Cixin Liu - CAP 14-24




Cixin Liu, O Problema dos Três Corpos, Capítulos de 14 a 24.


14. COSTA VERMELHA IV







— Professora Ye — disse Wang Miao —, tenho uma pergunta. Naquela época, o Seti era um ramo de pesquisa marginalizado. Por que o Projeto Costa Vermelha tinha uma classificação de segurança tão alta?



— Essa pergunta foi feita durante o estágio inicial do Projeto Costa Vermelha e continuou sendo feita até o final. Mas agora você já deve saber a resposta. É admirável a forma como a autoridade responsável pelas decisões referentes ao Projeto Costa Vermelha conseguiu pensar adiante.



— É verdade, o responsável pensou muito longe.



Wang fez um gesto solene com a cabeça. Sabia que a reflexão séria e sistemática sobre como e até que ponto as sociedades humanas seriam influenciadas pelo contato com uma inteligência extraterrestre só ganhara espaço em anos recentes. Esses estudos atraíram rápido interesse e apresentaram conclusões preocupantes.



Esperanças ingênuas e idealistas foram destroçadas. Os pesquisadores descobriram que, ao contrário dos anseios da maioria das pessoas, não era uma boa ideia a raça humana estabelecer contato com extraterrestres. O impacto desse contato na sociedade humana seria polarizador, e não um fator de união, apenas intensificando, em vez de mitigar, os conflitos entre culturas diferentes. Em suma, se houvesse contato, as divisões internas da civilização da Terra seriam ampliadas e provavelmente levariam a um desastre. A conclusão mais estarrecedora de todas foi que o impacto não teria nenhuma relação com o grau e o tipo de contato (unidirecional ou bidirecional), nem com a forma e o nível de avanço da civilização alienígena.



Tratava-se da teoria de “contato como símbolo”, proposta pelo sociólogo Bill Mathers, da RAND Corporation, em seu livro A cortina de ferro de 100 000 anos-luz: Sociologia e a busca por inteligência extraterrestre. Mathers acreditava que o contato com uma civilização alienígena seria apenas um símbolo ou botão. Independente da natureza do encontro, o resultado sempre seria o mesmo.



Digamos que o contato apenas confirmasse a existência de uma inteligência extraterrestre, sem mais nenhuma informação significativa, o que Mathers chama de contato elementar. O impacto seria ampliado pela lente da psicologia de massa e da cultura humana até resultar em influências colossais e significativas para o progresso da civilização. Se esse contato fosse monopolizado por um país ou por uma força política, a relevância seria como uma vantagem insuperável em poderio econômico e militar.



— Como a Costa Vermelha acabou?





— Você deve imaginar.



Wang fez outro gesto com a cabeça. Ele sabia bem que se a Costa Vermelha tivesse tido sucesso, o mundo atual seria muito diferente. Para consolar Ye, ele respondeu:



— Ainda é cedo demais para cravar se o projeto teve sucesso ou não. As ondas de rádio enviadas pela Costa Vermelha ainda não chegaram muito longe no universo.

Ye balançou a cabeça.



— Quanto mais longe avançam, mais fracos os sinais ficam e menor é a probabilidade de alguma civilização extraterrestre captá-los. Claro, se a existência da Terra e da nossa atmosfera rica em oxigênio já tivesse sido detectada por alienígenas e se eles tivessem decidido concentrar equipamentos poderosos especificamente em nós, seria outra história. Porém, estudos apontam que para que nossos sinais pudessem ser detectados por extraterrestres, deveríamos transmitir a uma potência equivalente à emissão energética de uma estrela de tamanho médio.

“Certa vez o astrofísico soviético Nikolai Kardashev propôs uma possível divisão das civilizações em três tipos, com base na quantidade de energia que são capazes de dominar para… digamos que para propósitos de comunicação. Uma civilização de Tipo 1 é capaz de manipular uma quantidade de energia equivalente à energia total produzida pela Terra. Com base nas estimativas dele, a produção energética da Terra é de cerca de 1015 a 1016 watts. Uma civilização de Tipo 2 pode dominar uma quantidade de energia equivalente à produção de uma estrela média: 1026 watts. Já a energia de comunicação de uma civilização de Tipo 3 pode chegar a 1036 watts, aproximadamente o mesmo que a produção energética de uma galáxia. A atual civilização da Terra corresponde a mais ou menos um Tipo 0,7, nem sequer um Tipo 1 completo. E as transmissões da Costa Vermelha consumiam apenas cerca de um décimo de milionésimo da quantidade de energia que a Terra era capaz de gerar. Nossa ligação era como um zumbido de mosquito no céu. Ninguém ia escutar.”

— Mas, se as civilizações de Tipo 2 e 3 de Kardashev existem mesmo, nós deveríamos ser capazes de escutar as mensagens delas.

— Nunca ouvimos nada durante os vinte anos de operação da Costa Vermelha.



— Entendo. Considerando a Costa Vermelha e o Seti, será que no fim das contas todos os nossos esforços só provaram que, no universo inteiro, apenas a Terra possui vida inteligente?

Ye suspirou de leve.



— Teoricamente, talvez nunca haja resposta definitiva para essa pergunta. Agora, a minha impressão, e a de todo mundo que passou pela Costa Vermelha, é de que é isso mesmo.

— É uma pena que a Costa Vermelha tenha sido desativada. Depois de construída, a base devia ter sido mantida em funcionamento. Era realmente uma iniciativa grandiosa.

— O declínio da Costa Vermelha foi gradual. No começo dos anos 1980, aconteceu uma reforma de grande escala, sobretudo com o aprimoramento parcial dos sistemas de transmissão e monitoramento. O sistema de transmissão foi automatizado e o de monitoramento incorporou dois minicomputadores da IBM. A capacidade de processamento de dados ficou muito mais avançada e passou a ser capaz de monitorar simultaneamente quarenta mil canais.

“Mas com o tempo as pessoas foram reavaliando as perspectivas e começaram a entender melhor a dificuldade da busca por inteligência extraterrestre, e a liderança perdeu o interesse na





Costa Vermelha. A primeira mudança foi a redução do nível de segurança da base. Como havia um consenso de que o segredo absoluto em torno da Costa Vermelha era desnecessário, a guarnição de segurança na base foi reduzida de uma companhia para um pelotão, até por fim sobrar apenas um grupo de cinco seguranças. Além disso, depois da reforma, embora a Costa Vermelha continuasse sob a alçada administrativa do 2º Corpo de Artilharia, a gestão das atividades científicas foi transferida para o Instituto de Astronomia da Academia Chinesa de Ciências e passou a assumir alguns projetos de pesquisa que não tinham nenhuma relação com a busca por inteligência extraterrestre nem com as Forças Armadas.”

— Acredito que a senhora tenha alcançado seus maiores feitos científicos nessa época.



— A princípio, a Costa Vermelha também assumiu alguns projetos de radioastronomia. Naquele tempo, era o maior radiotelescópio da China. Mais tarde, à medida que outros observatórios radioastronômicos foram sendo construídos, a pesquisa feita na Costa Vermelha se voltou para a observação e a análise das atividades eletromagnéticas do sol. Para que isso fosse possível, acrescentaram um telescópio solar. O modelo matemático que criamos para as atividades eletromagnéticas do sol estava na vanguarda da área naquela época e tinha muitas aplicações práticas. Com os resultados dessas pesquisas, o grande investimento na Costa Vermelha teve pelo menos um pouco de retorno.



“Na verdade, o comissário Lei deve receber grande parte do crédito. É claro que tinha seus próprios interesses. Ele percebeu que não havia muito futuro na condição de oficial político em uma unidade técnica. Antes de entrar para o Exército, ele havia estudado astrofísica, então queria voltar a trabalhar com ciência. Todos os projetos de pesquisa assumidos pela Costa Vermelha fora da busca por inteligência extraterrestre foram resultado dos esforços dele.”

— Duvido que ele tenha conseguido voltar a trabalhar com tanta facilidade com questões técnicas depois de passar tanto tempo como comissário político. Na época, a senhora ainda não havia sido reabilitada politicamente. Tenho a impressão de que a única coisa que ele fez foi colocar o próprio nome nos resultados da sua pesquisa.



Ye deu um sorriso tolerante.



— Sem Lei, a Base Costa Vermelha teria acabado ainda mais rápido. Depois que ficou decidido que a Costa Vermelha seria convertida para uso civil, as Forças Armadas praticamente a abandonaram. Com o tempo, a Academia Chinesa de Ciências não conseguiu mais manter os fundos necessários para a operação da Costa Vermelha, e a base foi desativada.

Ye não falou muito sobre seu dia a dia na Base Costa Vermelha, e Wang não perguntou. Quatro anos depois de entrar na base, ela se casou com Yang Weining. Tudo correu de modo natural, sem dramas. Mais tarde, um acidente na base levou a vida de Yang e também de Lei. Yang Dong nasceu após a morte do pai, e mãe e filha só saíram do pico do Radar em meados da década de 1980, quando a Base Costa Vermelha finalmente foi desativada. Depois, Ye voltou a lecionar astrofísica em sua faculdade de formação, Tsinghua, onde se aposentou. Wang ouvira tudo isso da boca de Sha Ruishan, no Observatório de Radioastronomia de Miyun.

— A busca por inteligência extraterrestre é uma disciplina única. Exerce uma influência profunda na forma como o pesquisador encara a vida. — Ye falava com um tom de voz didático, como se estivesse contando histórias para uma criança. — Na calada da noite, dava para ouvir no





meu headphone o ruído sem vida do universo. O ruído era fraco, mas constante, mais eterno que as estrelas. Às vezes eu achava que parecia o som dos intermináveis ventos de inverno da cordilheira Grande Khingan. Eu sentia muito frio nessas horas, e a solidão era indescritível.

“De vez em quando, eu olhava para as estrelas depois de um turno à noite e pensava que elas pareciam um deserto luminoso e que eu não passava de uma pobre criança abandonada nessa imensidão… Eu achava que a vida era realmente um acidente entre tantos acidentes no universo. O universo era um palácio vazio, e a humanidade, a única formiga no palácio inteiro. Esse tipo de pensamento me levou a passar a segunda metade da minha vida em dúvida: às vezes eu achava que a vida era preciosa e tudo era muito importante. Já em outros momentos eu achava que os seres humanos eram insignificantes e que nada valia a pena. Enfim, passei muitos dias acompanhada dessa sensação estranha e, quando vi, já estava velha…”

Wang queria consolar aquela senhora idosa que havia dedicado a vida a um trabalho solitário, porém grandioso, mas a última parte da fala de Ye o lançou no mesmo estado de espírito melancólico. Ele se deu conta de que não tinha mais nada a falar e se limitou a dizer:

— Professora Ye, algum dia viajarei com a senhora para visitarmos as ruínas da Base Costa Vermelha.

Ye balançou a cabeça devagar.



— Xiao Wang, não sou como você. Tenho idade avançada e minha saúde não é a mesma. É difícil prever o futuro. Vivo a vida um dia de cada vez.

Wang olhou para a cabeça grisalha de Ye Wenjie e percebeu que ela estava pensando outra vez na filha.







15. TRÊS CORPOS: COPÉRNICO, FUTEBOL UNIVERSAL




E DIA TRISSOLAR




Após sair da casa de Ye, Wang Miao não conseguiu se acalmar. Os acontecimentos dos últimos dois dias e a história da Costa Vermelha, duas tramas sem qualquer relação aparente, agora se entrecruzavam, e da noite para o dia o mundo já não parecia tão familiar.

Quando chegou em casa, para fugir desse estado de espírito, Wang ligou o computador, vestiu o traje V e entrou em Três Corpos pela terceira vez.



A tentativa de esquecer tudo deu certo. Assim que apareceu a tela de login, Wang já parecia outra pessoa, alguém cheio de uma empolgação inexplicável. Ao contrário das duas primeiras vezes, agora ele tinha um objetivo: revelar o segredo do mundo de Três Corpos.

Ele criou um novo login adequado para esse novo papel: Copérnico.





Ao entrar, Wang se viu de novo naquela planície vasta e desolada, diante da alvorada estranha do mundo de Três Corpos. Havia uma pirâmide colossal no leste, mas Wang logo percebeu que já não era a pirâmide do rei Zhou de Shang ou de Mo Zi. O ápice era em estilo gótico, projetando-se no céu matinal, lembrando a igreja de São José em Wangfujing. No entanto, se essa igreja fosse posta do lado daquela pirâmide, não seria nada além de uma cabine de entrada. Wang viu muitos edifícios ao longe que pareciam desidratórios, mas também em estilo gótico, com torres altas e pontiagudas, como se tivessem brotado vários espinhos no chão.

Wang viu uma porta na lateral da pirâmide, iluminada por luzes tremeluzentes vindas do interior. Ele se aproximou. Dentro do túnel havia uma fileira de estátuas de deuses do Olimpo com tochas na mão, escurecidos pela fumaça. Wang entrou no Grande Salão e percebeu que ali estava ainda mais escuro do que no túnel de entrada. Dois candelabros de prata em cima de uma mesa de mármore comprida proporcionavam uma luz tênue.



Havia alguns homens sentados em volta da mesa. Como a luz era fraca, Wang só conseguiu ver o contorno do rosto deles. Ainda que os olhos estivessem ocultos nas sombras de suas profundas órbitas oculares, Wang sentia seus olhares. Os homens pareciam usar mantos medievais. Ao observar com mais atenção, dava para ver que um ou dois deles usavam mantos mais simples, mais parecidos com túnicas gregas clássicas. Em uma das extremidades da mesa estava um homem alto e magro. A coroa dourada na cabeça era a única coisa além das velas que brilhava no Grande Salão. Com algum esforço, Wang notou que o manto dele era diferente dos outros: era vermelho.



Wang percebeu que o jogo selecionava um mundo diferente para cada jogador. Aquele, baseado na Alta Idade Média europeia, foi escolhido pelo programa a partir do login dele.

— Você está atrasado. A reunião já começou há algum tempo — disse o homem de coroa dourada e manto vermelho. — Eu sou o papa Gregório.

Wang tentou lembrar o pouco que sabia da história da Europa medieval para que, com base naquele nome, pudesse deduzir o nível de progresso daquela civilização. Só então se deu conta de que as referências históricas podiam ser extremamente anacrônicas no mundo de Três Corpos e decidiu que não valia o esforço.



— Eu sou Aristóteles. Você mudou seu login, mas todos sabemos quem você é. Nas duas civilizações anteriores, você viajou ao Oriente. — A pessoa que falou foi o homem de túnica grega. Ele tinha cachos brancos na cabeça.



— Isso mesmo. — Wang confirmou com a cabeça. — Lá, presenciei a destruição de duas civilizações, uma pelo frio extremo, e a outra, por um sol devastador. Também vi os grandes esforços dos pensadores orientais para tentar desvendar as leis que regem o movimento do sol.

— Rá! — O som veio de um homem cuja barbicha descrevia uma curva para cima. Ele era ainda mais magro que o papa. — Os pensadores orientais tentaram compreender os segredos do movimento solar por meio de meditação, epifanias e até mesmo sonhos. É absolutamente risível!

— Esse é Galileu — disse Aristóteles. — Ele defende uma compreensão do mundo mediante observação e experimentos. Como pensador, carece de imaginação, mas apresenta resultados que exigem nossa atenção.



— Mo Zi também realizava experimentos e observações — disse Wang.



— O jeito de pensar de Mo Zi também era oriental. Ele não passava de um místico vestido de cientista. Nunca levava as próprias observações a sério, e o modelo que desenvolveu estava baseado em especulação subjetiva. Ridículo! Lamento pelos equipamentos refinados dele. Nós somos diferentes. A partir de grandes quantidades de dados extraídos de observações e de experimentos, elaboramos deduções lógicas rigorosas para formular um modelo do universo. Depois, voltamos à experimentação e à observação para testá-lo.

— Correto — concordou Wang, fazendo um gesto com a cabeça. — Também penso assim.



— Você também nos trouxe um calendário, então? — O tom do papa era de deboche.



— Não tenho nenhum calendário. Trouxe apenas um modelo formulado a partir de dados observados. Mas preciso deixar claro que, mesmo se o modelo estiver certo, nada garante que possa ser usado para dominar os detalhes precisos do movimento solar e criar um calendário. No entanto, é um passo necessário.



Um aplauso solitário ecoou pelo Grande Salão. O som vinha de Galileu.



— Excelente, Copérnico, excelente. A maioria dos acadêmicos carece de seu raciocínio pragmático, adaptado à metodologia experimental, científica. Só isso já faz com que sua teoria mereça ser ouvida.



O papa fez um gesto afirmativo para Wang.



— Prossiga.





Depois de se acalmar, Wang foi até a outra extremidade da mesa comprida.



— Na verdade, é muito simples — disse ele. — O motivo por que o movimento do sol parece desprovido de padrões é que nosso mundo tem três sóis. Sob a influência da atração gravitacional de cada um deles, que afeta mutuamente os três, os movimentos são imprevisíveis: o problema dos três corpos. Quando nosso planeta gira em torno de um dos sóis em uma órbita estável, temos uma Era Estável. Quando um ou mais sóis chega a determinada distância, a força gravitacional deles afastará o planeta da órbita desse sol e o lançará em uma trajetória instável pelos campos gravitacionais dos três sóis. Isso é uma Era Caótica. Após um período indefinido, nosso planeta volta a ser atraído para uma órbita temporária, e assim começa outra Era Estável. É como uma partida de futebol nas dimensões do universo: os jogadores são os três sóis, e nosso planeta é a bola.



Algumas risadas fracas soaram no Grande Salão.



— Joguem ele na fogueira — disse o papa, impassível. Os dois soldados com armaduras enferrujadas parados à porta começaram a andar na direção de Wang como se fossem robôs desajeitados.



— Queimem ele. — Galileu suspirou. — Eu tinha esperança em você, mas você não passa de mais um místico ou feiticeiro.

— Homens assim são um estorvo — concordou Aristóteles.



— Pelo menos me deixem terminar! — Wang afastou as luvas de ferro dos dois soldados.



— Você por acaso já viu três sóis? Ao menos sabe de alguém que tenha visto? — perguntou Galileu.

— Todo mundo já viu.



— Então, tirando o sol que aparece nas Eras Caóticas e nas Eras Estáveis, cadê os outros dois?



— O sol que vemos em momentos diferentes pode não ser sempre o mesmo: é apenas um dos três sóis. Quando os outros dois estão longe, parecem estrelas voadoras.

— Você nem sequer tem conhecimento básico em ciências — disse Galileu, balançando a cabeça. — O sol deve se deslocar continuamente a um ponto distante. Ele não pode saltar pelo espaço intermediário. De acordo com sua hipótese, deveria haver mais uma situação observável: o sol deveria ficar menor do que costuma parecer, mas maior que uma estrela voadora, e aos poucos encolher até o tamanho de uma estrela voadora à medida que se afastasse. Mas nunca vimos o sol se comportar dessa maneira.

— Como você possui conhecimento científico, deve saber algo da estrutura do sol.



— Essa é minha descoberta que mais me dá orgulho. O sol é composto por uma camada externa gasosa esparsa, mas expansiva, e por um núcleo interior denso e quente.

— De fato — disse Wang. — Mas você aparentemente não descobriu a interação ótica especial entre a camada externa gasosa do sol e a atmosfera do nosso planeta. É um fenômeno semelhante à polarização ou à interferência destrutiva. Como resultado, quando vemos o sol de dentro de nossa atmosfera e ele chega a determinada distância de nós, a camada gasosa externa de repente fica completamente transparente e invisível, e assim só vemos o núcleo interior luminoso. O sol então parece ter apenas o tamanho do núcleo interior, uma estrela voadora.

“Esse fenômeno confundiu todos os estudiosos de todas as civilizações da história, impedindo





que descobrissem a existência dos três sóis. Agora vocês entendem por que o aparecimento de três estrelas voadoras anuncia um longo período de frio extremo: porque todos os três sóis estão longe.”



Pairou um breve silêncio enquanto todos ponderavam a questão. Aristóteles foi o primeiro a falar.



— Você não possui conhecimento básico em lógica. É verdade que às vezes vemos três estrelas voadoras e que isso sempre é seguido de períodos destrutivos de frio extremo. Mas, segundo sua teoria, também deveríamos ver três sóis de tamanho normal no céu. Isso nunca aconteceu. Em toda a história de todas as civilizações, isso nunca ocorreu!

— Esperem! — Um homem com um chapéu de formato estranho e uma barba comprida se levantou e falou pela primeira vez. — Eu sou Leonardo da Vinci. Pode haver registro histórico disso. Uma civilização viu dois sóis e foi destruída imediatamente pela soma do calor deles, mas o registro era muito vago.



— Estamos falando de três sóis, não de dois! — gritou Galileu. — De acordo com a teoria dele, três sóis precisam aparecer em algum momento, assim como três estrelas voadoras.



— Três sóis apareceram de fato — disse Wang, com toda tranquilidade. — E as pessoas viram. Mas quem presenciou a cena não poderia registrar nenhuma informação, porque ver os três sóis significaria no máximo alguns segundos de vida para essas pessoas. Ninguém teria chance de escapar ou sobreviver. Os dias trissolares são as catástrofes mais assustadoras de nosso mundo. Nesses dias, a superfície do planeta se transforma em uma fornalha infernal em um segundo, e o calor é suficiente para derreter pedras. Após a destruição causada por um dia trissolar, leva uma eternidade até ressurgir a vida e a civilização. Esse é mais um motivo para não existirem registros históricos disso.



Silêncio. Todo mundo olhava para o papa.



— Queimem ele — disse o papa, com delicadeza. O sorriso dele parecia um pouco familiar para Wang: era o sorriso do rei Zhou de Shang.

O Grande Salão entrou em frenesi, e todo mundo parecia se preparar para uma festa. Galileu e alguns outros trouxeram cantarolando uma estaca de um canto escuro. Eles tiraram e descartaram o cadáver carbonizado que ainda estava preso nela, antes de firmá-la na posição vertical. Outro grupo animado fez uma pilha de lenha em volta da estaca. Só Leonardo ignorou a agitação. Sentado à mesa, ele refletia e, de vez em quando, usava uma pena para calcular algo na mesa.

— Giordano Bruno — disse Aristóteles, apontando para o corpo enegrecido. — Como você, ele também veio aqui e só falou absurdos.

— Deixem o fogo baixo — disse o papa, com a voz fraca.



Dois soldados começaram a amarrar Wang Miao na estaca com cordas de amianto. Wang usou a mão ainda livre para apontar para o papa.



— Você não é nada além de um programa. Quanto aos outros, ou vocês são programas, ou não passam de idiotas. Eu vou entrar de novo no jogo!

— Você não pode voltar. Desaparecerá para sempre do mundo de Três Corpos. — Galileu riu.



— Então você deve ser um programa. Com certeza uma pessoa de carne e osso teria noções básicas de internet. O máximo que o jogo pode fazer é registrar meu endereço MAC. Eu posso trocar de computador e criar um login novo. Vou anunciar que sou eu quando voltar.



— O sistema registrou sua retina pelo traje V — disse Leonardo, olhando para Wang, antes de voltar para os cálculos.

Wang Miao foi tomado por um terror indefinível.



— Não façam isso! — gritou ele. — Deixem-me sair. Eu estou falando a verdade!



— Se você estiver falando a verdade, não vai ser queimado. O jogo recompensa as pessoas que estão no caminho certo.

Aristóteles sorriu, pegou um isqueiro Zippo prateado, abriu com um gesto complicado e acendeu.

Quando ele estava prestes a atear fogo na pilha de lenha em volta de Wang, uma luz vermelha intensa preencheu o túnel de entrada, acompanhada por uma onda de calor e fumaça. Um cavalo veio em disparada da luz e entrou no Grande Salão. O corpo do animal já estava em chamas e, conforme galopava, foi sendo transformado em uma bola de fogo pelo vento. O cavaleiro que montava, de armadura pesada incandescente por causa do calor, trazia um fio de fumaça branca atrás de si.



— O mundo acabou! O mundo acabou! Desidratar! Desidratar!



Enquanto o cavaleiro gritava, o animal embaixo dele caiu e se transformou em uma fogueira. O cavaleiro foi lançado longe e rodou até a estaca, onde parou de se mexer. Uma fumaça branca continuava saindo pelas brechas da armadura. A gordura fervilhante do homem morto escorreu para o chão e pegou fogo, dando à armadura um par de asas flamejantes.

Todos que estavam no Grande Salão seguiram para o túnel de entrada e se espremeram nele, saindo para a luz vermelha do lado de fora. Wang Miao se esforçou ao máximo para se soltar das cordas. Desviando-se do cavalo e do cavaleiro em chamas, atravessou às pressas o Grande Salão e correu pelo túnel abrasador até sair da pirâmide.



O chão estava vermelho como um pedaço de metal no forno de um ferreiro. Riachos de lava incandescente se espalhavam pela terra vermelho-escura, formando uma rede de fogo que se estendia até o horizonte. Inúmeras colunas de fogo subiam aos céus: os desidratórios estavam em chamas. Os corpos desidratados dentro deles davam às labaredas um tom azulado estranho.

Não muito longe, Wang viu mais ou menos doze colunas de fogo da mesma cor. Eram as pessoas que haviam acabado de sair da pirâmide: o papa, Galileu, Aristóteles, Leonardo e os demais. As colunas ígneas em volta deles eram de um azul translúcido, e Wang via o rosto e o corpo deles se deformando aos poucos nas chamas. Estavam com os olhos fixos em Wang, que havia acabado de sair do túnel. Mantendo a mesma postura de antes e levantando os braços para o céu, eles falaram em coro:



— Dia trissolar…



Wang olhou para cima e viu três sóis gigantescos girando lentamente em volta de um centro invisível, como um ventilador imenso de três pás soprando um vento letal mundo abaixo. Os três sóis preenchiam quase o céu inteiro e, à medida que avançavam para o oeste, foram mergulhando no horizonte, até que somente metade da formação estivesse visível. O ventilador gigantesco continuou girando, e de vez em quando uma das pás se erguia do horizonte para dar ao planeta moribundo mais um breve amanhecer e pôr do sol. Ao fim de um pôr do sol, o chão brilhava com um tom avermelhado, e o amanhecer logo depois inundava tudo com seus intensos raios paralelos.



Quando os três sóis se puseram de vez, as nuvens densas formadas com a água evaporada continuaram refletindo o brilho deles. O céu queimava, exibindo uma infernal e enlouquecedora beleza.



Quando os últimos raios de luz da destruição enfim desapareceram e as nuvens brilharam apenas com uma suave luminescência vermelha refletida do incêndio infernal no solo, surgiram algumas linhas gigantes de texto:


A civilização número 183 foi destruída por um dia trissolar. Esta civilização havia avançado até a Idade Média. Depois de muito tempo, a vida e a civilização vão recomeçar e voltarão a progredir no mundo imprevisível de Três Corpos.



Porém, nesta civilização, Copérnico conseguiu revelar a estrutura básica do universo. A civilização de Três Corpos dará seu primeiro salto. O jogo agora entra na segunda fase.

Convidamos você a entrar para a segunda fase de Três Corpos.







16. O PROBLEMA DOS TRÊS CORPOS







Assim que Wang saiu do jogo, o telefone tocou.



Era Shi Qiang, que pedia para Wang procurá-lo com urgência em sua sala na Divisão de Crimes. Wang olhou para o relógio: eram três da manhã.



Ele chegou à sala caótica de Da Shi e viu que o lugar já estava tomado por uma densa nuvem de fumaça de cigarro. Uma policial jovem que dividia a sala com Da Shi balançava um caderno na frente do nariz para afastar a fumaça. Da Shi apresentou a colega como Xu Bingbing, especialista em informática da Divisão de Segurança de Informações.



Wang ficou surpreso com a terceira pessoa na sala. Era Wei Cheng, o recluso e misterioso marido de Shen Yufei, da Fronteiras da Ciência. O cabelo de Wei estava uma bagunça. Ele olhou para Wang, mas parecia ter esquecido que já se conheciam.



— Desculpe incomodar você a essa hora, mas pelo menos parece que você não estava dormindo — disse Da Shi. — Tenho que lidar com algo que ainda não comuniquei ao Centro de Comando em Batalha e preciso de uma consultoria sua. — Ele se virou para Wei Cheng. — Diga a ele o que você me falou.



— Minha vida está em perigo — disse Wei, com o rosto inexpressivo.



— Que tal começar do começo?



— Certo. Vou começar, mas não venha me chamar de prolixo. Para ser sincero, ultimamente tenho pensado muito em falar com alguém… — Wei se virou para Xu Bingbing. — Você não precisa tomar nota ou algo do tipo?



— Por enquanto não — cortou Da Shi. — Você não tinha ninguém com quem conversar antes?

— Não, não é isso. Eu tinha preguiça demais de falar. Sempre fui preguiçoso.





A HISTÓRIA DE WEI CHENG



Desde pequeno, sempre fui indolente. Quando estudava em um internato, eu nunca lavava a louça nem fazia a cama. Nunca me animava com nada. Tinha preguiça demais de estudar, preguiça demais até de brincar, e passava o dia inteiro sem fazer nada.

Mas eu sabia que tinha alguns talentos especiais que outros não tinham. Por exemplo, se alguém traçasse uma linha, eu sempre conseguia traçar outra linha que a dividisse exatamente na proporção áurea: 1,618. Meus colegas diziam que eu devia virar carpinteiro, mas eu achava que era mais do que isso, uma espécie de intuição para números e formas. Só que eu tirava notas tão





ruins em matemática quanto em outras disciplinas. Eu tinha preguiça demais para me dar ao trabalho de apresentar meu raciocínio. Nas provas, eu só anotava o resultado final nas respostas. Em mais ou menos oitenta ou noventa por cento das vezes eu acertava, mas mesmo assim minhas notas eram medíocres.



Quando eu estava no segundo ano do ensino médio, um professor de matemática reparou em mim. Na época, muitos professores de ensino médio tinham um currículo acadêmico impressionante, já que durante a Revolução Cultural diversos pesquisadores talentosos acabaram indo dar aula em colégios. Meu professor era um caso desses.



Um dia, ele me fez ficar depois da aula. Passou mais ou menos doze sequências numéricas no quadro-negro e me pediu para escrever a notação de somatório de cada uma. Eu escrevi as notações de algumas quase no mesmo instante e percebi só de olhar que as outras sequências eram divergentes.



Meu professor pegou um livro, Coletânea de casos de Sherlock Holmes. Abriu uma das histórias — acho que foi “Um estudo em vermelho”. Tem uma cena em que Watson chama a atenção de Holmes depois de ver um mensageiro com roupas simples no térreo. Holmes diz: “Ah, você se refere ao sargento reformado dos fuzileiros navais?”. Watson fica impressionado com a capacidade de Holmes de deduzir a história do homem, mas Holmes não consegue articular seu raciocínio e precisa refletir um pouco para entender qual foi sua linha de deduções. Ele se baseou na mão do sujeito, em seus movimentos etc. Holmes diz a Watson que isso não tem nada de estranho: a maioria das pessoas não consegue explicar como é que elas sabem que dois e dois são quatro.



Meu professor fechou o livro e me disse:



— Você é exatamente assim. Sua derivação é tão rápida e instintiva que você não consegue nem dizer como descobriu a resposta. — Depois, ele me perguntou: — O que você sente quando vê uma série de números? Estou falando de sensações.



— Qualquer combinação de número parece ter uma forma tridimensional para mim — respondi. — É claro que não sei descrever o formato dos números, mas eles aparecem mesmo como formas.



— E o que acontece quando você vê figuras geométricas? — perguntou o professor.



— É exatamente o contrário. Na minha cabeça, não existem formas geométricas. Tudo se transforma em números. É que nem quando você olha bem de perto uma foto no jornal e tudo se transforma em um monte de pontinhos.



— Você tem mesmo um dom nato para a matemática — disse ele —, mas… mas… — O professor acrescentou outros “mas”, andando de um lado para o outro como se eu fosse um problema difícil de abordar. — Mas pessoas como você não dão valor para esse dom. — Depois de pensar por algum tempo, ele pareceu desistir e disse: — Que tal você se inscrever no campeonato de matemática do distrito no mês que vem? Não vou ser seu orientador. Como você é muito bom, eu só estaria perdendo meu tempo. Mas, quando der suas respostas, não se esqueça de escrever seu raciocínio.

Então eu participei do campeonato. Desde o nível distrital até a Olimpíada Internacional de Matemática em Budapeste, tirei o primeiro lugar em todas. Quando voltei, fui aceito em um programa de matemática de uma faculdade de elite sem ter que passar pelas provas de admissão…



Vocês não estão entediados com esse meu falatório todo? Ah, ótimo. Bom, para entender o que aconteceu depois, eu preciso contar tudo isso. Aquele professor de matemática do ensino médio tinha razão. Eu não dava valor para o meu talento. Graduação, mestrado, doutorado… nunca me esforcei muito em nenhum deles, mas consegui passar por todos. No entanto, quando me formei e voltei ao mundo real, percebi que eu era completamente inútil. Fora matemática, eu não sabia de nada. Estava meio adormecido em relação às complexidades dos relacionamentos entre as pessoas. Quanto mais eu trabalhava, pior ficava a minha carreira. Com o tempo, passei a dar aulas em uma faculdade, mas também não consegui ficar muito. Eu não conseguia levar a carreira docente a sério. Eu escrevia no quadro “fácil de provar”, e ainda assim meus alunos passavam um bom tempo se esforçando. Mais tarde, quando começaram a dispensar os piores professores, fui demitido.

A essa altura, eu estava farto de tudo. Fiz as malas e fui para um templo budista perdido nas montanhas em algum lugar no Sul da China.



Ah, não fui para virar monge. Preguiça demais para isso. Eu só queria ir morar por algum tempo em um lugar realmente pacífico. O abade lá era um velho amigo do meu pai — um grande intelectual, que se tornou monge depois de idoso. Pelo que meu pai me contou, na situação dele, era a única opção. O abade me convidou para ficar.



— Eu quero achar um jeito pacífico de deixar correr o resto da minha vida — respondi.



— Este lugar não é pacífico de verdade. Recebemos muitos turistas e também muitos peregrinos. Quem é realmente calmo consegue encontrar a paz até em uma cidade efervescente. Para alcançar esse estado, você precisa se esvaziar.



— Já sou bastante vazio. Fama e fortuna não significam nada para mim. Muitos monges neste templo são mais sofisticados do que eu.

O abade balançou a cabeça e respondeu:



— Não, o vazio não é o nada. O vazio é um tipo de existência. Você precisa usar esse vazio existencial para preencher a si mesmo.

Achei aquelas palavras muito esclarecedoras. Mais tarde, depois de pensar um pouco no assunto, percebi que isso não tinha nada de filosofia budista, estava mais ligado a algumas teorias da física moderna. O abade também me disse que não discutiria budismo comigo. O motivo era o mesmo do meu professor da escola: com alguém como eu, seria só uma perda de tempo.



Naquela primeira noite, não consegui dormir no quarto minúsculo do templo. Não imaginei que aquele refúgio isolado do mundo seria tão desconfortável. O cobertor e o lençol ficaram úmidos com a neblina da montanha, e a cama era muito dura. Para me obrigar a dormir, tentei seguir o conselho do abade e me encher de “vazio”.



Na minha mente, o primeiro “vazio” que criei foi a infinitude do espaço. Não havia nada nele, nem luz. Mas logo percebi que esse universo vazio não me daria paz. Na verdade, ele me enchia de uma ansiedade generalizada, como se eu fosse um homem que tentava se segurar em qualquer coisa para não morrer afogado.





Então criei uma esfera para mim nesse espaço infinito: não muito grande, mas que tivesse massa. Só que meu estado mental não melhorou. A esfera flutuava no meio do “vazio” — no espaço infinito, qualquer lugar podia ser o meio. O universo não continha nada que pudesse agir na esfera, e ela não podia agir em nada. Ficava lá, imóvel, eterna, como uma releitura perfeita da morte.



Criei uma segunda esfera de massa igual à da primeira. As duas tinham uma superfície completamente reflexiva. Cada uma refletia a imagem da outra, exibindo a única existência do universo além de si mesma. Mas a situação não melhorou muito. Se as esferas não tivessem nenhum movimento inicial — isto é, se não fossem empurradas por mim —, elas logo seriam atraídas pelas respectivas forças gravitacionais. As duas esferas então continuariam juntas e permaneceriam imóveis, um símbolo da morte. Se tivessem um movimento inicial e não colidissem, ficariam orbitando uma à outra sob a influência da gravidade. Independente das condições iniciais, as revoluções acabariam se estabilizando e se tornando imutáveis: a dança da morte.



Então introduzi uma terceira esfera e, para minha surpresa, a situação mudou completamente. Como já disse, na minha cabeça, qualquer figura geométrica se transforma em números. Todos os universos (o sem esferas, o com uma e o com duas) apareciam para mim como uma ou algumas equações, como um punhado de folhas solitárias no final do outono. Mas essa terceira esfera infundiu o “vazio” de vida. As três esferas, ao receberem um movimento inicial, realizavam uma série complexa e aparentemente aleatória de movimentos. Parecia uma chuva torrencial incessante de equações descritivas.

De repente, adormeci. As três esferas continuaram dançando nos meus sonhos, uma dança sem padrões nem repetições. Porém, nas profundezas da minha mente, a dança possuía um ritmo, só que o período de repetição era infinitamente longo. Isso me fascinou. Eu queria descrever o período inteiro, ou pelo menos uma parte.





No dia seguinte, continuei pensando nas três esferas que dançavam no “vazio”. Eu nunca tinha ficado tão concentrado. Chegou ao ponto de um dos monges perguntar ao abade se eu tinha problemas mentais. O abade riu e disse:



— Não se preocupe. Ele encontrou o vazio.



Sim, eu havia encontrado o vazio. Agora poderia ficar em paz em uma cidade efervescente. Até mesmo no meio de uma multidão barulhenta, meu coração continuaria completamente tranquilo. Pela primeira vez, gostei de matemática. Estava me sentindo como um libertino que vivia saltando de mulher em mulher até de repente se dar conta de que está apaixonado.

Os princípios da física por trás do problema dos três corpos* são muito simples. É sobretudo um problema matemático.


— Você não ouviu falar de Henri Poincaré? — perguntou Wang Miao, interrompendo Wei.** Na época, não. Sim, eu sei que uma pessoa que estuda matemática deveria saber de um gênio como Poincaré, mas eu não idolatrava gênios e não queria me tornar um, então não conhecia o trabalho dele. Porém, mesmo que tivesse conhecido, eu teria continuado insistindo no problema dos três corpos.



Parece que todo mundo acredita que Poincaré provou que o problema dos três corpos não tem solução, mas acho que as pessoas se enganaram. Ele só provou que havia uma dependência sensível em condições iniciais e que o sistema de três corpos não podia ser solucionado por integrais. Mas essa sensibilidade não é o mesmo que completa indeterminabilidade. A questão é que a solução contém uma quantidade maior de formas diferentes. É preciso criar um novo algoritmo.



Naquele tempo, eu só pensava em uma coisa. Vocês já ouviram falar do método Monte Carlo? Ah, é um programa de computador usado com frequência para calcular a área de formas irregulares. Para ser mais específico: o programa coloca a figura de interesse em uma figura de área conhecida, como um círculo, e a golpeia várias vezes com bolinhas minúsculas em pontos aleatórios, sem nunca acertar o mesmo lugar duas vezes. Depois de uma grande quantidade de bolas, a proporção de bolas que cabem na forma irregular em comparação com a quantidade total de bolas usadas para golpear o círculo vai resultar na área da forma. É claro que, quanto menores forem as bolas usadas, mais preciso será o resultado.

Embora o método seja simples, demonstra como é matematicamente possível que a força bruta aleatória supere a lógica precisa. É uma abordagem numérica que usa quantidade para obter qualidade. Essa é a minha estratégia para resolver o problema dos três corpos. Estudo o sistema um momento por vez. A cada momento, os vetores de movimento das esferas podem se combinar em formas infinitas. Trato cada combinação como um ser vivo. O segredo é estabelecer algumas regras: que combinações de vetores de movimento são “saudáveis” e “benéficas” e que combinações são “prejudiciais” e “nocivas”. As primeiras levam uma vantagem para a sobrevivência, ao passo que as outras são preteridas. A computação em seguida elimina as combinações preteridas e preserva as que têm vantagem. A combinação final que persiste é a previsão correta para a configuração seguinte do sistema, o momento seguinte no tempo.





— É um algoritmo evolucionário — disse Wang.



— Que bom que eu convidei você. — Shi Qiang fez um gesto com a cabeça para Wang.





Sim. Só fui conhecer esse termo muito mais tarde. A característica determinante desse algoritmo



é que exige um poder de computação ultra-alto. Para o problema dos três corpos, os computadores que existem hoje não bastam.

Na época, no templo, eu não tinha nem uma calculadora. Precisava ir até a secretaria para pegar um livro-caixa em branco e um lápis. Comecei a elaborar o modelo matemático no papel. Tive que trabalhar muito e logo enchi mais de uma dúzia de livros-caixa. Os monges encarregados da contabilidade não ficaram muito felizes, mas, como era vontade do abade, arranjaram mais papel e caneta para mim. Eu escondia os cálculos concluídos embaixo do travesseiro e jogava as folhas de rascunho no incensário do pátio.





Certa noite, uma moça entrou de repente no meu quarto. Foi a primeira vez que uma mulher aparecia onde eu morava. Ela estava segurando uns pedaços de papel com as bordas queimadas, as folhas de rascunho que eu tinha jogado fora.



— Disseram que isto aqui é seu. Você está estudando o problema dos três corpos? — Por trás dos óculos grandes, os olhos dela pareciam estar pegando fogo.

Fiquei surpreso com a mulher. Eu não estava usando matemática convencional, e minhas derivações davam saltos grandes. Mas o fato de que ela tivesse conseguido identificar meu tema de estudo a partir de um punhado de rascunhos indicava que ela possuía um talento incomum para a matemática e que, como eu, se dedicava muito ao problema dos três corpos.

Eu não tinha uma boa impressão dos turistas e peregrinos. Os turistas não faziam ideia do que estavam visitando, só ficavam correndo de um lado para o outro e tirando fotos. Já os peregrinos pareciam ainda mais pobres que os turistas, como se vivessem em um estado letárgico, com o intelecto inibido. Só que aquela mulher era diferente. Ela parecia uma acadêmica. Mais tarde, descobri que havia chegado com um grupo de turistas japoneses.

Sem esperar eu responder, ela acrescentou:



— Sua abordagem é brilhante. Vínhamos procurando um método assim, que pudesse transformar o complicado problema dos três corpos em uma questão de computação maciça. Claro, para isso seria necessário um computador muito potente.



Falei a verdade para ela:



— Mesmo se usássemos todos os computadores do mundo, não seria suficiente.



— Mas você precisa ter um ambiente de pesquisa adequado, e não tem nada disso por aqui. Posso conseguir um supercomputador para você e também um minicomputador. Venha embora junto comigo amanhã de manhã.



A mulher, claro, era Shen Yufei. Assim como hoje, era autoritária e de poucas palavras, mas na época era mais atraente. De modo geral, sou uma pessoa fria. Eu tinha menos interesse em mulheres do que os monges à minha volta. Só que com aquela mulher, que não se encaixava nas ideias convencionais de feminilidade, era diferente: eu a achava atraente. Como não tinha mais nada para fazer mesmo, concordei.

Naquela noite, não consegui dormir. Coloquei uma camisa e saí para o pátio. Ao longe, avistei Shen no salão pouco iluminado do templo. Ela estava ajoelhada na frente do Buda, com varetas de incenso acesas, e todos seus gestos pareciam piedosos. Eu me aproximei sem fazer barulho e, quando cheguei até a porta do templo, ouvi Shen murmurando uma oração:

— Buda, por favor, ajude meu Senhor a escapar do mar de infortúnio.



Achei que tinha ouvido errado, mas ela repetiu a oração.



— Buda, por favor, ajude meu Senhor a escapar do mar de infortúnio.



Eu não entendia de religião e não me interessava por nenhuma, mas realmente não conseguia imaginar nenhuma oração mais estranha que aquela.



— O que você está dizendo? — perguntei, de repente.



Ela me ignorou. Ficou de olhos quase fechados, com as mãos juntas na frente do corpo, como se estivesse vendo a oração subir com a fumaça do incenso até o Buda. Depois de um bom tempo, ela enfim abriu os olhos e se virou para mim.





— Vá dormir. Precisamos levantar cedo. Ela nem olhou para mim.

— Esse “Senhor” que você mencionou faz parte do budismo? — indaguei.



— Não.



— Então…?



Shen não disse nada, só saiu às pressas. Não tive chance de fazer mais nenhuma pergunta. Repeti a oração para mim mesmo várias vezes, e ela parecia ficar ainda mais estranha. Depois de um tempo, fiquei assustado. Corri até o quarto do abade e bati à porta.

— O que significa quando alguém reza para o Buda para ajudar outro Senhor? — E contei os detalhes do que tinha visto.

O abade olhou para o livro que estava em suas mãos e não disse nada: estava pensando no que eu falei, não lendo. Depois, disse:

— Por favor, preciso ficar sozinho um pouco. Preciso refletir.



Eu me virei e saí, sabendo que aquilo não era comum. O abade era muito erudito. Normalmente, conseguia responder qualquer pergunta sobre religião, história e cultura sem precisar refletir. Fiquei esperando do lado de fora do quarto mais ou menos uns cinco minutos, e então o abade me chamou.



— Acho que só existe uma possibilidade. — Ele estava com uma expressão grave.



— O quê? O que pode ser? Será que existe alguma religião cuja divindade, para ser salva, precisa que os devotos rezem aos deuses de outras religiões?

— O Senhor dela existe de verdade.



Essa resposta me deixou confuso.



— Então… o Buda não existe?



Assim que falei isso, me dei conta de como soou grosseiro. Pedi desculpas.



O abade balançou a mão devagar para mim.



— Já falei, nós dois não podemos conversar sobre o budismo. A existência do Buda é de um tipo que não pode ser compreendida. Mas o Senhor de que ela estava falando existe de um jeito que é possível compreender… Não posso falar mais nada sobre esse assunto. Só posso aconselhar que você não vá embora com ela.



— Por quê?



— É só uma sensação. Estou com a sensação de que, por trás dela, existem coisas que nem eu nem você somos capazes de imaginar.

Saí do quarto do abade, atravessei o templo e caminhei até o meu quarto. Era noite de lua cheia. Olhei para cima, e a lua parecia um olho prateado estranho me encarando, carregado de uma frieza perturbadora.



No dia seguinte, fui embora com Shen — afinal, eu não podia ficar no templo para sempre. Mas não achei que, nos anos seguintes, eu acabaria tendo a vida dos meus sonhos. Shen cumpriu a promessa. Eu tinha um minicomputador e um ambiente confortável. Até saí do país algumas vezes para usar supercomputadores — não em esquema de tempo compartilhado, mas com o processador todo só para mim. Ela tinha muito dinheiro, mas eu não sabia de onde vinha.

Mais tarde, a gente se casou. Não havia muito amor ou paixão, só conveniência mútua. Nós





dois queríamos realizar alguma coisa. Quanto a mim, os anos seguintes poderiam ser descritos como um único dia. O tempo passou tranquilamente para mim. Na casa dela, eu tinha tudo de mão beijada e, como não precisava me preocupar com comida ou roupas, podia me dedicar ao estudo do problema dos três corpos. Shen nunca se metia na minha vida. A garagem tinha um carro, que eu podia dirigir para qualquer lugar. Com certeza ela nem teria se importado se eu tivesse levado outra mulher para casa. Shen só prestava atenção na minha pesquisa, e o único assunto que a gente discutia no dia a dia era o problema dos três corpos.





— Você sabe o que mais Shen anda fazendo? — perguntou Shi Qiang.



— Só a Fronteiras da Ciência. Ela está sempre ocupada com isso. Muita gente aparece todo dia.

— Ela não convidou você para participar?



— Nunca. Ela nem fala sobre isso comigo. Eu também não ligo. Esse é o meu jeito. Não ligo para nada. Ela sabe e diz que eu sou um homem indolente, sem nenhuma motivação de verdade. A organização não combina comigo e acabaria interferindo na minha pesquisa.

— Você fez algum avanço no problema dos três corpos? — perguntou Wang.







Em comparação com a situação geral da área, meu avanço poderia ser considerado grande. Alguns anos atrás, Richard Montgomery, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, e Alain Chenciner, da Universidade Paris Diderot, descobriram outra solução periódica estável para o problema dos três corpos. A partir de condições iniciais adequadas, os três corpos vão correr um atrás do outro ao longo de uma curva fixa em forma de oito. Depois disso, todos começaram a tentar encontrar essas configurações estáveis especiais, e cada descoberta era recebida com alegria. Só foram encontradas umas três ou quatro configurações dessas.

Mas meu algoritmo evolucionário já revelou mais de cem configurações estáveis. O traçado das órbitas delas encheria uma galeria de arte pós-moderna, mas meu objetivo não é esse. A verdadeira solução para o problema dos três corpos é criar um modelo matemático que permita a previsão de todos os movimentos do sistema de três corpos, seja qual for a configuração inicial com vetores conhecidos. É isso que Shen Yufei deseja também.

Mas minha vida pacífica acabou ontem.





— Esse é o crime que você está denunciando? — perguntou Shi Qiang.



— Sim. Um homem ligou ontem e disse que, se eu não interrompesse minha pesquisa, eu seria morto.

— Quem era?



— Não sei.



— Número de telefone?



— Não sei. O identificador de chamadas não mostrou.



— Mais alguma informação relevante?





— Não sei.



Da Shi riu e jogou a guimba do cigarro em um cinzeiro.



— Você ficou falando sem parar e, no fim das contas, a única coisa que tinha para relatar era uma frase e um punhado de “não sei”?

— Se eu não tivesse me prolongado, vocês teriam compreendido a importância dessa ligação? Por sinal, se fosse só isso, eu nem teria vindo aqui. Sou preguiçoso, lembram? Aconteceu outra coisa, no meio da noite, não sei se hoje ou ontem. Eu estava deitado, oscilando entre o sono e a vigília, quando senti algo frio se mexendo no meu rosto. Abri os olhos, vi Shen Yufei e quase morri de susto.



— O que tem de tão apavorante ver sua esposa no meio da noite?



— Ela estava me encarando de um jeito que eu nunca tinha visto antes. A luz que vinha do lado de fora da casa estava pegando no rosto dela, e Shen parecia um fantasma. Estava com alguma coisa na mão: uma arma! Ela passou o cano na frente do meu rosto e disse que eu precisava continuar trabalhando no problema dos três corpos. Senão, ela me mataria.

— Ah, agora está ficando interessante.



— Interessante? Escute, eu não tenho para onde ir. Foi por isso que procurei vocês.



— Diga o que exatamente ela falou para você.



— Ela disse: “Se você conseguir resolver o problema dos três corpos, vai ser o salvador do mundo. Se parar agora, será um pecador. Se alguém viesse a salvar ou destruir a raça humana, sua possível contribuição ou pecado seria exatamente duas vezes maior que a dele”.

Da Shi soltou uma nuvem densa de fumaça e ficou encarando Wei Cheng até ele desviar os olhos. Pegou um bloco e uma caneta da mesa bagunçada.

— Você queria que nós tomássemos notas, não é? Repita o que acabou de falar.



— O que ela falou é mesmo estranho — disse Wang. — O que ela quis dizer com exatamente duas vezes maior?

Wei piscou.



— Acho que é bastante sério. Quando cheguei, o policial de plantão me mandou imediatamente para cá. Parece que você já estava de olho em Shen e em mim.

Da Shi assentiu com a cabeça.



— Deixa eu fazer outra pergunta: você acha que a arma que sua mulher estava segurando era de verdade? — Ele percebeu que Wei não sabia responder. — Você sentiu cheiro de lubrificante?



— Sim, tinha mesmo um cheiro de óleo.



— Ótimo. — Da Shi, que estava sentado na escrivaninha, pulou para o chão. — Finalmente temos uma brecha. Suspeita de posse ilegal de armas já dá para justificar um mandado de busca e apreensão. Vou deixar a papelada para amanhã, porque temos que andar rápido. — Ele se virou para Wang. — Não tem descanso. Preciso que você venha junto e preste um pouco mais de consultoria. — E então se virou para Xu Bingbing, que havia permanecido calada o tempo inteiro. — Bingbing, agora estou só com dois homens de plantão, o que não é o suficiente. Sei que a Divisão de Segurança de Informações não costuma ir a campo, mas preciso que você venha também.



Xu assentiu, feliz de sair da sala cheia de fumaça.





Além de Da Shi e Xu, a equipe encarregada de executar a busca e apreensão era composta por Wang Miao, Wei Cheng e outros dois policiais da Divisão de Crimes. Os seis rasgaram a escuridão que precede a alvorada em duas viaturas, seguindo para o bairro de Wei, na periferia da cidade.



Xu e Wang estavam no banco traseiro. Assim que o carro deu partida, ela murmurou para



Wang:



— Professor Wang, sua reputação no Três Corpos é muito alta.



Alguém falou de Três Corpos no mundo real! Wang ficou empolgado e logo sentiu afinidade com a jovem policial.



— Você joga?



— Sou responsável por monitorar e rastrear o jogo. Uma tarefa desagradável.



— Pode me falar da história do jogo? — perguntou Wang, ansioso. — Quero muito saber. Com a luz fraca que entrava pela janela do carro, Wang viu Xu abrir um sorriso misterioso.

— A gente também quer saber. Mas todos os servidores ficam situados no exterior. Como o sistema e o firewall são muito seguros, fica difícil invadir. Não sabemos muito, mas temos certeza de que o foco não está no lucro. O software é de uma qualidade incomum, bem elevada, e a quantidade de informação contida nele é ainda mais incomum. Nem parece um jogo.

— Já apareceu algum… — Wang escolheu as palavras certas com cuidado. — ... indício sobrenatural?

A noite de Wang fora cheia de coincidências. Ele tinha sido chamado para discutir o problema dos três corpos com Wei Cheng imediatamente após solucionar o jogo Três Corpos. E agora Xu estava dizendo que ela monitorava o jogo. Algo não estava cheirando bem.

— Acho que não. Muitas pessoas no mundo inteiro participaram do desenvolvimento do jogo. O método de colaboração não parece diferente de outras práticas populares de código aberto, como a usada para fazer o sistema operacional Linux. Mas com certeza eles estão utilizando algumas ferramentas avançadas. Agora, quanto ao conteúdo do jogo, vai saber de onde tiraram… Parece mesmo um pouco… sobrenatural, como você disse. Porém, ainda acreditamos na famosa regra do capitão Shi: tudo isso deve ser obra de pessoas. Nossos esforços de rastreamento são eficazes, e teremos os resultados em pouco tempo.

A jovem não sabia mentir direito, e seu último comentário fez Wang perceber que ela estava omitindo grande parte da verdade.

— Essa “regra” é famosa, é? — Wang olhou para Da Shi, no banco do motorista.



Quando chegaram à casa de Shen, o sol ainda não tinha nascido. Era mais ou menos o mesmo horário em que Wang havia visto Shen jogar Três Corpos. Uma janela estava acesa no segundo andar, mas todas as outras estavam escuras.



Assim que saiu do carro, Wang ouviu barulhos que vinham do andar de cima. Parecia algo batendo na parede. Da Shi, que também havia acabado de sair do carro, ficou alerta na mesma hora. Ele chutou o portão do quintal e entrou correndo na casa, com uma agilidade surpreendente para seu tamanho, sendo seguido de perto pelos três colegas.



Wang e Wei também correram para dentro da casa. Eles subiram a escada, entraram no quarto com a luz acesa e pisaram em uma poça de sangue. Shen estava caída no meio do quarto, e ainda jorrava sangue dos dois ferimentos à bala em seu peito. Uma terceira bala tinha atravessado a sobrancelha esquerda, deixando o rosto dela todo ensanguentado. Não muito longe do corpo havia uma arma no meio de uma poça vermelha.



Quando Wang entrou, Da Shi e um dos outros policiais saíram às pressas e entraram no quarto escuro do outro lado do corredor. A janela estava aberta, e Wang ouviu o barulho de um carro dando partida do lado de fora. Um policial começou a telefonar para alguém. Xu Bingbing ficou um pouco afastada, observando ansiosa. Assim como Wang e Wei, ela provavelmente nunca havia visto uma cena como aquela.



Um momento depois, Da Shi voltou. Ele guardou a arma no coldre e disse para o policial com o telefone:



— Um Santana preto com um homem sozinho. Não consegui ver a placa. Diga para bloquearem todos os acessos ao anel rodoviário S50. Merda. Ele talvez até consiga escapar.

Da Shi olhou ao redor e viu os buracos de bala na parede. Deu uma conferida nos cartuchos caídos no chão e acrescentou:

— O homem deu cinco tiros e acertou três. Ela disparou duas vezes e errou as duas.



Ele então se abaixou para examinar o corpo com o outro policial. Xu ficou afastada, dando uma olhada de relance em Wei Cheng, que estava a seu lado. Da Shi também olhou para ele.

O rosto de Wei tinha um traço de choque e um traço de pesar, mas só um traço. A costumeira expressão neutra continuava estampada em seu semblante. Ele estava muito mais calmo que Wang.



— Você não parece estar muito abalado — disse Da Shi para Wei. — Eles provavelmente vieram aqui para matá-lo.

Wei abriu um sorriso pálido.



— O que é que eu vou fazer? Até hoje, ainda não sei nada sobre ela. Cansei de falar para ela levar uma vida simples. Estou pensando no conselho que o abade me deu naquela noite. Mas… ah.



Da Shi se levantou e estacou na frente de Wei. Ele pegou um cigarro e acendeu.



— Estou achando que você ainda não contou tudo o que sabe.



— Algumas coisas que eu tinha preguiça demais de falar.



— Então é melhor você se esforçar mais dessa vez!



— Hoje… não, ontem à tarde… ela discutiu com um homem na sala. Era aquele Pan Han, o ambientalista famoso. Os dois já haviam discutido outras vezes antes, em japonês, como se tivessem medo de que eu bisbilhotasse. Mas ontem não deram a mínima e discutiram em chinês. Escutei alguns trechos.



— Tente dizer o que exatamente você ouviu.



— Certo. Pan Han disse: “Embora pareça que estamos na mesma barca, na verdade somos





inimigos irreconciliáveis”. Shen disse: “Sim, você está tentando usar o poder de nosso Senhor contra a humanidade”. Pan disse: “Até que sua opinião faz algum sentido. Queremos que nosso Senhor venha a este mundo para punir aqueles que há muito merecem castigo. Só que você está trabalhando para impedir a vinda de nosso Senhor, e isso não podemos tolerar. Se você não parar por bem, obrigaremos você a parar por mal!”. Shen disse: “O comando estava cego ao permitir que você entrasse para a organização!”. Pan disse: “Falando nisso, você sabe se o comando está do lado dos adventistas ou dos redentistas? O comando quer que a humanidade seja eliminada ou salva?”. Essas palavras de Pan calaram Shen por um tempo, e depois os dois não discutiram mais tão alto. Não escutei mais nada.

— Como era a voz do homem que fez a ameaça para você no telefone?



— Você quer saber se a voz parecia ser de Pan Han? Não sei. Ele estava falando muito baixo, não sei mesmo dizer.

Chegaram diversas outras viaturas da polícia, com a sirene berrando. Um grupo de policiais com luvas brancas subiu com câmeras, e a casa se encheu de agitação. Da Shi disse para Wang voltar para casa e descansar um pouco.



Em vez disso, Wang entrou na sala com o minicomputador para falar com Wei.



— Você pode me descrever por alto seu algoritmo evolucionário do problema dos três corpos? Eu quero… apresentá-lo a algumas pessoas. Sei que meu pedido é repentino. Se não puder, não se preocupe.



Wei pegou um CD e entregou para Wang.



— Está tudo aí: o modelo inteiro e outros documentos. Por favor, publique em seu nome. Seria uma grande ajuda.

— Não, não! Como é que eu faria uma coisa dessas?



— Professor Wang, você me chamou a atenção desde a primeira vez que veio aqui. É um homem bom, um homem com noção de responsabilidade. É por isso que aconselho a ficar longe disso. O mundo está prestes a mudar. Todos deveriam procurar viver o resto da vida em paz. Seria melhor. Não se preocupe muito com outras questões. Não adianta nada mesmo.

— Você parece saber ainda mais do que contou.



— Eu passei todos os dias com ela. É impossível não desconfiar.



— Então por que não fala para a polícia?



— A polícia é inútil. Mesmo se Deus estivesse aqui, não adiantaria nada. Toda a raça humana chegou ao ponto em que ninguém está escutando nossas orações.

Wei estava perto de uma janela com vista para o leste. Do outro lado do vidro, para além da paisagem distante da cidade, o céu estava se iluminando com os primeiros raios da aurora. Por algum motivo, a luz levou Wang a se lembrar da estranha alvorada que ele via sempre que entrava em Três Corpos.



— Na verdade, não sou tão desapegado. Faz alguns dias que não consigo dormir à noite. Todo dia de manhã, quando vejo o sol nascer, tenho a sensação de estar vendo o pôr do sol. — Ele se virou para Wang e, depois de um longo silêncio, acrescentou: — E tudo porque Deus, ou o Senhor de quem ela falava, é incapaz de proteger até a Si mesmo.


* O movimento de três corpos, influenciado mutuamente pelas atrações gravitacionais de cada um, é um problema tradicional da mecânica clássica que surgiu como um questionamento natural no estudo da mecânica celeste. Muitos pensadores trabalharam nele desde o século XVI. Euler, Lagrange e pesquisadores mais recentes (com o auxílio de computadores) encontraram soluções para casos específicos do problema dos três corpos. Mais tarde, Karl F. Sundman provou a existência de uma solução geral para o problema dos três corpos na forma de uma série convergente infinita, mas essa série converge a um ritmo tão lento que é praticamente inútil. (N. A.)



** Poincaré demonstrou que o problema dos três corpos apresentava uma dependência sensível em condições iniciais, algo que hoje consideramos que seja característica de um comportamento caótico.







17. TRÊS CORPOS: NEWTON, VON NEUMANN, O PRIMEIRO IMPERADOR E SIZÍGIA TRISSOLAR









O começo da segunda fase de Três Corpos não era muito diferente do da primeira: a mesma alvorada fria estranha, a mesma pirâmide colossal. No entanto, dessa vez, a pirâmide tinha voltado a ser egípcia.



Wang ouviu o som agudo de metais se chocando. As batidas só ressaltavam o silêncio do amanhecer frio. Tentando descobrir a origem do barulho, ele avistou duas sombras tremeluzindo na base da pirâmide. Lampejos metálicos atravessavam as trevas em meio à luz fraca: uma luta de espadas.



Quando seus olhos se acostumaram à escuridão, Wang viu as figuras com mais nitidez. Considerando o formato da pirâmide, aquele lugar devia ser alguma versão do Oriente no Três Corpos, embora os dois espadachins fossem europeus vestidos com trajes dos séculos XVI e XVII. O mais baixo dos dois se abaixou para evitar um golpe de espada, e sua peruca grisalha caiu no chão. Depois de mais alguns golpes e contragolpes, outro homem saiu de um canto da pirâmide e correu na direção dos dois que estavam lutando. Ele tentou apartar a briga, mas as lâminas que cortavam o ar impediam qualquer tentativa de aproximação.

— Parem! — gritou ele. — Vocês não têm nada melhor para fazer, não? Não têm responsabilidade? Se a civilização não tem futuro, que diferença faz a suposta glória dessa disputa?



Os dois espadachins ignoraram aquelas palavras, concentrados no duelo. O mais alto deu um grito de dor, e sua espada caiu no chão com um barulho alto. Ele se virou e fugiu correndo, segurando o braço ferido. O outro o perseguiu por alguns passos e cuspiu na direção do derrotado.



— Covarde! — Ele se abaixou para pegar a peruca e, quando se levantou, viu Wang. Apontou na direção do homem que fugiu e disse: — Ele teve a pretensão de alegar que inventou o cálculo!

— O homem vestiu a peruca, levou a mão ao peito e fez uma reverência cortês para Wang. — Isaac Newton, a seu dispor.

— Então o homem que fugiu era Leibniz? — perguntou Wang.



— Exato. Um homem sem escrúpulos. Não dou muita importância a essa pretensão de fama. Inventar as três leis da dinâmica já me alçou quase à altura de Deus. Desde os movimentos planetários até a divisão das células, tudo segue as três grandes leis. Agora, com esse instrumento matemático poderoso que é o cálculo, será só questão de tempo até dominarmos o padrão dos movimentos dos três sóis.



— Não é tão simples — disse o homem que havia tentado apartar a luta. — Você já considerou o volume de cálculos necessários? Eu vi as equações diferenciais que você relacionou e acho que não é possível uma solução analítica, só uma numérica. No entanto, é preciso ter uma capacidade de cálculo tão grande que suponho que, mesmo se todos os matemáticos do mundo trabalhassem juntos sem parar, ainda assim não daria para terminar os cálculos antes do fim do mundo. É claro que, se não conseguirmos descobrir o padrão dos movimentos dos sóis, o fim do mundo pode não estar muito distante. — Ele também fez uma reverência para Wang, um gesto mais moderno. — Von Neumann.



— Você não nos fez atravessar milhares de quilômetros até o Oriente só para resolver o problema de como calcular essas equações? — perguntou Newton. Ele então se virou para Wang. — Norbert Wiener e aquele crápula que acabou de fugir também vieram conosco. Demos com alguns piratas perto de Madagascar. Wiener enfrentou os piratas sozinho para que pudéssemos escapar e morreu com bravura.



— Por que vocês precisaram vir ao Oriente para construir um computador? — perguntou Wang a Von Neumann.

Von Neumann e Newton trocaram um olhar confuso.



— Computador? Uma máquina de computação! Existe algo assim?



— Você não conhece os computadores? Então como você pensava concluir a quantidade imensa de cálculos?

Von Neumann arregalou os olhos e encarou Wang, como se a pergunta dele não fizesse o menor sentido.

— Com pessoas, é óbvio. O que mais além de pessoas seria capaz de realizar cálculos?



— Mas você acabou de dizer que nem todos os matemáticos do mundo seriam suficientes.



— Em vez de matemáticos, vamos usar trabalhadores comuns. Mas precisaremos de muitos, pelo menos trinta milhões. Vamos fazer as contas com táticas de ondas humanas.

— Trabalhadores comuns? Trinta milhões? — Wang estava impressionado. — Ora, se me lembro bem, nessa época noventa por cento da população era analfabeta. E você quer encontrar trinta milhões de pessoas que entendam de cálculo?



— Você já ouviu a piada do exército de Sichuan? — Von Neumann pegou um charuto grosso, mordeu fora uma das pontas e acendeu. — Alguns soldados estavam em treinamento e, como não tinham nenhuma instrução, não sabiam seguir nem a ordem simples do instrutor de marchar ESQUERDA-DIREITA-ESQUERDA. Então o instrutor bolou uma solução. Fez todos os soldados usarem um sapato de palha no pé esquerdo e um de pano no direito. Durante a marcha, ele gritava — Von Neumann começou a falar com o sotaque de Sichuan — PALHA-PANO-PALHA-PANO… É desse tipo de soldado que nós precisamos. Só que precisamos de trinta milhões.

Ao ouvir essa piada, Wang percebeu que o homem à sua frente era uma pessoa de verdade, não um programa, e com certeza quase absoluta ele era chinês.

— É difícil imaginar um exército tão grande — comentou Wang, balançando a cabeça.



— É por isso que viemos ver Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador. — Newton apontou para a pirâmide.



— Ele ainda está no governo? — Wang passou em revista a redondeza. Percebeu que os soldados de guarda na entrada da pirâmide estavam mesmo equipados com a armadura de couro simples e as alabardas chinesas características da dinastia Qin. Ele já não ficava surpreso com a mistura anacrônica de elementos históricos em Três Corpos.

— O mundo inteiro será dominado por ele, porque o imperador tem um exército de mais de trinta milhões se preparando para conquistar a Europa. Certo, vamos lá fazer uma visita. — Von Neumann olhou para Newton. — Solte a espada. — Newton obedeceu.

Os três entraram na pirâmide e, quando estavam prestes a sair do túnel para o Grande Salão, um guarda insistiu para que tirassem todas as roupas. Newton se opôs.

— Somos pensadores famosos. Ninguém de nossa estatura portaria armas escondidas! Enquanto os dois continuavam nesse impasse, uma voz masculina grave ressoou do Grande — Esse é o estrangeiro que descobriu as três leis do movimento? Que entre com seus companheiros!

Eles entraram no Grande Salão. O Primeiro Imperador estava andando de um lado para o outro, e seu manto e a famosa espada longa se arrastavam no chão atrás dele. Quando o imperador se virou para os três pensadores, Wang reparou que os olhos dele eram iguais aos do rei Zhou de Shang e do papa Gregório.



— Já sei qual é o motivo da visita. Vocês são europeus. Por que não vão atrás de César? O império dele é vasto. Sem dúvida ele é capaz de providenciar trinta milhões de homens para vocês.



— Mas, venerável imperador, o senhor sabe que tipo de exército ele possui? Sabe em que estado esse exército se encontra? Na magnífica cidade eterna de Roma, até mesmo o rio que atravessa a cidade está extremamente poluído. O senhor sabe qual é a causa?

— Produção militar industrial?



— Não, Grande Imperador, é o vômito dos romanos após as orgias de comilança e purgação. Os nobres que vão a essas orgias encontram espreguiçadeiras já prontas para eles embaixo das mesas. Depois de se empanturrarem a ponto de não conseguirem mais se mexer, os criados os levam para casa. O império inteiro se afundou em um atoleiro de extravagância e é incapaz de mudar. Ainda que César fosse capaz de organizar um exército de trinta milhões de pessoas, ele não teria nem a qualidade nem a força necessárias para realizar esse grande cálculo.

— Sei disso — falou Qin Shi Huang. — Mas César está abrindo os olhos e revigorando seu exército. A sabedoria dos ocidentais é assustadora. Vocês não são mais inteligentes que os homens do Oriente, mas conseguem enxergar o caminho certo. Por exemplo, Copérnico foi capaz de perceber que existem três sóis, e você foi capaz de criar as suas três leis. São realizações muito impressionantes. Aqui no Oriente, por enquanto, não somos capazes de chegar a esse nível. Eu não tenho capacidade de conquistar a Europa. Meus navios não são bons o bastante, e os pontos de reabastecimento não resistiriam por tempo suficiente para um avanço por terra.

— É por isso que seu império precisa continuar se desenvolvendo, Grande Imperador! — Von Neumann aproveitou a oportunidade. — Se o senhor for capaz de dominar o padrão dos movimentos dos sóis, poderá tirar o máximo proveito de cada Era Estável e também evitar os estragos acarretados pelas Eras Caóticas. Dessa forma, seu progresso será muito mais rápido que o da Europa. Confie em nós, somos acadêmicos. Contanto que possamos usar as três leis do movimento e o cálculo para prever com precisão os movimentos dos sóis, não importa quem conquistará o mundo.



— É claro que eu preciso prever os movimentos dos sóis. Mas, se vocês querem que eu reúna trinta milhões de homens, precisam pelo menos demonstrar como esses cálculos vão ser conduzidos.



— Vossa Majestade Imperial, por favor, ceda três soldados para mim. Eu demonstrarei. — Von Neumann ficou animado.

— Três? Só três? Posso ceder três mil sem problemas. — Qin Shi Huang lançou um olhar desconfiado para Von Neumann.

— Vossa Majestade Imperial, o senhor mencionou há pouco a insuficiência da mentalidade oriental em relação ao raciocínio científico. Isso ocorre porque o senhor não percebeu que até mesmo os objetos mais complicados do universo são compostos de elementos muito simples. Só preciso de três.



Qin Shi Huang fez um aceno, e três soldados se adiantaram. Eram todos muito jovens. Como outros soldados da dinastia Qin, eles se mexiam como máquinas obedientes.

— Não sei o nome de vocês — disse Von Neumann, dando um toque no ombro de dois dos soldados. — Vocês dois serão responsáveis pela entrada de sinais, então vou chamá-los de “Entrada 1” e “Entrada 2”. — Ele apontou para o último soldado. — Você será responsável pela saída de sinais, então vou chamá-lo de “Saída”. — Von Neumann ajeitou o posicionamento dos soldados do jeito que desejava. — Formem um triângulo. Assim. Saída é o topo. Entrada 1 e Entrada 2 formam a base.



— Você podia ter falado para eles assumirem a Formação em Cunha — disse Qin Shi Huang, olhando para Von Neumann com uma expressão de desdém.

Newton pegou seis bandeirolas: três brancas, três pretas. Von Neumann as entregou para os três soldados de modo que cada um tivesse uma bandeira preta e uma branca.

— Branco representa 0; preto representa 1. Ótimo. Agora, prestem atenção. Saída, você se vira e olha para Entrada 1 e Entrada 2. Se os dois levantarem bandeiras pretas, você levanta a bandeira preta também. Em qualquer outra circunstância, você levanta a branca.

— Acho que você devia usar alguma outra cor — disse Qin Shi Huang. — Branco significa rendição.

Entusiasmado, Von Neumann ignorou o imperador e gritou ordens para os três soldados:



— Começar operação! Entrada 1 e Entrada 2, podem levantar a bandeira que quiserem. Ótimo. Levantar! Ótimo. Levantar de novo! Levantar!

Entrada 1 e Entrada 2 levantaram a bandeira três vezes: na primeira, preto- -preto; na segunda, branco-preto; e na terceira, preto-branco. Saída reagiu corretamente em todas as vezes, erguendo a bandeira preta uma vez e a branca duas.



— Muito bem. Vossa Majestade Imperial, seus soldados são muito inteligentes.



— Até um idiota seria capaz disso. Diga, o que eles estão fazendo afinal? — Qin Shi Huang parecia confuso.



— Os três soldados formam um componente de computação. É um tipo porta E. Von Neumann parou por um instante para esperar o imperador digerir a informação.

— Não estou impressionado — disse Qin Shi Huang, impassível. — Continue. Von Neumann se virou para os soldados de novo.

— Vamos formar outro componente. Você, Saída: se você vir Entrada 1 ou Entrada 2 levantarem uma bandeira preta, você levanta a bandeira preta. São três situações válidas: preto-preto, branco-preto, preto-branco. Quando for branco-branco, você levanta a bandeira branca. Entendido? Muito bem, você é mesmo muito esperto. Você é o segredo para o bom funcionamento da porta. Trabalhe muito, e será recompensado pelo imperador! Vamos começar a operação. Levantar! Ótimo, levantar de novo! Levantar de novo! Perfeito. Vossa Majestade Imperial, esse componente se chama porta OU.

Em seguida, Von Neumann usou os três soldados para formar uma porta NÃO-E, uma porta NÃO-OU, uma porta OU-EXCLUSIVO, uma porta NÃO-OU-EXCLUSIVO e uma porta tristate. Por fim, com apenas dois soldados, simulou a porta mais simples, uma porta NÃO, ou um inversor: Saída sempre levantava a bandeira de cor contrária à da erguida por Entrada.

Von Neumann fez uma reverência para o imperador.



— Agora, Vossa Majestade Imperial, todos os componentes de porta foram demonstrados. Não são simples? Qualquer trio de soldados consegue dominar a prática após uma hora de treino.

— Eles não precisam aprender mais? — perguntou Qin Shi Huang.



— Não. Podemos formar dez milhões de portas como estas e, depois, organizar os componentes em um sistema. Esse sistema será capaz de executar os cálculos necessários e resolver as equações diferenciais para prever os movimentos dos sóis. Poderíamos chamar esse sistema de… hum…



— Computador — disse Wang.



— Ah, ótimo! — Von Neumann fez um gesto de positivo com o polegar para Wang. — Computador. É um nome ótimo. O sistema inteiro é uma grande máquina, a mais complexa da história mundial.



O tempo do jogo foi acelerado. Passaram-se três meses.



Qin Shi Huang, Newton, Von Neumann e Wang estavam na plataforma do topo da pirâmide. Essa plataforma era semelhante àquela em que Wang havia conhecido Mo Zi. Ela estava cheia de instrumentos astronômicos, e alguns eram projetos europeus recentes. Abaixo, no chão, havia uma falange magnífica de trinta milhões de soldados da dinastia Qin. A formação inteira estava inserida em um quadrado de seis quilômetros de cada lado. Quando o sol nasceu, a falange permaneceu imóvel, como um tapete gigantesco feito de trinta milhões de guerreiros de terracota. Porém, quando um bando de pássaros passou por cima da falange, as aves sentiram imediatamente o perigo de morte abaixo e se dispersaram em um caos ansioso.

Wang fez algumas contas de cabeça e percebeu que, mesmo se toda a população da Terra fosse organizada em uma falange como aquela, a formação inteira caberia no bairro Huangpu, de Shanghai. Embora poderosa, a falange também revelava a fragilidade da civilização.

— Vossa Majestade Imperial — disse Von Neumann —, seu exército é mesmo incomparável.





Em um tempo extremamente curto, concluímos esse treinamento tão complexo.



Qin Shi Huang segurava a empunhadura de sua espada longa.



— Embora o todo seja complexo, o que cada soldado precisa fazer é muito simples. Não é nada em comparação com o treinamento a que foram submetidos para aprender a romper a falange macedônica.



— E Deus nos abençoou com duas Eras Estáveis consecutivas para treiná-los e prepará-los — acrescentou Newton.

— Meu exército continua treinando mesmo durante uma Era Caótica. Eles completarão seus cálculos mesmo em uma Era Caótica. — Qin Shi Huang olhou para a falange cheio de orgulho.

— Então, Vossa Majestade Imperial, por favor, dê a grande ordem! — A voz de Von Neumann tremia de empolgação.

Qin Shi Huang assentiu. Um guarda correu até ele, pegou o cabo da espada do imperador e deu um passo para trás. A espada de bronze era tão longa que era impossível que fosse puxada da bainha pelo próprio imperador. O guarda se ajoelhou e entregou a espada ao imperador. Qin Shi Huang ergueu a espada para os céus e gritou:

— Formação de Computador!



Quatro caldeirões gigantes de bronze nos cantos da plataforma ganharam vida ao mesmo tempo, com chamas intensas. De pé ao lado da pirâmide, um grupo de soldados voltado para a falange entoou em coro:



— Formação de Computador!



No chão, as cores da falange começaram a mudar e se deslocar. Padrões de circuito complicados e detalhados apareceram e, aos poucos, se espalharam por toda a formação. Dez minutos depois, o exército havia criado uma placa-mãe de computador, com trinta e seis quilômetros quadrados.



Von Neumann apontou para a gigantesca placa de circuitos humana abaixo da pirâmide e começou a explicar:



— Vossa Majestade Imperial, chamamos esse computador de QIN I. Veja, ali no centro está a CPU, o componente central de processamento, formado por suas cinco melhores divisões. Tomando este diagrama por referência, é possível localizar os somadores, os registradores e a memória linear. A parte que parece muito regular e fica em volta dela é a memória. Quando construímos aquela parte, percebemos que não tínhamos uma quantidade suficiente de soldados. Mas, felizmente, o trabalho dos elementos que fazem parte desse componente é o mais simples, então treinamos cada soldado para segurar mais bandeiras coloridas. Cada homem agora pode realizar o trabalho que antes exigia vinte homens. Isso nos permitiu aumentar a capacidade da memória para atender aos requisitos básicos do sistema operacional QIN 1.0. Observe também o corredor aberto que atravessa a formação inteira e a cavalaria ligeira à espera de ordens nesse corredor: é o barramento do sistema, responsável por transmitir informações entre os componentes do sistema todo.

“A arquitetura do barramento é uma grande invenção. Novos componentes conectados, possíveis de serem formados por até dez divisões, podem ser acrescentados rapidamente ao barramento de operação principal. Assim, o hardware do QIN I pode ser expandido e aprimorado





com facilidade. Olhe ainda mais adiante… o senhor talvez precise usar o telescópio para isso. Ali está a memória externa, que chamamos de ‘disco rígido’ por sugestão de Copérnico. Ela é formada por três milhões de soldados mais instruídos que a média. Quando o senhor mandou sepultar vivos todos os acadêmicos após unificar a China, fez bem em ter poupado aqueles! Cada um tem uma caneta e um bloco, e eles são responsáveis por registrar os resultados dos cálculos. Claro, o principal trabalho deles é atuar como memória virtual e armazenar resultados intermediários dos cálculos. Eles são o gargalo da velocidade de computação. Por fim, a parte que está mais perto de nós é o monitor, que é capaz de nos mostrar em tempo real os parâmetros mais importantes da computação.”

Von Neumann e Newton trouxeram um rolo de pergaminho grande, do tamanho de uma pessoa, e o abriram diante de Qin Shi Huang. Quando chegaram ao fim do rolo, Wang ficou tenso ao se lembrar da lenda do assassino que escondeu uma adaga em um rolo de mapa que mostraria ao imperador. Mas a adaga imaginária não apareceu. Eles estavam diante de uma simples folha de papel cheia de símbolos do tamanho da cabeça de uma mosca. Os símbolos, tão aglomerados, eram uma visão tão fascinante quanto a formação de computador no chão abaixo.



— Vossa Majestade Imperial, este é o sistema operacional que desenvolvemos, o QIN 1.0. O software responsável pelos cálculos será executado nisto. Aquilo lá embaixo — Von Neumann apontou para a formação humana de computador — é o hardware. O que está neste papel é o software. O hardware está para o software como uma cítara guqin está para uma partitura.

Em seguida, ele e Newton abriram mais um rolo, tão grande quanto o primeiro.



— Vossa Majestade Imperial, este é o software que usa métodos numéricos para resolver aquelas equações diferenciais. Quando inserirmos os vetores de movimento dos três sóis em determinado momento obtido a partir de observações astronômicas, a operação do software nos dará uma previsão dos movimentos subsequentes dos sóis em qualquer momento do futuro. Nosso primeiro trabalho será calcular todas as posições dos sóis para os próximos dois anos. Os conjuntos de valores de saída terão intervalos de cento e vinte horas.

Qin Shi Huang confirmou com a cabeça.



— Ótimo. Comecem.



Von Neumann levantou as mãos e entoou com uma voz solene:



— Pelas ordens do grande imperador, liguem o computador! Autoteste do sistema!



Uma fileira de soldados na metade da lateral da pirâmide repetiu a ordem, com sinais de bandeirolas. Logo depois, a placa-mãe composta de trinta milhões de homens pareceu se transformar em um lago cheio de luzes cintilantes. Dezenas de milhões de bandeirolas minúsculas tremularam. Na formação de monitor, mais próxima da base da pirâmide, uma barra de progresso feita de várias bandeiras verdes avançou lentamente, indicando o percentual de conclusão do autoteste. Dez minutos depois, a barra de progresso chegou ao fim.



— Autoteste concluído! Começar sequência de inicialização! Carregar sistema operacional! Abaixo deles, a cavalaria ligeira no barramento principal que atravessava toda a extensão da

formação de computador começou a se mexer rapidamente. O barramento principal logo se transformou em um rio turbulento. Ao longo de seu curso, o rio abastecia diversos afluentes estreitos, infiltrando-se em todas as subformações modulares. Pouco tempo depois, a marola de





bandeiras pretas e brancas se intensificou até formar ondas velozes por toda a placa-mãe. A área central da CPU era a mais tumultuada, como pólvora pegando fogo.



No entanto, de repente, como se a pólvora tivesse se esgotado, os movimentos na CPU perderam ímpeto e acabaram cessando. A partir da CPU no centro, a estagnação se propagou em todas as direções, como um mar que estivesse congelando. Por fim, a placa-mãe inteira parou de se mexer, e só alguns componentes isolados piscavam sem vigor em loops infinitos. O centro da formação de monitor ficou vermelho.



— Sistema travado! — gritou um oficial de sinalização.



Em pouco tempo foi revelada a causa do defeito: houve um erro na operação de uma das portas do registro de status da CPU.



— Reiniciar sistema! — ordenou Von Neumann, confiante.



— Esperem! — Newton impediu o oficial de sinalização. Ele se virou com uma expressão maliciosa no rosto e disse para Qin Shi Huang: — Vossa Majestade Imperial, para um aprimoramento da estabilidade do sistema, é preciso adotar certas medidas de manutenção relativas a componentes defeituosos.



Qin Shi Huang empunhou a espada e disse:



— Substituam o componente defeituoso e decapitem todos os soldados que compunham essa porta. De agora em diante, todos os defeitos receberão o mesmo tratamento!

Von Neumann olhou para Newton cheio de desgosto. Eles observaram alguns cavaleiros correrem pela placa-mãe com espadas em punho. Depois do “conserto” do componente defeituoso, foi dada a ordem para reiniciar. Dessa vez a operação correu muito bem. Vinte minutos depois, a formação humana de computador arquitetada por Von Neumann em Três Corpos começou a operar plenamente com o sistema operacional QIN 1.0.

— Executar software de computação de órbita solar TRÊS CORPOS 1.0! — gritou Newton com todas as forças. — Começar o módulo-mestre de computação! Carregar o módulo de análise de elementos finitos! Carregar o módulo de método espectral! Inserir parâmetros de condição inicial… e começar cálculos!



A placa-mãe cintilava enquanto a formação de monitor exibia indicadores multicoloridos. A formação humana de computador começou a longa computação.

— Isso é muito interessante — disse Qin Shi Huang, apontando para o cenário espetacular. — Embora o comportamento de cada indivíduo seja muito simples, juntos eles são capazes de produzir um todo imenso e complexo! Os europeus criticam meu domínio tirânico e alegam que eu suprimo a criatividade. Mas, na realidade, uma legião de homens subjugados por uma disciplina rigorosa também pode produzir grande sabedoria quando unida.

— Grande Primeiro Imperador, isto é apenas a operação mecânica de uma máquina, não sabedoria. Cada um desses indivíduos inferiores não passa de um zero. O todo só ganha significado quando alguém como o senhor é acrescentado à frente, como o um. — O sorriso de Newton era cativante.



— Filosofia asquerosa! — disse Von Neumann, olhando para Newton. — Se os resultados finais computados de acordo com sua teoria e seu modelo matemático não baterem, você e eu seremos menos que zeros.





— É verdade. Se isso acontecer, vocês não serão nada! Qin Shi Huang deu as costas e saiu da plataforma.



O tempo passou depressa. A formação humana de computador operou durante um ano e quatro meses. Descontando o tempo gasto para ajustar a programação, o tempo efetivo de processamento foi de aproximadamente um ano e dois meses. Durante esse período, o processamento precisou ser interrompido duas vezes por conta de condições climáticas extremas em Eras Caóticas. Mas o computador armazenou os dados em cada desligamento e pôde retomar os cálculos depois das pausas. Quando Qin Shi Huang e os pensadores europeus voltaram a subir pela pirâmide, a primeira fase da computação já estava concluída. Os resultados descreviam com precisão as órbitas dos três sóis ao longo dos dois anos seguintes.



Fazia frio naquela manhã. As tochas que mantiveram a placa-mãe iluminada ao longo da noite tinham apagado. Após o último cálculo, QIN I entrou em modo de espera. As ondas turbulentas na placa-mãe se acalmaram e viraram marolas suaves.



Von Neumann e Newton apresentaram a Qin Shi Huang o pergaminho com os resultados da computação.



— Grande Primeiro Imperador — disse Newton —, os cálculos foram concluídos há três dias. Esperamos até este momento para apresentar os resultados porque eles demonstram que a noite longa está prestes a terminar. Logo veremos o primeiro amanhecer de uma longa Era Estável, que vai durar mais de um ano. Tendo em vista os parâmetros orbitais, o clima será extremamente ameno e confortável. Por favor, reviva seu império e dê a ordem para que todos sejam reidratados.



— Desde o início dessa computação, meu império nunca foi desidratado — disse Qin Shi Huang, com um tom desdenhoso. Ele pegou o pergaminho. — Dediquei todos os recursos do meu império para manter o funcionamento do computador, e nossos estoques de suprimentos se esgotaram. Em nome desse computador, muitas pessoas morreram de fome, frio e calor.

Qin apontou para o horizonte com o rolo de pergaminho. Sob a luz fraca do amanhecer, eles viram dezenas de linhas brancas irradiando nas extremidades da placa-mãe em todas as direções e desaparecendo com a distância. Eram as rotas de abastecimento de todos os cantos do império.

— Vossa Majestade Imperial, o senhor verá que os sacrifícios valeram a pena — disse Von Neumann. — Após dominar as órbitas dos sóis, o império se desenvolverá aos saltos e ficará muito mais poderoso do que antes.



— De acordo com os cálculos, o sol está prestes a nascer. Grande Primeiro Imperador, prepare-se para receber sua glória!

Como se fosse uma resposta às palavras de Newton, a beirada de um sol vermelho despontou no horizonte, banhando a pirâmide e a formação de computador com uma luz dourada. Uma onda de gritos de alegria emergiu da placa-mãe.



Um homem veio em disparada até eles. Estava correndo tanto que, ao se ajoelhar, teve dificuldade para recuperar o fôlego. Era o ministro de Astronomia do imperador.

— Meu senhor, os cálculos estavam errados. Estamos diante do desastre!



— Do que você está falando? — Sem nem sequer esperar o imperador falar, Newton deu um





chute no sujeito. — Não percebeu que o sol está nascendo no momento exato previsto por nossos cálculos precisos?



— Mas… — O ministro se endireitou um pouco e apontou para o sol com uma das mãos. — Quantos sóis vocês estão vendo?



Todos olharam para o sol nascente, em confusão.



— Ministro, o senhor recebeu uma boa instrução no Ocidente e obteve um doutorado na Universidade de Cambridge — disse Von Neumann. — No mínimo deve saber contar. É claro que só há um sol no céu. E a temperatura está muito agradável.



— Não. São três! — gritou o ministro, com o rosto coberto de lágrimas. — Os outros dois estão atrás!

Todos voltaram a olhar para o sol, ainda em confusão.



— O Observatório Imperial acaba de confirmar que estamos presenciando um fenômeno extremamente raro de sizígia trissolar. Os três sóis estão em uma linha reta, movendo-se ao redor de nosso planeta com a mesma velocidade angular! Por isso, nosso planeta e os três sóis estão formando uma linha reta, e nosso mundo é uma das extremidades!

— Você tem certeza de que essa observação não está equivocada? — Newton pegou o ministro de Astronomia pelo colarinho.

— Certeza absoluta. A observação foi conduzida pelos astrônomos ocidentais do Observatório Imperial, incluindo Kepler e Herschel. Eles estão usando o maior telescópio do mundo, importado da Europa.



Newton largou o ministro e se levantou. Wang viu que ele estava pálido, mas sua expressão era de pura alegria. Ele juntou as mãos na frente do corpo e disse para Qin Shi Huang:

— Ó, Grandioso, Venerável Imperador, este é o sinal mais propício de todos! Agora que os três sóis estão orbitando nosso planeta, seu império é o centro do universo. Essa é a recompensa de Deus pelos nossos esforços. Peço apenas permissão para conferir os cálculos mais uma vez. Vou provar!



Aproveitando que os outros continuavam atordoados, Newton escapou. Mais tarde, pessoas afirmariam que Sir Isaac havia roubado um cavalo e fugido para um destino desconhecido.

Depois de um momento de silêncio angustiante, Wang disse, de repente:



— Vossa Majestade Imperial, por favor, desembainhe sua espada.



— O que você quer? — perguntou Qin Shi Huang, espantado.



Ainda assim, ele fez um gesto para o soldado a seu lado, e o homem puxou a espada da bainha.



— Por favor, tente brandir a espada — disse Wang.



Qin Shi Huang ergueu e mexeu a espada. Seu rosto passou a estampar surpresa.



— Ora, por que está tão leve?



— O traje V do jogo não tem como simular a sensação de gravidade reduzida. Caso contrário, teríamos sentido que também estamos muito mais leves.

— Olhem! Lá embaixo! Olhem para os cavalos e para os homens! — gritou alguém.



Todos olharam para baixo e viram uma coluna de cavalaria se mexendo ao pé da pirâmide. Os cavalos pareciam flutuar, e cada um avançava por uma boa distância até os quatro cascos





voltarem ao chão. Todos viram também vários homens correndo. A cada passo, os homens saltavam mais de dez metros, antes de voltar lentamente ao chão. Em cima da pirâmide, um soldado tentou pular e chegou a três metros de altura com facilidade.



— O que está acontecendo? — Qin Shi Huang olhou para o soldado que estava descendo lentamente.

— Meu senhor, os três sóis estão acima de nosso planeta em uma linha reta, então existe uma soma de suas forças gravitacionais… — O ministro de Astronomia tentou explicar, mas percebeu que seus pés já haviam saído do chão e seu corpo estava na horizontal. Os outros também estavam flutuando no ar, arqueados em ângulos diversos. Como homens que tivessem caído dentro da água sem saber nadar, eles agitavam os braços de maneira atabalhoada, tentando se estabilizar, mas só batendo uns nos outros.

O chão abaixo deles passou a rachar como uma teia de aranha. As rachaduras aumentaram depressa e, em meio a estrondos imensos e um céu escurecido pela poeira, a pirâmide embaixo deles começou a se decompor. Atrás dos blocos gigantescos que flutuavam lentamente, Wang viu o Grande Salão se desfazer. O imenso caldeirão que havia cozinhado Fu Xi e a estaca de ferro à qual ele fora preso estavam no ar.

O sol subiu até o meio do céu. Tudo que estava flutuando — homens, blocos de pedra colossais, instrumentos astronômicos, caldeirões de bronze — começou a subir devagar e ganhou velocidade. Wang olhou para a formação humana de computador e viu um cenário aterrorizante: os trinta milhões de soldados que haviam composto a placa-mãe estavam se afastando do solo e subindo, como uma infinitude de formigas sendo sugadas por um aspirador de pó. O chão que deixavam para trás exibia com clareza as marcas dos circuitos da placa-mãe. As marcações complexas e intricadas, que só podiam ser vistas a partir de uma altitude elevada, se tornariam um sítio arqueológico que, em um futuro distante, confundiria a civilização seguinte de Três Corpos.



Wang olhou para cima. O céu estava escurecido por uma estranha camada irregular de nuvens, compostas de poeira, pedras, pessoas e outros detritos. O sol brilhava atrás delas. Ao longe, Wang avistou uma grande cordilheira transparente também subindo. As montanhas eram completamente translúcidas, brilhavam e mudavam de formato — eram formadas pelo oceano, que também estava sendo atraído para o espaço.



Tudo na superfície do mundo de Três Corpos se ergueu rumo ao sol.



Wang olhou ao redor e viu Von Neumann e Qin Shi Huang. À deriva, Von Neumann gritava para Qin Shi Huang, mas não se ouvia nada. Apareceu uma legenda pequena: Descobri! Elementos eletrônicos! Podemos usar elementos eletrônicos para construir circuitos de portas e combiná-los para montar computadores! Esses computadores serão muito mais rápidos e ocuparão muito menos espaço. Calculo que bastará um edifício pequeno… Vossa Majestade Imperial, está me ouvindo?



Qin Shi Huang brandiu a espada na direção de Von Neumann. O pensador chutou um bloco gigantesco de pedra que estava flutuando por perto e se esquivou do golpe. A espada longa acertou a pedra, provocando faíscas e se quebrando em dois pedaços. Logo em seguida, o bloco gigantesco de pedra colidiu com outro, com Qin Shi Huang no meio. Voaram fragmentos de pedra, carne e sangue para todos os lados, uma imagem pavorosa.



Só que Wang não ouviu o barulho das pedras. À sua volta, tudo era um silêncio absoluto. Como a atmosfera tinha desaparecido, já não havia mais som. À medida que os corpos flutuavam, o sangue ferveu no vácuo e os órgãos internos foram expelidos, até que todo mundo se transformou em bolhas estranhas cercadas por nuvens cristalinas compostas do líquido expelido. Além disso, pela falta de atmosfera, o céu ficou completamente escuro. Tudo que havia flutuado no mundo de Três Corpos refletia a luz solar e formava uma nuvem brilhante e estrelada no espaço. A nuvem se transformou em um vórtice gigante e voou para sua tumba: o sol.



Wang agora viu o sol mudar de forma. Percebeu que, na verdade, estava vendo os outros dois sóis aparecendo por trás do primeiro. Por essa perspectiva, os três sóis empilhados formavam um luminoso olho no universo.



Diante do fundo dos três sóis em sizígia, apareceu um texto:





A civilização número 184 foi destruída pela atração gravitacional acumulada de uma sizígia trissolar. Essa civilização havia avançado até a Revolução Científica e a Revolução Industrial.

Nessa civilização, Newton estabeleceu a mecânica clássica não relativística. Além disso, em virtude da invenção do cálculo e da arquitetura de computador de Von Neumann, foram estabelecidas as bases para a análise matemática quantitativa do movimento de três corpos.

Depois de muito tempo, a vida e a civilização vão recomeçar e voltarão a progredir no mundo imprevisível de Três Corpos.

Convidamos você a entrar novamente.



Assim que Wang saiu do jogo, um desconhecido ligou para ele. A voz no telefone pertencia a um homem muito carismático.



— Olá! Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer por você ter informado um número de contato verdadeiro. Sou um administrador de sistemas do jogo Três Corpos.

Wang ficou empolgado e ansioso.



— Por favor, informe idade, escolaridade, local de trabalho e cargo ocupado. Você não preencheu esses campos quando fez o cadastro.

— O que isso tem a ver com o jogo?



— Quando você chega a esta fase, precisa dar essas informações. Se não aceitar os termos de uso, Três Corpos ficará bloqueado em caráter permanente para você.

Wang respondeu às perguntas do administrador sem mentir.



— Muito bem, professor Wang. Você atende aos requisitos para continuar em Três Corpos.



— Obrigado. Posso fazer algumas perguntas?



— Não. Mas amanhã à noite haverá um encontro de jogadores de Três Corpos. Você está convidado a comparecer.

O administrador passou o endereço a Wang.







18. ENCONTRO



Os jogadores de Três Corpos se encontraram em uma cafeteria pequena e afastada. Wang sempre imaginara que eventos de videogame eram ocasiões animadas e cheias de gente, mas aquele encontro tinha a participação de apenas sete jogadores, contando com ele. Assim como Wang, os outros seis também não pareciam viciados em games. Só dois eram relativamente jovens. Outros três, incluindo uma mulher, eram de meia-idade. Havia também um senhor idoso, que parecia ter cerca de sessenta ou setenta anos.



Wang tinha imaginado que, assim que o grupo se reunisse, começaria uma discussão animada sobre Três Corpos, mas não foi o que aconteceu. O conteúdo complexo e estranho de Três Corpos havia causado um impacto psicológico nos jogadores. Todos, inclusive o próprio Wang, não conseguiam tocar no assunto e se limitaram a fazer breves apresentações pessoais. O senhor idoso pegou um cachimbo elegante, encheu de fumo e ficou circulando pela cafeteria, pitando e admirando os quadros nas paredes. Os demais ficaram sentados em silêncio, esperando o organizador do encontro aparecer. Eles tinham chegado cedo.

Na verdade, dos outros seis, Wang já conhecia dois. O idoso era um intelectual de renome que ganhara fama imbuindo a filosofia oriental de elementos da ciência moderna. A mulher de roupa estranha era uma escritora famosa, uma daquelas raras pessoas que escreviam com um estilo de vanguarda, mas também eram sucesso de público. Dava para começar a ler um livro dela a partir de qualquer página.



Dos dois homens de meia-idade, um era vice-presidente na maior empresa de desenvolvimento de softwares da China; estava usando roupas simples, um estilo casual, e ninguém na rua desconfiaria de sua posição. O outro era um executivo do alto escalão da Empresa Estatal de Energia. Dos dois rapazes, um era repórter em uma importante empresa da mídia e o outro fazia doutorado na área de ciências. Wang se deu conta de que, assim como ele, era provável que boa parcela de jogadores de Três Corpos fizesse parte da elite social.



O organizador não demorou muito para aparecer. O coração de Wang disparou assim que ele viu o sujeito: era Pan Han, o principal suspeito do assassinato de Shen Yufei. Wang pegou o celular quando ninguém estava olhando e começou a escrever uma mensagem de texto para Shi Qiang.



— Haha, todo mundo chegou cedo! — Pan cumprimentou os jogadores com tranquilidade, como se estivesse tudo bem. Em geral, quando saía na mídia, ele sempre parecia ter um aspecto desleixado, como se fosse um mendigo, mas naquele dia Pan estava muito bem vestido, com terno e sapato social. — Vocês são exatamente como eu imaginei. Três Corpos é voltado para pessoas da classe de vocês porque o público geral não é capaz de entender o significado e o espírito do jogo. Para se dar bem, é preciso ter conhecimento e um nível de compreensão que as pessoas comuns não têm.



Wang enviou a mensagem: Vi Pan Han. Cafeteria Yunhe em Xicheng.



— Todo mundo aqui é excelente no Três Corpos — continuou Pan. — Vocês têm as pontuações mais altas e se dedicam ao jogo. Acredito que Três Corpos já seja uma parte importante da vida de vocês.



— É uma das minhas razões de viver — disse o jovem doutorando.



— Eu vi sem querer no computador do meu neto — comentou o filósofo idoso, levantando a piteira do cachimbo. — O rapaz abandonou a partida depois de tentar um pouco, falando que era difícil demais. Mas eu achei interessante. É estranho, terrível, mas também belo. Existe muita informação oculta por trás de uma representação simples.

Alguns jogadores, Wang inclusive, concordaram com a descrição e assentiram com a cabeça. Wang recebeu a resposta de Da Shi: Também estamos vendo. Não esquente. Continue. Banque



o viciado na frente deles, mas não exagere para não dar pinta.



— Sim — concordou a escritora, gesticulando com a cabeça. — Eu gosto dos elementos literários de Três Corpos. As ascensões e quedas de 203 civilizações evocam as qualidades dos épicos em um novo formato.

Ela mencionou 203 civilizações, mas Wang só havia visto 184. Isso indicava que Três Corpos avançava de maneira independente para cada jogador, talvez com mundos diferentes.

— Estou um pouco cansado do mundo real — disse o jovem repórter. — Três Corpos já é minha segunda realidade.

— É mesmo? — perguntou Pan, interessado.



— Eu também — disse o vice-presidente da empresa de softwares. — Em comparação com Três Corpos, a realidade é muito banal e monótona.

— Que pena que é só um jogo — disse o executivo da estatal de energia.



— Que bom — disse Pan. Wang percebeu que os olhos dele estavam brilhando de empolgação.

— Eu queria fazer uma pergunta e acho que todo mundo está curioso para saber a resposta — disse Wang.

— Eu sei qual é. Mas pode perguntar.



— Três Corpos é só um jogo?



Os outros jogadores assentiram com a cabeça. Era evidente que eles também estavam com essa dúvida na cabeça.



Pan se levantou e disse, solene:



— O mundo de Três Corpos, ou Trissolaris, existe de verdade.



— Onde ele fica? — perguntaram vários jogadores ao mesmo tempo. Pan olhou para cada um deles e se sentou.

— Algumas perguntas eu posso responder. Outras, não. De qualquer maneira, se for o destino





de vocês permanecer com Trissolaris, todas as suas perguntas serão respondidas em algum momento.



— Então… o jogo realmente é uma representação fiel de Trissolaris? — perguntou o repórter.



— Em primeiro lugar, a capacidade dos trissolarianos de se desidratar ao longo dos muitos ciclos de civilização é real. Para se adaptar ao ambiente natural imprevisível e evitar condições climáticas extremas e inadequadas para a vida, eles podem expelir toda a água do corpo e se transformar em objetos secos e fibrosos.



— Como é a aparência dos trissolarianos?



— Não sei. Não sei mesmo. A cada ciclo de civilização, a aparência dos trissolarianos muda. No entanto, o jogo representa outra coisa que também existiu de verdade em Trissolaris: a formação de computador trissolariana.



— Engraçado! Achei que esse tinha sido o aspecto menos realista — disse o vice-presidente da empresa de softwares. — Cheguei a fazer um teste com mais de cem funcionários na minha empresa. Mesmo se a ideia funcionasse, um computador feito de gente provavelmente seria mais devagar do que a computação manual.



Pan deu um sorriso misterioso.



— Tem razão. Mas imagine que, dos trinta milhões de soldados que formavam o computador, cada um fosse capaz de erguer e baixar as bandeiras pretas e brancas cem vezes por segundo. Imagine também que os soldados da cavalaria ligeira no barramento principal conseguissem correr a uma velocidade várias vezes maior que a do som, ou até mais rápido. Aí, o resultado seria muito diferente.



“Você perguntou agora há pouco sobre a aparência dos trissolarianos. De acordo com alguns indícios, o corpo dos trissolarianos que formavam o computador era coberto por uma superfície completamente reflexiva, provável traço evolutivo para permitir a sobrevivência em condições extremas de iluminação solar. A superfície espelhada podia assumir qualquer formato, e os indivíduos se comunicavam entre si direcionando luz com o próprio corpo. Esse tipo de fala por luz permitia a transmissão de informações a uma velocidade extremamente rápida e foi a base da formação de computador trissolariana. Claro, ainda era uma máquina muito ineficiente, mas podia realizar cálculos semidifíceis de ser feitos manualmente. De fato, em Trissolaris o computador apareceu primeiro como formação de pessoas, antes de ser mecânico e, por fim, eletrônico.”



Pan se levantou e ficou andando por trás dos jogadores.



— Como jogo, Três Corpos só aproveita a história da sociedade humana para simular o desenvolvimento de Trissolaris. Isso acontece para proporcionar aos jogadores um ambiente mais familiar. O mundo real de Trissolaris é muito diferente do mundo do jogo, mas os três sóis existem de verdade e são a base do ambiente trissolariano.

— O desenvolvimento do jogo deve ter consumido uma quantidade imensa de esforço — disse o vice-presidente. — Mas, claramente, o objetivo não é gerar lucro.

— O objetivo de Três Corpos é muito simples e puro: reunir pessoas como nós, que têm ideais em comum — disse Pan.





— Quais são exatamente os ideais que temos em comum? — Na mesma hora, Wang se arrependeu de perguntar, com medo de ter parecido hostil.

Pan examinou todos com um olhar significativo e, por fim, disse em voz baixa:



— O que vocês achariam se a civilização trissolariana entrasse em nosso mundo?



— Eu ficaria feliz. — O jovem repórter foi o primeiro a romper o silêncio. — Perdi minha fé na humanidade depois do que tenho visto nos últimos anos. A sociedade humana é incapaz de melhorar por conta própria, e precisamos da intervenção de uma força externa.

— Concordo! — gritou a escritora, muito empolgada, como se enfim tivesse encontrado uma forma de extravasar sentimentos reprimidos. — A raça humana é um horror. Passei metade da vida examinando essa feiura com o bisturi da literatura, mas agora estou até cansada do trabalho de dissecação. Desejo que a civilização trissolariana traga beleza verdadeira para este mundo.

O filósofo idoso gesticulou com o cachimbo, que tinha se apagado.



— Vamos discutir a questão um pouco mais a fundo — disse, com um tom sério. — Qual é a impressão que você tem dos astecas?

— Sombrios e sanguinários — disse a escritora. — Pirâmides encharcadas de sangue e iluminadas por fogueiras insidiosas no meio de florestas escuras. Essa é a minha impressão.

O filósofo assentiu com a cabeça.



— Muito bem. Então tente imaginar: se os conquistadores espanhóis não tivessem interferido, qual teria sido a influência dessa civilização na história da humanidade?

— Você está invertendo as coisas — interrompeu o vice-presidente da empresa de softwares.



— Os conquistadores que invadiram as Américas não passavam de assassinos e saqueadores.



— Ainda assim, pelo menos eles evitaram que os astecas se desenvolvessem sem limite e transformassem as Américas em um grande império de sangue e sombras. Aí a civilização que conhecemos não teria aparecido no continente, e a democracia teria demorado muito mais para florescer. Na verdade, talvez ela nem tivesse existido. O cerne da questão é: seja lá o que os trissolarianos forem, sua chegada será uma boa notícia para a doença fatal da raça humana.

— Mas você já refletiu que os astecas foram completamente destruídos pelos invasores ocidentais? — perguntou o executivo da estatal de energia, olhando para os outros jogadores como se estivesse vendo aquelas pessoas pela primeira vez. — Seus pensamentos são muito perigosos.



— Você quis dizer profundos! — respondeu o doutorando, de dedo em riste. Ele balançou a cabeça, cumprimentando o filósofo. — Pensei a mesma coisa, mas não sabia como expressar. Você falou muito bem!



Depois de um instante de silêncio, Pan se virou para Wang.



— Os outros seis já manifestaram suas opiniões. E você?



— Concordo com eles — disse Wang, apontando para o repórter e o filósofo. Sua resposta foi simples. Quanto menos eu falar, melhor.

— Muito bem — disse Pan, que se voltou para o vice-presidente da empresa de softwares e para o executivo da estatal de energia. — A presença de vocês dois não é mais aceita no encontro. Vocês não são jogadores adequados para Três Corpos. Seus logins serão deletados. Por favor, se retirem agora. Obrigado.





Os dois se levantaram e trocaram um olhar. Em seguida, olharam para os lados, confusos, e saíram.



Pan estendeu a mão para os cinco que ficaram e cumprimentou cada um. Por fim, disse, solene:



— Somos camaradas agora.







19. TRÊS CORPOS: EINSTEIN, O MONUMENTO DO PÊNDULO E O GRANDE RASGO





Na quinta vez em que Wang Miao entrou em Três Corpos, era manhã como sempre, mas o mundo parecia irreconhecível.



A grande pirâmide das primeiras quatro vezes fora destruída na sizígia trissolar. No lugar dela havia um edifício alto e moderno, e Wang se lembrou da fachada cinza-escura: a sede da Organização das Nações Unidas.



Ao longe, havia muitos outros edifícios daquele tamanho, aparentemente desidratórios. Todos apresentavam superfícies completamente espelhadas. À luz do amanhecer, pareciam plantas de cristal gigantes brotando da terra.



Wang ouviu um violino tocando alguma melodia de Mozart. O músico não parecia muito habilidoso, mas passava um encanto especial, como se dissesse: Eu toco só para mim. O violinista era um mendigo idoso sentado na escada em frente à sede da ONU, e seu cabelo branco bagunçado esvoaçava no vento. Havia um chapéu velho com alguns trocados a seus pés.

De repente, Wang reparou no sol. Mas ele estava nascendo no lado contrário da luz da alvorada, e o céu ao redor continuava imerso em escuridão total.



O sol era muito grande, e o disco parcialmente visível ocupava um terço do horizonte. Wang sentiu o coração bater mais acelerado: um sol daquele tamanho só podia ser o prenúncio de mais uma grande catástrofe. Porém, quando Wang se virou, o mendigo continuava tocando como se não houvesse nada de estranho. Seu cabelo branco reluzia ao sol, como se estivesse em chamas.

O sol era branco, como o cabelo do velho, e lançava uma luz fraca, mas Wang não sentia calor algum. Ele olhou para o astro, que já estava alto no céu. No gigantesco disco branco, ele enxergou linhas que pareciam veios de madeira: cordilheiras.



Wang percebeu que o disco não emitia luz, apenas refletia a luz do sol de verdade, que estava abaixo do horizonte, no outro lado do céu. O que havia nascido não era nenhum sol, e sim uma lua gigante, que subia depressa pelo céu a uma velocidade perceptível a olho nu. No processo, ela passou gradualmente da fase cheia para a minguante.



A melodia tranquilizante do violino do mendigo se espalhava pela brisa fria da manhã, e a imagem majestosa do universo parecia a materialização da música. Wang se sentia inebriado.

A gigantesca lua minguante começou a se pôr sob a luz da alvorada e ficou muito mais luminosa. Quando restavam apenas duas pontas brilhantes acima do horizonte, Wang imaginou que fossem os chifres de algum touro titânico que investia contra o sol.



— Honrado Copérnico, descanse seus pés cansados aqui um pouco — disse o velho, depois que a lua gigante se pôs. — Aí, quando você tiver desfrutado um pouco de Mozart, talvez eu possa comer alguma coisa.



— Se não me engano… — Wang olhou para o rosto todo enrugado. As rugas eram grandes e faziam curvas suaves, como se tentassem criar alguma forma de harmonia.

— Não se engana. Eu sou Einstein, um homem miserável cheio de fé em Deus, mas que Ele abandonou.

— O que é aquela lua gigante? Nunca vi aquilo nas outras vezes que joguei.



— Ela já esfriou.



— O quê?



— A grande lua. Quando eu era pequeno, ela ainda estava quente e, sempre que subia até o meio do céu, dava para ver o brilho vermelho na planície central. Só que agora já esfriou… Você não ouviu falar do grande rasgo?



— Não. O que é isso?



— Melhor não falar a respeito. Vamos esquecer o passado. O meu passado, o passado da civilização, o passado do universo… dói muito lembrar tudo isso.

— Como é que você ficou assim?



Wang enfiou a mão no bolso até achar alguns trocados, se inclinou e colocou as moedas no chapéu.



— Obrigado, sr. Copérnico. Espero que Deus não o abandone, mas não tenho muita fé nisso. Acho que o modelo que você, Newton e os demais criaram no Oriente com a ajuda da formação humana de computador chegou muito perto de acertar. Mas o errinho que sobrou foi um abismo intransponível para Newton e os outros.



“Eu sempre acreditei que, se não tivesse descoberto a relatividade restrita, outras pessoas acabariam descobrindo. Mas a relatividade geral é diferente. Newton não considerou o efeito que a curvatura gravitacional do espaço-tempo exercia na órbita planetária conforme a relatividade geral. Embora o erro causado por isso fosse pequeno, o impacto nos resultados da computação foi fatal. Acrescentar às equações clássicas o fator de correção para a perturbação da curvatura do espaço-tempo resultaria no modelo matemático certo. O volume de poder de computação necessário excede em muito o que vocês realizaram no Oriente, mas pode ser proporcionado com facilidade por computadores modernos.”

— Os resultados da computação foram confirmados por observação astronômica?



— Se tivessem sido, você acha que eu estaria aqui? Mas, pela perspectiva da estética, eu devo estar certo e o universo deve estar errado. Deus me abandonou, então outros também me abandonaram. Ninguém quer saber de mim. Princeton me demitiu do corpo docente. A Unesco não me aceitou nem como consultor científico. Antes, eu não teria ido nem se eles tivessem implorado de joelhos. Eu até pensei em ir para Israel ser presidente, mas eles mudaram de ideia e disseram que eu era uma fraude…

Einstein começou a tocar de novo, retomando a música do mesmo ponto em que tinha parado.





Depois de passar um tempo escutando, Wang caminhou até o prédio da ONU.



— Não tem ninguém ali dentro — disse Einstein, sem parar de tocar. — Todo mundo da sessão da Assembleia Geral está atrás do prédio, na Cerimônia de Iniciação do Pêndulo.

Wang contornou o prédio e se viu diante de algo de tirar o fôlego: um pêndulo colossal, que parecia se estender entre o céu e a terra. Na verdade, Wang já havia visto aquilo se insinuando por trás do prédio, mas não sabia o que estava olhando.



O pêndulo lembrava aqueles construídos por Fu Xi para hipnotizar o deus sol durante o Período dos Reinos Combatentes, na primeira vez em que Wang entrou em Três Corpos. No entanto, o pêndulo que estava ali fora completamente modernizado. Os dois pilares de sustentação eram de metal e mais altos que a torre Eiffel. O peso também era de metal, aerodinâmico, com uma superfície lisa, espelhada e galvanizada. O fio do pêndulo, feito de algum material ultraforte, era tão fino que parecia quase invisível, e o peso parecia flutuar no espaço entre as duas torres.



Debaixo do pêndulo havia muitas pessoas de terno, provavelmente os líderes dos diversos países que marcavam presença nessa sessão da Assembleia Geral. Eles estavam distribuídos em grupos pequenos e conversavam entre si em voz baixa, como se esperassem algo.

— Ah, Copérnico, o homem que atravessou cinco eras! — gritou alguém. Os outros o cumprimentaram.

— Você é um dos que viu os pêndulos do Período dos Reinos Combatentes com seus próprios olhos! — Um homem simpático segurou e apertou a mão de Wang. Alguém o apresentou como o secretário-geral da ONU, da África.



— Sim, eu vi — disse Wang. — Mas por que estamos construindo outro agora?



— É um monumento para Trissolaris e também uma lápide. — O secretário-geral olhou para o pêndulo. Visto dali de baixo, ele parecia grande como um submarino.

— Uma lápide? Para quem?



— Para uma aspiração, um anseio que durou quase duzentas civilizações: o esforço para resolver o problema dos três corpos, para descobrir o padrão dos movimentos solares.

— O esforço acabou?



— Sim. A partir de agora, acabou de vez.



Wang hesitou um pouco antes de pegar um maço de papéis, o modelo matemático de três corpos de Wei Cheng.



— Eu… eu vim aqui por causa disto. Trouxe um modelo matemático que resolve o problema dos três corpos. Tenho motivos para acreditar que ele deve funcionar.

Assim que Wang disse isso, as pessoas ao redor perderam o interesse. Elas voltaram a seus grupinhos e continuaram conversando. Wang percebeu que alguns até balançaram a cabeça e deram risada ao virar as costas para ele. O secretário-geral pegou o documento e, sem nem olhar para os papéis, entregou a um homem magro de óculos do lado dele.

— Em respeito à sua grande reputação, pedirei para meu consultor científico dar uma olhada. Na verdade, todos aqui demonstraram respeito por você. Se qualquer outra pessoa tivesse dito o que você acabou de falar, eles estariam rindo.



O consultor científico folheou o documento.

— Algoritmo evolucionário? Copérnico, você é um gênio. Qualquer pessoa capaz de pensar um algoritmo assim é um gênio. Isso exige não apenas um domínio superior da matemática, mas também imaginação.



— Você parece sugerir que alguém já criou um modelo matemático parecido.



— Sim. Existem dezenas de modelos matemáticos como este. Mais da metade é mais avançado que o seu. Todos foram implementados e executados em computadores. Ao longo dos últimos dois séculos, esse volume imenso de computação foi a principal atividade deste mundo. Todo mundo esperava os resultados como se estivesse aguardando o Dia do Juízo Final.

— E?



— Provamos definitivamente que o problema dos três corpos não tem solução.



Wang olhou para o pêndulo gigantesco acima de sua cabeça. Na luz da manhã, ele parecia brilhar. A superfície espelhada retorcida refletia tudo como se fosse o olho do mundo. Naquele lugar, em uma era distante, separada do aqui e do agora por muitas civilizações, ele e o rei Wen atravessaram uma floresta de pêndulos gigantes a caminho do palácio do rei Zhou. De uma hora para a outra, a história havia completado um grande círculo e voltado ao ponto de partida.

— É exatamente como havíamos imaginado muito tempo atrás — disse o consultor científico.



— O sistema de três corpos é um sistema caótico. Perturbações ínfimas podem ser amplificadas eternamente. Na prática, os padrões de movimento não podem ser previstos pela matemática.

Wang sentiu que todo o seu conhecimento científico e seu método de raciocínio se tornaram um borrão em um instante. Tudo foi substituído por uma confusão que nunca havia experimentado.



— Se até mesmo uma disposição extremamente simples como o sistema de três corpos é um caos imprevisível, que esperança temos de descobrir as leis do complicado universo?

— Deus é um velho sem vergonha que fica fazendo apostas. Ele nos abandonou! — O dono daquela voz era Einstein, que brandia o violino. Wang não sabia quando ele havia chegado.

O secretário-geral fez um gesto lento com a cabeça.

— Sim, Deus gosta de apostar. A única esperança da civilização trissolariana é fazer o mesmo. A essa altura, a lua gigante estava se erguendo de novo no lado escuro do horizonte. A imensa

e prateada imagem aparecia refletida na superfície do peso do pêndulo. A luz estremecia de um jeito curioso, como se o peso e a lua tivessem desenvolvido uma sintonia misteriosa.

— Esta civilização parece ter se desenvolvido até um estado muito avançado — disse Wang.

— Sim. Conquistamos a energia do átomo e chegamos à Era da Informação. — O secretário-geral não parecia muito satisfeito com as próprias palavras.

— Então existe esperança: ainda que seja impossível prever o padrão dos movimentos solares, a civilização pode continuar se desenvolvendo até atingir um nível em que seja capaz de se proteger e de escapar sã e salva das catástrofes devastadoras das Eras Caóticas.

— Antigamente as pessoas pensavam como você. Essa crença era uma das forças que impulsionava a civilização trissolariana a insistir incessantemente. Mas a lua nos fez perceber como essa ideia é ingênua. — O secretário-geral apontou para a lua gigante que subia no céu. — Você provavelmente está vendo a lua pela primeira vez. Na verdade, como ela tem cerca de um quarto do tamanho de nosso planeta, não é mais uma lua, e sim a companheira de nosso mundo em um sistema de planetas duplos. Ela foi o resultado do grande rasgo.

— Grande rasgo?

— O desastre que dizimou a última civilização. Em comparação com as civilizações anteriores, eles tiveram bastante tempo para prever o desastre. Com base em documentos preservados, os astrônomos da civilização 191 detectaram uma estrela voadora paralisada muito antes.

Wang sentiu um aperto no coração ao ouvir a última frase. Uma estrela voadora paralisada era um presságio terrível para Trissolaris. Quando uma estrela voadora, ou um sol distante, parece ficar completamente imóvel no fundo estrelado, significa que os vetores de movimento do sol e do planeta estão alinhados. O fenômeno admite três possíveis interpretações: o sol e o planeta estão se movendo na mesma direção com a mesma velocidade; o sol e o planeta estão se afastando um do outro; e o sol e o planeta estão se aproximando. Antes da civilização 191, essa última possibilidade era apenas teórica, um desastre que nunca havia acontecido. Porém, o medo e a desconfiança do povo não perderam força, a tal ponto que “estrela voadora paralisada” se tornou uma expressão que significava azar extremo em muitas civilizações trissolarianas. Uma única estrela voadora que ficasse imóvel já bastava para deixar todo mundo apavorado.

— E aí as três estrelas voadoras pararam ao mesmo tempo. As pessoas da civilização 191 ficaram olhando, impotentes, as três estrelas voadoras paralisadas, os três sóis que caíam bem em direção ao mundo. Alguns dias depois, um dos sóis se deslocou para uma distância que permitiu que sua camada gasosa externa ficasse visível. No meio de uma noite tranquila, a estrela de repente se transformou em um sol ardente. A intervalos de mais ou menos trinta horas, os outros dois sóis também apareceram em uma sequência rápida. Não era um dia trissolar normal. Quando a última estrela voadora se transformou em um sol, o primeiro sol já havia passado pelo planeta a uma distância extremamente curta. Logo depois, os outros dois sóis passaram por Trissolaris a distâncias ainda mais curtas, bem dentro do limite de Roche* do planeta, de tal forma que as forças de maré impostas a Trissolaris pelos três sóis excederam a força autogravitacional do planeta. O primeiro sol abalou a estrutura geológica mais profunda do planeta; o segundo abriu uma grande fenda que chegou até o núcleo; e o terceiro rasgou o planeta em dois.

O secretário-geral apontou para a lua gigante no céu.

— Aquele é o pedaço menor. Ainda existem ruínas da civilização 191 lá, mas é um mundo sem vida. Foi o desastre mais terrível de toda a história de Trissolaris. Depois que o planeta foi destroçado, os dois pedaços irregulares voltaram a ter uma forma esférica graças à autogravitação. O denso material abrasador do núcleo do planeta jorrou na superfície, e os oceanos ferveram na lava. Os continentes boiaram no magma como icebergs. Quando eles se colidiam, a rocha ficava macia como os mares. Cordilheiras gigantescas de dezenas de milhares de metros de altura se erguiam e desapareciam de uma hora para outra.

“Por um tempo, os dois pedaços destroçados permaneceram ligados por tiras de lava derretida que se aglutinaram em um rio espacial. A lava por fim resfriou e formou anéis em torno dos planetas, mas, devido às perturbações dos planetas, os anéis eram instáveis. As rochas que compunham esses anéis caíram de volta na superfície em uma chuva de pedregulhos gigantes que durou séculos… Dá para imaginar o inferno que era? A destruição ecológica causada por essa catástrofe foi a mais severa de todos os tempos. Toda a vida no segundo planeta se extinguiu, e por pouco o planeta-mãe não virou um deserto sem vida também. Apesar disso, no final, as sementes da vida conseguiram germinar aqui, e quando a geologia do planeta-mãe se estabilizou, a evolução começou seus passos hesitantes em oceanos novos e em continentes novos, até que a civilização surgisse pela 192ª vez. O processo inteiro levou noventa milhões de anos.



“A situação de Trissolaris no universo é ainda mais catastrófica do que havíamos imaginado. O que vai acontecer na próxima vez em que aparecerem estrelas voadoras paralisadas? É muito provável que nosso planeta não passe apenas de raspão no sol, e sim que mergulhe no mar de fogo do próprio astro. Com o tempo, essa possibilidade vai se transformar em certeza.

“A princípio, isso era só uma especulação trágica, mas uma descoberta astronômica recente fez com que perdêssemos todas as esperanças no destino de Trissolaris. Os pesquisadores estavam tentando restabelecer a história da formação das estrelas e dos planetas com base em sinais neste sistema estelar. Mas acabaram descobrindo que, em um passado remoto, o sistema estelar trissolariano tinha doze planetas. E agora só restou este.

“Só existe uma explicação: os outros onze planetas foram todos consumidos pelos três sóis! Nosso mundo é apenas o último sobrevivente de uma Grande Caçada. O fato de que a civilização tenha reencarnado cento e noventa e duas vezes não passou de sorte. Além disso, após mais análises, descobrimos o fenômeno de ‘respiração’ das três estrelas.”

— As estrelas respiram?

— É só uma metáfora. Você descobriu a camada gasosa externa dos sóis, mas não sabia que essa camada gasosa se expande e se contrai em um ciclo extremamente longo, como se fosse uma respiração. Quando a camada gasosa se expande, pode ficar dezenas de vezes mais espessa, o que aumenta em muito o diâmetro do sol, como se fosse uma luva gigantesca que consegue pegar planetas com mais facilidade. Quando um planeta passa perto de um sol, ele entra nessa camada gasosa. Com a fricção, perde velocidade, e no fim, como se fosse um meteoro, cai no mar flamejante do sol, lançando uma grande cauda de chamas.

“Os resultados do estudo demonstram que, na longa história do sistema estelar trissolariano, sempre que as camadas gasosas dos sóis se expandiam, um ou dois planetas eram consumidos. Todos os outros onze planetas caíram em um mar de fogo quando as camadas gasosas estavam com o tamanho máximo. Por enquanto, as camadas gasosas dos três sóis estão em um estágio contraído; caso contrário, nosso planeta já teria caído em um deles na última vez em que os três passaram perto de nós. Mas os astrônomos preveem que a próxima expansão vai acontecer daqui a mil anos.”

— Não podemos mais continuar neste lugar horrível — disse Einstein, agachado no chão como se fosse um mendigo velho.

O secretário-geral assentiu com a cabeça.



— Não podemos mais ficar aqui. A única opção que resta à civilização trissolariana é fazer uma aposta com o universo.

— Como? — perguntou Wang.





— Precisamos sair do sistema estelar trissolariano e voar para o grande mar aberto de estrelas. Precisamos migrar para um mundo novo na galáxia.

Wang ouviu um rangido. Ele viu que o peso gigante do pêndulo estava sendo erguido por um cabo fino, preso pela outra extremidade a um guincho elevado. Enquanto o peso subia até a altura máxima, uma lua minguante imensa descia lentamente no céu atrás dele.

O secretário-geral anunciou, solene:



— Começar o pêndulo.



O guincho soltou o cabo preso ao pêndulo, e o peso desceu silenciosamente por um arco amplo. A princípio, desceu devagar, mas acelerou até alcançar a velocidade máxima na base do arco. Conforme ele cortava o ar, o vento ecoava um som grave e retumbante. Quando o barulho parou, o pêndulo já havia seguido o arco até o ponto mais alto do outro lado e, após um instante, começado a descer de novo.



Wang sentiu a grande força gerada pelo movimento do pêndulo, como se o chão fosse sacudido pelos arcos. Ao contrário de um pêndulo no mundo real, o período daquele pêndulo gigante não era estável: ele variava constantemente, em decorrência das diversas mudanças de atração gravitacional da lua gigante. Quando a lua estava de um lado do planeta, sua gravidade anulava parcialmente a do planeta, fazendo com que o pêndulo ficasse menos pesado. Quando estava do outro lado do mundo, a gravidade dela se somava à do planeta, aumentando o peso do pêndulo, quase até o mesmo nível que ele teria antes do grande rasgo.

Enquanto observava o balanço espantoso do Monumento do Pêndulo trissolariano, Wang se perguntou: Será que ele representa o desejo de se ter ordem ou a rendição ao caos? Ele também pensou no pêndulo como um gigantesco punho metálico, agitando-se eternamente contra o universo insensível, berrando em silêncio o grito de guerra indomável da civilização trissolariana…



Quando as lágrimas turvaram seus olhos, Wang viu uma linha de texto aparecer na frente do pêndulo oscilante:





Quatrocentos e cinquenta e um anos depois, a civilização número 192 foi destruída pelas chamas de dois sóis que apareceram simultaneamente. Essa civilização havia avançado até a Era Atômica e a Era da Informação.

A civilização número 192 foi um marco da civilização trissolariana. Ela enfim provou que o problema dos três corpos não tinha solução, desistiu do esforço inútil que havia se estendido cento e noventa e um ciclos e determinou o caminho das civilizações futuras. Desse modo, o objetivo de Três Corpos mudou.

O novo objetivo é: rumar para as estrelas e encontrar um novo lar.



Convidamos você a entrar novamente.



Após sair de Três Corpos, Wang se sentia exausto, assim como em todas as sessões anteriores.



No entanto, dessa vez, ele só descansou por meia hora e se conectou de novo.



Agora, diante de um fundo completamente preto, apareceu uma linha de texto inesperada:





URGENTE. Os servidores de Três Corpos estão prestes a ser desativados. Por favor, conecte-se à vontade no tempo que resta. Três Corpos passará diretamente à última cena.



* O astrônomo francês Édouard Roche foi o primeiro a calcular a distância teórica mínima para que um corpo celestial fosse destroçado pelas forças de maré de outro corpo maior. O limite de Roche costuma ser explicado como a razão entre a densidade dos corpos e o raio equatorial do corpo maior. (N. A.)







20. TRÊS CORPOS: EXPEDIÇÃO




A manhã fria revelou uma paisagem vazia. Não havia pirâmide, nem sede das Nações Unidas, nem sinal do Monumento do Pêndulo. Apenas um deserto escuro se estendia até o horizonte, semelhante ao cenário que Wang vira na primeira vez em que entrou no jogo.

Mas ele logo percebeu que estava enganado. O que imaginou que fossem diversas pedras espalhadas pelo deserto eram, na verdade, cabeças humanas. O chão estava abarrotado de uma multidão imensa.



Visto do morro baixo de onde Wang estava, o mar de gente parecia não ter fim. Ele estimou que em seu campo de visão havia centenas de milhões de pessoas. Provavelmente todos os trissolarianos do planeta estavam reunidos ali.



O silêncio de centenas de milhões de pessoas produzia uma sensação sufocante de estranhamento. O que eles estão esperando? Wang observou a multidão e reparou que todos estavam olhando para o céu.



Wang levantou o rosto e percebeu que o céu estrelado apresentava algo impressionante: as estrelas estavam alinhadas em forma de quadrado! No entanto, logo ele se deu conta de que essas estrelas estavam em órbita síncrona com o planeta, movendo-se juntas diante do fundo menos luminoso e mais distante da Via Láctea.



As estrelas que estavam mais perto da direção do amanhecer também eram as mais brilhantes e emitiam uma luz prateada que lançava sombras no chão. As mais afastadas brilhavam menos. Wang contou mais de trinta estrelas ao longo de cada aresta do quadrado, o que significava um total de mais de mil estrelas. O movimento vagaroso da formação evidentemente artificial diante do universo estrelado deixava transparecer um poder solene.

Um homem ao lado de Wang o cutucou de leve e falou com um tom de voz baixo:



— Ah, grande Copérnico, por que você chegou tão tarde? Já se passaram três ciclos de civilizações, e você perdeu muitas façanhas.

— O que é aquilo? — perguntou Wang, apontando para a formação no céu.



— A Frota Interestelar Trissolariana. Ela está prestes a começar a expedição.



— A civilização trissolariana já tem capacidade de realizar viagens interestelares?



— Sim. Todas aquelas esplêndidas naves podem alcançar um décimo da velocidade da luz.



— Isso é uma grande conquista, sem dúvida, mas ainda parece lento demais para uma viagem interestelar.

— Uma jornada de mil quilômetros começa com o primeiro passo. O segredo é encontrar o alvo certo.





— Qual é o destino da frota?



— Uma estrela com planetas a cerca de quatro anos-luz daqui, a estrela mais próxima do sistema trissolariano.

Wang ficou surpreso.



— A estrela mais próxima de nós também fica a cerca de quatro anos-luz de distância.



— De vocês?



— Da Terra.



— Ah, isso não é muito surpreendente. Na maioria das regiões da Via Láctea, a distribuição de estrelas é relativamente regular. Isso se deve à ação dos aglomerados de estrelas pela influência da gravidade. A distância entre a maioria das estrelas é de três a seis anos-luz.

Um grito de alegria irrompeu na multidão. Wang olhou para cima e viu que o brilho de todas as estrelas que formavam o quadrado estava aumentando rapidamente, resultado da luz emitida pelas próprias naves. A iluminação conjunta delas logo superou a alvorada, e mil estrelas se tornaram mil sóis pequenos. Um dia glorioso cobriu Trissolaris, e a multidão levantou as mãos e formou um oceano infinito de braços erguidos.

A Frota Interestelar Trissolariana começou a acelerar, atravessando solenemente o domo celeste, passando pela ponta recém-surgida da lua gigante, lançando uma luz azulada fraca nas montanhas e planícies lunares.



O grito de alegria arrefeceu. O povo de Trissolaris observou em silêncio enquanto a esperança deles desaparecia lentamente no céu do poente. Embora eles não fossem viver para descobrir o resultado da expedição, dali a quatrocentos ou quinhentos anos, seus descendentes receberiam a notícia de um novo mundo, o começo de uma vida nova para a civilização trissolariana. Wang permaneceu ao lado deles, observando em silêncio, até a falange de mil estrelas se reduzir a uma única estrela, e até essa estrela desaparecer no céu noturno ocidental. Depois, apareceu o seguinte texto:





A Expedição Trissolariana para o novo mundo começou. A frota segue viagem…



Três Corpos terminou. Quando você voltar ao mundo real, se continuar fiel à promessa feita, por favor compareça ao encontro da Organização Terra-Trissolaris. Você receberá o endereço por e-mail.








PARTE III - O ocaso da humanidade




21. REBELDES DA TERRA






Dessa vez apareceu muito mais gente do que no último encontro de jogadores. O evento foi realizado no refeitório de uma antiga fábrica de produtos químicos. A fábrica já havia sido transferida, e o interior do edifício, prestes a ser demolido, estava meio acabado, embora fosse espaçoso. Havia cerca de trezentas pessoas ali, e Wang Miao viu muitos rostos conhecidos: celebridades e pessoas influentes de áreas diversas, cientistas famosos, escritores, políticos, entre outros.



A primeira coisa que chamou a atenção de Wang foi o estranho dispositivo no meio do refeitório. Três esferas prateadas, cada uma ligeiramente menor que uma bola de boliche, pairavam e giravam acima de uma base de metal. Wang imaginou que o dispositivo devia funcionar à base de levitação magnética. A órbita das três esferas era completamente aleatória: uma versão do problema dos três corpos na vida real.



As outras pessoas não deram muita atenção à representação artística do problema dos três corpos. Estavam de olho em Pan Han, que tinha ficado de pé em cima de uma mesa quebrada no meio do refeitório.



— Ei, Pan, você matou mesmo a camarada Shen Yufei? — perguntou um homem.



— Matei — respondeu Pan, com perfeita indiferença. — Pessoas como ela, traidores da causa adventista, são responsáveis pela atual crise da organização.

— E desde quando você tinha o direito de matar?



— Só matei porque era meu dever defender a organização.



— Seu dever? Para com isso, você sempre teve um coração carregado de maldade.



— O que você quer dizer com isso?



— O que você fez quando dirigiu a Seção Ambiental? Você foi encarregado de criar problemas ambientais, ou explorar os já existentes, para fazer a população detestar a ciência e a indústria moderna. Mas a verdade é que só usou a tecnologia e as previsões do nosso Senhor para fazer fortuna e fama!



— Você acha mesmo que fiquei famoso por interesse pessoal? Para mim, a humanidade inteira não passa de lixo. Estou me lixando para o que as pessoas pensam. Agora, sem fama, como vou conseguir direcionar e canalizar o pensamento delas?

— Você sempre escolhe os trabalhos mais fáceis. Ambientalistas inexpressivos poderiam ter feito o mesmo que você, talvez até melhor, porque são mais sinceros e dedicados. Com um pouco de orientação, seria fácil tirar proveito das ações desses ativistas. Sua Seção Ambiental deveria ter criado e explorado desastres ambientais: contaminar reservatórios, provocar o





vazamento de resíduos tóxicos, coisas assim… Por acaso vocês fizeram algo parecido? Não, nem uma vez sequer!



— Elaboramos muitos planos e incontáveis armações, mas o comando vetou tudo. Bom, mas esses atos teriam sido uma idiotice, pelo menos até agora. A Seção de Biologia e Medicina chegou a tentar criar uma catástrofe através do uso excessivo de antibióticos, porém a coisa foi descoberta cedo. E as ações imprudentes do Destacamento Europeu quase colocaram os holofotes sobre nós.



— Olha quem está falando… você acabou de matar uma pessoa!



— Escutem, camaradas! Mais cedo ou mais tarde isso acabaria acontecendo, era inevitável. Vocês provavelmente já sabem que todos os governos estão se preparando para a guerra. Na Europa e na América do Norte, a organização já está sendo atacada. Quando os ataques começarem por aqui, com certeza aqueles que acreditam na redenção vão ficar do lado do governo. Então nossa prioridade é eliminar os redentistas da organização.

— Você não tem autoridade para decidir isso.



— É claro que a palavra final é do comando. Só que já vou avisando, camaradas: a comandante é adventista!

— Agora você está inventando coisas. Todo mundo sabe que a comandante tem muito poder. Se ela fosse mesmo adventista, os redentistas já teriam sido eliminados há muito tempo.

— De repente ela sabe de algo que nós não sabemos. Talvez seja esse o motivo do encontro. Depois disso, a atenção das pessoas se desviou de Pan Han. Um cientista famoso, que tinha

recebido o prêmio Turing, subiu na mesa e começou a falar.



— A hora de discutir já passou. Camaradas, qual deve ser o nosso próximo passo?



— Começar uma rebelião global!



— Isso é pedir para morrer.



— Vida longa ao espírito de Trissolaris! Vamos perseverar como a vegetação implacável que volta a brotar depois de cada incêndio na floresta.

— Uma rebelião vai enfim revelar nossa existência para o mundo. Com um plano de ação adequado, com certeza podemos receber o apoio de muita gente.

Esse último comentário partiu de Pan Han e foi aplaudido por muitas pessoas.



— A comandante chegou! — gritou alguém.



A multidão abriu caminho.



Wang olhou na mesma direção que os demais e perdeu o chão. O mundo pareceu ficar preto e branco, e a única cor vinha da pessoa que acabara de aparecer.



Cercada por um grupo de guarda-costas jovens, Ye Wenjie, comandante-chefe dos rebeldes da Organização Terra-Trissolaris, caminhava a passos firmes pela multidão.



Ye parou no meio do espaço que haviam aberto para ela, levantou um punho magro e, com uma determinação e uma força que Wang tinha dificuldade de acreditar, disse:



— Eliminar a tirania humana!



A multidão reagiu de um jeito claramente ensaiado inúmeras vezes antes:



— O mundo pertence a Trissolaris!



— Olá, camaradas — disse Ye. A voz dela retomou a delicadeza que Wang conhecia. Só





nesse momento ele teve certeza de que era mesmo Ye. — Como não tenho me sentido muito bem ultimamente, não pude passar muito tempo com vocês. Mas agora a situação é urgente, e sei que todos estão enfrentando muita pressão, por isso vim.



— Comandante, cuide da sua saúde — disse uma voz na multidão. Wang percebeu que a preocupação era sincera.

— Antes de avançarmos para assuntos mais importantes — disse Ye —, vamos resolver um pequeno detalhe. Pan Han… — Ye não tirou os olhos da multidão ao pronunciar o nome dele.

— Aqui, comandante. — Pan apareceu no meio das pessoas. Ele tinha tentado dar um perdido, sem sucesso. Parecia calmo, mas era óbvio que estava horrorizado: a comandante não o chamara de camarada, o que não era um bom sinal.



— Você cometeu uma violação grave das regras da organização. — Ye não olhou para Pan ao falar. Sua voz continuava gentil, como se ela estivesse lidando com uma criança malcriada.

— Comandante, a organização está em crise, lutamos pela sobrevivência! Chegou a hora de a gente adotar medidas drásticas e eliminar os traidores e inimigos em nossas fileiras. Caso contrário, vamos perder tudo!



Ye olhou para Pan com uma expressão de piedade. Mas ele segurou a respiração por alguns segundos.

— O ideal da OTT é perder tudo. Tudo que hoje pertence à raça humana, incluindo nossas próprias vidas. Esse é o objetivo definitivo.

— Então a senhora deve ser adventista! Comandante, por favor, declare abertamente suas filiações, isso é muito importante. Não tenho razão, camaradas? Muito importante! — gritou ele, sacudindo um braço e olhando para os lados. Mas a multidão permaneceu calada.

— Não cabe a você fazer esse pedido. Você violou gravemente nosso código de conduta. Se quiser fazer um apelo, agora é a hora. Caso contrário, deverá arcar com as consequências. — Ye falou devagar, articulando cada palavra, como se por receio de que a criança que estava sendo educada tivesse dificuldade para entender.



— A minha intenção era acabar com Wei Cheng, aquele geniozinho da matemática. A decisão foi tomada pelo camarada Evans e ratificada de maneira unânime pelo comitê. Se ele acabar conseguindo criar um modelo matemático que forneça uma solução completa para o problema dos três corpos, nosso Senhor não virá, e a grande investida de Trissolaris na Terra irá por água abaixo. Só atirei em Shen Yufei porque ela atirou em mim primeiro. Eu agi em legítima defesa.

Ye assentiu com a cabeça.



— Vamos acreditar nisso. Afinal, essa não é a questão mais importante. Espero que possamos continuar confiando em você. Agora, por favor, repita o pedido que você fez há pouco.

Pan ficou atordoado por um instante. Não parecia ter relaxado com o fato de que Ye havia mudado de assunto.

— Eu… pedi para a senhora declarar abertamente que é adventista. Afinal, o plano de ação dos adventistas é o mesmo que o seu.

— E qual seria esse plano de ação?



— A sociedade humana já não é capaz de resolver seus problemas nem de frear sua insanidade por conta própria. Por isso, pedimos para nosso Senhor vir a este mundo e, com seu poder, olhar





por nós e nos transformar à força para criar uma civilização humana nova e perfeita.



— Os adventistas acreditam fielmente nesse plano?



— Claro! Comandante, por favor, não acredite nos falsos boatos.



— Não é um boato falso! — gritou um homem, indo até a frente. — Meu nome é Rafael e sou israelense. Três anos atrás, meu filho de catorze anos morreu em um acidente. Eu doei o rim dele para uma menina palestina que sofria de falência renal, em um gesto de esperança de que os dois povos pudessem conviver em paz. Eu estava disposto a dar a minha vida por esse ideal. Muitos, muitos israelenses e palestinos também se dedicavam com sinceridade a esse objetivo. Mas foi tudo em vão. Continuamos presos em um atoleiro de ciclos de vingança.

“Com o tempo, perdi minha fé na humanidade e entrei para a OTT. O desespero me fez deixar de ser pacifista e me transformar em extremista. Além disso, provavelmente porque eu doei muito dinheiro para a organização, passei a fazer parte do núcleo dos adventistas. E posso afirmar: os adventistas têm interesses secretos.



“A linha de raciocínio é a seguinte: a humanidade é má, a civilização humana cometeu crimes imperdoáveis contra a Terra e precisa ser castigada. O objetivo definitivo dos adventistas é pedir que nosso Senhor execute este castigo divino: a destruição de toda a humanidade.”

— O verdadeiro projeto dos adventistas já não é mais segredo para ninguém — gritou alguém.



— Pode até não ser, mas o que vocês não sabem é que esse projeto não foi adotado aos poucos. Essa meta foi estabelecida desde o começo: é o grande sonho de Mike Evans, o idealizador dos adventistas. Ele mentiu para a organização e enganou todo mundo, inclusive a comandante! Evans vem perseguindo esse objetivo desde o início. Ele transformou os adventistas em um reino de terror povoado por ambientalistas extremistas e loucos que odeiam a humanidade.



— Só muito mais tarde fiquei sabendo das verdadeiras intenções de Evans — disse Ye. — Ainda assim, tentei resolver as diferenças para permitir que a OTT permanecesse unida. Só que atos cometidos recentemente pelos adventistas inviabilizaram esse esforço.

— Comandante — disse Pan —, os adventistas são o núcleo da OTT. Sem nós, não existe nenhuma organização Terra-Trissolaris.

— Mas isso não é desculpa para monopolizar todas as comunicações entre nosso Senhor e a organização.

— Como nós construímos a Segunda Base Costa Vermelha, é claro que deveríamos operá-la.



— Os adventistas se aproveitaram disso para cometer uma traição imperdoável contra a organização: vocês interceptaram as mensagens do nosso Senhor, mas repassaram apenas uma pequena parte para nós, e ainda por cima com o conteúdo distorcido. Sem falar que, com a Segunda Base Costa Vermelha, vocês enviaram uma grande quantidade de informações ao nosso Senhor sem a aprovação da organização.



O silêncio se abateu sobre os presentes como se fosse uma figura monstruosa. Wang começou a sentir um arrepio na nuca.

Pan não respondeu. Ele assumiu uma expressão fria, como se dissesse: Finalmente, chegou a hora!

— Existem muitas provas da traição dos adventistas. A camarada Shen Yufei era uma das





testemunhas. Embora ela fizesse parte do núcleo dos adventistas, no fundo continuava acreditando na redenção. Vocês só descobriram isso agora, quando ela já sabia demais. Evans enviou você para aquela casa para matar duas pessoas, não uma.



Pan olhou para os lados e pareceu reavaliar sua situação. O gesto não passou despercebido por Ye.



— Como pode ver, a maioria dos camaradas deste encontro pertence à facção dos redentistas, e acredito que os poucos adventistas que vieram ficarão do lado da organização. De qualquer maneira, homens como Evans e você já não têm salvação. Para proteger o programa e os ideais da OTT, devemos resolver de uma vez por todas o problema dos adventistas.

O silêncio voltou a reinar. Alguns instantes depois, um dos guarda-costas, uma mulher jovem, sorriu. Ela saiu de perto de Ye e começou a andar casualmente na direção de Pan.

A expressão no rosto de Pan mudou. Ele enfiou a mão no paletó, mas a jovem foi mais rápida. Antes de qualquer reação, ela passou um dos braços magros em volta do pescoço de Pan, colocou a outra mão em cima da cabeça dele e, com habilidade, aplicando uma força inesperada no ângulo certo, fez a cabeça de Pan girar cento e oitenta graus. O som das vértebras cervicais se quebrando ecoou em meio ao silêncio completo.

As mãos da jovem se soltaram um segundo depois, como se a cabeça de Pan estivesse quente demais. Pan desabou no chão, e a arma que havia matado Shen Yufei caiu debaixo da mesa. O corpo do adventista continuou tendo espasmos, os olhos permaneceram abertos e a língua ficou para fora, mas a cabeça não se mexia mais, como se nunca tivesse feito parte do resto do corpo. Alguns homens apareceram para levá-lo embora, e o sangue que escorria de sua boca deixou um rastro no chão.



— Ah, Xiao Wang, você também veio. Como tem passado? — Ye voltou o olhar para Wang Miao. Ela deu um sorriso gentil e fez um gesto afirmativo com a cabeça. Depois, virou-se para os demais presentes. — Esse é o professor Wang, membro da Academia Chinesa de Ciências e meu amigo. Ele realiza pesquisa com nanomateriais, a primeira tecnologia que nosso Senhor deseja que seja eliminada da Terra.



Ninguém olhou para Wang, e ele não teve forças para falar. Para não cair, se segurou na manga da camisa da pessoa que estava ao lado, mas o homem afastou a mão com um gesto leve.

— Xiao Wang, que tal eu contar o resto da história da Costa Vermelha que comecei no outro dia? Todos os camaradas presentes podem ouvir também. Não é perda de tempo. Este momento extraordinário é uma ótima oportunidade para reviver a história de nossa organização.

— Costa Vermelha… você não tinha me contado tudo? — perguntou Wang, com ingenuidade.

Ye se aproximou devagar do modelo dos três corpos, aparentemente concentrada no movimento das esferas prateadas. A luz do poente entrava pelas janelas quebradas até as esferas flutuantes do modelo, que se refletia no corpo da comandante rebelde de maneira intermitente, como fagulhas de uma fogueira.



— Não. Era só o começo — respondeu Ye, em voz baixa.







22. COSTA VERMELHA V



Desde que entrou na Base Costa Vermelha, Ye Wenjie nunca pensou em sair. Quando descobriu o verdadeiro objetivo do Projeto Costa Vermelha, uma informação ultrassecreta que muitos quadros de nível intermediário da base desconheciam, ela rompeu sua ligação espiritual com o mundo exterior e se entregou de corpo e alma ao trabalho. A partir de então, tornou-se ainda mais importante para o núcleo técnico da Costa Vermelha e começou a assumir temas de pesquisa mais importantes.



O comissário Lei nunca esqueceu que o chefe Yang fora o primeiro a confiar em Ye, mas não se incomodava de passar temas importantes para ela. Em virtude do status de Ye, ela não tinha direito aos resultados de sua pesquisa. Lei, que havia estudado astrofísica, era um oficial político e um intelectual ao mesmo tempo, algo raro naquela época. Por isso, ele podia receber o crédito por todos os resultados de pesquisa e artigos de Ye e se apresentar como um oficial político exemplar, com saber técnico e fervor revolucionário.

A princípio, o Projeto Costa Vermelha tinha convidado Ye por causa de um artigo dela publicado durante a pós-graduação no Journal of Astrophysics. O trabalho postulava um modelo matemático do sol: em comparação com a Terra, o astro era um sistema físico muito mais simples, composto quase que todo de hidrogênio e hélio. Embora os processos físicos fossem violentos, tinham complexidade relativamente baixa, limitando-se à fusão do hidrogênio para formar o hélio. Logo, era provável que um modelo matemático pudesse descrever o sol com bastante precisão. O artigo era elementar, mas Lei e Yang viram no estudo uma esperança de resolver uma dificuldade técnica que ocorria no sistema de monitoramento da Costa Vermelha.



Interferências solares, um problema comum para as comunicações via satélite, sempre afetaram as operações de monitoramento da Costa Vermelha.



Quando a Terra, um satélite artificial e o sol ficam alinhados, o sol aparece atrás do satélite pela perspectiva da antena situada no solo. O sol é uma fonte gigantesca de radiação eletromagnética e, por consequência, as transmissões entre o satélite e o solo sofrem interferência da radiação solar. Continua sendo impossível resolver definitivamente esse problema, mesmo no século XXI.



A interferência que a Costa Vermelha enfrentava era semelhante, mas a fonte de interferência (o sol) estava entre a fonte da transmissão (o espaço sideral) e o receptor no solo. Em comparação com os satélites de comunicação, as interferências solares sofridas pela Costa Vermelha eram mais frequentes e severas. Além disso, como as estruturas da Base Costa Vermelha eram muito mais modestas do que na planta do projeto original, os sistemas de





transmissão e de monitoramento usavam a mesma antena. Por isso, os momentos disponíveis para as atividades de monitoramento eram ainda mais preciosos, e a interferência solar, um problema ainda mais sério.



Lei e Yang tinham uma ideia muito simples para eliminar a interferência: determinar o espectro de frequências e as características da radiação solar na faixa monitorada e compensar isso digitalmente. Os dois tinham formação técnica, rara e fortuita coincidência para a época, na medida em que era comum que ignorantes liderassem os instruídos. Porém Yang não era especialista em astrofísica, e Lei tinha seguido uma carreira de oficial político, o que o impedira de aprofundar seu conhecimento técnico. Na verdade, a radiação eletromagnética do sol apenas é estável no segmento limitado entre o quase ultravioleta e as frequências intermediárias da faixa infravermelha (incluindo a luz visível). Nas demais faixas, a radiação é muito volátil e imprevisível.



Para não criar expectativas exageradas, já em seu primeiro relatório de pesquisa, Ye deixou claro que era impossível eliminar a interferência durante períodos de atividade solar intensa — manchas ou explosões solares, ejeções de massa coronal etc. Desse modo, o objeto de pesquisa deveria ser restrito à radiação dentro das faixas de frequência monitoradas pela Costa Vermelha em períodos de atividade solar normal.



As condições de pesquisa na base não eram ruins. A biblioteca podia obter material sobre o assunto em outras línguas, incluindo os mais recentes periódicos acadêmicos da Europa e dos Estados Unidos. Naqueles anos, isso não era fácil. Ye também podia usar a linha telefônica militar para entrar em contato com os dois grupos que estudavam o sol na Academia Chinesa de Ciências e obter os resultados das observações deles por fax.



Depois de meio ano de estudos, Ye já não tinha nenhum fio de esperança. Ela logo descobriu que a radiação solar flutuava imprevisivelmente na faixa de frequências monitoradas pela Costa Vermelha. Quando analisou uma grande quantidade de dados observados, se deparou com um mistério curioso. Às vezes, durante uma das flutuações súbitas de radiação solar, a superfície do sol ficava calma. Como toda radiação de ondas curtas e de micro-ondas com origem no núcleo do Solera absorvida por centenas de milhares de quilômetros de matéria solar, a radiação devia ter saído de atividades na superfície, de modo que deveria haver atividades observáveis quando essas flutuações aconteciam. Se não havia nenhuma perturbação condizente na superfície, o que causava essas mudanças repentinas nas bandas estreitas? Quanto mais ela pensava, mais misteriosa a questão parecia.

Com o tempo, Ye acabou ficando sem hipóteses e decidiu desistir. No último relatório, ela admitiu que não conseguia resolver a questão. Em princípio, isso não seria nenhum problema: as Forças Armadas pediram que vários grupos em universidades e na Academia Chinesa de Ciências pesquisassem a mesma questão, e nenhum teve sucesso. Só que Yang queria tentar mais uma vez, contando com o talento extraordinário de Ye.



Os interesses de Lei eram ainda mais simples: ele só queria o artigo de Ye. O tópico da pesquisa era muito teórico e seria uma demonstração da capacidade e do conhecimento dele. Como o caos da sociedade chinesa enfim tinha começado a amainar, as exigências impostas aos quadros também estavam mudando, e havia uma necessidade urgente de homens como ele,





politicamente maduros e bem-sucedidos academicamente. Era óbvio que seu futuro seria brilhante. Quanto ao problema das interferências solares, ele não se importava muito.

No entanto, no fim das contas, Ye não entregou o relatório. Ela achava que, se o projeto de pesquisa fosse encerrado, a biblioteca da base não receberia mais periódicos estrangeiros nem outros materiais de pesquisa. Como nesse caso Ye perderia acesso a uma fonte abundante de referências em astrofísica, ela fingiu continuar a pesquisa mas, na verdade, passou a tentar refinar seu modelo matemático do sol.



Certa noite, como de costume, Ye estava sozinha na fria sala de leitura da biblioteca da base. Na mesa comprida à sua frente havia uma infinidade de documentos e periódicos abertos. Após completar uma série de cálculos matriciais tediosos e trabalhosos, ela assoprou as mãos para se aquecer e pegou a edição mais recente do Journal of Astrophysics, para arejar um pouco. Enquanto folheava as páginas, um texto curto sobre Júpiter chamou sua atenção:



Na edição anterior, em “Uma fonte nova e potente de radiação dentro do sistema solar”, o dr. Harry Peterson do Observatório de Monte Wilson publicou um conjunto de dados obtidos por acaso, enquanto ele observava a precessão de Júpiter em 12 de junho e em 2 de julho e detectou radiação eletromagnética intensa, com duração de 81 segundos e 76 segundos, respectivamente. Os dados incluíam as faixas de frequências da radiação, entre outros parâmetros. Durante as emissões de rádio, Peterson observou também certas alterações na Grande Mancha Vermelha. Essa descoberta atraiu muito interesse de cientistas planetários. Nesta edição, o artigo de G. McKenzie defende que isso foi um sinal do início de fusões no núcleo de Júpiter. Na próxima edição, publicaremos o artigo de Inoue Kumoseki, que atribui as emissões de rádio jupiterianas a um mecanismo mais complexo — a movimentação de placas internas de hidrogênio metálico — e oferece uma descrição matemática completa.



Ye se lembrava com nitidez das duas datas indicadas no artigo. Durante aquelas interferências, o sistema de monitoramento da Costa Vermelha também havia recebido muita interferência do sol. Ela conferiu o diário de operações e confirmou a lembrança. Os períodos eram próximos, mas as interferências solares ocorreram dezesseis minutos e quarenta e dois segundos após a chegada das emissões de rádio de Júpiter na Terra.

Os dezesseis minutos e quarenta e dois segundos são fundamentais! Ye tentou acalmar o coração acelerado e pediu para o bibliotecário entrar em contato com o Observatório Nacional e obter as efemérides da posição da Terra e de Júpiter durante esses dois períodos.

No quadro-negro, ela traçou um triângulo grande com o sol a Terra e Júpiter nos vértices, marcou as distâncias nos três lados e anotou os tempos de chegada do lado da Terra. Pela distância entre a Terra e Júpiter, era fácil descobrir o tempo que as emissões de rádio levaram para fazerem o trajeto. Em seguida, calculou o tempo que levaria para as emissões de rádio viajarem de Júpiter até o sol, e depois do sol até a Terra. A diferença entre os dois era de exatamente dezesseis minutos e quarenta e dois segundos.



Ye recorreu a seu modelo matemático da estrutura solar e tentou arranjar uma explicação teórica. Seu olhar se voltou para a descrição do que ela havia chamado de “espelhos de energia” na zona de radiação solar.



A princípio, as reações no núcleo do sol produzem raios gama de alta energia. A zona radiativa, que é a região interna em volta do núcleo solar, absorve esses fótons de alta energia e





os reemite a um nível energético ligeiramente menor. Depois de um longo período de absorções e reemissões consecutivas (um fóton pode demorar mil anos para sair do sol), os raios gama se transformam em radiação x, ultravioleta extrema, ultravioleta e, por fim, luz visível e outras formas de radiação.



Isso era o que se sabia a respeito do sol. Mas o modelo de Ye levava a um novo resultado: conforme a radiação solar percorria essas frequências variadas ao atravessar a zona radiativa, ela passava por fronteiras entre as subzonas correspondentes a cada tipo de radiação. Quando a energia atravessava uma fronteira, a frequência da radiação passava por uma redução brusca. Isso contrariava a noção tradicional de que as frequências de radiação se reduziam gradativamente no caminho do núcleo para fora. Os cálculos dela demonstraram que essas fronteiras refletiam a radiação que saía do lado de frequência menor, e por isso Ye chamou essas fronteiras de “espelhos de energia”.



Ela havia analisado com cuidado essas superfícies fronteiriças membranosas no oceano de plasma de alta energia do Sol e descobriu diversas propriedades maravilhosas. Deu o nome de “reflexividade de ganho” para uma das características mais incríveis. No entanto, a característica era tão estranha que era difícil confirmá-la, e nem Ye conseguia acreditar que aquilo fosse verdade. Parecia mais provável se tratar de algum erro nos cálculos complexos e confusos.

No entanto, naquele momento, Ye deu o primeiro passo para confirmar seu palpite sobre a reflexividade de ganho dos espelhos de energia solares: os espelhos de energia não apenas refletiam a radiação que vinha da camada de frequência menor, como também a amplificavam. Todas as misteriosas flutuações repentinas nas bandas estreitas de frequência que Ye havia observado eram resultado da amplificação de outras radiações oriundas do espaço, após serem refletidas em um espelho de energia do sol.



Daquela vez, quando as emissões de rádio de Júpiter chegaram ao sol, elas foram reemitidas, como se tivessem batido em um espelho, e ampliadas em cerca de cem milhões de vezes. A Terra recebeu as duas emissões, antes e depois da amplificação, com um intervalo de dezesseis minutos e quarenta e dois segundos.



O sol era um amplificador de ondas de rádio.



Porém havia uma dúvida: o sol deve receber radiação eletromagnética do espaço o tempo todo, incluindo ondas de rádio emitidas pela Terra. Por que só algumas das ondas eram amplificadas? A resposta era simples: além da seletividade dos espelhos de energia quanto às frequências refletidas, o principal motivo era o efeito de blindagem da zona convectiva do sol, a camada líquida mais externa, eternamente em ebulição em volta da camada radiativa. As ondas de rádio oriundas do espaço precisam antes penetrar a zona convectiva para chegar aos espelhos de energia na zona radiativa, onde seriam amplificadas e refletidas de volta para fora. Assim, para chegar aos espelhos de energia, a potência das ondas precisaria exceder um valor mínimo. A imensa maioria de fontes de rádio na Terra não tinha capacidade para superar esse valor, mas a emissão de rádio jupiteriana teve…

E a potência máxima de transmissão da Costa Vermelha também era superior ao valor mínimo.



O problema das interferências solares não tinha sido resolvido, mas surgiu outra possibilidade





empolgante: os seres humanos poderiam usar o sol como uma superantena e, a partir dele, transmitir ondas de rádio para o universo. As ondas de rádio seriam enviadas com o poder do sol, centenas de milhões de vezes maior do que a potência total de transmissão disponível na Terra.

A civilização terrestre tinha capacidade de transmissão correspondente a uma civilização do Tipo 2 de Kardashev.



O passo seguinte seria comparar as formas de onda das duas emissões jupiterianas com as formas de ondas das interferências solares recebidas pela Costa Vermelha. Se fossem iguais, seria mais uma confirmação da hipótese de Ye.



Ye encaminhou à liderança da base uma solicitação para entrar em contato com Harry Peterson e obter os dados sobre as formas de onda das duas emissões de rádio de Júpiter. Não foi fácil. Era difícil encontrar as vias de comunicação apropriadas, e uma extensa burocracia exigia diversas etapas de papelada formal. Qualquer erro poderia levantar suspeitas de que Ye estivesse agindo como espiã estrangeira. Assim, ela não podia insistir muito e teve que esperar os trâmites normais.



Mas havia uma forma mais direta de comprovar essa hipótese. A própria Costa Vermelha podia transmitir ondas de rádio para o sol com uma potência superior ao valor mínimo.

Ye encaminhou mais uma solicitação à liderança da base, mas não se atreveu a informar o verdadeiro motivo — era fantástico demais, e com certeza o pedido teria sido negado. Ela explicou que queria fazer um experimento para sua pesquisa sobre o sol: o sistema de transmissão da Costa Vermelha seria usado como um radar de exploração solar, e os ecos seriam analisados em busca de informações sobre a radiação solar. Como Lei e Yang tinham conhecimento científico, não seria fácil enganá-los. Porém o experimento que Ye descreveu tinha precedentes genuínos nas pesquisas solares feitas no Ocidente: na verdade, sua sugestão era tecnicamente mais fácil do que a exploração por radar de planetas rochosos que já vinha sendo conduzida.



— Ye Wenjie, você está se excedendo — comentou o comissário Lei. — Sua pesquisa deveria se concentrar na teoria. Precisamos mesmo fazer isso tudo?

— Comissário — implorou Ye —, é possível que aconteça uma grande descoberta. Os experimentos são absolutamente necessários. Por favor, eu só quero tentar uma vez.

— Comissário Lei — disse Yang —, talvez devêssemos tentar uma vez. Não parece nada muito difícil em termos operacionais. Receber os ecos depois da transmissão demoraria…

— Dez, quinze minutos — disse Lei.



— Então a Costa Vermelha tem tempo suficiente para se alternar entre o modo de transmissão e o de monitoramento.

Lei balançou a cabeça de novo.



— Eu sei que é técnica e operacionalmente viável. Mas você… ah, chefe Yang, você não tem sensibilidade para esse tipo de coisa. Quer apontar um feixe de rádio superpotente para o sol vermelho. Já pensou no simbolismo político de um experimento desses?*

Tanto Yang quanto Ye ficaram completamente estarrecidos. Eles não acharam que a objeção de Lei fosse ridícula, pelo contrário: os dois estavam horrorizados por não terem pensado nisso antes. Naqueles anos, a busca por simbolismo político havia alcançado níveis absurdos. Os





relatórios de pesquisa que Ye entregava precisavam ser revisados com cuidado por Lei, para que até mesmo termos técnicos relativos ao sol pudessem ser conferidos várias vezes a fim de eliminar riscos políticos. Termos como “manchas solares” eram proibidos.** É claro que um experimento que enviava uma transmissão potente de rádio na direção do sol podia render mil interpretações positivas, mas bastaria uma única negativa para causar um desastre político para todos. O motivo da recusa de Lei era realmente incontestável.



Apesar disso, Ye não desistiu. Na verdade, contanto que não se arriscasse demais, não seria difícil realizar o objetivo. O transmissor da Costa Vermelha era ultrapotente, mas todos os componentes haviam sido produzidos internamente na China durante a Revolução Cultural. Como não tinham uma qualidade muito boa, o índice de falhas era bem alto. A cada quinze transmissões, o sistema inteiro precisava ser desmontado, e depois a base sempre fazia uma transmissão-teste. Poucas pessoas participavam desse teste, e os alvos e demais parâmetros eram escolhidos de modo arbitrário.



Certa vez, quando estava de plantão, Ye foi designada para trabalhar em uma dessas transmissões-teste depois de uma desmontagem. Como as transmissões-teste pulavam várias etapas operacionais, só havia cinco outras pessoas presentes além de Ye. Três eram operadores de baixo escalão que não sabiam muito sobre os princípios por trás do equipamento. Os outros dois eram um técnico e um engenheiro, exaustos e um pouco desatentos depois de dois dias de trabalho de desmontagem. Ye começou ajustando a potência máxima do sistema de transmissão da Costa Vermelha para superar o valor mínimo previsto por sua teoria dos espelhos de energia com reflexividade de ganho. Em seguida, estabeleceu o valor da frequência que tinha mais chances de ser amplificada pelo espelho de energia e, com a desculpa de testar os componentes mecânicos, apontou a antena para o sol poente no oeste. O conteúdo da transmissão era o mesmo de sempre.



Foi uma tarde clara do outono de 1971. Posteriormente, Ye recordaria o dia muitas vezes, mas não se lembraria de nenhum sentimento especial além de ansiedade, um desejo de que a transmissão acabasse rápido. Mais que tudo, Ye tinha medo de ser flagrada pelos colegas. Embora tivesse preparado algumas desculpas, não era comum usar a potência máxima para uma transmissão-teste, porque causaria um desgaste nos componentes. Além do mais, o equipamento de posicionamento do sistema de transmissão da Costa Vermelha não fora projetado para mirar o sol. Ye sentiu o visor esquentar: se o aparelho queimasse, ela estaria em sérios apuros.



Ye precisava acompanhar o sol à medida que o astro descia lentamente no Oeste. Era um procedimento manual, e a antena da Costa Vermelha parecia um girassol gigante naquele momento, virando-se aos poucos para acompanhar o sol poente. Quando a luz vermelha que indicava o fim da transmissão se acendeu, Ye já estava encharcada de suor.



Ela olhou para os lados. Os três operadores no painel de controle estavam desligando o equipamento, uma peça de cada vez, de acordo com as instruções do manual de operações. O engenheiro bebia água em um canto da sala de controle, e o técnico estava cochilando na cadeira. Historiadores e escritores mais tarde tentariam descrever a cena com pompa, mas a verdade é que foi algo completamente prosaico.

Depois que a transmissão foi concluída, Ye saiu correndo da sala de controle e entrou na sala de Yang Weining.

— Diga para a estação da base começar a monitorar o canal de doze mil mega-hertz! — pediu ela, tentando recuperar o fôlego.

— O que a gente poderia receber por lá? — perguntou o chefe Yang, surpreso. Ele olhou para Ye, que estava com fiapos de cabelo colados no rosto suado. Em comparação com o sistema de monitoramento extremamente sensível da Costa Vermelha, o rádio militar convencional (usado em geral para a comunicação da base com o mundo exterior) não passava de um brinquedo.

— Talvez a gente receba algo. Não dá tempo de mudar os sistemas da Costa Vermelha para o modo de monitoramento! — Em geral, alternar e aquecer o sistema de monitoramento levava pouco mais de dez minutos. No entanto, naquele momento, o sistema também estava sendo desmontado: muitos módulos tinham sido retirados e ainda não estavam reinstalados. Eles ficariam fora de operação por algum tempo.



Yang ficou olhando para Ye por alguns segundos e então tirou o telefone do gancho e deu ordens para que a seção de comunicações seguisse as instruções de Ye.

— Considerando a baixa sensibilidade daquele rádio, provavelmente só vamos receber sinais de extraterrestres da lua.

— O sinal vem do sol — disse Ye. Pela janela, já se via a beirada do sol chegando perto das montanhas no horizonte, vermelho como sangue.

— Você usou a Costa Vermelha para enviar um sinal para o sol? — perguntou Yang, preocupado.

Ye confirmou com a cabeça.



— Não fale para mais ninguém. Isso não pode acontecer nunca mais. Nunca! — Yang olhou para trás, para ver se não havia ninguém na porta.

Ye fez outro gesto com a cabeça.



— De que adianta? A onda do eco deve ser extremamente fraca, muito além da sensibilidade de um rádio convencional.

— Não. Se meu palpite estiver certo, vamos receber um eco extremamente forte. Vai ser mais potente do que… nem consigo imaginar. Desde que a potência de transmissão supere determinado limite, o sol pode amplificar o sinal em cem milhões de vezes.

Yang olhou para Ye com uma expressão estranha estampada no rosto. Ela ficou quieta. Os dois esperaram, em silêncio. Yang conseguia escutar sem dificuldade a respiração e o coração de Ye. Ele nem havia prestado muita atenção no que ela disse, mas os sentimentos reprimidos durante muitos anos voltaram à tona. O máximo que ele podia fazer era se conter e esperar.

Vinte minutos depois, Yang pegou o telefone, ligou para a seção de comunicações e fez algumas perguntas simples.

Ele colocou o telefone de volta no gancho.



— Não receberam nada.



Ye soltou o suspiro que estava segurando havia muito tempo e, por fim, assentiu com a cabeça.



— Mas aquele astrônomo americano respondeu.



Yang pegou um envelope grosso coberto de selos da alfândega e entregou a Ye. Ela abriu o





envelope e deu uma olhada na carta de Harry Peterson. Na correspondência, Harry dizia que nunca imaginara que haveria colegas na China estudando eletromagnetismo planetário e que gostaria de trocar mais informações e colaborações no futuro. O envelope continha também duas pilhas de papel: o registro completo das formas de onda da emissão de rádio jupiteriana. Obviamente, tinham sido fotocopiadas da fita de gravação extensa do sinal, de modo que seria preciso juntar as folhas.



Ye pegou todas aquelas folhas de papel fotocopiado e começou a alinhá-las em duas colunas no chão. No meio do esforço, já não tinha mais nenhuma esperança: ela conhecia muito bem as formas de onda das duas interferências solares, e aquelas folhas não batiam.

Ye reuniu as folhas lentamente no chão. Yang se abaixou para ajudá-la e, quando entregou a pilha de folhas para aquela mulher que amava de todo o coração, viu que ela sorria. O sorriso era tão triste que partiu o coração de Yang.



— Qual é o problema? — perguntou ele, sem perceber que nunca havia falado com ela com tanta doçura.

— Nada. Só estou acordando de um sonho.



Ye sorriu de novo, juntou a pilha de fotocópias e o envelope e saiu da sala. Voltou para o quarto, pegou a marmita e caminhou até o refeitório. Só tinham sobrado alguns pãezinhos mantou e pepinos em conserva e, como a equipe do refeitório disse sem delicadeza que eles estavam fechando, Ye se viu obrigada a sair com a marmita. Ela foi até a beirada do penhasco, sentou-se na grama e ficou mastigando o mantou frio.



O sol já havia se posto. A cordilheira Grande Khingan parecia sem cor nem definição, exatamente como a vida de Ye. Naquela vida cinzenta, os sonhos sempre pareciam ganhar cor e luz especiais. Só que as pessoas sempre acordam dos sonhos, assim como o sol — que, embora fosse nascer de novo, não simbolizava nenhuma esperança renovada. Naquele momento, Ye viu o resto de sua vida imerso em um cinza interminável.

Com os olhos marejados, ela sorriu de novo e continuou comendo o mantou frio.



Ye não sabia que, naquele momento, o primeiro grito de uma civilização terrestre que podia ser ouvido pelo espaço já estava se distanciando do sol à velocidade da luz. Uma onda de rádio potencializada pelo sol, como uma onda majestosa, já havia cruzado a órbita de Júpiter.

Naquele instante, na frequência de doze mil megahertz, o sol era a estrela mais luminosa da Via Láctea inteira.

* O presidente Mao era comparado com frequência ao “sol vermelho”, sobretudo durante os anos da Revolução Cultural.

** O termo em chinês para “mancha solar” (QPON) significa literalmente “manchas solares pretas”. O preto era a cor dos contrarrevolucionários.







23. COSTA VERMELHA VI


Os oito anos seguintes foram alguns dos mais pacíficos da vida de Ye Wenjie. O horror vivido durante a Revolução Cultural foi aplacando gradualmente, e ela enfim conseguiu relaxar um pouco. O Projeto Costa Vermelha concluiu as fases de teste e iniciação e passou a se limitar a operações de rotina. Sobravam cada vez menos problemas técnicos, e tanto o trabalho quanto a vida se regularizaram.



Em paz, tudo que fora reprimido pela ansiedade e pelo medo começou a despertar de novo, e Ye percebeu que a dor estava só começando. Lembranças pavorosas, como brasas que se reacendiam, queimavam com uma força cada vez mais intensa e flagelavam seu coração. Em casos semelhantes, talvez o tempo pudesse cicatrizar as feridas aos poucos, até porque, durante a Revolução Cultural, muitas pessoas passaram por aquela situação e, em comparação com várias, Ye tivera relativa sorte. Só que Ye pensava como uma cientista e se recusava a esquecer. Ela preferia encarar com uma perspectiva racional a loucura e o ódio que a haviam ferido.



A reflexão racional de Ye sobre o lado maligno da humanidade começou no dia em que leu Primavera silenciosa. Como Ye foi se aproximando de Yang Weining, ele conseguia obter para ela muitos clássicos de filosofia e de história em língua estrangeira, com a desculpa de adquirir materiais de pesquisa técnica. Ela ficou chocada com a história sangrenta da humanidade, e as ideias extraordinárias dos filósofos também contribuíram para que entendesse os aspectos mais essenciais e secretos da natureza humana.



De fato, até mesmo no topo do pico do Radar, um lugar que o mundo quase esqueceu, a loucura e a irracionalidade da raça humana estavam sempre em evidência. Ye via que a floresta abaixo deles continuava sendo derrubada pelo desmatamento ensandecido de seus antigos camaradas. Os hectares de terra vazia aumentavam a cada dia, como se parcelas da cordilheira Grande Khingan tivessem perdido pedaços de pele. Quando esses trechos se transformaram em regiões, e depois em um todo interligado, as poucas árvores que resistiram pareciam até anormais. Para completar o plano de devastação, os campos desmatados foram incendiados, e o pico do Radar virou refúgio para os pássaros, que escapavam do inferno flamejante. Enquanto as chamas rugiam, os desoladores cantos das aves com penas queimadas soavam sem parar.



A insanidade da raça humana havia alcançado o zênite histórico. Era o auge da Guerra Fria. Em fantasmagóricos submarinos nucleares nas profundezas do mar e em incontáveis silos espalhados por dois continentes, mísseis nucleares com capacidade de destruir dez vezes o planeta Terra podiam ser lançados de uma hora para outra. Um único submarino ianque ou soviético transportava uma quantidade de ogivas suficiente para destruir centenas de cidades e matar centenas de milhões de pessoas, mas quase todo mundo seguia a vida como se estivesse tudo bem.


Como astrofísica, Ye era extremamente contra armas nucleares. Sabia que esse poder devia pertencer apenas às estrelas. E sabia também que o universo tinha forças ainda mais terríveis: buracos negros, antimatéria e mais. Em comparação com essas forças, uma bomba termonuclear era só uma vela minúscula. Se os seres humanos dominassem qualquer uma daquelas forças, o mundo talvez fosse vaporizado em um instante. Diante da loucura, a racionalidade era impotente.



Quatro anos depois de entrar na Base Costa Vermelha, Ye se casou com Yang. Ele a amava de verdade. Por amor, Yang abriu mão do próprio futuro.



A fase mais intensa da Revolução Cultural tinha acabado, e o clima político ficou um pouco mais ameno. Yang não chegou a ser processado por causa do matrimônio, mas, como se casou com uma mulher que fora classificada como contrarrevolucionária, foi considerado politicamente imaturo e perdeu o cargo de engenheiro-chefe. Yang e a esposa só tiveram permissão para continuar na base como técnicos comuns porque a base não podia dispensar as competências técnicas dos dois.



Ye aceitou se casar com Yang sobretudo por gratidão. Se ele não a tivesse trazido para aquele porto seguro no momento mais conturbado de sua vida, ela provavelmente não teria sobrevivido. Yang era um homem talentoso, culto e sensato. Ye não achava o marido desagradável, mas seu coração era como um punhado de cinzas, e a chama do amor jamais voltaria a arder.

Ao ponderar sobre a natureza humana, Ye se viu diante de uma perda absoluta de propósito e mergulhou em mais uma crise espiritual. Ela havia sido uma idealista que precisava dar tudo de si para perseguir uma grande meta, mas agora percebia que todos os seus gestos tinham sido em vão e que o futuro também não oferecia nada de valor. À medida que esse estado de espírito persistia, Ye foi se sentindo cada vez mais alienada do mundo. Ela se sentia isolada. Era atormentada pela sensação de que estava vagando pelo deserto espiritual. Ye havia montado uma casa com Yang, mas sua alma não tinha lar.



Certa vez, ela estava trabalhando no turno da noite, o período mais solitário de todos. Nas profundezas do silêncio da meia-noite, o universo se revelava como uma vasta desolação para quem estivesse ouvindo. O que Ye menos gostava de fazer era ver as ondas que se arrastavam vagarosamente na tela, um registro visual do ruído sem significado que a Costa Vermelha captava do espaço. Para Ye, essa onda interminável era uma imagem abstrata do universo: uma extremidade ligada ao passado infinito, a outra, ao futuro infinito, e no meio apenas os altos e baixos do puro acaso — sem vida, sem padrão, picos e vales em alturas diferentes como se fossem grãos irregulares de areia, a curva toda como se fosse um deserto unidimensional em que todos os grãos estão alinhados em uma única fileira, solitária, desolada, infinita a ponto de ser intolerável. Dava para acompanhá-la para um lado ou para o outro, mas seria impossível chegar ao fim.



Porém, nesse dia, Ye viu algo estranho com a forma de onda na tela. Até especialistas tinham dificuldade para identificar a olho nu se uma onda possuía alguma informação. Mas Ye estava tão acostumada com o ruído do universo que conseguiu perceber algo a mais na onda que se deslocava diante de seus olhos. O sobe e desce da curva fina parecia ter uma alma. Ye tinha certeza de que aquele sinal de rádio fora modulado por alguma inteligência.



Ela correu até outro terminal e conferiu a classificação que o computador emitia para a reconhecibilidade do sinal: AAAAA. Antes, nenhum outro sinal de rádio recebido pela Costa Vermelha alcançara uma classificação de reconhecibilidade superior a C. Uma classificação A significava que havia mais de noventa por cento de chance de a transmissão conter alguma informação inteligente. Uma classificação AAAAA era um caso especial extremo: era indicação de que a transmissão recebida usava exatamente a mesma codificação da transmissão enviada pela própria Costa Vermelha.



Ye ativou o sistema de decodificação da Costa Vermelha. O programa tentava decifrar qualquer sinal cuja classificação fosse superior a B. Durante todo o período de operação do Projeto Costa Vermelha, ele nunca havia sido usado em uma circunstância real. Com base em dados de teste, a decodificação de uma transmissão que talvez fosse uma mensagem podia levar alguns dias ou até meses, e na maior parte das vezes o resultado seria erro. No entanto, daquela vez, assim que o arquivo com a transmissão original foi inserido, a tela mostrou que a decodificação estava concluída.



Ye abriu o documento resultante e, pela primeira vez, um ser humano leu uma mensagem enviada de outro mundo.



O conteúdo era diferente do que qualquer um teria imaginado. Era um alerta repetido três vezes.





Não responda!



Não responda!!



Não responda!!!





Ainda embalada pela empolgação e pela confusão vertiginosa, Ye decodificou a segunda mensagem.





Este mundo recebeu sua mensagem.



Eu sou um pacifista. Sua civilização deu sorte que eu tenha sido o primeiro a receber sua mensagem neste mundo. Estou alertando: Não responda! Não responda!! Não responda!!!

Existem dezenas de milhões de estrelas na sua direção. Se você não responder, este mundo não conseguirá determinar a fonte de sua transmissão.

Porém, se você responder, a fonte será localizada imediatamente. Seu planeta será invadido. Seu mundo será conquistado!

Não responda! Não responda!! Não responda!!!



Ao ler o texto na tela verde luminosa, Ye perdeu a capacidade de pensar com clareza. Sua mente, inibida pelo baque e pela empolgação, só compreendia o seguinte: haviam se passado cerca de nove anos desde que ela enviara a mensagem ao sol. Então a fonte daquela transmissão devia estar a cerca de quatro anos-luz de distância e só podia ter vindo do sistema estelar mais próximo do sol: Alfa Centauro.*





O universo não era desolador. Não era vazio. Era cheio de vida! A humanidade havia dirigido seu olhar para os confins do universo, mas não fazia ideia de que a vida inteligente já existia nas estrelas mais próximas da Terra!



Ye olhou para a tela com a onda: o sinal continuava chegando do universo pela antena da Costa Vermelha. Ela abriu outra janela e começou a decodificar em tempo real. As mensagens começaram a aparecer no mesmo instante na tela.



Durante as quatro horas seguintes, Ye leu sobre a existência de Trissolaris, o fato de que a civilização precisava renascer reiteradamente e o plano deles de migrar para as estrelas.

Às quatro da manhã, a transmissão de Alfa Centauro acabou. O sistema de decodificação continuava rodando sem resultado e emitia uma série interminável de códigos de erro. O sistema de monitoramento da Costa Vermelha tinha voltado a ouvir apenas o ruído do universo.

Mas Ye tinha certeza de que o que ela havia acabado de presenciar não tinha sido um sonho. O sol realmente era uma antena amplificadora. Mas por que o experimento não tinha recebido

nada oito anos antes? Por que as ondas das emissões de rádio de Júpiter não batiam com a radiação posterior do sol? Mais tarde, Ye pensou em muitos motivos. Era possível que a seção de comunicações da base não fosse capaz de receber ondas de rádio naquela frequência, ou talvez a seção tivesse recebido o eco, mas soou como ruído e o operador achou que não fosse nada. Quanto às formas de onda, era possível que o Sol acrescentasse mais uma onda ao amplificar as emissões de rádio. Provavelmente seria uma onda periódica que poderia ser compensada com facilidade pelo sistema de decodificação alienígena mas, na falta de instrumentos adequados, para Ye a onda de Júpiter e a do sol pareceriam muito diferentes. Anos depois, quando já não estava mais na Costa Vermelha, Ye conseguiria confirmar a última hipótese: o sol havia acrescentado uma onda senoidal.

Ela olhou para os lados em alerta. Havia três homens na sala de computadores principal. Dois estavam conversando em um canto, e o terceiro cochilava na frente de um terminal. Na seção de análise de dados do sistema de monitoramento, só os dois terminais diante dela eram capazes de ver a classificação de reconhecibilidade de um sinal e acessar o sistema de decodificação.

Tentando manter a compostura, Ye agiu depressa e transferiu todas as mensagens recebidas para um subdiretório invisível com muitas camadas de criptografia. Depois, copiou um segmento de ruído recebido um ano antes para substituir a transmissão recebida nas cinco horas anteriores.

Por fim, usou o terminal para inserir uma mensagem curta no buffer de transmissão da Costa Vermelha.



Ye se levantou e saiu da sala de controle principal de monitoramento. Ela sentiu no rosto febril um vento gelado; a aurora estava começando a iluminar o céu oriental, e ela seguiu meio às escuras pelo caminho de pedrinhas até a sala de controle de transmissão principal. No alto, a antena da Costa Vermelha estava aberta, silenciosa, como uma mão gigantesca espalmada para o universo. Na luz do amanhecer, o guarda na frente da porta era só uma silhueta e, como sempre, não deu atenção a Ye quando ela entrou.



A sala de controle principal de transmissão estava muito mais escura que a de monitoramento. Ye passou por várias fileiras de arquivos até parar na frente do painel de controle e ativar uma dúzia de comutadores com a habilidade da prática e ligar o sistema de transmissão. Os dois





homens de plantão perto do painel de controle olharam para ela com cara de sono, e um espiou o relógio. Em seguida, um voltou a cochilar e o outro começou a folhear um jornal velho. Na base, Ye não tinha nenhum status político, mas desfrutava de alguma liberdade de ação em questões técnicas. Era comum ser a encarregada de testar os equipamentos antes de uma transmissão. Embora tivesse chegado cedo naquele dia — a transmissão só estava marcada para dali a três horas —, começar a ligar os sistemas um pouco antes não era algo tão raro.

O período seguinte foi a meia hora mais longa da vida dela. Nesse tempo, Ye ajustou a frequência de transmissão para o valor ótimo de amplificação pelo espelho de energia solar e aumentou ao máximo a potência de transmissão. Depois, de olho no visor do sistema de posicionamento ótico, ela viu o sol subir no horizonte e ativou o sistema de posicionamento da antena, alinhando-o cuidadosamente com o sol. Quando a antena gigantesca se mexeu, o ronco sacudiu a sala de controle principal. Um dos homens de plantão olhou para Ye de novo, mas não falou nada.



O sol já estava todo acima do horizonte. A mira do sistema de posicionamento da Costa Vermelha estava apontada para a beirada superior do sol, a fim de compensar o tempo que levaria até a onda de rádio chegar. O sistema de transmissão estava pronto.



O botão TRANSMITIR era um retângulo comprido — muito parecido com a barra de espaço de um teclado de computador, só que vermelho.



Ye deixou a mão pairando a dois centímetros do botão.



O destino da humanidade inteira dependia daqueles dois dedos finos.



Sem hesitar, Ye apertou o botão.



— O que você está fazendo? — perguntou um dos homens de plantão, ainda sonolento.



Ye sorriu para ele e não disse nada. Apertou um botão amarelo para interromper a transmissão e mexeu na alavanca de controle para apontar a antena em outra direção. Depois, se afastou do painel de controle e foi embora.



O homem olhou para o relógio: estava na hora de encerrar o turno. Ele pegou o diário e pensou em registrar o fato de Ye ter operado o sistema de transmissão. Afinal, não era procedimento comum. Mas, quando viu a fita de papel, percebeu que Ye só havia transmitido por três segundos. Ele largou o diário, bocejou, colocou o quepe na cabeça e saiu.



A mensagem que estava viajando até o sol dizia: Venham! Vou ajudá-los a conquistar este mundo. Nossa civilização já não consegue mais resolver os próprios problemas. Precisamos que sua força intervenha.



O sol recém-nascido deixou Ye atordoada. Pouco depois de sair da sala de controle principal, ela caiu no gramado, sem sentidos.



Quando acordou, percebeu que estava na enfermaria da base. Ao lado dela, Yang a olhava com um ar preocupado, como naquela vez no helicóptero, muitos anos antes. O médico falou que Ye precisava tomar cuidado e descansar bastante.



— Você está grávida — disse.





* Embora a olho nu pareça uma única estrela, na verdade Alfa Centauro é um sistema de duas estrelas (Alfa Centauro A e Alfa Centauro B). Uma terceira estrela, chamada de Próxima Centauro e invisível a olho nu, provavelmente está associada ao sistema de duas estrelas por atração gravitacional. O nome dos objetos em chinês (半人马座三星) deixa claro que a “estrela” na verdade é um sistema de três estrelas.







24. REBELIÃO


Depois que Ye Wenjie terminou de contar a história de seu primeiro contato com Trissolaris, o silêncio absoluto continuou reinando no refeitório abandonado. Parecia que muitos dos presentes tinham ouvido o relato completo pela primeira vez. Wang ficou profundamente absorto pela narrativa e, por um instante, se esqueceu do perigo e do terror que estava enfrentando.

— Como a OTT se desenvolveu até as proporções atuais? — perguntou ele, sem conseguir se conter.

— Para responder a essa pergunta, eu precisaria começar falando do momento em que conheci Evans — respondeu Ye. — Mas todos os camaradas aqui já conhecem essa parte da história, então é melhor não perdermos tempo com isso agora. Posso contar para você mais tarde. No entanto, depende de você se chegaremos a ter oportunidade para isso… Xiao Wang, vamos conversar sobre o seu nanomaterial.



— Esse… Senhor de quem vocês falam. Por que ele tem tanto medo de nanomateriais?



— Porque ele vai permitir que os seres humanos escapem da gravidade e desenvolvam a construção espacial em uma escala muito maior.

— O elevador espacial? — De repente, Wang entendeu.



— Sim. Se fosse possível produzir nanomateriais ultrafortes em massa, eles formariam a base técnica para a construção do elevador espacial do solo até um ponto geoestacionário no espaço. Para nosso Senhor, isso é apenas uma invenção irrisória. Já para a humanidade na Terra, teria um grande significado. Com essa tecnologia, os humanos poderiam acessar com facilidade o espaço e construir estruturas defensivas de grande escala. Por isso, essa tecnologia precisa ser eliminada.

— O que acontece quando a contagem regressiva acabar? — perguntou Wang, mencionando a dúvida que mais o assustava.

Ye sorriu.



— Não sei.



— Mas não adianta nada tentar me impedir! Não é pesquisa de base. A partir do que já aprendemos, outra pessoa pode descobrir o resto. — Yang falava com um tom de voz alto, mas ansioso.



— Sim, não adianta nada. É muito mais proveitoso confundir a cabeça dos pesquisadores. Mas, como você sugeriu, não impedimos o progresso a tempo. Afinal, você trabalha com pesquisa aplicada. Nossa técnica é muito mais eficaz com pesquisas de base…

— Por falar em pesquisa de base, como sua filha morreu?



A pergunta fez Ye ficar em silêncio por alguns segundos. Wang percebeu que os olhos dela





perderam uma fração mínima de brilho. Ainda assim, ela retomou a conversa logo em seguida.



— Realmente, em comparação com nosso Senhor, que possui forças sem igual, tudo o que realizamos é irrelevante. Só estamos fazendo o possível.

Assim que ela terminou de falar, explosões soaram por todos os lados, e as portas do refeitório se abriram de repente. Uma equipe de soldados com submetralhadoras entrou correndo. Wang reparou que não eram policiais, e sim o próprio Exército. Sem fazer barulho, eles seguiram rente às paredes e em pouco tempo cercaram os rebeldes da OTT. Shi Qiang entrou por último. Estava de paletó aberto e segurava uma pistola pelo cano, fazendo com que o cabo parecesse a cabeça de um martelo.



Da Shi olhou ao redor com um ar de arrogância e, de repente, deu um salto à frente. Com um gesto súbito da mão do policial e um estampido baixo de metal atingindo um crânio, um rebelde da OTT caiu no chão, e a arma que ele tinha tentado sacar foi parar a alguns passos de distância. Vários soldados começaram a atirar para o teto, e caíram fragmentos e poeira. Alguém apanhou Wang Miao, levando-o para longe das fileiras da OTT e para um lugar seguro, atrás de um grupo de soldados.



— Coloquem todas as armas na mesa! Juro que mato o próximo filho da puta que tentar alguma coisa. — Da Shi apontou para as submetralhadoras espalhadas atrás de si. — Sei que nenhum de vocês tem medo de morrer, mas a recíproca é verdadeira. Vou dizer logo de cara: as leis e um processo policial normal não se aplicam a vocês. Nem as leis humanas de guerra valem mais no seu caso. Como vocês decidiram tratar a humanidade inteira como inimiga, temos carta branca para cuidar de vocês.



Houve um pouco de comoção entre os membros da OTT, mas ninguém entrou em pânico. Ye continuou impassível. De repente, três pessoas se afastaram às pressas da multidão, incluindo a jovem que torcera o pescoço de Pan Han, e correram até a escultura de três corpos. Em seguida, cada uma pegou e segurou uma esfera diante do tórax.

A jovem ergueu a esfera metálica brilhante com as mãos, como se estivesse prestes a começar um exercício de ginástica.

— Senhores — disse ela, sorrindo —, em nossas mãos, temos três bombas nucleares, cada uma com poder de destruição de cerca de um quiloton e meio. Como podem ver, não são muito grandes, porque gostamos de brinquedos pequenos. Este é o detonador.

Quase todos no refeitório ficaram petrificados. O único que se mexeu foi Shi Qiang. Ele voltou a colocar a arma no coldre debaixo do braço esquerdo e juntou as mãos, tranquilo.

— Temos uma exigência simples: deixem a comandante ir embora — disse a jovem. — Depois, podemos fazer o jogo que vocês quiserem. — O tom de voz da moça sugeria que ela não tinha nenhum medo de Shi Qiang, nem dos soldados.



— Eu fico com meus camaradas — disse Ye, calma.



— Você tem como confirmar o que ela falou? — perguntou Da Shi a um soldado ao lado dele, especialista em explosivos.

O soldado jogou uma bolsa na frente dos três membros da OTT que estavam segurando as esferas. Um deles pegou a bolsa e tirou uma balança de mola, uma versão ampliada daquele objeto que as pessoas levavam à feira para conferir as coisas que os vendedores pesavam. Ele





colocou a esfera de metal na bolsa, prendeu a alça no gancho da balança e segurou esta pela ponta. O medidor se mexeu até o meio da escala e parou.



A jovem deu uma risada. O especialista em explosivos também riu, com desdém.



O integrante da OTT pegou a esfera de novo e a largou no chão. Outro rebelde pegou a balança e a bolsa, repetiu o processo com sua própria esfera e também acabou largando-a no chão.

A jovem riu de novo e pegou a bolsa. Ela colocou a esfera dentro e pendurou a alça no gancho da balança: na mesma hora o medidor foi para a ponta, estendendo ao máximo a mola.

O sorriso do especialista em explosivos desapareceu do rosto.



— Droga! — sussurrou ele para Da Shi. — Eles têm uma mesmo. Da Shi continuou impassível.

— Podemos confirmar pelo menos que existem elementos pesados, físseis, dentro disso — falou o especialista em explosivos. — Não sabemos se o mecanismo de detonação funciona.

As lanternas acopladas às armas dos soldados apontaram para a moça com a bomba nuclear. Embora segurasse nas mãos o poder destrutivo de um e meio quiloton ela abriu um grande sorriso, como se estivesse recebendo aplausos e elogios sob os holofotes de um palco.

— Tenho uma ideia — cochichou o especialista para Da Shi. — Atire na esfera.



— Isso não vai fazer a bomba explodir?



— Os explosivos convencionais na camada externa vão, mas será uma explosão difusa. Não vai provocar o tipo de compressão precisa do material físsil no miolo necessário para uma explosão nuclear.



Da Shi olhou para a mulher com a bomba e não disse nada.



— Que tal atiradores de elite?



— Não tem nenhuma posição boa. Ela é muito esperta. Vai perceber assim que entrar na mira de um atirador de elite.

Da Shi andou para a frente, afastou a multidão e parou no meio do espaço aberto.



— Pare — alertou a jovem, com um olhar firme para Da Shi. O polegar direito dela estava em cima do detonador. Seu rosto já não estava sorrindo diante dos fachos das lanternas.

— Calma — disse Da Shi, parando a sete ou oito metros dela e tirando um envelope do bolso.



— Tenho informações que você com certeza vai querer saber. Sua mãe foi encontrada.



Os olhos febris da jovem perderam um pouco do fervor. Naquele momento, seus olhos eram literalmente a janela da alma.



Da Shi avançou dois passos. Ele estava a menos de cinco metros de distância. A jovem levantou a bomba e o alertou com o olhar, mas já estava distraída. Um dos membros da OTT foi até Da Shi para pegar o envelope. Quando o homem ficou entre o campo de visão de Da Shi e da jovem, o policial sacou a arma rápido como um raio. A mulher só viu um lampejo ao lado da orelha do homem que tentou pegar o envelope de Da Shi, e então a bomba em suas mãos explodiu.



Depois de ouvir a explosão abafada, Wang não enxergou mais nada além de escuridão. Alguém o levou para fora do refeitório. Uma fumaça amarelada densa saía pela porta, e dava para ouvir uma cacofonia de gritos e tiros. De vez em quando, algumas pessoas saíam correndo





do refeitório em meio à fumaça.



Wang se levantou e tentou voltar para dentro, mas o especialista em explosivos o deteve pelos ombros.



— Cuidado. Radiação!



Com o tempo, o caos foi diminuindo. Mais de doze combatentes da OTT morreram no tiroteio. Os outros — mais de duzentos, incluindo Ye Wenjie — foram presos. A explosão havia transformado a jovem mulher-bomba em uma massa de sangue, porém ela foi a única baixa do explosivo anulado. O homem que tinha tentado pegar o envelope de Da Shi ficou gravemente ferido, mas, como seu corpo servira de proteção a Da Shi, os ferimentos do policial foram leves. No entanto, como todos que continuaram no refeitório depois da explosão, Shi sofreu contaminação severa por radiação.



Da Shi foi levado para uma ambulância. Wang olhava para ele pela janelinha: um ferimento na cabeça do policial ainda sangrava, e a enfermeira que estava preparando um curativo usava um traje de proteção transparente. Da Shi e Wang só podiam se falar por celular.

— Quem era a mãe daquela jovem? — perguntou Wang. Da Shi sorriu.

— Não faço a menor ideia. Era só um palpite. Meninas como ela provavelmente têm problemas com a mãe. Eu faço isso há mais de vinte anos e fiquei muito bom em ler as pessoas.

— Aposto que você está feliz de mostrar que tinha razão. Realmente havia alguém por trás de tudo. — Wang forçou um sorriso, na esperança de que Da Shi conseguisse ver.

— Meu amigo, você é que tinha razão! — Da Shi riu e balançou a cabeça. — Eu jamais teria imaginado que eram uns putos de uns alienígenas de verdade!































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