Com o rito de entrada da comunidade no edificio de culto, manifesta-se a tomada de posse do novo templo por parte de Cristo, representado agora por sua Igreja caput et corpus: o com seu presbítero e os fiéis." Essa faceta encontra-se destacada pelo canto do Salmo 23 durante esse momento, tradicional para a abertura da porta em dedicação da Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente. Na tradição de Israel, esse salmo exalta, de modo particular, nos versículos 7-10, a entrada triunfal do Senhor em seu templo na plenitude dos tempos." O salmo é interpretado, agora, tanto na perspectiva espacial (a porta do Templo é a porta da igreja) quanto epifànica (Cristo faz-se presente para tomar posse do espaço litúrgico)," bispo
Esses elementos encorajam uma valorização mais incisiva das portas da igreja como um elemento simbólico. Não apenas através de seu tamanho - recordemos as altíssimas portas da igreja de Álvaro Siza em Marco de Canaveses ou mais a mais recente fachada-porta da Igreja do Sagrado Coração em Munique (figura 19) - mas também por meio da iconografia. São um lugar muito adequado para representar os mistérios centrais da história da Salvação, tradicionalmente associados às portas da igreja como o de Cristo bom Pastor ou o da Encarnação: entrada do Verbo de Deus no mundo. Alguns exemplos paradigmáticos são as portas da Igreja de Santa Sabina em Roma ou as da igreja de São Miguel de Hildesheim. Nas realizações mais recentes, encontram-se as portas feitas no século XX para a basílica vaticana, onde os acontecimentos da história da Salvação se entrelaçam com a história da comunidade cristã.
O canto de entrada na igreja continua: "Este receberá do Senhor a bênção e a justificação, de Deus, seu salvador" (Sl 23,5). No contexto da entrada no templo, essas palavras adquirem um relevo particular. O sujeito que "receberá" a bênção é o homem inocente em suas obras e limpo de coração (23,4). A dimensão da limpeza moral como exigência para participar da morada divina se encontra presente no salmo. Nesse lugar, a bênção do Senhor descerá sobre o homem justo e, de modo particular, o perdão de seus pecados. O exultante versículo 7 - "Levantai, ó portas, vossos frontões, levantai-vos, portas eternas, para que entre o rei da gló ria!"-é, para Santo Agostinho, um convite à penitência e à conversão, a retirar as barreiras que a concupiscência e o temor levantam para deixar entrar Deus na alma.
O nártex (átrio ou vestíbulo na entrada) das basílicas paleocristãs, além de reunir os fiéis para a celebração, eram também o espaço para os penitentes e os catecúmenos que não se encontravam na nave da igreja durante a liturgia eucarística. Sua distância fisica do santuário era uma de sua distância espiritual (figura 9).26 O átrio ou espaço de entrada, como símbolo do início do caminho em direção a Cristo, desenvolve seu conteúdo simbólico em duas direções principais: como ponto de partida "absoluto" na iniciação cristã e como ponto de retorno penitencial, para voltar à vida de Cristo e à comunhão com a Igreja. Em toda a sequência de entrada e de aspersão da água, como veremos adiante, nos movemos no vasto campo simbólico da penitência e da conversão.
Quando ministros e fiéis distribuem-se no espaço celebrativo, as reliquias acompanhadas de umas luzes são depositadas em uma pequena mesa no presbitério (n. 24; 35). O bispo dirige-se para a cátedra, os sacerdotes, diáconos e ministros para os seus lugares correspondentes no presbitério (ODEA2, n. 35), enquanto o povo vai aos seus assentos. O modo que os componentes são distribuídos da assembleia litúrgica fala-nos simbolicamente na estrutura orgânica da ordem sacerdotal-povo de Deus (ordoplebs) da assembleia litúrgica. Ao contemplar o povo cristão exercendo seu sacerdócio no espaço litúrgico durante o rito, contemplaremos sua união a Cristo elevando suas orações ao Pai no espaço e tempo deste mundo. A partir desse momento, a dinâmica própria da comunidade sacerdotal manifestar-se-á através das ações que desenvolvem nos espaços litúrgicos principais - presbitério e nave - e daquelas outras que relacionam ambos espaços. Toda a ação ritual será um grande diálogo dos participantes com Deus, que se situam e movem em e a partir desses dois grandes ambientes.
1.3. BÊNÇÃO DA ÁGUA E ASPERSÃO
A partir da cátedra, obispo convida à oração os fiéis antes de abençoar a água. Recomenda-se rezar a Deus para abençoar a água para que a assembleia litúrgica possa ser aspergida in paenitentiae signum ac baptismi memoriam (como sinal de penitência e em memória do batismo), e para novae abluentur parietes novumque altare (purificar as paredes e o altar da nova igreja)." Asperge-se água sobre a Igreja-comunidade e sobre a igreja-edificio. O sinal da aspersão é realizado com um duplo significado: nos fiéis será sinal de penitência e memória do batismo; nas paredes e o altar da nova igreja será sinal de purificação (abluentur). Ambas abluções têm um significado análogo.
1.3.1. Oração de bênção da água
A fórmula de bênção da água e a oração que conclui a sequência ritual da aspersão (ODEA2, n. 48 e 50), ambas de nova composição, destacam a dimensão purificadora da aspersão. Os esquemas que serviram de preparação do ODEA2 de 1977 previam que a bênção da água se realizasse na pia batismal." O batistério teria se tornado parte desse caminho dos espaços diretamente envolvidos no desenvolvimento do ordo. A igreja teria aparecido ainda mais explicitamente como um espaço para a iniciação cristã.
Deus, per quem omnis creatura ad vitae prodit tanta homines prosequeris dilectione ut eos non solum paterna alas cura, sed carita tis rore a peccatis clementer emundes et ad Christum Caput constanter reducas: misericordi enim consilio statuisti ut qui in sacram descendis sent undam peccatores, Christo com mortui, insontes resurgerent eiusque membra fierent atque acterni praemii coheredes (ODEA2 n. 48).
Ô Deus, por vós toda criatura chega à luz da vida; mostrais tanto amor pelo ser humano que, não apenas o sustentais com paterna solicitude, mas ainda apagais seus pecados com o orvalho da caridade, e, incansavelmente, o reconduzis a Cristo, sua cabeça. Por designio de misericórdia decidistes que os pecadores, mergulhados na fonte sagrada e mortos com Cristo, ressurgissem purificados de toda culpa, se tornassem seus membros e co-herdeiros dos bens eternos (ODEA2, n. 48).
O verbo de movimento "descendo" - presente na expressão qui in sacram descendissent undam peccatores, Christo commortui, insontes resurgerent, dessa primeira parte da bênção da água - expressa uma mudança de posição em direção um lugar mais baixo. A "descida" às águas batismais supõem uma incorporação à morte de Cristo por meio das águas do Batismo (Rm 6,3-4) para ressurgir sem culpa (insontes) como membros de seu Corpo e herdeiros da bem-aventu rança eterna: aeterni praemii coheredes. A imagem da "descida" como meio de incorporar-se à morte de Cristo foi integrado logo à arquitetura crista por meio dos batistérios na forma de piscina, em cuja água o catecúmeno submergiu "sepultando-se com Cristo" (Cl 2,12).
Estamos diante de um rito que revive a memória do Batismo nos presentes. A Antífona que o coral e a assembleia cantam nesses momentos faz presente a água salvadora que emanava do lado do Templo na profecia de Ezequiel: vi a água que saia do templo do lado direito, aleluia; e se salvaram todos a quem chegou esta água e dirão: aleluia, aleluia (Ez 47,1-2.9). Na bênção de uma nova fonte batismal, quando não ocorre dentro da celebração do Batismo, depois de fazer memória e renovar as promessas batismais, o celebrante asperge o povo com a água da pia recém abençoada, enquanto se canta uma antífona que pode ser escolhida entre duas possibilidades: precisamente os dois textos de Ezequiel que são entoados durante a aspersão na dedicação do templo.32
O primeiro batistério que conhecemos, uma piscina simples decorada ao fundo de uma sala comprida, é o de Dura Europos na Síria, dos anos 232-260. O local da iniciação cristã foi, nos primeiros séculos da Igreja, um dos elementos mais cuidadosos da arquitetura cristã. Os testemunhos arqueológicos mostram como a liturgia batismal encontrava-se amplamente difundida pelos territórios banhados pelo Mediterrâneo nos primeiros séculos. Os exemplos de espaços batismais no Oriente Próximo não são homogêneos, o que manifesta seguramente a não uniformidade ritual nesse período. No Oriente, a prática tende a colocar a piscina no centro de um espaço específico. Que podia ter um plano quadrangular, poligonal ou circular. Progressivamente, veremos a diminuição das dimensões significativas da fonte batismal e o desaparecimento dos batistérios como espaços independentes da nave da igreja. Esse processo é paralelo à evangelização do Império Romano, que fará que cada vez menos sejam frequentes os batismos de adultos e mais comuns os de crianças." Um dos elementos comuns aos batistérios no Ocidente é a importância dada à iconografia." A partir dos séculos X e XI, assistimos, no norte da Itália e no centro, o retorno da construção de batistérios monumentais como edificios independentes, erguidos na cidade em estreita relação com a catedral (figura 20). A disposição de capelas batismais nas paróquias, situadas na nave próxima da entrada, difun de-se a partir dos séculos XIII e XIV, convertendo-se na localização comum do Batismo após o Concilio de Trento."
Hanc ergo creaturam aquae tua benedictione sanctifica, ut, in nos et huius ecclesiaen parieles aspersa signum existat illius salutaris lava i que, in Christo abluti, templum Spiritus tui sumus effecti: nos autem cum omnibus fratribus, qui in hac ecclesia divina celebrabunt mysteria, ad caelestem lerusalem pervenire concedas Per Christum Dominum nostrum (ODEA2, n. 48).
For vossa bênção, santifical esta água, vossa criatura. Aspergida sobre nós e as paredes deste templo, seja lembrança de nosso batismo, pelo qual, lavados em Cristo, nos tornarnos templo do vosso Espirito. Concedei-nos a nós e a todos os irmãos e irmãs que nesta igreja celebrarem os divinos mistérios, chegar à Jerusalém celeste. Por Cristo, nosso Senhor (ODEA2, n. 48).
Na segunda parte da fórmula de bênção da água, implora-se que ela, aspergida em nós e nas paredes dessa igreja, seja revelada sinal da ablução salvadora (o Batismo) pela qual, lavados em Cristo, temos sidos feitos templo do teu Espírito. Tanto o templo fisico quanto a assembleia reunida parecem ser conduzidas nessa oração por um caminho iniciático que culminará com a celebração eucaristica junto com os irmãos na Igreja: nos autem cum omnibus fratribus, in hac ecclesia divina celebrabunt mysteria.
Qual a relação espacial entre o espaço do Batismo e o da Eucaristia? O local da iniciação cristă possuía, durante séculos, certa autonomia espacial em relação ao volume da sala litúr "Essa separação fisica permitiu que o trajeto que o neófito teve que percorrer durante gica." a iniciação cristã, da fonte batismal ao altar, simbolicamente manifestasse seu caminho até a comunhão plena com Cristo, como "pedra viva" da Igreja e membro de seu Corpo místico. Na Antiguidade, esse trajeto estava carregado de uma profunda importância simbólica. Isso significa que a articulação entre espaço de recepção no Batismo e de participação na Eucaristia era um elemento importante na construção do templo." É apropriado que, sendo o batistério um espaço litúrgico autônomo ou integrado à própria nave, seja organizado de tal maneira que a ligação do Batismo com a Palavra de Deus e com a Eucaristia, ápice da iniciação cristã, seja claramente percebida." Isso poderia realizar-se através de uns indícios no pavimento que sugerissem essa rota, como no batistério do complexo episcopal de Aosta, ou no de Pisa ou Florência (figuras 20 e 21). Também por meio de eixos de perspectiva que conectaram visualmente os lugares litúrgicos do ambão, a fonte batismal e o altar; sobretudo estes dois últimos. Por outro lado, é apropriado situar uma pia com água benta em algum lugar próximo à entrada da igreja -talvez associado com o percurso anteriormente descrito - por parte dos fiéis. Desse modo, poderão assinalar-se e fazer memória da salvação pessoal por meio da água do Batismo (Cerimonial dos Bispos, n. 110). ""
Detenhamo-nos agora na expressão da fórmula de bênção da água onde encontramos uma referência explícita às paredes como elemento do espaço litúrgico: in nos et huius ecclesiae parie tes aspersa [a água]. A versão grega do Antigo Testamento utiliza as expressões pavτiouós (subs tantivo) y pavtiču (verbo) para expressar a ação de jogar um matéria - quase exclusivamente líquida - que se pulveriza ("aspersão", "aspergir"). O uso mais significativo dessas expres 40 sões está relacionado com o culto. As matérias que aspergem podem ser o sangue expiador dos animais ou a água misturada com cinzas, com sentido expiatório e lustral (Nm 19,9.13.20.21). Seu sentido é o de purificação e remissão dos pecados ou das impurezas em geral, seja naqueles em quem é aspergido ou naqueles que usam os objetos materiais aspergidos. O objeto da aspersão pode ser o santuário, pessoas ou coisas.
Na passagem do Levítico (16,14-20) - certamente a mais importante do Antigo Testamento em que observamos uma aspersão sobre um lugar de culto -, descreve-se a aspersão do sangue do animal sacrificado sobre a tenda do encontro e o altar indicado pelo Senhor a Aarão, para a expiação do santuário dos pecados dos israelitas. A aspersão com sangue do sacrificio. A aspersão com o sangue do sacrificio torna eficaz a força expiatória do próprio sacrificio sobre o objeto aspergido. No Novo Testamento, a Epístola aos Hebreus, sempre na perspectiva do culto, contrapõe essas aspersões à aspersão do sangue de Cristo (Hb 12,24) como Mediador da Nova Aliança. A mesma Epístola (10,1-22) interpreta os sacrificios expiatórios de sangue do Antigo Testamento à luz do sacrificio de Cristo na perspectiva da teologia batismal."
A aspersão com água encontra-se entre os sinais dos sacramentos. Visa suscitar nos fiéis a recordação do Mistério Pascal e a renovação da fé batismal (Ritual de Bençãos, n. 26d). Os sacramentais são sinais sagrados que, à imitação dos sacramentos, "são significados efeitos principalmente espirituais, obtidos pela impetração da Igreja" (CIgC, n. 1667). Não conferem a graça do Espírito, mas preparam para recebê-la e dispõem à colaborar com ela (CIgC, n. 1670). A aspersão sobre a comunidade, portanto, está voltada à preparação os corações dos fiéis para receber a Eucaristia, através da recordação da expiação dos pecados que teve lugar em seu Batismo.
Qual o sentido da ablução das paredes da Igreja? No rito da Dedicação de uma igreja onde já se costuma celebrar os sagrados mistérios (ODEA3), omite-se a aspersão da água (ODEA3, n. 2c). Os praenotanda desse ordo que especificam que o rito tem caráter lustral, isto é, purificató rio-expiatório (ODEA3, n. 2c). O fator que faz que não seja necessário aspergir a igreja é que nesse espaço já se celebra a Eucaristia, que, com sua presença, já tornou santo o lugar de culto. O caráter lustral da ablução é naturalmente simbólico: um pouco de água nas paredes não limpa um edificio, mas indica sim que o espaço que acolherá o Cristo Eucarístico não é um lugar qualquer, mas que necessita ser expressamente preparado (consagrado) para esse fim.
No livro dos Números, observamos uma aspersão ritual de Moisés ao povo de Israel com sentido purificador em ordem ao culto (Nm 19,12-13.20-21), que a Vulgata denomina acqua expiationis (v. 13) e acqua lustrationis (v. 20). Tanto a religião hebreia quanto as religiões pagas conheciam as lavagens rituais com sentido purificador, apoiados no valor lustral natural da água, também nos ritos de dedicação de espaços sagrados." A aspersão com sentido apotropaico sobre as coisas e, indiretamente, também sobre as pessoas, encontra-se em numerosas fontes dos sacramentários latinos antigos. Manifestava, em sentido cristão, a proteção divina e a defesa diante das forças do mal." O emprego de água exorcizada para a purificação dos templos pagãos e para a dedicação de novos edificios de culto remonta-se a uma época antiga. Temos noticias dela desde o século IV."
O sinal da limpeza fisica dos elementos materiais expressa a limpeza da alma que cada membro da comunidade deve aspirar. Essa limpeza realiza-se na ordem sacramental através do Batismo e da Penitência, cuja recepção terá lugar habitualmente na igreja. A menção explícita na eucologia durante a bênção da água às paredes do templo e às sucessivas ações que ao longo do rito de dedicação terão lugar sobre elas, indicam que as paredes se encontram entre os elementos significativos destacados do espaço litúrgico. Embora naturalmente não possuam a importância do altar e do ambão, os muros do templo, aspergidos nesses momentos, são objetos privilegiados da ação ritual durante nossa celebração. Teremos ocasião mais adiante, quando tratarmos dos ritos específicos, de verificar esse dado e de aprofundar em seu valor simbólico. Por hora, podemos apontar que a dignidade e a presença das paredes, expressada através da linguagem arquitetônica com o material, a cor e o detalhe construtivo, contribuirão para ressaltar seu valor. Não se trata apenas de levantar uns limites materiais, nus e rígidos, para o mero "recipiente de eventos coletivos" que seria a igreja. Certamente, esse é um calcanhar de Aquiles de um dos espaços litúrgicos mais importantes do século XX: a igreja do Corpus em Aquisgrán (1928-1930), obra de Rudolf Schwarz. A abstração extrema das paredes desse espaço, em prol de uma pureza formal que não "distraia" a atenção do evento comemorativo, não é um veículo simbólico adequado para perceber a importância significativa do templo das pedras vivas.
1.3.2. Rito de aspersão
Após a bênção, o bispo, auxiliado pelos diáconos, asperge o povo e as paredes caminhando pela nave (per aulam ecclesiae transiens: "percorrendo toda a igreja") e, voltando ao presbitério, asperge o altar (ODEA2, n. 49). Nesse momento do ritual, a nave da igreja manifesta-se como espaço da conversão e da penitência. Lembremos que a aspersão se realizava in paenitentiae signum, como rezava a rubrica que introduz essa sequência (ODEA2, n. 48).
Essa dimensão penitencial manifesta-se nas duas antífonas possíveis que enquadram a realização do gesto litúrgico. Durante essa ação, o povo entoa a antífona: Vidi aquam egredientem de templo, tirada do livro de Ezequiel (47,1-2.9) em que recordamos a água benéfica que brotava do lado direito do tempo." Essa passagem pertence à profecia de Ezequiel durante o exílio - intimamente aparentada com o texto de Levítico sobre a expiação que mostramos anteriormente - e trata sobre o renascimento da nação de Israel e sobre o novo Templo. O tema da purificação para acesso aos mistérios sagrados, iniciados na procissão, prolonga-se no rito da aspersão. Parece natural que seja desse modo, porque o acesso aos bens divinos que nos chegam a partir do santuário exige, como vimos no salmo da procissão de entrada (SI 23,3-4), a limpeza de coração.
A conversão para os fiéis incorporados a Cristo após o Batismo tem sua forma ritual no sacramento da Reconciliação, que de modo ordinário será administrado no espaço litúrgico dos confessionários. No rito de bênção de uma nova sede para a administração do sacramento da Penitência, o Ritual de Bênçãos oferece como uma das possíveis leituras, para a liturgia da Palavra, um texto de Ezequiel (18,20-32): Ritual de Bençãos, n. 936. Este encontra-se intimamente relacionado com aqueles que compõem as antifonas possíveis para o rito da aspersão da água. Trata-se de um chamado à conversão: "Lançai longe de vós todos os crimes cometidos contra mim. Formai-vos um coração novo e um espírito novo" (18,31). Na leitura da bênção do confessionário, o "coração novo" no homem é o resultado da conversão de seus próprios pecados (18,30-31). O "coração novo" da antifona do tempo da Quaresma é fruto da ação da água regeneradora divina (Ex 36,25-26).
Se damos uma olhada na história, tratando de revelar a relação entre perdão sacramental e espaço litúrgico, vemos como a partir do século IV existem indicios que apontam a igreja como o lugar onde se recebem as confissões. No período compreendido entre os séculos IV e XIII, houve a tendência de distinguir temporariamente o momento da acusação dos pecados e o da absolvição sacramental, que constituía uma cerimônia pública na igreja na presença da comunidade. As vezes, encontramos nas fontes históricas detalhes do lugar onde se devia colocar quem recebe as confissões: no átrio, no presbitério, diante do altar, em um ângulo da igreja, na sacristia. A razão do costume da confissão secreta no lugar público da igreja é também simbólica: destaca a eclesialidade do perdão sacramental. Desde o século XI, assistimos ao progressivo desaparecimento da reconciliação ritual pública. Os primeiros confessionários que conservamos, para um só penitente, datam de pouco depois, dos séculos XIII-XIV (figura 22). O modelo de móvel-confessionário situado na nave da igreja difunde-se amplamente a partir do final do século XVI, seguindo o modelo promovido por São Carlos Borromeu em Milão. É constante na tradição crista que a igreja seja espaço litúrgico penitencial.
A celebração do sacramento da penitência no espaço litúrgico, seja quando se celebra com apenas um penitente (forma A) seja com vários com confissão e absolvição individuais (forma B) exige a existência na igreja de um número suficiente de confessionários. Especialmente quando se celebra a forma B, é necessário que sua localização seja facilmente percebida pelos fiéis. Nessa segunda forma, após a celebração da Palavra, a homilia e o exame de consciência com a recitação do ato de contrição, os sacerdotes se distribuem em diversos lugares para rece ber as confissões e dar a absolvição. No que se refere a seu regime jurídico, o CIC (cânone 964, §1) adverte que o lugar próprio (locus proprius) para ouvir confissões é a igreja ou o oratório. Em relação a sua sede (o confessionário), as Conferências Episcopais devem assegurar que essas se encontrem em lugar claro, visível (in loco patente: § 2).
O rito de bênção da nova sede para o sacramento da Penitência faz uma leitura simbólica -espacial de sua localização. Seu lugar, "a igreja", expressa a dimensão eclesiológica da confissão como ação litúrgica, ordenada para facilitar uma participação renovada no sacrificio de Cristo e da Igreja: a Eucaristia celebrada no altar (Ritual de Bênção, n. 930). Vemos, pois, como o confessionário integrado ao espaço litúrgico é o lugar idôneo para a administração do sacramento da Reconciliação a partir do ponto de vista simbólico, pastoral e prático.
A localização dos confessionários em um lugar bem visível, entre a entrada e o presbitério -"um lugar evidente na igreja" - ajudaria os fiéis a perceber como o sacramento da Penitência acompanha o caminhar terreno do cristão rumo à comunhão com Deus na Igreja, perdida ou debilitada pelo pecado depois do Batismo. De algum modo, a vida cristã, do seu início ao seu fim, dos momentos mais ordinários até as situações mais singulares, está representada na sequência espacial que leva da entrada ao santuário (no matrimônio e nas exéquias também se atravessa processionalmente a nave da igreja).
A oração que encerra esse rito é pronunciada pelo bispo a partir da cátedra:
Deus, misericordiarum Pater, adsit in hac orationis domo et Spiritus Sancti gratia templum purificet habitationis suae; quod nos sumus (ODEA2, n. 50).
Deus, o Pai das misericórdias, esteja presente nesta casa de oração, e a graça do Espírito Santo purifique o templo de sua morada que somos nós (ODEA2, n. 50).
A invocação inicial a Deus é ampliada pelo vocativo "Pai de misericórdias", muito adequado à sequência ritual que estamos concluindo, na qual a conversão dos homens a Deus foi contemplada na perspectiva do projeto de Seu amor misericordioso aos homens. O texto faz referência à ação da Terceira Pessoa da Trindade no espaço da igreja e em cada cristão. Na referida passagem paulina da primeira Carta aos Coríntios (3,17), recorda-se a realidade da morada divina na Igreja por obra do Espírito Santo. O desejo de que a graça do Paráclito "purifique o templo de sua morada, que somos nós" revela uma equivalência com duplo sentido: a igreja deve expressar a comunidade dos fiéis em que o Espírito Santo habita e vice-versa, cada fiel deve ser e comportar-se em correspondência com a Igreja.
Mesmo que, praticamente, o batismo e o confessionário não apareçam explicitamente durante a dedicação da igreja, o espaço litúrgico manifesta-se nesse rito implicitamente como lugar para o Batismo e para a Reconciliação sacramental, tradicionalmente associados ao espaço de ingresso e a nave. Na sequência ritual da bênção e aspersão com a água (também sutilmente na procissão de entrada), o espaço litúrgico apareceu como lugar para a vida nova e a conversão." A igreja apresenta-se como ambiente de encontro do homem com a misericórdia divina, especialmente no sacramento do Batismo: porta da Igreja e da Salvação. Ao mesmo tempo, não faltaram alusões ao exercício da Penitência no espaço Litúrgico.
1.4. HINO GLORIA IN EXCELSIS
Em seguida, canta-se o Gloria in excelsis Deo (ODEA2, n. 51). Com esse hino, que faz presente o louvor dos anjos na noite de Natal (Lc 2,13-14), "a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro" (IGMR, n. 53; cf. Ordo missae, n. 8). Seu uso na liturgia romana remonta a uma época primitiva, provavelmente anterior ao século V. Tradicionalmente, possuía um caráter festivo, pelo menos desde a época do papa Símaco (498-514), que estendeu seu uso aos domingos e festas dos mártires.50
Esse canto venerável possui três dimensões: trinitária, laudatória e de súplica ao perdão. Louva e glorifica a Trindade em sua natureza transcendente e em seu projeto misericordioso para o homem. Cantado na celebração objeto de nosso estudo, expressa, com tons particulares, a natureza do espaço litúrgico como casa de oração (como vimos na oração final do rito de aspersão que procede imediatamente o Glória) em suas poliédricas facetas. Laudamus te, benedicimus te, adoramus te, gratias agimus tibi: o louvor, bênção, adoração e ação de graças dirigidas ao Pai são próprios da oração, tanto individual quanto coletiva. No contexto da celebração eucarística da dedicação, o espaço litúrgico aparece como grande ambiente de glorificação e adoração ao Verbo encarnado, cordeiro divino que tira os pecados do mundo (Jo 1,29). Contempla-se o mistério de Cristo na Trindade na perspectiva da economia da salvação. A ele se dirige a oração da assembleia litúrgica, que implora o perdão de seus pecados com um ato de contrição - qui tollis peccata mundi, miserere nobis (tu que tiras o pecado do mundo, tende piedade de nós) - e implora ser escutada em suas orações: suscipe deprecationem nostram (atende nossa súplica).
Quando se invoca Cristo como Domine Deus, Agnus Dei, Filius Patris (Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho do Pai), faz-nos presente as aclamações reverentes da liturgia celeste ao Cordeiro sacrificado no Apocalipse (5,9-13; 7-10; 11,2-3; 15,3-4). Tanto aqui quanto em outros momentos do rito de dedicação, manifesta-se a união com a liturgia celeste da Igreja e da comunidade litúrgica. Dispensa dizer que essa dimensão fundamental da celebração cristã não pode deixar de refletir sobre arquitetura. Teremos oportunidade, mais adiante, de nos aprofundarmos nesse aspecto simbólico do edificio de culto.
1.5. ORAÇÃO DA COLETA
A oração da coleta reza:
Omnipotens sempiterne Deus, effunde super hunc locum gratiam tuam, et omnibus te invocantibus auxilii tui munus impende, ut hic verbi tui et sacramentorum virtus omnium fide lium corda confirmet. Per Dominum (ODEA2, n. 52).
Deus eterno e todo-poderoso, inundai este lugar com vossa graça, e a todos os que vos invocam, prestai vosso socorro; aqui o poder de vossa palavra e de vossos sacramentos confirme o coração de todos os fiéis. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo (ODEA2, n. 52).
A coleta provém da oração Deus, qui loca nomini tuo dicanda sanctificas, presente no antigo Gelasiano e é tradicional para o rito de dedicação da Igreja. Na coleta, faz-se anamneses 51 da onipresença divina de todos os tempos, destacando a grandeza do designio de Deus para os homens realizado através de Cristo (Per Dominum), vértice do projeto salvífico divino. Na parte epiclética, implora-se dois favores: o derramamento da graça sobre o lugar que se dedica (effunde) e o favor divino transbordante sobre a comunidade reunida (impende), impres cindível para a construção da Igreja.
O verbo effundere referido diretamente à graça e, por isso mesmo, ao Espírito de Deus, aparece fundamentalmente na literatura profética. O Espírito aparece como virtude para profetizar, que Deus envia de modo abundante sobre seu povo (JI 2,28-29).
A referência mais interessante encontra-se em Zacarias (12,10): "Derramarei [effumdam] sobre a casa de Davi e sobre o habitante de Jerusalém um espírito de graça e súplica". Essa passagem permite-nos pôr em relação o derramamento da graça sobre o lugar de culto com a comunidade, representada pelo edificio. No Novo Testamento, encontra-se em várias ocasiões, todas elas nos Atos do Apóstolos. Na primeira delas (2,17-18.33), é Pedro no discurso depois de Pentecostes quem cita o texto de Joel e o refere ao momento atual, em que Jesus der ramará (Exxew, literalmente: "verter um fluido") o Espírito Santo sobre seu povo. Mais adiante, o livro dos Atos narrará o estupor que causava entre os cristãos procedentes do judaismo que o dom do Espírito tenha sido "derramado" também entre os gentios (10,45). O Espírito Santo aparece como o princípio unificador do povo cristão, cujo dom se recebe nas diversas ações sacramentais que terão lugar na igreja."
A feliz introdução da coleta do ODEA2 de 1977 do complemento do nome verbi tui amplia o horizonte da petição, de modo que a Palavra e a força dos sacramentos aparecem expressamente como meios para fortalecer os corações dos fiéis. A intenção de fazer parecer a igreja -edificio como espaço de anúncio da Palavra e celebração dos sagrados mistérios é uma das principais intenções dos redatores do ordo." Embora a alusão à sacramentorum virtus (força dos sacramentos) possa ser interpretada como uma alusão implícita à Eucaristia, parece -nos melhor que deve ser considerada uma referência à celebração sacramental em geral. Ou seja, o espaço litúrgico não seria apresentado na coleta apenas como um lugar de celebração eucaristica, mas como um espaço ritual de caráter mais amplo. De fato, a inserção de verbi tui (de tua palavra) faz parecer a ação sacramental genérica de que fala a coleta como ação misteriosa na qual se recebe o alimento da Palavra de Deus e da graça sacramental, Nesse esquema se adequa qualquer celebração dos sacramentos da Igreja que tenha lugar no templo (Introdução ao Lecionário, n. 3).
Essa consideração lança uma luz interessante no o desenho do espaço eclesial. Uma razão para o empobrecimento da arquitetura eclesiástica que vimos em algumas áreas na segunda metade do século XX veio, em grande parte, do foco exclusivo no elemento do altar no projeto do espaço litúrgico. Tornou-se, sim, o indiscutível centro e motor gerador do espaço, mas às custas de passar para um plano muito secundário outros focos de ação litúrgica tradicional mente integrados ao desenho da igreja (embora nem sempre com grande sucesso e equilíbrio): o ambão, o sacrário, o espaço batismal e a entrada. Seria desejável considerar o espaço litúrgico não apenas como lugar para abrigar a Eucaristia, mas também como espaço de celebração do Mistério cristão nos sacramentos, sacramentais e a Liturgia das Horas ao longo de todo o ciclo anual. Isso implica um desenho de espaço celebrativo "plurilitúrgico" - que não é multifuncional - certamente mais complexo, mas indubitavelmente mais rico e, sobretudo, mais útil.
2. Liturgia da Palavra
A liturgia da Palavra começa com a procissão dos leitores e do salmista. O percurso dessa procissão realiza-se em duas sessões: o primeiro no presbitério até a cátedra do bispo, que faz a entrega do lecionário ao primeiro dos leitores, o segundo a partir desse lugar até o ambão (ODEA2, n. 53). Encontramo-nos diante da inauguração litúrgica do ambão através da primeira proclamação da Palavra de Deus, o que poderia considerar a "dedicação do ambão"."
Obispo, na monição, ao mostrar o lecionário, dirá: Semper resonet in hac aula Dei verbum quod Christi mysterium vobis aperiat et vestram salutem in Ecclesia operetur (ODEA2, n. 53). Deseja-se que ressoe sempre, nesta aula, a Palavra de Deus, que faça conhecer aos fiéis o mistério de Cristo e realize sua salvação na Igreja. A igreja-edificio aparece, nesse momento, explicitamente como espaço de proclamação da Palavra. Essa proclamação "abre" aos fiéis o mistério de Cristo, preparando seus corações para o contato salvador com a graça sacramental, tanto na liturgia eucarística quanto em outras celebrações rituais. "A Eucaristia nos ajuda a entender a Sagrada Escritura, assim como a Sagrada Escritura, por sua vez, ilumina e explica o mistério eucarístico. De fato, sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, a compreensão da Escritura fica incompleta" (SCa, n. 55). A liturgia da Palavra aparece em intima conexão com a celebração sacramental, a qual prepara e conduz como seu fim, sem poder separar-se uma da outra.
A procissão dos leitores antes da primeira leitura é um rito atípico. Na liturgia romana, conhecemos a procissão solene ao ambão do diácono para a leitura do Evangelho. Em todo caso, para nosso estudo, o dado relevante é a manifestação espacial significativa durante a dedicação da igreja do caminho percorrido processionalmente que conduz da sede ao ambão. A riqueza simbólica com que são revestidos esses movimentos dão razão da dignidade e importância - também espacial - que tem esse lugar litúrgico (v).
Em muitas basílicas antigas do Oriente do Ocidente, encontramos, desde o século VI, um elemento construído no espaço liturgico que permitia a conexão do altar com o ambão: a solea. Ela tem sua origem no movimento ritual dos leitores até o lugar de proclamação da Palavra. Tratar-se-ia de uma prolongação espacial do presbitério até a nave ao longo de um eixo. Além da solea, é comum encontrar, na arquitetura cristã desses primeiros séculos, uma série de estruturas espaciais que per mitiam conectar o ambão com o presbitério, como a schola cantorum ou o iconostasio. Uma vez que a proclamação do Evangelho é confiada ao ministério ordenado, é coerente que o espaço do ambão esteja no presbitério ou fisicamente ligado a ele, de modo que o santuário seja percebido como uma unidade espacial na qual o lugar de proclamação da Palavra seja um dos seus principais focos."
Não é em detrimento da participação dos fiéis que o ambão se encontre a uma distância relativamente considerável do altar e da sede. Dessa maneira, permite-se que a procissão até o espaço de proclamação da Palavra percorra uma longitude suficiente, facilitando que se converta em um gesto verdadeiramente significativo, de modo que, realmente, os fiéis "se voltem" para o ambão (IGMR, n. 133). Estas considerações animam a valorizar mais atentamente dois aspectos do espaço litúrgico: o trajeto simbólico que conduz até o ambão, ao longo do qual tem lugar a procissão da liturgia da Palavra, a relação estilística coerente entre o ambão e a sede dentro do presbitério. A respeito do diálogo entre ambão e altar, falaremos mais adiante.
2.1. PRIMEIRA LEITURA
A liturgia da Palavra conterá três leituras, propostas no Lecionário III, para o rito de dedicação da igreja. A primeira delas há de ser sempre do livro de Neemias na qual se descreve o 60 povo de Deus reunido em Jerusalém após o exílio na Babilônia, para escutar a proclamação da Torah (ODEA2, n. 12):
O sacerdote Esdras apresentou a Lei diante da assembleia de homens, de mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Assim, na praça a frente da porta das Águas, Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até ao meio-dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei. Esdras, o escriba, estava de pé sobre um estrado de madeira, erguido para esse fim. Visivel a todos, por estar mais alto, Esdras abriu o livro. Quando o abriu, todo o povo ficou de pé. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: "Amém! Amém!" Depois inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com o rosto em terra. Leram o livro da Lei de Deus distintamente e explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. O governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras e os levitas que instruíam o povo disseram ao povo inteiro: "Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus! Não lamenteis nem choreis" - pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. E disse-lhes: "Ide e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e dai porções àqueles para quem nada se preparou, pois este dia é santo para o nosso Senhor. Não é dia de luto, pois a alegria pelo Senhor é vossa força"
O relato do livro de Neemias (8,2-17) no qual o sacerdote Esdras lê a Lei diante do vem a ser como uma nova "constituição" do povo eleito após o exílio na Babilônia, que apa rece como assembleia reunida pela voz de Deus: qehal YHWH. Já no contexto da primeira Aliança, a qehal YHWH identifica a comunidade de Israel: tanto em seu conjunto como atra vés das diversas assembleias locais restritas no espaço e no tempo, que contemplamos ao longo da história da Salvação." Ekklesia é a palavra que a versão grega do Antigo Testamento utilizou com mais frequência para traduzir a palavra hebreia qehal: convocação do povo de indole religiosa e ativa, especialmente cultual, na presença de Deus (1Cr 28,8 e Ne 8,2), que contemplamos de modo paradigmático nas assembleias no Sinai, na terra de Moab e em Siquém (Dt 4,10, 31,30; Js 8,35), nas quais Israel recebe a Lei e é constituído como povo Santo de Deus pela vontade gratuita divina." A Comunidade cristã "nasce da Palavra": do próprio Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, que se reuniu a esse novo povo através de sua morte e ressurreição: a "convocação" definitiva." povo, Esdras leu de pé "uma parte" da Lei de Deus (8,3), uma passagem da Escritura santa, a partir de um estrado alto erguido para a ocasião, que permitia estar à vista de todos (8,4.6). A passagem de Neemias representa a liturgia da Palavra no povo hebreu após o exílio. Esse rito veterotestamentário tem íntimas conexões com a proclamação da Palavra da celebração cristã,
herdeira em boa parte da liturgia sinagogal da diáspora. Como não ver, nesse estrado alto, um antecedente remoto do ambão cristão?
Já desde sua origem, existe uma ampla gama de formas do ambão na igreja. Quer fossem feitos de madeira - às vezes cobertos com metais preciosos, como na antiga Capela Palatina de Aachen (v) - ou mármore, eles podiam ser feitos de uma plataforma simples com uma balaustrada ou um parapeito semicircular em um pedestal, com uma escada de acesso. Alguns têm forma poligonal e estão em uma base, elevados, por sua vez, em colunas que frequentemente apoiam-se em outra plataforma. O tipo mais difundido até meados do século V era equipado com duas escadas opostas para que o leitor pudesse subir e descer; às vezes, podia até ser coberto com um dossel. Por outro lado, seu caráter simbólico como "tumba vazia" da ressurreição de Cristo (Mc 16,1-4 e Mt 28,2) e lugar do anúncio pascal - como visualmente expressa o ambão do santuário do Padre Pio em San Giovani Rotondo (figura 24) torna adequado que o candelabro para o círio pascal se encontre próximo ao ambão durante o tempo pascal."
Durante a procissão de leitores ao ambão, a rubrica indica que a segunda etapa desse movimento seja realizada omnibus aspiciendum (na frente de todos) (ODEA2, n. 52). Essa indicação parece banal, tendo em conta que cada parte do rito se realiza à vista de todos. Sua aparição, no entanto, parece evocar momentos em que, na Sagrada têm lugar uma proclamação da Palavra de Deus de modo ritual.66 A posição destacada do ambão no espaço litúrgico permitirá que a ele "se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra, como deseja a 1GMR (n. 309). Algo tão simples como elevar a altura do ambão no conjunto da nave facilita extremamente essa relevância. Além disso, a decoração iconográfica contribui para ressaltar seu caráter singular. Infelizmente, o ambão no espaço litúrgico cris tão tem perdido frequentemente, nas realizações dos últimos séculos, o relevo monumental e simbólico que havia desfrutado durante longo tempo na arquitetura cristã. Quem contempla os belos ambões de Nicola Pisano no batistério de Pisa ou a catedral de Siena (1260-70) pode perceber, com nitidez, a importância que a igreja - e na Igreja, com maiúscula - possui a proclamação da Palavra de Deus."
2.2. SALMO
No salmo responsorial, os componentes da assembleia litúrgica fazem suas as palavras da oração de Israel, convertendo-as em resposta da Igreja à Palavra divina:
A lei do Senhor é sem mancha, conforto para a alma; o testemunho do Senhor é fiel, torna sábios os simples. Os preceitos do Senhor são retos, alegram os corações; o mandamento do Senhor é lúcido, ilumina os olhos. O temor do Senhor é puro, e permanece para sempre; os julgamentos do Senhor são verdadeiros, todos justos igualmente. Sejam te agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração na tua presença. Senhor, meu auxilio e meu redentor (Sl 19[18]).
A parte selecionada do Salmo 18 é um hino à Torá (v. 8-10) que culmina com o oferecimento ao mesmo Deus do canto do salmo (v. 15). Nessa elogiosa "ladainha da Lei" se percebe a profunda estima que Israel tinha dos preceitos divinos: mais precioso que o ouro mais fino, mais doce que o mel (Sl 18,11). Na economia do Novo Testamento, a Palavra que nos vem de Deus é, antes de tudo, seu Verbo encarnado. A liturgia dessa festa facilita para nós, efetivamente, uma leitura cristológica do salmo, como se percebe no responsório:
Verba tua, Domine, spiritus et vita sunt
Tuas palavras, Senhor, são espírito e vida
É tirado das palavras com que Jesus interpela seus discípulos ao final do discurso eucarístico: "As palavras que vos falei são espírito e vida" (Jo 6,63). Agora a comunidade que crê faz suas essas palavras de Cristo, com a atitude de fé confiante de Pedro em sua confissão ao acabar o discurso: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna" (6,68). As palavras com as quais Cristo termina seu discurso eucarístico do sexto capítulo de João apresentam o Salvador como alimento espiritual, tanto em sua carne - que recebemos na comunhão sacramental - quanto em suas palavras (6,63), que os cristãos "devoramos" na liturgia da Palavra."
2.3. SEGUNDA LEITURA
Como segunda leitura para o rito de dedicação da igreja, elegemos a primeira Carta de Pedro. O título que a OLM dá à leitura é "Como pedras vivas sois edificados como edificio espiritual".
Aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e valiosa aos olhos de Deus. Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formais um edificio espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrificios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. Com efeito, na Escritura se le: "Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e valiosa; quem nela confiar, não será confundido". Para vós, que credes, ela é valiosa! Mas para os que não creem, "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular" e "pedra de tropeço, pedra que faz cair". Eles tropeçam por não crerem à Palavra; essa é a situação deles. Vós, ao contrário, sois a geração escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele adquiriu, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa (1Pd 2,4-9).
Nessa passagem petrina, de uma grande densidade teológica, a Igreja aparece como "edi ficio espiritual" - domus spiritalis - destinada a oferecer sacrificios como povo santo, propriedade de Deus, que exerce seu sacerdócio batismal transmitindo aos demais as bondades divinas. A alusão à oferta dos "sacrificios espirituais" (2,5) e à proclamação das "maravilhas" (2,9) de Deus indica que o exercício do sacerdócio dos fiéis projeta-se para além dos limites da assembleia litúrgica."
A segunda leitura da celebração da dedicação apresenta-nos a igreja-edificio como imagem singular e do conjunto de fiéis, edificio santo onde habita a Trindade e onde é dado o culto feito de sacrificios espirituais. O primeiro valor simbólico será importante, como veremos mais adiante, para expressar a qualidade hospitaleira do edificio de culto. Ao mesmo tempo, a igreja é símbolo da assembleia eclesial reunida como povo sacerdotal, que exerce o culto de sua existência firmemente edificado em Cristo: por meio Dele, com Ele e em caminho até o Pai através dele. Sua união com Cristo como membros do mesmo Corpo- que é representada por sua unidade espacial na igreja - faz deles um povo sacerdotal. A sala litúrgica é, portanto, espaço onde os fiéis cristãos, unidos na comunhão na Igreja, exercem seu sacerdócio batismal durante a ação litúrgica.
O desenho da nave da igreja implica a distribuição dos lugares onde se encontram os fiéis. Sua disposição geral e sua articulação com o espaço do presbitério pode manifestar a profunda unidade orgânica do povo santo (IGMR, n. 294). No que se refere ao modo de dispor os lugares dos fiéis, convém que este transmita, de modo simbolicamente eficaz, o exercício do sacerdócio batismal em comunhão. A forma da montagem tendendo à circularidade, na qual os participantes estão distribuídos ao longo de vários eixos que convergem para o altar central, não parece simbolicamente adequada, por seu estatismo, para expressar a dinâmica dialógica "escuta da Palavra - oferta do sacrificio". Uma disposição análoga pode ser atribuída à distribuição desestruturada da assembleia litúrgica em espaços dispersos, ou à posição frente a frente de uma grande parte de seus componentes.
A leitura da primeira Carta de Pedro aponta-nos, ainda, algum elemento a mais que pode iluminar a questão da distribuição na nave do povo sacerdotal. O texto apresenta, através de sucessivas imagens e termos provenientes da linguagem cultual, boa parte da teologia do culto neotestamentária. Os cristãos são apresentados como os que se aproximam - prosechonai (1Pd 2,4) - de Cristo pedra viva, os que "caminham processionalmente" na direção do santuá rio. O processo que descreve o apóstolo e que faz dos cristãos um sacerdócio real consiste, em primeiro lugar, em "aproximar-se dele" ritualmente."
Esta natureza cristológica - por Cristo, com Ele e nele - da oração litúrgica cujo "ponto de partida é o altar convida-nos a determo-nos na questão da orientação da oração ritual comum.
Que influência tem sobre a arquitetura o fato de que a oração litúrgica implica rezar em Cristo e em direção a Cristo? Se olharmos a história, vemos que o costume de rezar dirigindo-se para o oriente marcava fortemente a oração tanto privada quanto litúrgica nos primeiros séculos da Igreja, de modo particular, na parte oriental do Império romano.74
Na tradição cristã, temos assistido a um desenvolvimento histórico no modo de conceber a orientação do espaço litúrgico. Inicialmente, encontrava-se fortemente condicionada pelo ponto cardinal Leste, como símbolo cristológico e escatológico." Pelos dados arqueológicos, sabemos que há muitas variantes, conforme as regiões, na orientação geográfica do edificio e na disposição do altar, permanecendo, no entanto, como uma constante a tensão direcional do espaço celebrativo da igreja." A estrutura do edificio de culto se encontrava, em geral, influenciada por este costume." Com o passar dos séculos, a orientação, sem excluir sua referência à direção da saída do sol como símbolo natural, carregou-se de conteúdo teológico e sua expressão material na igreja foi embelezada através dos elementos iconográficos. Nesse contexto, deve-se entender o antiquíssimo costume de situar um crucifixo sobre a mesa eucaristica, elemento simbólico relacionado com a oração litúrgica que terá lugar a partir do espaço do altar. A cruz é o modo cristão de sintetizar a Redenção do mundo e da história em Cristo, cujo memorial se celebra no altar. Esse elemento ilumina o olhar dos fiéis para o fato de que o "oriente", ao qual a oração dos cristãos é dirigida, é Cristo como mediador para o Pai." Nessa mesma perspectiva, a posição do altar que permite que o celebrante, junto a toda assembleia, olhe durante a oração ritual na mesma a direção transmite, de um modo simbolicamente mais nítido, a direção comum da oração.
A sequência espacial da igreja é determinada pelo sacerdócio batismal do povo cristão: a partir do lugar que o recebeu - o batistério relacionado com a entrada da igreja – até a nave, lugar onde acolhe a Palavra proclamada e se orienta até o sacrifício, oferecido sacramental mente sobre o altar no presbitério. A igreja resplandece como espaço para uma comunidade peregrina que exerce liturgicamente sua delegação ao culto divino. Por outro lado, a questão da orientação do edificio poderia ser secundária, mas é fundamental para esclarecer um aspecto importante: a anáfora eucarística, coração da liturgia cristã, não consiste em um diálogo entre o sacerdote e o povo, mas uma oração comum que todo o povo dirige a Deus por meio do celebrante; com ela, unimo-nos à oração de Cristo ao Pai.
A tensão direcional é, portanto, uma das características paradigmáticas do espaço da assembleia litúrgica. A perda desse sentido direcional em detrimento do favorecimento de formas espaciais que olham para um centro foi uma tendência da arquitetura litúrgica no século passado, particularmente acentuada a partir dos anos 50. Certamente, esses favorecem a percepção da celebração eucarística como um encontro de convívio do ponto de vista antropológico, mas, de fato, eles geraram espaços litúrgicos que não transmitem, com clareza, a estrutura ritual da escuta da Palavra-oferta do sacrificio espiritual, expressada na primeira e segunda leitura da liturgia da Palavra de nosso rito de dedicação.
