Cixin Liu - CAP 1-3
PARTE I Primavera silenciosa
China, 1967
Já fazia dois dias que a União Vermelha vinha atacando o quartel-general da Brigada 28 de Abril. As bandeiras vermelhas tremulavam sem parar em volta do prédio, como labaredas de fogo sedentas.
O comandante da União Vermelha estava ansioso, mas não por causa dos defensores à sua frqente: comparados aos guardas-vermelhos veteranos da União Vermelha, formada nos primórdios da Grande Revolução Cultural Proletária no início de 1966, os mais de duzentos guardas-vermelhos da Brigada 28 de Abril não passavam de soldados rasos. A União Vermelha havia sido forjada pela experiência tumultuosa das marchas revolucionárias pelo país e pela visão do presidente Mao nos grandes comícios na Praça da Paz Celestial.
Mas o comandante tinha medo das cerca de doze fornalhas dentro do edifício, cheias de explosivos e interligadas por detonadores elétricos. Embora não pudesse vê-las, conseguia sentir sua presença, como o ferro sente a atração de um ímã. Se um defensor apertasse o botão, revolucionários e contrarrevolucionários morreriam todos em uma gigantesca bola de fogo.
E os jovens guardas-vermelhos da Brigada 28 de Abril eram realmente capazes de uma loucura dessas. Em comparação com os homens e as mulheres experientes da primeira geração, os novos rebeldes eram uma matilha de lobos andando sobre carvão em brasa, mais insanos que a insanidade.
No topo do edifício surgiu a figura esbelta de uma linda jovem, agitando o imenso estandarte vermelho da Brigada 28 de Abril. Essa aparição foi imediatamente saudada por uma cacofonia de tiros, efetuados por diferentes tipos de arma: peças antigas, como carabinas americanas, metralhadoras tchecas e fuzis japoneses calibre .38; armas mais novas, como fuzis e submetralhadoras-padrão do Exército da Libertação Popular, roubadas do ELP após a publicação do “Editorial de Agosto”;1 e até mesmo algumas lanças e espadas dadao chinesas — o conjunto formava uma versão condensada da história moderna.
Vários integrantes da Brigada 28 de Abril já haviam realizado demonstrações semelhantes. Eles subiam ao topo de um edifício, agitavam uma bandeira, gritavam palavras de ordem com um megafone e jogavam panfletos em quem estava atacando da rua. Em todas as vezes, a pessoa corajosa conseguira escapar em segurança da saraivada de balas e conquistar a glória por sua valentia.
Evidentemente, a jovem achava que teria a mesma sorte. Ela tremulou o estandarte de guerra como se estivesse brandindo sua juventude flamejante, certa de que o inimigo seria incinerado pelas chamas revolucionárias, imaginando que o mundo ideal nasceria no dia seguinte a partir do fervor e da confiança que corriam em suas veias… Estava embriagada pelo brilhante sonho rubro até uma bala atravessar seu peito.
O corpo de quinze anos era tão franzino que a bala quase não perdeu velocidade ao atravessá-lo e seguir sua trajetória. A jovem rebelde da Guarda Vermelha oscilou com sua bandeira, e seu corpo delicado veio abaixo ainda mais devagar que o pedaço de pano vermelho, como um passarinho que não queria abandonar o céu.
Os guerreiros da União Vermelha gritaram de alegria. Alguns correram até a base do edifício, arrancaram o estandarte de guerra da Brigada 28 de Abril e se apropriaram do corpo esguio e sem vida. Alçaram e ostentaram o troféu por um tempo, antes de jogá-lo em cima do portão metálico do complexo.
A maioria das barras de metal do portão, de pontas afiadas, fora arrancada no começo das guerras civis entre as facções para servir de lanças, mas ainda havia duas. Quando as pontas afiadas cravaram o corpo, por um instante a vida pareceu voltar à garota.
Os guardas-vermelhos recuaram um pouco e começaram a usar o corpo empalado como alvo para treinar tiros. Para a jovem, a tormenta intensa de balas agora não passava de uma garoa suave, já que não sentia mais nada. De vez em quando, os bracinhos finos se debatiam com delicadeza na frente do corpo, como que repelindo gotas de chuva.
E então metade de sua cabeça estourou, e restou apenas um único e belo olho para encarar o céu azul de 1967. Não havia dor naquele olhar, só uma expressão petrificada de devoção e sonhos.
Contudo, em comparação com alguns outros, ela teve sorte. Pelo menos sua morte foi um sacrifício fervoroso por um ideal.
Batalhas como aquela estouraram por Beijing como uma infinidade de computadores trabalhando em paralelo: o esforço mútuo produziria a Revolução Cultural. Uma enxurrada de loucura inundou a cidade e tomou todos os espaços.
Na periferia, nos campos de exercício da Universidade Tsinghua, uma “sessão de luta” coletiva frequentada por milhares de pessoas vinha acontecendo havia quase duas horas. Era um evento público criado para humilhar e dobrar os inimigos da revolução, por meio de ataques verbais e físicos, até que eles confessassem seus crimes diante da multidão.
Com a fragmentação dos revolucionários em diversas facções, havia forças de oposição envolvidas em manobras e disputas complexas por todos os cantos. Na universidade, conflitos intensos irromperam entre a Guarda Vermelha, o Grupo de Trabalho da Revolução Cultural, o Time de Propaganda dos Operários e o Time de Propaganda Militar. Além disso, de tempos em tempos, cada facção se dividia em novos grupos rebeldes, com inspirações, motivações e formações diferentes, o que levava a embates ainda mais brutais.
Mas, para aquela sessão de luta coletiva, as vítimas eram as autoridades acadêmicas burguesas reacionárias. Elas eram inimigas de todas as facções, obrigadas a suportar ataques cruéis de todos os lados.
Em comparação com outros “monstros e demônios”,2 as autoridades acadêmicas reacionárias tinham algo especial: durante as primeiras sessões de luta, elas haviam se portado com arrogância e teimosia. Naquela mesma fase, morreram em maior número: ao longo de um período de quarenta dias, só em Beijing, mais de setecentas vítimas das sessões de luta foram espancadas até a morte. Muitas outras optaram por um caminho mais fácil a fim de evitar a loucura: Lao She, Wu Han, Jian Bozan, Fu Lei, Zhao Jiuzhang, Yi Qun, Wen Jie, Hai Mo e outros intelectuais, antes respeitados, decidiram tirar a própria vida.3
Aos poucos, conforme as sessões de luta implacáveis continuavam, os sobreviventes daquele período inicial se tornavam letárgicos. A carapaça mental ajudava a evitar o colapso completo. Muitas vezes, eles pareciam meio adormecidos durante as sessões e só despertavam com um susto, quando alguém gritava e os obrigava aos berros a recitar de maneira mecânica a confissão, já repetida tantas vezes.
Depois, alguns entraram em uma terceira fase. As sessões de luta constantes e incessantes injetaram na consciência daquelas pessoas imagens políticas vívidas, como se fosse mercúrio, até que a mente, estabelecida sobre uma fundação de conhecimento e racionalidade, desabou sob os ataques. As vítimas começaram a acreditar que eram culpadas, a imaginar que haviam ferido a grande causa da revolução, e seu remorso era muito mais intenso e sincero que o dos monstros e demônios que não eram intelectuais.
Para os guardas-vermelhos, impor castigos a pessoas que se encontravam nessas duas últimas fases era muito tedioso. Apenas os monstros e demônios ainda na fase inicial podiam proporcionar àqueles cérebros superestimulados a emoção desejada, como a capa vermelha do toureiro. Mas as vítimas cobiçadas estavam se tornando escassas. Em Tsinghua, provavelmente só restava uma. E, como ele era extremamente raro, foi reservado para o final da sessão de luta.
Até aquele momento, Ye Zhetai havia sobrevivido à Revolução Cultural, mas continuava na primeira fase mental. Ele se recusava a se arrepender, a se matar ou a se deixar entorpecer. Quando esse professor de física subiu ao palco na frente da multidão, sua expressão dizia com clareza: Que a cruz que eu carrego seja ainda mais pesada.
Os guardas-vermelhos realmente o obrigaram a carregar um fardo, mas não uma cruz. Outras vítimas usaram chapéus altos feitos de armação de bambu, mas o dele era de barras espessas de aço, soldadas uma na outra. E a placa que pendia em seu pescoço não era de madeira, como a dos demais, e sim uma porta de ferro tirada de um forno de laboratório. O nome do professor estava escrito na porta com caracteres pretos, e duas linhas diagonais vermelhas estavam riscadas por cima em um grande X.
Ye foi escoltado ao palco pelo dobro de guardas-vermelhos que haviam sido utilizados com as outras vítimas: dois homens e quatro mulheres. Os rapazes caminhavam com determinação e confiança, a imagem perfeita de jovens bolcheviques experientes. Os dois eram alunos do quarto ano de física teórica, e Ye era seu professor. Já as mulheres, na verdade meninas, eram muito mais novas, alunas do segundo ano do colégio de ensino fundamental ligado à universidade.4 De farda militar e equipadas com bandoleiras, elas exalavam o vigor da juventude e cercavam Ye Zhetai como quatro labaredas verdes.
1. OS ANOS DE LOUCURA
China, 1967
Já fazia dois dias que a União Vermelha vinha atacando o quartel-general da Brigada 28 de Abril. As bandeiras vermelhas tremulavam sem parar em volta do prédio, como labaredas de fogo sedentas.
O comandante da União Vermelha estava ansioso, mas não por causa dos defensores à sua frqente: comparados aos guardas-vermelhos veteranos da União Vermelha, formada nos primórdios da Grande Revolução Cultural Proletária no início de 1966, os mais de duzentos guardas-vermelhos da Brigada 28 de Abril não passavam de soldados rasos. A União Vermelha havia sido forjada pela experiência tumultuosa das marchas revolucionárias pelo país e pela visão do presidente Mao nos grandes comícios na Praça da Paz Celestial.
Mas o comandante tinha medo das cerca de doze fornalhas dentro do edifício, cheias de explosivos e interligadas por detonadores elétricos. Embora não pudesse vê-las, conseguia sentir sua presença, como o ferro sente a atração de um ímã. Se um defensor apertasse o botão, revolucionários e contrarrevolucionários morreriam todos em uma gigantesca bola de fogo.
E os jovens guardas-vermelhos da Brigada 28 de Abril eram realmente capazes de uma loucura dessas. Em comparação com os homens e as mulheres experientes da primeira geração, os novos rebeldes eram uma matilha de lobos andando sobre carvão em brasa, mais insanos que a insanidade.
No topo do edifício surgiu a figura esbelta de uma linda jovem, agitando o imenso estandarte vermelho da Brigada 28 de Abril. Essa aparição foi imediatamente saudada por uma cacofonia de tiros, efetuados por diferentes tipos de arma: peças antigas, como carabinas americanas, metralhadoras tchecas e fuzis japoneses calibre .38; armas mais novas, como fuzis e submetralhadoras-padrão do Exército da Libertação Popular, roubadas do ELP após a publicação do “Editorial de Agosto”;1 e até mesmo algumas lanças e espadas dadao chinesas — o conjunto formava uma versão condensada da história moderna.
Vários integrantes da Brigada 28 de Abril já haviam realizado demonstrações semelhantes. Eles subiam ao topo de um edifício, agitavam uma bandeira, gritavam palavras de ordem com um megafone e jogavam panfletos em quem estava atacando da rua. Em todas as vezes, a pessoa corajosa conseguira escapar em segurança da saraivada de balas e conquistar a glória por sua valentia.
Evidentemente, a jovem achava que teria a mesma sorte. Ela tremulou o estandarte de guerra como se estivesse brandindo sua juventude flamejante, certa de que o inimigo seria incinerado pelas chamas revolucionárias, imaginando que o mundo ideal nasceria no dia seguinte a partir do fervor e da confiança que corriam em suas veias… Estava embriagada pelo brilhante sonho rubro até uma bala atravessar seu peito.
O corpo de quinze anos era tão franzino que a bala quase não perdeu velocidade ao atravessá-lo e seguir sua trajetória. A jovem rebelde da Guarda Vermelha oscilou com sua bandeira, e seu corpo delicado veio abaixo ainda mais devagar que o pedaço de pano vermelho, como um passarinho que não queria abandonar o céu.
Os guerreiros da União Vermelha gritaram de alegria. Alguns correram até a base do edifício, arrancaram o estandarte de guerra da Brigada 28 de Abril e se apropriaram do corpo esguio e sem vida. Alçaram e ostentaram o troféu por um tempo, antes de jogá-lo em cima do portão metálico do complexo.
A maioria das barras de metal do portão, de pontas afiadas, fora arrancada no começo das guerras civis entre as facções para servir de lanças, mas ainda havia duas. Quando as pontas afiadas cravaram o corpo, por um instante a vida pareceu voltar à garota.
Os guardas-vermelhos recuaram um pouco e começaram a usar o corpo empalado como alvo para treinar tiros. Para a jovem, a tormenta intensa de balas agora não passava de uma garoa suave, já que não sentia mais nada. De vez em quando, os bracinhos finos se debatiam com delicadeza na frente do corpo, como que repelindo gotas de chuva.
E então metade de sua cabeça estourou, e restou apenas um único e belo olho para encarar o céu azul de 1967. Não havia dor naquele olhar, só uma expressão petrificada de devoção e sonhos.
Contudo, em comparação com alguns outros, ela teve sorte. Pelo menos sua morte foi um sacrifício fervoroso por um ideal.
Batalhas como aquela estouraram por Beijing como uma infinidade de computadores trabalhando em paralelo: o esforço mútuo produziria a Revolução Cultural. Uma enxurrada de loucura inundou a cidade e tomou todos os espaços.
Na periferia, nos campos de exercício da Universidade Tsinghua, uma “sessão de luta” coletiva frequentada por milhares de pessoas vinha acontecendo havia quase duas horas. Era um evento público criado para humilhar e dobrar os inimigos da revolução, por meio de ataques verbais e físicos, até que eles confessassem seus crimes diante da multidão.
Com a fragmentação dos revolucionários em diversas facções, havia forças de oposição envolvidas em manobras e disputas complexas por todos os cantos. Na universidade, conflitos intensos irromperam entre a Guarda Vermelha, o Grupo de Trabalho da Revolução Cultural, o Time de Propaganda dos Operários e o Time de Propaganda Militar. Além disso, de tempos em tempos, cada facção se dividia em novos grupos rebeldes, com inspirações, motivações e formações diferentes, o que levava a embates ainda mais brutais.
Mas, para aquela sessão de luta coletiva, as vítimas eram as autoridades acadêmicas burguesas reacionárias. Elas eram inimigas de todas as facções, obrigadas a suportar ataques cruéis de todos os lados.
Em comparação com outros “monstros e demônios”,2 as autoridades acadêmicas reacionárias tinham algo especial: durante as primeiras sessões de luta, elas haviam se portado com arrogância e teimosia. Naquela mesma fase, morreram em maior número: ao longo de um período de quarenta dias, só em Beijing, mais de setecentas vítimas das sessões de luta foram espancadas até a morte. Muitas outras optaram por um caminho mais fácil a fim de evitar a loucura: Lao She, Wu Han, Jian Bozan, Fu Lei, Zhao Jiuzhang, Yi Qun, Wen Jie, Hai Mo e outros intelectuais, antes respeitados, decidiram tirar a própria vida.3
Aos poucos, conforme as sessões de luta implacáveis continuavam, os sobreviventes daquele período inicial se tornavam letárgicos. A carapaça mental ajudava a evitar o colapso completo. Muitas vezes, eles pareciam meio adormecidos durante as sessões e só despertavam com um susto, quando alguém gritava e os obrigava aos berros a recitar de maneira mecânica a confissão, já repetida tantas vezes.
Depois, alguns entraram em uma terceira fase. As sessões de luta constantes e incessantes injetaram na consciência daquelas pessoas imagens políticas vívidas, como se fosse mercúrio, até que a mente, estabelecida sobre uma fundação de conhecimento e racionalidade, desabou sob os ataques. As vítimas começaram a acreditar que eram culpadas, a imaginar que haviam ferido a grande causa da revolução, e seu remorso era muito mais intenso e sincero que o dos monstros e demônios que não eram intelectuais.
Para os guardas-vermelhos, impor castigos a pessoas que se encontravam nessas duas últimas fases era muito tedioso. Apenas os monstros e demônios ainda na fase inicial podiam proporcionar àqueles cérebros superestimulados a emoção desejada, como a capa vermelha do toureiro. Mas as vítimas cobiçadas estavam se tornando escassas. Em Tsinghua, provavelmente só restava uma. E, como ele era extremamente raro, foi reservado para o final da sessão de luta.
Até aquele momento, Ye Zhetai havia sobrevivido à Revolução Cultural, mas continuava na primeira fase mental. Ele se recusava a se arrepender, a se matar ou a se deixar entorpecer. Quando esse professor de física subiu ao palco na frente da multidão, sua expressão dizia com clareza: Que a cruz que eu carrego seja ainda mais pesada.
Os guardas-vermelhos realmente o obrigaram a carregar um fardo, mas não uma cruz. Outras vítimas usaram chapéus altos feitos de armação de bambu, mas o dele era de barras espessas de aço, soldadas uma na outra. E a placa que pendia em seu pescoço não era de madeira, como a dos demais, e sim uma porta de ferro tirada de um forno de laboratório. O nome do professor estava escrito na porta com caracteres pretos, e duas linhas diagonais vermelhas estavam riscadas por cima em um grande X.
Ye foi escoltado ao palco pelo dobro de guardas-vermelhos que haviam sido utilizados com as outras vítimas: dois homens e quatro mulheres. Os rapazes caminhavam com determinação e confiança, a imagem perfeita de jovens bolcheviques experientes. Os dois eram alunos do quarto ano de física teórica, e Ye era seu professor. Já as mulheres, na verdade meninas, eram muito mais novas, alunas do segundo ano do colégio de ensino fundamental ligado à universidade.4 De farda militar e equipadas com bandoleiras, elas exalavam o vigor da juventude e cercavam Ye Zhetai como quatro labaredas verdes.
A aparição dele empolgou a multidão. Os brados de palavras de ordem, que haviam amainado um pouco, voltaram com novo ímpeto e abafaram tudo o mais como uma onda.
Após esperar com paciência até o barulho diminuir, um dos rapazes se virou para a vítima.
— Ye Zhetai, você é especialista em mecânica. Deve perceber que está resistindo a uma força intensa demais. Insistir nessa teimosia conduzirá apenas à sua morte! Hoje, retomamos o assunto da última sessão. Nem perca tempo desperdiçando palavras. Responda à seguinte pergunta sem a malícia habitual: entre os anos de 1962 e 1965, você não decidiu por conta própria acrescentar a relatividade à disciplina de introdução à física?
— A relatividade faz parte das teorias fundamentais da física — respondeu Ye. — Como uma disciplina introdutória poderia não ensinar o tema?
— Você está mentindo! — gritou uma guarda-vermelha a seu lado. — Einstein não passa de uma autoridade acadêmica reacionária, que serviria a qualquer mestre que balançasse um maço de dinheiro na sua frente. Até ajudou os imperialistas americanos a construir a bomba atômica! Para desenvolver uma ciência revolucionária, precisamos derrotar o estandarte negro do capitalismo representado pela teoria da relatividade!
Ye ficou em silêncio. Como precisava suportar a dor do pesado chapéu de metal e da placa de ferro no pescoço, não lhe restava energia para rebater perguntas que não mereciam resposta. Atrás dele, um de seus alunos também franziu o cenho. A menina que acabara de falar era a mais inteligente das quatro guardas-vermelhas, e era nítido que havia se preparado, pois fora vista decorando o roteiro da sessão de luta antes de subir ao palco.
Porém, contra Ye Zhetai, bordões como aquele não bastariam. Os guardas-vermelhos decidiram apresentar a nova arma reservada para o professor. Um deles acenou para alguém que estava fora do palco: Shao Lin, professora de física e esposa de Ye, se levantou na primeira fileira da multidão e subiu ao palco com um traje verde que não lhe caía bem, tentativa óbvia de imitar a farda militar dos guardas-vermelhos. As pessoas que a conheciam sabiam que, em muitas de suas aulas, ela havia usado um elegante qipao, e seu aspecto naquele momento parecia estranho e forçado.
— Ye Zhetai! — Dava para ver que ela não estava acostumada àquela teatralidade e, embora tentasse falar mais alto, o esforço ampliou o tremor em sua voz. — Você por acaso achou que eu não me ergueria, que não faria denúncias nem críticas? É verdade que no passado me deixei enganar por você, que cobriu meus olhos com sua visão reacionária do mundo e da ciência! Mas agora estou desperta e atenta. Com a ajuda dos jovens revolucionários, quero estar do lado da revolução, do lado do povo!
Ela se virou para a multidão.
— Camaradas, jovens, professores e funcionários revolucionários, devemos compreender claramente a natureza reacionária da teoria da relatividade de Einstein. É algo óbvio demais na relatividade geral: o modelo estático do universo nega a natureza dinâmica da matéria. É antidialético! Trata o universo como algo limitado, o que é definitivamente uma forma de idealismo reacionário…
Enquanto escutava o discurso da esposa, Ye não pôde evitar um sorriso amargurado. Lin, enganei você? De fato, em meu coração, você sempre foi um mistério. Certa vez, exaltei sua genialidade em uma conversa com seu pai — sorte dele ter morrido cedo e evitado essa catástrofe —, que balançou a cabeça e comentou que não achava que você realizaria muitas façanhas acadêmicas. O que ele disse depois acabou se tornando muito importante para a segunda metade de minha vida: “Lin Lin é inteligente demais. Para trabalhar com teorias de base, é preciso ser idiota”.
Anos depois, passei a compreender cada vez mais aquelas palavras. Lin, você é mesmo inteligente demais. Alguns anos atrás você já pressentiu a mudança nos ventos da política no mundo acadêmico e se preparou. Por exemplo, em suas aulas, você mudou o nome de muitas leis e constantes da física: a lei de Ohm você chamou de lei da resistência, as equações de Maxwell você chamou de equações eletromagnéticas, a constante de Planck você chamou de constante quântica… Explicou aos seus alunos que todas as realizações científicas resultaram da sabedoria da massa proletária e que as autoridades acadêmicas capitalistas apenas roubaram esses frutos e puseram seus nomes.
Apesar disso, você nunca foi aceita pelo núcleo revolucionário. Veja só agora: você não tem permissão para usar a braçadeira vermelha dos “professores e funcionários revolucionários”, e precisou subir aqui de mãos vazias, sem status para portar o Pequeno Livro Vermelho… Não tem como superar o defeito de ter nascido em uma família proeminente da China pré-revolução nem de ser filha de acadêmicos tão famosos.
Porém, na verdade, você tem mais a confessar em relação a Einstein do que eu. No inverno de 1922, Einstein visitou Shanghai. Como seu pai falava fluentemente alemão, pediram que acompanhasse Einstein no passeio. Você me disse diversas vezes que seu pai começou a estudar física por incentivo de Einstein e que você escolheu a física por influência de seu pai. Então, de certa forma, é possível dizer que Einstein foi seu professor indireto. E você tinha muito orgulho e se achava sortuda por ter esse tipo de ligação.
Mais tarde, descobri que seu pai contara uma mentirinha para você. Ele só havia conversado com Einstein uma vez, por um breve instante. Na manhã de 13 de novembro de 1922, ele acompanhou Einstein em uma caminhada pela rua Nanjing. O grupo também contava com Yu Youren, reitor da Universidade de Shanghai, e Cao Gubing, editor-geral do jornal Ta Kung Pao. Quando passaram por um canteiro de obras no acostamento, Einstein parou perto de um trabalhador que estava quebrando pedras e ficou observando em silêncio aquele menino de rosto sujo, mãos imundas e roupa esfarrapada. Ele perguntou a seu pai quanto o menino recebia por dia. Depois de perguntar ao menino, seu pai respondeu a Einstein: cinco centavos.
Essa foi a única vez que ele trocou palavras com o grande cientista que mudou o mundo. Não houve conversas sobre física nem sobre relatividade, apenas a realidade nua e crua. Segundo seu pai, Einstein ficou parado por um bom tempo depois de ouvir a resposta, observando os movimentos mecânicos do menino, sem nem se dar ao trabalho de fumar o cachimbo, deixando a brasa se apagar. Assim que seu pai relatou essa lembrança para mim, ele suspirou e disse: “Na China, qualquer ideia que se atrevesse a alçar voo logo voltaria a cair no chão. A gravidade da realidade é forte demais”.
— Abaixe a cabeça! — gritou um dos jovens da Guarda Vermelha. Isso talvez até fosse um gesto de misericórdia do ex-aluno. Como se esperava que todas as vítimas submetidas à luta abaixassem a cabeça, se Ye abaixasse a sua, o chapéu alto e pesado de metal cairia. Caso continuasse de cabeça baixa, não haveria motivo para colocarem o objeto de novo. Mas Ye se recusou e manteve a cabeça erguida, sustentando todo o peso com o pescoço fino.
— Abaixe a cabeça, seu reacionário teimoso!
Uma das meninas da Guarda Vermelha tirou o cinto e açoitou Ye. A fivela de cobre acertou-o na testa e deixou uma marca nítida, logo coberta pelo sangue que começou a escorrer. Ele cambaleou por alguns instantes e, depois, voltou a se endireitar e ficar firme.
Um dos rapazes disse:
— Quando você ensinava mecânica quântica, também enchia a matéria de muitas ideias reacionárias.
Em seguida, fez um gesto para que Shao Lin continuasse.
Shao atendeu na hora. Ela precisava continuar falando, caso contrário sua mente frágil, já sustentada por um fio tênue, se arruinaria de vez.
— Ye Zhetai, você não pode negar esta acusação! Já deu muitas aulas sobre a interpretação de Copenhague da mecânica quântica.
— Claro, essa explicação é reconhecida como a mais condizente com resultados experimentais.
Aquele tom calmo e equilibrado surpreendeu e assustou Shao Lin.
— Essa explicação postula que a observação a partir do exterior leva ao colapso da função de onda quântica. Nada mais é do que outra expressão de idealismo reacionário e, para ser sincera, a mais escandalosa expressão.
— A filosofia deve orientar experimentos, ou os experimentos devem orientar a filosofia?
O contra-ataque repentino de Ye chocou as pessoas que estavam conduzindo a sessão de luta.
Por um instante, eles não souberam o que fazer.
— É claro que os experimentos científicos devem ser orientados pela filosofia correta do marxismo! — disse enfim um dos guardas-vermelhos.
— Isso é o mesmo que dizer que a filosofia correta cai do céu. Vai contra a ideia de que a verdade surge a partir da experiência. Contraria os princípios pelos quais o marxismo tenta entender a natureza.
Shao Lin e os dois guardas-vermelhos universitários não tinham como rebater aquilo. Ao contrário das meninas, ainda no colégio, eles não podiam ignorar completamente a lógica.
Só que as quatro adolescentes tinham seus próprios métodos revolucionários, que achavam invencíveis. A menina que açoitara Ye antes puxou e estalou o cinto no ar de novo. As outras três imitaram o gesto: diante de tamanha exibição de fervor revolucionário pela companheira, elas precisavam demonstrar no mínimo a mesma medida ou, de preferência, ainda mais. Os dois rapazes não interferiram. Se tentassem intervir, levantariam suspeitas de que não eram revolucionários o bastante.
— Você também ensinava a teoria do Big Bang. Essa é a teoria mais reacionária de todas — apontou um dos guardas-vermelhos, tentando mudar de assunto.
— Talvez no futuro a teoria venha a ser refutada. Mas duas grandes descobertas cosmológicas deste século, a lei de Hubble e a observação da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, mostram que a teoria do Big Bang é hoje a explicação mais plausível para a origem do universo.
— Mentira! — berrou Shao Lin.
Ela então começou um longo discurso sobre a teoria do Big Bang, lembrando-se de inserir comentários astutos sobre a natureza extremamente reacionária. No entanto, o ineditismo da teoria atraiu a menina mais inteligente das quatro, que não resistiu e perguntou:
— O tempo começou com a singularidade? Então o que havia antes da singularidade?
— Nada — disse Ye, da mesma maneira como responderia à pergunta de um curioso. Ele se virou para lançar um olhar bondoso à menina. Com os ferimentos e o chapéu alto de aço, o movimento foi muito difícil.
— Não… nada? Isso é reacionário! Completamente reacionário! — gritou a menina, assustada. Ela se voltou para Shao Lin, que sem titubear ofereceu ajuda.
— A teoria deixa espaço para a existência de Deus. — Shao fez um gesto com a cabeça para a menina.
Confusa com aqueles pensamentos novos, a jovem guarda-vermelha acabou achando um ponto de apoio. Ela ergueu a mão, ainda segurando o cinto, e apontou para Ye.
— Você: está tentando dizer que Deus existe?
— Não sei.
— O quê?
— Estou dizendo que não sei. Se por “Deus” você entende alguma espécie de superconsciência externa ao universo, não sei se isso existe. A ciência nunca forneceu provas em nenhum sentido.
Na verdade, no meio daquele pesadelo, Ye estava inclinado a acreditar que Deus não existia. A afirmação extremamente reacionária provocou uma comoção na multidão. No palco, um dos guardas-vermelhos puxou mais uma onda de brados de ordem.
— Abaixo a autoridade acadêmica reacionária de Ye Zhetai!
— Abaixo todas as autoridades acadêmicas reacionárias!
— Abaixo todas as doutrinas reacionárias!
— Deus não existe. Todas as religiões são instrumentos maquinados pela classe dominante com o propósito de paralisar o espírito do povo!
— Essa é uma perspectiva muito limitada — disse Ye, com calma.
Constrangida e furiosa, a menina da Guarda Vermelha chegou à conclusão de que nenhuma conversa adiantaria contra aquele inimigo perigoso. Ela pegou o cinto e avançou contra Ye, seguida pelas três companheiras. Como Ye era alto, as quatro adolescentes de catorze anos precisaram apontar os cintos para cima a fim de acertá-lo na cabeça, ainda erguida. Após alguns golpes, o grande chapéu de aço, que dava uma proteção mínima, caiu. A sucessão contínua de golpes de fivelas metálicas enfim derrubou Ye.
As jovens da Guarda Vermelha, estimuladas pelo êxito, se dedicaram com ainda mais afinco à luta gloriosa. Combatiam pela fé, por ideais. Estavam extasiadas com a luz resplandecente que a história lançaria sobre seus nomes, cheias de orgulho da própria bravura…
Os dois alunos de Ye enfim deram um basta.
— O presidente nos instruiu a “contar com eloquência, em vez de violência”!
Os dois se apressaram a tirar as quatro meninas ensandecidas de cima de Ye.
Mas já era tarde demais. O físico estava caído inerte no chão, de olhos ainda abertos, sangue escorrendo da cabeça. A turba enlouquecida ficou em silêncio. O único movimento era feito por um pequeno fio de sangue: como uma serpente vermelha, avançou devagar pelo palco, chegou à beirada e gotejou em um baú que estava ali embaixo. O som ritmado das gotas de sangue parecia os passos de alguém que ia embora.
Uma risada aguda rompeu o silêncio. O barulho vinha de Shao Lin, cuja mente enfim se desfazia. A risada assustou os presentes, que começaram a sair da sessão de luta, primeiro aos poucos, como um córrego, depois como uma inundação. Os campos de exercício logo ficaram desertos, exceto por uma jovem de frente para o palco.
Era Ye Wenjie, a filha de Ye Zhetai.
Enquanto as quatro meninas estavam tirando a vida de seu pai, ela tentara correr para cima do palco. Porém, dois faxineiros idosos da universidade a contiveram e sussurraram ao pé do ouvido que ela morreria se subisse ali. A sessão de luta coletiva havia se transformado em uma cena de loucura, e a intromissão dela apenas provocaria mais violência. Wenjie havia gritado sem parar, mas fora abafada pelas ondas ensandecidas de brados de ordem e vivas.
Quando o silêncio voltou, ela já não era mais capaz de emitir nenhum som. Ficou olhando para o corpo inerte do pai, e os pensamentos que ela não podia expressar e carregaria pelo resto da vida se dissolveram em seu próprio sangue. Depois que a multidão se dispersou, ela permaneceu como uma estátua de pedra, corpo e membros na mesma posição em que estavam quando foi contida pelos dois faxineiros idosos.
Passado muito tempo, ela enfim abaixou os braços, subiu devagar até o palco, sentou-se ao lado do corpo do pai e pegou uma das mãos já frias, sondando o nada com um olhar vazio. Quando o corpo enfim foi levado, ela retirou algo do bolso e colocou na mão do pai: o cachimbo dele.
Em silêncio, Wenjie saiu dos campos de exercício, onde só restava o lixo que a multidão havia deixado, e foi para casa. Assim que chegou ao bloco do edifício residencial dos professores, ouviu o tinido de uma risada enlouquecida pela janela do segundo andar de sua casa. Era a mulher que ela havia chamado de mãe.
Wenjie deu meia-volta, sem querer saber para onde seus pés a levariam.
Por fim, viu-se à porta da professora Ruan Wen. Ao longo dos quatro anos da vida universitária de Wenjie, a professora Ruan havia sido sua orientadora e sua melhor amiga. Dois anos depois, quando Wenjie ingressou na pós-graduação do Departamento de Astrofísica, e durante o caos subsequente da Revolução Cultural, a professora Ruan continuava sendo sua maior confidente, sem contar o pai.
Ruan havia estudado na Universidade de Cambridge, e Wenjie achava sua casa fascinante: livros, pinturas e discos sofisticados trazidos da Europa; um piano; um conjunto de cachimbos europeus dispostos em um suporte de madeira delicado, alguns feitos de urze do Mediterrâneo, outros de sepiolita turca. Todos pareciam embebidos da sabedoria do homem que segurara o fornilho ou pusera a piteira nos lábios, perdido em pensamentos, embora Ruan jamais tivesse mencionado o nome do dono. Até mesmo o cachimbo do pai de Wenjie fora um presente de Ruan.
No passado, aquele lar elegante e acolhedor fora um porto seguro para Wenjie quando ela precisava escapar das tormentas do mundo mais vasto, mas aquilo tinha sido antes de os guardas-vermelhos vasculharem a casa de Ruan e confiscarem seus bens. Como o pai de Wenjie, Ruan sofrera muito durante a Revolução Cultural. Em suas sessões de luta, os guardas-vermelhos haviam pendurado um par de sapatos de salto alto em seu pescoço e riscado o rosto dela com batom, para evidenciar o estilo de vida capitalista corrupto que ela seguia.
Wenjie abriu a porta da casa de Ruan e constatou que o caos deixado pela Guarda Vermelha fora arrumado: as pinturas a óleo rasgadas estavam remendadas e de volta nas paredes; o piano caído estava outra vez em pé, limpo, embora tivesse sido quebrado e não funcionasse mais; os poucos livros que sobraram haviam sido recolocados com cuidado na estante.
Ruan estava sentada na cadeira diante da escrivaninha, de olhos fechados. Wenjie parou ao seu lado e tocou com delicadeza a testa, o rosto e as mãos da professora — tudo frio. Wenjie havia percebido o vidro vazio de comprimidos para dormir em cima da escrivaninha assim que entrou na casa.
Continuou ali por algum tempo, sem falar nada. Então se virou e se afastou. Já não sentia mais tristeza. Era agora como um contador Geiger submetido à radiação demais, incapaz de apresentar qualquer reação, exibindo um silencioso zero.
Ainda assim, quando estava prestes a sair da casa de Ruan, Wenjie se voltou para um último olhar. Percebeu que a professora Ruan havia passado maquiagem. Estava com um toque suave de batom e sapatos de salto.
1. Referência ao editorial de agosto de 1967 da revista Hongqi (uma fonte importante de propaganda durante a Revolução Cultural), que defendia a “remoção do punhado de [contrarrevolucionários] que estava no Exército”. Muitas pessoas acharam que o editorial dava um incentivo tácito para que os guardas-vermelhos atacassem arsenais militares e roubassem armas do ELP, inflamando ainda mais as guerras civis localizadas, que foram deflagradas por facções da Guarda Vermelha. (As notas de rodapé do autor estão indicadas com N. A., as demais são de Ken Liu, tradutor da obra para a língua inglesa.)
2. Expressão oriunda do budismo, “monstros e demônios” foi usada durante a Revolução Cultural para se referir a todos os inimigos da revolução.
3. Esses foram alguns dos intelectuais mais famosos que se suicidaram durante a Revolução Cultural. Lao She: escritor; Wu Han e Jian Bozan: historiadores; Fu Lei: tradutor e crítico; Zhao Jiuzhang: meteorologista e geofísico; Yi Qun: escritor; Wen Jie: poeta; Hai Mo: dramaturgo e romancista.
4. No sistema educacional chinês, os seis anos do ensino básico costumam ser seguidos por três anos correspondentes ao segundo ciclo do ensino fundamental e outros três de ensino médio. Durante a Revolução Cultural, esse sistema de doze anos foi abreviado para um de nove ou dez anos, dependendo da província ou do município. No caso em questão, as meninas da Guarda Vermelha tinham catorze anos.
Dois anos depois, cordilheira Grande Khingan
— Ma-dei-ra…
Depois do brado alto, um cedro enorme, grosso como as colunas do Partenon, caiu com um baque, e Ye Wenjie sentiu a terra tremer.
Ela pegou o machado e a serra e começou a cortar os galhos do tronco. Sempre que fazia isso, tinha a sensação de estar limpando o cadáver de um gigante. Às vezes, imaginava que o gigante era seu pai. As emoções daquela noite terrível dois anos atrás, quando limpou o corpo do pai no necrotério, voltavam à tona, e as rachaduras na casca do cedro pareciam se transformar nas cicatrizes antigas e nos ferimentos novos que cobriam seu pai.
Havia mais de cem mil pessoas — de seis divisões e quarenta e um regimentos do Corpo de Produção e Construção da Mongólia Interior — espalhadas pelas vastas florestas e pradarias. Quando saíram de suas cidades e chegaram àquela região selvagem e desconhecida, muitos dos “jovens instruídos” do Corpo — jovens universitários que já não tinham escolas para frequentar — acalentavam um desejo romântico: assim que os tanques dos imperialistas revisionistas soviéticos cruzassem a fronteira entre a Mongólia e a China, eles se armariam e fariam do próprio corpo a primeira barreira da defesa da República. De fato, essa expectativa era uma das considerações ideológicas que motivaram a criação do Corpo de Produção e Construção.
Mas a guerra pela qual eles ansiavam era como uma montanha ao final da pradaria: perfeitamente visível, mas tão distante como uma miragem. Então eles precisaram se contentar em abrir campos, pastorear animais e derrubar árvores.
Em pouco tempo, os jovens homens e mulheres que gastaram a energia da juventude em peregrinações aos locais sagrados da Revolução Chinesa descobriram que, comparadas ao céu gigantesco e ao espaço aberto da Mongólia Interior, as maiores cidades da zona rural chinesa não passavam de currais de ovelhas. Ali, no meio da imensidão fria e infindável de florestas e pradarias, a motivação flamejante deles não significava nada. Mesmo que despejassem todo o seu sangue, ele resfriaria mais rápido que um monte de esterco e não seria tão útil. Porém as chamas eram seu destino: faziam parte da geração que devia ser consumida pelo fogo. E assim, sob a fúria das motosserras, vastos oceanos de floresta se transformaram em penhascos estéreis e colinas desmatadas. Sob o ronco dos tratores e das colheitadeiras, amplos hectares de pradaria se transformaram em campos de cultivo de grãos e depois em desertos.
Ye Wenjie só conseguia classificar como loucura o desmatamento que estava presenciando. O cedro alto, o pinheiro-silvestre centenário, a bétula esbelta e reta, o choupo coreano que atravessava as nuvens, o abeto aromático, e também vidoeiros-pretos, carvalhos, olmos-montanheses, salgueiros — tudo o que vissem era derrubado. A companhia de Ye brandia centenas de motosserras como uma infestação de lagartas de aço, deixando apenas tocos para trás.
O cedro derrubado, agora sem galhos, estava pronto para ser levado pelo trator. Ye Wenjie acariciou com delicadeza o miolo recém-exposto do tronco caído. Fazia isso com frequência, como se as superfícies fossem ferimentos gigantescos, como se ela fosse capaz de sentir a dor da árvore. De repente, viu outra mão acariciar o toco da árvore a alguns metros de distância. Os tremores naquela mão revelavam um coração em sintonia com o dela. Embora a mão fosse pálida, Ye percebeu que era de um homem.
Ela levantou o olhar. Era Bai Mulin. Um homem magro e delicado, que usava óculos e era repórter do Diário da Grande Produção, o jornal do Corpo. Ele tinha chegado havia dois dias para buscar notícias sobre a companhia dela. Ye se lembrava de ler as matérias de Bai, escritas com um estilo belo, sensível e elegante, inadequado para aquele ambiente grosseiro.
— Ma Gang, venha cá — disse Bai para um rapaz que estava um pouco afastado. Ma era musculoso e alto, como o cedro que ele havia acabado de derrubar. O jovem se aproximou, e Bai perguntou: — Você sabe qual era a idade desta árvore?
— Dá para contar pelos anéis.
— Já contei. Mais de trezentos e trinta anos. Você se lembra de quanto tempo levou para serrar o tronco?
— Nem dez minutos. Olha, eu sou o operador de motosserra mais rápido da companhia. Qualquer que seja a unidade onde eu estou, a bandeira vermelha dos operários-modelo vem atrás.
A empolgação de Ma Gang era comum na maioria das pessoas em quem Bai prestava atenção. Sair no Diário da Grande Produção era considerado uma honra.
— Mais de trezentos anos! Umas doze gerações. Quando esta árvore não passava de um arbusto, ainda estávamos na dinastia Ming. Ao longo desses anos todos, você consegue imaginar a quantas tempestades ela resistiu, quantos acontecimentos presenciou? Mas você a derrubou em poucos minutos. Não sentiu nada mesmo?
— O que eu deveria sentir? — Ma Gang o encarou com uma expressão vazia. — É só uma árvore. A única coisa que a gente tem de sobra por aqui é árvore. Tem muitas outras árvores aqui, e muito mais velhas que esta.
— Tudo bem. Volte ao trabalho. — Bai sacudiu a cabeça, sentou-se no toco e suspirou.
Ma Gang também balançou a cabeça, decepcionado porque o repórter não estava interessado em fazer uma entrevista.
— Intelectuais sempre fazem drama a troco de nada — murmurou. Quando falou, deu uma olhada para Ye Wenjie, aparentemente a incluindo na crítica.
O tronco foi levado. Pedras e tocos no chão abriram novas ranhuras na casca, ferindo ainda mais o corpo do gigante. No lugar que havia ocupado antes, o peso da árvore derrubada e arrastada cavou uma vala profunda nas camadas de folhas em decomposição acumuladas ao longo dos anos, que logo se cobriu de água. As folhas podres fizeram a água parecer vermelha, como sangue.
— Wenjie, venha descansar um pouco.
Bai apontou para a metade livre do toco em que estava sentado. Ye estava mesmo cansada.
Ela soltou as ferramentas, se aproximou e foi se sentar com Bai, apoiando as costas nas dele.
Depois de um silêncio demorado, Bai desabafou:
— Eu sei o que você está sentindo. Nós dois somos os únicos que se sentem assim.
Ye continuou em silêncio. Bai sabia que ela provavelmente não ia responder. Era uma mulher de poucas palavras, que raramente conversava. Alguns recém-chegados até pensavam que ela fosse muda.
Bai continuou falando.
— Visitei esta região há um ano. Lembro que cheguei por volta de meio-dia, e meus anfitriões disseram que íamos almoçar peixe. Dei uma olhada no barraco de madeira e só vi uma panela com água no fogo. Nada de peixe. Aí, assim que a água começou a ferver, o cozinheiro saiu com um rolo de massa, parou na margem do riacho que corria perto do barraco, bateu na água com o rolo algumas vezes e conseguiu apanhar alguns peixes grandes… Que lugar fértil! Só que agora, se você for ver aquele riacho, ele está morto, uma vala de água lamacenta. Não sei dizer ao certo se o Corpo está trabalhando com construção ou destruição.
— Onde você arrumou esse tipo de pensamento? — perguntou Ye em voz baixa.
Ela não mostrou sinal algum de aprovação ou desaprovação, mas Bai ficou feliz de ouvir aquela voz falar qualquer coisa.
— Só li um livro, e ele mexeu bastante comigo. Você sabe ler em inglês? Ye fez que sim.
Bai retirou um livro de capa azul da bolsa. Deu uma olhada para os lados para conferir que ninguém estava vendo e o entregou a ela.
— Essa obra foi publicada em 1962 e teve muita influência no Ocidente.
Wenjie se virou no toco para pegar o livro. Primavera silenciosa, dizia a capa, de Rachel Carson.
— Onde você achou isto?
— O livro chamou a atenção do alto escalão. Os figurões querem distribuí-lo para quadros1 selecionados, para fins de referência interna. Sou o encarregado de traduzir a parte que tem a ver com florestas.
Wenjie abriu o livro e mergulhou na leitura. Em um breve capítulo introdutório, a autora descrevia uma cidade tranquila que morria em silêncio devido ao uso de pesticidas. As frases simples e diretas estavam impregnadas da inquietação profunda de Carson.
— Pretendo escrever para a liderança em Beijing e informar sobre a postura irresponsável do Corpo de Construção — disse Bai.
Ye tirou os olhos do livro. Ela levou um tempo para processar as palavras de Bai. Permaneceu em silêncio e voltou a olhar a página.
— Fique com ele um pouco, se quiser. Mas na hora da leitura é melhor tomar cuidado e não deixar ninguém ver. Você sabe o que eles acham desse tipo de livro…
Bai se levantou, lançou mais um olhar cuidadoso ao redor e foi embora.
Mais de quatro décadas depois, em seus últimos suspiros, Ye Wenjie relembraria a influência de Primavera silenciosa em sua vida.
O livro tratava apenas de um assunto limitado: os nocivos efeitos ambientais do uso excessivo de pesticidas. Ainda assim, a perspectiva apresentada pela autora teve grande repercussão em Ye. Ela havia imaginado que o uso de pesticidas fosse algo normal, adequado — ou pelo menos neutro —, mas o livro de Carson permitiu que ela visse que, pela perspectiva da natureza, o uso dessas substâncias era equivalente à Revolução Cultural e igualmente destrutivo para o mundo. Se isso fosse verdade, então quantos outros atos da humanidade que pareciam normais ou até corretos eram, na realidade, prejudiciais?
À medida que avançava em suas reflexões, uma dedução lhe deu calafrios: É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície? Tanto o oceano quanto o iceberg são feitos do mesmo material. O iceberg só parece diferente porque tem outra forma. Na realidade, é apenas uma parte do vasto oceano...
Era impossível esperar um despertar moral da humanidade assim como era impossível esperar que os humanos movessem a Terra com seus próprios cabelos. O despertar moral exigia uma força externa à raça humana.
Esse pensamento determinou o rumo da vida de Ye.
Quatro dias depois de receber o livro, Ye entrou no alojamento da companhia, onde Bai estava morando, para devolver o exemplar. Ela abriu a porta e viu Bai deitado na cama, exausto e coberto de serragem e lama. Quando viu Ye, ele se levantou com esforço.
— Você trabalhou hoje? — perguntou Ye.
— Já faz muito tempo que estou aqui com a companhia. Não posso ficar circulando o dia inteiro sem fazer nada. Preciso participar do trabalho. Esse é o espírito da revolução, não é? Ah, trabalhei perto do pico do Radar. A floresta lá estava muito fechada. Afundei até o joelho em folhas apodrecidas. Acho que vou ficar doente por causa daquele lugar.
— Pico do Radar?
— Isso. O regimento recebeu uma missão de emergência: derrubar árvores para abrir uma zona de advertência em volta do pico.
O pico do Radar era um lugar misterioso. O monte íngreme não tinha nome, mas foi batizado em homenagem à enorme antena parabólica que havia no cume. Na verdade, qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabia que aquilo não era uma antena de radar: embora estivesse virada para um lugar diferente todo dia, a antena nunca se mexia em um ritmo constante. Quando o vento soprava, a parabólica produzia um uivo que dava para ser ouvido de longe.
As pessoas da companhia de Ye só sabiam que o pico do Radar era uma base militar. Segundo os moradores da região, quando a base foi construída, há três anos, as Forças Armadas mobilizaram muita gente para abrir uma estrada até o cume e instalar uma linha de transmissão de energia elétrica. Uma quantidade imensa de equipamentos foi transportada montanha acima. No entanto, depois que a base foi concluída, destruíram a estrada, e só restou uma trilha sinuosa e difícil que se embrenhava por entre as árvores. Era comum ver helicópteros pousando e decolando do cume.
Nem sempre dava para ver a antena. Quando o vento soprava forte demais, ela era recolhida. Mas, quando estava aberta, coisas estranhas aconteciam: os animais da floresta ficavam barulhentos e agitados, bandos de pássaros surgiam do meio das copas, e as pessoas sentiam náusea e tontura. Além disso, quem morava perto do pico do Radar tinha tendência a perder cabelo. Segundo os habitantes locais, esses fenômenos só começaram depois que a antena foi construída.
Havia muitas histórias estranhas associadas ao pico do Radar. Certa vez, em uma nevasca, a antena foi aberta e, na mesma hora, a neve virou chuva. Como a temperatura perto do solo ainda estava abaixo do ponto de congelamento, a chuva virou gelo nas árvores. Imensos cristais de gelo ficaram pendurados nos galhos, e a floresta se transformou em um palácio de vidro. De tempos em tempos, um galho se partia com o peso do gelo, e os cristais caíam no chão com um baque alto. Às vezes, quando a antena era aberta em um dia sem nuvens, começava a relampejar e cair raios, e o céu noturno se enchia com umas luzes estranhas.
Logo após a chegada da companhia do Corpo de Construção, o comandante ordenou que todos evitassem se aproximar do pico do Radar. Havia vigilância intensa no local, e as patrulhas tinham permissão para disparar sem aviso.
Na semana anterior, dois homens tinham saído para caçar e perseguido um cervo até a base do pico do Radar, sem se dar conta de onde estavam colocando os pés, e as sentinelas posicionadas no meio da encosta começaram a atirar. Por sorte, a mata era tão fechada que os dois escaparam ilesos, embora um dos homens tivesse urinado nas calças. Na reunião da companhia do dia seguinte, os dois foram repreendidos. Talvez em virtude desse incidente a base tivesse instruído o Corpo a criar uma zona de advertência em volta do pico. O fato de que a base podia designar missões de trabalho para o Corpo de Construção era um sinal de seu poder político.
Bai Mulin pegou o livro das mãos de Ye e escondeu com cuidado debaixo do travesseiro. Do mesmo lugar, retirou algumas folhas de papel cheias de linhas escritas e entregou a Ye.
— Este é o rascunho da minha carta. Será que você poderia ler?
— Carta?
— Eu falei para você que pretendia escrever para a liderança central em Beijing.
A caligrafia era muito desajeitada, e Ye precisou ler devagar. Apesar disso, o conteúdo era informativo e tinha sólida base argumentativa. A carta começava com uma descrição de como a cordilheira Taihang, antes um lugar historicamente fértil, tinha se transformado em um deserto vazio em resultado do desmatamento. Em seguida, mencionava o acúmulo recente e acelerado de sedimentos no rio Amarelo. Por fim, concluía que as ações do Corpo de Produção e Construção da Mongólia Interior teriam consequências ecológicas devastadoras. Ela percebeu que o estilo de Bai era semelhante ao de Primavera silenciosa: preciso e direto, mas também poético. Embora Ye tivesse formação em disciplinas técnicas, apreciava textos literários.
— É linda — disse ela, com franqueza. Bai assentiu com a cabeça.
— Então vou enviá-la.
Ele pegou algumas folhas novas de papel para passar a limpo, mas suas mãos tremiam tanto que não conseguiu traçar nenhum caractere. Aquela era uma reação comum depois de se usar uma motosserra pela primeira vez. As mãos trêmulas eram incapazes de segurar com firmeza um pote de arroz, que dirá escrever algo legível.
— Que tal se eu passar a limpo para você? — perguntou Ye. Ela pegou a caneta de Bai.
— Sua caligrafia é muito bonita — disse Bai ao ver a primeira linha de caracteres de Ye na folha. Ele serviu um copo d’água para ela. Suas mãos tremiam tanto que um pouco da água entornou. Ye afastou a carta.
— Você estudava física? — perguntou Bai.
— Astrofísica. Não serve para nada agora. — Ye nem sequer levantou a cabeça.
— Você estuda as estrelas! Como que isso não serve para nada? As faculdades voltaram a abrir as portas recentemente, mas não estão aceitando alunos de pós-graduação. Para uma pessoa tão instruída e capacitada como você, ser enviada para um lugar destes…
Ye não disse nada e continuou escrevendo. Não queria revelar a Bai que, para alguém como ela, ter a possibilidade de entrar para o Corpo de Construção era tirar a sorte grande. Não queria comentar como as coisas funcionavam… não havia nada a ser dito.
Reinou o silêncio na cabana, interrompido apenas pelo som da ponta da caneta riscando o papel. Ye sentia a fragrância da serragem no corpo de Bai. Pela primeira vez desde que o pai havia morrido, ela sentiu um pouco de carinho no coração e conseguiu relaxar, baixando a guarda contra o mundo por um instante.
Depois de mais de meia hora, ela terminou de passar a carta a limpo. Registrou no envelope o endereço que Bai lhe disse e se levantou para se despedir.
Na porta, ela se virou.
— Posso pegar seu casaco? Vou lavar para você.
— Não! Como é que eu permitiria isso? — Bai balançou a cabeça. — As mulheres batalhadoras do Corpo de Construção trabalham tanto quanto os homens todos os dias. Você precisa voltar e descansar um pouco. Amanhã vai ter que se levantar às seis para trabalhar na montanha. Ah, Wenjie, vou retornar à sede da Divisão depois de amanhã. Vou explicar sua situação aos meus superiores. Talvez ajude.
— Obrigada. Mas eu gosto daqui. É tranquilo.
— Você está tentando fugir de algo?
— Estou indo — disse Ye com um tom delicado. E foi.
Bai viu sua silhueta esbelta desaparecer sob a lua. Depois, levantou os olhos para a floresta escura que ela havia acabado de contemplar.
Ao longe, a antena gigantesca no topo do pico do Radar se ergueu mais uma vez, refletindo um brilho frio e metálico.
Numa tarde, três semanas depois, Ye Wenjie recebeu no acampamento uma convocatória para comparecer à sede da companhia. Assim que entrou no gabinete, sentiu que o clima não era dos melhores. O comandante da companhia e o instrutor político estavam presentes, assim como um homem desconhecido com uma expressão séria no rosto. Diante do desconhecido, na mesa, havia uma valise preta e, ao lado, um envelope e um livro. O envelope estava aberto, e o livro era o exemplar de Primavera silenciosa que ela havia lido.
Naqueles anos, todo mundo conseguia perceber qual era a própria situação política, e Ye Wenjie tinha uma sensibilidade especial para isso. Ela sentiu o mundo ao redor se fechar como o gargalo de uma garrafa, sentiu-se comprimida por todos os lados.
— Ye Wenjie, este é o diretor Zhang, do Departamento de Política da Divisão. Ele está aqui para investigar. — O instrutor político apontou para o desconhecido. — Esperamos que você coopere plenamente e diga a verdade.
— Você escreveu esta carta? — perguntou o diretor Zhang, retirando a carta do envelope. Ye fez menção de pegá-la, mas Zhang segurou as folhas e mostrou para ela uma a uma, até a última, a que mais interessava.
A única assinatura era das “Massas revolucionárias”.
— Não, não escrevi isso. — Ye balançou a cabeça, assustada.
— Mas a caligrafia é sua.
— Sim, mas eu só passei a limpo para outra pessoa.
— Quem?
Normalmente, sempre que sofria alguma injustiça na companhia, Ye se recusava a protestar abertamente. Ela apenas ficava ressentida em silêncio, sem jamais pensar em comprometer outras pessoas. Só que aquele momento era diferente. Ela compreendia muito bem o que aquilo significava.
— Ajudei um repórter do Diário da Grande Produção. Ele esteve no acampamento algumas semanas atrás. O nome dele é…
— Ye Wenjie! — Os olhos negros do diretor Zhang se fixaram nela como os canos de duas armas. — Estou avisando: incriminar outras pessoas só irá piorar sua situação. Já esclarecemos a questão com o camarada Bai Mulin. A única participação dele foi enviar a carta para Hohhot conforme instruções suas. Ele não fazia ideia do conteúdo da carta.
— Ele… ele disse isso?
— Sua carta foi claramente inspirada por este livro. — Ele mostrou o exemplar para o comandante da companhia e para o instrutor político. — Primavera silenciosa foi publicado nos Estados Unidos em 1962 e teve bastante influência no mundo capitalista.
Em seguida, retirou outro livro da valise. Tinha capa branca, com caracteres pretos.
— Esta é a tradução para o chinês. As autoridades competentes distribuíram a obra para quadros selecionados como referência interna, para uma avaliação. Agora, as autoridades competentes já apresentaram uma conclusão clara: o livro é material tóxico de propaganda reacionária. Assume uma perspectiva de puro idealismo histórico e defende uma teoria
apocalíptica. Com a desculpa de abordar problemas ambientais, tenta justificar a corrupção definitiva do mundo capitalista. O conteúdo é extremamente reacionário.
— Mas esse livro… não é meu.
— O camarada Bai foi encarregado pelas autoridades competentes de ser o tradutor. Então era perfeitamente legítimo que tivesse um exemplar. Claro, ele é responsável pelo descuido e por ter permitido que você roubasse o livro enquanto ele participava das atividades do Corpo de Construção. Ao ler essa obra, você obteve armas intelectuais que poderiam ser usadas para atacar o socialismo.
Ye Wenjie permaneceu em silêncio. Ela sabia que já havia caído no fundo do poço. De nada adiantava lutar.
Ao contrário do que sugerem certos documentos históricos divulgados mais tarde, Bai Mulin não pretendia incriminar Ye Wenjie no início. A carta que ele escreveu para a liderança central em Beijing provavelmente fora inspirada por uma noção genuína de responsabilidade. Na época, muitas pessoas escreviam para a liderança central movidas por todo tipo de interesse. A maioria das cartas era ignorada, mas alguns correspondentes chegavam a ver a própria sorte política ir às alturas da noite para o dia, ao passo que outros sofriam duras retaliações. As correntes políticas daquele período eram extremamente complexas. Como repórter, Bai acreditava que era capaz de interpretar as correntes e evitar áreas perigosas, mas foi com confiança demais ao pote, e sua carta acertou um campo minado que ele não sabia que existia. Depois de descobrir como a carta fora recebida, o medo superou tudo o mais. Para se proteger, ele decidiu sacrificar Ye Wenjie.
Meio século depois, o consenso histórico aponta esse acontecimento de 1969 como o divisor de águas na trajetória da humanidade.
Sem querer, Bai se tornou uma figura histórica crucial, embora sem nunca saber disso. Historiadores ficaram decepcionados ao registrar o restante pacato de sua vida. Ele continuou trabalhando no Diário da Grande Produção até 1975, quando o Corpo de Produção e Construção da Mongólia Interior foi dissolvido. Em seguida, foi enviado para uma cidade na parte nordeste da China, a fim de trabalhar para a Associação de Ciências até o começo dos anos 1980. E então saiu do país e se mudou para o Canadá, onde lecionou em uma escola chinesa de Ottawa até 1991, quando morreu de câncer de pulmão. Até o fim da vida, nunca mencionou Ye Wenjie, e ninguém sabe se algum dia ele sentiu remorso ou arrependimento por suas ações.
— Você foi muito bem tratada pela companhia, Wenjie. — O comandante da companhia exalou uma nuvem densa de fumaça de seu cigarro enrolado à mão. Ele olhou para o chão e continuou:
— Embora você fosse suspeita política por nascimento e pelo histórico familiar, sempre foi tratada como se fosse uma das nossas. O instrutor político e eu conversamos muitas vezes com você sobre sua tendência de se isolar das pessoas e sua falta de motivação para atingir o progresso. Nós queremos ajudá-la. Mas veja só a sua situação! Você cometeu um erro muito grave!
O instrutor político retomou o assunto.
— Sempre tive a impressão de que ela nutria um ressentimento profundo pela Revolução Cultural.
— Escoltem a traidora à sede da Divisão esta tarde, junto com as provas de seu crime — disse o diretor Zhang, com o rosto impassível.
As outras três prisioneiras na cela foram chamadas sucessivamente, até restar apenas Ye. O montinho de carvão no canto tinha se esgotado, e não apareceu ninguém para reabastecê-lo. O fogo da fornalha havia apagado já fazia algum tempo. Estava tão frio dentro da cela que Ye precisou se enrolar no cobertor.
Dois agentes vieram buscá-la antes do anoitecer. A mais velha, um quadro, foi apresentada pelo outro agente como a representante militar da Corte Intermediária Popular.2
— Meu nome é Cheng Lihua — disse o quadro, apresentando-se.
Tinha quarenta e poucos anos, usava uma casaca militar e óculos de armação grossa. Seu rosto era simpático, e com certeza ela fora muito bonita na juventude. Sorria ao falar e conquistava a simpatia imediata de todo mundo. Ye Wenjie sabia que não era comum um quadro de escalão tão alto visitar uma prisioneira prestes a ir a julgamento. Ela fez um gesto cauteloso com a cabeça para Cheng e se acomodou no colchão estreito, a fim de abrir espaço para a representante poder se sentar.
— Está muito frio aqui. O que aconteceu com a fornalha? — Cheng lançou um olhar de censura para o chefe do centro de detenção que estava parado na porta da cela e se virou para Ye.
— Hum, você é muito jovem. Mais até do que eu tinha imaginado.
Ela se sentou no colchão ao lado de Ye e remexeu a valise, ainda murmurando.
— Wenjie, você está muito confusa. Jovens são todos iguais, quanto mais livros leem, mais confusos ficam. Ah, o que eu posso dizer…
Ela achou o que estava procurando e pegou um maço pequeno de folhas de papel. Ao encarar Ye, seus olhos se encheram de gentileza e carinho.
— Mas não é nenhum grande problema. Que jovem nunca cometeu erros? Até eu já cometi alguns. Na adolescência, fazia parte da trupe artística do IV Exército de Campanha e me especializei como cantora de músicas soviéticas. Certa vez, durante uma sessão de estudos políticos, anunciei que a China devia desistir de ser um país independente e se unir à URSS como república-membro. Assim, o comunismo internacional ficaria ainda mais forte. Como eu era ingênua! Mas quem já não foi ingênuo? O que está feito, feito está. Quando a gente comete um erro, o mais importante é admitir e corrigir. E aí a gente pode continuar a revolução.
As palavras de Cheng pareciam interessar Ye. Porém, depois de passar por tantos problemas, Ye havia aprendido a ter cautela. Ela não se atrevia a acreditar naquela gentileza, que quase parecia um luxo.
Cheng colocou a pilha de papéis na cama, na frente de Ye, e lhe entregou uma caneta.
— Vamos, assine isto. Depois poderemos ter uma conversa bem franca e resolver suas dificuldades ideológicas. — O tom dela era o mesmo de uma mãe que tentava convencer a filha a comer.
Ye olhou para a pilha de papéis em silêncio e sem se mexer. Não pegou a caneta.
Cheng abriu um sorriso compassivo.
— Pode confiar em mim, Wenjie. Eu garanto pessoalmente que esse documento não tem nada a ver com o seu caso. Vá em frente. Assine.
O outro agente, que permanecia afastado, acrescentou:
— Ye Wenjie, a representante Cheng só está tentando ajudar. Ela tem trabalhado muito por você.
Cheng fez um gesto para que ele se calasse.
— É compreensível. Coitadinha! Você está tão assustada. Alguns camaradas não têm uma percepção política tão elevada como deveriam. Alguns membros do Corpo de Construção e algumas pessoas na Corte Popular adotam métodos simplistas demais e se comportam de um jeito muito grosseiro. É completamente inadequado! Muito bem, Wenjie, que tal você ler o documento? Leia com cuidado.
Ye pegou e folheou o documento debaixo da fraca luz amarela da cela. A representante Cheng não havia mentido. O documento realmente não tinha nada a ver com seu caso.
Era sobre o pai de Wenjie. Descrevia um histórico das interações e conversas dele com certos indivíduos. A fonte era Wenxue, a irmã caçula de Wenjie. Uma das guardas-vermelhas mais radicais, Wenxue sempre mostrara iniciativa para denunciar o pai e redigira diversos relatórios para detalhar os supostos pecados dele. Parte do material fornecido por ela acabou por levá-lo à morte.
No entanto, Ye percebeu que aquele documento não havia saído das mãos de sua irmã. Wenxue tinha um estilo intenso, impaciente. Ao ler os relatórios dela, cada linha causava um impacto explosivo, como uma série de fogos de artifício. Só que aquele documento era composto com um estilo sereno, experiente, meticuloso. Quem falou com quem, quando, onde, o tema — cada detalhe fora registrado, incluindo a data exata. Para alguém sem experiência, o conteúdo parecia um diário tedioso, mas o propósito frio e calculista oculto naquelas palavras era muito diferente das calúnias infantis de Wenxue.
Ye não entendia muito bem qual era a intenção do documento, mas pressentia que tinha algo a ver com determinado projeto de defesa nacional importante. Como era filha de um físico, Ye imaginou que fizesse referência ao projeto bomba-dupla,3 que havia chocado o mundo em 1964 e 1967.
Durante aquele período da Revolução Cultural, para derrotar algum indivíduo muito influente, era preciso reunir provas das deficiências dele em diversas áreas. No entanto, para quem tramava essas maquinações políticas, o projeto bomba-dupla impunha muitos obstáculos. Membros do escalão mais alto do governo protegiam esse projeto a fim de evitar interferência da Revolução Cultural. Era difícil para alguém com intenções nefastas espionar os mecanismos internos do processo.
Devido ao histórico familiar de Ye Zhetai, ele não atendia aos requisitos políticos e não trabalhou no projeto bomba-dupla. Fizera apenas um pouco de pesquisa teórica periférica relacionada ao plano. Mas era mais fácil usá-lo como isca do que alguém envolvido com o cerne do projeto. Ainda que Ye Wenjie não soubesse se o conteúdo daquele documento era verdadeiro ou falso, estava certa de que cada caractere e cada sinal de pontuação tinham potencial para
representar um golpe político fatal. Além das pessoas envolvidas diretamente, muitas outras poderiam ver seu destino mudar em razão daquelas folhas.
No final do documento havia a assinatura de sua irmã, com caracteres grandes, e Ye deveria assinar como testemunha. Ela percebeu que outras três testemunhas já haviam assinado.
— Não sei de nada a respeito dessas conversas — disse ela, em voz baixa, voltando a baixar o documento.
— Como é que não sabe? Muitas dessas conversas aconteceram bem na sua casa. Se sua irmã sabia, você também deve saber.
— Não sei mesmo.
— Mas essas conversas aconteceram de verdade. Você precisa confiar em nós.
— Não falei que não era verdade. Só que realmente não sei de nada a respeito delas. Então não posso assinar.
— Ye Wenjie! — O outro agente fez menção de se aproximar, mas foi impedido outra vez por Cheng. Ela se mexeu no colchão para se sentar ainda mais perto de Ye e pegou uma de suas mãos frias.
— Wenjie, vou abrir o jogo com você. Seu caso envolve a boa vontade da promotoria. Por um lado, podemos tratá-lo como o mero caso de uma jovem instruída enganada por um livro reacionário. Não é nada de mais. Nem seria preciso passar pelo processo judicial. Você iria para uma aula de política, escreveria alguns artigos de autocrítica e depois poderia voltar ao Corpo de Construção. Por outro lado, podemos também processar seu caso com todo o rigor da lei. Wenjie, você precisa entender que pode ser declarada uma contrarrevolucionária ativa.
“Agora, diante de casos políticos como o seu, todas as instâncias da promotoria e todas as cortes preferem pecar pelo excesso de severidade, e não pelo de leniência. Um tratamento com muita severidade seria apenas um erro metodológico; já um tratamento com muita leniência seria um erro de direcionamento político. Porém, em última instância, a decisão cabe ao comitê de controle militar. Claro, tudo isso que estou falando deve ficar entre nós.”
O agente que acompanhava Cheng confirmou com a cabeça.
— A representante Cheng está tentando salvá-la. Três testemunhas já assinaram. Sua recusa não significa quase nada. Insisto para que você não se confunda, Ye Wenjie.
— É verdade, Wenjie — continuou Cheng. — Eu ficaria arrasada de ver uma jovem instruída como você se arruinar por uma ninharia dessas. Realmente quero salvá-la. Por favor, coopere. Olhe para mim. Você acha que eu seria capaz de machucá-la?
Mas Ye não olhou para a representante Cheng. A única coisa que viu foi o sangue do pai.
— Representante Cheng, não estou ciente dos acontecimentos descritos neste documento. Não posso assinar.
Cheng Lihua ficou quieta. Encarou Ye por um bom tempo, e o ar frio da cela pareceu se solidificar. Em seguida, voltou a guardar lentamente o documento na valise e se levantou. A expressão gentil não sumiu, mas parecia uma máscara de gesso em seu rosto. Ainda com semblante bondoso e caridoso, ela foi até o canto da cela, onde havia um balde para banho. Apanhou o recipiente e entornou metade da água no corpo de Ye e a outra metade no cobertor, sem que os movimentos jamais perdessem a calma metódica. Por fim, largou o balde e saiu da cela, parando apenas para murmurar:
— Sua vaquinha teimosa!
O chefe do centro de detenção saiu por último. Ele lançou um olhar glacial para Ye, que estava completamente encharcada, bateu e trancou a porta da cela.
Com as roupas molhadas, o frio do inverno na Mongólia Interior envolveu Ye como a mão de um gigante. Ela ouviu os dentes baterem, mas com o passar do tempo até esse som desapareceu. O frio penetrou em seus ossos, e o mundo diante de seus olhos deu lugar a um branco leitoso. Ye sentiu que o universo inteiro era um bloco gigantesco de gelo, e ela era a única fagulha de vida que existia. Era a menininha prestes a morrer congelada e não tinha nem sequer um punhado de fósforos, só ilusões…
O envolvente bloco de gelo aos poucos foi ficando transparente. À sua frente, ela viu um edifício alto. Lá em cima, uma menina agitava uma bandeira muito vermelha. Sua silhueta esbelta marcava um contraste agudo com a dimensão da bandeira: era sua irmã, Wenxue. Desde que a irmã rompera de vez com a família de autoridades acadêmicas reacionárias, Wenjie nunca mais tivera notícia da caçula. Só recentemente descobrira que Wenxue havia morrido dois anos antes, em uma das guerras entre facções da Guarda Vermelha.
Enquanto Ye observava, a figura que agitava a bandeira se transformou em Bai Mulin, e seus óculos refletiam as chamas que se espalhavam embaixo do edifício; depois, se tornou a representante Cheng; depois, sua mãe, Shao Lin; depois, seu pai. Embora o portador da bandeira mudasse, a bandeira tremulava sem parar, como um pêndulo sem fim, contando os instantes que restavam na breve vida de Ye.
Lentamente, a bandeira ficou embaçada. Tudo ficou embaçado. O gelo que envolveu o universo voltou a prender Ye em seu centro. Só que, desta vez, o gelo era preto.
1. “Quadro”, quando usado no contexto do comunismo chinês, não se refere a um grupo, mas a um indivíduo que integra o Partido ou o governo.
2. Durante essa fase da Revolução Cultural, a maioria das cortes populares intermediárias e superiores e das promotorias (responsáveis por investigar e processar crimes) se encontrava sob o controle de comissões militares. O representante militar tinha a palavra final em assuntos judiciais. (N. A.)
3. Esse é o nome chinês dado para os trabalhos relacionados a “596” e “Teste n. 6”, os testes bem-sucedidos das primeiras bombas nucleares de fissão e de fusão da China, respectivamente.
Ye Wenjie ouviu um rugido alto e contínuo. Não sabia quanto tempo tinha passado.
Estava cercada por barulho de todos os lados. Em seu difuso estado de consciência, tinha impressão de que uma máquina gigantesca estava perfurando ou serrando o bloco de gelo que a envolvia. O mundo ainda era uma escuridão absoluta, mas o barulho foi se tornando cada vez mais real. Por fim, teve certeza de que a fonte do ruído não estava nem no céu, nem no inferno, e que ela continuava no reino dos vivos.
Ye percebeu que ainda estava de olhos fechados. Com esforço, abriu as pálpebras. A primeira coisa que viu foi uma luz incrustada profundamente no teto. Coberta por uma tela de arame que parecia ter o objetivo de protegê-la, a luz emitia um brilho fraco. O teto parecia feito de metal.
Ela ouviu a voz baixa de um homem chamar seu nome.
— Você está com febre alta — disse.
— Onde estou? — A voz de Wenjie estava tão fraca que ela não sabia ao certo se era mesmo sua.
— Em um helicóptero.
Ye se sentiu fraca. Adormeceu de novo. Teve a companhia do rugido durante o cochilo. Pouco tempo depois, acordou outra vez. Agora a sensação de dormência tinha passado, e a dor voltou com força: a cabeça e as articulações dos membros estavam doloridas, e o ar que saía de sua boca parecia escaldante. A garganta ardia tanto que o ato de engolir saliva parecia igual ao de engolir carvão em brasa.
Ela virou a cabeça e viu dois homens vestidos com casacas militares idênticas à da representante Cheng. Só que no quepe de algodão do ELP deles, ao contrário do dela, havia uma estrela vermelha bordada na frente. As casacas não estavam abotoadas, e Ye percebeu as divisas vermelhas no colarinho das fardas militares. Um dos homens usava óculos.
Ye descobriu que também estava coberta por uma casaca militar. Suas roupas estavam secas e eram quentes.
Ela tentou se sentar e, para sua surpresa, conseguiu. Olhou pela janela do outro lado. Viu nuvens redondas passando lentamente, refletindo a luz ofuscante do sol. Desviou o olhar. A cabine apertada estava cheia de baús de ferro pintados com o verde do Exército. Por outra janela, avistou as bruxuleantes sombras dos rotores. Estava mesmo em um helicóptero.
— É melhor você se deitar de novo — disse o homem de óculos, ajudando Ye a se abaixar e voltando a cobri-la.
— Ye Wenjie, você escreveu este artigo? — O outro homem pôs um periódico inglês aberto diante dos olhos dela. O título do artigo era “A possível existência de fronteiras entre fases na zona de radiação solar e suas características reflexivas”. Ele mostrou a capa da publicação: um número de 1966 do Journal of Astrophysics.
— É claro que ela escreveu. Por que é que isso precisa de confirmação? — O homem de óculos pegou o periódico e cuidou das apresentações. — Este é o comissário político Lei Zhicheng, da Base Costa Vermelha. Já eu sou Yang Weining, engenheiro-chefe da base. Vamos pousar daqui a uma hora. Seria bom você descansar um pouco.
Você é Yang Weining? Ye não disse nada, mas estava atordoada. Percebeu que o homem manteve uma expressão tranquila, aparentemente sem querer dar mostras de que os dois se conheciam. Yang havia sido um dos alunos de pós-graduação de Zhetai. Ye ainda estava no primeiro ano da faculdade quando ele se formou.
Ye se lembrava com nitidez da primeira vez que Yang fora à casa de sua família. Ele tinha acabado de começar o programa de pós-graduação e precisava conversar sobre os rumos da pesquisa com o pai dela. Yang disse que pretendia se concentrar em problemas experimentais e aplicados e ficar longe da teoria.
Ye Wenjie se lembrava de ouvir o pai dizer:
— Não me oponho a essa ideia. Mas, afinal de contas, fazemos parte do Departamento de Física Teórica. Então, por que você quer evitar a teoria?
— Quero me dedicar aos nossos tempos — respondeu Yang —, quero dar contribuições para o mundo real.
— A teoria é a base da aplicação. Por acaso a maior contribuição para nossos tempos não é a descoberta de leis fundamentais? — perguntou o pai de Wenjie.
Yang hesitou até enfim revelar o verdadeiro motivo de sua preocupação:
— É fácil cometer equívocos ideológicos com a teoria.
O pai de Ye Wenjie não tinha como rebater esse argumento.
Yang era muito competente, com uma boa base de matemática e um pensamento ágil. Porém, durante o breve período como aluno de pós-graduação, sempre manteve uma distância respeitável de seu orientador. Embora Ye Wenjie tivesse visto Yang algumas vezes, talvez por influência do pai não reparara muito nele. Se a recíproca era verdadeira, Ye não fazia a menor ideia. Depois que recebeu o diploma, Yang logo interrompeu todo o contato com o orientador.
Sentindo-se fraca de novo, ela fechou os olhos. Os dois homens deixaram Ye e foram se acomodar atrás de um conjunto de baús para conversar em voz baixa. Mas a cabine era tão apertada que Ye conseguia ouvir o diálogo mesmo em meio ao barulho do motor.
— Ainda acho que não é uma boa ideia — disse o comissário Lei.
— Você pode providenciar a equipe de que preciso pelas vias oficiais? — perguntou Yang.
— Bem, já fiz tudo o que estava a meu alcance. Não tem ninguém no Exército com essa especialização, e procurar fora da força suscitaria perguntas demais. Você sabe muito bem que o nível de autorização necessário para esse projeto exige alguém disposto a entrar para o Exército. Mas o maior problema é que as normas de segurança obrigam que a pessoa permaneça confinada
na base por longos períodos. O que fazer com quem tem família? Confinar todo mundo na base? Ninguém aceitaria isso. Cheguei a encontrar dois possíveis candidatos, mas ambos preferem ficar nas Escolas de Quadros Sete de Maio.* É claro que poderíamos trazê-los à força. Só que, considerando a natureza do trabalho, não podemos escolher alguém que não queira estar aqui.
— Então não resta escolha a não ser usar Ye.
— Mas isso não é nada ortodoxo.
— O projeto inteiro não é nada ortodoxo. Se algo der errado, eu assumo a responsabilidade.
— Chefe Yang, você acha mesmo que pode assumir a responsabilidade por algo assim? Você
é um técnico, mas a Costa Vermelha não é como outros projetos de defesa nacional. A complexidade vai muito além das questões técnicas.
— Você tem razão, mas eu só sei resolver questões técnicas.
Quando eles aterrissaram, o céu já estava escurecendo.
Ye recusou a ajuda de Yang e Lei e saiu do helicóptero sozinha. Uma forte lufada de vento quase a derrubou. Os rotores ainda giravam contra a ventania, produzindo um chiado agudo. Ela reconhecia aquele cheiro de floresta no vento. Era o vento da cordilheira Grande Khingan.
Ye logo ouviu outro som, um uivo baixo, grave e enfático, que parecia compor o pano de fundo do mundo: o vento na antena parabólica. Só naquele momento, ali tão perto, ela conseguiu sentir a imensidão. A vida de Ye dera uma grande volta naquele mês: ela estava no topo do pico do Radar.
Ela não resistiu ao impulso de lançar um olhar na direção do Corpo de Construção. Mas só conseguiu ver um mar enevoado de árvores ao anoitecer.
O helicóptero não tinha transportado apenas Ye. Soldados se aproximaram e começaram a descarregar os baús militares da cabine. Eles passaram sem olhar para Ye. Conforme seguia Yang e Lei, ela percebeu que o topo do pico do Radar era amplo. Havia um conjunto de edifícios brancos abrigados sob a gigantesca antena, como delicados blocos de brinquedo. Escoltado por dois guardas, o trio se dirigiu ao portão da base e parou na frente dele.
Lei se virou para ela e falou com solenidade:
— Ye Wenjie, as provas de seu crime contrarrevolucionário são inquestionáveis, e a corte teria dado uma sentença à altura da punição que você merece. Mas agora você tem a oportunidade de se redimir pelo trabalho. Pode aceitar ou recusar. — Ele apontou para a antena.
— Este é um instituto de pesquisa em defesa. A pesquisa realizada aqui precisa de alguém como você e seus conhecimentos científicos especializados. O engenheiro-chefe Yang vai fornecer os detalhes, que você deve considerar com cuidado.
Ele fez um gesto para Yang e passou pelo portão, seguindo os soldados que carregavam os baús.
Yang esperou os outros se afastarem e indicou que Ye deveria acompanhá-lo para longe do portão, evidentemente tentando evitar que as sentinelas ouvissem a conversa.
Ele parou de fingir que não se conheciam.
— Wenjie, quero deixar claro, esta não é uma grande oportunidade. Descobri junto ao comitê de controle militar do tribunal que, embora Cheng Lihua recomende uma sentença severa para
você, vai ser no máximo dez anos. Levando em conta circunstâncias atenuantes, você talvez cumpra seis ou sete. Já isto — ele fez um gesto com a cabeça para a base — é um projeto de pesquisa classificado com o grau máximo de segurança. Considerando sua situação, é possível que, se passar pelo portão… — Ele hesitou, como se quisesse deixar que o uivo grave da antena reforçasse o peso das palavras. — … você fique aqui pelo resto da vida.
— Quero entrar.
Yang ficou surpreso com a rapidez da resposta.
— Não tenha pressa. Volte para o helicóptero. Ele vai decolar daqui a três horas e, se você recusar nossa proposta, será levada de volta.
— Não quero voltar. Vamos entrar.
Ye ainda mantinha a voz baixa, mas seu tom tinha uma determinação mais firme que o aço. Com exceção do território desconhecido do outro lado da morte de onde ninguém jamais voltou, aquele pico isolado do resto do mundo era o lugar onde ela mais queria estar. Ali, sentia uma segurança que por muito tempo escapara de suas mãos.
— Você devia refletir com cuidado. Pense no que essa decisão acarreta.
— Posso ficar aqui pelo resto da vida.
Yang abaixou a cabeça e não falou nada. Ficou olhando para o vazio, como se obrigasse Ye a organizar os próprios pensamentos. Ye também ficou em silêncio. Ela apertou a casaca em volta do corpo e sondou o cenário distante. A cordilheira Grande Khingan desaparecia no ocaso. Era impossível permanecer ali fora, no frio, por muito mais tempo.
Yang começou a caminhar na direção do portão. Ele andava rápido, como se tentasse deixar Ye para trás. Mas Ye o seguia de perto. Quando passaram pelo portão da Base Costa Vermelha, as duas sentinelas fecharam as pesadas portas de ferro.
Após avançarem um pouco, Yang parou e apontou para a antena.
— Este é um projeto de pesquisa de armamentos de grande escala. Se tivermos sucesso, o resultado será ainda mais impactante do que a bomba atômica e a bomba de hidrogênio.
Os dois chegaram ao maior edifício da base, e Yang abriu a porta. Ye viu as palavras SALA DE CONTROLE PRINCIPAL DE TRANSMISSÃO no alto. Do lado de dentro, foi recebida por um ar quente marcado pelo cheiro de combustível. Ela percebeu que o cômodo amplo estava cheio de todo tipo de instrumento e material. Lâmpadas de sinalização e telas de osciloscópios piscavam em sintonia. Havia mais ou menos uns dez operadores, que pareciam praticamente sepultados em suas fardas militares pelas fileiras de instrumentos, como se estivessem agachados em trincheiras de guerra. O fluxo incessante de comandos e respostas operacionais conferia à cena toda um tom tenso e confuso.
— Aqui dentro está mais quente — disse Yang. — Espere um pouco. Vou cuidar das suas acomodações e já volto.
Ele apontou para uma das cadeiras de uma mesa perto da porta.
Ye viu que já havia alguém sentado à mesa: um guarda armado com uma pistola.
— Prefiro esperar lá fora — respondeu Ye.
Yang esboçou um sorriso gentil.
— A partir de agora, você faz parte da equipe da base. Tirando algumas áreas restritas, você pode ir aonde quiser. — De repente, a expressão do rosto dele mudou ao perceber um segundo sentido subjacente àquelas palavras: Você nunca mais vai sair daqui.
— Prefiro esperar lá fora — insistiu Ye.
— Tudo bem. — Depois de lançar um olhar para o guarda na cadeira, que ignorava os dois completamente, Yang pareceu entender a preocupação de Ye e saiu da sala de controle principal junto com ela. — Fique em algum lugar abrigado do vento. Eu volto daqui a alguns minutos. Só preciso arrumar alguém para acender a lareira no seu quarto… as condições na base são um pouco precárias, e não temos sistema de calefação.
Ye ficou parada perto da porta da sala de controle principal. A antena imensa estava bem atrás dela e cobria metade do céu. De onde estava, Ye conseguia ouvir com clareza os sons que saíam da sala de controle principal. De repente, o caos de ordens e respostas parou, e a sala ficou em silêncio absoluto. Ela ouvia apenas um ou outro zumbido baixo de algum instrumento.
Então uma voz masculina alta rompeu o silêncio.
— Exército da Libertação Popular, 2º Corpo de Artilharia,** Projeto Costa Vermelha, transmissão número 147. Autorização confirmada. Começar contagem de trinta segundos.
— Classificação de Alvo: A-três. Número de série das coordenadas: BN20197F. Posição verificada e confirmada. Vinte e cinco segundos.
— Unidade de Energia relata: todos os sistemas operacionais.
— Unidade de Codificação relata: todos os sistemas operacionais.
— Unidade do Amplificador relata: todos os sistemas operacionais.
— Unidade de Monitoramento de Interferência relata: todos os sistemas operacionais.
— Alcançamos o ponto de não retorno. Quinze segundos.
Tudo voltou a ficar em silêncio. Quinze segundos depois, uma sirene soou e uma luz vermelha em cima da antena começou a piscar rapidamente.
— Começar transmissão! Todas as unidades continuem o monitoramento!
Ye sentiu que seu rosto começou a formigar de leve. Sabia que havia aparecido um campo elétrico enorme. Levantou a cabeça para olhar para onde a antena estava apontada e viu uma nuvem no céu noturno brilhar com uma luz azul fraca, tão fraca que a princípio Ye achou que fosse uma ilusão. No entanto, quando a nuvem se deslocou, o brilho desapareceu. Outra nuvem que flutuou para aquela posição começou a emitir o mesmo brilho.
Da sala de controle principal, ela passou a ouvir gritos.
— Falha na Unidade de Energia. Magnétron número três queimou.
— Unidade de Apoio está em atividade: todos os sistemas operacionais.
— Marco um atingido. Retomando transmissão.
Ye ouviu uma agitação. Através da neblina, avistou sombras se erguerem da floresta sob o pico e subirem em espiral para o céu escuro. Ela não sabia que era possível atiçar tantos pássaros das árvores no meio do inverno. Então presenciou uma cena apavorante: uma revoada de pássaros atravessou a região do ar para onde a antena estava apontada e, diante da nuvem vagamente iluminada, todos caíram do céu.
O processo continuou por cerca de quinze minutos. Foi quando a luz vermelha da antena se apagou, e o formigamento na pele de Ye parou. Na sala de controle, o murmúrio confuso de ordens e respostas foi retomado, enquanto a voz masculina alta continuava.
— Transmissão 147 de Costa Vermelha concluída. Sistemas de transmissão desativando. Costa Vermelha entrando agora em estado de monitoração. Controle de sistemas transferido a partir de agora para o Departamento de Monitoração. Favor carregar dados do marco.
— Todas as unidades devem preencher diários de transmissão. Todos os líderes de unidade devem comparecer à reunião pós-transmissão na sala de conferência. Sessão finalizada.
Tirando o uivo do vento na antena, o silêncio era total. Como Ye observou, o restante dos pássaros aos poucos voltava para a floresta. Ela olhou para a antena e pensou que parecia uma mão imensa aberta para o céu, com uma força etérea. Ao sondar o céu noturno, não viu nenhum alvo que na sua opinião pudesse ser o número de série BN20197F. Além das nuvens esparsas, via apenas as estrelas de uma noite fria de 1969.
* As Escolas de Quadros Sete de Maio eram campos de trabalho ativos durante a Revolução Cultural em que quadros e intelectuais eram “reeducados”.
** O 2º Corpo de Artilharia controla os mísseis nucleares da China.
Após esperar com paciência até o barulho diminuir, um dos rapazes se virou para a vítima.
— Ye Zhetai, você é especialista em mecânica. Deve perceber que está resistindo a uma força intensa demais. Insistir nessa teimosia conduzirá apenas à sua morte! Hoje, retomamos o assunto da última sessão. Nem perca tempo desperdiçando palavras. Responda à seguinte pergunta sem a malícia habitual: entre os anos de 1962 e 1965, você não decidiu por conta própria acrescentar a relatividade à disciplina de introdução à física?
— A relatividade faz parte das teorias fundamentais da física — respondeu Ye. — Como uma disciplina introdutória poderia não ensinar o tema?
— Você está mentindo! — gritou uma guarda-vermelha a seu lado. — Einstein não passa de uma autoridade acadêmica reacionária, que serviria a qualquer mestre que balançasse um maço de dinheiro na sua frente. Até ajudou os imperialistas americanos a construir a bomba atômica! Para desenvolver uma ciência revolucionária, precisamos derrotar o estandarte negro do capitalismo representado pela teoria da relatividade!
Ye ficou em silêncio. Como precisava suportar a dor do pesado chapéu de metal e da placa de ferro no pescoço, não lhe restava energia para rebater perguntas que não mereciam resposta. Atrás dele, um de seus alunos também franziu o cenho. A menina que acabara de falar era a mais inteligente das quatro guardas-vermelhas, e era nítido que havia se preparado, pois fora vista decorando o roteiro da sessão de luta antes de subir ao palco.
Porém, contra Ye Zhetai, bordões como aquele não bastariam. Os guardas-vermelhos decidiram apresentar a nova arma reservada para o professor. Um deles acenou para alguém que estava fora do palco: Shao Lin, professora de física e esposa de Ye, se levantou na primeira fileira da multidão e subiu ao palco com um traje verde que não lhe caía bem, tentativa óbvia de imitar a farda militar dos guardas-vermelhos. As pessoas que a conheciam sabiam que, em muitas de suas aulas, ela havia usado um elegante qipao, e seu aspecto naquele momento parecia estranho e forçado.
— Ye Zhetai! — Dava para ver que ela não estava acostumada àquela teatralidade e, embora tentasse falar mais alto, o esforço ampliou o tremor em sua voz. — Você por acaso achou que eu não me ergueria, que não faria denúncias nem críticas? É verdade que no passado me deixei enganar por você, que cobriu meus olhos com sua visão reacionária do mundo e da ciência! Mas agora estou desperta e atenta. Com a ajuda dos jovens revolucionários, quero estar do lado da revolução, do lado do povo!
Ela se virou para a multidão.
— Camaradas, jovens, professores e funcionários revolucionários, devemos compreender claramente a natureza reacionária da teoria da relatividade de Einstein. É algo óbvio demais na relatividade geral: o modelo estático do universo nega a natureza dinâmica da matéria. É antidialético! Trata o universo como algo limitado, o que é definitivamente uma forma de idealismo reacionário…
Enquanto escutava o discurso da esposa, Ye não pôde evitar um sorriso amargurado. Lin, enganei você? De fato, em meu coração, você sempre foi um mistério. Certa vez, exaltei sua genialidade em uma conversa com seu pai — sorte dele ter morrido cedo e evitado essa catástrofe —, que balançou a cabeça e comentou que não achava que você realizaria muitas façanhas acadêmicas. O que ele disse depois acabou se tornando muito importante para a segunda metade de minha vida: “Lin Lin é inteligente demais. Para trabalhar com teorias de base, é preciso ser idiota”.
Anos depois, passei a compreender cada vez mais aquelas palavras. Lin, você é mesmo inteligente demais. Alguns anos atrás você já pressentiu a mudança nos ventos da política no mundo acadêmico e se preparou. Por exemplo, em suas aulas, você mudou o nome de muitas leis e constantes da física: a lei de Ohm você chamou de lei da resistência, as equações de Maxwell você chamou de equações eletromagnéticas, a constante de Planck você chamou de constante quântica… Explicou aos seus alunos que todas as realizações científicas resultaram da sabedoria da massa proletária e que as autoridades acadêmicas capitalistas apenas roubaram esses frutos e puseram seus nomes.
Apesar disso, você nunca foi aceita pelo núcleo revolucionário. Veja só agora: você não tem permissão para usar a braçadeira vermelha dos “professores e funcionários revolucionários”, e precisou subir aqui de mãos vazias, sem status para portar o Pequeno Livro Vermelho… Não tem como superar o defeito de ter nascido em uma família proeminente da China pré-revolução nem de ser filha de acadêmicos tão famosos.
Porém, na verdade, você tem mais a confessar em relação a Einstein do que eu. No inverno de 1922, Einstein visitou Shanghai. Como seu pai falava fluentemente alemão, pediram que acompanhasse Einstein no passeio. Você me disse diversas vezes que seu pai começou a estudar física por incentivo de Einstein e que você escolheu a física por influência de seu pai. Então, de certa forma, é possível dizer que Einstein foi seu professor indireto. E você tinha muito orgulho e se achava sortuda por ter esse tipo de ligação.
Mais tarde, descobri que seu pai contara uma mentirinha para você. Ele só havia conversado com Einstein uma vez, por um breve instante. Na manhã de 13 de novembro de 1922, ele acompanhou Einstein em uma caminhada pela rua Nanjing. O grupo também contava com Yu Youren, reitor da Universidade de Shanghai, e Cao Gubing, editor-geral do jornal Ta Kung Pao. Quando passaram por um canteiro de obras no acostamento, Einstein parou perto de um trabalhador que estava quebrando pedras e ficou observando em silêncio aquele menino de rosto sujo, mãos imundas e roupa esfarrapada. Ele perguntou a seu pai quanto o menino recebia por dia. Depois de perguntar ao menino, seu pai respondeu a Einstein: cinco centavos.
Essa foi a única vez que ele trocou palavras com o grande cientista que mudou o mundo. Não houve conversas sobre física nem sobre relatividade, apenas a realidade nua e crua. Segundo seu pai, Einstein ficou parado por um bom tempo depois de ouvir a resposta, observando os movimentos mecânicos do menino, sem nem se dar ao trabalho de fumar o cachimbo, deixando a brasa se apagar. Assim que seu pai relatou essa lembrança para mim, ele suspirou e disse: “Na China, qualquer ideia que se atrevesse a alçar voo logo voltaria a cair no chão. A gravidade da realidade é forte demais”.
— Abaixe a cabeça! — gritou um dos jovens da Guarda Vermelha. Isso talvez até fosse um gesto de misericórdia do ex-aluno. Como se esperava que todas as vítimas submetidas à luta abaixassem a cabeça, se Ye abaixasse a sua, o chapéu alto e pesado de metal cairia. Caso continuasse de cabeça baixa, não haveria motivo para colocarem o objeto de novo. Mas Ye se recusou e manteve a cabeça erguida, sustentando todo o peso com o pescoço fino.
— Abaixe a cabeça, seu reacionário teimoso!
Uma das meninas da Guarda Vermelha tirou o cinto e açoitou Ye. A fivela de cobre acertou-o na testa e deixou uma marca nítida, logo coberta pelo sangue que começou a escorrer. Ele cambaleou por alguns instantes e, depois, voltou a se endireitar e ficar firme.
Um dos rapazes disse:
— Quando você ensinava mecânica quântica, também enchia a matéria de muitas ideias reacionárias.
Em seguida, fez um gesto para que Shao Lin continuasse.
Shao atendeu na hora. Ela precisava continuar falando, caso contrário sua mente frágil, já sustentada por um fio tênue, se arruinaria de vez.
— Ye Zhetai, você não pode negar esta acusação! Já deu muitas aulas sobre a interpretação de Copenhague da mecânica quântica.
— Claro, essa explicação é reconhecida como a mais condizente com resultados experimentais.
Aquele tom calmo e equilibrado surpreendeu e assustou Shao Lin.
— Essa explicação postula que a observação a partir do exterior leva ao colapso da função de onda quântica. Nada mais é do que outra expressão de idealismo reacionário e, para ser sincera, a mais escandalosa expressão.
— A filosofia deve orientar experimentos, ou os experimentos devem orientar a filosofia?
O contra-ataque repentino de Ye chocou as pessoas que estavam conduzindo a sessão de luta.
Por um instante, eles não souberam o que fazer.
— É claro que os experimentos científicos devem ser orientados pela filosofia correta do marxismo! — disse enfim um dos guardas-vermelhos.
— Isso é o mesmo que dizer que a filosofia correta cai do céu. Vai contra a ideia de que a verdade surge a partir da experiência. Contraria os princípios pelos quais o marxismo tenta entender a natureza.
Shao Lin e os dois guardas-vermelhos universitários não tinham como rebater aquilo. Ao contrário das meninas, ainda no colégio, eles não podiam ignorar completamente a lógica.
Só que as quatro adolescentes tinham seus próprios métodos revolucionários, que achavam invencíveis. A menina que açoitara Ye antes puxou e estalou o cinto no ar de novo. As outras três imitaram o gesto: diante de tamanha exibição de fervor revolucionário pela companheira, elas precisavam demonstrar no mínimo a mesma medida ou, de preferência, ainda mais. Os dois rapazes não interferiram. Se tentassem intervir, levantariam suspeitas de que não eram revolucionários o bastante.
— Você também ensinava a teoria do Big Bang. Essa é a teoria mais reacionária de todas — apontou um dos guardas-vermelhos, tentando mudar de assunto.
— Talvez no futuro a teoria venha a ser refutada. Mas duas grandes descobertas cosmológicas deste século, a lei de Hubble e a observação da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, mostram que a teoria do Big Bang é hoje a explicação mais plausível para a origem do universo.
— Mentira! — berrou Shao Lin.
Ela então começou um longo discurso sobre a teoria do Big Bang, lembrando-se de inserir comentários astutos sobre a natureza extremamente reacionária. No entanto, o ineditismo da teoria atraiu a menina mais inteligente das quatro, que não resistiu e perguntou:
— O tempo começou com a singularidade? Então o que havia antes da singularidade?
— Nada — disse Ye, da mesma maneira como responderia à pergunta de um curioso. Ele se virou para lançar um olhar bondoso à menina. Com os ferimentos e o chapéu alto de aço, o movimento foi muito difícil.
— Não… nada? Isso é reacionário! Completamente reacionário! — gritou a menina, assustada. Ela se voltou para Shao Lin, que sem titubear ofereceu ajuda.
— A teoria deixa espaço para a existência de Deus. — Shao fez um gesto com a cabeça para a menina.
Confusa com aqueles pensamentos novos, a jovem guarda-vermelha acabou achando um ponto de apoio. Ela ergueu a mão, ainda segurando o cinto, e apontou para Ye.
— Você: está tentando dizer que Deus existe?
— Não sei.
— O quê?
— Estou dizendo que não sei. Se por “Deus” você entende alguma espécie de superconsciência externa ao universo, não sei se isso existe. A ciência nunca forneceu provas em nenhum sentido.
Na verdade, no meio daquele pesadelo, Ye estava inclinado a acreditar que Deus não existia. A afirmação extremamente reacionária provocou uma comoção na multidão. No palco, um dos guardas-vermelhos puxou mais uma onda de brados de ordem.
— Abaixo a autoridade acadêmica reacionária de Ye Zhetai!
— Abaixo todas as autoridades acadêmicas reacionárias!
— Abaixo todas as doutrinas reacionárias!
— Deus não existe. Todas as religiões são instrumentos maquinados pela classe dominante com o propósito de paralisar o espírito do povo!
— Essa é uma perspectiva muito limitada — disse Ye, com calma.
Constrangida e furiosa, a menina da Guarda Vermelha chegou à conclusão de que nenhuma conversa adiantaria contra aquele inimigo perigoso. Ela pegou o cinto e avançou contra Ye, seguida pelas três companheiras. Como Ye era alto, as quatro adolescentes de catorze anos precisaram apontar os cintos para cima a fim de acertá-lo na cabeça, ainda erguida. Após alguns golpes, o grande chapéu de aço, que dava uma proteção mínima, caiu. A sucessão contínua de golpes de fivelas metálicas enfim derrubou Ye.
As jovens da Guarda Vermelha, estimuladas pelo êxito, se dedicaram com ainda mais afinco à luta gloriosa. Combatiam pela fé, por ideais. Estavam extasiadas com a luz resplandecente que a história lançaria sobre seus nomes, cheias de orgulho da própria bravura…
Os dois alunos de Ye enfim deram um basta.
— O presidente nos instruiu a “contar com eloquência, em vez de violência”!
Os dois se apressaram a tirar as quatro meninas ensandecidas de cima de Ye.
Mas já era tarde demais. O físico estava caído inerte no chão, de olhos ainda abertos, sangue escorrendo da cabeça. A turba enlouquecida ficou em silêncio. O único movimento era feito por um pequeno fio de sangue: como uma serpente vermelha, avançou devagar pelo palco, chegou à beirada e gotejou em um baú que estava ali embaixo. O som ritmado das gotas de sangue parecia os passos de alguém que ia embora.
Uma risada aguda rompeu o silêncio. O barulho vinha de Shao Lin, cuja mente enfim se desfazia. A risada assustou os presentes, que começaram a sair da sessão de luta, primeiro aos poucos, como um córrego, depois como uma inundação. Os campos de exercício logo ficaram desertos, exceto por uma jovem de frente para o palco.
Era Ye Wenjie, a filha de Ye Zhetai.
Enquanto as quatro meninas estavam tirando a vida de seu pai, ela tentara correr para cima do palco. Porém, dois faxineiros idosos da universidade a contiveram e sussurraram ao pé do ouvido que ela morreria se subisse ali. A sessão de luta coletiva havia se transformado em uma cena de loucura, e a intromissão dela apenas provocaria mais violência. Wenjie havia gritado sem parar, mas fora abafada pelas ondas ensandecidas de brados de ordem e vivas.
Quando o silêncio voltou, ela já não era mais capaz de emitir nenhum som. Ficou olhando para o corpo inerte do pai, e os pensamentos que ela não podia expressar e carregaria pelo resto da vida se dissolveram em seu próprio sangue. Depois que a multidão se dispersou, ela permaneceu como uma estátua de pedra, corpo e membros na mesma posição em que estavam quando foi contida pelos dois faxineiros idosos.
Passado muito tempo, ela enfim abaixou os braços, subiu devagar até o palco, sentou-se ao lado do corpo do pai e pegou uma das mãos já frias, sondando o nada com um olhar vazio. Quando o corpo enfim foi levado, ela retirou algo do bolso e colocou na mão do pai: o cachimbo dele.
Em silêncio, Wenjie saiu dos campos de exercício, onde só restava o lixo que a multidão havia deixado, e foi para casa. Assim que chegou ao bloco do edifício residencial dos professores, ouviu o tinido de uma risada enlouquecida pela janela do segundo andar de sua casa. Era a mulher que ela havia chamado de mãe.
Wenjie deu meia-volta, sem querer saber para onde seus pés a levariam.
Por fim, viu-se à porta da professora Ruan Wen. Ao longo dos quatro anos da vida universitária de Wenjie, a professora Ruan havia sido sua orientadora e sua melhor amiga. Dois anos depois, quando Wenjie ingressou na pós-graduação do Departamento de Astrofísica, e durante o caos subsequente da Revolução Cultural, a professora Ruan continuava sendo sua maior confidente, sem contar o pai.
Ruan havia estudado na Universidade de Cambridge, e Wenjie achava sua casa fascinante: livros, pinturas e discos sofisticados trazidos da Europa; um piano; um conjunto de cachimbos europeus dispostos em um suporte de madeira delicado, alguns feitos de urze do Mediterrâneo, outros de sepiolita turca. Todos pareciam embebidos da sabedoria do homem que segurara o fornilho ou pusera a piteira nos lábios, perdido em pensamentos, embora Ruan jamais tivesse mencionado o nome do dono. Até mesmo o cachimbo do pai de Wenjie fora um presente de Ruan.
No passado, aquele lar elegante e acolhedor fora um porto seguro para Wenjie quando ela precisava escapar das tormentas do mundo mais vasto, mas aquilo tinha sido antes de os guardas-vermelhos vasculharem a casa de Ruan e confiscarem seus bens. Como o pai de Wenjie, Ruan sofrera muito durante a Revolução Cultural. Em suas sessões de luta, os guardas-vermelhos haviam pendurado um par de sapatos de salto alto em seu pescoço e riscado o rosto dela com batom, para evidenciar o estilo de vida capitalista corrupto que ela seguia.
Wenjie abriu a porta da casa de Ruan e constatou que o caos deixado pela Guarda Vermelha fora arrumado: as pinturas a óleo rasgadas estavam remendadas e de volta nas paredes; o piano caído estava outra vez em pé, limpo, embora tivesse sido quebrado e não funcionasse mais; os poucos livros que sobraram haviam sido recolocados com cuidado na estante.
Ruan estava sentada na cadeira diante da escrivaninha, de olhos fechados. Wenjie parou ao seu lado e tocou com delicadeza a testa, o rosto e as mãos da professora — tudo frio. Wenjie havia percebido o vidro vazio de comprimidos para dormir em cima da escrivaninha assim que entrou na casa.
Continuou ali por algum tempo, sem falar nada. Então se virou e se afastou. Já não sentia mais tristeza. Era agora como um contador Geiger submetido à radiação demais, incapaz de apresentar qualquer reação, exibindo um silencioso zero.
Ainda assim, quando estava prestes a sair da casa de Ruan, Wenjie se voltou para um último olhar. Percebeu que a professora Ruan havia passado maquiagem. Estava com um toque suave de batom e sapatos de salto.
1. Referência ao editorial de agosto de 1967 da revista Hongqi (uma fonte importante de propaganda durante a Revolução Cultural), que defendia a “remoção do punhado de [contrarrevolucionários] que estava no Exército”. Muitas pessoas acharam que o editorial dava um incentivo tácito para que os guardas-vermelhos atacassem arsenais militares e roubassem armas do ELP, inflamando ainda mais as guerras civis localizadas, que foram deflagradas por facções da Guarda Vermelha. (As notas de rodapé do autor estão indicadas com N. A., as demais são de Ken Liu, tradutor da obra para a língua inglesa.)
2. Expressão oriunda do budismo, “monstros e demônios” foi usada durante a Revolução Cultural para se referir a todos os inimigos da revolução.
3. Esses foram alguns dos intelectuais mais famosos que se suicidaram durante a Revolução Cultural. Lao She: escritor; Wu Han e Jian Bozan: historiadores; Fu Lei: tradutor e crítico; Zhao Jiuzhang: meteorologista e geofísico; Yi Qun: escritor; Wen Jie: poeta; Hai Mo: dramaturgo e romancista.
4. No sistema educacional chinês, os seis anos do ensino básico costumam ser seguidos por três anos correspondentes ao segundo ciclo do ensino fundamental e outros três de ensino médio. Durante a Revolução Cultural, esse sistema de doze anos foi abreviado para um de nove ou dez anos, dependendo da província ou do município. No caso em questão, as meninas da Guarda Vermelha tinham catorze anos.
2. PRIMAVERA SILENCIOSA
Dois anos depois, cordilheira Grande Khingan
— Ma-dei-ra…
Depois do brado alto, um cedro enorme, grosso como as colunas do Partenon, caiu com um baque, e Ye Wenjie sentiu a terra tremer.
Ela pegou o machado e a serra e começou a cortar os galhos do tronco. Sempre que fazia isso, tinha a sensação de estar limpando o cadáver de um gigante. Às vezes, imaginava que o gigante era seu pai. As emoções daquela noite terrível dois anos atrás, quando limpou o corpo do pai no necrotério, voltavam à tona, e as rachaduras na casca do cedro pareciam se transformar nas cicatrizes antigas e nos ferimentos novos que cobriam seu pai.
Havia mais de cem mil pessoas — de seis divisões e quarenta e um regimentos do Corpo de Produção e Construção da Mongólia Interior — espalhadas pelas vastas florestas e pradarias. Quando saíram de suas cidades e chegaram àquela região selvagem e desconhecida, muitos dos “jovens instruídos” do Corpo — jovens universitários que já não tinham escolas para frequentar — acalentavam um desejo romântico: assim que os tanques dos imperialistas revisionistas soviéticos cruzassem a fronteira entre a Mongólia e a China, eles se armariam e fariam do próprio corpo a primeira barreira da defesa da República. De fato, essa expectativa era uma das considerações ideológicas que motivaram a criação do Corpo de Produção e Construção.
Mas a guerra pela qual eles ansiavam era como uma montanha ao final da pradaria: perfeitamente visível, mas tão distante como uma miragem. Então eles precisaram se contentar em abrir campos, pastorear animais e derrubar árvores.
Em pouco tempo, os jovens homens e mulheres que gastaram a energia da juventude em peregrinações aos locais sagrados da Revolução Chinesa descobriram que, comparadas ao céu gigantesco e ao espaço aberto da Mongólia Interior, as maiores cidades da zona rural chinesa não passavam de currais de ovelhas. Ali, no meio da imensidão fria e infindável de florestas e pradarias, a motivação flamejante deles não significava nada. Mesmo que despejassem todo o seu sangue, ele resfriaria mais rápido que um monte de esterco e não seria tão útil. Porém as chamas eram seu destino: faziam parte da geração que devia ser consumida pelo fogo. E assim, sob a fúria das motosserras, vastos oceanos de floresta se transformaram em penhascos estéreis e colinas desmatadas. Sob o ronco dos tratores e das colheitadeiras, amplos hectares de pradaria se transformaram em campos de cultivo de grãos e depois em desertos.
Ye Wenjie só conseguia classificar como loucura o desmatamento que estava presenciando. O cedro alto, o pinheiro-silvestre centenário, a bétula esbelta e reta, o choupo coreano que atravessava as nuvens, o abeto aromático, e também vidoeiros-pretos, carvalhos, olmos-montanheses, salgueiros — tudo o que vissem era derrubado. A companhia de Ye brandia centenas de motosserras como uma infestação de lagartas de aço, deixando apenas tocos para trás.
O cedro derrubado, agora sem galhos, estava pronto para ser levado pelo trator. Ye Wenjie acariciou com delicadeza o miolo recém-exposto do tronco caído. Fazia isso com frequência, como se as superfícies fossem ferimentos gigantescos, como se ela fosse capaz de sentir a dor da árvore. De repente, viu outra mão acariciar o toco da árvore a alguns metros de distância. Os tremores naquela mão revelavam um coração em sintonia com o dela. Embora a mão fosse pálida, Ye percebeu que era de um homem.
Ela levantou o olhar. Era Bai Mulin. Um homem magro e delicado, que usava óculos e era repórter do Diário da Grande Produção, o jornal do Corpo. Ele tinha chegado havia dois dias para buscar notícias sobre a companhia dela. Ye se lembrava de ler as matérias de Bai, escritas com um estilo belo, sensível e elegante, inadequado para aquele ambiente grosseiro.
— Ma Gang, venha cá — disse Bai para um rapaz que estava um pouco afastado. Ma era musculoso e alto, como o cedro que ele havia acabado de derrubar. O jovem se aproximou, e Bai perguntou: — Você sabe qual era a idade desta árvore?
— Dá para contar pelos anéis.
— Já contei. Mais de trezentos e trinta anos. Você se lembra de quanto tempo levou para serrar o tronco?
— Nem dez minutos. Olha, eu sou o operador de motosserra mais rápido da companhia. Qualquer que seja a unidade onde eu estou, a bandeira vermelha dos operários-modelo vem atrás.
A empolgação de Ma Gang era comum na maioria das pessoas em quem Bai prestava atenção. Sair no Diário da Grande Produção era considerado uma honra.
— Mais de trezentos anos! Umas doze gerações. Quando esta árvore não passava de um arbusto, ainda estávamos na dinastia Ming. Ao longo desses anos todos, você consegue imaginar a quantas tempestades ela resistiu, quantos acontecimentos presenciou? Mas você a derrubou em poucos minutos. Não sentiu nada mesmo?
— O que eu deveria sentir? — Ma Gang o encarou com uma expressão vazia. — É só uma árvore. A única coisa que a gente tem de sobra por aqui é árvore. Tem muitas outras árvores aqui, e muito mais velhas que esta.
— Tudo bem. Volte ao trabalho. — Bai sacudiu a cabeça, sentou-se no toco e suspirou.
Ma Gang também balançou a cabeça, decepcionado porque o repórter não estava interessado em fazer uma entrevista.
— Intelectuais sempre fazem drama a troco de nada — murmurou. Quando falou, deu uma olhada para Ye Wenjie, aparentemente a incluindo na crítica.
O tronco foi levado. Pedras e tocos no chão abriram novas ranhuras na casca, ferindo ainda mais o corpo do gigante. No lugar que havia ocupado antes, o peso da árvore derrubada e arrastada cavou uma vala profunda nas camadas de folhas em decomposição acumuladas ao longo dos anos, que logo se cobriu de água. As folhas podres fizeram a água parecer vermelha, como sangue.
— Wenjie, venha descansar um pouco.
Bai apontou para a metade livre do toco em que estava sentado. Ye estava mesmo cansada.
Ela soltou as ferramentas, se aproximou e foi se sentar com Bai, apoiando as costas nas dele.
Depois de um silêncio demorado, Bai desabafou:
— Eu sei o que você está sentindo. Nós dois somos os únicos que se sentem assim.
Ye continuou em silêncio. Bai sabia que ela provavelmente não ia responder. Era uma mulher de poucas palavras, que raramente conversava. Alguns recém-chegados até pensavam que ela fosse muda.
Bai continuou falando.
— Visitei esta região há um ano. Lembro que cheguei por volta de meio-dia, e meus anfitriões disseram que íamos almoçar peixe. Dei uma olhada no barraco de madeira e só vi uma panela com água no fogo. Nada de peixe. Aí, assim que a água começou a ferver, o cozinheiro saiu com um rolo de massa, parou na margem do riacho que corria perto do barraco, bateu na água com o rolo algumas vezes e conseguiu apanhar alguns peixes grandes… Que lugar fértil! Só que agora, se você for ver aquele riacho, ele está morto, uma vala de água lamacenta. Não sei dizer ao certo se o Corpo está trabalhando com construção ou destruição.
— Onde você arrumou esse tipo de pensamento? — perguntou Ye em voz baixa.
Ela não mostrou sinal algum de aprovação ou desaprovação, mas Bai ficou feliz de ouvir aquela voz falar qualquer coisa.
— Só li um livro, e ele mexeu bastante comigo. Você sabe ler em inglês? Ye fez que sim.
Bai retirou um livro de capa azul da bolsa. Deu uma olhada para os lados para conferir que ninguém estava vendo e o entregou a ela.
— Essa obra foi publicada em 1962 e teve muita influência no Ocidente.
Wenjie se virou no toco para pegar o livro. Primavera silenciosa, dizia a capa, de Rachel Carson.
— Onde você achou isto?
— O livro chamou a atenção do alto escalão. Os figurões querem distribuí-lo para quadros1 selecionados, para fins de referência interna. Sou o encarregado de traduzir a parte que tem a ver com florestas.
Wenjie abriu o livro e mergulhou na leitura. Em um breve capítulo introdutório, a autora descrevia uma cidade tranquila que morria em silêncio devido ao uso de pesticidas. As frases simples e diretas estavam impregnadas da inquietação profunda de Carson.
— Pretendo escrever para a liderança em Beijing e informar sobre a postura irresponsável do Corpo de Construção — disse Bai.
Ye tirou os olhos do livro. Ela levou um tempo para processar as palavras de Bai. Permaneceu em silêncio e voltou a olhar a página.
— Fique com ele um pouco, se quiser. Mas na hora da leitura é melhor tomar cuidado e não deixar ninguém ver. Você sabe o que eles acham desse tipo de livro…
Bai se levantou, lançou mais um olhar cuidadoso ao redor e foi embora.
Mais de quatro décadas depois, em seus últimos suspiros, Ye Wenjie relembraria a influência de Primavera silenciosa em sua vida.
O livro tratava apenas de um assunto limitado: os nocivos efeitos ambientais do uso excessivo de pesticidas. Ainda assim, a perspectiva apresentada pela autora teve grande repercussão em Ye. Ela havia imaginado que o uso de pesticidas fosse algo normal, adequado — ou pelo menos neutro —, mas o livro de Carson permitiu que ela visse que, pela perspectiva da natureza, o uso dessas substâncias era equivalente à Revolução Cultural e igualmente destrutivo para o mundo. Se isso fosse verdade, então quantos outros atos da humanidade que pareciam normais ou até corretos eram, na realidade, prejudiciais?
À medida que avançava em suas reflexões, uma dedução lhe deu calafrios: É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície? Tanto o oceano quanto o iceberg são feitos do mesmo material. O iceberg só parece diferente porque tem outra forma. Na realidade, é apenas uma parte do vasto oceano...
Era impossível esperar um despertar moral da humanidade assim como era impossível esperar que os humanos movessem a Terra com seus próprios cabelos. O despertar moral exigia uma força externa à raça humana.
Esse pensamento determinou o rumo da vida de Ye.
Quatro dias depois de receber o livro, Ye entrou no alojamento da companhia, onde Bai estava morando, para devolver o exemplar. Ela abriu a porta e viu Bai deitado na cama, exausto e coberto de serragem e lama. Quando viu Ye, ele se levantou com esforço.
— Você trabalhou hoje? — perguntou Ye.
— Já faz muito tempo que estou aqui com a companhia. Não posso ficar circulando o dia inteiro sem fazer nada. Preciso participar do trabalho. Esse é o espírito da revolução, não é? Ah, trabalhei perto do pico do Radar. A floresta lá estava muito fechada. Afundei até o joelho em folhas apodrecidas. Acho que vou ficar doente por causa daquele lugar.
— Pico do Radar?
— Isso. O regimento recebeu uma missão de emergência: derrubar árvores para abrir uma zona de advertência em volta do pico.
O pico do Radar era um lugar misterioso. O monte íngreme não tinha nome, mas foi batizado em homenagem à enorme antena parabólica que havia no cume. Na verdade, qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabia que aquilo não era uma antena de radar: embora estivesse virada para um lugar diferente todo dia, a antena nunca se mexia em um ritmo constante. Quando o vento soprava, a parabólica produzia um uivo que dava para ser ouvido de longe.
As pessoas da companhia de Ye só sabiam que o pico do Radar era uma base militar. Segundo os moradores da região, quando a base foi construída, há três anos, as Forças Armadas mobilizaram muita gente para abrir uma estrada até o cume e instalar uma linha de transmissão de energia elétrica. Uma quantidade imensa de equipamentos foi transportada montanha acima. No entanto, depois que a base foi concluída, destruíram a estrada, e só restou uma trilha sinuosa e difícil que se embrenhava por entre as árvores. Era comum ver helicópteros pousando e decolando do cume.
Nem sempre dava para ver a antena. Quando o vento soprava forte demais, ela era recolhida. Mas, quando estava aberta, coisas estranhas aconteciam: os animais da floresta ficavam barulhentos e agitados, bandos de pássaros surgiam do meio das copas, e as pessoas sentiam náusea e tontura. Além disso, quem morava perto do pico do Radar tinha tendência a perder cabelo. Segundo os habitantes locais, esses fenômenos só começaram depois que a antena foi construída.
Havia muitas histórias estranhas associadas ao pico do Radar. Certa vez, em uma nevasca, a antena foi aberta e, na mesma hora, a neve virou chuva. Como a temperatura perto do solo ainda estava abaixo do ponto de congelamento, a chuva virou gelo nas árvores. Imensos cristais de gelo ficaram pendurados nos galhos, e a floresta se transformou em um palácio de vidro. De tempos em tempos, um galho se partia com o peso do gelo, e os cristais caíam no chão com um baque alto. Às vezes, quando a antena era aberta em um dia sem nuvens, começava a relampejar e cair raios, e o céu noturno se enchia com umas luzes estranhas.
Logo após a chegada da companhia do Corpo de Construção, o comandante ordenou que todos evitassem se aproximar do pico do Radar. Havia vigilância intensa no local, e as patrulhas tinham permissão para disparar sem aviso.
Na semana anterior, dois homens tinham saído para caçar e perseguido um cervo até a base do pico do Radar, sem se dar conta de onde estavam colocando os pés, e as sentinelas posicionadas no meio da encosta começaram a atirar. Por sorte, a mata era tão fechada que os dois escaparam ilesos, embora um dos homens tivesse urinado nas calças. Na reunião da companhia do dia seguinte, os dois foram repreendidos. Talvez em virtude desse incidente a base tivesse instruído o Corpo a criar uma zona de advertência em volta do pico. O fato de que a base podia designar missões de trabalho para o Corpo de Construção era um sinal de seu poder político.
Bai Mulin pegou o livro das mãos de Ye e escondeu com cuidado debaixo do travesseiro. Do mesmo lugar, retirou algumas folhas de papel cheias de linhas escritas e entregou a Ye.
— Este é o rascunho da minha carta. Será que você poderia ler?
— Carta?
— Eu falei para você que pretendia escrever para a liderança central em Beijing.
A caligrafia era muito desajeitada, e Ye precisou ler devagar. Apesar disso, o conteúdo era informativo e tinha sólida base argumentativa. A carta começava com uma descrição de como a cordilheira Taihang, antes um lugar historicamente fértil, tinha se transformado em um deserto vazio em resultado do desmatamento. Em seguida, mencionava o acúmulo recente e acelerado de sedimentos no rio Amarelo. Por fim, concluía que as ações do Corpo de Produção e Construção da Mongólia Interior teriam consequências ecológicas devastadoras. Ela percebeu que o estilo de Bai era semelhante ao de Primavera silenciosa: preciso e direto, mas também poético. Embora Ye tivesse formação em disciplinas técnicas, apreciava textos literários.
— É linda — disse ela, com franqueza. Bai assentiu com a cabeça.
— Então vou enviá-la.
Ele pegou algumas folhas novas de papel para passar a limpo, mas suas mãos tremiam tanto que não conseguiu traçar nenhum caractere. Aquela era uma reação comum depois de se usar uma motosserra pela primeira vez. As mãos trêmulas eram incapazes de segurar com firmeza um pote de arroz, que dirá escrever algo legível.
— Que tal se eu passar a limpo para você? — perguntou Ye. Ela pegou a caneta de Bai.
— Sua caligrafia é muito bonita — disse Bai ao ver a primeira linha de caracteres de Ye na folha. Ele serviu um copo d’água para ela. Suas mãos tremiam tanto que um pouco da água entornou. Ye afastou a carta.
— Você estudava física? — perguntou Bai.
— Astrofísica. Não serve para nada agora. — Ye nem sequer levantou a cabeça.
— Você estuda as estrelas! Como que isso não serve para nada? As faculdades voltaram a abrir as portas recentemente, mas não estão aceitando alunos de pós-graduação. Para uma pessoa tão instruída e capacitada como você, ser enviada para um lugar destes…
Ye não disse nada e continuou escrevendo. Não queria revelar a Bai que, para alguém como ela, ter a possibilidade de entrar para o Corpo de Construção era tirar a sorte grande. Não queria comentar como as coisas funcionavam… não havia nada a ser dito.
Reinou o silêncio na cabana, interrompido apenas pelo som da ponta da caneta riscando o papel. Ye sentia a fragrância da serragem no corpo de Bai. Pela primeira vez desde que o pai havia morrido, ela sentiu um pouco de carinho no coração e conseguiu relaxar, baixando a guarda contra o mundo por um instante.
Depois de mais de meia hora, ela terminou de passar a carta a limpo. Registrou no envelope o endereço que Bai lhe disse e se levantou para se despedir.
Na porta, ela se virou.
— Posso pegar seu casaco? Vou lavar para você.
— Não! Como é que eu permitiria isso? — Bai balançou a cabeça. — As mulheres batalhadoras do Corpo de Construção trabalham tanto quanto os homens todos os dias. Você precisa voltar e descansar um pouco. Amanhã vai ter que se levantar às seis para trabalhar na montanha. Ah, Wenjie, vou retornar à sede da Divisão depois de amanhã. Vou explicar sua situação aos meus superiores. Talvez ajude.
— Obrigada. Mas eu gosto daqui. É tranquilo.
— Você está tentando fugir de algo?
— Estou indo — disse Ye com um tom delicado. E foi.
Bai viu sua silhueta esbelta desaparecer sob a lua. Depois, levantou os olhos para a floresta escura que ela havia acabado de contemplar.
Ao longe, a antena gigantesca no topo do pico do Radar se ergueu mais uma vez, refletindo um brilho frio e metálico.
Numa tarde, três semanas depois, Ye Wenjie recebeu no acampamento uma convocatória para comparecer à sede da companhia. Assim que entrou no gabinete, sentiu que o clima não era dos melhores. O comandante da companhia e o instrutor político estavam presentes, assim como um homem desconhecido com uma expressão séria no rosto. Diante do desconhecido, na mesa, havia uma valise preta e, ao lado, um envelope e um livro. O envelope estava aberto, e o livro era o exemplar de Primavera silenciosa que ela havia lido.
Naqueles anos, todo mundo conseguia perceber qual era a própria situação política, e Ye Wenjie tinha uma sensibilidade especial para isso. Ela sentiu o mundo ao redor se fechar como o gargalo de uma garrafa, sentiu-se comprimida por todos os lados.
— Ye Wenjie, este é o diretor Zhang, do Departamento de Política da Divisão. Ele está aqui para investigar. — O instrutor político apontou para o desconhecido. — Esperamos que você coopere plenamente e diga a verdade.
— Você escreveu esta carta? — perguntou o diretor Zhang, retirando a carta do envelope. Ye fez menção de pegá-la, mas Zhang segurou as folhas e mostrou para ela uma a uma, até a última, a que mais interessava.
A única assinatura era das “Massas revolucionárias”.
— Não, não escrevi isso. — Ye balançou a cabeça, assustada.
— Mas a caligrafia é sua.
— Sim, mas eu só passei a limpo para outra pessoa.
— Quem?
Normalmente, sempre que sofria alguma injustiça na companhia, Ye se recusava a protestar abertamente. Ela apenas ficava ressentida em silêncio, sem jamais pensar em comprometer outras pessoas. Só que aquele momento era diferente. Ela compreendia muito bem o que aquilo significava.
— Ajudei um repórter do Diário da Grande Produção. Ele esteve no acampamento algumas semanas atrás. O nome dele é…
— Ye Wenjie! — Os olhos negros do diretor Zhang se fixaram nela como os canos de duas armas. — Estou avisando: incriminar outras pessoas só irá piorar sua situação. Já esclarecemos a questão com o camarada Bai Mulin. A única participação dele foi enviar a carta para Hohhot conforme instruções suas. Ele não fazia ideia do conteúdo da carta.
— Ele… ele disse isso?
— Sua carta foi claramente inspirada por este livro. — Ele mostrou o exemplar para o comandante da companhia e para o instrutor político. — Primavera silenciosa foi publicado nos Estados Unidos em 1962 e teve bastante influência no mundo capitalista.
Em seguida, retirou outro livro da valise. Tinha capa branca, com caracteres pretos.
— Esta é a tradução para o chinês. As autoridades competentes distribuíram a obra para quadros selecionados como referência interna, para uma avaliação. Agora, as autoridades competentes já apresentaram uma conclusão clara: o livro é material tóxico de propaganda reacionária. Assume uma perspectiva de puro idealismo histórico e defende uma teoria
apocalíptica. Com a desculpa de abordar problemas ambientais, tenta justificar a corrupção definitiva do mundo capitalista. O conteúdo é extremamente reacionário.
— Mas esse livro… não é meu.
— O camarada Bai foi encarregado pelas autoridades competentes de ser o tradutor. Então era perfeitamente legítimo que tivesse um exemplar. Claro, ele é responsável pelo descuido e por ter permitido que você roubasse o livro enquanto ele participava das atividades do Corpo de Construção. Ao ler essa obra, você obteve armas intelectuais que poderiam ser usadas para atacar o socialismo.
Ye Wenjie permaneceu em silêncio. Ela sabia que já havia caído no fundo do poço. De nada adiantava lutar.
Ao contrário do que sugerem certos documentos históricos divulgados mais tarde, Bai Mulin não pretendia incriminar Ye Wenjie no início. A carta que ele escreveu para a liderança central em Beijing provavelmente fora inspirada por uma noção genuína de responsabilidade. Na época, muitas pessoas escreviam para a liderança central movidas por todo tipo de interesse. A maioria das cartas era ignorada, mas alguns correspondentes chegavam a ver a própria sorte política ir às alturas da noite para o dia, ao passo que outros sofriam duras retaliações. As correntes políticas daquele período eram extremamente complexas. Como repórter, Bai acreditava que era capaz de interpretar as correntes e evitar áreas perigosas, mas foi com confiança demais ao pote, e sua carta acertou um campo minado que ele não sabia que existia. Depois de descobrir como a carta fora recebida, o medo superou tudo o mais. Para se proteger, ele decidiu sacrificar Ye Wenjie.
Meio século depois, o consenso histórico aponta esse acontecimento de 1969 como o divisor de águas na trajetória da humanidade.
Sem querer, Bai se tornou uma figura histórica crucial, embora sem nunca saber disso. Historiadores ficaram decepcionados ao registrar o restante pacato de sua vida. Ele continuou trabalhando no Diário da Grande Produção até 1975, quando o Corpo de Produção e Construção da Mongólia Interior foi dissolvido. Em seguida, foi enviado para uma cidade na parte nordeste da China, a fim de trabalhar para a Associação de Ciências até o começo dos anos 1980. E então saiu do país e se mudou para o Canadá, onde lecionou em uma escola chinesa de Ottawa até 1991, quando morreu de câncer de pulmão. Até o fim da vida, nunca mencionou Ye Wenjie, e ninguém sabe se algum dia ele sentiu remorso ou arrependimento por suas ações.
— Você foi muito bem tratada pela companhia, Wenjie. — O comandante da companhia exalou uma nuvem densa de fumaça de seu cigarro enrolado à mão. Ele olhou para o chão e continuou:
— Embora você fosse suspeita política por nascimento e pelo histórico familiar, sempre foi tratada como se fosse uma das nossas. O instrutor político e eu conversamos muitas vezes com você sobre sua tendência de se isolar das pessoas e sua falta de motivação para atingir o progresso. Nós queremos ajudá-la. Mas veja só a sua situação! Você cometeu um erro muito grave!
O instrutor político retomou o assunto.
— Sempre tive a impressão de que ela nutria um ressentimento profundo pela Revolução Cultural.
— Escoltem a traidora à sede da Divisão esta tarde, junto com as provas de seu crime — disse o diretor Zhang, com o rosto impassível.
As outras três prisioneiras na cela foram chamadas sucessivamente, até restar apenas Ye. O montinho de carvão no canto tinha se esgotado, e não apareceu ninguém para reabastecê-lo. O fogo da fornalha havia apagado já fazia algum tempo. Estava tão frio dentro da cela que Ye precisou se enrolar no cobertor.
Dois agentes vieram buscá-la antes do anoitecer. A mais velha, um quadro, foi apresentada pelo outro agente como a representante militar da Corte Intermediária Popular.2
— Meu nome é Cheng Lihua — disse o quadro, apresentando-se.
Tinha quarenta e poucos anos, usava uma casaca militar e óculos de armação grossa. Seu rosto era simpático, e com certeza ela fora muito bonita na juventude. Sorria ao falar e conquistava a simpatia imediata de todo mundo. Ye Wenjie sabia que não era comum um quadro de escalão tão alto visitar uma prisioneira prestes a ir a julgamento. Ela fez um gesto cauteloso com a cabeça para Cheng e se acomodou no colchão estreito, a fim de abrir espaço para a representante poder se sentar.
— Está muito frio aqui. O que aconteceu com a fornalha? — Cheng lançou um olhar de censura para o chefe do centro de detenção que estava parado na porta da cela e se virou para Ye.
— Hum, você é muito jovem. Mais até do que eu tinha imaginado.
Ela se sentou no colchão ao lado de Ye e remexeu a valise, ainda murmurando.
— Wenjie, você está muito confusa. Jovens são todos iguais, quanto mais livros leem, mais confusos ficam. Ah, o que eu posso dizer…
Ela achou o que estava procurando e pegou um maço pequeno de folhas de papel. Ao encarar Ye, seus olhos se encheram de gentileza e carinho.
— Mas não é nenhum grande problema. Que jovem nunca cometeu erros? Até eu já cometi alguns. Na adolescência, fazia parte da trupe artística do IV Exército de Campanha e me especializei como cantora de músicas soviéticas. Certa vez, durante uma sessão de estudos políticos, anunciei que a China devia desistir de ser um país independente e se unir à URSS como república-membro. Assim, o comunismo internacional ficaria ainda mais forte. Como eu era ingênua! Mas quem já não foi ingênuo? O que está feito, feito está. Quando a gente comete um erro, o mais importante é admitir e corrigir. E aí a gente pode continuar a revolução.
As palavras de Cheng pareciam interessar Ye. Porém, depois de passar por tantos problemas, Ye havia aprendido a ter cautela. Ela não se atrevia a acreditar naquela gentileza, que quase parecia um luxo.
Cheng colocou a pilha de papéis na cama, na frente de Ye, e lhe entregou uma caneta.
— Vamos, assine isto. Depois poderemos ter uma conversa bem franca e resolver suas dificuldades ideológicas. — O tom dela era o mesmo de uma mãe que tentava convencer a filha a comer.
Ye olhou para a pilha de papéis em silêncio e sem se mexer. Não pegou a caneta.
Cheng abriu um sorriso compassivo.
— Pode confiar em mim, Wenjie. Eu garanto pessoalmente que esse documento não tem nada a ver com o seu caso. Vá em frente. Assine.
O outro agente, que permanecia afastado, acrescentou:
— Ye Wenjie, a representante Cheng só está tentando ajudar. Ela tem trabalhado muito por você.
Cheng fez um gesto para que ele se calasse.
— É compreensível. Coitadinha! Você está tão assustada. Alguns camaradas não têm uma percepção política tão elevada como deveriam. Alguns membros do Corpo de Construção e algumas pessoas na Corte Popular adotam métodos simplistas demais e se comportam de um jeito muito grosseiro. É completamente inadequado! Muito bem, Wenjie, que tal você ler o documento? Leia com cuidado.
Ye pegou e folheou o documento debaixo da fraca luz amarela da cela. A representante Cheng não havia mentido. O documento realmente não tinha nada a ver com seu caso.
Era sobre o pai de Wenjie. Descrevia um histórico das interações e conversas dele com certos indivíduos. A fonte era Wenxue, a irmã caçula de Wenjie. Uma das guardas-vermelhas mais radicais, Wenxue sempre mostrara iniciativa para denunciar o pai e redigira diversos relatórios para detalhar os supostos pecados dele. Parte do material fornecido por ela acabou por levá-lo à morte.
No entanto, Ye percebeu que aquele documento não havia saído das mãos de sua irmã. Wenxue tinha um estilo intenso, impaciente. Ao ler os relatórios dela, cada linha causava um impacto explosivo, como uma série de fogos de artifício. Só que aquele documento era composto com um estilo sereno, experiente, meticuloso. Quem falou com quem, quando, onde, o tema — cada detalhe fora registrado, incluindo a data exata. Para alguém sem experiência, o conteúdo parecia um diário tedioso, mas o propósito frio e calculista oculto naquelas palavras era muito diferente das calúnias infantis de Wenxue.
Ye não entendia muito bem qual era a intenção do documento, mas pressentia que tinha algo a ver com determinado projeto de defesa nacional importante. Como era filha de um físico, Ye imaginou que fizesse referência ao projeto bomba-dupla,3 que havia chocado o mundo em 1964 e 1967.
Durante aquele período da Revolução Cultural, para derrotar algum indivíduo muito influente, era preciso reunir provas das deficiências dele em diversas áreas. No entanto, para quem tramava essas maquinações políticas, o projeto bomba-dupla impunha muitos obstáculos. Membros do escalão mais alto do governo protegiam esse projeto a fim de evitar interferência da Revolução Cultural. Era difícil para alguém com intenções nefastas espionar os mecanismos internos do processo.
Devido ao histórico familiar de Ye Zhetai, ele não atendia aos requisitos políticos e não trabalhou no projeto bomba-dupla. Fizera apenas um pouco de pesquisa teórica periférica relacionada ao plano. Mas era mais fácil usá-lo como isca do que alguém envolvido com o cerne do projeto. Ainda que Ye Wenjie não soubesse se o conteúdo daquele documento era verdadeiro ou falso, estava certa de que cada caractere e cada sinal de pontuação tinham potencial para
representar um golpe político fatal. Além das pessoas envolvidas diretamente, muitas outras poderiam ver seu destino mudar em razão daquelas folhas.
No final do documento havia a assinatura de sua irmã, com caracteres grandes, e Ye deveria assinar como testemunha. Ela percebeu que outras três testemunhas já haviam assinado.
— Não sei de nada a respeito dessas conversas — disse ela, em voz baixa, voltando a baixar o documento.
— Como é que não sabe? Muitas dessas conversas aconteceram bem na sua casa. Se sua irmã sabia, você também deve saber.
— Não sei mesmo.
— Mas essas conversas aconteceram de verdade. Você precisa confiar em nós.
— Não falei que não era verdade. Só que realmente não sei de nada a respeito delas. Então não posso assinar.
— Ye Wenjie! — O outro agente fez menção de se aproximar, mas foi impedido outra vez por Cheng. Ela se mexeu no colchão para se sentar ainda mais perto de Ye e pegou uma de suas mãos frias.
— Wenjie, vou abrir o jogo com você. Seu caso envolve a boa vontade da promotoria. Por um lado, podemos tratá-lo como o mero caso de uma jovem instruída enganada por um livro reacionário. Não é nada de mais. Nem seria preciso passar pelo processo judicial. Você iria para uma aula de política, escreveria alguns artigos de autocrítica e depois poderia voltar ao Corpo de Construção. Por outro lado, podemos também processar seu caso com todo o rigor da lei. Wenjie, você precisa entender que pode ser declarada uma contrarrevolucionária ativa.
“Agora, diante de casos políticos como o seu, todas as instâncias da promotoria e todas as cortes preferem pecar pelo excesso de severidade, e não pelo de leniência. Um tratamento com muita severidade seria apenas um erro metodológico; já um tratamento com muita leniência seria um erro de direcionamento político. Porém, em última instância, a decisão cabe ao comitê de controle militar. Claro, tudo isso que estou falando deve ficar entre nós.”
O agente que acompanhava Cheng confirmou com a cabeça.
— A representante Cheng está tentando salvá-la. Três testemunhas já assinaram. Sua recusa não significa quase nada. Insisto para que você não se confunda, Ye Wenjie.
— É verdade, Wenjie — continuou Cheng. — Eu ficaria arrasada de ver uma jovem instruída como você se arruinar por uma ninharia dessas. Realmente quero salvá-la. Por favor, coopere. Olhe para mim. Você acha que eu seria capaz de machucá-la?
Mas Ye não olhou para a representante Cheng. A única coisa que viu foi o sangue do pai.
— Representante Cheng, não estou ciente dos acontecimentos descritos neste documento. Não posso assinar.
Cheng Lihua ficou quieta. Encarou Ye por um bom tempo, e o ar frio da cela pareceu se solidificar. Em seguida, voltou a guardar lentamente o documento na valise e se levantou. A expressão gentil não sumiu, mas parecia uma máscara de gesso em seu rosto. Ainda com semblante bondoso e caridoso, ela foi até o canto da cela, onde havia um balde para banho. Apanhou o recipiente e entornou metade da água no corpo de Ye e a outra metade no cobertor, sem que os movimentos jamais perdessem a calma metódica. Por fim, largou o balde e saiu da cela, parando apenas para murmurar:
— Sua vaquinha teimosa!
O chefe do centro de detenção saiu por último. Ele lançou um olhar glacial para Ye, que estava completamente encharcada, bateu e trancou a porta da cela.
Com as roupas molhadas, o frio do inverno na Mongólia Interior envolveu Ye como a mão de um gigante. Ela ouviu os dentes baterem, mas com o passar do tempo até esse som desapareceu. O frio penetrou em seus ossos, e o mundo diante de seus olhos deu lugar a um branco leitoso. Ye sentiu que o universo inteiro era um bloco gigantesco de gelo, e ela era a única fagulha de vida que existia. Era a menininha prestes a morrer congelada e não tinha nem sequer um punhado de fósforos, só ilusões…
O envolvente bloco de gelo aos poucos foi ficando transparente. À sua frente, ela viu um edifício alto. Lá em cima, uma menina agitava uma bandeira muito vermelha. Sua silhueta esbelta marcava um contraste agudo com a dimensão da bandeira: era sua irmã, Wenxue. Desde que a irmã rompera de vez com a família de autoridades acadêmicas reacionárias, Wenjie nunca mais tivera notícia da caçula. Só recentemente descobrira que Wenxue havia morrido dois anos antes, em uma das guerras entre facções da Guarda Vermelha.
Enquanto Ye observava, a figura que agitava a bandeira se transformou em Bai Mulin, e seus óculos refletiam as chamas que se espalhavam embaixo do edifício; depois, se tornou a representante Cheng; depois, sua mãe, Shao Lin; depois, seu pai. Embora o portador da bandeira mudasse, a bandeira tremulava sem parar, como um pêndulo sem fim, contando os instantes que restavam na breve vida de Ye.
Lentamente, a bandeira ficou embaçada. Tudo ficou embaçado. O gelo que envolveu o universo voltou a prender Ye em seu centro. Só que, desta vez, o gelo era preto.
1. “Quadro”, quando usado no contexto do comunismo chinês, não se refere a um grupo, mas a um indivíduo que integra o Partido ou o governo.
2. Durante essa fase da Revolução Cultural, a maioria das cortes populares intermediárias e superiores e das promotorias (responsáveis por investigar e processar crimes) se encontrava sob o controle de comissões militares. O representante militar tinha a palavra final em assuntos judiciais. (N. A.)
3. Esse é o nome chinês dado para os trabalhos relacionados a “596” e “Teste n. 6”, os testes bem-sucedidos das primeiras bombas nucleares de fissão e de fusão da China, respectivamente.
3. COSTA VERMELHA I
Ye Wenjie ouviu um rugido alto e contínuo. Não sabia quanto tempo tinha passado.
Estava cercada por barulho de todos os lados. Em seu difuso estado de consciência, tinha impressão de que uma máquina gigantesca estava perfurando ou serrando o bloco de gelo que a envolvia. O mundo ainda era uma escuridão absoluta, mas o barulho foi se tornando cada vez mais real. Por fim, teve certeza de que a fonte do ruído não estava nem no céu, nem no inferno, e que ela continuava no reino dos vivos.
Ye percebeu que ainda estava de olhos fechados. Com esforço, abriu as pálpebras. A primeira coisa que viu foi uma luz incrustada profundamente no teto. Coberta por uma tela de arame que parecia ter o objetivo de protegê-la, a luz emitia um brilho fraco. O teto parecia feito de metal.
Ela ouviu a voz baixa de um homem chamar seu nome.
— Você está com febre alta — disse.
— Onde estou? — A voz de Wenjie estava tão fraca que ela não sabia ao certo se era mesmo sua.
— Em um helicóptero.
Ye se sentiu fraca. Adormeceu de novo. Teve a companhia do rugido durante o cochilo. Pouco tempo depois, acordou outra vez. Agora a sensação de dormência tinha passado, e a dor voltou com força: a cabeça e as articulações dos membros estavam doloridas, e o ar que saía de sua boca parecia escaldante. A garganta ardia tanto que o ato de engolir saliva parecia igual ao de engolir carvão em brasa.
Ela virou a cabeça e viu dois homens vestidos com casacas militares idênticas à da representante Cheng. Só que no quepe de algodão do ELP deles, ao contrário do dela, havia uma estrela vermelha bordada na frente. As casacas não estavam abotoadas, e Ye percebeu as divisas vermelhas no colarinho das fardas militares. Um dos homens usava óculos.
Ye descobriu que também estava coberta por uma casaca militar. Suas roupas estavam secas e eram quentes.
Ela tentou se sentar e, para sua surpresa, conseguiu. Olhou pela janela do outro lado. Viu nuvens redondas passando lentamente, refletindo a luz ofuscante do sol. Desviou o olhar. A cabine apertada estava cheia de baús de ferro pintados com o verde do Exército. Por outra janela, avistou as bruxuleantes sombras dos rotores. Estava mesmo em um helicóptero.
— É melhor você se deitar de novo — disse o homem de óculos, ajudando Ye a se abaixar e voltando a cobri-la.
— Ye Wenjie, você escreveu este artigo? — O outro homem pôs um periódico inglês aberto diante dos olhos dela. O título do artigo era “A possível existência de fronteiras entre fases na zona de radiação solar e suas características reflexivas”. Ele mostrou a capa da publicação: um número de 1966 do Journal of Astrophysics.
— É claro que ela escreveu. Por que é que isso precisa de confirmação? — O homem de óculos pegou o periódico e cuidou das apresentações. — Este é o comissário político Lei Zhicheng, da Base Costa Vermelha. Já eu sou Yang Weining, engenheiro-chefe da base. Vamos pousar daqui a uma hora. Seria bom você descansar um pouco.
Você é Yang Weining? Ye não disse nada, mas estava atordoada. Percebeu que o homem manteve uma expressão tranquila, aparentemente sem querer dar mostras de que os dois se conheciam. Yang havia sido um dos alunos de pós-graduação de Zhetai. Ye ainda estava no primeiro ano da faculdade quando ele se formou.
Ye se lembrava com nitidez da primeira vez que Yang fora à casa de sua família. Ele tinha acabado de começar o programa de pós-graduação e precisava conversar sobre os rumos da pesquisa com o pai dela. Yang disse que pretendia se concentrar em problemas experimentais e aplicados e ficar longe da teoria.
Ye Wenjie se lembrava de ouvir o pai dizer:
— Não me oponho a essa ideia. Mas, afinal de contas, fazemos parte do Departamento de Física Teórica. Então, por que você quer evitar a teoria?
— Quero me dedicar aos nossos tempos — respondeu Yang —, quero dar contribuições para o mundo real.
— A teoria é a base da aplicação. Por acaso a maior contribuição para nossos tempos não é a descoberta de leis fundamentais? — perguntou o pai de Wenjie.
Yang hesitou até enfim revelar o verdadeiro motivo de sua preocupação:
— É fácil cometer equívocos ideológicos com a teoria.
O pai de Ye Wenjie não tinha como rebater esse argumento.
Yang era muito competente, com uma boa base de matemática e um pensamento ágil. Porém, durante o breve período como aluno de pós-graduação, sempre manteve uma distância respeitável de seu orientador. Embora Ye Wenjie tivesse visto Yang algumas vezes, talvez por influência do pai não reparara muito nele. Se a recíproca era verdadeira, Ye não fazia a menor ideia. Depois que recebeu o diploma, Yang logo interrompeu todo o contato com o orientador.
Sentindo-se fraca de novo, ela fechou os olhos. Os dois homens deixaram Ye e foram se acomodar atrás de um conjunto de baús para conversar em voz baixa. Mas a cabine era tão apertada que Ye conseguia ouvir o diálogo mesmo em meio ao barulho do motor.
— Ainda acho que não é uma boa ideia — disse o comissário Lei.
— Você pode providenciar a equipe de que preciso pelas vias oficiais? — perguntou Yang.
— Bem, já fiz tudo o que estava a meu alcance. Não tem ninguém no Exército com essa especialização, e procurar fora da força suscitaria perguntas demais. Você sabe muito bem que o nível de autorização necessário para esse projeto exige alguém disposto a entrar para o Exército. Mas o maior problema é que as normas de segurança obrigam que a pessoa permaneça confinada
na base por longos períodos. O que fazer com quem tem família? Confinar todo mundo na base? Ninguém aceitaria isso. Cheguei a encontrar dois possíveis candidatos, mas ambos preferem ficar nas Escolas de Quadros Sete de Maio.* É claro que poderíamos trazê-los à força. Só que, considerando a natureza do trabalho, não podemos escolher alguém que não queira estar aqui.
— Então não resta escolha a não ser usar Ye.
— Mas isso não é nada ortodoxo.
— O projeto inteiro não é nada ortodoxo. Se algo der errado, eu assumo a responsabilidade.
— Chefe Yang, você acha mesmo que pode assumir a responsabilidade por algo assim? Você
é um técnico, mas a Costa Vermelha não é como outros projetos de defesa nacional. A complexidade vai muito além das questões técnicas.
— Você tem razão, mas eu só sei resolver questões técnicas.
Quando eles aterrissaram, o céu já estava escurecendo.
Ye recusou a ajuda de Yang e Lei e saiu do helicóptero sozinha. Uma forte lufada de vento quase a derrubou. Os rotores ainda giravam contra a ventania, produzindo um chiado agudo. Ela reconhecia aquele cheiro de floresta no vento. Era o vento da cordilheira Grande Khingan.
Ye logo ouviu outro som, um uivo baixo, grave e enfático, que parecia compor o pano de fundo do mundo: o vento na antena parabólica. Só naquele momento, ali tão perto, ela conseguiu sentir a imensidão. A vida de Ye dera uma grande volta naquele mês: ela estava no topo do pico do Radar.
Ela não resistiu ao impulso de lançar um olhar na direção do Corpo de Construção. Mas só conseguiu ver um mar enevoado de árvores ao anoitecer.
O helicóptero não tinha transportado apenas Ye. Soldados se aproximaram e começaram a descarregar os baús militares da cabine. Eles passaram sem olhar para Ye. Conforme seguia Yang e Lei, ela percebeu que o topo do pico do Radar era amplo. Havia um conjunto de edifícios brancos abrigados sob a gigantesca antena, como delicados blocos de brinquedo. Escoltado por dois guardas, o trio se dirigiu ao portão da base e parou na frente dele.
Lei se virou para ela e falou com solenidade:
— Ye Wenjie, as provas de seu crime contrarrevolucionário são inquestionáveis, e a corte teria dado uma sentença à altura da punição que você merece. Mas agora você tem a oportunidade de se redimir pelo trabalho. Pode aceitar ou recusar. — Ele apontou para a antena.
— Este é um instituto de pesquisa em defesa. A pesquisa realizada aqui precisa de alguém como você e seus conhecimentos científicos especializados. O engenheiro-chefe Yang vai fornecer os detalhes, que você deve considerar com cuidado.
Ele fez um gesto para Yang e passou pelo portão, seguindo os soldados que carregavam os baús.
Yang esperou os outros se afastarem e indicou que Ye deveria acompanhá-lo para longe do portão, evidentemente tentando evitar que as sentinelas ouvissem a conversa.
Ele parou de fingir que não se conheciam.
— Wenjie, quero deixar claro, esta não é uma grande oportunidade. Descobri junto ao comitê de controle militar do tribunal que, embora Cheng Lihua recomende uma sentença severa para
você, vai ser no máximo dez anos. Levando em conta circunstâncias atenuantes, você talvez cumpra seis ou sete. Já isto — ele fez um gesto com a cabeça para a base — é um projeto de pesquisa classificado com o grau máximo de segurança. Considerando sua situação, é possível que, se passar pelo portão… — Ele hesitou, como se quisesse deixar que o uivo grave da antena reforçasse o peso das palavras. — … você fique aqui pelo resto da vida.
— Quero entrar.
Yang ficou surpreso com a rapidez da resposta.
— Não tenha pressa. Volte para o helicóptero. Ele vai decolar daqui a três horas e, se você recusar nossa proposta, será levada de volta.
— Não quero voltar. Vamos entrar.
Ye ainda mantinha a voz baixa, mas seu tom tinha uma determinação mais firme que o aço. Com exceção do território desconhecido do outro lado da morte de onde ninguém jamais voltou, aquele pico isolado do resto do mundo era o lugar onde ela mais queria estar. Ali, sentia uma segurança que por muito tempo escapara de suas mãos.
— Você devia refletir com cuidado. Pense no que essa decisão acarreta.
— Posso ficar aqui pelo resto da vida.
Yang abaixou a cabeça e não falou nada. Ficou olhando para o vazio, como se obrigasse Ye a organizar os próprios pensamentos. Ye também ficou em silêncio. Ela apertou a casaca em volta do corpo e sondou o cenário distante. A cordilheira Grande Khingan desaparecia no ocaso. Era impossível permanecer ali fora, no frio, por muito mais tempo.
Yang começou a caminhar na direção do portão. Ele andava rápido, como se tentasse deixar Ye para trás. Mas Ye o seguia de perto. Quando passaram pelo portão da Base Costa Vermelha, as duas sentinelas fecharam as pesadas portas de ferro.
Após avançarem um pouco, Yang parou e apontou para a antena.
— Este é um projeto de pesquisa de armamentos de grande escala. Se tivermos sucesso, o resultado será ainda mais impactante do que a bomba atômica e a bomba de hidrogênio.
Os dois chegaram ao maior edifício da base, e Yang abriu a porta. Ye viu as palavras SALA DE CONTROLE PRINCIPAL DE TRANSMISSÃO no alto. Do lado de dentro, foi recebida por um ar quente marcado pelo cheiro de combustível. Ela percebeu que o cômodo amplo estava cheio de todo tipo de instrumento e material. Lâmpadas de sinalização e telas de osciloscópios piscavam em sintonia. Havia mais ou menos uns dez operadores, que pareciam praticamente sepultados em suas fardas militares pelas fileiras de instrumentos, como se estivessem agachados em trincheiras de guerra. O fluxo incessante de comandos e respostas operacionais conferia à cena toda um tom tenso e confuso.
— Aqui dentro está mais quente — disse Yang. — Espere um pouco. Vou cuidar das suas acomodações e já volto.
Ele apontou para uma das cadeiras de uma mesa perto da porta.
Ye viu que já havia alguém sentado à mesa: um guarda armado com uma pistola.
— Prefiro esperar lá fora — respondeu Ye.
Yang esboçou um sorriso gentil.
— A partir de agora, você faz parte da equipe da base. Tirando algumas áreas restritas, você pode ir aonde quiser. — De repente, a expressão do rosto dele mudou ao perceber um segundo sentido subjacente àquelas palavras: Você nunca mais vai sair daqui.
— Prefiro esperar lá fora — insistiu Ye.
— Tudo bem. — Depois de lançar um olhar para o guarda na cadeira, que ignorava os dois completamente, Yang pareceu entender a preocupação de Ye e saiu da sala de controle principal junto com ela. — Fique em algum lugar abrigado do vento. Eu volto daqui a alguns minutos. Só preciso arrumar alguém para acender a lareira no seu quarto… as condições na base são um pouco precárias, e não temos sistema de calefação.
Ye ficou parada perto da porta da sala de controle principal. A antena imensa estava bem atrás dela e cobria metade do céu. De onde estava, Ye conseguia ouvir com clareza os sons que saíam da sala de controle principal. De repente, o caos de ordens e respostas parou, e a sala ficou em silêncio absoluto. Ela ouvia apenas um ou outro zumbido baixo de algum instrumento.
Então uma voz masculina alta rompeu o silêncio.
— Exército da Libertação Popular, 2º Corpo de Artilharia,** Projeto Costa Vermelha, transmissão número 147. Autorização confirmada. Começar contagem de trinta segundos.
— Classificação de Alvo: A-três. Número de série das coordenadas: BN20197F. Posição verificada e confirmada. Vinte e cinco segundos.
— Unidade de Energia relata: todos os sistemas operacionais.
— Unidade de Codificação relata: todos os sistemas operacionais.
— Unidade do Amplificador relata: todos os sistemas operacionais.
— Unidade de Monitoramento de Interferência relata: todos os sistemas operacionais.
— Alcançamos o ponto de não retorno. Quinze segundos.
Tudo voltou a ficar em silêncio. Quinze segundos depois, uma sirene soou e uma luz vermelha em cima da antena começou a piscar rapidamente.
— Começar transmissão! Todas as unidades continuem o monitoramento!
Ye sentiu que seu rosto começou a formigar de leve. Sabia que havia aparecido um campo elétrico enorme. Levantou a cabeça para olhar para onde a antena estava apontada e viu uma nuvem no céu noturno brilhar com uma luz azul fraca, tão fraca que a princípio Ye achou que fosse uma ilusão. No entanto, quando a nuvem se deslocou, o brilho desapareceu. Outra nuvem que flutuou para aquela posição começou a emitir o mesmo brilho.
Da sala de controle principal, ela passou a ouvir gritos.
— Falha na Unidade de Energia. Magnétron número três queimou.
— Unidade de Apoio está em atividade: todos os sistemas operacionais.
— Marco um atingido. Retomando transmissão.
Ye ouviu uma agitação. Através da neblina, avistou sombras se erguerem da floresta sob o pico e subirem em espiral para o céu escuro. Ela não sabia que era possível atiçar tantos pássaros das árvores no meio do inverno. Então presenciou uma cena apavorante: uma revoada de pássaros atravessou a região do ar para onde a antena estava apontada e, diante da nuvem vagamente iluminada, todos caíram do céu.
O processo continuou por cerca de quinze minutos. Foi quando a luz vermelha da antena se apagou, e o formigamento na pele de Ye parou. Na sala de controle, o murmúrio confuso de ordens e respostas foi retomado, enquanto a voz masculina alta continuava.
— Transmissão 147 de Costa Vermelha concluída. Sistemas de transmissão desativando. Costa Vermelha entrando agora em estado de monitoração. Controle de sistemas transferido a partir de agora para o Departamento de Monitoração. Favor carregar dados do marco.
— Todas as unidades devem preencher diários de transmissão. Todos os líderes de unidade devem comparecer à reunião pós-transmissão na sala de conferência. Sessão finalizada.
Tirando o uivo do vento na antena, o silêncio era total. Como Ye observou, o restante dos pássaros aos poucos voltava para a floresta. Ela olhou para a antena e pensou que parecia uma mão imensa aberta para o céu, com uma força etérea. Ao sondar o céu noturno, não viu nenhum alvo que na sua opinião pudesse ser o número de série BN20197F. Além das nuvens esparsas, via apenas as estrelas de uma noite fria de 1969.
* As Escolas de Quadros Sete de Maio eram campos de trabalho ativos durante a Revolução Cultural em que quadros e intelectuais eram “reeducados”.
** O 2º Corpo de Artilharia controla os mísseis nucleares da China.