RUPNIK - CAP I, II e III
A arte como expressão da vida litúrgica
Introdução
De 19 a 23 de setembro de 2017, aconteceu na cidade de Curitiba, Paraná, o 11º Encontro Nacional de Arquitetura e Arte Sacra (ENAAS), evento organizado pelo Setor de Espaço Litúrgico da Comissão Episcopal Pastoral para Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na ocasião, o principal conferencista foi o padre jesuíta esloveno, Marko Ivan Rupnik, que vive desde 1991 em Roma, onde dirige o Centro Aletti, dedicado à arte e espiritualidade.
Padre Rupnik brindou os participantes do 11° ENAAS com sete belíssimas conferências, que foram gravadas em vídeo e posteriormente transcritas, resultando nas paginas seguintes deste livro. Foram muitos os que se empenharam e se dedicaram para que este projeto se tor nasse realidade.
Diante das importantes indagações de padre Rupnik e da profundidade de suas reflexões, nós, organizadores, procuramos ao máximo ser fiéis às suas palavras, intervindo o minimo necessário no texto transcrito. Nesse sentido, alertamos ao leitor que os capítulos deste livro devem ser vistos como uma grande conferência, livres de esquemas e roteiros, frutos de um profundo conhecimento e vivência do conferencista.
Na saudação inicial de sua reflexão, padre Rupnik expressou a alegria daquele momento, mas também o seu temor e tremor, e disse: "Pensei que talvez a melhor coisa que posso fazer com vocês seja compartilhar o que, em 35 anos de estudo, de pesquisa, de trabalho e de criação artística, entendi". E assim o fez durante os quatro dias em que falou aos participantes do ENAAS.
Capítulo I | Origens da arte cristã: A arte como expressão da vida litúrgica
A arte está sempre ligada à vida. O pensamento pode ser separado da vida, mas a arte é sempre expressão da vida. O grande estudioso e eminente poeta russo, Vjačeslav Ivanovič Ivanov, diz que na história individuamos dois modos de entender a arte: a grande arte, que ele chama de arte do cânone interior, e depois as ondas da decadência.
A grande arte exprime a vida junto com a visão partilhada da vida, isto é, um povo, uma nação, um continente, um grupo possui uma determinada visão da vida: uma verdade da vida segundo um determinado grupo. A decadência é a expressão da vida, isto é, a arte como expressão da vida, do sujeito, de um indivíduo: "eu sinto assim e faço assim". Para expressar o que é decadência, ilustro com uma breve história:
Um pintor sobe até o cume de uma colina e pinta a paisagem; chega um camponês, olha para ele e diz:
-Posso fazer uma pergunta?
Sobre os temas de suas conferências, que constituem os capítulos deste livro, padre Rupnik disse: "Eu vou abordar alguns temas, mas, acima de tudo, gostaria de fazer referências a momentos históricos, porque na História nós aprendemos as inspirações e encontramos também as tentações. A História pode ser para nós inspiração, mas também tentação. E a arte litúrgica apresenta momentos bem evidentes, mas apresenta também grandes enganos e erros. Por isso, é importante que não os repitamos, mas nos deixemos inspirar pelos grandes momentos. Nunca se deve imitar. Nós cristãos somos o povo das inspirações, não das imitações". aos
Seguindo a ordem de suas conferências, o primeiro capítulo aborda a origem da arte dos cristãos. O segundo dedica-se a refletir sobre o símbolo, pois o símbolo é certamente a coisa mais original que os cristãos introduziram na cultura mundial, afirma Rupnik. O terceiro capítulo é sobre a estrutura do edifício eclesial. O quarto reflete sobre a grande crise iniciada com o Renascimento e o Barroco; e o quinto capítulo aborda a repercussão dessa crise nas terras que eram evangelizadas nesse período, como a América do Sul. O sexto capítulo faz refletir sobre a época crítica e a época orgânica, mostrando a história e seus ciclos. Por fim, o último capítulo é dedicado à Eucaristia como fundamento para a criação artística e litúrgica.
Com esse percurso, além de outros diversos temas pertinentes à reflexão, o leitor poderá vislumbrar uma ampla panorâmica que leva à obtenção de inspirações e à fortaleza para se defender das tentações, compreendendo o papel e a importância da arquitetura e da arte litúrgicas.
- Claro.
-O que está fazendo?
-Não está vendo? Pinto.
-Ah, sim. Posso fazer outra pergunta?
- Claro.
-O que você está pintando?
-Este belíssimo vale! Vocês desfrutam de um vale maravilhoso!
-Ah! Posso dizer uma coisa?
- Claro.
-Este vale não é assim como você o pinta.
-Claro. Eu o pinto como o vejo.
O camponês então diz:
- Posso fazer a última pergunta? Por que você escolheu essa profissão se enxerga tão ma
A imagem a seguir, é um dos documentos mais antigos que possuímos de Ur da Babilônia da cultura assírio-babilônica e nele temos uma visão estruturada da vida (cf. figura 1.1).
No primeiro referenciado acima, há o exército que se apresenta ao rei, que é uma de deus sobre a terra, para receber força. Estamos em 2.500 anos antes de Cristo! No segundo referenciado, o exército vai à guerra. No terceiro referenciado, o exército vence a guerra É uma arte que expressa um modo de ver. espéc
O mesmo acontece na grande época clássica grega, como se pode ver na próxima imagem (cf. figura 1.2).
A terceira imagem é expressão da decadência: exprime o que eu sinto (cf. figura 1.3). O que expressa?
Perde-se a comunicação. Se eu começar a falar esloveno, vocês não vão entender nada, e se falar um idioma improvisado, uma minha linguagem, uma minha gramática, ninguém poderá comunicar-se comigo. Eu sei que há significados nestas imagens (cf. figuras 1.3 e 1.4) mas quem sabe descobri-los?
Também no campo religioso (cf. figura 1.5), essa é uma expressão subjetiva. Cristo não foi crucificado no ar, mas na consistência dramática do lenho da Cruz.
Há também outra abordagem da arte. A arte, como já dissemos, é sempre expressão da vida, mas nos evangelhos nós temos três palavras para VIDA: Bios, Psiché e Zoé.
Outro grande russo, Vladimir Soloviov, descobre na história da arte que há realmente três níveis na arte. A arte que exprime o Bios, a vida biológica, corpórea como tal. A arte que é expressão da Psiché, da vontade de viver, de não morrer, de permanecer, de pensar, de pensar a vida, de pensar as formas, de pensar a perfeição, de ter a ideia da perfeição, de ter os sentimentos que tornam o homem nobre. Depois a arte que está ligada à Zoé que, no Evangelho de João, é a vida do Eterno, a vida de Deus, a vida do Filho.
As figuras de 1.6 a 1.10 são algumas imagens da arte ligada ao Bios, isto é, ao alimento:
O homem vê essas coisas, porque elas são a vida. Eu vivo se conseguir achar essas coisas. O homem é aquilo que come. É o primeiro nível da arte.
Também na arte contemporânea, encontram-se expressões da Bios, como se pode ver nas figuras 1.11 a 1.13. O que se vê não é plástico, é corpo real, é o cadáver, é uma camada única,
a carne, o corpo. Eu vou lhes poupar a delicadeza do gosto que há em muita arte contemporânea que se encontra nesse nível. Essa indagação sobre a carne entende a vida como possuindo apenas uma camada, somente o nível do Bios. São imagens dramáticas.
Passemos agora para as expressões da arte ligadas à Psiché (cf. figura 1.14).
Essa estátua representa a deusa Mãe Terra da grande cultura egeia. Estamos em 2.000 ou 3.000 anos antes de Cristo, na Zona Mediterrânea, do meio da Europa até a Sibéria. Observem a fecundidade, a força da vida: nascer, crescer, fecundar. É como a imagem já vista anteriormente da cultura assírio-babilônica: a arte que mostra a vida vencendo, não sendo derrotada.
Toda a época clássica dos gregos, as quatro ondas clássicas que podem ser visualizadas nas imagens a seguir (cf. figuras 1.15 a 1.18), expressa a vida perfeita, elevada ao nível superior de perfeição. A competição, o esporte, a batalha, quem é mais forte...
Também no cristianismo entrou essa arte ligada à vida da Psiché. Vou citar como exemplo uma frase do Evangelho que ajuda a entender o que é a Psiché: "pois quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará" (Mc 8,35) - vida aqui é dita Psiché. Há uma forte vontade de afirmar-se, de melhorar, de ser o primeiro, de ser o maior. E por isso, necessariamente, está relacionada ao indivíduo.
As imagens a seguir demonstram todos esses sentimentos (cf. figura 1.19 a 1.21).
Se o Renascimento é a ênfase dada à visão intelectual, o Barroco dá ênfase aos afetos, aos sentimentos, à imitação, ao estado interior (psíquico). Não há nenhuma visão intelectual, não há nenhuma teologia nessa imagem, é apenas uma devoção. As imagens são agora condicionadas pelo real: são perfeitas pela sua forma no Renascimento, são devocionais no Barroco (mais fogosas, mais vivazes).
Por fim, temos a arte relacionada a Zoé, como pode ser visto na figura 1.22.
Observe, a imagem é muito diferente. A primeira coisa que chama a atenção: não é perfeita, é muito simples, essencial. Os lugares são túmulos. Cristo é representado como pastor com a cruz. O Verbo encarnado esmaga a serpente e o leão, duas imagens do mal: a serpente do mundo bíblico e o leão do mundo oriental e grego. Com força, Ele esmaga os dois.
A figura 1.23 retrata Jorge e Dimitrius, que matam o mesmo dragão, mas não com a força fisica; eles seguram a lança como se não a tivessem; não é o homem que vence o mal, mas é Deus que o venceu; é Deus que age no homem. A arte relacionada a Zoé não é religiosa, vem da fé! O que isso quer dizer? A religião é uma estrutura que rege a relação entre o homem e a divindade. A fé é o acolhimento da vida recebida segundo Deus. Não "por Deus", mas "segundo Deus", isto é, a vida "de Deus".
A fé é acolhimento, atitude essa muito difícil entre os homens; porque, depois do pecado, o homem quer conquistar, quer realizar-se.
Observem como o homem não consegue aceitar o dom e, como afirma outro grande personagem russo, Alexander Schmemann, está de tal forma convencido de que vai conseguir resolver tudo sozinho que rejeita o dom do Pai e crucifica o Filho. Desde a crucificação de Cristo, o homem vai repetindo: não quero o dom! Eu farei de mim mesmo um deus; não aceito, não recebo, mas conquisto. O mesmo Alexander diz: esta é a maior tragédia dos cristãos: sempre mais estão decaindo da fé para a religião. Nós fizemos de nossa fé uma religião: você deve fazer isto e aquilo, deve rezar desse modo, deve jejuar nesse dia, deve respeitar o domingo, tem que fazer esta coisa, isso tudo é religião! A fé é propriamente a libertação da religião, isto é, manifestação da vida de Deus na nossa humanidade. Por isso, vejam que a arte relacionada a Zoé é uma arte simples que mostra a divina humanidade, a sinergia, a convergência do homem e de Deus; o homem acolhe, abre-se e Deus se doa: essa é a perfeição!
É como a liturgia: nós apresentamos o pão, fazemos a oferta; mais do que isso nós não podemos fazer. Esse pão pode entrar no Reino. Mas o que é a Eucaristia? Qual é a essência da Eucaristia? Se não sabe, pergunte: o que é a Eucaristia? São João Crisostomo responde: é o ingresso no Reino de Deus. A Igreja se insere no Cristo; a esposa se une ao esposo; e isso nós não o podemos fazer. Nós, porém, colocamos o pão no altar e depois pedimos que o Espírito Santo desça e o pão se torne Corpo de Cristo. Por isso, a arte relacionada a Zoé nunca é perfeita segundo o homem, mas é uma disposição para que Deus possa agir. É muito importante que aprendamos isso já!
Naquele período havia grandes pintores, mas os cristãos não os contrataram, porque não conseguiam expressar a Zoé: quando não há vida, não é possível expressá-la.
Quando um jovem ia ao mosteiro para estudar e aprender a técnica do afresco, levava con sigo tintas e pincéis. O mestre pegava essas tintas e pincéis e trancava-os no armário. O jovem ficava triste, e o mestre lhe dizia: primeiro procure viver, depois lhe será fácil pintar. O Êxodo foi escrito depois de o Povo de Israel sair do Egito, não antes.
Quando São João Paulo II me chamou para pintar a capela no Vaticano, o Padre Geral dos Jesuítas me disse: quero que você se dedique à arte litúrgica. Eu me dei conta bem depressa que não deveria começar envolvendo-me com a arte, mas com a Igreja. Os artistas devem procurar viver a vida nova, a comunhão, pois a única vida de Deus é a comunhão. Comunhão em sentido estrito é apenas a vida de Deus. Se nós não a vivemos, não podemos expressá-la, não sabemos sequer do que estamos falando.
Quando você fala de câncer e perto de você há alguém com essa doença, ele se dá conta que você está falando sobre algo que não experimentou. O mesmo acontece com relação de à Igreja. As paredes da igreja, desde sempre, até o Renascimento, eram o autorretrato da Igreja. Por isso, é importante que saibamos o que somos. É na Bíblia, na Patrologia, que o saber é expressão da vida, de uma nova inteligência. Por isso, a primeira coisa é a importância de dar-se conta de que você não se compreende sozinho, mas acolhendo o dom. De outro modo, a Igreja seria apenas para os melhores, mas então o Evangelho não seria para todos. O Evangelho, porém, é para todos, pois se trata simplesmente de acolhê-lo.
Observe agora a imagem 1.24, como é simples.
Na imagem 1.24, o Menino Jesus na manjedoura é Deus que se fez homem, não o homem que se faz Deus. Não é o homem que com orações, jejum, súplicas e boas obras chega ao Céu. Não! Ninguém jamais subiu ao Céu, só o Filho (Jo 3,13). Você ou se une ao Filho ou não verá o Céu. Por isso, veja as figuras 1.25 a 1.27 como são simples.
Observe a imagem 1.27, da igreja de Santa Maria Antiqua, século VII. Roma pululando de grandes artistas e, contudo, os cristãos fizeram desse jeito, porque assim é a liturgia: o pão + a ação de Deus = Corpo de Cristo. O homem frágil, pecador, mentiroso, mendigo, falso abre-se a Deus. E Deus age: eis a perfeição!
Eis mais um elemento novo dos cristãos. Os cristãos entram no palco da arte com uma grande originalidade. A arte não é modelo, como, por exemplo, a Arte Clássica e o Renascimento. Ela une três coisas: realismo, como pode-se ver na arte antiga dos pães e peixes (cf. figura 1.28).
Na imagem, pode-se reconhecer o pequeno cesto de pães e os peixes, mas não há autêntico realismo, há algo real, é possível reconhecê-lo; os cristãos respeitam a criação, mas não a com preendem como ideal, porque basta um verme e a árvore cai. O cristão sabe que o realismo não pode tornar-se ideal, mas nós não podemos desrespeitar o real; há também a ideia (segundo elemento), um universo de ideias. Qual é a ideia presente na imagem? A Eucaristia. E há tam bém um terceiro elemento ao qual nos dedicaremos posteriormente: o símbolo. Qual é o sím bolo presente na imagem? Cristo. É Cristo que está presente. É por isso que o cristão, quando passava perto dessa imagem, se prostrava, ou enviava um beijo ou, mais tarde, fazia sobre si o sinal da cruz, porque se encontrava com uma pessoa. A arte torna presente uma pessoa. Como dizia Romano Guardini: a arte como espaço do encontro.
Essas três realidades, presentes na arte cristã, nós não podemos jamais esquecê-las: o real, a ideia e a presença (símbolo).
Onde começam os cristãos? Nas catacumbas.
Escuto alguns dizerem, ao se referir à evangelização: como devemos estar presentes no meio do mundo? E alguns preocupados com a formação do clero, sobre como deveriam ser formados os sacerdotes: qual o modo adequado às exigências atuais, para eles que sejam verdadeira presença no mundo de hoje? E outros ainda dedicados ao culto divino escuto falarem sobre como gostariam que fosse o tipo de liturgia que seria bem aceita ao mundo. E ouvindo tudo isso, eu digo: Que coisa curiosa! Os primeiros cristãos fizeram exatamente o contrário e obtiveram grande sucesso. Nós queremos muito sucesso e, ao invés, registramos um enorme fracasso. Somos estúpidos e presunçosos, pois pensamos que somos nós que fazemos as coisas, mas o resultado será só fracasso.
Os cristãos começaram nas catacumbas para mostrar que ICHTHYS (Iesous CHistos - Jesus Cristo; THeou - de Deus; Yios - Filho; Soter - Salvador) ressuscitou! É o vivente! Aquele que vive! Aquele que é! Ainda que morra, viverá! (cf. figuras 1.29 e 1.30).
Observem como isto é bonito; a âncora é a fé, os dois peixes, que representam os batizados, bebem a vida da fé. O que é a fé? É a acolhida da vida! Pensem em como nós nos desviamos. Nós começamos a falar que é necessário colocar a fé em prática na vida. Desculpem, mas o que é a fé? Não é, porventura, acolhida da vida de Cristo? Não afirma o evangelista João que quem tem o Filho tem a vida? (Jo 3, 36).
Se eu recebi a vida, onde devo colocá-la? Devo apenas vivê-la? Não! Sendo que para nós a fé é um modo de rezar, é uma doutrina, é uma moral, é uma ação social, é uma ação pastoral, então devemos pôr a vida dentro dessas realidades. Mas isso é um absurdo e é também muito cansativo. Viver segundo o Evangelho como homem velho é impossível, é frustrante. Por isso procuro compactuar. Os cristãos, ao contrário, disseram: deixe-se morrer; a morte é que é o problema. Todos querem ser jovens, bonitos. Uma criança nasce doente? A mãe a joga pela janela. Os cristãos, ao invés, vão lá e a acolhem, pois ela é filha de Deus. Os cristãos começaram lá mesmo onde o mundo desmoronou: no fracasso, na fraqueza, na morte.
Na figura 1.31 há os três jovens dentro da fornalha e o mal não os atinge (Dn 3,13ss). Nós possuímos uma vida que não está mais subjugada ao mal. Quem nasceu de Deus, não comete pecado, pois um germe divino habita nele (1Jo 3,9). Nós não somos mais subjugados ao mal. Ele pode sem dúvida nos golpear, como ocorreu com Jonas (Jn 2,1) e haverá por certo uma besta que vai nos engolir, mas o Pai nos salvará!
Para nós, as feras, assim como os monstros marinhos, são lugares de salvação. Essa era a novidade cristã (cf. figuras 1.32 e 1.33).
Não se deve partir de uma ideia diferente, não se deve partir de um projeto cultural, mas da manifestação da vida, manifestação de uma forma de vida. Eles assumiam as imagens assim como elas eram, mas lhes atribuíam um significado simbólico, pois para eles eram outras coisas. Basta pensar que em Roma o peixe era um símbolo erótico, mas para os cristãos era outra coisa. Como escreveu o Bispo de Abércia, na atual Turquia, e ainda está gravado no túmulo: "sempre fui guiado pela fé, a Igreja sempre me deu o Peixe para comer, ela me deu a vida do Corpo de Cristo como Pão que se mistura perfeitamente com o Vinho para tornar-nos divinos". Essa é a novidade total. O galo é o guardião, o primeiro a acordar pela manhã, está sempre presente, domina o cenário, não se deixa surpreender. A tartaruga vem das entranhas da terra, é o Mal, o lado obscuro. Há uma batalha entre o Bem e o Mal, mas Cristo venceu! (cf. figura 1.34).
Cristo é o Bom Pastor (cf. figuras 1.35 a 1.37).
Vejam: nela se pode compreender também a inculturação. A Igreja hoje é muito sensível à inculturação, mas, quando lemos determinados artigos sobre esse tema, não sabemos se devemos chorar ou rir. Nós queremos nos inculturar no hoje, mas não há o "hoje" na cultura. Imaginem, se eu pensar: hoje quero me inculturar na cultura jeans, popcorn, coca cola, isso é ridículo! Daqui a trinta anos ninguém falará mais dessas coisas, terão acabado totalmente. Essas são as moscas de outrora.
Inculturação significa: "extrair o significado mais profundo" e não: "dar significado".
Assisti certa vez a um vídeo que apresentava uma missa celebrada no Brasil e havia pessoas conduzindo uma mulher que parecia estar grávida. Ao chegarem diante do altar, a mulher retira de sua barriga o livro do Evangelho, isso é uma blasfemia! Isso é subjetivismo puro! A vida da Igreja é vida de comunhão e não do indivíduo!
Os padres gregos dizem que o pecado reduziu o homem a indivíduo. Agora, porém, nos fomos salvos, nós não somos mais indivíduos, somos pessoas e essa é a diferença, tão grande como aquela entre o Inferno e o Céu. Esses são os símbolos dos indivíduos, portanto, não são símbolos, são sinais. O sinal sou eu quem o decide. Quando se vê um triângulo com a ponta para baixo na beira de uma estrada, é melhor parar um pouco, mas quem não estudou a sinalização não sabe disso. Todos conhecem símbolos.
Não digo que cheguem a conhecê-los dentro de um ano, talvez levem uns vinte anos, pois o símbolo se comunica envolvendo aos poucos e é necessário dar nomes àquilo que se experimenta. O que quero dizer é que, nas coisas que existem, eu descubro camadas mais profundas, cada vez mais profundas.
Observe a imagem 1.38: estamos no século VI antes de Cristo. Esse homem, cadáver, Serpedonte, foi morto por Protaclo; Hipnos, que está à esquerda, é o Sono; à direita está Thanatos, a Morte. Não se sabe bem se está dormindo ou se está morto. O fato é que ele não anda, está caindo, não fica mais em pé. Chega Hermes, com esse cabelo e chapéu famosos, com o bastão de curandeiro. Ele é quem carrega a pessoa. E os cristãos, sabendo dos bastidores culturais de seis séculos, e não de 60 anos, dão este sentido: quando alguém morre, não é dito que tenha morrido ou esteja dormindo, pois há alguém que se ocupa dele, e esse alguém é Hermes.
Há também um crióforo, que seria, de fato, um pastor, pois "crios" é o carneiro. O crióforo carrega nos ombros o carneiro. Procurem agora juntar as duas imagens: a da ânfora grega descrita há pouco e a do pastor com o carneiro nos ombros (cf. figura 1.39)
Hermes, que leva o morto, aquele que está ferido ou aquele que está enfermo; o crióforo, que carrega a ovelha nos ombros: eis o Cristo!
Observe a figura 1.41: todos dizem: Oh, é Apolo, em razão dos cabelos e por estar sem a barba. Isso é verdade, Apolo não tem barba, tem muitos cabelos bonitos. Lógos, o belo, Kalós. Observem com maior atenção os cabelos (cf. figura 1.40), o Pastor não tem nada nos cabelos; apenas está sem a barba! Isso é para dizer que o Logos é Kalós, pois no Evangelho ele é dito Belo Pastor e não Bom Pastor. E os cabelos como são? Os cabelos são como os pelos da ovelha, há uma identificação! Santo Irineu diz: "o Pai mandou o Filho como Bom Pastor, e Ele foi procurar a ovelha desgarrada. Quando a encontrou - o homem feito por Deus e que se perdera e morrerá - Ele a colocou em seus ombros para levá-lo de volta ao Pai".
Efrém, o sírio, disse: "desceu o Bom Pastor, deixou que fosse levantado na Cruz para conseguir ver até longe, até onde estava a ovelha e a viu morta. Desceu aos Infernos, colocou-a nos ombros para levá-la ao Pai".
São Gregório de Nissa disse: "desce o Filho de Deus, torna-se Pastor, torna-se Homem, encontra Adão morto, coloca-o nos ombros, feito igual à ovelha, também Ele entra no túmulo". O Logos se identifica com a ovelha, o Bom Pastor se torna uma coisa só com a ovelha, pois é toda a humanidade que Ele assumiu, pois enquanto não tivesse assumido toda a humanidade, isto é, todos os mortos, não a teria redimido.
O Bom Pastor da imagem 1.40 não vem do Evangelho de João, mas de Mateus. E onde em Mateus? Quando ele estava na colina, no monte, com as noventa e nove ovelhas e se dá conta de que está faltando uma delas, e então desce (Mt 18,10-14). O Bom Pastor está sempre descendo: torna-se homem, encarna-se e morre para poder assumir a humanidade morta e dar-lhe a vida filial.
Como é bonito esse detalhe na imagem do Bom Pastor com a ovelha nos ombros: Ele olha para a ovelha e a ovelha olha para o Pai. Os gregos clássicos não conheciam a relação. Os Santos Padres levaram três séculos para demonstrar que a relação está na Ontologia. Lá bem no profundo da existência há a relação, a comunhão, e não o Ser! Está na Pessoa! Pai e não Deus, Deus Pai! Três séculos! E nós já temos quatro, cinco, seis séculos nas costas durante os quais a nossa Ontologia continua apoiando-se no Ser e não na relação. Para nós a relação é acidental. Portanto, nós queremos uma Igreja de comunhão, mas de onde ela virá? Da ontologia do indivíduo? Nunca! Queremos criar a comunidade através de indivíduos? Isso é impossível! Para nós, cristãos, na Ontologia está a relação. Quando eu digo "marido", digo um homem que é constituído assim por uma relação. Quando digo "mulher", dá-se o mesmo. Quando digo "pai", é a mesma coisa, também quando digo "filho".
Nós não acreditamos em um só Deus. Isso é uma fixação da Escolástica". Nós acreditamos em um Deus Pai, que é constituído como tal pela comunhão, pela relação, que é includente. Quando digo "marido", já incluo a mulher; quando eu digo "pai", já estou dizendo que sou filho.
Capítulo II | Símbolo: o lugar do encontro
Quando falamos de símbolos, é necessário ter a coragem de bloquear algumas interferências, pois, dizendo símbolo, rapidamente vem à mente algo que estudamos na escola, a partir de pensadores como Heidegger,' Kant, Camus,' Ricoeur, entre outros. Eu vos pedirei um ato de ascese e o apagamento dessas interferências, pois elas não têm nada que ver com a visão cristã do símbolo. Por isso é necessário redescobri-lo, eu sei que vocês já sabem, mas façamos um pouco de repetição, e chegaremos ao símbolo pelas imagens. Observe a figura 2.1.
Essa é uma imagem de Matera, no Sul da Itália, cheia de habitações sacras sob a terra. Os cristãos começam ali, onde tudo termina, na Morte. O que causa medo? O subsolo, o império do inferno, o império da morte.
Antes vimos que o Bom Pastor desce na morte, desce ao inferno. E os cristãos começam não somente sobre os túmulos, mas também sob o solo. O fazem não apenas nas catacumbas, que poderia ser também o lugar que escolheram devido à proibição da prática da Fé, mas o fazem também na época Imperial (Constantiniana), no subsolo (cf. figura 2.2).
As igrejas rupestres mostram a visão que os cristãos tinham, isto é, ir além da primeira casca. A primeira casca é a terra, o subsolo é lugar da morte, do mal, do desconhecido, do obscuro.
E agora veremos que os cristãos, mesmo sob o solo, criam o céu (cf. figura 2.3). Criam-no ou descobrem-no? Descobrem-no! Uma vez que Cristo passou pelo império da morte, ela não existe mais. O cristão vem enxertado em Cristo ressuscitado, a morte ficou para trás. Ontologicamente, o batizado já está morto, fenomenologicamente o temos para frente. Por isso os cristãos trouxeram uma nova visão sobre a morte.
A morte relativiza tudo, como revelam os livros de Eclesiastes e da Sabedoria, ao mostrar que cada valor vem zerado pela morte. O autor de Eclesiastes diz: "Queres ser bom?" Sim, se és tão estúpido pode até tornar-se bom, mas o verme irá te comer, como comerá também àquele que não é bom. Pode ser um homem honesto, mas não serve, pois o verme te comerá, como comerá àquele que não é honesto. Queres ser sábio? Serás comido pelo verme, assim como será o estúpido. A única música que se ouve do subsolo é o som de vermes mastigando, pode ser rei, princesa, não serve para nada. Ali tudo é zerado.
Cristo dá à Morte o golpe fatal, fazendo-os ver que na morte há um sentido, torna-se o lugar da manifestação de Deus, do amor. Não de Deus como uma superpotência, mas como comunhão. Deus não se manifesta como herói sobre a morte, Ele não ressuscita, Ele FOI ressuscitado, o Pai o ressuscitou com o seu Espírito. Ele não ressuscita sozinho como Filho de Deus, mas com os progenitores, Adão e Eva, e toda a humanidade. A grande diferença é que não é herói, pois faz participar toda a humanidade na vitória sobre a morte. E, como a morte domina no subsolo, os cristãos, no subsolo, fazem ver o céu. A morte não é terrível, é o lugar onde se encontra Deus. Por isso, sob o solo, aparece o céu, os afrescos mais extraordinários, o canto da liturgia, pois é o céu! Na morte nós encontramos Deus.
Nós não encontramos Deus no alto de nossa ascese, nosso primeiro encontro com Deus é com nós mesmos mortos. São Paulo diz: nós somos vivos nascidos da morte. Nas águas do Batismo afoga uma vida e ressuscita uma nova (Rm 6,4). A primeira vez que encontrei Deus, quando abri os olhos depois do Batismo, encontrei-me em uma comunhão que eu não sabia que existia, eu pensava que a comunhão era fruto de um esforço, agora encontrei uma vida que é constituída como comunhão. Eu me encontro costurado com os irmãos e irmãs. Como escreve o autor de Gênesis (2,21), a vida de um é ligada à vida do outro, somos um tecido. Quando eu abri os olhos nesta existência, entendi que existo segundo Deus, respiro a mesma vida que o Pai e o Filho, o Senhor da Koinonia (comunhão), o Espírito Santo.
Os cristãos fizeram sob o solo exatamente o Pão, pois isso é a Igreja, a Eucaristia.
E vejam que a igreja da imagem 2.4 é feita como um pão, e o pão é Cristo, mas o Cristo somos nós, o Seu Corpo somos nós. Nunca o Cristo é sem o Seu Corpo! Eu não posso dirigir uma oração a Cristo, sem sentir que sou parte de todos vocês. Eu não posso ajoelhar-me diante da hóstia do Santíssimo, porque, é quase ridículo, eu estou dentro da hóstia. De dentro eu a olho por fora.
A Igreja preocupou-se por doze séculos com a unidade dos três corpos: Cristo, a Igreja (real Corpo de Cristo) e o Corpo Místico, que é a Eucaristia. Até o século XII, eram muito preocupados em mostrar que o Pão da Eucaristia, o qual se divide em três partes na celebração euca rística, mostra que a Igreja toda: uma é aquela da glória (os Santos), outra é aquela dos mortos que aguardam o juízo e outra ainda somos nós, que estamos no caminho. Isso para mostrar que há unidade no Corpo inteiro. Quando o místico não significa mais Mysterion (Sacramento) tudo se acabou: a Igreja tornou-se o Corpo Místico e a Eucaristia o corpo da presença real, mas o que quer dizer presença real? Rupnik está realmente presente no Brasil? Ninguém diria: hoje, na conferência, estava a presença real de Rupnik, se só estivesse a minha camisa. É absurdo!
Faço uma pergunta teológica: expliquem-me a presença real de Cristo na oração das Vésperas. Há a presença real de Cristo, expliquem-na. Eu, como professor, fazia essa pergunta aos alunos nos exames e eles tremiam, isso porque nos perdemos. A unidade dos três corpos é indissolúvel e não existe nenhum Corpo Eucarístico se não vem do Corpo de Cristo que é a Igreja. Isso claro, pois ao contrário não haveria nem mesmo o Pão para oferecer. São João Crisóstomo disse: se eu digo "o Senhor esteja convosco" e não escuto a resposta, não posso continuar. A Eucaristia é a realização da Igreja e a Igreja, na Eucaristia, contempla a verdade de Cristo e a verdade de si mesma. Por isso, o lugar da morte torna-se a manifestação do Corpo de Cristo, isto é, do amor do Pai e de nós mesmos incorporados em Cristo. E então são paredes da luz, da redenção e da mentalidade teológica, pois o Corpo de Cristo é a revelação do amor de Deus. Então é possível entender como raciocina o amor de Deus.
Observem as figuras 2.5 e 2.6. Vejam que espetáculo, tudo isso no subsolo, metros e metros abaixo do solo.
Quando eu fazia a grande Basílica em Fátima (Portugal), a via como uma espécie de grande praça coberta. Quando eu trabalhava na fachada de Lourdes, pensava: em alguns anos muita gente passará por aqui. Mas, quando eu fazia a Basílica de Padre Pio, sabia que estava fazendo algo para os séculos futuros, porque é sob o solo, 12 metros sob a terra. E quando pensei a Europa, com poucos cristãos, finalmente refletia: é acabada a época da Igreja constantiniana e teodosiana, acabou a Igreja paraimperial e paraestatal; finalmente estamos em uma época nova, de fermento e sal, e começa sob o solo, como os cristãos, fazer o céu sob o solo.
Nós, cristãos, não seremos mais as massas. O Brasil quantos habitantes tem? 208 milhões. Se vocês pensarem que o Brasil é um grande pão, e colocarem nesse pão de 2 quilos, 1 quilo e meio de sal... Não é possível comê-lo. E se coloca nele 1 quilo e meio de fermento? Não se pode comê-lo. Quantos cristãos haviam pensado Cristo quando falava de número? A resposta é sal, fermento e luz. Se somos uma religião, podemos ser 180 milhões; se somos a Fé, o Corpo de Cristo, basta 1 milhão. A visão da Salvação é teologicamente muito diversa, nós a pensamos segundo a natureza, ou seja, de forma numérica. Cristo salvou o mundo não com todos os judeus debaixo da cruz.
Apenas para dizer que a visão que encontramos sob o solo é muito diferente daquela desenvolvida na época paraimperial e paraestatal.
Na imagem 2.7, pode-se ver os símbolos da vida eterna, esses nós que não se entende mais onde começam e onde terminam, porque a vida eterna não começa com a morte; se começa, não é eterna. Na vida eterna, eu sou assumido pelo Batismo. Eis o céu sob a terra, tudo isso é no subsolo (cf. figura 2.8).
Observe a figura 2.9. É um sarcófago dogmático, da época de Constantino, em plena arte constantiniana, e mesmo assim os cristãos já faziam ver o seu modo de pensar. É magnífico!
Vou comentar apenas alguns detalhes. Nós começamos a ler da esquerda para a direita, algumas outras culturas, da direita para a esquerda, mas os sarcofagos são lidos a partir de dentro, do centro (cf. figura 2.10).
Acima estão os defuntos que estão dentro do sarcófago, que são marido e mulher (cf. figura 2.10). A mulher abraça o marido e com sua mão direita, mesmo abraçando-o, é possível ver o mesmo braço do marido (direito) com os dedos ad locutio: esse gesto provém das escolas gregas, quando o mestre entrava, levantava a mão assim e se fazia silêncio, é ele quem fala agora. E para onde indica essa posição de mão? Aponta para um rolo de um livro, aponta para a Fé. E o que é a Fé? É o que fez com que Daniel saísse vivo da cova dos leões.
Na imagem 2.11, é possível ver também um anjo que pega pelos cabelos o profeta Habacuc, que traz um cesto de pães àqueles que estão trabalhando nos campos. Mas no capítulo 14 de Daniel, o anjo diz a Habacuc: leve esses pães a Daniel. Diante da negativa, o anjo pega-o pelos cabelos e faz com que ele leve os pães a Daniel (Dn 14,31ss). Não só porque os leões fizeram uma escola de jejum, pois, antes de enviarem as vítimas, fizeram-nos jejuar, assim, eles comeriam mais rapidamente. Ao invés disso, nessa imagem, vemos os leões apenas olhando, com todos os dentes prontos, mas fechados. Daniel, por sua vez, recebe os pães: ele come enquanto os leões jejuam.
Como o locutio (a posição da mão direita) aponta para o lado direito do sarcófago (figura 2.12), ali nós podemos ver a passagem da água para o vinho (Jo 2,1-11); com o bastão, identificamos o Senhor, o Logos. Em seguida, vemos a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15); e no final - que está um pouco quebrado, mas é possível entender - está Maria aos pés de Cristo, no túmulo de Lázaro (Jo 11,32). Esses são os milagres do Evangelho de João, sinais de que Cristo é o Senhor, que dá a Vida, que nutre essa Vida e, mesmo se morrer, viverá. Assim como Lázaro: mesmo se morrer, viverá, pois tem uma vida que não é mais corruptível pela Morte, que é a comunhão.
Abaixo, é a Páscoa (cf. figura 2.13). Aqui está o bom Daniel, que é a imagem de Cristo morto e ressuscitado.
As primeiras imagens da Páscoa, é interessante saber quais são: a traição de Judas (Lc 22,47-48) e a negação de Pedro (Lc 22,54-62); isso para mostrar que o homem não é capaz de relacionar -se. Não mostravam Cristo, mas sim o homem que não é capaz; por isso, na parte de baixo, está representada a negação de Pedro com o galo; em seguida Pedro que vai preso (At 12,3) e acontece com ele o que aconteceu com o Senhor. Pedro queria defendê-lo quando o haviam prendido, mas o negou e agora é ele que está sendo preso. No canto direito, também um pouco destruído, vemos Pedro que batiza o guarda que o mantinha preso. No desastre que aconteceu, o Senhor abre o caminho, não somente para Pedro que sai da prisão, mas a vida é dada àqueles que o prenderam: onde ele está, a vida começa florescer; não com grandes projetos pastorais, mas com a vida dos cristãos nos lugares comuns, mesmo nos lugares mais difíceis como a prisão.
Agora podemos ver o lado esquerdo do sarcófago, pois já descobrimos o Senhor como Redentor, que dá a Vida e que faz florescer esta Vida (cf. figura 2.14). Vemos aqui a criação do Homem (Gn 2,4bss).
Deus Pai sentado sobre o trono. Lembram-se do braço da mulher que tocava no braço do marido? Aqui vemos o Pai que toca o braço do Filho ad locutio: Ele fala e a Sua Palavra é o Filho, e o Filho cria Eva a partir de Adão adormecido no chão (Gn 2, 21-23). Ele é a Palavra. E quem é este na parte de trás que segura o Trono? É o Espírito Santo; como é possível saber? Santo Atanásio vivia exatamente nesse tempo em Roma, logo após o Primeiro Concílio de Nicéia, no qual se afirma, exatamente na linha do pensamento de Santo Atanásio, a permanente presença de toda a Santíssima Trindade em toda a obra da Criação e da Redenção. Então é o Espírito Santo quem é a vida, por isso que segura o trono.
Por fim, na figura 2.15, veja a parte de baixo como é surpreendente: a mesma imagem do trono, alguém que está atrás segurando o trono: a Mãe de Deus e a Epifania (Mt 2,1-12). Os Magos que indicam três círculos na parte de cima; mas os Magos seguiram uma estrela e por que são três os círculos? Recordemos Santo Atanásio: porque é sempre presente toda a Trindade em toda a obra da Salvação. No Filho se manifesta o Pai - "Quem me viu, viu o Pai" - (Jo 14,9) e nós podemos vê-lo, porque fomos redimidos. Por isso, se não entendemos a redenção e se não somos redimidos, nós não podemos entender o Mistério, nem mesmo a criação do homem. Aqui nós temos o mesmo Espírito Santo (o que segura o trono) que falou por meio dos profetas, pois este aqui atrás não é exatamente o Espírito Santo em pessoa, mas o Espírito Santo presente na humanidade que por meio de suas ações: dá o amor, dá a vida de Deus e fala por intermédio dos profetas, é a Sabedoria. Este é o profeta Balaão que viu uma Estrela surgir em Israel (Nm 24,17) a qual os Magos seguiram. Somente no poder do Espírito Santo é que nós podemos compreender essa cena, tanto é verdade que o trono é descoberto, porque Maria fez ver o Messias; enquanto que aqui (cf. figura 2.14) o véu cobre o trono: somente com a encarnação é que nós podemos entender a criação, enquanto que, na maioria das vezes, começam pela criação e nascem as discussões abstratas (Charles Darwin' e companhia, por exemplo), totalmente inúteis, mas a culpa é nossa, pois partimos da razão e não da Vida Nova e da Nova Inteligência.
Se você está em um túmulo e de repente acorda, pois haviam sepultado você muito rapidamente, começa a arranhar as paredes, mas nada consegue. Está para morrer e escuta alguém destravando a tampa do túmulo, a tampa se abre e você vê um rosto, será que esquecerá este rosto? Nunca! Ele diz a você: Eu sou Jesus Cristo. Muito bem, eu te amarei até o fim, porque respiro graças a você, jamais irei te esquecer. E Ele diz: Você sabe que eu sou também o Criador do céu e da terra? Não tem problema, qualquer coisa que me disser está ótimo, porque eu vivo graças a Você.
O problema que nós criamos entre a razão e a fé é absurdo, perdemos quatro séculos e não resolvemos nem um centímetro do problema. Estamos para chegar ao símbolo, que tem uma lógica totalmente diferente: dentro de uma coisa se descobre uma outra mais profunda. E não tenho nenhum problema com a ciência, eu sou um fiel: dentro de uma coisa eu descubro uma outra mais profunda e cada vez mais profunda, e no fim descubro um rosto. E é assim, pois quem tem a vida, reconhece a vida. Mas se não tenho a Vida, se tenho somente a vida velha destinada a morrer, tudo aquilo que diz respeito a Deus e a Cristo é abstrato. sempre
Veja a igreja que está na imagem 2.16, é um bordado, isso para mostrar que é um mundo transfigurado, é habitado. Vocês sabiam que, no Românico e no Gótico, não há nada isolado, tudo é um organismo, se você tira uma pedra, cai tudo, pois tudo é necessário.
Na entrada, existem muitas pessoas, pois a Igreja é comunhão e ali você cruza o limiar da solidão para a comunhão, e ali os santos e os anjos que o acolhem.
Observe como sorri o personagem da figura 2.17. É um francês e eles são tão sérios. Depois você entra e vê o nártex, que é um círculo perfeito dentro de um quadrado, os cristãos estão fazendo o "quadrado redondo", os outros não conseguem, mas, nós sim (cf. figura 2.18).
Dentro há uma cruz e, na haste central, está João Batista - a Revolução Francesa destruiu um pouco, mas ali no centro havia o Cordeiro de Deus, que levou o Pecado do mundo sobre si. "O Pecado" e não "os pecados", pois ele não é um bode expiatório; Ele assumiu "O Pecado" que e a condição que faz o homem pecar. O nártex é, artisticamente, a área mais rica, pois entramos na Igreja não com um bilhete, não porque precisamos entrar, não porque temos o entrar, mas sim porque estamos mortos e acordamos na Igreja: entramos pela Morte e acordamos dentro do Corpo de Cristo.
Veja os pontos brancos no piso da imagem 2.19. Eles são o todo, o caminho da vida cristã: desde quando somos enxertados em Cristo, até à maturidade do Corpo de Cristo que é o Altar, a Páscoa, momento em que eu me torno Dom: eu recebi o Dom e vou sendo transformado em Dom.
Esses pontos brancos são feitos no solstício de verão, entre 21 e 27 de junho, o sol ao meio dia, e somente ao meio dia, desenha essa linha; e no dia 24 é a Festa de São João Batista: isso sim é arquitetura, o resto não serve pra nada, é puro subjetivismo. Este é o espaço que é a Igreja, que, arquitetonicamente, mostra o sentido da minha vida: que eu me tornei imagem de Cristo.
E vocês sabem como se batizava no Rito antes de Pio V?10 Falamos dos séculos XII e XIII. Quando um adulto era batizado, ele era levado até a igreja e apoiava a cabeça no Altar: é o Corpo de Cristo. Se era uma criança, era elevada sobre o Altar, como o Pão Eucarístico: é o Corpo de Cristo.
Veja que espetáculo a imagem 2.20: no solstício de inverno, ao meio dia, entre os dias 21 e 27 de dezembro, o sol ilumina os capitéis do lado oposto àquele de Cristo, ou seja, Cristo é a Luz e estes capitéis desvelam o seu sentido. E o que está representado nesses capitéis? A criação e o Antigo Testamento. Eu entendo a criação e o Antigo Testamento, apenas em Cristo: Cristo é a Luz!
Essa é a mentalidade do cristão: estando dentro de Cristo, participando da Vida de Cristo, eu raciocino segundo Cristo. E como Cristo raciocina? "Quem me viu, viu o Pai" (João 14,9);
um contínuo aprofundamento. Se tomamos o símbolo, esta é uma realidade, imaginem um grão de trigo, por exemplo, que pode significar um homem bom que ama e se doa e doando-se morre, assim como o grão de trigo: uma realidade significa uma outra; dentro de uma, descubro uma outra.
Agora, no pensamento clássico, essa passagem é intelectual, o que chamamos de analogia. Entre o grão de trigo e aquilo que vejo como significado, há uma operação intelectual, há uma analogia. Isso não tem nada a ver com símbolo; não há significado no símbolo. Quando alguém diz: "Agora eu vou explicar o símbolo da gota de água dentro do cálice", é para chorar, pois ele acabou de a Páscoa de Cristo e a nossa participação, tornando-a uma placa de trânsito. O símbolo não se explica.
Eu escrevi minha tese de doutorado sobre Ivanov," e ele fala do beijo: se eu dou um beijo em uma japonesa, eu, como um bom alpino, não tenho nada que ver com o Japão, porém eu gosto da japonesa, amo-a e gostaria de me casar com ela; eu a beijo, e não preciso escrever três páginas e traduzir em japonês para ela entender o que eu quero dizer. O beijo a envolve e ela mesma consegue ler. O beijo é um símbolo, tanto é verdade que Judas teve que destruir o símbolo, ele disse "Eu vos darei um sinal" (Mt 26,48); caso contrário, ele iria beijar Cristo e os militares não o teriam prendido, pois o beijo significa amor. Ele deveria ter dito: "Não é verdade, é um sinal", e ele explica o que isso significa, ele coloca dentro o sinal.
Cristo é o grão de trigo, tanto é verdade que o trigo torna-se pão, o pão torna-se Cristo; tudo foi criado por meio dele e em vista dele. Então Cristo é o trigo, nós encontramos Cristo no trigo; Cristo é também o homem bom que se doa; é o Filho de Deus, doado pelo Pai que, quando morrer, liberará toda a sua força, todo o seu amor e toda a sua vida. Aquilo que germina é tudo aquilo que foi semeado, pois no gérmen passa toda a semente, fica somente a casca.
Então vejam, o nexo entre realidades diferentes, entre diversos mundos, é uma Pessoa com a sua relação com o Pai, com os homens e com a criação. O símbolo é fundado em Cristo. "Quem me viu, viu o Pai" (Jo 14,9) e quem me vê, vê o sentido da água (Batismo), o sentido do trabalho (Eucaristia, fruto do trabalho que se torna alimento de Vida Eterna); quem me vê, ve o sentido do trigo, do vinho, da morte, da doença (Unção dos Enfermos); vê o sentido da sexualidade (Sacramento do Amor - Matrimonio), tudo é entendido. A unidade de dois mundos é uma Pessoa e quem nos revela isso é aquele que estava atrás do trono, ou seja, o Espírito Santo. Pois, sem ter a Vida do Filho, eu não conheço o Pai. Se todos se levantam e dizem: "Veja Marko, este senhor éo meu pai"; eu estendo a mão e digo: "Bom dia, senhor". Mas ai me dizem "Eu gostaria que você o chamasse de papai". Bom, eu até posso chamá-lo papai, mas é ridículo, porque ele não é o meu pai. Apenas quando tenho a Vida do Filho é que faz sentido eu dizer Pai. E aí sim, tendo a Vida do Filho, eu tenho essa mentalidade, pois dentro de uma coisa eu descubro uma outra.
Agora vocês entendem que estou falando de uma perigosa e trágica bifurcação, estou falando do momento no qual abandonamos o símbolo e escolhemos a Suma, o Tratado. O atual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Pe. Ladaria," se não é o mais, está entre os mais eruditos teólogos do momento, um homem de muitos conhecimentos, escreveu uma importante obra na qual explica o drama no qual caímos quando perdemos o símbolo e escolhemos Tratado, a lógica conceitual, argumentativa. A bifurcação é: pode-se fazer do cristianismo um conhecimento intelectual, doutrinal, ideal, mas que não tem a ver com a vida. Para entrar na vida é preciso se empenhar com a vontade, com a ascese, com as obras, mas não é assim.
Cada conhecimento é capaz de unir-me ainda mais a Cristo, porque nós cristãos temos uma mentalidade simbólica; eu vejo uma coisa e nela encontro Cristo, e me uno a Ele; unindo-me
a Cristo, uno-me a Seu Corpo, que somos nós. Por isso João diz que o conhecimento é a Vida Eterna (Jo 17.3; 8,32).
Tanto que nós chegamos no ponto de ter um grande conhecimento, tantos livros para explicar, mas somos incapazes de fazermos ver Cristo e o mundo não nos ouve, pois somos uma espécie de cristãos nominalistas: ideias claras, grandes valores, grandes proclamações, mas a vida é praticamente aquela do mundo, da internet. Comemos aquilo que o mundo oferece.
Eu e um bispo italiano havíamos participado de um grande encontro e, ao final, ele me disse: Veja Marko, agora essas 3 mil pessoas vão para casa à noite e vão começar a comer aquilo que Thes preparou o mundo, até umas duas horas da madrugada, e tudo o que nós fizemos aqui não terá mais nenhum sentido para elas, pois é apenas uma questão intelectual". Mas não é verdade, nós temos uma mentalidade sacramental. Gregório Magno" já disse que aquilo que é Cristo passou para os Sacramentos; a nossa mentalidade é litúrgica, onde eu sempre descubro algo ainda mais profundo.
Uma vez eu fui escondido em uma igreja que haviamos feito, estava em um canto e via as pessoas chegando para a missa, mas faltava ainda bastante tempo. Chega uma senhora, vai até uma imagem onde uma mulher lava os pés de Cristo, ela para ali, olha durante muito tempo e começa a chorar. Em seguida, o pároco, que é sempre o "perigoso", diz na missa "temos aqui o Pe. Rupnik". Veio essa mulher e disse: "Padre, eu não sou uma fiel, eu vivi muito mal; mas, desde quando a igreja é assim, eu venho aqui muitas vezes, porque meu marido morreu, com quem eu vivi muito mal; no último período, ele estava imóvel, eu dava banho nele todos os dias, não permiti o auxilio de uma enfermeira, meu esposo me dizia para não fazer, para não
se cansar e eu lhe respondia que me deixasse fazer. Quando vim um dia aqui nesta igreja e vi esta imagem [como o rosto tem traços muito simples, que não é individual, todos podem se identificar naquele rosto], percebi que eu sou esta mulher. Se é verdade que o Sacramento diz que somos o Corpo de Cristo, eu e o meu marido, então eu lavei Cristo, talvez isso lavou também os meus pecados". Diante disso eu falei: "Mulher, a tua fé te salvou, vai em paz". Ela explodiu em um pranto, porque isto é a mentalidade simbólica, quando um se reconhece dentro apesar daquilo que ele é. Símbolo é a livre adesão, não é constrangimento. Se eu apresento um argumento e você não está de acordo, então você é um cretino, não entende nada. O símbolo é o amor, pois Cristo une os dois mundos com amor, e o amor só pode ser livre: o símbolo conserva o espaço livre. Isso é extraordinário!
Aquilo que acontece na Eucaristia, acontece também depois da Liturgia. Nós aprendemos a comer da Eucaristia, a vestir-se da Eucaristia, a arrumar a casa e tudo isso nós perdemos. É importantíssimo recuperarmos! Pois dentro de uma coisa está uma outra, eu vejo o grão e me uno a Cristo; como o trigo e como a memória de Deus; amo Cristo, e encontro aqueles com os quais sou um em Cristo e no mundo. Se eu amo uma mulher, lhe entrego um ramalhete de flores e digo: "Veja Natasha, te amo tanto, pegue este pequeno ramalhete de flores como minha livre adesão". Ela pega as flores, diz "Obrigada Ivan" e joga fora. É importante entender... Aquelas flores, ela pegará uma pétala e guardá-la-á dentro de um livro, porque aquelas flores não são apenas flores, são uma história, um rosto, uma voz. É assim que se começa a amar o mundo, pois as coisas não são mudas, elas falam. Um anel em uma joalheria é uma coisa banal, mas quando alguém o compra e o dá à pessoa amada, não é mais um objeto, é um lugar de encontro, isto é, um símbolo. Não se aprenderá nunca o que é o mundo simbólico, senão recebendo a vida que é amor, que é comunhão. O indivíduo não entende, nem gosta, nem cultiva o símbolo, porque não tem a vida que é comunhão.
Às vezes, tem alguns estudantes que vêm estudar comigo, mas não correspondem... Então eu os chamo e digo: "Escuta, faço uma pergunta muito pessoal, aconteceu alguma vez de você não conseguir dormir à noite, porque ama tanto uma pessoa e essa pessoa está mal, e você não consegue fazer nada, não dorme uma noite, nem a segunda noite, nem a terceira e fica assim semanas, isso já te aconteceu?". E ele responde "Não". "Entendo", digo eu. Enquanto não entra no amor, a inteligência de Cristo é estranha, a inteligência da Páscoa é estranha, a inteligência litúrgica, sacramental, simbólica, por isso vejam, no seminário, ao invés de iniciar com a filosofia, seria muito melhor se introduzíssemos a Igreja. Enquanto um seminarista não se encontrar na dor do amor, não entenderá nada da Eucaristia, nem de nenhum Sacramento e, menos ainda, de Arte Litúrgica.
Capítulo III O edifício cristão | O Corpo de Cristo como modelo perfeito para a arquitetura litúrgica
Neste capítulo, iremos refletir sobre a estrutura do edifício eclesial. Se o capítulo anterior explicitava a necessidade de reavivar um pouco a memória acerca do símbolo, que é típico da mentalidade cristã, vamos agora nos adentrar na compreensão de como se estrutura o edifício litúrgico.
A certa altura, os cristãos deixaram as casas em que era costume celebrar, casas feitas igrejas, e isso para eles era muito significativo, porque a Eucaristia é o ingresso no Reino, e, por tanto, é voltar para a casa do Pai. Era, pois, muito importante o fato de celebrar nas casas.
Quando eles se mudaram para lugares públicos, pessoas importantes haviam se convertido e elas puseram à disposição outro tipo de ambiente, por exemplo: mercados e outros grandes espaços. Então, os cristãos celebraram a missa sem fazer mudanças relevantes no espaço. Sucessivamente, porém, celebrando a Eucaristia, começaram a entender que o espaço havia mudado, pois a Eucaristia é a transfiguração do mundo e da humanidade. Lá onde se celebra a Eucaristia, o espaço muda, pois se faz presente um princípio de transfiguração. Então, começou-se de verdade a estudar o modo como ordenar o espaço litúrgico. E qual foi a visão que prevaleceu? Foi a visão de que é a própria Eucaristia que, enquanto Sacramento central e, portanto, coração da Liturgia e da Igreja, determina a estrutura do edifício.
Virgem Tudo isso é muito difícil para nós o entendemos hoje. Eu sou chamado por muitos Bispos pelo mundo afora para oferecer consultoria a respeito de novas igrejas e sempre encontro a mesma situação: o projeto da igreja já está pronto, segundo uma determinada linha arquitetônica; agora, porém, se faz necessário achar o espaço para o altar, para o ambão, para a" Maria, para o órgão, etc. Então eu digo: é tudo inútil! O tempo já foi desperdiçado, porque não se parte do invólucro para depois começar a pensar em como vai ser a configuração interna da igreja. Agindo assim, nós "assassinamos" o que estamos celebrando. Na realidade, é a própria celebração que cria o espaço.
Eu vivi uma experiência muito engraçada. Em Belgrado, capital da Sérvia, país integralmente ortodoxo, são pouquíssimos os sérvios que não sejam ortodoxos, contam-se nas duas mãos os que não são. Eles começaram a construir a Catedral Ortodoxa de Belgrado, no final do século XIX. Em seguida, aconteceu a Primeira Guerra, depois a Revolução Comunista, depois a Segunda Guerra, e a Catedral continuou a ficar em 4 ou 5 metros de altura. Sucessivamente caiu o Comunismo e chegou a ser presidente um tal de Milosevic,' homem durão que fez eclodir uma grande guerra na ex-Iugoslávia. E tudo parou novamente.
Mais tarde, um professor genioso, engenheiro civil, disse: "eu vou construir a Catedral!" O Patriarca deu a sua benção, juntou uma grande equipe de especialistas sobre como construir a Catedral, que deveria ser a maior igreja ortodoxa na Europa. De fato, não é muito menor do que a de São Pedro.
Começaram então a preparar os planos. E aconteceu um fato muito favorável ao engenheiro: quando Milosevic foi deposto, ocupou o cargo um Primeiro Ministro animado de grande fé, um verdadeiro ortodoxo, o qual nomeou o engenheiro Ministro do Governo. Abriu-se, pois, um amplo caminho para a construção da Catedral.
E eu, coitado, católico e, além do mais, sacerdote e jesuíta, fui convidado por esse ministro a fazer parte da comissão; aliás, ele queria que, no tempo oportuno, os mosaicos fossem feitos pelo meu ateliê. Eu disse: "não é possível! São mais de 16 mil metros quadrados de mosaico". Levariam 20 anos para serem concluídos, eu vivendo no lugar!
Em uma das reuniões importantes em que participei, estava o Patriarca. Era um santo homem, monge, baixinho, de grande fé, muito espiritual, humilde, distanciado da Igreja imperial e paraestatal. Vivia sozinho no Patriarcado, pois havia dispensado a todos, ele mesmo preparava a comida, opôs-se ao Comunismo e a Milosevic. Era já idoso e faleceu com 97 anos. Nós dois nos tornamos grandes amigos, ele me tratava como a um filho. Eu sempre fazia referência a ele, pois para mim era um homem extraordinário. E já que Deus me fez a graça de encontrar na hora certa o homem certo, aproveitei para aprender muitas coisas com ele.
A reunião durará toda a manhã, das 9h às 13h e depois das 15h às 20h. Às 19h o Patriarca, que nunca abrira a boca para falar, levanta a mão. Todos calados. Arquitetos, engenheiros, teólogos: todos calados. E ele falou: "fiquei escutando por cerca de 8 horas e vi que vocês são verdadeiramente cultos, sabem de muitas coisas. Eu desconhecia que fosse possível conhecer tantas coisas assim! E agradeço-lhes de coração. Eu rezei por cada um de vocês, o Senhor abençoe vocês, suas esposas, seus filhos. Nós estamos querendo construir uma igreja; tenho, porém, de lhes dizer que todo esse seu saber, que é muito vasto e que admiro grandemente, não serve para aquilo que estamos pretendendo realizar".
Ele pega um papel, um lápis e diz: "Escutem! Fala o chefe da Igreja da Sérvia. Para o Batising o diácono faz isso, segue estes passos; o batizando faz este percurso, a família faz este percurso, a assembleia faz este percurso; para a Eucaristia, fazemos este percurso... Ele resenhou tudo! E prosseguiu o que desenhei, referido ao projeto de vocês, não é possível: Por terão de eliminá-lo, porque não nos serve. A Igreja é isto! Vocês são muito cultos, sabem como fazer. Estes, porém, são os passos que devemos seguir. Este é o primeiro nível o coração, Eo segundo nivel, este é o terceiro nível".
Vejam: hoje os nossos Bispos não têm a coragem de fazer isso. Foram inúmeras reuniões, o Bispo é vítima da Comissão e a Comissão normalmente é uma malta, cada um apresenta seus e apoia os seus. A Igreja, porém, não é isso. A Igreja é o chamado! O bispo chama e dá uma missão e o arquiteto, ou um grupo de arquitetos, deve construir a igreja a partir do interior a Igreja: da Igreja nasce a igreja!
Recordo o que já escrevi sobre São João Crisóstomo: do Corpo de Cristo, que era grep, emerge a Eucaristia. Se a Eucaristia determina como deve ser o espaço, ele nasce da Igreja
Além disso, é necessário instaurar um diálogo com os não fiéis. Este é um grande arquiteto, mas não frequenta a igreja. Não importa. Nós não precisamos de grandes igrejas, a igreja será sempre pequena, o número de fiéis será sempre menor. Nós precisamos de igrejas na medida da Igreja. E vejam o que diz o Concílio Niceno II- quando os cristãos se dispersam pelo mundo, trabalhando durante a semana, se alguem entra na igreja, mesmo se não houve celebração litúrgica, o altar, o ambão, a arquitetura, as paredes, ja revelam por si se o que é Igreja. E celebram permanentemente, porque fazem parte do Eschaton, do cumprimento.
O Bispo chama, dá a missão e a equipe, os arquitetos, deverão construir a igreja a partir da igreja, em dialogo, participando da Liturgia. "Tudo bem, mas é possível guiar também um Ateu? Sim, é possível. Vejam como é possível.
Eu sou poeta e você gostaria que eu escrevesse uma poesia sobre a sua namorada. Você me entrega uma fotografia dela e diz: Marko, esta é a minha Natasha! Você pode compor uma persia? Claro! Vou escreve-la, mas como vai ser o resultado? Muito diferente de como seria se escrevesse a poesia sobre uma mulher que amo mais do que a mim mesmo.
Eu posso guiar, de algum modo, um ateu e, se eu disser para ele que a Eucaristia é a passa para o Reino, procurarei também oferecer esclarecimentos.
Vejam no desenho, podem se ver dois círculos distintos, cada um é uma realidade. Quem estiver no primeiro bloco, pode tentar explicar o que é estar no segundo bloco, mas na realidade ele nunca esteve lá.
Eu nasci nas montanhas encobertas de neve, aprendi a nadar aos 54 anos e pensei que iria morrer. Quando vi os outros nadando, isso me pareceu muito bonito, E quando me explicaram como fazer entendi tudo. Quando, porem, entrei na água, a realidade foi bem diferente. Como posso explicar a um arquiteto, que nunca esteve no Reino, como é o Reino? E isto que eu gostaria de saber.
Quando um presbítero vai atender uma pessoa moribunda, se ele for padre jovem, a falar muitas coisas e o moribundo não sabe o que fazer. Quando o padre se torna experimentado na vida, dirige-lhe sé umas três palavras, porque já está saboreando a vida que é encerrada na morte.
O problema hoje na construção do edifício é que nós entregamos a tarefa não só a não es mas também a católicos não fiéis. Há, também, de fato, arquitetos católicos, padres católicos e até mesmo Bispos, que não têm essa experiência da Eucaristia, Então como é possível construir um espaço celebrativo, uma igreja? t por isso que se realizam coisas estranhas: é por não se ter essa experiência..
Então isso que você está propondo e uma coisa circunscrita a um grupo, não é about universo... Não, calma! A Liturgia e a articulação da vida da Igreja no seu interior. Eesmo o leito para o matrimônio. Se vocês dois são casados, eu não creio que vocês queiram convida uma pessoa qualquer para decorar a cama nupcial. Por isso, o marido e a mulher dizem:cal somos nós que vamos fazer isso. Aqui não quero ver certas coisas, aqui vamos fazer o que esteja de acordo com o nosso amor.
Nós pensamos que a colaboração com o mundo significa trazer o artista da galeria igreja. Não é assim! E os coitados dos fiéis são vítimas disso, pois eles entram em um esp onde a pessoa que realmente reza adverte tudo muito estranho. Nós ridicularizamos a nossa verdade, não digo: o mundo ou os inimigos, digo nós! Nós a desvalorizamos
Em toda a Europa, posso dizer com tranquilidade que nem o Fascismo, nem o Nazism nem o Comunismo, descristianizaram a Igreja tanto quanto a arquitetura e a arte. Pois essa é a nossa identidade. Imaginem o Concilio Niceno II, e depois vocês entrem em uma igreja de Finje, que é o autorretrato da Igreja, e cada um vai dizer: Não, obrigada, eu não quero isto!
Devemos prestar muita atenção! Se é a Eucaristia a que constitui o espaço (a que dá a forma ao espaço), então nos devemos ser pessoas de existência eucarística! Senão, o que faremos? Inventamos!
Eu estava nos Estados Unidos em um grande estúdio de arquitetos. Tinham construído a igreja, supermoderna, maravilhosa, mas não uma Igreja! Entro e vejo a abside com três inclinações diferentes, oito metros assim, mais oito metros assim e mais oito metros assim (movimentos de inclinação). Espontaneamente, por impulso, digo: Oh, meu Deus! Se fosse possível fazer uma contra-abside, poderíamos fazer uma igreja. Infelizmente falei isso em inglês e o arquiteto entendeu. E disse: você quer me ofender? Digo: não! Só não compreendo o porquê você fez desse jeito (referindo-se às três inclinações da abside). Ele falou: Não sabe? Qual é o dogma fundamental do Cristianismo? Digo: a Trindade! E ele: as três inclinações na parede são a Santíssima Trindade! E eu: é verdade! Jamais teria pensado nisso! Nem eu, nem nenhum dos católicos, mas é verdade!
Conosco estava o Reitor e perguntei: quanto foi o custo das três inclinações? Respondeu: trezentos mil dólares! Falei: tenho uma solução! Ei-la: durante a missa o coroinha se coloca perto do altar e fica com a mão erguida com três dedos para cima. E o arquiteto: o que significa? Eu: a Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo! Dez dólares por missa. Em 120 anos chegamos aos 300 mil dólares. Muito mais barato, mais orgânico e obteremos uma linda abside.
Vejam: isso é o subjetivismo simbolista: eu vejo assim, você vê assim. Mas ninguém mais vê assim! Como seria possível?
Vamos agora procurar examinar qual foi o ponto de vista que os cristãos acolheram quando começaram a constituir o espaço. Como já disse, a Eucaristia é eixo importante, a Eucaristia está relacionada ao sacerdócio. Por isso, Eucaristia e sacerdócio oferecem por si mesmos a solução.
A carta aos Hebreus diz: Cristo, sumo sacerdote, novo templo, nova liturgia. Antes, o templo antigo, o sacerdócio antigo, a liturgia antiga foram dados a fim de que pudéssemos entender a obra de Cristo. Agora, porém, com a obra de Cristo, as coisas velhas desapareceram (Hb 7-10). O capítulo 8 da Carta aos Hebreus termina exatamente assim: e as coisas antigas desapareceram
E o que dizem esses três capítulos fundamentais (8, 9, 10) da Carta aos Hebreus? Moisés recebeu a ordem de Deus para fazer duas tendas, mas Deus lhe mostrou só um modelo, não lhe mostrou concretamente duas tendas no céu. Ele fez um só modelo. Imaginem uma Ferrari perfeitamente reproduzida em plástico. Vista de longe, pode-se dizer: é uma Ferrari! Quanto você, porém, quer fazê-la funcionar, ela não vai. Vejam: esse é o modelo que Deus deu a Moisés eu lhe mostro o modelo de uma Ferrari, não deixo você ver a Ferrari, digo apenas como é feita, e você, conforme esse modelo, constrói na terra uma Ferrari, a qual será modelo do modelo.
A primeira tenda, imaginemos que seja o círculo. O que ele significa? É a humanidade. O homem começa a viver e à sua frente o que encontra? Um véu, representado pelo traço na frente do círculo: A morte. E agora o que pode fazer o homem? Gostaria de ir até Deus. De fato, começa a fuga para o alto (observe a seta partindo do círculo para o alto). Significa o Idealismo de todo tipo. Começa outra fuga (observe a seta partindo do círculo para baixo). Representa as paixões, a matéria, a carne. Vivamos comendo e bebendo, pois amanhã morreremos. As duas fugas terminam do mesmo modo. Nenhum Idealismo, nem filosófico, nem religioso, jamais conseguiu fazer com que um quilo de carne humana entrasse no Eschaton. Igual a quem come, bebe e amanhã morre. É a mesma coisa. E por quê? Porque a solução não é essa. A solução poderia ser encontrada no atravessar o véu (Observe a seta no centro do círculo). E o que há atrás do véu?
Nós dizemos: Deus! Seria a vida eterna. E como ela é? Cada qual inventa algo. E qual é a ligação? É só no nível do pensar, é só uma questão intelectual, pois ninguém que tenha passado para o outro lado voltou para dizer-nos como é.
E o que é esse véu que nós não podemos atravessar? E o pecado e a morte. Vocês sabem que o salário do pecado é a morte (Rm 6,16-23). Por isso, não podemos ir para além do vou pois seria necessário viver sem pecado para podermos viver eternamente e nunca morrer E isso nenhum homem pode. Por isso, Cristo afirma claramente a Nicodemos:"Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu (30 3,13). Por isso vejam: na figura 3.4, a segunda a tenda, é o verdadeiro santuário onde habita Deus Pai.
Com efeito, no Templo de Jerusalém, o sumo sacerdote entrava na segunda tenda, onde ficava a arca da aliança, uma vez por ano e só o sacerdote entrava. Aquela segunda tenda, porém, não era o verdadeiro santuário, era um modelo não é que o sacerdote entrasse diante de Deus Pai, no Reino dos Céus. Ele entrava apenas em uma tenda que eles mesmos haviam feito. Era apenas a imagem do verdadeiro Santuário.
Observe a seta da figura 3.5. que sai do Santuário e vai até o primeiro círculo. E o Filho Cristo que estava junto com o Pai, no mesmo círculo, que o Pai envia através dos céus, e Ele se iament, entra verdadeiramente na humanidade: vive como homem, tem medo da morte
Carta aos Hebreus (5.7-10) diz que Cristo fez uma Liturgia de lágrimas e de fortes gritos para ser libertado da morte. Ele tinha medo, como todos nós. Ele foi provado em tudo, como solidário em tudo, exceto no pecado. Se Ele tivesse pecado, não poderia ser solidário, pois pecado separa. Ao contrário, Ele pode estar totalmente unido ao destino do homem, porque tagia sangue (Le 22,44). "Tenho de morrer". De fato, para a humanidade, não há saída, só tinha pecado. Uniu-se totalmente ao homem e agora se encontra diante do Véu, treme, Pescia não há: os fariseus e os escribas não se salvam; os pagãos (para baixo), que gozam a da também não escapam da morte. É preciso passar pela morte, morrendo, E Ele é o único que sabe que atrás do Véu está o Pai, não o nada, o Pai!
E diz: "Pai, quer mesmo que eu morra? Não há outro caminho? Não, não há Você foi enviado para identificar-se com Adão morto" (Le 22,42). Por que Adão morreu? Porque pecou. Então Cristo diz: "Eu, seu Filho Eterno, devo ser tratado como pecador? Sim. Eu permito que você que não conheceu o pecado, que não pecou, seja tratado como pecados, pois você não poder identificar-se com Adão morto, se não passar por onde a morte surgiu, isto é, pelo pecado.”
Essa é a verdadeira Paixão de Cristo que, sendo Filho de Deus, precisou identificar-se com os pecadores. Evidentemente, aqui, com a lógica não simbólica não é possível compreender, aqui, sé se compreende com a lógica relacional. Ele entra na morte, sobe a cruz em que se tornará órfão, em que não mais verá o Pai e o Pai perderá o Filho. A ruptura deve acontecer pois Adão rompeu com Deus. E Cristo pode fazer isso por ser totalmente obediente ao Pai, oct amá-lo totalmente é preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai, e faço como o Pai me mandou" to 14,31). O véu é a cruz, que se rasga e revela o Santuário, a Jerusalém Celeste.
Perceberam, a que a teologia é simbólica, è relacional, é litúrgica, é antinômica: dois opostos juntos dizem a verdade. Totalmente separado, Jesus não chama o Pai como Filho, chama-o como Adão: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,46; cf SI 22,1). Ele fala como Adão, identificou-se como Adão. Identificou-se, porém, totalmente com Adão, porque totalmente unido ao Pai
muito belo tudo isso: totalmente separado e totalmente unido! Morre na cruz e no mato da morte, diz o Evangelho, o Véu se rasgou, não de baixo para cima, mas de cima para baixo pois foi Deus quem o rasgou! De cima para baixo! (Mc 15.38). E não foi aberto em zigue zague, foi rasgado, de modo que nós não podemos mais fechá-lo. O capítulo 10 da epístola aos Hebreus expressa: Nós temos um caminho novo e vivente, aberto até o santuário, trono da graça (Hb 10,19-23).
E quando o Véu se abriu, o humano entrou no Santuário, mas qual ser humano? O ressuscitado! O Pai a ressuscitou! Toda a humanidade se tornou amor filial..
"Está consumado" (Jo 19,30). É o segundo grito de Cristo na cruz, segundo o Evangelho de João. É o grito do vencedor, do lutador que no início da luta dá um grito e no fim dá o grito da vitória: "Pai, a humanidade, que você me deu para que a assumisse, não é mais rebelde; tudo foi penetrado pela vida do Filho, tudo é obediência e amor filial, tudo está consumado, Pai E Pai o acolheu e o ressuscitou".
E agora o espaço do primeiro círculo e totalmente diferente (observem a seta partindo do círculo do homem e entrando no círculo de Deus), é a humanidade ressuscitada, filial e se adentrou diante do Pai (cf. Figura 3.8). Essa abertura é como se em um dique se abrisse uma fenda. O humano entrou no Santuário e o Divino se derramou no homem.
As suas realidades juntas, o círculo do homem e o círculo de Deus com a cruz en sac Cristo, divina humanidade, as duas tendas, humana e divina, pois o azul é a cor da humanidade (o homem é a única criatura que olha para o céu), e o vermelho é a cor de Deus recorda o sangue e o livro do Levítico 17,14, que diz: "a vida de toda carne é o sangue”. No sangue habita a vida e a vida pertence ao Senhor. Por essa razão os cristãos usaram as cores smara é o humano e vermelho é o divino. Isso até o Renascimento, depois acabou tudo.
As duas tendas (o céu com o Pai e a terra com os homens) são Jesus Cristo. E o que é essa abertura no meio? (indicando a passagem aberta pela cruz entre os dois círculos). Este caminho vivo e acessível é a Liturgia. Ela nos enxerta em Cristo, em Cristo fazemos a Páscoa (passagem entramos no Reino do Pai
Esta abertura é a Liturgia. E a Igreja, que é constituída pela Liturgia e constitui a Liturgia, coincide com Cristo, pois ela não coincide com o Reino dos Céus.
Observe o novo círculo na figura 3.9. Essa nova cor não coincide com o azul (círculo do men, mas já entra no Reino (abrange parte do círculo de Deus). Nas ações litúrgicas, nas Laudes ou nas Vésperas, na Unção dos Enfermos, em cada liturgia, nos entramos no Reino.
Aquilo que ainda falta (a outra parte do círculo de Deus) está por vir no Estates, quando Con será tudo em todos!
Nessas duas tendas de cor rosa (ef. figura 3.101, está a planta-hase para a arquitetura cristã esta é a Igreja! A igreja deve ter uma parte absidal. E agora se entende logo o que é zab É o colo-seio de Deus Pai, pois vocês lembram que no Santuário habita Deus Pai, de quentada procede. Também o Filho é enviado por Ele e a Ele tudo retorna.
Como deve ser a abside? Côncava, como no desenho. Por quê? Porque o modo de existir de Deus é a forma côncava. E o que quer dizer côncavo? E o esvaziamento de si e o acolhimento do outro. Se você entra em um espaço onde há uma abside côncava, em qualquer ponto que você estiver, o foco estará sempre na abside.
Os cristãos compreenderam imediatamente o foco do novo mundo, o foco do unde Cristo to Fai não no Cristo. Quando Cristo entrega a missão aos discípulos, não diz "a fim de que creiam em mim", mas diz: "a fim de que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17, 21), pois a meta é o Pai.
Quando o cristão entra na igreja, o que encontra à sua frente? A sua origem e a sua meta. Encontra a sua identidade de filho, conhece o Pai, por isso é filho. É só entrar na igreja e tudo fica claro.
Quando se entra em uma igreja moderna, o que se encontra na abside? Bom, já quase não existe mais o côncavo, mas se encontra o que? O crucifixo! E essa é a coisa mais absurda que podemos imaginar. A única coisa que jamais deveria estar na parede da abside, sempre se lembre disso, é o crucifixo. Infelizmente, isso se dá na maioria de nossas igrejas, pois fizemos uma religião fúnebre.
Por treze séculos, a Igreja se defendeu contra essa prática. E, se havia o crucifixo na abside, ele devia estar inserido no Mistério Pascal como em Ravena. Jamais sozinho!
O crucifixo, onde devo colocá-lo? Onde está o Véu, no ponto de passagem! Os franciscanos foram os primeiros a colocar o crucifixo no altar, pendurado acima do altar, pois sabiam muito bem que o seu lugar não era na parede. Ali é passagem e não meta, dali se passa, mas não é o ponto final de chegada.
O sentido da sua vida não é ser crucificado, mas ressuscitado! Se você foi crucificado e não ressuscitar, que caminho é esse? Tudo isso é coisa muito séria. A cruz dos frades foi incrustada de pedras preciosas, pois isso evidenciava que é vida.
Alguns dizem: "Depois do Vaticano II,' não é mais necessária a abside". Como não? Onde isso está escrito? Não é verdade! É que entendemos mal, apressadamente, o que quer dizer celebrar de frente para o povo, Esse fato não exclui a abside. Pelo contrário, se não há a abside vai emergir um clericalismo puro, pois eu me torno aquele para o qual se dirigem os de todos. Todos olham para mim e eu fico suando todinho, pois preciso ser muito bom no que faço, preciso segurar a atenção do povo.
Pense bem, a abside não é uma coisa inócua. Eu fui chamado por um Bispo e ele me disse "Temos uma igreja muito problemática. Então fui ver. O sacerdote, que era pároco do lugar disse: "Há algo nessa igreja que nos leva a celebrar muito mal. Tinha sido construída por um arquiteto renomado! Eu disse: "Isso é verdade?". Ele disse: "Sim, muito mal mesme". Diga "Você tem certeza?". "Sim, aqui se celebra muito mall". "Não acredito!". Eu já me rinha da conta de tudo, só estava brincando. Como estavam chegando outros padres que queriam me cumprimentar, um deles falou: "Eu venho aqui de vez em quando para celebrar funerais, porque alguns dos meus paroquianos devem ser sepultados aqui e posso confirmar que se celebra muito mal".
Então eu digo, certo... Se celebra mal neste espaço, porque a abside é feita deste moda it figura 3.11-B) e não côncava como deveria ser (cf. figura 3.11-A).
Não é por acaso que muitos grupos maçônicos representam a Deus como arquiteto, por que o espaço é incomensuravelmente mais importante que a Palavra. Uma arquitetura errada ganha sobre cem mil pregações dos melhores pregadores do Brasil! Absolutamente! Senão, seria o contrário, a Palavra se fez espaço. O espaço nunca é inócuo, sempre fala! E de modo muito mais eloquente do que a palavra.
A igreja é formada por essas duas tendas (cf. Figura 3.10), com o Pai que acolhe, como veremos na última palestra, porque a Eucaristia é a escola em que podemos descobrir novamente como construir a igreja, como pintá-la, como dispor as estátuas, os afrescos, etc., pois é nessa dinâmica que nos movemos. O Concílio Vaticano II reafirma justamente isto: quebre este balaustre que foi posto aqui neste meio novamente (referência à mesa da comunhão que ficava entre o presbitério e a nave nas igrejas mais antigas) e evidencie o fluxo divino-humano entre o povo e o Pai, através do Filho. A vida divina entre o Pai e o Filho, que é o Espírito Santo, derrama-se nessa dinâmica. Por isso, esta é a planta-base (cf. Figura 3.11). Agora, cada um pode inventar muitas coisas! Muitas formas! Mas elas devem expressar este encontro: o divino que acolhe o humano, o humano que vem, trazido pelo Filho.
No último capítulo, sobre a Eucaristia, iremos perceber o quanto é valiosa essa passagem. Se, porém, não estiver claro, vai ser difícil viver a Eucaristia já agora.
Um bispo francês me dizia que um de seus padres era muito atualizado, contemporâneo, pós-moderno (que quer dizer subjetivista. Há duas correntes subjetivistas dentro da Igreja: a do Concílio de Trento e a da coca-cola. Ambas seguem o subjetivismo e se consideram mais importantes que a Igreja). E esse padre celebrava a missa como queria. Certo dia, um senhor
me escreveu, dizendo "Entendi o nosso pároco e onde está o seu problema. Fomos em peregrinação a uma antiga Abadia no Maciço Central, na França, onde vivia um famoso domicanc Já o padre celebrou a missa de uma forma muito comum, sem acrescentar nada, sem comentários, sem relevos. Uma missa bem normal. A minha explicação é a seguinte: a nossa paróquia é uma igreja pós-moderna, feita com uma arquitetura subjetivista, com uma arte subjetivista e o padre se sente confortável, pois lá ele é o ator principal. Ao entrar em uma igreja do século XI, com o rigor do mistério, ele se encolheu
É verdade: o espaço determina muitas coisas. E penso que se recuperarmos pouco a pouco essas coisas, começaremos a entender como pensavam os antigos. E vocês sabem que, se quisermos aprender a liturgia e a arte litúrgica, teremos de estudar o tempo em que elas n ceram, pois é lá que surgiu a intuição original e é exatamente essa intuição que é necessário captar. É inútil começar a estudar a arte litúrgica pelo Barroco. É como estudar a liturgia e querer entendê-la começando de Pio V. Não é possível! Pois já é um derivado, já foi filtrado pela filosofia, pela escolástica, pelo individualismo. É necessário voltar ao início, no momento em que nascia!
Uma última coisa. É muito belo, pois este é o Corpo de Cristo (observem o desenho das duas tendas, figura 3.10 - os dois círculos do humano e do divino entre os quais está a liturgia), é o corpo da Igreja e, como veremos nos próximos capítulo, este é o corpo da Eucaristia. Como vocês entraram aqui? Já o dissemos: morrendo! E como entra a arte? Morrendo.
João Paulo I nunca é citado, mas eu precisei estudá-lo, pois ele havia iniciado o processo de beatificação do primeiro escultor católico. E ele diz: "Na Igreja não há coisa alguma autônoma, nenhuma arquitetura, nenhuma arte. Tudo está submetido à expressão de um amor obediente ao Corpo de Cristo, pois na Igreja existe apenas a humanidade de Cristo". É como eu disse antes: a humanidade de Cristo é totalmente filial, eu não posso afirmar a mim mesmo. Percebem como isso é grande? E como tais coisas andaram perdidas, porque nós começamos a encher a igreja com um monte de coisas? "Ao pároco agrada um altar que seja um tronco de árvore", e nós o colocamos lá. E ainda: "Como ambão ele gostaria que houvesse um bloco de rocha, tal como se acha no campo". E ainda: "Que do interior da igreja seja possível ver o palácio, o mundo, uma igreja aberta". Então, eis que se deixam as janelas abertas, assim que durante a missa eu posso ver a senhora pendurando no varal seus sutiãs e suas calcinhas. Eu estou citando exemplos, mas eu mesmo vi essas coisas!
E também, como agimos com relação ao canto e à música? É do mesmo jeito que se canta e se toca em uma praça. A única diferença é que utilizamos palavras com sentido religioso. E então inserimos Nossa Senhora, São José, Cristo e cantamos. Está tudo errado!
A Eucaristia não é Natal. No Natal, Cristo é nosso hóspede, e se nessa noite eu for me juntar à família de vocês, eu vou me comportar como vocês, pois sou seu hóspede. Vou comer aquilo que prepararam, não sei se tenho de tirar os sapatos (na Rússia isso é necessário e eles oferecem sandálias novas só para você), preciso fazer o mesmo que vocês fazem.
Se vocês querem dançar samba, pois querem mostrar que sou bem-vindo, irei sambar e no fim eu lhes agradecerei. Talvez eu sofra um pouco, pois não sei sambar, talvez eu não coma todas as comidas brasileiras, mas por amor irei experimentar um pouco de tudo. Mas a missa é Páscoa, é ingresso no Reino! E o que está escrito? "Felizes os convidados para a ceia do Senhor"! Somos nós os convidados de Cristo! Então, canta-se como disse Cristo, dança-se como disse Cristo, come-se o que Ele preparou, pois somos nós os seus convidados.
Como diz a conclusão do Prefácio das orações eucarísticas: e agora nós, junto com os arcanjos, os anjos e todos os santos e santas, cantamos a uma só voz. E qual é esta voz? É a voz que se canta no Reino; eles cantam e eu me sintonizo com eles. Nós confundimos totalmente as coisas, pensamos que precisamos inculturar a missa no nosso clima cultural. Isto nós fazemos para o Natal. Isso é o início da vida cristã. Quanto, porém, à entrada no Reino, eu devo respeito àquilo que há no Reino e devo aprender aquilo. Os cristãos, quando voltam da Eucaristia, começam a mudar as coisas de acordo com aquilo que ficou em seus olhos, pois agora estão embebidos do Reino.
