Cixin Liu - CAP 4-13
Cixin Liu, O Problema dos Três Corpos, Capítulos de 4 a 13.
PARTE II - Três Corpos
Mais de quarenta anos depois
Para Wang Miao, os quatro sujeitos que vieram procurá-lo pareciam uma combinação um tanto estranha: dois policiais e dois militares fardados. Se os militares fossem policiais armados, seria relativamente compreensível, mas na verdade eram oficiais do ELP.
Wang ficou irritado assim que viu os policiais. Não tinha problema com o mais jovem — pelo menos era educado. Mas o outro, vestido à paisana, lhe deu nos nervos na mesma hora. Era corpulento e tinha os músculos do rosto salientes. Usava um casaco de couro sujo, fedia a cigarro e falava alto: exatamente o tipo de pessoa que Wang desprezava.
— Wang Miao?
A maneira sem cerimônia com que o policial se dirigiu a ele, tão direto e mal-educado, incomodou Wang. Para piorar, o sujeito acendeu um cigarro, sem nem sequer pedir permissão. Antes que Wang pudesse responder, o homem fez um gesto com a cabeça para o policial mais novo, que mostrou o distintivo.
Após acender o cigarro, o policial mais velho fez menção de entrar no apartamento de Wang.
— Por favor, não fume na minha casa — disse Wang, impedindo a passagem.
— Ah, desculpe, professor Wang. — O policial jovem sorriu. — Este é o capitão Shi Qiang.
— Ele olhou para Shi com uma expressão consternada.
— Tudo bem, podemos conversar no corredor — respondeu Shi, que deu uma longa tragada. Embora quase metade do cigarro tenha virado cinzas, ele não soprou muita fumaça. Inclinou a cabeça para o policial mais novo. — Você pergunta, então.
— Professor Wang, queremos saber se o senhor teve algum contato recente com membros da Fronteiras da Ciência — disse o policial jovem.
— A Fronteiras da Ciência está cheia de acadêmicos famosos e muito influentes. Por que não posso ter contato com um grupo acadêmico internacional legítimo?
— Preste atenção no jeito que fala! — respondeu Shi. — A gente disse alguma coisa sobre não ser legítimo? A gente disse que você não podia ter contato com eles? — Em seguida, soprou a nuvem de fumaça que havia tragado antes bem no rosto de Wang.
— Então está bem. Por favor, respeitem minha privacidade. Não preciso responder a suas perguntas.
— Sua privacidade? Você é um acadêmico famoso. Tem responsabilidade com o bem-estar da população. — Shi jogou fora a guimba do cigarro e pegou outro de um maço amassado.
— Eu tenho o direito de não responder. Por favor, se retirem. — Wang se virou para voltar para dentro.
— Espere! — gritou Shi. Ele fez um gesto para o policial jovem a seu lado. — Passe para ele o endereço e o telefone. Você pode vir à tarde.
— Afinal, o que vocês querem? — perguntou Wang, agora com uma ponta de raiva na voz. A discussão atraiu os vizinhos para o corredor, curiosos para ver o que estava acontecendo.
— Capitão Shi! O senhor disse que… — O policial jovem se afastou um pouco com Shi e continuou falando aos sussurros, em um tom insistente. Aparentemente, Wang não era o único incomodado com a postura grosseira daquele homem.
— Professor Wang, por favor, não nos entenda mal. — Um dos oficiais do Exército, um major, se adiantou. — Vai haver uma reunião importante na tarde de hoje, que contará com a presença de diversos acadêmicos e especialistas. O general nos enviou para fazer o convite ao senhor.
— Tenho um compromisso marcado para a tarde de hoje.
— Sabemos disso. O general já conversou com o diretor do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia. Não podemos realizar essa reunião sem o senhor. Se não puder comparecer, precisaremos adiá-la.
Shi e o policial jovem não falaram nada, apenas se viraram e desceram a escada. Os dois oficiais do Exército viram a dupla ir embora e pareceram suspirar de alívio.
— Qual é o problema daquele cara? — murmurou o major para o outro oficial.
— Ele tem um péssimo histórico. Durante uma situação com reféns há alguns anos, ele agiu de maneira impulsiva, sem consideração pela vida dos demais. No final, três pessoas da mesma família morreram nas mãos dos bandidos. Dizem que ele também tem amigos no crime organizado e usa uma gangue para combater outra. No ano passado, praticou tortura para extrair confissões e deixou um dos suspeitos incapacitado para sempre. Foi por isso que ele foi suspenso da força…
Wang Miao desconfiava que os oficiais tinham a intenção de que ele entreouvisse a conversa. Talvez quisessem mostrar que eram diferentes daquele policial grosseiro, talvez quisessem deixá-lo curioso sobre a missão.
— Como é que um homem assim faz parte do Centro de Comando em Batalha? — perguntou o major.
— O general pediu especificamente para que ele participasse. Acho que deve ter algumas habilidades especiais. De qualquer forma, a função dele é bastante restrita. Além de questões de segurança pública, ele não tem permissão para fazer muita coisa.
Centro de Comando em Batalha? Wang olhou para os dois oficiais, perdido.
O carro enviado para buscar Wang Miao seguiu com o professor para um grande complexo na periferia da cidade. Como a porta só estava identificada por um número, sem letreiro, Wang deduziu que o edifício era das Forças Armadas, não da polícia.
Wang se surpreendeu com o caos que reinava na enorme sala de reuniões. Viu à sua volta muitos computadores em condições variadas de desordem. Como não havia mesas suficientes,
algumas estações de trabalho estavam instaladas no chão mesmo, onde cabos de rede e fios formavam um emaranhado. Em vez de prateleiras, o monte de roteadores estava largado em cima dos servidores. Havia papel branco espalhado por todos os lados. Em alguns cantos da enorme sala, telões de projeção formavam ângulos estranhos, como se fossem barracas de ciganos. Havia uma nuvem de fumaça no ar… Wang Miao não sabia se aquilo era o Centro de Comando em Batalha, mas sabia de uma coisa: fosse lá qual fosse a situação, era importante demais para eles se preocuparem com as aparências.
A mesa de reunião, formada pela junção de várias mesas menores, estava coberta de documentos e objetos variados. Os presentes tinham a roupa amarrotada e pareciam exaustos. Quem estava de gravata havia afrouxado o nó. Parecia que todo mundo ali tinha passado a noite em claro.
Um general de brigada chamado Chang Weisi presidia a reunião, e metade dos presentes era composta por oficiais das Forças Armadas. Após uma breve apresentação, Wang descobriu que muitos eram da polícia. Os demais eram acadêmicos como ele, incluindo alguns cientistas proeminentes especializados em pesquisa de base.
Wang também percebeu quatro estrangeiros e ficou chocado ao descobrir quem eram: um coronel da Aeronáutica dos Estados Unidos e um coronel do Exército britânico, ambos adidos da Otan, além de dois agentes da CIA, aparentemente na condição de observadores.
No rosto de todos em volta da mesa, Wang percebeu um mesmo sentimento: Fizemos tudo o que dava. Vamos acabar logo com esta merda.
Wang Miao viu Shi Qiang sentado à mesa. Em contraste com a grosseria do dia anterior, Shi chamou Wang de “Professor” ao cumprimentá-lo. Mas o sorriso debochado irritou Wang. Ele não queria ficar sentado ao lado de Shi, porém não teve escolha, pois era a única cadeira sobrando. A nuvem já densa de fumaça aumentou.
Conforme os documentos eram distribuídos, Shi se aproximou de Wang.
— Professor Wang, pelo que entendi o senhor pesquisa alguma espécie de… material novo?
— Nanomaterial — respondeu Wang.
— Já ouvi falar. Esse negócio é muito forte, né? O senhor acha que pode ser usado para cometer crimes? — Como Shi continuava estampando um meio sorriso, Wang não sabia se ele estava brincando.
— Como assim?
— Pois é, ouvi falar que um fio feito com esse negócio poderia ser usado para erguer um caminhão. Se bandidos roubassem um pouco desse material e fizessem uma faca, por acaso não conseguiriam cortar um carro ao meio só com um golpe?
— Não é preciso fazer uma faca. Esse tipo de material pode ser montado em uma linha cem vezes mais fina que um fio de cabelo. Se você estendesse essa linha em uma rua, um carro que passasse seria cortado ao meio, como manteiga… Agora, o que não pode ser usado para cometer crimes? Até uma faca cega de escamar peixe!
Shi começou a tirar um documento do envelope à sua frente e voltou a guardá-lo, perdendo o interesse de repente.
— Tem razão. Até mesmo um peixe pode ser usado para cometer crimes. Já tive um caso
assim de assassinato. Uma vez uma vadia capou o marido. Sabe o que ela usou? Uma tilápia congelada que estava no freezer! As barbatanas do bicho pareciam navalhas…
— Não quero saber. Você me chamou para esta reunião para falar disso?
— Peixe? Nanomateriais? Não, não, nada a ver com isso. — Shi se aproximou e sussurrou no ouvido de Wang. — Não seja legal com esses caras. Eles têm preconceito com a gente. Só querem tirar informação, mas nunca vão nos dizer nada. Olhe só para mim. Estou aqui há um mês e ainda não sei de nada, que nem você.
— Camaradas — disse o general Chang —, vamos começar. De todas as zonas de combate no mundo, esta se tornou o ponto de convergência. Precisamos deixar os camaradas presentes a par da atual situação.
Wang estranhou a expressão “zona de combate”. Também percebeu que o general não parecia disposto a explicar em detalhes o contexto da situação para pessoas como ele, o que reforçava a sugestão de Shi. Além disso, o general Chang havia usado a palavra “camaradas” duas vezes em sua breve introdução. Wang olhou para os agentes da Otan e da CIA sentados à sua frente. O general não acrescentara “cavalheiros”.
— Eles também são camaradas. Pelo menos é assim que todos se chamam por aqui — sussurrou Shi para Wang, apontando o cigarro para os quatro estrangeiros.
Wang ficou perplexo ao ver que Shi adivinhara seus pensamentos e achou impressionante o poder de observação dele.
— Da Shi, apague o cigarro. Já temos bastante fumaça aqui — disse o general Chang, enquanto folheava alguns documentos. Ele tratou Shi Qiang por um apelido, “Grande Shi”.
Shi procurou um cinzeiro, mas não achou. Por fim, largou o cigarro em uma xícara. Levantou a mão e, antes que Chang tivesse tempo de perceber, falou alto:
— General, gostaria de fazer um pedido que já fiz em outras reuniões: quero paridade de informação.
O general Chang levantou a cabeça.
— Nenhuma operação militar jamais teve paridade de informação. Peço desculpas a todos os acadêmicos, mas não posso passar mais detalhes.
— Nós não somos como os cabeçudos — respondeu Shi. — A polícia tem sido parte do Centro de Comando em Batalha desde o começo. Mas, até agora, ainda não sabemos do que se trata. Vocês insistem em nos manter afastados. Aprendem o que precisam das nossas técnicas e depois vão nos expulsando, um de cada vez.
Outros policiais presentes murmuraram para que Shi calasse a boca. Wang ficou surpreso de ver que Shi se atrevia a falar daquele jeito com um homem da patente de Chang. Só que a resposta de Chang foi ainda mais surpreendente.
— Da Shi, parece que você continua com o mesmo problema de quando estava no Exército. Por acaso acha que está falando pela polícia? Em razão de seu péssimo histórico, você tinha sido suspenso por vários meses e estava prestes a ser expulso da força. Intercedi a seu favor porque reconheço sua experiência. Você deveria dar valor a esta oportunidade.
Shi continuou com um tom grosseiro.
— Então estou trabalhando na esperança de que, com bons serviços prestados, eu possa me
redimir? Achei que você tinha falado que todas as minhas técnicas eram desonestas e corruptas.
— Mas são úteis. — Chang acenou com a cabeça para Shi. — A única coisa que nos importa é que elas sejam úteis. Em tempos de guerra, não podemos nos dar ao luxo de ter muitos escrúpulos.
— Não podemos ser meticulosos demais — disse um dos agentes da CIA, falando em perfeito mandarim padrão moderno. — Não podemos mais pensar de forma convencional.
O coronel britânico também parecia entender chinês. Ele assentiu com a cabeça.
— Ser ou não ser… — acrescentou ele, em inglês. — É uma questão de vida ou morte.
— O que ele está falando? — perguntou Shi a Wang.
— Nada — respondeu Wang de modo mecânico. A conversa ali parecia sair direto de um sonho. Tempos de guerra? Cadê essa guerra? Ele se virou para olhar por um dos janelões. Pelo vidro, vislumbrou Beijing ao longe: o sol da primavera iluminava os carros que enchiam as ruas como um rio denso; alguém passeava com um cachorro pela grama; crianças brincavam…
O que é mais real? O mundo lá fora ou aqui dentro destas paredes?
— O inimigo intensificou o padrão de ataques recentemente — disse o general Chang. — Os alvos ainda são cientistas de alto escalão. Por favor, passem os olhos pela lista de nomes no documento.
Wang tirou a primeira folha do documento, impressa com caracteres grandes. A lista parecia ter sido feita às pressas e continha nomes em chinês e inglês.
— Professor Wang, ao ver esses nomes, algum chama sua atenção? — perguntou o general Chang.
— Conheço três. Todos são pesquisadores famosos que atuam na vanguarda do estudo da física. — Wang estava um pouco distraído. Seus olhos se fixaram no último nome da lista. Em sua mente, os dois caracteres pareciam assumir uma cor diferente dos nomes anteriores. Como é que o nome dela aparece aqui? O que aconteceu com ela?
— Conhece ela? — Shi apontou para o nome com seu dedo grosso e amarelado de fumante. Wang não respondeu. — Rá. Não conhece. Mas quer conhecer?
Agora Wang Miao entendia por que o general Chang havia pedido para trabalhar com aquele homem. Shi, que parecia vulgar e descuidado, tinha olhos de águia. Talvez não fosse um policial bom, mas com certeza era temível.
Um ano antes, Wang Miao fora responsável pelos componentes de escala nano para o projeto de acelerador de partículas de alta energia “Sinotron II”. Certa tarde, durante um rápido intervalo no canteiro de obras de Liangxiang, Wang ficou impressionado com o cenário. Como fotógrafo de paisagens amador, muitas vezes Wang via as cenas à sua volta como composições artísticas.
O principal elemento da composição era o solenoide do eletroímã supercondutor que eles ainda estavam instalando. Com cerca de dez metros de altura e apenas parcialmente construído, o eletroímã se projetava como um monstro feito de pedaços gigantescos de metal e de uma confusão de tubos de refrigeração criogênica. Como um monte de entulho da Revolução Industrial, a estrutura transpirava a frieza inumana tecnológica e a barbárie do aço.
Na frente desse monstro de metal estava a figura esbelta de uma jovem. A iluminação da
composição também era fantástica: o monstro de metal se encontrava imerso na sombra de uma cobertura temporária para obras, o que enfatizava ainda mais o aspecto grave e duro. Apesar disso, um raio de sol vespertino passava pelo buraco no centro do abrigo, atingindo a mulher. O brilho suave iluminava os cabelos macios e dava destaque para o pescoço branco visível acima do colarinho do macacão, como se uma flor solitária desabrochasse em meio a uma ruína metálica após uma tempestade violenta…
— O que você está olhando? Volte ao trabalho!
Wang despertou do devaneio com um choque, mas logo percebeu que o diretor do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia não estava falando com ele, e sim com um jovem engenheiro que também tinha ficado olhando para a mulher. Ao voltar da arte para a realidade da vida, Wang notou que a jovem não era uma operária comum — o engenheiro-chefe estava ao lado dela, explicando algo com um tom respeitoso.
— Quem é ela? — perguntou Wang ao diretor.
— Você devia saber — respondeu o diretor, traçando um círculo grande com a mão. — O primeiro experimento neste acelerador de vinte bilhões de yuans provavelmente vai ser um teste do modelo de supercordas dela. Acontece que tempo de experiência pesa no ramo da física teórica e, em outra situação, ela não seria vista como experiente o bastante para ser a primeira da fila. Só que, como aqueles acadêmicos com mais bagagem não se atreveram a aparecer antes, com medo de passar vergonha caso suas teorias fracassassem, ela ganhou a chance.
— O quê? Yang Dong é… uma mulher?
— Pois é — disse o diretor. — Só descobrimos quando finalmente a conhecemos, dois dias atrás.
— Ela tem algum problema psicológico? — perguntou o jovem engenheiro. — Por que ela não quer conceder entrevistas para a mídia? Será que ela é como Qian Zhongshu,* que morreu sem nunca ter aparecido na TV? — As palavras de Wang estavam marcadas por uma ponta de autodepreciação. Ele ainda não era famoso o bastante para chamar a atenção da mídia, que dirá para recusar convites de entrevista.
— Mas pelo menos nós sabíamos que Qian era homem. Aposto que Yang passou por algumas experiências estranhas na infância. Talvez tenha ficado um pouco autista por causa disso.
Yang se aproximou do engenheiro-chefe. Quando passaram, ela sorriu para Wang e os demais, fazendo um gesto sutil com a cabeça, sem falar nada. Wang se lembrava daqueles olhos límpidos.
À noite, sentado no escritório, Wang estava admirando as poucas fotografias de paisagem penduradas na parede: eram as criações de que ele mais se orgulhava. Fixou os olhos em uma cena de fronteira: um vale desolado que terminava em uma montanha coberta de neve. Na parte mais próxima do vale, metade de uma árvore morta, desgastada por muitos anos de exposição, ocupava um terço da foto. Em sua imaginação, Wang colocou a figura da mulher que não saía de seus pensamentos no fundo do vale. Ficou surpreso ao constatar que o cenário todo pareceu ganhar vida, como se o mundo da fotografia reconhecesse aquela figura minúscula e reagisse, como se o cenário todo existisse para ela.
Em seguida, Wang a imaginou em cada uma das outras fotografias, às vezes colando os olhos
dela no céu vazio acima das paisagens. Essas imagens também ganharam vida, alcançando uma beleza que Wang jamais havia imaginado.
Wang sempre havia pensado que suas fotografias careciam de algum tipo de espírito. Agora entendia que o que faltava era ela.
— Todos os físicos nessa lista cometeram suicídio nos últimos dois meses — disse o general Chang.
Wang ficou chocado. Aos poucos, as paisagens em preto e branco se desvaneceram em sua mente. As fotografias já não possuíam a figura dela no primeiro plano, e seus olhos foram riscados do firmamento. Aqueles mundos estavam todos mortos.
— Quando… isso aconteceu? — perguntou Wang, em tom mecânico.
— Nos últimos dois meses — repetiu Chang.
— Você está se referindo ao último nome, não é? — indagou Shi, satisfeito. — Ela foi a última a se suicidar. Na noite retrasada, uma overdose de remédios para dormir. A morte foi pacífica. Sem dor.
Por um instante, Wang sentiu-se grato a Shi.
— Por quê? — perguntou Wang. Os cenários mortos daquelas fotos de paisagem continuavam martelando em sua cabeça.
— Nossa única certeza — respondeu o general Chang — é a seguinte: todos cometeram suicídio pelo mesmo motivo. Mas é difícil levantar hipóteses. Talvez seja impossível para nós, que não somos especialistas, cogitar o motivo. O documento contém trechos das cartas de suicídio. Todos vocês podem examiná-los após a reunião.
Wang folheou as páginas das cartas: todas pareciam ensaios extensos.
— Dr. Ding, por favor, o senhor poderia mostrar a mensagem de Yang Dong ao professor Wang? A dela é a mais curta e, talvez, a mais representativa.
O homem em questão, Ding Yi, havia permanecido em silêncio até aquele momento. Após mais um instante, ele enfim pegou um envelope branco e entregou para Wang por cima da mesa.
— Ele era o namorado de Yang — sussurrou Shi. Wang se lembrava de ter visto Ding no canteiro de obras do acelerador de partículas em Liangxiang. Ele era um teórico que havia ficado famoso ao descobrir os macroátomos quando estava estudando relâmpagos globulares. Wang tirou do envelope uma folha fina e de formato irregular, com uma fragrância sutil… não de papel, mas de bétula. Havia uma única linha de caracteres escritos em uma caligrafia elegante:
Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá. Sei que o que estou fazendo é irresponsável. Mas não tenho escolha.
O papel não estava nem assinado. Ela se fora.
— A física… não existe? — Wang não fazia ideia do que pensar. O general Chang fechou a pasta.
— O arquivo também contém informações específicas relativas aos resultados experimentais obtidos após a finalização dos três aceleradores de partículas mais novos do mundo. Como é
bastante técnico, não trataremos disso aqui. O primeiro objeto de nossa investigação é a Fronteiras da Ciência. A Unesco determinou que 2005 seria o Ano Mundial da Física, e essa organização se formou gradativamente, a partir dos diversos congressos e encontros acadêmicos realizados ao longo daquele ano por físicos do mundo inteiro. Dr. Ding, já que o senhor estuda física teórica, poderia nos dar mais informações sobre essa organização?
Ding confirmou com a cabeça.
— Não tenho nenhuma relação direta com a Fronteiras da Ciência, mas a organização é famosa no meio acadêmico. O objetivo central dela é ser uma resposta para o seguinte problema: desde a segunda metade do século XX, a física perdeu aos poucos a concisão e a simplicidade das teorias clássicas. Os modelos teóricos modernos se tornaram cada vez mais complexos, vagos e imprecisos. A verificação experimental se tornou mais difícil também. Isso tudo é um sinal de que a vanguarda da pesquisa em física parece estar chegando a um limite.
“Os membros da Fronteiras da Ciência querem experimentar uma nova forma de pensar. Para simplificar: eles querem usar os métodos científicos para descobrir os limites da ciência, para tentar descobrir se existe limite para a extensão e a precisão com que a ciência pode conhecer a natureza, um limite que a ciência não pode transpor. O desenvolvimento da física moderna parece sugerir que essa linha já foi alcançada.”
— Muito bem — disse o general Chang. — De acordo com nossas investigações, a maioria dos pesquisadores que se suicidaram tem alguma ligação com a Fronteiras da Ciência, e alguns até faziam parte dela. Mas não encontramos indícios de drogas psicotrópicas nem de técnicas similares à manipulação ideológica presente em seitas religiosas. Em outras palavras, embora tenham sido influenciados pela Fronteiras da Ciência, isso ficou limitado a relações acadêmicas legítimas. Professor Wang, visto que a organização entrou em contato com o senhor recentemente, gostaríamos de pedir algumas informações.
— Incluindo o nome de seus contatos — acrescentou Shi de maneira grosseira —, o horário e o local dos encontros, o assunto das conversas e eventuais trocas de cartas ou e-mails…
— Cale-se, Da Shi! — disse o general Chang.
— Por acaso acha que vamos esquecer que você tem boca se não a mantiver aberta o tempo todo?
Shi pegou a xícara, viu a guimba de cigarro enfiada no chá e voltou a colocá-la na mesa.
As perguntas de Shi voltaram a deixar Wang irritado, a mesma sensação que um homem teria ao descobrir que engoliu uma mosca junto com a comida. A gratidão experimentada havia pouco desapareceu sem deixar vestígios. Mas ele se conteve e respondeu:
— Meu contato com a Fronteiras da Ciência começou com Shen Yufei, uma física japonesa descendente de chineses que trabalha atualmente para uma empresa japonesa aqui em Beijing. Ela já trabalhou em um laboratório da Mitsubishi com pesquisa sobre nanotecnologia. Nós nos conhecemos em um congresso no começo deste ano. Por intermédio dela, conheci alguns de seus amigos físicos, todos integrantes da Fronteiras da Ciência, alguns chineses, alguns estrangeiros. Em nossas conversas, todos os assuntos eram… como dizer? Bem radicais. Todos os temas estavam relacionados à pergunta que o dr. Ding acabou de mencionar: qual é o limite da ciência?
“A princípio, eu não tinha muito interesse nesses assuntos, que só encarava como um passatempo. Trabalho com pesquisa aplicada e não conheço muito dessas questões teóricas. Estava interessado principalmente em ouvir os debates e as discussões que eles travavam. Todos eram grandes pensadores, com pontos de vistas originais, e eu sentia que minha mente se expandia com as conversas. Com o tempo, fui ficando mais interessado. Mas os debates se limitavam à teoria pura e nada mais. Eles me convidaram uma vez a entrar para a Fronteiras da Ciência. Só que, caso eu tivesse aceitado, comparecer às discussões teria se transformado em obrigação. Como eu não tinha muito tempo livre nem energia de sobra, recusei.”
— Professor Wang — disse o general Chang —, gostaríamos que o senhor aceitasse o convite e entrasse para a Fronteiras da Ciência. Esse é o principal motivo para termos insistido em sua presença na reunião de hoje. Por intermédio do senhor, gostaríamos de saber mais sobre as atividades internas da organização.
— Vocês querem que eu seja um espião? — Wang não estava à vontade.
— Um espião! — Shi riu.
— Só queremos que o senhor nos passe algumas informações. Não temos nenhuma outra via de acesso.
Wang balançou a cabeça.
— Sinto muito, general. Não posso fazer isso.
— Professor Wang, a Fronteiras da Ciência é composta de pensadores internacionais de primeira linha. O trabalho de investigação é extremamente complexo e delicado. Para nós, seria como pisar em ovos. Sem a ajuda de alguém do meio acadêmico, não temos como fazer nenhum progresso. Por isso estamos fazendo esse pedido. Mas respeitaremos sua vontade. Se o senhor não aceitar, vamos entender.
— Eu ando… muito atarefado. Não tenho tempo para isso.
— Tudo bem, professor Wang. Não vamos mais desperdiçar o seu tempo. Obrigado por vir a esta reunião.
Wang esperou mais alguns segundos até perceber que havia sido dispensado.
O general Chang o acompanhou gentilmente até a porta. Dava para ouvir a voz alta de Shi atrás deles.
— É melhor assim. Nem concordo com o plano mesmo. Muitos CDFs já se mataram. Mandar esse cara seria o mesmo que jogar um pedaço de carne dentro de um canil.
Wang se virou, foi até Shi, reprimiu a raiva e disse:
— O seu jeito de falar não é adequado para um bom policial.
— Quem disse que eu sou um bom policial?
— Não sei por que esses pesquisadores se mataram, mas você não devia falar deles com tanto desdém. A mente brilhante desses estudiosos trouxe contribuições inigualáveis para a humanidade.
— Você está dizendo que eles são melhores do que eu? — Ainda sentado, Shi ergueu os olhos para encarar Wang. — Eu pelo menos não me mataria só porque alguém me falou uma besteira.
— Você acha que eu me mataria?
— Tenho que me preocupar com a sua segurança. Lá estava aquele sorrisinho debochado de novo.
— Acho que eu estaria muito mais seguro que você nesse tipo de situação. Você deve saber que a capacidade de uma pessoa de discernir a verdade é diretamente proporcional ao conhecimento que ela tem.
— Não sei, não. Digamos que alguém como você…
— Silêncio, Da Shi! — disse o general Chang. — Mais uma palavra e você será expulso!
— Não tem problema — respondeu Wang. — Deixe falar. — Ele se virou para o general Chang. — Mudei de ideia. Vou entrar para a Fronteiras da Ciência, como vocês querem.
— Ótimo! — Shi balançou a cabeça com força. — Fique atento depois de entrar. Obtenha informações sempre que for possível. Por exemplo, dê uma olhada na tela dos computadores deles, decore endereços de e-mail ou de sites…
— Basta! Você não entendeu. Não quero ser um espião. Só quero provar que você não passa de um idiota!
— Se você continuar vivo por algum tempo depois de entrar, já vai ser uma ótima prova. Mas eu temo por sua segurança… — Shi levantou o rosto, e a expressão debochada se transformou em um sorriso maldoso.
— É claro que vou continuar vivo! Mas nunca mais quero ver você.
Eles mantiveram Wang afastado enquanto os outros iam embora para que ele não topasse com Shi Qiang de novo. Depois, o general Chang acompanhou Wang até o pé da escada e chamou um carro para levá-lo de volta para casa.
— Não se preocupe com Shi Qiang — disse ele para Wang. — Ele é daquele jeito mesmo. Na verdade, Shi é um policial muito experiente e um especialista em antiterrorismo. Vinte anos atrás, era soldado da minha companhia.
Enquanto os dois se aproximavam do carro, Chang acrescentou:
— Professor Wang, o senhor deve ter muitas perguntas.
— O que aquilo tudo que vocês falaram lá dentro tem a ver com as Forças Armadas?
— A guerra tem tudo a ver com o Exército.
— Mas onde é que está essa guerra? Este talvez seja o período mais pacífico da história. Chang o encarou com um sorriso indecifrável.
— O senhor saberá em breve. Todo mundo saberá. Professor Wang, já aconteceu algo com o senhor que mudou a sua vida da noite para o dia? Alguma circunstância que tenha feito com que o mundo se tornasse um lugar totalmente diferente para o senhor?
— Não.
— Então o senhor teve sorte na vida. Mesmo que o mundo seja cheio de imprevistos, o senhor nunca se deparou com uma crise.
Wang revirou as palavras na cabeça, ainda sem entender.
— Acho que isso vale para a maioria das pessoas.
— Então a maioria das pessoas teve sorte na vida.
— Mas… muitas gerações viveram dessa forma simples.
— Todas tiveram sorte.
— Preciso confessar que não estou me sentindo muito esperto hoje. O senhor está sugerindo que…
— Sim, que a humanidade teve sorte ao longo de toda sua história. Desde a Idade da Pedra até hoje, nunca aconteceu nenhuma crise de verdade. Tivemos sorte, muita sorte. Agora, como tudo isso foi sorte, um dia teria que acabar. Vou mais longe: já acabou. Prepare-se para o pior.
Embora Wang quisesse saber mais, Chang balançou a cabeça e se despediu, evitando novas perguntas.
Depois de Wang entrar no carro, o motorista quis saber para onde deveria levar o passageiro. Wang informou o endereço e perguntou:
— Ah, não foi você que me trouxe aqui? Achei que fosse o mesmo carro.
— Não, não fui eu. Eu trouxe o dr. Ding.
Wang teve uma ideia nova. Pediu para o motorista levá-lo ao endereço de Ding.
* Qian Zhongshu (1910-98) foi uma das mentes literárias chinesas mais famosas do século XX. Erudito, mordaz e recluso, ele insistia em rejeitar convites para aparecer na mídia. Poderia ser considerado uma versão chinesa de Thomas Pynchon.
Assim que abriu a porta do apartamento de três quartos novinho em folha de Ding Yi, Wang sentiu cheiro de álcool. Ding estava sentado no sofá, com a TV ligada, olhando para o teto. O apartamento estava inacabado, só com alguns móveis e poucos itens de decoração, e a sala de estar imensa parecia muito vazia. O objeto que mais chamava a atenção era a mesa de sinuca no canto.
Ding não parecia contrariado com o fato de Wang ter entrado sem ser convidado. Era nítido que estava com vontade de conversar com alguém.
— Comprei o apartamento há uns três meses — comentou Ding. — Por quê? Será que achei mesmo que ela ia querer começar uma família? — Pela sua risada, parecia que estava bêbado.
— Vocês dois… — Wang queria saber os detalhes da vida de Yang Dong, mas não sabia como perguntar.
— Ela parecia uma estrela, sempre muito distante. Até a luz que ela lançava em mim era fria.
— Ding foi até uma das janelas e olhou para o céu noturno.
Wang não falou nada. A única coisa que ele queria era ouvir a voz dela. Porém, um ano antes, enquanto o sol descia no oeste, no instante em que cruzaram os olhares, nenhum dos dois falou nada. Wang nunca escutara a voz dela.
Ding fez um gesto com a mão, como se tentasse espantar algo.
— Professor Wang, você tinha razão. Não se envolva com a polícia nem com os militares. São todos uns idiotas. A morte daqueles físicos não teve nada a ver com a Fronteiras da Ciência. Já expliquei para eles diversas vezes, mas não consegui fazê-los entender.
— Parece que eles realizaram uma investigação independente.
— Isso mesmo, e a abrangência dessa investigação foi global. Eles já deviam saber que dois dos mortos nunca tiveram contato com a Fronteiras da Ciência, incluindo… Yang Dong. — Parecia que Ding tinha dificuldade para pronunciar aquele nome.
— Ding Yi, você sabe que já estou envolvido. Então… gostaria de saber o motivo que levou Yang a fazer… aquela escolha. Acho que você sabe de alguma coisa. — Wang achou que devia ter soado muito estúpido enquanto se esforçava para disfarçar suas verdadeiras intenções.
— Se você souber mais, só vai se afundar nisso tudo. Por enquanto, seu envolvimento é superficial. Agora, com mais conhecimento, seu espírito também será sugado para dentro de um poço, e aí você estará em apuros.
— Eu trabalho com pesquisa aplicada. Não sou tão sensível como vocês, teóricos.
— Muito bem. Você joga sinuca? — Ding foi até a mesa de jogo.
— Arriscava umas tacadas na faculdade.
— Nós dois adorávamos jogar. Lembrava a colisão de partículas no acelerador. — Ding pegou duas bolas: uma preta e uma branca. Colocou a bola preta perto de uma das caçapas, e deixou a branca a cerca de dez centímetros. — Você consegue encaçapar a bola preta?
— Tão de perto assim? Todo mundo consegue.
— Tente.
Wang pegou o taco, deu um golpe de leve na bola branca e jogou a bola preta na caçapa.
— Ótima jogada. Venha, vamos colocar a mesa em um lugar diferente. — Ding orientou o confuso Wang a levantar a mesa pesada. Juntos, eles a arrastaram até outro canto da sala, perto de uma janela. Em seguida, Ding pegou e colocou a bola preta perto da caçapa e, mais uma vez, apanhou e posicionou a bola branca a cerca de dez centímetros de distância. — Você acha que consegue de novo?
— Claro.
— Vá em frente.
— Vamos tentar em outro lugar. — Eles ergueram e levaram a mesa até um terceiro canto da sala. Ding dispôs as bolas como antes. — Pronto.
— Sabe de uma coisa, nós…
— Pronto!
Wang deu de ombros, impotente. Ele encaçapou a bola preta pela terceira vez.
Eles deslocaram a mesa mais duas vezes: uma para perto da porta da sala, outra de volta à posição original. Ding dispôs as bolas outras duas vezes, e Wang acertou outras duas vezes. A essa altura, os dois estavam ligeiramente sem fôlego.
— Bom, essa é a conclusão do nosso experimento. Vamos analisar os resultados. — Ding acendeu um cigarro antes de prosseguir. — Realizamos o mesmo experimento cinco vezes. Quatro dos experimentos diferiram em local e tempo. Dois deles foram no mesmo local, mas em momentos diferentes. Você ficou chocado com os resultados? — Ele abriu os braços em um gesto exagerado. — Cinco vezes! Cada experimento de colisão rendeu exatamente o mesmo resultado!
— O que você está tentando dizer? — perguntou Wang, ainda sem ar.
— Você consegue explicar esse resultado incrível? Por favor, use a linguagem da física.
— Certo… Durante os cinco experimentos, a massa das duas bolas nunca se alterou. Em termos de localização, contanto que consideremos como referência a superfície da mesa, também não houve mudança. A velocidade da bola branca ao atingir a bola preta também permaneceu basicamente igual. Portanto, a transferência de energia entre as duas bolas não mudou. Logo, em todos os cinco experimentos, o resultado foi a bola preta cair na caçapa.
Ding pegou uma garrafa de conhaque e dois copos sujos no chão. Encheu os dois e entregou um para Wang. Ele recusou.
— Ora, vamos comemorar. Descobrimos um grande princípio da natureza: as leis da física não variam no tempo e no espaço. Todas as leis da física, em toda a história da humanidade, do
princípio de Arquimedes até a teoria das cordas, todas as descobertas científicas, todos os frutos intelectuais da nossa espécie são subprodutos dessa grande lei. Comparados a nós, teóricos como Einstein e Hawking não passam de meros engenheiros práticos.
— Ainda não entendo o que você está querendo dizer.
— Imagine outro conjunto de resultados. Na primeira vez, a bola branca lança a preta para dentro da caçapa. Na segunda, a bola preta rebate para outra direção. Na terceira, a bola preta voa até o teto. Na quarta, a bola preta atravessa a sala como um pardal assustado e acaba se escondendo no bolso do seu paletó. Na quinta, a bola preta sai voando quase na velocidade da luz, quebra a borda da mesa de sinuca, atravessa a parede e abandona a Terra e o sistema solar, tal como Asimov descreveu certa vez.* O que você acharia nesse caso?
Ding encarou Wang. Após um longo silêncio, Wang por fim disse:
— Isso aconteceu mesmo. Não é verdade?
Ding esvaziou os dois copos em suas mãos. Ele ficou olhando para a mesa de sinuca como se estivesse vendo um demônio.
— Aconteceu. Nos últimos anos, finalmente obtivemos o equipamento necessário para conduzir experiências e testar teorias fundamentais. Três “mesas de sinuca” caras foram construídas: uma na América do Norte, outra na Europa, e a terceira em Liangxiang, como você sabe. Seu Centro de Pesquisa em Nanotecnologia recebeu muito dinheiro por causa dela.
“Esses aceleradores de partículas de alta energia aumentaram em uma ordem de magnitude a quantidade de energia disponível para a colisão de partículas, um nível inédito para a raça humana. Porém, com os equipamentos novos, as mesmas partículas, os mesmos níveis de energia e os mesmos parâmetros experimentais apresentavam resultados diferentes. Os resultados variavam não só com aceleradores diferentes, mas até quando os experimentos eram realizados em um mesmo acelerador em momentos diferentes. Os físicos entraram em pânico. Repetiram os experimentos de colisão com ultra-alta energia várias vezes, usando as mesmas condições, mas o resultado sempre era diferente e parecia não haver padrão nenhum.”
— O que isso significa? — perguntou Wang. Quando percebeu que Ding o encarava sem falar nada, acrescentou: — Ah, eu sou de nanotecnologia, e também trabalho com estruturas em escala micro. Mas isso é muito maior, em ordens de magnitude, do que a escala em que você trabalha. Por favor, me explique.
— Significa que as leis da física não são invariáveis no tempo e no espaço.
— O que isso significa?
— Acho que você pode deduzir o resto. Até o general Chang entendeu. Ele é um homem muito esperto.
Wang olhou pela janela, pensativo. As luzes da cidade estavam tão claras que as estrelas no céu noturno tinham sumido.
— Significa que as leis da física que poderiam se aplicar em qualquer lugar do universo não existem, o que significa que a física… também não existe. — Wang se virou para a janela de novo.
— “Sei que o que estou fazendo é irresponsável. Mas não tenho escolha” — disse Ding. — Essa era a segunda parte da mensagem dela. Você acabou de topar com a primeira parte. Agora
consegue entendê-la? Pelo menos um pouco?
Wang pegou e alisou um pouco a bola branca, antes de recolocá-la na mesa.
— Para alguém que explora a vanguarda da teoria, isso seria mesmo uma catástrofe.
— Para se realizar algo em física teórica é preciso ter quase uma fé religiosa. É fácil ser conduzido até o abismo.
Quando os dois se despediram, Ding passou um endereço para Wang.
— Se você tiver tempo, por favor, faça uma visita à mãe de Yang Dong. Ela e a mãe sempre moraram juntas, e a mãe vivia para a filha. Agora a velha não tem mais ninguém.
— Ding, é nítido que você sabe muito mais do que eu. Pode me falar mais? Você acredita mesmo que as leis da física não são invariáveis no tempo e no espaço?
— Não sei de nada. — Ding ficou encarando Wang por um bom tempo. Por fim, disse: — Mas eis a questão.
Wang sabia que ele só estava terminando o que o coronel britânico tinha começado a falar: Ser ou não ser: eis a questão.
* Ver o conto “The Billiard Ball”, de Isaac Asimov. (N. A.)
O CRIADOR DE AVES
O dia seguinte era o começo do fim de semana. Wang se levantou cedo e saiu de bicicleta. Como fotógrafo amador, seus temas preferidos eram cenas de natureza sem presença humana. No entanto, como já estava na meia-idade, não tinha mais energia para se entregar a passeios tão indulgentes e só tirava fotos de cenas urbanas.
De modo consciente ou não, costumava escolher cantos da cidade que retivessem algum aspecto do mundo selvagem: um lago ressecado em um parque, a terra recém-revirada em um canteiro de obras, um pouco de mato tentando brotar das rachaduras de um pedaço de concreto. Para eliminar a extravagância de cores da cidade no fundo, ele só usava filme preto e branco. De maneira um tanto inesperada, havia desenvolvido um estilo próprio e chamado um pouco de atenção. Seus trabalhos foram escolhidos para duas exposições, e Wang fazia parte da Associação de Fotógrafos. Sempre que saía para tirar fotos, pegava a bicicleta e circulava pela cidade em busca de inspiração e composições cativantes. Com frequência, passava o dia inteiro fora.
Naquela manhã, Wang se sentia estranho. Embora seu estilo fotográfico tendesse para o clássico, calmo e digno, parecia que naquela oportunidade ele não conseguiria entrar no clima necessário para composições desse tipo. Em sua cabeça, a cidade, despertando do sono, parecia construída sobre areia movediça. A estabilidade era ilusória. Wang havia sonhado com aquelas duas bolas de sinuca a noite inteira. Elas voavam por um espaço negro sem formar qualquer padrão, e a bola preta desaparecia no fundo escuro e só revelava sua existência de vez em quando, ao obscurecer a branca.
Será que a natureza fundamental da matéria poderia mesmo ser a ausência de leis? Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário ocorrido em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?
Quando voltou a si, percebeu que estava ao pé do recém-concluído edifício da Televisão Central da China. Ele parou no acostamento e levantou a cabeça para contemplar a gigantesca torre em formato de A, tentando retomar a sensação de estabilidade. Seu olhar acompanhou a ponta reta do edifício, cintilando na luz da manhã e apontando para as profundezas azuis e infinitas do céu. De repente, algumas palavras apareceram na sua mente: “franco-atirador” e “criador de aves”.
Quando os integrantes da Fronteiras da Ciência debatiam a física, usavam muito a abreviação “FC”. Não estavam falando de “ficção científica”, e sim das expressões “franco-atirador” e “criador de aves”. Era uma referência a duas hipóteses, ambas relacionadas com a natureza fundamental das leis do universo.
Na hipótese do franco-atirador, um atirador competente dispara contra um alvo, criando furos de dez em dez centímetros. Agora, digamos que a superfície do alvo seja habitada por criaturas inteligentes bidimensionais. Seus cientistas, ao observar o universo, descobrem uma grande lei: “Existe um furo no universo a cada dez centímetros”. Eles interpretaram equivocadamente o resultado do capricho momentâneo do franco-atirador, achando que fosse uma lei permanente do universo.
A hipótese do criador de aves, por sua vez, tem um quê de história de terror. Todo dia de manhã, um criador de perus aparece para alimentar as aves. Um peru cientista, após observar esse padrão se repetir sem alterações durante quase um ano, faz a seguinte descoberta: “Todo dia de manhã, às onze, a comida chega”. Na manhã da véspera de Natal, o cientista anuncia essa lei para os demais perus. Porém, às onze da manhã desse dia, a comida não chega: o criador de perus aparece e mata todas as aves.
Wang sentiu a estrada sob seus pés se deslocar como areia movediça. O edifício em forma de A pareceu balançar e estremecer. Ele logo voltou os olhos para a rua.
Para se livrar da ansiedade, Wang se forçou a usar todo o rolo de filme. Ele voltou para casa antes do almoço. Sua esposa já havia saído com o filho deles e ficaria fora por algum tempo. Normalmente, Wang teria se apressado para revelar o filme, mas naquele dia estava sem ânimo. Após um almoço rápido e simples, decidiu tirar um cochilo. Como não havia dormido bem na noite anterior, quando acordou já eram quase cinco da tarde. Só então se lembrou do rolo de filme e entrou na apertada sala escura que tinha sido convertida a partir de um closet.
Depois de revelar o filme, Wang começou a olhar os negativos para ver se alguma das fotos merecia ampliação. Porém, viu algo estranho logo na primeira imagem, em uma foto de um gramado pequeno ao lado de um shopping grande. O centro do negativo continha uma linha de marcas brancas minúsculas que, vistas mais de perto, eram na verdade números: 1200:00:00.
A segunda foto também tinha números: 1199:49:33. Assim como a terceira: 1199:40:18.
Na verdade, todas as fotos do rolo tinham números parecidos, até a trigésima sexta (e última) imagem: 1194:16:37.
O primeiro pensamento de Wang foi que havia algo errado com o filme. A câmera usada era uma Leica M2 de 1988 — totalmente analógica, de modo que era impossível o aparelho acrescentar uma marcação de data. Com a lente excepcional e os mecanismos internos sofisticados, ainda era considerada uma excelente câmera profissional até mesmo para padrões digitais.
Ao reexaminar os negativos, Wang descobriu outra peculiaridade com os números: eles pareciam se adaptar ao fundo. Quando o fundo era preto, os números eram brancos, e vice-versa. A mudança parecia ter sido concebida para maximizar o contraste dos números em favor da visibilidade. No momento em que Wang examinava o décimo sexto negativo, seu coração já estava acelerado, e ele sentiu um calafrio subindo pela espinha.
A foto era de uma árvore morta na frente de um muro antigo, manchado, com partes pretas e brancas. Em um fundo assim, seria difícil ler até em cores. No entanto, na foto, os números assumiram uma posição vertical para acompanhar a curva do tronco da árvore, possibilitando que os dígitos brancos aparecessem contra a cor escura da árvore morta, como se fossem uma serpente rastejante.
Wang começou a analisar o padrão matemático dos números. À primeira vista, achou que fosse alguma sequência predeterminada, mas a diferença entre os números não era constante. Em seguida, imaginou que os números representavam o tempo em forma de horas, minutos e segundos. Pegou seu registro de fotografias, que marcava a hora exata em que cada foto tinha sido tirada, até os segundos, e descobriu que a diferença entre os números de duas fotos consecutivas correspondia à diferença de tempo entre as horas em que elas foram batidas.
Uma contagem regressiva.
A contagem começava com 1200 horas. E agora restavam cerca de 1194 horas, pouco menos de cinquenta dias.
Agora? Não, no momento em que tirei a última foto. Será que a contagem continua?
Wang foi até a sala escura, pôs um rolo novo na Leica e começou a tirar fotos aleatórias. Saiu até para a varanda a fim de dar alguns cliques externos. Depois, retirou o filme e voltou para a sala escura. No filme revelado, os números voltaram a aparecer em cada negativo como se fossem fantasmas. O primeiro estava marcado 1187:27:39. A diferença equivalia ao tempo passado entre a última foto do rolo anterior e a primeira do novo. Depois disso, os números diminuíam a uma taxa de três ou quatro segundos por imagem: 1187:27:35, 1187:27:31, 1187:27:27, 1187:27:24… tal qual os intervalos das fotos rápidas que havia tirado.
A contagem continuava.
Wang colocou mais um rolo na máquina. Tirou várias fotos apressadamente, inclusive algumas com a tampa da lente fechada. Quando estava tirando o rolo da máquina, sua mulher e o filho chegaram. Antes de entrar na sala escura para revelar o filme, ele colocou outro rolo na Leica e pediu para a mulher.
— Aqui, termine este rolo para mim.
— O que devo fotografar? — perguntou a esposa, encarando o marido, espantada. Wang nunca havia permitido que ninguém encostasse em sua câmera, embora para ela e para o filho aquilo não despertasse nenhum interesse. Aos olhos deles, era só uma antiguidade sem graça que custava mais de vinte mil yuans.
— Tanto faz. Tire foto do que quiser. — Wang enfiou a câmera nas mãos dela e se meteu na sala escura.
— Tudo bem. Dou Dou, que tal eu tirar umas fotos suas? — A esposa dele virou a lente para o filho.
De repente, Wang vislumbrou a imagem dos dígitos fantasmagóricos estampada no rosto de seu filho, como a corda de uma forca. Sentiu um arrepio.
— Não, isso não. Tire foto de outra coisa.
— Por que não consigo apertar de novo? — perguntou ela. Wang ensinou a esposa a rodar o filme para avançá-lo.
— Assim. Você precisa fazer isso depois de cada foto. Em seguida, ele voltou para dentro da sala escura.
— Muito complicado! — A esposa de Wang, médica, não conseguia entender por que alguém usaria um equipamento tão caro e obsoleto quando havia no mercado opções de câmeras digitais de dez a vinte megapixels. Sem falar que o marido usava filme preto e branco!
Depois de revelar o terceiro filme, Wang levantou a película na frente da luz vermelha. Viu que a contagem regressiva fantasmagórica continuava. Os números apareciam com clareza em todas as fotos aleatórias, incluindo as poucas tiradas com a lente tampada: 1187:19:06, 1187:19:03, 1187:18:59, 1187:18:56…
Sua esposa bateu à porta da sala escura e disse que tinha terminado de tirar as fotos. Wang abriu a porta e pegou a câmera. Suas mãos tremiam enquanto ele tirava o rolo. Wang ignorou o olhar de preocupação da mulher, voltou com o filme para dentro da sala escura e fechou a porta. Trabalhou às pressas e sem cuidado, derrubando revelador e fixador pelo chão todo. Pouco tempo depois, as imagens estavam reveladas. Ele fechou os olhos e rezou em silêncio. Por favor, não apareça. Seja o que for, por favor, não apareça agora. Que não seja a minha hora…
Examinou o filme molhado com uma lupa. Não havia contagem. Sua mulher tinha deixado o obturador com uma velocidade baixa, e o manuseio amador fizera com que todas as imagens ficassem desfocadas. Mesmo assim, para Wang, aquelas eram as fotos mais agradáveis que tinha visto na vida.
Wang saiu da sala escura e soltou um grande suspiro. Estava coberto de suor. A esposa estava na cozinha, preparando o jantar, e o filho brincava no quarto. Ele se sentou no sofá e refletiu sobre a questão de modo mais racional.
Em primeiro lugar, os números, que registravam com precisão a passagem do tempo entre as fotos e exibiam sinais de inteligência, não podiam ter sido impressos previamente no filme. Algo expôs aquelas sequências numéricas no filme. Mas o quê? Será que a câmera estava com algum defeito? Será que algum mecanismo fora instalado sem que ele soubesse? Depois de tirar a lente e desmontar o aparelho, Wang examinou o interior com uma lupa, conferiu cada componente impecável e não viu nada fora do lugar. Em seguida, considerando que os números apareciam mesmo nas fotos tiradas com a lente coberta, Wang percebeu que a fonte de luz mais provável era alguma forma de raio invasor. Mas como isso era tecnologicamente possível? Onde estava a origem desses raios? Como eles poderiam ter sido controlados?
Pelo menos diante da tecnologia do momento, esse tipo de poder seria sobrenatural.
A fim de ver se a contagem fantasmagórica tinha desaparecido, Wang colocou outro filme na Leica e tirou mais fotos aleatórias. Quando o rolo foi revelado, a tranquilidade passageira de Wang foi abalada de novo. Ele sentiu que estava sendo levado à beira da insanidade. A contagem havia voltado. Pelo que os números mostravam, ela nunca tinha parado, só não aparecera no filme utilizado pela esposa.
1186:34:13, 1186:34:02, 1186:33:46, 1186:33:35…
Wang saiu correndo da sala escura e deixou o apartamento. Bateu com força à porta do vizinho, Zhang, professor aposentado.
— Professor Zhang, o senhor tem uma câmera? Não uma digital, mas uma analógica!
— Um fotógrafo profissional como você quer pegar minha câmera emprestada? O que aconteceu com seu aparelho caro? Só tenho câmeras digitais simples. Está tudo bem? Você está muito pálido.
— Por favor, me empreste a câmera.
— Aqui. Pode apagar as poucas fotos que estão na memória.
— Obrigado!
Wang pegou a câmera e voltou correndo para casa. Na verdade, tinha outras três câmeras analógicas e uma digital, mas achou que seria melhor pegar uma emprestada de outra pessoa. Ele olhou para a própria Leica no sofá, para o punhado de rolos de filme, parou para refletir e decidiu colocar um filme novo na Leica. Entregou a câmera digital emprestada para a esposa, que estava colocando a mesa para o jantar.
— Rápido! Tire mais algumas fotos, que nem antes.
— O que você está fazendo? Olhe para a sua cara! O que está acontecendo?
— Não se preocupe. Tire fotos!
Ela colocou os pratos na mesa e foi até Wang, com os olhos carregados de preocupação e medo.
Wang enfiou a Kodak nas mãos do filho de seis anos, que estava prestes a começar a jantar.
— Dou Dou, venha ajudar o papai. Aperte este botão. Assim mesmo. Isso foi uma foto. Aperte de novo. Isso foi outra foto. Fique tirando fotos assim. Fotografe tudo o que você quiser.
O menino aprendeu logo. Ficou muito interessado e tirou fotos rápidas. Wang se virou, pegou a Leica no sofá e começou a tirar fotos também. Pai e filho ficaram disparando os obturadores ensandecidamente. Perdida no meio dos flashes, a mulher de Wang começou a chorar.
— Wang Miao, sei que você tem estado sob muita pressão ultimamente, mas, por favor, espero que não tenha…
Wang terminou o filme da Leica e pegou a câmera digital do filho. Ficou pensando por um instante e então, para evitar a esposa, entrou no quarto e tirou mais algumas fotos com a câmera digital. Batia as fotos olhando pelo visor óptico em vez de pela tela LCD, porque tinha medo de conferir o resultado, embora logo fosse ter que encarar a situação.
Wang tirou o filme da Leica e voltou para a sala escura. Fechou a porta e trabalhou. Depois de revelar o filme, examinou as imagens com cuidado. Como tremia, precisou segurar a lupa com as duas mãos. Nos negativos, a contagem continuava.
Wang saiu da sala escura e começou a olhar as imagens digitais da Kodak. Na tela LCD, viu que as fotos tiradas pelo filho não tinham números, mas as suas mostravam com clareza a contagem, em sincronia com os números no filme.
Ao usar câmeras diferentes, Wang pretendia eliminar duas possíveis explicações: problemas com a Leica ou com o filme. Porém, ao permitir que o filho e a esposa tirassem algumas fotos, descobriu um resultado ainda mais estranho: a contagem só aparecia nas fotos que ele tirava!
Desesperado, Wang pegou o amontoado de filmes, que parecia um ninho embolado de cobras, um monte de cordas presas em um nó impossível.
Sabia que não teria como resolver esse mistério sozinho. Quem poderia ajudá-lo? Seus antigos
colegas da faculdade e os companheiros do Centro de Pesquisa não serviriam. Como ele, todos tinham mentalidade técnica. Por intuição, Wang sabia que esse problema ia além do lado técnico. Pensou em Ding Yi, mas o homem estava enfrentando sua própria crise espiritual. Por fim, se lembrou da Fronteiras da Ciência: seus integrantes eram grandes pensadores e continuavam de mente aberta. Então Wang ligou para o número de Shen Yufei.
— Dra. Shen, estou com um problema. Preciso encontrá-la.
— Venha — disse Shen, desligando em seguida.
Wang ficou surpreso. Shen era uma mulher de poucas palavras. Algumas pessoas na Fronteiras da Ciência brincavam que ela era a versão feminina de Hemingway. Mas o fato de Shen nem sequer ter perguntado qual era o problema deixou Wang sem saber se devia ficar tranquilo ou ainda mais ansioso.
Ele enfiou a confusão de filmes em uma bolsa e, com a câmera digital na mão, saiu às pressas do apartamento, enquanto a esposa o observava com um olhar ansioso. Wang podia ter pegado o carro, mas, mesmo na cidade muito iluminada, queria estar acompanhado. Chamou um táxi.
Shen morava em um condomínio de luxo acessível por um dos trens urbanos mais recentes. Naquela área, a iluminação era muito mais fraca. As casas ficavam dispostas em torno de um pequeno lago artificial abastecido de peixes, e à noite o lugar parecia um vilarejo.
Era nítido que Shen tinha uma condição financeira confortável, mas Wang nunca conseguiu descobrir a origem daquela riqueza. Nem o antigo cargo de pesquisadora nem o emprego atual em uma empresa privada poderiam fornecer uma renda tão grande. Apesar disso, o interior da casa não exibia sinais de luxo. O espaço era usado como ponto de encontro para a Fronteiras da Ciência, e Wang sempre achou que parecia uma biblioteca com uma sala de reuniões.
Na sala de estar, Wang se deparou com Wei Cheng, o marido de Shen. Wei tinha cerca de quarenta anos e o aspecto de um intelectual sóbrio e honesto. Além do nome, Wang sabia pouco sobre ele. Shen não havia falado muito ao apresentar o marido. Aparentemente, ele estava desempregado, já que passava o dia inteiro em casa. Nunca demonstrou interesse nas conversas da Fronteiras da Ciência, mas parecia acostumado à presença de tantos acadêmicos em sua casa.
No entanto, não era desocupado e parecia estar realizando alguma pesquisa em casa, sempre perdido em pensamentos. Toda vez que via algum visitante, cumprimentava de um jeito distraído e voltava para seu quarto no andar de cima. Passava a maior parte do dia ali dentro. Certa vez, Wang viu de relance o interior do quarto por uma porta entreaberta e reparou em algo impressionante: uma potente estação de trabalho da HP. Tinha certeza do que vira porque a estação de trabalho era do mesmo modelo utilizado por ele no Centro de Pesquisa: case cor de grafite, modelo RX8620, de quatro anos. Parecia muito estranho ter uma máquina que custava mais de um milhão de yuans só para uso pessoal. O que será que Wei Cheng fazia com aquilo o dia inteiro?
— Yufei está um pouco ocupada agora. Você pode esperar um instante? — perguntou Wei Cheng, antes de subir a escada. Wang tentou esperar, mas percebeu que não conseguia ficar parado, então foi atrás de Wei Cheng. Wei estava prestes a entrar no quarto com a estação de trabalho quando percebeu Wang atrás de si. Sem parecer irritado, apontou para o cômodo à
frente do seu e disse: — Ela está aí dentro.
Wang bateu à porta, que não estava trancada e se abriu depressa. Shen estava sentada diante de um computador, jogando. Wang ficou surpreso ao ver que ela estava com um traje V.
O traje V era um equipamento muito usado pela comunidade de gamers, composto por um capacete de visor panorâmico e uma jaqueta de resposta sensorial. O traje permitia que o jogador sentisse tudo o que acontecia no jogo: a força de um soco, uma punhalada, o calor de chamas etc. Também era capaz de gerar sensações de calor e frio extremos, e até de simular a exposição a uma nevasca.
Wang se aproximou de Shen pelas costas. Como o jogo só era exibido no visor panorâmico do capacete, a tela do computador não tinha nenhuma imagem colorida. De repente, Wang se lembrou do comentário de Shi Qiang quanto a decorar endereços de sites e e-mails. Ele olhou para o monitor, e a URL do site do jogo chamou sua atenção: www.3corpos.net
Shen tirou o capacete, a jaqueta e colocou os óculos, que pareciam grandes demais no rosto fino. Não esboçando nenhuma expressão, fez um gesto com a cabeça para Wang, sem dizer nada. Wang tirou a confusão de filmes da bolsa e começou a explicar a estranha experiência. Shen prestou muita atenção na história, pegando os filmes e olhando apenas casualmente para as fotos. Embora Wang tenha ficado surpreso, a postura de Shen confirmou que ela não ignorava o que estava acontecendo com ele. Wang quase parou de falar, mas Shen continuou acenando com a cabeça, indicando que ele deveria continuar.
Quando ele terminou, Shen falou pela primeira vez.
— Como anda o projeto de nanomateriais que você está conduzindo? Essa mudança de assunto deixou Wang confuso.
— O projeto de nanomateriais? O que ele tem a ver com isto? — Wang apontou para os filmes revelados.
Shen não respondeu, mas continuou encarando Wang, esperando que ele respondesse à pergunta. Aquele sempre tinha sido o estilo dela, nunca uma palavra desperdiçada.
— Interrompa a pesquisa — disse ela.
— O quê? — Wang não sabia se tinha ouvido direito. — Do que você está falando?
Shen ficou quieta.
— Interromper? É um projeto nacional fundamental!
Shen continuou sem falar nada, apenas o encarando com uma expressão tranquila.
— Você precisa me dar um motivo.
— Só interrompa. Tente.
— O que você sabe? Diga!
— Já falei tudo que podia.
— Não dá simplesmente para interromper a pesquisa. É impossível!
— Interrompa. Tente.
A conversa sobre a contagem regressiva acabou aí. Depois disso, por mais que Wang insistisse, Shen só repetia “Interrompa. Tente”.
— Agora eu entendo — disse Wang. — A Fronteiras da Ciência não é só um grupo de discussão sobre teoria fundamental, como vocês afirmavam. A ligação da organização com a realidade é muito mais complexa do que eu tinha imaginado.
— Não. É o contrário. Sua impressão se deve ao fato de que a Fronteiras da Ciência trata de questões muito mais fundamentais do que você imagina.
Desesperado, Wang se levantou para ir embora sem se despedir. Em silêncio, Shen acompanhou a visita até a porta e esperou que entrasse no táxi.
Na mesma hora, outro carro chegou e brecou de repente diante da porta. Um homem saiu. Com a luz fraca de dentro da casa, Wang reconheceu o sujeito imediatamente.
Era Pan Han, um dos integrantes mais proeminentes da Fronteiras da Ciência. Como biólogo, ele havia conseguido prever defeitos congênitos associados ao consumo prolongado de alimentos geneticamente modificados. Também previra os desastres ecológicos resultantes do cultivo de plantações geneticamente modificadas. Ao contrário dos profetas do apocalipse que prenunciavam catástrofes sem dar qualquer informação específica, as previsões de Pan sempre continham uma profusão de detalhes que mais tarde acabavam se confirmando. O índice de acerto do biólogo era tão alto que havia quem dissesse que ele vinha do futuro.
O outro motivo de sua fama era o fato de que ele tinha criado a primeira comunidade experimental da China. Diferente dos grupos utópicos que clamavam por uma “volta à natureza”, a China Pastoral não ficava na zona rural, e sim no meio de uma das maiores cidades do país. A comunidade não detinha nenhuma propriedade. Tudo o que era necessário para o dia a dia, incluindo alimentos, era obtido com o lixo urbano. Contrariando muitas previsões, a China Pastoral não só sobreviveu, como prosperou. Agora, contava com mais de três mil integrantes permanentes, e inúmeras pessoas haviam ingressado nela por períodos breves a fim de conhecer aquele estilo de vida.
Graças a esses dois sucessos, as opiniões de Pan a respeito de questões sociais tinham cada vez mais peso. Ele acreditava que o progresso tecnológico era uma doença da sociedade. A explosão do desenvolvimento tecnológico era análoga ao crescimento de células cancerígenas, e os resultados seriam os mesmos: o esgotamento de todas as fontes de nutrição, a destruição dos órgãos e, por fim, a morte do organismo. Ele defendia o fim de tecnologias nocivas, como combustíveis fósseis e energia nuclear, em favor da manutenção de tecnologias menos agressivas, como energia solar e energia hidrelétrica de pequena escala. Pan acreditava na descentralização gradual das metrópoles modernas mediante a distribuição mais eficiente das populações em cidades e vilarejos menores. Com base nas tecnologias mais avançadas, construiria uma nova sociedade agrícola.
— Ele está aqui? — perguntou Pan a Shen, apontando para a casa.
Shen não respondeu, mas não saiu do caminho.
— Preciso alertar tanto ele quanto você. Não nos obriguem a agir. — O tom de Pan era frio. Shen gritou para o taxista.
— Você já pode ir.
Quando o táxi saiu, Wang não conseguiu mais ouvir a conversa entre os dois, mas olhou para trás e viu que Shen não deixou Pan entrar na casa.
Quando Wang chegou em casa, já passava de meia-noite. Ao sair do táxi, um Volkswagen
Santana preto parou a seu lado. O vidro da janela abaixou, e uma nuvem de fumaça saiu de dentro. O corpulento Shi Qiang estava no banco do motorista.
— Professor Wang! Acadêmico Wang! Como o senhor tem passado esses últimos dias?
— Por acaso você está me seguindo? Não tem nada melhor para fazer?
— Ora, não me entenda mal. Eu poderia ter passado direto, mas preferi ser educado e dar um olá. O senhor está transformando minha gentileza em um esforço ingrato. — Shi exibiu o sorriso debochado característico. — E aí? Conseguiu descobrir alguma informação útil lá?
— Já falei, não quero tratar nada com você. Por favor, daqui para a frente me deixe em paz.
— Tudo bem. — Shi ligou o carro. — Não vou passar fome abrindo mão da hora extra que eu ganho para isto. Queria não ter perdido o jogo de futebol.
Wang entrou em casa. Sua esposa já estava dormindo. Ele a ouviu se revirar na cama, murmurando algo, ansiosa. Com certeza, o comportamento estranho do marido naquele dia tinha resultado em algum pesadelo. Wang tomou alguns comprimidos para dormir, deitou-se na cama e, depois de bastante tempo, adormeceu.
Seus sonhos foram caóticos, mas havia uma constante: a contagem regressiva fantasmagórica, suspensa no ar. Mesmo antes de dormir, ele já sabia que sonharia com aquilo. Nos sonhos, Wang atacou a contagem. Enlouquecido, ele golpeou a sequência numérica, mas nada que fizesse era capaz de mudar aquilo. Os números continuavam pairando no meio do sonho, avançando sem parar. Enfim, quando a frustração estava ficando quase insuportável, ele acordou.
Ao abrir os olhos, viu o teto, pouco nítido. Do lado de fora, as luzes da cidade lançavam um brilho fraco nas cortinas. Porém, teve companhia ao voltar à realidade: a contagem regressiva. Ela ainda pairava diante de seus olhos. Os números eram finos, mas brilhavam muito, com uma luminosidade branca intensa.
1180:05:00, 1180:04:59, 1180:04:58, 1180:04:57…
Wang olhou à sua volta, explorando as sombras difusas do quarto. Agora tinha certeza de que estava acordado, mas a contagem não desapareceu. Fechou os olhos, e a contagem continuou na escuridão, como um fiapo de mercúrio escorrendo pelas penas de um cisne negro. Wang abriu e esfregou os olhos, e ainda assim a contagem persistiu. Independente de para onde olhasse, os números permaneciam no centro de tudo.
Movido por um terror indescritível, Wang se sentou. A contagem se aferrava a ele. Wang saiu da cama, puxou as cortinas e abriu as janelas. A cidade, adormecida, ainda estava muito iluminada. A contagem pairava no meio desse cenário grandioso, como uma legenda em uma tela de cinema.
Wang sentiu-se sufocado. Tentou abafar um grito. Sua esposa acordou com o susto e, ansiosa, perguntou o que havia de errado. Wang se forçou para ficar calmo e tranquilizá-la, dizendo que não era nada. Voltou a se deitar na cama, fechou os olhos e passou o resto da noite difícil sob o brilho constante da contagem.
De manhã, tentou agir de maneira natural diante da família, mas não conseguiu enganar a esposa. Ela perguntou se os olhos de Wang estavam com algum problema, se ele estava conseguindo enxergar direito.
Depois do café, Wang ligou para o Centro de Pesquisa e pediu para tirar o dia de folga. Foi ao hospital. No caminho, a impiedosa contagem persistia estampada no mundo real, conseguindo ajustar o próprio brilho de modo a aparecer com clareza diante de qualquer fundo. Wang tentou até ofuscar os números por um tempo, olhando direto para o sol nascente. Mas não adiantou nada. Os números infernais ficaram pretos e se destacaram da esfera solar como sombras, o que pareceu ainda mais assustador.
O hospital Tongren estava muito movimentado, porém ele conseguiu uma consulta com um oftalmologista famoso, colega de faculdade de sua mulher. Wang pediu para o médico avaliá-lo, mas não descreveu nenhum sintoma. Após um exame cuidadoso, o oftalmologista disse que os dois olhos estavam normais, sem qualquer sinal de doença.
— Tem alguma coisa persistente incomodando meus olhos. Está sempre atrapalhando meu campo de visão. — Ao dizer isso, viu os números pairando diante do rosto do médico.
1175:11:34, 1175:11:33, 1175:11:32, 1175:11:31…
— Ah, você está falando de moscas volantes. — O oftalmologista pegou um receituário e começou a escrever. — Isso é comum na nossa idade, consequência de um obscurecimento do cristalino. Não é fácil de curar, mas também não é nada muito sério. Vou receitar um pouco de iodo em gotas e vitamina D… Pode ser que elas sumam, mas é bom não criar muita expectativa. Não se preocupe mesmo, isso não vai afetar sua visão. Só precisa se acostumar a ignorar.
— Moscas volantes… Pode me dizer qual é o aspecto delas?
— Não existe nenhuma forma definida. Varia de acordo com a pessoa. Para algumas, são pontinhos pretos minúsculos; para outras, parecem girinos.
— E se uma pessoa vê uma série de números?
— Você está vendo números?
— É, bem no meio do campo de visão.
O médico afastou o papel e a caneta e olhou para Wang com uma expressão de piedade.
— Assim que você entrou, percebi que tem trabalhado demais. No último reencontro da turma, Li Yao me disse que você estava sofrendo muita pressão no laboratório. Na nossa idade, precisamos tomar cuidado. Nossa saúde já não é mais a mesma.
— Quer dizer que isso tem um fundo psicológico?
— Se fosse outra pessoa, eu sugeriria uma consulta com um psiquiatra. Mas não é nada sério, só exaustão. Que tal você descansar por alguns dias? Tire umas férias. Vá ficar com Yao e seu filho… como é o nome dele? Dou Dou, certo? Não se preocupe. Isso vai sumir logo.
1175:10:02, 1175:10:01, 1175:10:00, 1175:09:59…
— Vou falar o que estou vendo. É uma contagem regressiva! Um segundo de cada vez, com precisão cirúrgica. Você está dizendo que isso está tudo na minha cabeça?
O médico abriu um sorriso tolerante.
— Sabe quanto a nossa visão pode ser afetada pela mente? Mês passado, recebemos uma paciente… uma menina, devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Ela estava no meio de uma aula quando, de repente, parou de enxergar, ficou completamente cega. Acontece que todos os testes
mostraram que não havia nenhum problema fisiológico nos olhos. Por fim, ela se tratou com um profissional do Setor de Psiquiatria durante um mês. Do nada, a visão voltou.
Wang sabia que estava perdendo tempo ali. Levantou-se.
— Tudo bem, vamos parar de falar dos meus olhos. Só quero fazer mais uma pergunta: você conhece algum fenômeno físico que possa agir à distância e levar uma pessoa a ter visões?
O médico pensou por um instante.
— Sim, conheço. Algum tempo atrás, participei da equipe médica que atendeu os tripulantes do veículo espacial Shenzhou 19. Alguns astronautas que realizaram atividades fora da nave disseram ter visto clarões que não existiam. Os astronautas na Estação Espacial Internacional descreveram experiências parecidas. Isso acontecia porque, durante períodos de atividade solar intensa, partículas de alta energia atingiam a retina e provocavam a visão dos clarões. Só que você está falando de números… até de uma contagem regressiva. Nenhuma atividade solar causaria isso.
Wang saiu do hospital meio atordoado. A contagem continuava pairando diante de seus olhos, e ele tinha a sensação de estar seguindo os números, seguindo um fantasma que se recusava a abandoná-lo. Comprou óculos escuros e colocou no rosto para que as pessoas não vissem seus olhos oscilando como se ele fosse um sonâmbulo.
Antes de entrar no laboratório principal do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia, Wang tirou os óculos. Ainda assim, seus colegas repararam que sua aparência traía um estado mental perturbado e o observaram com preocupação.
Wang viu que a câmara de reação principal no meio do laboratório continuava em funcionamento. O compartimento principal do aparato gigantesco era uma esfera ligada a muitos canos.
Eles haviam produzido quantidades reduzidas de um nanomaterial novo e ultraforte, que fora chamado de “lâmina voadora”. Porém, até o momento, todas as amostras eram feitas com técnicas de construção molecular — isto é, usando uma sonda molecular em escala nano para empilhar as moléculas uma a uma, como se fossem tijolos em um muro. Esse método demandava muitos recursos, e os resultados poderiam ser considerados as joias mais preciosas do mundo. Para a produção de quantidades grandes, essa forma não era muito prática.
No momento, o laboratório estava tentando desenvolver uma reação catalítica como substituto para a construção molecular, de modo que fosse possível empilhar uma grande quantidade de moléculas na ordem certa. A câmara de reação principal podia executar uma grande variedade de reações em pouco tempo, usando combinações moleculares diferentes. Havia tantas combinações possíveis que, com os métodos tradicionais de teste manual, o mesmo resultado teria demorado mais de cem anos. Além disso, o aparato extrapolava as reações que aconteciam com simulações matemáticas. Quando a reação alcançava determinado ponto, o computador gerava um modelo matemático com base em produtos intermediários e terminava o restante da reação com simulações, o que aumentava muito a eficiência do experimento.
Tão logo viu Wang, o diretor do laboratório correu até ele e começou a relatar uma série de defeitos ocorridos na câmara de reação principal — um ritual, instaurado recentemente, sempre que Wang chegava ao trabalho. Àquela altura, já fazia mais de um ano que a câmara de reação
principal estava em funcionamento constante, o que resultava em erros de medição que exigiam o desligamento do aparato para manutenção. No entanto, na condição de pesquisador-chefe do projeto, Wang insistia que a máquina só fosse desligada depois da conclusão do terceiro conjunto de combinações moleculares. Os técnicos eram obrigados a compensar com uma quantidade cada vez maior de gambiarras na câmara de reação. E essas gambiarras exigiam suas próprias gambiarras, uma situação que exauria a equipe de trabalho.
Mas o diretor do laboratório tomou o cuidado de não tocar no assunto do desligamento e da interrupção da máquina, pois sabia que esse tipo de tema tendia a enfurecer Wang Miao. Ele se limitou a listar as dificuldades, embora a intenção implícita fosse clara.
Havia engenheiros agitados em volta da câmara de reação principal, como médicos com um paciente em estado crítico, tentando fazê-lo resistir um pouco mais. Na frente disso tudo, a contagem regressiva apareceu.
1174:21:11, 1174:21:10, 1174:21:09, 1174:21:08… Interrompa. Tente. Wang pensou nas palavras de Shen.
— Quanto tempo levaria para desmontar completamente os sensores? — perguntou Wang.
— Quatro ou cinco dias. — Agora que o diretor do laboratório via uma fagulha de esperança, acrescentou às pressas: — Se a gente acelerar, vai levar só três dias. Posso garantir, chefe Wang!
Não estarei cedendo, pensou Wang. O equipamento precisa mesmo de manutenção, então é preciso interromper temporariamente o experimento. Não tem nenhum outro motivo. Wang se virou para o diretor do laboratório e olhou para ele através da contagem flutuante.
— Interrompa o experimento e realize a manutenção. Cumpra o cronograma prometido.
— Sem problema, chefe Wang. Vou passar um cronograma atualizado imediatamente. Podemos interromper a reação hoje à tarde!
— Podem interrompê-la agora mesmo.
O diretor o encarou, incrédulo, mas logo se empolgou de novo, como se tivesse medo de perder a oportunidade. Pegou o telefone e anunciou a ordem de interromper a reação. Pesquisadores e técnicos, todos exaustos, também se empolgaram. Sem perder um segundo, começaram o processo de desligamento da câmara de reação principal, acessando centenas de comutadores complexos. As diversas telas de controle foram se apagando, uma a uma, até a tela principal demonstrar que câmara de reação estava com seu status interrompido.
Quase ao mesmo tempo, a contagem regressiva nos olhos de Wang também parou. A última sequência era 1174:10:07. Alguns segundos depois, os números piscaram e sumiram.
Quando o mundo voltou ao normal, livre dos números fantasmagóricos, Wang soltou um suspiro demorado, como se acabasse de subir à superfície depois de ficar muito tempo embaixo d’água. Esgotado, sentou-se e percebeu que as outras pessoas ainda estavam olhando para ele.
Wang se virou para o diretor do laboratório.
— A manutenção dos sistemas é responsabilidade da Divisão de Equipamentos. Que tal vocês todos do grupo de pesquisa tirarem alguns dias de folga? Sei que todo mundo tem trabalhado muito.
— Chefe Wang, o senhor também está cansado. O engenheiro-chefe Zhang pode tomar conta de tudo por aqui. Por que o senhor não volta para casa e descansa também?
— Sim, estou cansado — respondeu Wang.
Depois que o diretor do laboratório foi embora, Wang pegou o celular e ligou para Shen Yufei. Ela atendeu depois de um toque.
— Quem ou o que está por trás disso? — perguntou Wang, tentando sem sucesso falar com um tom de voz calmo.
Silêncio.
— O que vai acontecer quando a contagem terminar?
— Você está me ouvindo?
— Estou.
— Por que nanomateriais? Isso não é um acelerador de partículas. Só pesquisa aplicada. Por acaso é digno de atenção?
— Não cabe a nós decidir se algo é ou não é digno de atenção.
— Já chega! — gritou Wang no telefone. De repente, o terror e o desespero dos últimos dias se transformaram em uma fúria incontrolável. — Você acha mesmo que serei enganado com esses truques fajutos? Acha que podem impedir o progresso da tecnologia? Confesso que, por enquanto, não consigo explicar como vocês estão fazendo isso. Mas é só porque não pude ver através da cortina do seu ilusionista barato.
— Quer dizer que você gostaria de ver a contagem regressiva em uma escala ainda maior?
A pergunta de Shen deixou Wang atordoado por um instante. Ele fez o possível para se acalmar, para não cair em uma armadilha.
— Pode guardar seus truques. E daí se você me mostrar em uma escala maior? Vai continuar sendo apenas uma ilusão. Vocês podem projetar um holograma no céu, como a Otan fez na última guerra. Com um laser potente o bastante, poderiam até projetar uma imagem na superfície da Lua! O franco-atirador e o criador de aves seriam capazes de manipular os elementos em uma escala inacessível aos seres humanos. Por exemplo, vocês podem fazer a contagem regressiva aparecer na superfície solar?
Wang ficou de boca aberta. Estava chocado com as próprias palavras. Sem se dar conta, citara as duas hipóteses que devia ter evitado. Sentia-se prestes a cair na mesma armadilha mental que capturara as outras vítimas.
— Não posso prever todos os seus truques — continuou ele, tentando tomar a iniciativa. — Talvez seu ilusionista fajuto consiga dar um jeito de fazer com que essa farsa parecesse real até no sol. Uma demonstração convincente de verdade precisa ser feita em uma escala ainda maior.
— A questão é se você aguenta — disse Shen. — Somos amigos. Quero ajudá-lo a evitar a sina de Yang Dong.
A referência ao nome de Yang provocou arrepios em Wang. Porém, sentindo outra onda de raiva, agiu impulsivamente.
— Você vai aceitar meu desafio?
— Claro.
— O que vocês vão fazer?
— Você tem um computador ligado à internet? Certo, acesse o seguinte site:
www.qsl.net/bg3tt/zl/mesdm.htm. Abriu? Agora imprima a página e fique com ela.
Wang viu que o site era apenas uma tabela de código Morse.
— Não entendi. Isto…
— Nos próximos dois dias, por favor, vá para algum lugar onde seja possível ver a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Vou enviar os detalhes para seu e-mail.
— O que… o que você vai fazer?
— Eu sei que seu projeto em nanomateriais foi interrompido. Você pretende retomá-lo?
— Claro. Daqui a três dias.
— Então a contagem regressiva vai continuar.
— Vou ver em que escala?
Seguiu-se um longo silêncio. Aquela mulher, que estava agindo como porta-voz de alguma força além de qualquer compreensão humana, cortou todas as saídas de Wang.
— Daqui a três dias, no dia 14, entre uma e cinco da manhã, o universo inteiro vai piscar para você.
Wang ligou para Ding Yi. Só quando Ding atendeu o telefone foi que Wang se deu conta de que já era uma da manhã.
— Aqui é Wang Miao. Sinto muito por ligar tão tarde.
— Não tem problema. Não consigo dormir mesmo.
— Eu… vi algo e gostaria de sua ajuda. Você conhece alguma instituição na China que esteja observando a radiação cósmica de fundo em micro-ondas?
Embora Wang sentisse vontade de conversar com alguém sobre o que estava acontecendo, achou que seria melhor não deixar muita gente saber da contagem que só ele enxergava.
— Radiação cósmica de fundo em micro-ondas? Por que você se interessou por isso? Acho que você deve ter encontrado mesmo algum problema… Já foi ver a mãe de Yang Dong?
— Ah… sinto muito. Esqueci.
— Sem problema. Hoje em dia, muitos cientistas já viram… algo, como você. Todo mundo está distraído. Mas ainda acho que é melhor você fazer uma visita à mãe de Yang, que está bastante idosa e se recusa a contratar uma cuidadora. Se ela tiver alguma coisa que não consiga fazer sozinha na casa, por favor, dê uma ajuda… Ah, sim, a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Pode perguntar isso para a mãe de Yang. Antes de se aposentar, ela era astrofísica. Conhece bem essas instituições da China.
— Ótimo! Vou visitá-la hoje, depois do trabalho.
— Então já agradeço agora. Realmente não consigo mais olhar para nada que me lembre Yang Dong.
Depois de desligar o telefone, Wang se sentou na frente do computador e imprimiu uma tabela simples de código Morse. Já estava calmo o bastante para não pensar mais na contagem regressiva. Ficou refletindo sobre a Fronteiras da Ciência, Shen Yufei e o jogo de computador que ela estava rodando. A única certeza que tinha em relação a Shen era que ela não era o tipo de pessoa que gostava de jogos de computador. Shen era monossilábica e sempre dava a impressão de ser extremamente fria. Não era a frieza que algumas pessoas adotam como uma máscara — a frieza de Shen a preenchia por completo.
De modo inconsciente, Wang pensou nela como o sistema operacional extremamente obsoleto DOS: uma tela preta vazia, uma orientação de comando “C:\>” simples, um cursor piscante. O que
fosse digitado, o comando repetia. Nenhuma letra a mais, nenhuma mudança. Só que Wang descobrira que por trás do “C:\>” havia um abismo infinito.
Ela está mesmo interessada em um jogo? Um jogo que exige um traje V? Ela não tem filhos, então comprou o traje para uso próprio. Esse pensamento é absurdo.
Wang digitou o endereço da página no navegador. Tinha sido fácil decorar: www.3corpos.net. O site indicava que o jogo só oferecia acesso via traje V. Wang lembrou que a sala de descanso dos funcionários no Centro de Pesquisa em Nanotecnologia tinha um traje V. Ele saiu do laboratório principal, que já estava vazio, e foi até a sala da segurança para pegar a chave. Na sala de descanso, passou por mesas de sinuca e aparelhos de ginástica e viu o traje V do lado de um computador. Penou para vestir a jaqueta de resposta sensorial, colocou o capacete com visor panorâmico e ligou o computador.
Após entrar no jogo, Wang se viu no meio de uma planície desolada ao amanhecer. A planície era parda, indistinta, e era difícil perceber qualquer detalhe. Ao longe, um fiapo de luz branca no horizonte. O resto do céu estava coberto por estrelas cintilantes.
Aconteceu uma explosão barulhenta, e duas montanhas incandescentes caíram na terra distante. Uma luminosidade vermelha banhou a planície inteira. Quando a poeira enfim baixou, Wang avistou duas palavras gigantescas erguidas entre a terra e o céu: TRÊS CORPOS.
Em seguida, uma tela de cadastro. Wang criou o login “Hairen” e entrou.1
A planície continuava desolada, mas agora os compressores do traje V zumbiram e começaram a funcionar, e Wang sentiu rajadas de ar frio no corpo. Diante dele, apareceram duas figuras caminhando, duas silhuetas escuras contra a luz da alvorada. Wang correu até elas.
Constatou que as duas figuras eram masculinas. Os dois usavam longos mantos esburacados e se cobriam com peles de animais sujas. Cada um portava uma espada curta e larga de bronze. Um deles, que carregava um baú de madeira com metade de sua altura, se virou para encarar Wang. O rosto do homem estava tão sujo e enrugado quanto a pele de animal que o protegia, mas seus olhos eram aguçados e vivos, e as pupilas cintilavam com o brilho da manhã.
— Está frio — disse ele.
— Sim, muito frio.
— Este é o Período dos Reinos Combatentes — disse o homem, com o baú nas costas. — Eu sou o rei Wen de Zhou.
— Se não me engano, o rei Wen não pertence ao Período dos Reinos Combatentes — disse Wang.2
— Ele sobreviveu até agora — respondeu o outro homem. — O rei Zhou de Shang3 também está vivo. Eu sou um seguidor do rei Wen. Na verdade, o meu login é este: “Seguidor do rei Wen de Zhou”. Ele é um gênio, sabia?
— Meu login é “Hairen”. O que você está levando nas costas?
O rei Wen colocou o baú retangular no chão e o deixou em pé. Abriu uma das laterais como se fosse uma porta e revelou cinco compartimentos internos. Com a luz fraca, Wang viu que todas as camadas tinham um montinho de areia. Cada compartimento parecia receber areia do compartimento de cima, por um buraco pequeno.
— Uma espécie de ampulheta. A cada oito horas, toda a areia vai para a base. Ao virarmos três vezes, contamos um dia. Só que muitas vezes eu me esqueço de virar, então preciso do Seguidor para me lembrar.
— Vocês parecem estar percorrendo uma jornada muito longa. É preciso levar um relógio tão grande?
— De que outra forma mediríamos o tempo?
— Um relógio solar portátil seria muito mais conveniente. Ou então bastaria olhar para o sol e estimar o horário.
O rei Wen e o Seguidor trocaram um olhar e, em seguida, se viraram ao mesmo tempo para Wang, olhando-o como se fosse um idiota.
— O sol? Como é que o sol pode nos dizer a hora? Estamos no meio de uma Era Caótica. Wang estava prestes a perguntar o que significava aquele estranho termo quando o Seguidor
soltou um grito de lamento.
— Está muito frio! Vou morrer de frio!
Wang também sentia muito frio. Porém, como na maioria dos jogos bastava tirar o traje V para que o sistema deletasse o login imediatamente, ele não podia tirá-lo.
— Quando o sol nascer, vai esquentar — disse.
— Você está fingindo ser algum oráculo? Nem mesmo o rei Wen consegue prever o futuro. — O Seguidor balançou a cabeça, cheio de desdém.
— O que é que isso tem a ver com prever o futuro? É claro que o sol vai nascer daqui a uma ou duas horas. — Wang apontou para o fiapo de luz em cima do horizonte.
— Esta é uma Era Caótica!
— O que é uma Era Caótica?
— Sem contar as Eras Estáveis, todas as outras épocas são Eras Caóticas — respondeu o rei Wen, como se tivesse falado com uma criança ignorante.
Como para pontuar suas palavras, a luz no horizonte diminuiu e desapareceu logo depois. A noite cobriu tudo. As estrelas no céu ficaram ainda mais brilhantes.
— Então aquilo foi o crepúsculo, e não a alvorada? — perguntou Wang.
— Agora é manhã. Mas nem sempre o sol nasce de manhã. Assim são as Eras Caóticas. Wang estava achando difícil suportar o frio.
— Parece que o sol vai demorar muito para sair — disse, estremecendo e apontando para o horizonte indistinto.
— Por que você acha isso? É impossível ter certeza. Já falei, esta é uma Era Caótica. — O Seguidor se virou para o rei Wen. — Posso comer um pouco de peixe desidratado?
— De jeito nenhum. — O tom da voz do rei Wen não admitia discussão. — O que eu tenho mal dá para mim. Precisamos garantir que eu chegue a Zhao Ge, não você.4
Enquanto eles falavam, Wang percebeu que o céu começou a clarear em outra parte do horizonte. Não sabia ao certo as direções da bússola, mas tinha certeza de que, dessa vez, a direção era diferente da anterior. O céu ficou mais claro, e logo o sol daquele mundo nasceu. Era pequeno e azulado, como uma lua muito luminosa. Ainda assim, Wang sentiu um pouco de calor e pôde ver melhor a paisagem ao redor. Mas o dia não durou. O sol percorreu um arco pequeno por cima do horizonte e logo se pôs. A noite e o frio congelante voltaram a dominar tudo.
Os três viajantes pararam diante de uma árvore morta. O rei Wen e o Seguidor pegaram as espadas de bronze para cortar lenha, e Wang fez uma pilha com as toras. O Seguidor apanhou uma pedra e bateu com ela na lâmina da espada, até produzir faíscas. O calor da fogueira logo aqueceu a parte da frente do traje V de Wang, mas as costas continuavam frias.
— Devíamos queimar alguns dos corpos desidratados — disse o Seguidor. — Aí poderíamos fazer uma fogueira forte!
— Tire essa ideia da cabeça. Só o tirano rei Zhou faria algo assim.
— Vimos muitos corpos desidratados espalhados pela estrada. Como estavam rasgados, não poderão ser revividos quando forem reidratados. Se sua teoria funcionar de fato, que importa se queimarmos um ou outro? Podemos até comer alguns. O que são algumas vidas comparadas à importância de sua teoria?
— Pare com esse absurdo! Somos intelectuais!
Depois que a fogueira se extinguiu, os três continuaram a viagem. Como não conversaram muito, o sistema do jogo acelerou a passagem do tempo. O rei Wen girou depressa a ampulheta nas costas seis vezes, indicando o transcorrer de dois dias. O sol não nasceu nenhuma vez, nem sequer um vislumbre de luz no horizonte.
— Parece que o sol não vai nascer nunca mais — comentou Wang. Ele abriu o menu do jogo para dar uma olhada na barra de vida que, por causa do frio extremo, estava diminuindo constantemente.
— Você está fingindo de novo que é um oráculo — disse o Seguidor. Porém, dessa vez, ele e Wang terminaram a frase juntos. — Esta é uma Era Caótica!
No entanto, pouco depois, a aurora despontou no horizonte. O céu se iluminou rapidamente, e o sol subiu. Wang percebeu que, dessa vez, o sol era gigantesco. Quando apenas metade dele tinha nascido, ocupava pelo menos um quinto do horizonte visível. Os três viajantes foram cobertos por ondas de calor, e Wang sentiu-se revigorado. Mas, quando olhou para o rei Wen e o Seguidor, viu que a expressão dos dois era de terror, como se estivessem diante de um demônio.
— Rápido! Encontrem uma sombra! — gritou o Seguidor. Wang correu junto com eles. Os três se abaixaram atrás de uma pedra grande. A sombra da pedra foi diminuindo aos poucos. A terra ao redor ardia tanto que parecia estar em chamas. O gelo perpétuo abaixo deles derreteu depressa, e a superfície rígida do chão se transformou em um mar de lama, agitado por ondas de calor. Wang suava em profusão.
Quando o sol estava a pino, os três cobriram a cabeça com as peles de animal, mas a luz intensa ainda atravessava como flechas os buracos e as frestas. Eles contornaram a pedra até conseguirem abrigo em uma nova sombra, que tinha acabado de se formar do outro lado.
Após o pôr do sol, o ar continuou quente e abafado. Ensopados de suor, os viajantes se sentaram em cima da pedra.
— Viajar durante uma Era Caótica é como caminhar no inferno — disse o Seguidor, desanimado. — Não aguento mais. E ainda por cima não comi nada porque você não quis me dar nenhum peixe desidratado e não quer me deixar comer os corpos desidratados. O que…
— A única opção é desidratar você — disse o rei Wen, abanando-se com um pedaço de pele.
— Você não vai me abandonar depois, vai?
— Claro que não. Prometo levá-lo a Zhao Ge.
O Seguidor tirou o manto encharcado e, nu, se deitou no chão lamacento. Com os últimos raios de luz do sol já abaixo do horizonte, Wang viu água escorrendo do corpo do Seguidor. Ele sabia que não era mais suor. Toda a água do corpo dele estava sendo eliminada e espremida. O líquido formou alguns córregos pequenos na lama. O corpo amoleceu e se deformou, como uma vela derretida.
Dez minutos depois, toda a água fora expelida. No chão, o Seguidor tinha se transformado em um pedaço de couro com formato de homem. Os traços do rosto haviam se apagado e estavam indistintos.
— Ele morreu? — perguntou Wang, que se lembrava de ter visto pedaços de couro com formato de homens espalhados pela estrada. Alguns estavam rasgados e incompletos. Imaginou que fossem os corpos desidratados que o Seguidor havia mencionado.
— Não — respondeu o rei Wen. Depois de limpar a lama e a poeira, ele estendeu a pele do Seguidor em cima da pedra, enrolando-a como um balão sem ar. — Ele vai se recuperar daqui a pouco, quando o pusermos na água. É que nem quando colocamos cogumelos desidratados na água.
— Até os ossos ficaram moles?
— Sim. O esqueleto dele foi transformado em fibras desidratadas. Assim fica fácil de carregar.
— Neste mundo, qualquer um pode se desidratar e ser reidratado?
— Claro. Você também. Caso contrário, seria impossível sobreviver às Eras Caóticas. — O rei Wen entregou a pele enrolada para Wang. — Leve o Seguidor. Se abandoná-lo na estrada, ele vai ser queimado ou comido.
Wang recebeu a pele, um rolo apertado. Segurou aquilo debaixo do braço, e a sensação não foi assim tão estranha.
Com o Seguidor desidratado a cargo de Wang e a ampulheta nas costas do rei Wen, os dois retomaram a árdua viagem. Como nos dias anteriores, o progresso do sol não possuía nenhum padrão naquele mundo. Após uma noite longa e gélida que durava um período equivalente a vários dias, podia acontecer um dia curto e escaldante, e vice-versa. Os dois dependiam um do outro para sobreviver, acendendo fogueiras para resistir ao frio e mergulhando em lagos para fugir do calor.
Pelo menos o jogo acelerava o tempo. Um mês podia passar em meia hora de partida. Com isso, a viagem pela Era Caótica ao menos era tolerável para Wang.
Certo dia, após uma longa noite que durou quase uma semana (conforme a medição da ampulheta), o rei Wen deu um grito súbito de alegria ao apontar para o céu noturno.
— Estrelas voadoras! Duas estrelas voadoras!
Na verdade, Wang já havia percebido aqueles estranhos corpos celestes. Eram maiores que as estrelas e pareciam discos mais ou menos do tamanho de bolas de pingue-pongue. Deslocavam-se pelo céu a uma velocidade alta o bastante para que fosse possível identificar o movimento a olho nu. Mas era a primeira vez que uma dupla aparecia ao mesmo tempo.
— Sempre que aparecem duas estrelas voadoras — explicou o rei Wen —, significa que está prestes a começar uma Era Estável.
— Já vimos estrelas voadoras antes.
— Sim, mas só uma de cada vez.
— O máximo que dá para ver são duas?
— Não. Às vezes, aparecem três, mas não mais que isso.
— Se aparecerem três estrelas voadoras, é sinal de uma era ainda melhor? O rei Wen encarou Wang com uma expressão assustada.
— O que você está falando? Três estrelas voadoras… reze para que isso nunca aconteça.
O rei Wen tinha razão. A desejada Era Estável logo teve início. A aurora e o pôr do sol começaram a seguir um padrão. O ciclo de dias e noites passou a se estabilizar em um período de dezoito horas. A alternância sistemática do dia e da noite fez com que o clima ficasse agradável e ameno.
— Quanto tempo dura uma Era Estável? — perguntou Wang.
— Pode ser breve como um dia ou longa como um século. Ninguém consegue prever a duração. — O rei Wen se sentou na ampulheta e levantou a cabeça para olhar o sol do meio-dia.
— Segundo documentos históricos, a dinastia Zhou Ocidental viveu uma Era Estável que durou dois séculos. Que sorte nascer em uma época assim!
— Então quanto tempo dura uma Era Caótica?
— Já falei. Tirando as Eras Estáveis, as demais são Eras Caóticas. Cada uma ocupa o tempo não utilizado pelas outras.
— Quer dizer que este é um mundo onde não existem padrões?
— Exatamente. A civilização só pode se desenvolver no clima ameno das Eras Estáveis. Na maior parte do tempo, a humanidade precisa se desidratar e permanecer armazenada. Quando chega uma Era Estável duradoura, todos são revividos através da reidratação. E então as pessoas começam a construir e produzir.
— Como é possível prever a chegada e a duração de cada Era Estável?
— Como já disse, ninguém conseguiu fazer isso. Quando chega uma Era Estável, o rei decide com base na intuição se deve começar a reidratação em massa. Muitas vezes as pessoas são revividas, as plantações são semeadas, as cidades são construídas, a vida está prestes a ser retomada… e aí a Era Estável acaba. Frio e calor extremos logo destroem tudo. — O rei Wen estava apontando para Wang, com um brilho nos olhos. — Agora você sabe o objetivo deste jogo: usar o intelecto e o conhecimento para analisar todos os fenômenos até descobrir o padrão dos movimentos do sol. A sobrevivência da civilização depende disso.
— Com base em minhas observações, não existe padrão nenhum para os movimentos do sol.
— Isso se deve ao fato de que você não compreende a natureza fundamental do mundo.
— E você compreende?
— Sim. Por isso mesmo estou indo a Zhao Ge. Vou apresentar ao rei Zhou um calendário detalhado.
— Mas não vi sinal algum nesta viagem de que seja possível criar algo parecido.
— Prever o deslocamento do sol é possível apenas em Zhao Ge, pois é lá que yin e yang se encontram. Somente lá a sorte tirada é correta.
Os dois prosseguiram em meio às condições severas de mais uma Era Caótica, interrompida brevemente por uma curta Era Estável, até enfim chegarem a Zhao Ge.
Wang ouviu um rugido incessante que parecia um trovão. O som era gerado pelos vários pêndulos gigantes espalhados ao longo de Zhao Ge, todos com dezenas de metros de altura. Cada pêndulo era composto por uma rocha gigante suspensa por uma corda grossa, presa a uma ponte que ligava o topo de duas torres finas de pedra.
Todos os pêndulos estavam balançando, e o movimento era mantido por soldados em armaduras. Entoando cantos incompreensíveis, esses soldados puxavam de maneira ritmada cordas ligadas às rochas gigantes, aumentando o arco dos pêndulos quando eles perdiam velocidade. Wang percebeu que todos os pêndulos oscilavam em sincronia. De longe, a cena era magnífica: era como se vários relógios gigantescos tivessem sido erguidos na Terra, ou como se símbolos abstratos colossais tivessem caído do céu.
Os pêndulos gigantes cercavam uma pirâmide ainda mais imensa, uma montanha alta em meio às trevas da noite. Era o palácio do rei Zhou. Wang acompanhou o rei Wen por uma porta baixa na base da pirâmide, diante da qual alguns soldados patrulhavam na escuridão, silenciosos como fantasmas. A porta se abria para um túnel escuro, longo e estreito, que avançava pirâmide adentro, iluminado por algumas tochas.
O rei Wen conversava com Wang enquanto caminhavam.
— Durante uma Era Caótica, o país inteiro é desidratado. Mas o rei Zhou permanece desperto, um companheiro para a terra inerte. Para sobreviver a uma Era Caótica, é preciso morar em edifícios de paredes grossas como este e levar uma vida como no subterrâneo. Só assim é possível evitar o calor e o frio extremos.
Depois de percorrerem o túnel por muito tempo, os dois enfim chegaram ao Grande Salão no centro da pirâmide. Na verdade, o salão nem era tão grande assim, e Wang achou que lembrava uma caverna. Sem dúvida, o homem sentado em um estrado e coberto por uma pele multicolorida era o rei Zhou. Porém, o que chamou a atenção de Wang foi um homem vestido todo de preto. O manto preto se misturava com as sombras densas do Grande Salão, e o rosto pálido parecia estar flutuando.
— Este é Fu Xi5 — disse o rei Zhou, apresentando o homem de preto a Wang e ao rei Wen. Ele falou como se Wang e o rei Wen já estivessem ali e o homem de preto fosse o recém-chegado. — Ele acredita que o sol seja um deus temperamental. Quando o deus está acordado, seu humor é imprevisível, o que resulta em uma Era Caótica. Mas, quando dorme, sua respiração normaliza, o que resulta em uma Era Estável. Fu Xi sugeriu que eu construísse e deixasse aqueles pêndulos que vocês viram lá fora em movimento constante. Afirma que os pêndulos podem exercer um efeito hipnótico no deus sol e fazê-lo mergulhar em um sono prolongado. Como podemos ver, até agora o deus sol continua acordado, embora de vez em quando pareça tirar um cochilo rápido.
O rei Zhou fez um gesto com as mãos, e alguns criados trouxeram uma panela de barro e a depositaram na pequena mesa de pedra diante de Fu Xi. Mais tarde, Wang descobriu que era uma panela de sopa condimentada. Fu Xi suspirou, ergueu a panela e bebeu em goles enormes: o barulho de sua garganta ecoou na escuridão como os batimentos de um coração gigante. Após
engolir metade da sopa, virou o restante da panela sobre o próprio corpo. Em seguida, jogou a panela no chão e foi até um imenso caldeirão de bronze, suspenso acima de uma fogueira no canto do Grande Salão. Subiu na beirada do caldeirão e pulou para dentro, fazendo subir uma nuvem de vapor.
— Sente-se, Ji Chang6 — pediu o rei Zhou. — Vamos comer daqui a pouco. — Ele apontou para o caldeirão.
— Feitiçaria insensata — disse o rei Wen, lançando um olhar desdenhoso para o caldeirão.
— O que você descobriu sobre o sol? — perguntou o rei Zhou. A luz das chamas dançava em seus olhos.
— O sol não é um deus. O sol é yang, e a noite é yin. O mundo existe no equilíbrio entre yin e yang. Embora não possamos controlar o processo, podemos prevê-lo. — O rei Wen apanhou a espada de bronze e traçou um símbolo de yin-yang no chão, sob a fraca luz da fogueira. Em seguida, escavou os 64 hexagramas do I Ching em volta do símbolo, e o conjunto todo parecia uma roda de calendário. — Meu rei, este é o código do universo. Com ele, posso oferecer à sua dinastia um calendário preciso.
— Ji Chang, preciso saber quando virá a próxima Era Estável longa.
— Vou prevê-la para o senhor agora mesmo — respondeu o rei Wen. Ele se sentou de pernas cruzadas no meio do símbolo de yin-yang. Ergueu a cabeça para o teto do Grande Salão, e seu olhar parecia atravessar as pedras grossas da pirâmide e alcançar as estrelas. Os dedos das mãos começaram uma série de movimentos rápidos e complexos, como peças de uma máquina de calcular. Em meio ao silêncio, apenas a sopa no caldeirão emitia algum ruído, fervendo e borbulhando como se o xamã que estava sendo cozido ali dentro falasse durante o sono.
O rei Wen se levantou no meio do símbolo de yin-yang. Com a cabeça ainda apontada para o teto, ele disse:
— A próxima será uma Era Caótica de quarenta e um dias. Depois virá uma Era Estável de cinco dias. Em seguida, uma Era Caótica de vinte e três dias, e então uma Era Estável de dezoito dias. Depois teremos uma Era Caótica de oito dias. Mas, quando essa Era Caótica terminar, a Era Estável duradoura tão esperada pelo senhor, meu rei, começará. Essa Era Estável vai durar três anos e nove meses. Terá um clima tão ameno que será uma época dourada.
— Antes precisamos verificar suas previsões iniciais — disse o rei Zhou, impassível.
Wang ouviu um tremor alto vindo de cima. Uma placa de pedra no teto do Grande Salão se abriu, revelando uma passagem quadrada. Wang se ajeitou e viu que a passagem levava a outro túnel, que subia pelo centro da pirâmide. No final desse túnel, avistou algumas estrelas cintilantes.
O tempo do jogo se acelerou. De tantos em tantos segundos do tempo real, dois soldados giravam a ampulheta trazida pelo rei Wen, indicando a passagem de oito horas do tempo do jogo. A abertura no teto exibia luzes aleatórias, e de vez em quando um raio solar de uma Era Caótica irrompia no Grande Salão. Às vezes, a luz era fraca, como o luar. Às vezes, era muito forte, e o quadrado branco incandescente projetado no chão brilhava tanto que fazia as tochas do Grande Salão parecerem fracas.
Wang continuou contando as viradas da ampulheta. Depois de mais ou menos cento e vinte
viradas, o aspecto da luz solar que entrava pelo buraco no teto se regularizou. Tratava-se do começo da primeira das Eras Estáveis previstas.
Passadas mais quinze viradas da ampulheta, a luz cintilante da abertura voltou a ficar aleatória, o começo de mais uma Era Caótica. Seguiu-se outra Era Estável e outra Caótica. Os pontos de início e a duração das diversas eras não batiam exatamente com as previsões do rei Wen, mas chegavam perto. Ao fim de mais uma Era Caótica de oito dias, a Era Estável duradoura prevista por ele começou.
Wang continuou contando as viradas da ampulheta. Passaram-se vinte dias, e a luz que entrava no Grande Salão seguiu um padrão preciso. O tempo do jogo voltou à velocidade normal.
O rei Zhou gesticulou com a cabeça para o rei Wen.
— Construirei um monumento em sua homenagem, maior ainda que este palácio. O rei Wen fez uma reverência profunda.
— Meu rei, desperte sua dinastia e permita que ela prospere!
O rei Zhou se levantou no estrado e abriu os braços, como se quisesse envolver o mundo inteiro. Com uma voz estranha e transcendental, começou a entoar:
— Re-i-dra-tar…
Assim que a ordem foi dada, todo mundo que estava no Grande Salão correu para a porta. Wang seguiu o rei Wen de perto, e os dois saíram da pirâmide pelo túnel comprido por onde haviam entrado. Do lado de fora, Wang viu o sol de meio-dia cobrir a terra de calor. Em uma brisa no ar, sentiu as fragrâncias da primavera. O rei Wen e Wang foram juntos até um lago ali perto. O gelo na superfície da água havia derretido, e a luz do sol dançava em meio às marolas suaves.
Uma coluna de soldados urrava “Reidratar! Reidratar!” ao passar correndo na direção de um grande edifício de pedra, com a forma de um silo, situado perto do lago. Na estrada que levava a Zhao Ge, Wang vira muitos edifícios semelhantes, e o rei Wen contara que eram chamados de desidratórios, depósitos que armazenavam os corpos desidratados. Os soldados abriram as pesadas portas de pedra do desidratório e tiraram rolos de peles empoeiradas. Cada um andou até a margem do lago e jogou os rolos na água. Assim que encostavam na água, as peles começavam a se desenrolar e esticar. Em pouco tempo, o lago estava coberto por uma camada de peles flutuantes de formato humano, e cada uma se expandia ao absorver água. Aos poucos, as silhuetas humanas de pele se transformaram em corpos de carne e osso, que começaram a mostrar sinais de vida. Uma a uma, as pessoas se levantavam com esforço no lago, com a água batendo na cintura. Todas encaravam o mundo ensolarado com olhos escancarados, como se tivessem acabado de acordar de um sonho.
— Reidratar! — gritou um homem.
— Reidratar! Reidratar! — repetiram alegremente outras vozes.
Todos saíram do lago e correram nus até o desidratório. Pegaram mais peles e jogaram na água: ainda mais pessoas revividas saíram do lago. A cena se repetiu em cada lago e em cada lagoa. O mundo inteiro estava voltando à vida.
— Oh, céus! Meu dedo!
No meio do lago, Wang viu um homem que havia acabado de ser revivido. Ele estava
segurando uma das mãos e chorando. A mão estava sem o dedo médio, e o ferimento jorrava sangue na água. Outras pessoas, também recém-revividas, passaram felizes por ele em direção à margem, ignorando-o.
— Você ainda teve sorte — alguém disse ao homem. — Alguns perderam o braço ou toda a perna. Outros tiveram a cabeça inteirinha roída por ratos. Se a reidratação demorasse mais, talvez todo mundo acabasse virando comida dos ratos das Eras Caóticas.
— Ficamos desidratados por quanto tempo? — perguntou um dos revividos.
— Dá para ter uma ideia pela camada de poeira em cima do palácio. Ouvi dizer agora há pouco que o rei não é mais o mesmo. Mas não sei se é o filho ou o neto do rei antigo.
O trabalho de reidratação levou oito dias. Todos os corpos desidratados que estavam armazenados foram revividos, e o mundo ganhou vida nova. Ao longo desses oito dias, o povo desfrutou de ciclos regulares de aurora e pôr do sol, cada ciclo com exatamente vinte horas de duração. Aproveitando o clima de primavera, todos pronunciaram louvores emocionados ao sol e aos deuses que regiam o mundo.
Na noite do oitavo dia, as fogueiras espalhadas pelo mundo pareciam ainda mais numerosas que as estrelas no céu. As ruínas das cidades abandonadas durante as Eras Caóticas voltaram a se encher de sons e luzes. Como em todas as reidratações em massa do passado, as pessoas passariam a noite toda celebrando a vida nova que começaria após o amanhecer.
Mas o amanhecer não veio.
Todo dispositivo de medição de tempo indicava que a hora do nascer do sol já havia passado, mas o horizonte permanecia escuro em todas as direções. Mesmo depois de dez horas, nada de sinal do sol, nem sequer uma insinuação mínima de alvorada. A noite eterna durou um, dois dias inteiros. O frio agora pesava sobre a terra como uma mão gigantesca.
Dentro da pirâmide, o rei Wen se ajoelhou diante do rei Zhou.
— Meu rei — implorou ele —, por favor, não perca a fé em mim. Esta é uma situação temporária. Eu vi o yang do universo se agrupar, e o sol nascerá logo. A Era Estável e a primavera continuarão!
— Vamos começar a esquentar o caldeirão — disse o rei Zhou, suspirando.
— Rei! Rei! — Um ministro chegou correndo aos trancos pela entrada cavernosa do Grande Salão. — Tem… tem três estrelas voadoras no céu!
As pessoas dentro do Grande Salão ficaram atordoadas. O ar pareceu congelar. Só o rei Zhou permaneceu impassível. Ele se virou para Wang, com quem nunca havia trocado uma palavra.
— Você ainda não compreende o que o aparecimento das três estrelas voadoras representa, não é? Ji Chang, que tal você explicar?
— Elas indicam a chegada de um longo período de frio extremo, suficiente para transformar pedra em pó.
O rei Wen suspirou.
— De-si-dra-tar… — entoou mais uma vez o rei Zhou naquela voz estranha e transcendental. Fora da pirâmide, as pessoas já haviam começado o processo, se transformando outra vez em corpos desidratados para sobreviver à longa noite que se aproximava. Os mais sortudos tiveram tempo de ser estocados nos desidratórios, mas muitos sem a mesma estrela foram abandonados
nos campos vazios.
O rei Wen se levantou devagar e foi até o caldeirão em cima da fogueira intensa no canto do Grande Salão. Ele subiu na beirada do caldeirão e parou por uns segundos antes de pular para dentro. Talvez tivesse visto o rosto completamente cozido de Fu Xi rindo no meio da sopa.
— Deixem o fogo baixo — ordenou o rei Zhou, com a voz fraca. Virando-se para os outros, disse: — Vocês podem sair, se quiserem. O jogo não é mais divertido quando chega neste ponto.
Uma placa vermelha com a palavra SAÍDA apareceu em cima da entrada cavernosa do Grande Salão. Os jogadores seguiram em sua direção, logo sendo acompanhados por Wang. Eles percorreram o túnel comprido até enfim chegarem ao lado de fora da pirâmide. Foram recebidos por uma nevasca pesada sob o céu noturno. Wang tremeu com o frio penetrante, e um sinalizador em um canto do céu indicou que o tempo do jogo fora acelerado de novo.
A neve prosseguiu sem trégua durante dez dias. A essa altura, os flocos eram grandes e pesados, como sólidos pedaços de escuridão.
— A neve agora é composta de dióxido de carbono solidificado — sussurrou alguém perto de Wang. — Em outras palavras, gelo seco. — Wang se virou e percebeu que o interlocutor era o Seguidor.
Ao fim de mais dez dias, os flocos ficaram finos e translúcidos. Sob a luz fraca das poucas tochas na entrada do túnel comprido, os flocos de neve emitiam um brilho azulado suave, como se fossem pedaços dançantes de mica.
— Esses flocos agora são compostos de oxigênio e nitrogênio sólido. A atmosfera está desaparecendo por sedimentação, o que significa que a temperatura está perto do zero absoluto.
Aos poucos, a neve soterrou a pirâmide. As camadas inferiores eram formadas por neve de água; já as seguintes eram compostas de gelo seco; por fim, no topo, havia uma camada de neve feita de oxigênio e nitrogênio. O céu noturno ficou extraordinariamente límpido, e as estrelas brilhavam como um campo de fogueiras prateadas. Uma linha de texto apareceu na tela estrelada.
A noite longa durou quarenta e oito anos. A civilização número 137 foi destruída pelo frio extremo. Antes de sucumbir, essa civilização havia avançado até o Período dos Reinos Combatentes.
A semente da civilização permanece. Ela germinará e voltará a desabrochar no mundo imprevisível de Três Corpos.
Convidamos você a entrar novamente.
Antes de sair do jogo, Wang percebeu as três estrelas voadoras no céu. Próximas entre si, elas giravam como em uma estranha dança acima do abismo do espaço.
1. Hairen (UT) significa “Homem do Mar”. É um trocadilho com o nome de Wang Miao (SR), que pode significar “mar”.
2. O Período dos Reinos Combatentes se estendeu de 465 a.C. até 221 a.C. Mas o rei Wen de Zhou governou muito antes, entre 1099 a.C. e 1050 a.C. Ele é considerado o fundador da dinastia Zhou, que derrocou a corrupta dinastia Shang.
3. O rei Zhou de Shang governou entre 1075 a.C. e 1046 a.C. Foi o último rei da dinastia Shang e um notório tirano na história da China.
4. Zhao Ge era a capital da China de Shang, onde ficava a corte do rei Zhou.
5. Fu Xi é o primeiro dos Três Soberanos, uma figura mitológica chinesa. Ele foi um dos progenitores da raça humana, junto com a deusa Nüwa.
6. Ji Chang é o nome de nascimento do rei Wen.
Wang tirou o traje V e o capacete com visor panorâmico. A camisa estava empapada de suor, como se ele tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Ele saiu do Centro de Pesquisa, entrou no carro e dirigiu até o endereço passado por Ding Yi: a casa da mãe de Yang Dong.
Era Caótica, Era Caótica, Era Caótica…
Wang ficou revirando a ideia na cabeça. Por que o percurso do sol no céu de Três Corpos seria desprovido de qualquer regularidade ou padrão? O movimento de um planeta em torno de seu sol precisa ser periódico, quer a órbita seja mais circular ou mais elíptica. Uma irregularidade absoluta do deslocamento planetário é impossível…
Wang ficou irritado consigo mesmo. Balançou a cabeça, tentando afastar esses pensamentos.
É só um jogo! Mas eu perdi.
Era Caótica, Era Caótica, Era Caótica…
Droga! Chega! Por que estou pensando nisso? Por quê?
Wang não demorou para descobrir a resposta. Fazia anos que ele não disputava nenhum jogo
on-line, e era nítido que os equipamentos tinham evoluído muito nesse meio-tempo. Na sua juventude, quando era estudante, não havia efeitos como realidades virtuais e respostas multissensoriais. Só que Wang também sabia que a sensação de realismo em Três Corpos não tinha a ver com tecnologia de interface.
Ele se lembrava de uma aula de teoria da informação no terceiro ano da faculdade. O professor havia apresentado duas imagens: uma era a Qingming Shanghe Tu, a famosa pintura da dinastia Song, cheia de detalhes delicados e refinados, que mostrava o festival de Qingming; a outra era a foto de um céu ensolarado, cuja vastidão azul era interrompida apenas por um fiapo de nuvem que nem parecia estar ali. O professor perguntou à turma qual das imagens continha mais informação. A resposta foi que o conteúdo informacional da fotografia — a entropia dela — excedia o da pintura em uma ou duas ordens de magnitude.
O mesmo acontecia com Três Corpos. O imenso conteúdo informacional estava bem oculto. Wang conseguia senti-lo, mas não expressá-lo. De repente, percebeu que os criadores do jogo seguiram o extremo oposto do princípio adotado por outros designers. Normalmente, os designers de jogos tentavam exibir o máximo possível de informação para aumentar a sensação de realismo. Já os responsáveis por Três Corpos trataram de comprimir o conteúdo
informacional para dissimular uma realidade mais complexa, do mesmo jeito que a foto aparentemente vazia do céu.
Wang deixou os pensamentos voltarem ao mundo de Três Corpos.
Estrelas voadoras! O segredo deve estar atrás das estrelas voadoras. Uma estrela voadora, duas estrelas voadoras, três estrelas voadoras… o que elas representavam?
Enquanto divagava sobre isso, chegou ao seu destino.
Na frente do edifício residencial, Wang viu uma mulher grisalha e baixinha, com cerca de sessenta anos. Ela usava óculos e estava se esforçando para subir a escada com um cesto de compras. Wang imaginou que aquela era a mulher que ele tinha ido visitar.
Uma saudação rápida confirmou o palpite. Era mesmo a mãe de Yang Dong: Ye Wenjie. Após ouvir o motivo da visita de Wang Miao, ela se mostrou grata e satisfeita. Wang estava acostumado a intelectuais idosos como ela: o acúmulo dos anos havia desbastado toda rigidez e vivacidade de suas personalidades, deixando para trás apenas a delicadeza da água.
Wang subiu a escada com o cesto de compras para ela. Quando os dois chegaram ao apartamento, ele descobriu que não era tão calmo quanto havia imaginado: três crianças estavam brincando, sendo que a mais velha devia ter uns cinco anos e a mais nova ainda mal andava. Ye disse a Wang que eram todas filhas dos vizinhos.
— Elas gostam de brincar aqui. Como hoje é domingo e os pais precisam fazer hora extra, deixam as crianças comigo… Ah, Nan Nan, você terminou o desenho? Nossa, ficou ótimo! Vamos dar um título? “Patinhos no sol”? Parece ótimo. Deixe a vovó escrever para você. Também vou anotar a data: “9 de junho, por Nan Nan”. E o que você quer almoçar? Yang Yang, quer beringela frita? Claro! Nan Nan, quer ervilha que nem ontem? Não tem problema. E você, Mi Mi? Quer carninha? Ah, não, sua mãe me disse que você não pode comer muita carninha, é difícil digerir. Que tal então um peixinho? Olhe esse peixinho enorme que a vovó comprou…
Wang observou Ye e as crianças, absorto na conversa que mantinham. Ela deve querer netos. Mas, mesmo se Yang Dong estivesse viva, será que teria tido filhos?
Ye levou as compras para a cozinha.
— Xiao Wang — disse, quando voltou —, vou deixar os legumes um pouco de molho. — Ela havia passado a tratá-lo sem constrangimento por um diminutivo carinhoso. — Hoje em dia, usam tantos pesticidas que preciso deixar os legumes de molho por pelo menos duas horas antes de dar para as crianças… Não quer dar uma olhada no quarto de Dong Dong antes?
A sugestão, acrescentada ao final como se fosse a coisa mais natural do mundo, deixou Wang ansioso. Ela nitidamente havia percebido o real objetivo da visita. Ye se virou e voltou para a cozinha sem fitar Wang, para não ver o constrangimento dele. Wang ficou grato pela consideração.
Ele passou pelas três crianças, que brincavam animadas, e entrou no quarto indicado por Ye. Hesitou na frente da porta, tomado por uma sensação estranha. Era como se ele tivesse voltado à própria juventude sonhadora. Das profundezas de sua memória, surgiu o formigamento de uma tristeza frágil e pura como o orvalho, com uma nota de esperança.
Com delicadeza, empurrou a porta. No cômodo, sentiu uma inesperada fragrância sutil, um cheiro de mata. Parecia que havia entrado na cabana de um guarda-florestal: as paredes eram cobertas de tiras de cascas de árvore, as três banquetas eram pedaços de tronco sem decoração, a escrivaninha era formada por três troncos maiores agrupados. Já a cama parecia forrada com o mesmo material de junco utilizado pelas pessoas do nordeste da China dentro dos sapatos, para manter os pés aquecidos no clima frio. Tudo era grosseiro e de aspecto descuidado, sem qualquer sinal de preocupação estética. O trabalho de Yang Dong havia lhe proporcionado uma renda alta, e ela podia ter comprado um apartamento de luxo, mas preferiu morar ali com a mãe.
Wang foi até a mesa feita de troncos. Tinha uma decoração simples e nada que sugerisse qualquer indício de feminilidade ou de atividade acadêmica. Talvez objetos dessa natureza tivessem sido removidos, ou talvez nunca tivessem existido. Ele percebeu uma foto em preto e branco dentro de um porta-retratos de madeira, a imagem de uma mãe com a filha. Na foto, Yang Dong era pequena, e Ye Wenjie estava agachada para que as duas ficassem da mesma altura. Um vento forte bagunçava o cabelo comprido delas.
O fundo da fotografia era estranho: o céu parecia estar atrás de uma rede grande, estendida entre estruturas grossas de aço. Wang deduziu que era alguma antena parabólica tão grande que as beiradas não couberam no enquadramento.
No retrato, os olhos da pequena Yang Dong transmitiam um medo que comoveu Wang. Ela parecia apavorada com o mundo do lado de fora da foto.
Depois Wang reparou em um caderno espesso no canto da escrivaninha. Ficou espantado com o material, até que viu uma linha escrita com letra infantil na capa: Caderno de casca de bétula de Yang Dong. A palavra “bétula” estava escrita com letras do alfabeto pinyin, em vez do caractere chinês. Os anos haviam dado à casca cinzenta um tom claro de amarelo. Fez menção de encostar no caderno, hesitou e recolheu a mão.
— Tudo bem — disse Ye, na porta. — São desenhos que Yang Dong fez quando era pequena. Wang pegou o caderno de casca e folheou as páginas com cuidado. Ye datara cada desenho
para a filha, tal como tinha feito para Nan Nan agora há pouco, na sala.
Com base nas datas, Wang viu que Yang Dong tinha três anos quando fez os desenhos. Normalmente, crianças dessa idade são capazes de traçar pessoas e objetos com formas definidas, mas os desenhos de Yang Dong ainda eram uma confusão de linhas emaranhadas. Parecia que representavam uma espécie de raiva e desespero intensos, resultantes de um desejo frustrado de expressar algo — não era um sentimento que se esperaria de uma criança tão pequena.
Ye se sentou devagar na beira da cama, com os olhos fixos no caderno, perdida em pensamentos. Sua filha havia morrido ali mesmo, dando fim à própria vida durante o sono. Wang se sentou ao lado dela. Nunca havia sentido uma vontade tão intensa de partilhar o peso da dor de outra pessoa.
Ye pegou o caderno das mãos dele e o abraçou.
— Eu não sabia ensinar de um jeito apropriado para a idade dela — disse, em voz baixa. — Expus Dong Dong cedo demais a alguns temas muito abstratos, muito delicados. Quando ela demonstrou pela primeira vez um interesse por teorias abstratas, falei que a área não era fácil para as mulheres. Ela perguntou: “E a madame Curie?”. Respondi que a madame Curie nunca foi
aceita de verdade como parte da área. O sucesso dela era encarado como resultado de persistência e muito esforço, mas, sem ela, outra pessoa teria feito o trabalho. Na verdade, Wu Chien-Shiung foi ainda mais longe que a madame Curie.* Mas não é mesmo uma área para mulheres.
“Dong Dong não discutiu comigo, mas depois descobri que ela era mesmo diferente. Por exemplo, digamos que eu explicasse uma fórmula para ela. Outras crianças diriam: ‘Uau, que fórmula inteligente!’. Mas ela dizia: ‘Essa fórmula é muito elegante, muito bela’. A expressão no rosto era igual à de quando ela via uma flor silvestre bonita.
“O pai deixou alguns discos. Ela ouviu todos e, no fim, quando decidiu que um de Bach era seu preferido, ouviu várias vezes seguidas. Esse tipo de música não devia despertar o fascínio de uma criança. A princípio, achei que ela tivesse escolhido por capricho, mas quando perguntei o que sentia com a música, Dong Dong respondeu que conseguia ver na música um gigante construindo uma casa grande e complexa. O gigante ia acrescentando um pedaço de cada vez à estrutura e, quando a música acabava, a casa estava pronta…”
— A senhora foi uma excelente professora para sua filha — disse Wang.
— Não. Fracassei. Seu mundo era simples demais, e ela só contava com teorias imateriais. Quando as teorias ruíram, Dong Dong não tinha nada em que se apoiar para continuar viva.
— Professora Ye, não posso dizer que concordo com a senhora. Neste momento estão acontecendo coisas além da nossa imaginação. Nossas teorias sobre o mundo enfrentam um desafio sem precedentes, e sua filha não foi a única cientista a escolher aquele caminho.
— Mas ela era mulher. Uma mulher precisa ser como a água, capaz de fluir por cima e em volta de qualquer coisa.
Quando estava prestes a ir embora, Wang se lembrou do outro motivo da visita. Ele mencionou a Ye sua vontade de observar a radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
— Ah, sim. Tem dois lugares na China que trabalham com isso. Um é o observatório em Ürümqi. Acho que é um projeto do Centro de Observação do Ambiente e do Espaço, da Academia Chinesa de Ciências. O outro é bem perto daqui, um observatório de radioastronomia na periferia de Beijing, administrado pela Academia Chinesa de Ciências e pelo Centro Conjunto de Astrofísica da Universidade de Beijing. O de Ürümqi faz observações a partir do solo, e o daqui só recebe dados de satélites, embora esses dados sejam mais apurados e completos. Como um ex-aluno meu trabalha lá, posso fazer um telefonema e ver o que consigo para você.
Ye achou o número e discou. A conversa que se seguiu pareceu correr bem.
— Tudo certo — disse Ye ao desligar. — Vou lhe passar o endereço. Você pode ir quando quiser. Meu aluno se chama Sha Ruishan e vai estar no turno da noite amanhã… Acho que esta não é sua área de pesquisa, certo?
— Eu trabalho com nanotecnologia. Isto é para… outra coisa. — Wang temia que Ye fizesse mais perguntas sobre o que o levou a buscar aquele tipo de informação, mas ela não fez.
— Xiao Wang, você parece um pouco pálido. Como está sua saúde? — perguntou ela, com o rosto muito preocupado.
— Não é nada. Por favor, não se preocupe.
— Espere um instante. — Ye pegou uma caixinha de madeira de um armário. Wang viu na etiqueta que era ginseng. — Um velho amigo da base, um soldado, veio me visitar há alguns dias e me trouxe isto. Leve, leve! É desses plantados, não silvestre. Não é muito caro. Tenho pressão alta e não posso usar mesmo. Você pode cortar em fatias finas e fazer chá. Você está com um aspecto tão pálido que com certeza isso vai fazer bem. Você ainda é jovem, mas precisa tomar cuidado com a saúde.
Wang aceitou a caixa, e seu peito se encheu de alegria. Sentiu os olhos ficarem marejados. Era como se o coração, angustiado quase além do limite por causa dos últimos dias, tivesse sido acomodado em um monte de plumas.
— Professora Ye, virei visitá-la muitas vezes.
* Wu Chien-Shiung foi uma das físicas mais importantes da era moderna, tendo realizado muitas conquistas em física experimental. Ela foi a primeira a refutar com experimentos a hipótese da “lei de conservação de paridade” e, assim, fundamentar o trabalho dos físicos teóricos Tsung-Dao Lee e Chen-Ning Yang. (N. A.)
Wang Miao tomou a estrada Jingmi até chegar ao distrito de Miyun. Dali, seguiu para Heilongtan, subiu a montanha por uma estrada sinuosa e chegou ao observatório de radioastronomia do Centro Astronômico Nacional da Academia Chinesa de Ciências. Ele viu uma fileira de vinte e oito antenas parabólicas, todas com nove metros de diâmetro: parecia uma fileira de espetaculares plantas de aço. No final, havia dois radiotelescópios altos, com cinquenta metros de diâmetro, construídos em 2006. Conforme Wang se aproximava, veio à sua mente o fundo do retrato de Ye com a filha.
No entanto, o trabalho de Sha Ruishan, o aluno de Ye, não tinha nada a ver com aqueles radiotelescópios. O laboratório do dr. Sha ficava encarregado sobretudo de receber os dados transmitidos por três satélites: o Cobe (Cosmic Background Explorer, ou Explorador da Radiação Cósmica de Fundo), lançado em 1989 e prestes a ser desativado; o WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe, ou Sonda de Anisotropia em Micro-Ondas Wilkinson); e o Planck, o observatório espacial lançado pela Agência Espacial Europeia em 2009.
A radiação cósmica de fundo em micro-ondas correspondia muito precisamente a um espectro térmico de corpo negro de 2,7255 K de temperatura e era muito isotrópica — ou seja, praticamente uniforme em todas as direções —, com flutuações mínimas da ordem de milionésimos de grau. O trabalho de Sha Ruishan era criar um mapa mais detalhado da radiação cósmica de fundo em micro-ondas a partir de dados observacionais.
O laboratório não era muito grande. Os equipamentos que recebiam os dados estavam entulhados na sala de computadores principal, e três terminais exibiam as informações enviadas pelos três satélites.
Sha ficou animado ao ver Wang. Nitidamente entediado com o longo isolamento e feliz por receber visitas, ele perguntou que tipo de dados Wang queria ver.
— Quero ver a flutuação geral da radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
— Você poderia… ser mais específico?
— Quer dizer… quero ver a flutuação isotrópica na radiação cósmica de fundo geral em micro-ondas, entre um e cinco por cento — disse ele, repetindo a mensagem do e-mail de Shen.
Sha sorriu. Desde a virada do século, o Observatório de Radioastronomia de Miyun passara a receber turistas. Para aumentar um pouco a renda, Sha costumava fazer o papel de guia turístico ou dar palestras. Aquele sorriso era o mesmo que distribuía aos turistas, pois já estava acostumado à impressionante ignorância científica deles.
— Professor Wang, imagino que você não seja um especialista do ramo, correto?
— Eu trabalho com nanotecnologia.
— Ah, faz sentido. Mas você deve ter algum conhecimento elementar sobre a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, certo?
— Não muito. Sei que, à medida que o universo esfriava depois do Big Bang, as “brasas” remanescentes se tornaram a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Essa radiação preenche todo o universo e pode ser observada na faixa de centímetros de comprimentos de onda. Acho que foi nos anos 1960 que dois americanos descobriram a radiação por acaso, quando estavam testando uma antena receptora supersensível de sinais via satélite…
— Isso já é mais do que suficiente — interrompeu Sha, fazendo um gesto com a mão. — Então você deve saber que, ao contrário das variações locais que observamos em diversas partes do universo, a flutuação geral da radiação cósmica de fundo em micro-ondas possui uma correlação com a expansão do universo. É uma mudança muito lenta, medida na escala da idade do universo. Mesmo com a sensibilidade do satélite Planck, uma observação constante ao longo de um milhão de anos poderia não detectar nenhuma variação. Mas você quer ver uma variação de cinco por cento hoje? Sabe o que isso significaria? O universo piscaria como se fosse uma lâmpada fluorescente que estivesse prestes a queimar!
E ele vai piscar para mim, pensou Wang.
— Deve ser uma brincadeira da professora Ye — disse Sha.
— Nada me deixaria mais feliz do que descobrir que não passa de uma brincadeira — respondeu Wang. Ele estava a ponto de dizer para Sha que Ye não sabia os detalhes do inusitado pedido, mas tinha medo de que Sha resolvesse não ajudá-lo se comentasse.
— Bom, já que a professora Ye me pediu para ajudá-lo, vamos fazer a observação. Não tem problema. Se você só quer uma precisão de um por cento, os dados do velho Cobe bastam. — Enquanto falava, Sha digitou rapidamente no terminal. Logo depois, apareceu uma linha verde na tela. — Esta curva é a medição em tempo real da radiação cósmica de fundo em micro-ondas geral. Ah, seria mais correto chamar de linha reta. A temperatura é de 2,725±0,002 K. A margem de erro se deve ao efeito Doppler resultante do deslocamento da Via Láctea, e já foi compensada. Se acontecer o tipo de variação que você está esperando, de mais de um por cento, esta linha vai ficar vermelha e se transformar em onda. Mas eu aposto que ela vai continuar uma linha verde reta até o fim do mundo. Se você quiser vê-la apresentar um tipo de flutuação observável a olho nu, talvez tenha que esperar até muito depois da morte do nosso Sol.
— Não estou interferindo em seu trabalho, não é?
— Não. Como você quer uma precisão muito baixa, podemos usar só alguns dados básicos do Cobe. Certo, está tudo pronto. A partir de agora, se uma flutuação grande como essa acontecer, os dados serão gravados automaticamente no disco rígido.
— Acho que deve acontecer por volta de uma da manhã.
— Uau, quanta precisão! Não tem problema, já que estou com o turno da noite mesmo. Você já jantou? Ótimo, então vou fazer um tour com você.
Era uma noite sem luar. Os dois caminharam ao longo da fileira de antenas, e Sha apontou para elas.
— É de tirar o fôlego, não? Pena que todas elas são como os ouvidos de um surdo.
— Por quê?
— Desde que a construção terminou, as faixas de observação têm sofrido interferência constante. Primeiro foram as torres de transmissão de pagers nos anos 1980. Agora é a correria para desenvolver redes móveis de comunicação e torres de transmissão para celulares. Estes telescópios são capazes de realizar muitas tarefas científicas, como explorar o céu, detectar fontes variáveis de rádio, observar os resquícios de supernovas, mas não temos como fazer a maioria dessas ações. Já reclamamos várias vezes para a Comissão Reguladora Estatal de Rádio, porém nunca adiantou nada. Como é que vamos conseguir mais atenção do que a China Mobile, a China Unicom, a China Netcom? Sem dinheiro, os segredos do universo não valem merda nenhuma. Pelo menos meu projeto só depende de dados de satélite e não tem nada a ver com estas “atrações turísticas”.
— Nos últimos anos, o financiamento de projetos de pesquisa básica tem tido um sucesso razoável, como na área da física de alta energia. Não seria melhor construir os observatórios em lugares mais afastados das cidades?
— No fim é tudo uma questão de dinheiro. Agora, nossa única opção é descobrir maneiras técnicas de bloquear interferências. Bom, seria muito melhor se a professora Ye estivesse aqui. Ela teve muito êxito nessa área.
E assim, como o assunto da conversa passou a ser Ye Wenjie, Wang finalmente soube da vida dela a partir de seu ex-aluno. Ficou sabendo que ela havia presenciado a morte do próprio pai durante a Revolução Cultural, que fora acusada injustamente no Corpo de Produção e Construção e depois meio que desapareceu até voltar a Beijing no começo dos anos 1990, quando passou a ensinar astrofísica na Universidade Tsinghua, onde o pai tinha sido professor, até se aposentar.
— Só recentemente foi revelado que ela havia passado mais de vinte anos na Base Costa Vermelha.
Wang ficou chocado.
— Quer dizer que aqueles boatos…
— A maioria era verdade. Um dos pesquisadores que desenvolveu o sistema de decodificação do Projeto Costa Vermelha emigrou para a Europa e escreveu um livro no ano passado. Essa obra deu origem a grande parte dos boatos que estão circulando. Muitas pessoas que participaram da Costa Vermelha ainda estão vivas.
— Isso é… uma lenda fantástica.
— Ainda mais por ter acontecido naqueles anos… absolutamente incrível.
Eles continuaram conversando por um tempo. Sha perguntou sobre o propósito por trás do inusitado pedido de Wang. Como ele evitou uma resposta clara, Sha não insistiu. A dignidade de especialista na área não permitia que Sha mostrasse muito interesse por um pedido que ia claramente contra seus conhecimentos profissionais.
Depois, eles foram a um bar para turistas e passaram duas horas lá. Sha bebia uma cerveja atrás da outra, e sua língua foi se soltando cada vez mais. Já Wang foi ficando ansioso e não parava de pensar naquela linha verde no laboratório. Só às dez para uma da manhã, Sha cedeu aos apelos constantes de Wang para que os dois voltassem.
Os holofotes que antes iluminavam a fileira de antenas haviam sido desligados, e as antenas passaram a formar uma imagem bidimensional simples diante do céu noturno, como se fossem uma série de símbolos abstratos. Todas encaravam o céu no mesmo ângulo, como se estivessem esperando algo, ansiosas. Wang estremeceu ao vê-las, apesar do agradável calor da noite primaveril: a imagem trazia lembranças dos pêndulos gigantes de Três Corpos.
Eles chegaram ao laboratório à uma em ponto. Quando olharam o terminal, a flutuação tinha acabado de começar. A linha reta virou uma onda, e a distância entre duas cristas era inconstante. Ela ficou vermelha, como uma cobra que despertava da hibernação, agitando-se à medida que a pele voltava a se encher de sangue.
— Deve ser um defeito no Cobe!
Sha encarava apavorado a linha ondulada.
— Não é um defeito. — O tom de Wang era extremamente calmo. Ele havia aprendido a se controlar diante daquele tipo de situação.
— Saberemos logo — respondeu Sha, que foi até os outros dois terminais e digitou rapidamente, reunindo os dados obtidos pelos satélites WMAP e Planck.
Três ondas passaram a se mover em sintonia nos três terminais, completamente idênticas.
Sha pegou e ligou um laptop às pressas. Conectou um cabo de rede e apanhou o telefone. Pelo que Wang conseguiu ouvir da conversa, percebeu que Sha estava tentando entrar em contato com o observatório radioastronômico de Ürümqi. Ele não explicou para Wang o que estava fazendo, mantendo os olhos fixos na janela do navegador do laptop. Wang reparou que a respiração dele estava acelerada.
Alguns minutos depois, uma onda vermelha apareceu na janela do navegador, mexendo no mesmo ritmo das outras três.
Os três satélites e o observatório em solo confirmaram um mesmo fato: o universo estava piscando.
— Você pode imprimir essa onda? — perguntou Wang.
Sha limpou o suor frio da testa e assentiu com a cabeça. Mexeu o mouse e clicou em IMPRIMIR. Wang pegou a primeira folha assim que ela saiu da impressora a laser e, com um lápis, começou a comparar a distância entre as cristas com a tabela de código Morse que tirou do bolso.
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Isso é 1108:21:37, pensou Wang.
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Isso é 1108:21:36.
A contagem regressiva continuava na escala do universo. Já haviam se passado 92 horas, e só restavam 1108 horas.
Nervoso, Sha andava de um lado para o outro, parando de vez em quando para olhar a sequência de números que Wang anotava.
— Você não pode me explicar o que está acontecendo? — gritou.
— Não sou capaz de explicar para você, dr. Sha. Acredite. — Wang afastou a pilha de papéis preenchidos com as ondas. Olhando a sequência de números, disse: — Talvez os três satélites e o observatório estejam com defeito.
— Você sabe que isso é impossível.
— E se tiver sido sabotagem?
— Também impossível! Alterar simultaneamente os dados de três satélites e de um observatório na Terra? Você está sugerindo um sabotador sobrenatural.
Wang assentiu com a cabeça. Na comparação com a ideia de que o universo estava piscando, ele teria preferido um sabotador sobrenatural. Só que então Sha destruiu aquele último raio de esperança.
— É fácil de confirmar. Se a radiação cósmica de fundo em micro-ondas está flutuando tanto assim, podemos verificar com os próprios olhos.
— Como assim? O comprimento de onda da radiação cósmica de fundo é de sete centímetros. São cinco ordens de magnitude abaixo do comprimento da luz visível. Como é que poderíamos ver isso?
— Com óculos 3K.
— Óculos 3K?
— Isso. É um brinquedo científico que criamos para o Planetário Capital. Com o nível atual da tecnologia, conseguimos fazer dos óculos uma miniatura da antena corneta de seis metros, utilizada por Penzias e Wilson há quase meio século para descobrir a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Depois, acrescentamos um conversor para comprimir em até cinco ordens de magnitude a radiação detectada, de modo a transformar as ondas de sete centímetros em uma luz vermelha visível. Assim, os visitantes podem colocar os óculos à noite e observar pessoalmente a radiação cósmica de fundo. E agora, podemos usá-los para ver o universo piscar.
— Onde eu encontro esses óculos?
— No Planetário Capital. Criamos mais de vinte unidades.
— Preciso arrumar um antes das cinco.
Sha pegou o telefone. Depois de vários toques, alguém atendeu do outro lado da linha. Sha precisou de muita energia para convencer a pessoa que tinha acordado no meio da noite a ir até o planetário e esperar a chegada de Wang dali a uma hora.
— Não vou com você — disse ele, quando Wang estava de saída. — Já vi o suficiente e não preciso de mais confirmação. Apesar disso, espero que você me explique a verdade quando achar que for a hora certa. Se esse fenômeno levar a algum resultado científico, não me esquecerei de você.
Wang abriu a porta do carro.
— A flutuação vai parar às cinco da manhã. Sugiro que você não procure mais depois. Acredite, não vai levar a lugar nenhum.
Sha encarou Wang por um bom tempo e assentiu.
— Entendo. Ultimamente vêm acontecendo coisas estranhas com cientistas…
— Sim.
— É a nossa vez?
— É a minha vez, pelo menos. Wang deu partida no motor.
Uma hora depois, Wang chegou ao novo planetário e saiu do carro. As luzes claras da cidade atravessavam as paredes translúcidas do imenso edifício de vidro e revelavam um vislumbre da estrutura interna. Wang pensou que se a intenção do arquiteto tinha sido expressar um sentimento a respeito do universo, o projeto era um sucesso: quanto mais algo fosse transparente, mais misterioso parecia. O próprio universo era transparente: alguém com um olhar aguçado o bastante podia ver tão longe quanto quisesse. Porém, quanto mais longe via, mais misterioso o universo ficava.
O funcionário sonolento do planetário estava esperando Wang na porta. Ele lhe entregou uma valise pequena e disse:
— Aí dentro tem cinco óculos 3K, todos com a bateria cheia. O botão esquerdo é para ligar. O sintonizador da direita é para ajustar o brilho. Tenho mais uns doze óculos lá em cima. Pode olhar à vontade, mas agora vou tirar um cochilo ali naquela sala. Esse dr. Sha deve estar maluco.
Ele entrou no planetário escurecido.
Wang abriu a valise no banco traseiro do carro e pegou um dos óculos 3K. Parecia a tela de dentro do capacete com visor panorâmico do traje V. Wang colocou os óculos no rosto e olhou para a cidade, que parecia igual, só menos iluminada. Então ele lembrou que precisava ligar os óculos.
A cidade se transformou em uma multidão de auréolas de brilho difuso. A maioria era fixa, mas algumas piscavam ou se mexiam. Wang percebeu que estas eram fontes de radiação na faixa centimétrica, todas convertidas para a luz visível. No centro de cada auréola havia uma fonte de radiação. Como os comprimentos originais das ondas eram muito longos, era impossível ver direito o formato delas.
Wang levantou a cabeça e viu um céu brilhando com uma luz vermelha suave. De repente, estava enxergando a radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
A luz vermelha tinha se originado havia mais de dez bilhões de anos. Era o resquício do Big Bang, a brasa ainda quente da criação. Wang não conseguia enxergar nenhuma estrela. Em uma situação normal, como a luz visível estaria comprimida pelos óculos até ficar invisível, cada estrela deveria aparecer como um ponto preto. Mas a difração da onda de radiação centimétrica abafava quaisquer formas e detalhes.
Quando seus olhos se acostumaram à luz, Wang percebeu que o vermelho suave estava mesmo pulsando. O céu inteiro piscava, como se o universo não passasse de uma lamparina trêmula ao vento.
Sob a redoma cintilante do céu noturno, Wang teve a sensação repentina de que o universo encolhia até ficar tão pequeno que aprisionava apenas ele. O universo era um coração contraído,
e a luz vermelha que inundava tudo era o sangue translúcido que enchia o órgão. Suspenso no sangue, Wang constatou que a cintilação da luz vermelha não era periódica — a pulsação era irregular. Ele sentiu uma presença estranha, perversa e imensa, que jamais poderia ser compreendida pelo intelecto humano.
Wang tirou os óculos e foi abaixando até sentar no chão, recostado na roda do carro. A noite da cidade recuperou lentamente a realidade da luz visível, mas os olhos dele ficaram explorando, tentando capturar outras cenas. Havia um conjunto de lâmpadas neon junto à entrada do zoológico do outro lado da rua. Uma das lâmpadas estava prestes a queimar e piscava de modo irregular. Ali perto, as folhas de uma árvore pequena tremulavam com a brisa noturna, brilhando sem lógica ao refletir as luzes da rua. Ao longe, no topo do pináculo em estilo russo do Centro de Exposições de Beijing, a estrela vermelha refletia a luz dos carros que passavam abaixo do edifício, também piscando de maneira aleatória…
Ele tentou interpretar as cintilações como se fossem código Morse. Chegou a ter a sensação de que as dobras das bandeiras que tremulavam ali perto e os círculos concêntricos na poça da rua talvez estivessem enviando mensagens. Esforçou-se para compreender todas essas mensagens e sentiu cada segundo da contagem regressiva.
Wang não sabia quanto tempo passara ali. O funcionário do planetário enfim saiu e perguntou se ele havia terminado. No entanto, quando viu o rosto de Wang, o sono em seus olhos desapareceu e foi substituído por medo. Ele guardou os óculos, olhou para Wang por alguns segundos e foi embora às pressas com a valise.
Wang pegou o celular e ligou para Shen Yufei. Ela atendeu na hora. Talvez também estivesse com insônia.
— O que vai acontecer quando a contagem regressiva acabar? — perguntou Wang.
— Não sei. — E desligou.
O que será? Talvez a minha morte, como a de Yang Dong.
Ou talvez um desastre como o tsunami imenso que se espalhou pelo oceano Índico há mais de uma década. Ninguém associaria uma catástrofe dessas à minha pesquisa em nanotecnologia. Será que todos os desastres que já aconteceram, incluindo as duas guerras mundiais, foram também resultado do fim de alguma contagem regressiva fantasmagórica? Será que sempre havia alguém como eu, alguém que ninguém imaginava, alguém com toda a responsabilidade?
Ou talvez isso seja um sinal para o fim do mundo inteiro. Em um mundo perverso desses, isso seria um alívio.
Uma coisa era certa. Seja lá o que acontecesse no fim da contagem, ao longo das cerca de mil horas que faltavam, as possibilidades o torturariam terrivelmente, como demônios, até que ele sofresse um colapso mental completo.
Wang entrou no carro e deixou o planetário para trás. As ruas estavam relativamente desertas pouco antes do amanhecer. Apesar disso, ele não se atrevia a dirigir muito rápido, com a sensação de que, quanto mais corresse, maior seria a velocidade da contagem regressiva.
Assim que surgiu um vislumbre de luz no céu ao leste, ele estacionou e começou a caminhar sem rumo. Sua mente estava vazia: apenas a contagem pulsava diante do brilho vermelho fraco
da radiação cósmica de fundo. Aparentemente, ele havia se transformado em nada além de um mero cronômetro, um sino que dobrava para algum desconhecido.
O céu clareou. Wang estava cansado, então se sentou em um banco.
Quando levantou a cabeça para ver onde seu inconsciente o havia levado, Wang estremeceu. Estava diante da igreja de São José em Wangfujing. Sob a fraca luz branca do amanhecer, os
arcos românicos da igreja pareciam três dedos gigantes que indicavam algo no espaço para ele.
Quando Wang se levantou para ir embora, ouviu um fragmento de canto religioso e parou. Não era domingo, então provavelmente se tratava de um coral ensaiando um hino pentecostal. Enquanto escutava a melodia solene e sagrada, Wang Miao sentiu mais uma vez que o universo havia encolhido até ficar do tamanho de uma igreja vazia. O teto abobadado estava oculto pela luz vermelha irregular da radiação de fundo, e Wang era uma formiga andando pelas rachaduras do chão. Ele sentiu uma mão invisível gigantesca acariciar seu coração trêmulo e voltou a ser um bebê indefeso. Nas profundezas de sua mente, algo que antes o sustentava amoleceu como cera e cedeu. Wang cobriu os olhos e começou a chorar.
Suas lágrimas foram interrompidas por uma risada.
— Hahaha, mais um que já era. Ele se virou.
O capitão Shi Qiang estava em pé ao seu lado, soprando uma baforada de fumaça branca.
— Aqui. As chaves do seu carro, que você deixou no cruzamento de Dongdan. Se eu tivesse chegado um minuto atrasado, ele teria sido rebocado pelos guardas de trânsito.
Da Shi, se eu soubesse que você estava me seguindo, teria ficado mais tranquilo, pensou Wang, se referindo ao policial pelo apelido, mas guardando as palavras para si, por amor-próprio. Ele aceitou um cigarro de Da Shi e deu a primeira tragada em muitos anos, desde que havia parado de fumar.
— Como é que você está, meu amigo? Difícil de encarar? Eu falei que você não ia aguentar. Mas você insistiu em bancar o fortão.
— Você não teria como entender. — Wang deu mais algumas tragadas longas.
— Seu problema é que eu entendo bem demais… Certo, vamos arrumar alguma coisa para comer.
— Não estou com fome.
— Então vamos beber! Eu pago.
Wang entrou no carro de Da Shi, e eles foram para um pequeno restaurante ali perto. Ainda era cedo, e o lugar estava deserto.
— Duas porções de bucho frito e uma garrafa de er guo tou!* — gritou Da Shi, sem nem levantar a cabeça. Estava nítido que era um freguês habitual.
Quando olhou para os dois pratos cheios de tiras pretas de bucho, Wang sentiu o estômago vazio começar a se revirar e achou que fosse passar mal. Da Shi pediu um pouco de leite de soja morno e panquecas fritas, e Wang se forçou a comer um pouco.
Depois, eles beberam doses de er guo tou. Wang começou a sentir a cabeça leve e a língua solta. Aos poucos, foi contando para Da Shi o que havia acontecido nos últimos três dias, mesmo consciente de que Da Shi provavelmente já soubesse de tudo; talvez Da Shi soubesse até mais do que ele.
— Quer dizer que o universo estava… piscando para você? — perguntou Da Shi, chupando tiras de bucho como se fosse macarrão.
— Essa é uma metáfora muito adequada.
— Palhaçada.
— Sua falta de medo se deve à ignorância.
— Mais palhaçada. Vamos, beba!
Wang virou outra dose. O mundo tinha passado a girar, e só Shi Qiang, o devorador de tripas,
permanecia estável à sua frente.
— Da Shi — disse ele —, você já… refletiu sobre certas questões filosóficas elementares? Por exemplo, de onde viemos, para onde vamos, de onde veio o universo, para onde o universo vai, essa coisa toda?
— Não.
— Nunca?
— Nunca.
— Você com certeza já viu as estrelas. Nunca ficou fascinado ou curioso com o mistério delas?
— Eu nunca olho para o céu à noite.
— Como é possível? Achei que você costumasse trabalhar no turno da noite.
— Meu amigo, quando eu trabalho à noite, o suspeito foge se eu ficar olhando para o céu.
— Nós realmente não temos nenhuma afinidade. Certo. Beba!
— Para falar a verdade, mesmo se eu olhasse o céu à noite, não ficaria pensando nessas questões filosóficas. Tenho outras preocupações! Preciso quitar a casa, economizar para a faculdade do garoto e lidar com uma sequência interminável de casos… Sou um homem simples, sem coisas complicadas. Se você olhar dentro da minha garganta, vai conseguir enxergar até minha bunda. Claro, não consigo agradar meus chefes. Anos depois da minha baixa do Exército, minha carreira não está indo para lugar nenhum. Se eu não fosse muito bom no que faço, teria sido expulso há muito tempo… Você acha que isso não é preocupação suficiente? Acha que tenho tempo para ficar olhando as estrelas e filosofando?
— Tem razão. Certo, vire o copo!
— Mas eu cheguei a inventar uma regra básica.
— Diga.
— Qualquer coisa esquisita o bastante deve ser suspeita.
— Que… que regra idiota é essa?
— O que eu quero dizer é: sempre tem alguém por trás de coisas que parecem não ter explicação.
— Se você tivesse ao menos um conhecimento básico de ciências, saberia que é impossível qualquer força realizar as coisas que presenciei. Especialmente essa última. Manipular os acontecimentos na escala do universo… não só a ciência atual é incapaz de explicar isso, como eu também nem consigo imaginar como explicar fora da ciência. É algo mais do que sobrenatural. É sobre sei lá o quê…
— Estou falando, é palhaçada. Já vi muitas coisas esquisitas.
— Então diga o que eu devo fazer agora.
— Continue bebendo. Depois, durma.
— Certo.
Wang Miao não fazia ideia de como conseguiu voltar para o carro. Apenas caíra no banco traseiro e dormira um sono sem sonhos. Achou que não tinha dormido por muito tempo, mas, quando abriu os olhos, viu que o sol já estava quase se pondo no oeste.
Ele saiu do carro. Embora estivesse fraco pelo álcool que bebeu durante a madrugada, se sentia melhor. Percebeu que estava em uma esquina da Cidade Proibida. O pôr do sol iluminava o palácio ancestral e se dissolvia em pequenas ondas douradas no fosso. Aos olhos de Wang, o mundo voltou a parecer normal e estável.
Ele continuou sentado até o anoitecer, aproveitando uma paz que havia desaparecido de sua vida. O Santana preto que ele já conhecia muito bem passou pela rua e parou à sua frente. Shi Qiang saiu do carro.
— Dormiu bem? — resmungou Da Shi.
— Dormi. E agora?
— O quê? Para você? Vá jantar. Depois, beba mais um pouco. Depois, durma de novo.
— E depois?
— Depois? Você não precisa trabalhar amanhã?
— Mas a contagem regressiva… só faltam mil e noventa e uma horas.
— Foda-se a contagem regressiva. Sua prioridade agora é ter certeza de que consegue ficar de pé e não desmoronar. Depois a gente conversa sobre outras coisas.
— Da Shi, você pode me dizer algo sobre o que está realmente acontecendo? Estou implorando.
Da Shi encarou Wang por um instante. E riu.
— Já perdi a conta de quantas vezes falei exatamente a mesma coisa para o general Chang. Nós dois, você e eu, estamos no mesmo barco. Falando sério: não sei porra nenhuma. Ocupo um lugar muito baixo na hierarquia, e ninguém me diz nada. Às vezes isso parece um pesadelo.
— Mas você deve saber mais do que eu.
— Tudo bem. Vou contar o pouco que sei.
Da Shi apontou para a beirada do fosso em volta da Cidade Proibida. Os dois escolheram um lugar e se sentaram.
Já era noite, e o trânsito seguia intenso atrás deles, correndo ininterrupto como um rio. Os dois ficaram observando suas sombras crescendo e diminuindo em cima do fosso.
— No meu ramo, o trabalho é ligar vários pontos que parecem não ter nenhuma relação entre si. Quando a gente liga do jeito certo, a verdade aparece. Já tem algum tempo que vêm acontecendo algumas coisas estranhas.
“Por exemplo, vem ocorrendo uma onda inédita de crimes contra instituições acadêmicas e de pesquisa científica. Com certeza você soube da explosão no canteiro de obras do acelerador em Liangxiang. Teve também o assassinato daquele ganhador do Nobel… Todos esses crimes foram esdrúxulos: não por dinheiro, não por vingança. Nenhuma motivação política, só destruição pura.
“Outros acontecimentos estranhos não tiveram a ver com crimes. Por exemplo, a Fronteiras da Ciência e o suicídio daqueles acadêmicos. Ao mesmo tempo, a ousadia dos ambientalistas tem aumentado: multidões de manifestantes em canteiros de obras para impedir a construção de usinas nucleares e barragens de hidrelétricas, comunidades experimentais de ‘retorno à natureza’ e outras questões aparentemente triviais… Você costuma ir ao cinema?”
— Não, não muito.
— Todas as megaproduções recentes seguem temas rústicos. Os cenários são sempre
montanhas verdejantes e águas claras, com homens e mulheres angelicais de alguma época indefinida vivendo em harmonia com a natureza. Citando as palavras dos diretores, esses filmes “representam a beleza da vida antes de a ciência estragar a natureza”. Veja A fonte das flores de pessegueiro: claramente, é o tipo de filme que ninguém quer ver. Mas gastaram centenas de milhões na produção. Também fizeram um concurso de ficção científica que oferecia um prêmio de cinco milhões para a pessoa que imaginasse o futuro mais asqueroso de todos. Gastaram ainda mais algumas centenas de milhões para transformar os contos vencedores em filmes. E tem também esse monte de seita estranha aparecendo por todos os lados, com líderes que parecem ter muito dinheiro…
— O que essa última parte tem a ver com tudo o que você falou antes?
— Você precisa ligar todos os pontos. É claro que eu não precisava me preocupar com essas questões antes, mas, depois que me transferiram da unidade de crimes para o Centro de Comando em Batalha, isso passou a fazer parte do meu trabalho. Até o general Chang está impressionado com meu talento para ligar os pontos.
— E qual é sua conclusão?
— Tudo que está acontecendo é coordenado por uma pessoa que está nos bastidores e tem um objetivo: arruinar completamente as pesquisas científicas.
— Quem?
— Não faço ideia. Mas consigo pressentir o plano, um plano muito amplo e bem complicado: danificar complexos de pesquisa científica, assassinar alguns cientistas e enlouquecer e levar outros, como você, ao suicídio… Mas o objetivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda mais ignorantes do que as pessoas comuns.
— Essa sua última observação é muito perspicaz.
— Ao mesmo tempo, querem arruinar a reputação da ciência na sociedade. É claro que sempre teve gente envolvida em atividades contra a ciência, mas agora é algo coordenado.
— Acredito em você.
— Agora você acredita em mim. Um monte de gente da elite científica foi incapaz de perceber, e aí um cara como eu, que só fez escola técnica, encontra a resposta? Rá! Quando expliquei minha teoria, fui ridicularizado pelos intelectuais e pelos meus chefes.
— Se você tivesse me contado sua teoria antes, com certeza eu não teria rido. Veja aqueles picaretas que praticam pseudociência. Sabe de quem eles têm mais medo?
— Dos cientistas, claro.
— Não. Muitos dos melhores cientistas podem ser enganados pela pseudociência, às vezes dedicando a vida a ela. Mas a pseudociência tem medo de um tipo específico de gente, pessoas muito difíceis de enganar: mágicos. E com razão, porque muitos embustes pseudocientíficos foram desvendados por mágicos. Enfim, na comparação com os acadêmicos bitolados do mundo científico, você tem muito mais chance de perceber uma conspiração de grande escala, por causa da sua experiência como policial.
— Bom, tem muita gente mais esperta do que eu. Os figurões com poder nas mãos sabem muito bem da trama. Quando me ridicularizaram no começo, foi só porque eu não tinha explicado a teoria para as pessoas certas. Mais tarde, meu antigo comandante de companhia, o
general Chang, cuidou pessoalmente da minha transferência. Mas ainda não estou fazendo nada além de pequenos serviços… Pronto. Agora você sabe tanto quanto eu.
— Mais uma dúvida: o que isso tem a ver com as Forças Armadas?
— Também fiquei confuso. Quando perguntei, disseram que, agora que tem uma guerra, é claro que as Forças Armadas iam se envolver. Eu estava que nem você, achando que os caras só estavam falando besteira. Mas não, não era brincadeira. O Exército está mesmo em alerta máximo. Foram instalados vinte e tantos Centros de Comando em Batalha no planeta inteiro. E acima de todos existe mais um nível na hierarquia, mas ninguém conhece os detalhes.
— Quem é o inimigo?
— Não faço ideia. Agora temos representantes da Otan na sala de guerra do Estado-Maior do ELP, e há um monte de oficiais do ELP trabalhando no Pentágono. Quem é que sabe que merda a gente está enfrentando?
— Isso é tudo tão estranho. Você tem certeza de que é tudo verdade?
— Tenho vários amigos de longa data no Exército que hoje são generais, então sei de algumas coisas.
— A mídia não tem ideia nenhuma disso?
— Ah, essa é outra questão. Todos os países estão deixando isso bastante fechado, com sucesso até agora. Garanto que o inimigo é incrivelmente poderoso. As pessoas no comando estão apavoradas! Eu conheço muito bem o general Chang. Ele é o tipo de sujeito que não tem medo de nada, nem mesmo de o céu desabar. Só que percebi que ele está preocupado com algo muito pior agora. Parece que estão todos morrendo de medo e duvidam que tenham chance de vencer.
— Se o que você está dizendo for verdade, então todo mundo tem que ficar assustado.
— Todo mundo tem medo de algo. O inimigo também deve ter. Quanto mais poderosos eles forem, mais têm a perder para seus medos.
— Do que você acha que o inimigo tem medo?
— De vocês! Dos cientistas! O estranho é que, quanto menos prática for a área de pesquisa, maior é o medo deles em relação a vocês. Como teorias abstratas, o tipo de coisa com que Yang Dong trabalhava. Eles têm mais medo desse tipo de trabalho do que vocês têm do universo piscando. É por isso que são tão cruéis. Se matar vocês fosse resolver o problema, todos já estariam mortos. Mas a técnica mais eficaz ainda é embaralhar seus pensamentos. Quando um cientista morre, ele é substituído por outro. Mas se os pensamentos se confundem, a ciência acaba.
— Você está dizendo que eles têm medo da ciência de base?
— Sim, da ciência de base.
— Mas a natureza da minha pesquisa é muito diferente daquela do estudo de Yang Dong. Os nanomateriais com que trabalho não são ciência de base. É só um material muito forte. Como é que isso pode representar ameaça?
— Você é um caso atípico. Normalmente, eles não incomodam pessoas relacionadas com pesquisa aplicada. Talvez tenham bastante medo do material que você está desenvolvendo.
— Então o que eu deveria fazer?
— Vá trabalhar e continue a pesquisa. Essa é a melhor maneira de contra-atacar. Não se preocupe com essa contagem regressiva de merda. Se quiser relaxar um pouco depois do expediente, entre naquele jogo. Se conseguir vencer, talvez ajude.
— Aquele jogo? Três Corpos? Você acha que tem alguma relação com isso tudo?
— Com certeza tem alguma relação. Eu sei que vários especialistas do Centro de Comando em Batalha estão jogando também. Não é um jogo normal. Alguém como eu, destemido por ignorância, não tem como jogar. Precisa ser alguém entendido como você.
— Mais alguma coisa?
— Não. Se eu descobrir mais, aviso. Deixe o celular ligado, meu amigo. Fique de cabeça fria e, se tiver medo de novo, é só lembrar minha regra básica.
Da Shi foi embora antes que Wang tivesse chance de agradecer.
* Er guo tou é uma bebida destilada feita a partir do sorgo; às vezes, é chamada de “vodca chinesa”.
Antes de voltar para casa, Wang Miao parou em uma loja para comprar um traje V. Assim que chegou, sua mulher disse que as pessoas do trabalho tinham passado o dia inteiro tentando entrar em contato com ele.
Wang ligou o celular, viu as mensagens e retornou algumas ligações. Prometeu que iria para o trabalho no dia seguinte. Durante o jantar, seguiu o conselho de Da Shi e bebeu um pouco mais.
Mas não estava com sono. Depois que a esposa foi dormir, ele se sentou na frente do computador, colocou o traje V novo e entrou em Três Corpos.
Planície desolada ao nascer do sol.
Wang se encontrava diante da pirâmide do rei Zhou. As camadas de neve que cobriam a construção haviam desaparecido, e os blocos de pedra estavam marcados pela erosão. O chão estava com uma cor diferente. Ao longe, havia alguns edifícios imensos, que Wang imaginou serem desidratórios, mas tinham uma forma diferente dos que ele vira na outra vez.
Tudo indicava que haviam se passado eras inteiras.
Sob a luz fraca do amanhecer, Wang procurou uma entrada. Quando encontrou, viu que a abertura tinha sido bloqueada por blocos de pedra. No entanto, ao lado, uma escadaria escavada na pirâmide levava até o ápice. Ele olhou para cima e viu que o topo fora aplainado para formar uma plataforma. A pirâmide, que antes era de estilo egípcio, agora parecia asteca.
Wang subiu a escada e chegou ao ápice. A plataforma parecia um observatório astronômico da Antiguidade. Em um dos cantos, havia um telescópio com vários metros de altura, cercado por outros telescópios menores. Em outro canto, Wang viu alguns instrumentos estranhos que lembravam antigas esferas armilares chinesas, modelos de objetos celestes.
Logo sua atenção foi atraída para a grande esfera de cobre no centro da plataforma. Com dois metros de diâmetro, ela estava em cima de uma máquina complexa. Movida por inúmeras engrenagens, a esfera girava lentamente. Wang percebeu que a direção e a velocidade da rotação mudavam sem parar. Debaixo da máquina, havia uma cavidade quadrada ampla. Com a iluminação tênue proporcionada pelas tochas no interior, Wang viu vultos que pareciam ser de escravos girando uma roda, que fornecia energia para a máquina do topo.
Um homem se aproximou de Wang. Como o rei Wen, o homem estava de costas para a fresta de luz do horizonte, parecendo um par de olhos brilhantes flutuando na escuridão. Era magro e
alto, com um manto preto esvoaçante. O cabelo estava amarrado sem muito cuidado no topo da cabeça, deixando algumas mechas balançando ao vento.
— Oi — disse o homem. — Meu nome é Mo Zi.*
— Oi, eu sou Hairen.
— Ah, conheço você! — Mo Zi ficou animado. — Você era um seguidor do rei Wen lá na civilização número 137.
— Segui o rei até aqui, sim. Mas nunca acreditei em suas teorias.
— Tem razão. — Mo Zi fez um gesto solene com a cabeça para Wang, e então se aproximou mais. — Durante os trezentos e sessenta e dois anos em que você esteve ausente, a civilização renasceu mais quatro vezes. Essas civilizações sofreram para se desenvolver ao longo da alternância irregular de Eras Caóticas e Eras Estáveis. A mais curta só conseguiu avançar até metade da Idade da Pedra, mas a civilização número 139 bateu um recorde e progrediu até a Era Industrial.
— Quer dizer que as pessoas dessa civilização descobriram as leis que regem os movimentos do sol?
Mo Zi riu e balançou a cabeça.
— De jeito nenhum. Elas só deram sorte.
— Mas o esforço para desvendar esse movimento nunca parou?
— É claro que não. Venha comigo, quero mostrar os esforços da última civilização.
Mo Zi conduziu Wang até um dos cantos da plataforma de observação. A terra se estendia diante deles como um velho pedaço de couro. Mo Zi apontou um dos telescópios menores para um ponto no chão e fez um gesto para Wang, que olhou pelo visor e se deparou com algo estranho: um esqueleto. A luz do amanhecer produzia um reflexo branco como a neve e fazia o esqueleto parecer muito refinado.
Por incrível que pareça, o esqueleto ficava de pé por conta própria. Tinha um porte gracioso e elegante. Uma das mãos estava sob o queixo, como se afagasse uma barba havia muito perdida. A cabeça estava ligeiramente inclinada para cima, como se questionasse o céu e a terra.
— Aquele é Confúcio — disse Mo Zi. — Ele acreditava que tudo precisava se adequar ao li, o conceito de ordem e decência, e que nada no universo podia dispensá-lo. Ele criou um sistema de ritos e pretendia usá-lo para prever os movimentos do sol.
— Já imagino o resultado.
— E tem razão. Ele calculou que o sol seguiria os ritos e previu uma Era Estável de cinco anos. E quer saber? Realmente aconteceu uma Era Estável… que durou um mês.
— E então, certo dia, o sol não nasceu mais?
— Não, o sol nasceu nesse dia também. Subiu até o meio do céu e depois se apagou.
— O quê? Apagou?
— Sim. Foi diminuindo gradualmente, cada vez menor, até se apagar de repente. Veio a noite. Ah, o frio. Confúcio ficou ali parado, congelou e se transformou em uma coluna de gelo. Não se mexeu até agora.
— Restou alguma coisa no céu depois que o sol se apagou?
— Apareceu uma estrela voadora no lugar, como uma alma que tivesse ficado para trás após a
morte do sol.
— Quer dizer que o sol desapareceu de repente e a estrela voadora apareceu também de repente? Você tem certeza?
— Sim, absoluta. Pode conferir os registros históricos. Foi documentado com bastante clareza.
— Hmmm… — refletiu Wang. Embora já tivesse criado algumas hipóteses vagas sobre a mecânica do mundo de Três Corpos, essa informação de Mo Zi derrubou todas as suas teorias.
— Como é que pode ser… repentino? — murmurou ele, irritado.
— Agora estamos na dinastia Han. Não sei se é a Han Ocidental ou a Han Oriental.
— Você continuou vivo até agora?
— Tenho uma missão: observar os movimentos precisos do sol. Aqueles xamãs, metafísicos e taoistas são todos inúteis. Assim como os famosos homens das letras, que nem sequer seriam capazes de distinguir entre tipos de grãos, eles não realizam trabalhos manuais e não sabem de nada prático. Não têm habilidade alguma para realizar experimentos e passam o dia inteiro imersos em seu misticismo. Já eu sou diferente. Eu sei fazer coisas. — Ele apontou para os vários instrumentos na plataforma.
— Você acha que esses objetos vão ajudá-lo a cumprir sua meta? — Wang fez um gesto com a cabeça especificamente para a enorme esfera de cobre.
— Também tenho teorias, mas não são místicas. Elas derivam de muitas e muitas observações. Em primeiro lugar, você sabe o que o universo é? Uma máquina.
— Isso não é muito profundo.
— Serei mais específico: o universo é uma esfera oca que flutua no meio de um mar de fogo. A superfície tem vários furos minúsculos e um grande. A luz do mar de chamas atravessa esses furos. Os minúsculos são estrelas, e o grande é o sol.
— Esse modelo é muito interessante. — Wang olhou outra vez para a enorme esfera de cobre e imaginou qual seria o propósito daquilo. — Mas sua teoria tem um problema. Quando o sol nasce ou se põe, é possível ver seu movimento diante de um fundo de estrelas fixas. Já em sua esfera oca, todos os furos permanecem em posições fixas uns em relação aos outros.
— Correto! É por isso que modifiquei meu modelo. A esfera universal é feita de duas esferas, uma dentro da outra. O céu que vemos é a superfície da esfera interna. A externa tem um buraco grande, e a interna tem muitos furos pequenos. A luz que passa pelo buraco da esfera externa se reflete e dispersa várias vezes no espaço entre as duas esferas, enchendo-a de luz. Em seguida, a luz passa pelos furos minúsculos da esfera interna, e é assim que vemos as estrelas.
— E o sol?
— O sol é a projeção do buraco grande da esfera externa na interna. Essa projeção é tão luminosa que atravessa a esfera interna como se ela fosse uma casca de ovo, e é assim que vemos o sol. Em volta do ponto de luz, os raios dispersados são também muito intensos e podem ser vistos pela casca interna. É por isso que podemos ver um céu claro durante o dia.
— Que força é essa que impulsiona as duas esferas na movimentação irregular?
— É a força do mar de fogo em volta das duas esferas.
— Mas o brilho e o tamanho do sol mudam com o tempo. Em seu modelo de duas cascas, o tamanho e o brilho do sol deviam ser fixos. Ainda que o brilho das chamas no mar de fogo fosse
inconstante, o tamanho do buraco não seria.
— Sua concepção do modelo é simplista demais. À medida que as condições no mar de fogo variam, as duas cascas se expandem ou se contraem. Isso resulta na variação de tamanho e brilho do sol.
— E as estrelas voadoras?
— Estrelas voadoras? Por que você liga para isso? Elas nem são importantes. Talvez não passem de um punhado qualquer de poeira flutuando dentro das esferas universais.
— Não, acho que as estrelas voadoras são extremamente importantes. Caso contrário, como é que seu modelo explica o apagamento súbito do sol durante a época de Confúcio?
— Isso foi uma exceção rara. Talvez tenha sido por causa de um ponto escuro ou em razão de uma nuvem no mar de fogo que casualmente passou na frente do buraco grande na casca externa.
Wang apontou para a grande esfera de cobre.
— Então este deve ser o seu modelo.
— Sim. Construí uma máquina para replicar o universo. As engrenagens complexas que movem a esfera simulam as forças do mar de fogo. As leis que regem esse movimento se baseiam na distribuição das chamas e nas correntes do mar de fogo. Deduzi tudo a partir de centenas de anos de observação.
— Essa esfera pode se contrair e se expandir?
— Claro. Neste instante, está se contraindo lentamente.
Wang usou o corrimão na beirada da plataforma como referência visual fixa. Percebeu que a afirmação de Mo Zi estava correta.
— E existe uma casca interna dentro dessa esfera?
— Claro. A casca interna se move dentro da externa por meio de outro conjunto complexo de mecanismos.
— É mesmo uma máquina projetada com habilidade! — O elogio de Wang era sincero. — Só não estou vendo um buraco grande na casca externa que possa lançar a luz do sol na casca interna.
— Não tem nenhum buraco. Instalei uma fonte de luz na superfície interna da casca externa para simular o buraco. A fonte de luz é composta do material luminescente acumulado de centenas de milhares de vaga-lumes. Usei uma luz fria porque a casca interna é feita de gesso translúcido, que não é um condutor térmico muito bom. Dessa forma, evito o problema de excesso de calor dentro da esfera, o que aconteceria com uma fonte de luz normal. Assim, o observador pode ficar mais tempo no interior.
— Tem uma pessoa dentro da esfera?
— Sim. Um escriba fica em cima de uma estante com rodas na base, bem no centro da esfera. Depois que configuramos o universo-modelo para corresponder ao estado atual do universo real, o movimento do modelo deve produzir uma simulação correta do futuro, incluindo os movimentos do sol. Quando o escriba registrar os movimentos solares, teremos um calendário preciso. Diante de nós está o sonho de centenas de civilizações anteriores.
“E parece que você chegou em um momento oportuno. De acordo com o universo-modelo, está prestes a começar uma Era Estável de quatro anos. Com base na minha previsão, o
imperador Wu de Han acaba de dar a ordem de reidratar. Vamos esperar o amanhecer!”
Mo Zi abriu a interface do jogo e aumentou ligeiramente a passagem do tempo. Um sol vermelho se ergueu no horizonte, e os vários lagos congelados espalhados pela planície começaram a derreter. Antes cobertos de poeira e misturados à terra parda, esses lagos agora pareciam vários espelhos d’água, como se a terra tivesse aberto muitos olhos. Ali de cima, Wang não conseguia enxergar os detalhes da reidratação, mas dava para ver que mais e mais pessoas se reuniam às margens dos lagos, como uma infestação de formigas saindo dos formigueiros na primavera. O mundo havia sido revivido mais uma vez.
— Não quer fazer parte desta vida maravilhosa? — perguntou Mo Zi, apontando para o chão abaixo deles. — Quando as mulheres são revividas, elas desejam amar. Já não há motivos para você ficar mais tempo aqui. O jogo acabou. Eu venci.
— Como maquinário, seu universo-modelo é de fato incomparável. Mas, quanto às previsões… Posso usar seu telescópio para uma observação?
— Por favor. — Mo Zi indicou o telescópio grande.
Wang foi até o instrumento e hesitou.
— Como eu faço para observar o sol?
Mo Zi pegou um pedaço redondo de vidro preto.
— Use este filtro de vidro escurecido. — Inseriu o objeto no visor do telescópio.
Wang apontou o telescópio para o sol, que estava a meio caminho do alto do céu. Ficou impressionado com a imaginação de Mo Zi: o sol parecia mesmo um buraco por onde se entrevia um mar de fogo, um pequeno vislumbre de um todo muito maior.
Porém, ao examinar com mais atenção a imagem no telescópio, ele percebeu que o sol era diferente do que ele estava acostumado a ver na vida real. Ali, o sol tinha um núcleo pequeno. Wang imaginou o sol como um olho. O núcleo parecia a pupila do olho e, embora pequeno, era luminoso e denso. Em contrapartida, as camadas ao seu redor pareciam etéreas, difusas, vaporosas. O fato de que Wang era capaz de enxergar o núcleo atrás das camadas externas indicava que essas camadas eram transparentes ou translúcidas, e que sua luz provavelmente não passava da luz dispersada do núcleo.
Wang ficou chocado com os detalhes na imagem do sol. Mais uma vez, teve certeza de que os designers do jogo haviam escondido em imagens superficialmente simples uma quantidade colossal de dados, esperando que os jogadores os revelassem.
Refletindo sobre o significado da estrutura do sol, Wang ficou empolgado. Como o tempo do jogo estava passando aceleradamente, o sol já estava se pondo. Wang se ergueu, ajustou o telescópio para apontar para o sol de novo e acompanhou a trajetória até ele mergulhar no horizonte.
Caiu a noite, e as fogueiras na terra eram uma reprodução do céu estrelado. Wang tirou o filtro de vidro escurecido e continuou explorando o céu. Seu maior interesse era as estrelas voadoras, e logo encontrou duas. Só teve tempo de examinar rapidamente uma delas, e então o sol nasceu de novo. Ele inseriu o filtro e continuou observando…
Wang realizou observações astronômicas dessa forma durante mais de dez dias, desfrutando a emoção das descobertas. De fato, o tempo acelerado do jogo ajudava as observações, já que o
movimento dos corpos celestes ficava mais perceptível.
No décimo sétimo dia da Era Estável, cinco horas após o momento previsto para a alvorada, o mundo continuava imerso nas trevas da noite escura. Multidões se aglomeraram diante da pirâmide, e suas incontáveis tochas tremeluziam com o vento frio.
— O sol provavelmente não vai nascer de novo. Está parecendo com o fim da civilização número 137 — disse Wang a Mo Zi.
Mo Zi afagou a barba e deu um sorriso confiante.
— Não fique nervoso. O sol nascerá em breve, e a Era Estável continuará. Já descobri o segredo do movimento da máquina universal. Minhas previsões não podem estar erradas.
Como se quisesse confirmar as palavras de Mo Zi, o céu acima do horizonte se iluminou com os primeiros raios da aurora. A multidão em volta da pirâmide gritou de alegria.
A luz branca aumentou muito mais depressa do que o normal, como se o sol nascente quisesse compensar o tempo perdido. Logo a luz cobria metade do firmamento, embora o sol ainda estivesse abaixo do horizonte. O mundo já estava claro como se fosse o meio do dia.
Wang olhou para o horizonte e viu que ele emitia um brilho ofuscante. O horizonte luminoso se curvou para o alto e formou um arco que se estendia de uma extremidade à outra do campo de visão dele. Wang logo percebeu que não estava vendo o horizonte, mas a borda do sol nascente, um sol de tamanho incomensurável.
Quando seus olhos se acostumaram ao brilho intenso, o horizonte ressurgiu no lugar de sempre. Wang viu colunas de fumaça negra subindo ao longe, ainda mais nítidas diante do fundo luminoso do disco solar. Um cavaleiro galopava depressa na direção da pirâmide, deixando para trás o sol nascente, e a poeira levantada pelos cascos do animal formava uma linha perceptível na planície.
A multidão abriu caminho, e Wang ouviu o cavaleiro gritar com todas as forças:
— Desidratar! Desidratar!
O cavaleiro era seguido por uma manada de gado, cavalos e outros animais. O corpo deles estava pegando fogo, e avançavam pelo chão como um tapete em chamas.
Metade do gigantesco disco solar já havia se erguido no horizonte, ocupando grande parte do céu. A terra parecia estar se afundando aos poucos diante de uma parede de luz. Wang conseguiu ver com nitidez as estruturas sutis da superfície solar: marés e ondas que cobriam o mar de chamas; manchas solares à deriva seguiam caminhos aleatórios como fantasmas; a coroa se estendia languidamente, como braços dourados.
No chão, como se fossem inúmeras toras de lenha arremessadas para dentro de uma fornalha, pessoas desidratadas ou não haviam começado a queimar. As chamas que consumiam aquelas vidas eram ainda mais intensas que carvão em brasa, mas logo se apagaram.
O sol gigante continuou subindo e em pouco tempo ocupou a maior parte do céu. Wang olhou para cima e sentiu uma mudança de perspectiva. De repente, não estava mais olhando para cima, e sim para baixo. A superfície do sol gigante se tornou uma terra flamejante, e ele sentiu como se estivesse caindo em direção ao inferno brilhante.
Os lagos começaram a evaporar, e nuvens de vapor branco se ergueram como nuvens atômicas. Depois de subir, elas se expandiram e se dissiparam, cobrindo as cinzas dos mortos.
— A Era Estável vai continuar. O universo é uma máquina. Eu criei essa máquina. A Era Estável vai continuar. O universo…
Wang virou a cabeça. Aquela voz pertencia a Mo Zi, que já estava pegando fogo. O corpo dele estava envolto em uma alta colina flamejante laranja, e sua pele enrugou e se transformou em carvão. Ainda assim, os olhos preservaram um brilho que se distinguia do fogo que o consumia. As mãos, já pedaços de carvão em chamas, ergueram a nuvem de cinzas revolutas que havia sido o calendário dele.
Wang também estava pegando fogo. Ele levantou as mãos e viu duas tochas.
O sol avançou bruscamente para o oeste, revelando o céu atrás de si. O astro logo desceu no horizonte, e dessa vez o solo pareceu se erguer diante da parede brilhante. Um pôr do sol impressionante se transformou em noite, como se um par de mãos gigantes puxasse um véu preto sobre um mundo que havia se transformado em cinzas.
A terra brilhou com uma luminosidade vermelha fraca, como um pedaço de carvão recém-tirado de uma fornalha. Por um breve instante, Wang viu as estrelas, mas logo nuvens de vapor e fumaça cobriram o céu e tudo o que havia na terra incandescente. O mundo mergulhou em um caos profundo. Apareceu uma linha de texto vermelho:
A civilização número 141 foi arruinada pelas chamas. Essa civilização havia avançado até o Período Han Oriental.
A semente da civilização permanece. Ela germinará e voltará a desabrochar no mundo imprevisível de Três
Corpos.
Convidamos você a entrar novamente.
Wang tirou o traje V. Depois de se acalmar um pouco, pensou mais uma vez que Três Corpos era uma tentativa deliberada de fingir ser apenas uma ilusão, embora na verdade possuísse alguma realidade subjacente. Em contrapartida, o mundo real diante de Wang havia começado a parecer complexo na superfície, mas na verdade muito simples, Qingming Shanghe Tu.
No dia seguinte, Wang foi até o Centro de Pesquisa em Nanotecnologia. Exceto por uma ligeira confusão motivada por sua ausência no dia anterior, tudo estava normal. O trabalho foi um calmante eficaz para ele. Enquanto esteve absorto, Wang não se preocupou com suas inquietações perturbadoras. Ele fez questão de permanecer ocupado o dia inteiro e só saiu do laboratório à noite.
Pouco depois de deixar o edifício do Centro de Pesquisa, Wang voltou a ser tomando pela sensação perturbadora. Sentia que o céu estrelado era uma lupa acima do mundo, e que ele era um inseto minúsculo sob a lente, sem ter onde se esconder.
Wang precisava se ocupar com alguma coisa. Então pensou em Ye Wenjie, a mãe de Yang Dong, e foi até a casa dela.
Ye estava sozinha. Quando Wang entrou, ela estava sentada no sofá, lendo. Wang percebeu que ela era míope e tinha vista cansada: Ye precisava trocar de óculos sempre que lia ou tinha que olhar para algo distante. Ela ficou muito feliz de ver Wang e disse que ele parecia muito melhor do que na visita anterior.
Wang deu uma risada.
— Tudo por causa de seu ginseng. Ye balançou a cabeça.
— O que eu lhe dei não era muito bom. A gente costumava encontrar ginseng silvestre de excelente qualidade nas redondezas da base. Uma vez achei um deste tamanho… Como será que aquilo está agora? Ouvi dizer que o lugar está deserto. Bom, acho que estou ficando velha mesmo. Hoje em dia, vivo pensando no passado.
— Ouvi falar que a senhora sofreu muito durante a Revolução Cultural.
— Foi Ruishan quem falou, não é? — Ye fez um gesto com a mão, como se tentasse afastar um fiapo de teia de aranha. — No passado, está tudo no passado… Ontem à noite, Ruishan me ligou. O rapaz estava tão agitado que foi difícil entender o que estava dizendo. Só consegui compreender que havia acontecido algo com você. Xiao Wang, preste atenção: quando você chegar à minha idade, vai perceber que tudo aquilo que parecia muito importante na verdade não importa quase nada.
— Obrigado — respondeu Wang.
Mais uma vez experimentou a alegria que vinha lhe fazendo tanta falta. Na condição atual, sua estabilidade mental dependia de dois pilares: aquela senhora idosa, que havia superado muitas tempestades e se tornado serena como a água, e Shi Qiang, o homem que não tinha medo de nada porque não sabia de nada.
— No que diz respeito à Revolução Cultural — continuou Ye —, tive bastante sorte. Quando eu achava que não tinha mais para onde ir, encontrei um lugar onde poderia sobreviver.
— A senhora se refere à Base Costa Vermelha?
— Aquilo foi realmente um projeto incrível. Eu achava que era tudo boato.
— Boatos, não. Se você quiser, posso contar um pouco do que vivi.
— Professora Ye, não passa de curiosidade. A senhora não precisa me contar, se não quiser.
— Não tem problema. Vamos supor que eu esteja precisando de alguém para me escutar.
— A senhora poderia fazer uma visita ao centro de convivência para idosos. Não se sentiria tão solitária se fosse lá de vez em quando.
— Muitos dos frequentadores eram meus colegas na universidade, mas, por algum motivo, não consigo me juntar a eles. Todos gostam de relembrar o passado, mas ninguém quer escutar, e todos ficam irritados quando outra pessoa conta uma história. Você é o único que está interessado na Costa Vermelha.
— Mas me falar dessas coisas… não é proibido?
— É verdade… ainda é confidencial. Só que depois da publicação daquele livro muitas outras pessoas que participaram do projeto começaram a contar suas histórias, então são meio que segredos conhecidos. O homem que escreveu aquele livro foi muito irresponsável. Mesmo sem levar em conta as motivações que teve, muitos detalhes do conteúdo estavam errados. Eu devia pelo menos corrigir esses erros.
Ye Wenjie então começou a contar a Wang sobre o que aconteceu com ela durante os anos passados na Costa Vermelha.
* Mo Zi fundou a escola de filosofia moísta durante o Período dos Reinos Combatentes. O próprio Mo Zi advogava pela importância da experiência e da lógica e era tido como um engenheiro e geômetra talentoso.
Ye não recebeu nenhuma função importante ao chegar à Base Costa Vermelha. Diante da vigilância atenta de um guarda, ela só tinha permissão para realizar algumas atividades técnicas.
Quando ainda estava no segundo ano da faculdade, Ye já havia conhecido o professor que se tornaria seu orientador para o trabalho de conclusão de curso. Ele havia comentado que, para Ye desenvolver pesquisas em astrofísica, não adiantava nada dominar a teoria sem conhecer métodos experimentais e técnicas de observação — pelo menos não na China. Embora o pai de Ye tivesse uma opinião muito diferente, ela tendia a concordar com o professor. Ye sempre tivera a impressão de que o pai era teórico demais.
Seu orientador era um dos pioneiros da radioastronomia na China. Influenciada por ele, Ye também desenvolveu um grande interesse por radioastronomia, estudando por conta própria engenharia elétrica e ciências da computação, que eram a base para realizar experimentos e observações na área. Durante os dois anos do curso de pós-graduação, eles testaram o primeiro radiotelescópio de pequena escala da China e acumularam muita experiência no ramo.
Ela nunca havia imaginado que esse conhecimento algum dia viria a ser útil na Base Costa Vermelha.
Com o tempo, Ye foi designada para o Departamento de Transmissão, encarregado pela manutenção e pelos reparos dos equipamentos. Logo ela se tornou parte indispensável das operações.
A princípio, achou essa situação um pouco confusa. Ye era a única pessoa da base que não usava farda. E, considerando seu status político, todos mantinham distância dela. Para superar a solidão, ela acabou se entregando de corpo e alma ao trabalho. No entanto, isso não bastava para explicar por que a base contava tanto com ela. Afinal, aquele era um projeto crucial de defesa. Como era possível que a equipe técnica fosse tão medíocre a ponto de Ye, sem diploma de engenharia nem qualquer experiência profissional de verdade, ter conseguido assumir sem maiores dificuldades o trabalho deles?
Ela não demorou a descobrir o motivo. Ao contrário das aparências, a equipe da base era composta pelos melhores oficiais técnicos do 2º Corpo de Artilharia. Mesmo se passasse a vida inteira estudando, Ye jamais chegaria aos pés daqueles excepcionais engenheiros elétricos e técnicos de computação. No entanto, a base ficava isolada, as condições eram péssimas, e o grosso do trabalho de pesquisa do Projeto Costa Vermelha já estava feito. Como só restavam atividades de manutenção, não havia muito espaço para resultados técnicos interessantes. A maioria das pessoas não queria se tornar indispensável, porque todos sabiam que, em projetos
altamente confidenciais como aquele, quando alguém era designado para uma função técnica essencial, dificilmente obteria uma transferência para fora da base. Por isso, todo mundo fazia um esforço deliberado para disfarçar a própria competência técnica no dia a dia de trabalho.
Mas ninguém podia parecer incompetente demais. Então, se o supervisor dissesse que era preciso ir para o leste, as pessoas se esforçariam muito para ir para o oeste, fingindo ignorância. A ideia era fazer o supervisor pensar o seguinte: Esse homem está trabalhando muito, mas tem capacidade limitada. Não adianta nada mantê-lo aqui, pois ele só vai atrapalhar. Muitos chegaram a conseguir uma transferência usando esse método.
Nessas condições, Ye se tornou aos poucos uma técnica essencial para a base. Mas o outro motivo que lhe permitiu alcançar essa posição a intrigava, e ela não conseguiu descobrir nenhuma explicação: a Base Costa Vermelha — pelo menos as áreas conhecidas por Ye — não possuía nenhuma tecnologia realmente avançada.
Com o passar do tempo, à medida que Ye prosseguia com seu trabalho no Departamento de Transmissão, as restrições impostas a ela foram sendo atenuadas, e até mesmo o guarda encarregado de vigiá-la acabou sendo transferido para outra função. Ye foi autorizada a mexer na maioria dos componentes dos sistemas da Costa Vermelha e a ler os documentos técnicos relevantes. Claro, ainda havia áreas de acesso proibido para Ye. Entre outros setores, ela não podia chegar nem perto dos sistemas de controle dos computadores. No entanto, Ye descobriu que esses sistemas exerciam um impacto muito menor na Costa Vermelha do que ela havia imaginado. Por exemplo, os computadores do Departamento de Transmissão se limitavam a três máquinas ainda mais primitivas que o DJS130.1 Os aparelhos usavam uma memória de núcleo magnético ineficiente e fita de papel como dispositivo de entrada, e o tempo máximo de funcionamento não passava de quinze horas. Ye também percebeu que a precisão do sistema de mira da Costa Vermelha era muito ruim, provavelmente até pior do que o de um canhão de artilharia.
Certo dia, o comissário Lei procurou Ye para uma conversa. Àquela altura, Yang Weining e Lei Zhicheng haviam trocado de lugar aos olhos dela. Durante aqueles anos, na condição de oficial técnico de patente mais alta, Yang não tinha um status político elevado nem muita autoridade em questões que não fossem técnicas. Ele precisava tomar cuidado com seus subordinados e falar com educação até mesmo com sentinelas, para não acabar tachado de intelectual resistente à reforma do pensamento e à colaboração com as massas. Assim, sempre que ele enfrentava dificuldades no trabalho, Ye virava seu saco de pancadas. No entanto, à medida que Ye foi ganhando importância como integrante da equipe técnica, o comissário Lei deixou de lado a grosseria e a frieza inicial e passou a tratá-la com gentileza.
— Wenjie — disse o comissário Lei —, a esta altura, você já conhece bastante bem o sistema de transmissão, que é também o componente ofensivo da Costa Vermelha, a principal peça. Você poderia me dizer sua opinião sobre o sistema como um todo?
Eles estavam sentados na beirada de um penhasco íngreme no pico do Radar, o lugar mais isolado da base. O penhasco parecia se abrir direto para um abismo infinito. No início, Ye tinha medo daquele lugar, mas com o tempo passou a gostar de ir ali sozinha.
Ye não sabia bem como responder à pergunta do comissário Lei. Ela só era responsável pela
manutenção dos equipamentos e não conhecia nada da Costa Vermelha como um todo, nem das operações, nem dos alvos etc. Na verdade, não tinha permissão para saber. Nem sequer tinha permissão para estar presente durante a transmissão. Ela refletiu sobre a questão, começou a falar e se conteve.
— Vá em frente, diga o que está pensando — pediu o comissário Lei, que arrancou uma folha de grama e ficou brincando com ela, distraído.
— É… é só um radiotransmissor.
— Isso mesmo, é só um radiotransmissor. — O comissário fez um gesto satisfeito com a cabeça. — Você conhece os fornos de micro-ondas?
Ye balançou a cabeça.
— São brinquedinhos de luxo do Ocidente capitalista. A comida é aquecida pela energia gerada ao absorver radiação de micro-ondas. Em minha estação de pesquisa anterior, para testarmos com precisão o envelhecimento de alta temperatura de certos componentes, importamos um aparelho desses. Depois do trabalho, a gente usava para esquentar pães mantou, assar batatas, esse tipo de coisa. É muito interessante. O interior se aquece enquanto a parte externa continua fria.
O comissário Lei se levantou e ficou andando de um lado para o outro. Estava tão perto da beirada do penhasco que deixou Ye nervosa.
— A Costa Vermelha é um forno de micro-ondas, e os alvos aquecidos são as naves espaciais inimigas. Se pudermos aplicar radiação de micro-ondas em um nível de energia específico de um décimo de watt por centímetro quadrado, conseguiremos incapacitar ou destruir muitos componentes eletrônicos de satélites de comunicações, radares e sistemas de navegação.
Ye finalmente entendeu. Embora a Costa Vermelha fosse apenas um radiotransmissor, estava longe de ser convencional. O aspecto mais surpreendente era a potência de transmissão: até vinte e cinco megawatts! Isso não era só mais potente do que qualquer transmissão de comunicações, mas também do que qualquer transmissão de radar. A Costa Vermelha contava com um conjunto de capacitores gigantescos. Como o consumo de energia era muito alto, os circuitos de transmissão também eram diferentes dos projetos convencionais. Ye agora entendia o propósito dessa potência ultra-alta no sistema, mas algo pareceu errado logo de cara.
— A emissão do sistema parece modulada.
— Isso mesmo. No entanto, a modulação não é igual à usada em comunicações convencionais via rádio. O objetivo não é acrescentar informações, mas alterar frequências e amplitudes para penetrar possíveis blindagens do inimigo. Claro, isso ainda é experimental.
Ye assentiu com a cabeça. Muitas de suas perguntas agora tinham resposta.
— Recentemente, dois satélites-alvo foram lançados a partir de Jiuquan. Os testes de ataque da Costa Vermelha foram realizados com sucesso. A temperatura dentro dos satélites chegou a quase mil graus, e todos os instrumentos e equipamentos fotográficos a bordo foram destruídos. Em guerras no futuro, a Costa Vermelha pode atingir os satélites de comunicações e reconhecimento do inimigo, como os satélites espiões KH-8, que os imperialistas americanos usam, assim como os KH-9, que estão prestes a ser lançados. Os satélites espiões dos revisionistas soviéticos, que têm uma órbita mais baixa, são ainda mais vulneráveis. Se for necessário, temos até capacidade para destruir a estação espacial Salyut, dos revisionistas soviéticos, e a Skylab, que os imperialistas americanos pretendem lançar no ano que vem.
— Comissário! O que você está contando para ela? — perguntou alguém atrás de Ye. Ela se virou e viu o engenheiro-chefe Yang Weining, que encarava o comissário Lei com um olhar grave.
— Isso é para o trabalho — respondeu o comissário Lei, antes de ir embora. Yang olhou para Ye sem falar nada e saiu. Ye ficou sozinha.
Foi ele quem me trouxe para cá, mas ainda não confia em mim, pensou Ye, desolada. Ela estava apreensiva com o comissário Lei. Na base, Lei tinha mais autoridade do que Yang, já que o comissário dava a palavra final na maioria das questões importantes. No entanto, a pressa com que Lei saiu com Yang parecia indicar que ele acreditava ter sido flagrado fazendo algo errado pelo engenheiro-chefe. Ye deduziu que Lei havia tomado uma decisão pessoal ao lhe revelar o verdadeiro objetivo do Projeto Costa Vermelha.
O que vai acontecer com ele agora? Ao olhar para as costas corpulentas do comissário Lei, ela sentiu uma onda de gratidão. Para Ye, confiança era um luxo que não se atrevia a desejar. Na comparação com Yang, Lei era quem mais se aproximava da imagem que ela fazia de um oficial militar de verdade, com a postura franca e direta de um soldado. Yang, por sua vez, nada mais era do que um intelectual típico da época: cauteloso, inseguro, interessado apenas na própria proteção. Embora Ye compreendesse aquilo, o vasto abismo entre os dois aumentou.
No dia seguinte, Ye foi retirada do Departamento de Transmissão e transferida para o Departamento de Monitoração. A princípio, achou que a mudança tivesse relação com o incidente do dia anterior, uma tentativa de afastá-la do núcleo da Costa Vermelha. Porém, ao chegar ao Departamento de Monitoração, percebeu que aquilo parecia mais o coração da Costa Vermelha. Embora os dois departamentos dividissem alguns recursos, como a antena, o nível da tecnologia do Departamento de Monitoração era muito mais avançado.
O Departamento de Monitoração tinha um radiorreceptor muito sofisticado e sensível. Um maser2 de ondas progressivas com cristal de rubi amplificava os sinais recebidos pela antena gigante e, para minimizar a interferência, o núcleo do sistema receptor estava imerso em hélio líquido a –269 graus Celsius. Assim, o sistema receptor era capaz de captar até mesmo sinais muito fracos. Ye não podia deixar de imaginar como aquele equipamento seria maravilhoso para estudos em radioastronomia.
O sistema de computadores do Departamento de Monitoração também era muito maior e mais complexo do que o do Departamento de Transmissão. Ao entrar pela primeira vez na sala de controle principal, Ye viu uma fileira de telas de tubo de raios catódicos. Ficou impressionada ao observar que todas exibiam linhas de programação e que os operadores podiam editar e testar os códigos com o teclado. Quando tinha aprendido programação na faculdade, o código-fonte sempre era escrito nas marcações de papéis de programação especiais e, depois, transferido para uma fita de papel com uma máquina de escrever. Ye ouvira falar de teclados e telas como dispositivos de entrada, mas era a primeira vez que via aquilo.
Os softwares disponíveis a deixaram ainda mais impressionada. Ye aprendeu sobre algo chamado FORTRAN, que permitia que a programação usasse uma linguagem semelhante à
linguagem natural. Dava até para inserir equações matemáticas diretamente no código! Programar com isso era muitíssimo mais eficiente do que programar com linguagem de máquina. E havia também um negócio chamado base de dados, que facilitava o armazenamento e a manipulação de quantidades imensas de informação.
Dois dias depois, o comissário Lei chamou Ye para mais uma conversa. Dessa vez, eles estavam na sala de controle principal do Departamento de Monitoração, na frente da fileira de telas de luz verde. Yang Weining se sentou perto deles, sem fazer parte da conversa, mas também sem querer sair, o que deixou Ye bastante incomodada.
— Wenjie — começou o comissário Lei —, vou explicar o trabalho do Departamento de Monitoração. Em poucas palavras, o objetivo é buscar atividades inimigas no espaço, interceptar comunicações das embarcações espaciais inimigas entre si e com o solo, colaborar com nossos centros de telemetria, rastreamento e comando para determinar a órbita de embarcações espaciais inimigas e fornecer informações aos sistemas de combate da Costa Vermelha. Resumindo, os olhos da Costa Vermelha estão aqui.
— Comissário Lei — interrompeu Yang —, acho que o que o senhor está fazendo não é uma boa ideia. Não precisa contar essas coisas para ela.
Ye olhou para Yang e disse, ansiosa:
— Comissário, se isso não for adequado, então…
— Não, não, Wenjie. — O comissário levantou a mão para interromper Ye e se virou para Yang. — Chefe Yang, vou repetir o que disse em outro momento. Isso é para o trabalho. Para que Wenjie possa cumprir melhor suas obrigações, precisa saber dos objetivos.
Yang se levantou.
— Relatarei isso aos nossos superiores.
— Claro, é um direito seu. Mas não se preocupe, chefe Yang, eu assumirei a responsabilidade por qualquer coisa.
Yang saiu com uma expressão fechada.
— Não se preocupe com o chefe Yang. É só o jeito dele. — O comissário Lei deu uma risadinha e balançou a cabeça. Em seguida, olhou para Ye e assumiu uma entonação solene. — Wenjie, quando trouxemos você para a base, o objetivo era simples. Os sistemas de monitoramento da Costa Vermelha costumavam sofrer interferência causada pela radiação eletromagnética de explosões e manchas solares. Por coincidência, vimos seu artigo e percebemos que você havia estudado as atividades solares. Como entre os pesquisadores chineses seu modelo de previsão era o mais preciso, resolvemos pedir sua ajuda para resolver esse problema.
“Só que, depois que você chegou, demonstrou ter muito talento, então decidimos lhe atribuir mais responsabilidades. Minha ideia foi a seguinte: nomeá-la primeiro para o Departamento de Transmissão e depois para o Departamento de Monitoração. Desse modo, você obteria uma compreensão abrangente da Costa Vermelha como um todo e nós poderíamos esperar para ver que outra função delegar mais à frente.
“Claro, como você pode ver, esse plano enfrentou alguma resistência. Mas eu confio em você, Wenjie. Quero deixar claro: até agora, a confiança depositada em você é toda minha, pessoal.
Espero que você possa continuar trabalhando muito e conquiste a confiança de toda a organização.”
O comissário Lei colocou a mão no ombro de Ye. Ela sentiu a simpatia e a força daquele gesto.
— Wenjie, vou dizer o que espero que aconteça: um dia, ainda pretendo chamá-la de camarada Ye.
Lei se levantou e saiu andando com o porte confiante dos soldados. Ye sentiu os olhos se encherem de lágrimas, fazendo com que os códigos de programação na tela parecessem chamas inconstantes. Aquela foi a primeira vez que ela chorou desde a morte do pai.
Conforme se acostumava com o trabalho do Departamento de Monitoração, Ye descobriu que ali se destacava muito menos do que no Departamento de Transmissão. Seu conhecimento em ciências da computação estava desatualizado, e ela precisou aprender as técnicas de programação do zero. Embora o comissário Lei confiasse nela, Ye continuava sob restrições severas: por exemplo, tinha autorização para ver o código-fonte dos programas, mas não podia chegar nem perto da base de dados.
No dia a dia, Ye permanecia principalmente sob a supervisão de Yang, que passou a tratá-la de maneira ainda mais grosseira e ficava irritado com ela por qualquer motivo. O comissário Lei conversou com ele sobre isso diversas vezes, em vão. Parecia que Yang era consumido por uma ansiedade misteriosa assim que via Ye.
Aos poucos, à medida que foi percebendo cada vez mais elementos inexplicáveis no trabalho, Ye se deu conta de que o Projeto Costa Vermelha era muito mais complexo do que havia imaginado.
Certo dia, o sistema de monitoramento interceptou uma transmissão que, após decodificação por computador, revelou ser algumas fotos de satélite. As imagens desfocadas foram enviadas à Seção de Exploração e Mapeamento do Estado-Maior, que após proceder à interpretação descobriu que eram fotos de alvos militares importantes na China, incluindo o porto naval de Qingdao e algumas fábricas importantes do programa Terceira Frente.3 Os analistas confirmaram que as imagens tinham origem no sistema de reconhecimento americano KH-9.
O primeiro satélite KH-9 acabara de ser lançado. Embora concebido sobretudo para recuperar imagens para os serviços de inteligência, o satélite também estava sendo usado para testar uma técnica mais avançada de transmissão via rádio de imagens digitais. Como a tecnologia ainda não estava muito desenvolvida, o satélite transmitia a uma frequência baixa, o que aumentava a faixa de recepção o bastante para que pudesse ser interceptada pela Costa Vermelha. Além disso, como era apenas um teste, a criptografia não era muito complexa e podia ser decifrada com pouca dificuldade.
Sem dúvida, o KH-9 era um alvo importante para ser monitorado, pois representava uma oportunidade rara de obter mais informações sobre os sistemas de reconhecimento via satélite dos americanos. Porém, depois do terceiro dia, Yang Weining deu ordem para mudar a frequência e a direção do monitoramento e abandonou o alvo. Ye não conseguia entender essa decisão.
Outra situação também a deixou chocada. Embora Ye agora fizesse parte do Departamento de
Monitoração, às vezes o Departamento de Transmissão ainda precisava de sua ajuda. Certa vez, viu sem querer os ajustes de frequência de algumas das transmissões futuras. Descobriu que as frequências designadas para as transmissões 304, 318 e 325 estavam abaixo da faixa de micro-ondas e não resultariam em nenhum efeito de aquecimento no alvo.
Um dia, do nada, um oficial chamou Ye para a sala da administração central da base.
Considerando o tom e a expressão do oficial, Ye percebeu que algo não estava certo.
Ao entrar na sala, a cena lhe pareceu familiar: todos os oficiais superiores da base estavam presentes, além de outros dois que ela não conhecia. No entanto, só de olhar ela percebeu que eles estavam acima na hierarquia.
Todos aqueles olhares frios se viraram para Ye. Porém, graças à sensibilidade desenvolvida nos anos turbulentos, ela se deu conta de que não era a única pessoa em apuros por ali. Na pior das hipóteses, era uma coadjuvante. O comissário Lei estava sentado em um canto, com uma expressão desolada.
Ele finalmente vai pagar por ter confiado em mim, pensou ela. Na mesma hora, Ye decidiu que faria o possível para salvá-lo: assumiria a responsabilidade por tudo e até mentiria, se fosse preciso.
Só que o comissário Lei foi o primeiro a se manifestar, e suas palavras revelaram algo completamente inesperado.
— Ye Wenjie, devo deixar claro desde já que não concordo com o que está prestes a acontecer. A decisão foi tomada pelo engenheiro-chefe Yang, após consulta a nossos superiores. Ele será o único responsável por todas as consequências.
O comissário Lei se virou para Yang, que fez um gesto solene com a cabeça.
— Para que pudéssemos aproveitar melhor suas competências na Base Costa Vermelha — continuou Lei —, o engenheiro-chefe Yang solicitou reiteradamente a nossos superiores permissão para abandonar a história de fachada e abrir o jogo com você. Nossos camaradas do Departamento de Política do Exército — ele indicou os dois oficiais que Ye não conhecia — foram enviados para investigar sua situação profissional. Por fim, com a aprovação dos nossos superiores, decidimos informá-la da verdadeira natureza do Projeto Costa Vermelha.
Só depois de uma longa pausa foi que Ye enfim entendeu o significado das palavras do comissário Lei: ele havia mentido para ela o tempo todo.
— Espero que você valorize esta oportunidade e trabalhe muito para redimir seus pecados. A partir de agora, sua postura deverá ser impecável. Qualquer comportamento reacionário será punido com rigor! — O comissário Lei encarou Ye. Era uma pessoa completamente diferente da imagem que Ye havia formado. — Ficou claro? Ótimo. Agora o chefe Yang pode explicar.
Os outros saíram, deixando na sala apenas Yang e Ye.
— Se você não quiser, ainda dá tempo.
Ye percebeu o peso por trás dessas palavras. Enfim compreendia a ansiedade de Yang sempre que se esbarravam nas últimas semanas. Para que pudessem aproveitar totalmente as competências dela, seria necessário abrir o jogo sobre a Costa Vermelha. No entanto, essa decisão apagaria o último raio de esperança de uma possível saída do pico do Radar. Se dissesse sim, Ye realmente passaria o resto da vida na Base Costa Vermelha.
— Eu aceito.
Assim, naquela noite de começo de verão, enquanto o vento uivava na gigantesca antena parabólica e a floresta se agitava na distante cordilheira Grande Khingan, Yang Weining explicou a Ye Wenjie a verdadeira natureza da Costa Vermelha.
Era um conto de fadas extraordinário, ainda mais inacreditável que as mentiras do comissário Lei.
1. Minicomputador chinês de dezesseies bits projetado com base no modelo americano Data General Nova.
2. Parecido com um laser, mas usado para radiação eletromagnética, geralmente micro-ondas, fora do espectro da luz visível.
3. O programa Terceira Frente era um esforço militar secreto de industrialização durante a Revolução Cultural, com o objetivo de construir fábricas no interior da China, onde seriam menos vulneráveis a ataques americanos e soviéticos.
DOCUMENTOS SELECIONADOS DO PROJETO COSTA VERMELHA
Estes documentos perderam o status de confidencial três anos depois que Ye Wenjie revelou a Wang Miao os bastidores da Costa Vermelha e proporcionam informações complementares ao que ela contou.
I. Uma questão amplamente ignorada pelas tendências da pesquisa científica mundial de base
(Publicado originalmente em Referência Interna, XX/XX/196X)
[Resumo] Levando em consideração a história moderna e contemporânea, existem dois caminhos possíveis para que os resultados de pesquisas científicas de base sejam convertidos em aplicações práticas: o modo gradualista e o modo saltacional.
Modo gradualista: resultados teóricos de base são aplicados gradualmente à tecnologia; avanços se acumulam até que seja realizada uma descoberta. Exemplos recentes incluem o desenvolvimento da tecnologia espacial.
Modo saltacional: resultados teóricos de base se tornam tecnologia aplicada rapidamente, levando a um salto tecnológico. Exemplos recentes incluem o aparecimento de armas nucleares. Até os anos 1940, alguns dos mais brilhantes físicos ainda achavam que jamais seria possível liberar a energia do átomo. Mas as armas nucleares apareceram logo depois. Definimos a ocorrência de um salto tecnológico quando uma grande faixa da ciência de base se converte em tecnologia durante um intervalo de tempo extremamente breve.
Neste momento, tanto a Otan quanto o Pacto de Varsóvia atuam e investem maciçamente em pesquisa de base, de modo que um ou dois saltos tecnológicos podem acontecer a qualquer momento. Esses acontecimentos representarão uma ameaça significativa ao nosso planejamento estratégico.
Este artigo defende que atualmente estamos orientados demais para o modo gradualista de desenvolvimento tecnológico, sem prestar atenção suficiente à possibilidade de saltos tecnológicos. Partindo de uma posição mais favorável, deveríamos elaborar uma estratégia abrangente e um conjunto amplo de princípios para que possamos apresentar uma resposta apropriada quando ocorrerem saltos tecnológicos.
Áreas em que é mais provável a ocorrência de saltos tecnológicos:
Física: [omitido]
Biologia: [omitido]
Ciências da computação: [omitido]
Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti): de todas as áreas, esta é a que apresenta maior possibilidade de salto tecnológico. Se ocorrer um salto nesta área, o impacto será superior ao total dos saltos tecnológicos ocorridos nas outras três áreas.
[Texto completo] [omitido]
[Instruções da Liderança Central] Distribuir este artigo para a equipe apropriada e organizar grupos de discussão. Nem todos vão concordar com as opiniões deste artigo, mas não podemos rotular o autor de maneira intempestiva. O importante é considerar o raciocínio do autor a longo prazo. Alguns camaradas são incapazes de enxergar além do próprio nariz, talvez em razão do ambiente político mais complexo, talvez em virtude de sua própria arrogância. Isso não é bom. Pontos cegos estratégicos são extremamente perigosos.
Na minha opinião, entre as quatro áreas passíveis de saltos tecnológicos, a que menos observamos é a última. Ela merece alguma dose de atenção, e deveríamos analisar a questão sistematicamente e a fundo.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
II. Relatório de estudo sobre a possibilidade de saltos tecnológicos em decorrência da busca por inteligência extraterrestre
1. Tendências atuais da pesquisa internacional [Resumo]
(1) Estados Unidos e outras nações da Otan: o caso científico e a necessidade do programa Seti são aceitos de modo geral, e há forte apoio da academia.
Projeto Ozma: em 1960, o Observatório Radioastronômico Nacional de Green Bank, na Virgínia Ocidental, procurou inteligência extraterrestre com um radiotelescópio de vinte e seis metros de diâmetro. O projeto examinou as estrelas Tau Ceti e Epsilon Eridani ao longo de duzentas horas, usando faixas próximas da frequência de 1420 giga-hertz. O projeto Ozma II, que analisará mais alvos e uma faixa de frequências maior, está planejado para 1972.
Sondas: as sondas Pioneer 10 e Pioneer 11, cada uma contendo uma placa de metal com informações sobre nossa civilização na Terra, estão com lançamento previsto para 1972. As sondas Voyager 1 e Voyager 2, cada uma contendo uma gravação de áudio, estão com lançamento previsto para 1977.
Observatório de Arecibo, Porto Rico: construído em 1963, é um instrumento importante para o Seti. Tem uma área de coleta de cerca de 80 mil metros quadrados, extensão maior do que a soma das áreas de coleta de todos os outros radiotelescópios do mundo. Quando combinado ao sistema de computadores do observatório, é capaz de monitorar ao mesmo tempo 65 mil canais, além de realizar transmissões de energia ultra-alta.
(2) União Soviética: embora haja poucas fontes de inteligência disponíveis, existem indicações de grandes investimentos na área. Em comparação com países da Otan, a pesquisa parece mais sistemática e de longo prazo. De acordo com certos canais de informação isolados, existem planos para construir um sistema global de radiotelescópios de síntese de abertura em interferometria de linha de base muito longa (VLBI). Quando o sistema estiver concluído, será o mais potente do mundo para exploração do espaço sideral.
2. Análise preliminar de padrões sociais de civilizações extraterrestres mediante uma concepção materialista da história [omitido]
3. Análise preliminar da influência de civilizações extraterrestres em tendências sociais e políticas da humanidade [omitido]
4. Análise preliminar da influência que um possível contato com civilizações extraterrestres exercerá nos padrões internacionais da atualidade
(1) Contato unidirecional (apenas a recepção de mensagens enviadas por uma inteligência extraterrestre): [omitido]
(2) Contato bidirecional (troca de mensagens com uma inteligência extraterrestre e contato direto): [omitido]
5. Perigo e consequências do contato inicial de superpotências com uma inteligência extraterrestre e do monopólio desse contato
(1) Análise das consequências caso os imperialistas americanos e a Otan façam o primeiro contato com uma inteligência extraterrestre e monopolizem esse contato: [ainda sigiloso]
(2) Análise das consequências caso os revisionistas soviéticos e o Pacto de Varsóvia façam o primeiro contato com uma inteligência extraterrestre e monopolizem esse contato: [ainda sigiloso]
[Instruções da Liderança Central] Outras nações já enviaram mensagens para o
espaço. É perigoso se os extraterrestres só ouvirem a voz delas. Também precisamos nos pronunciar. Só assim eles terão uma imagem completa da sociedade humana. Não é possível saber a verdade ouvindo apenas um dos lados. Devemos providenciar isso o quanto antes.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
III. Relatório de estudo sobre a fase inicial do Projeto Costa Vermelha (XX/XX/196x)
ULTRASSECRETO
Número de cópias: 2
Documento do resumo: Documento central número XXXXXX, encaminhado à Comissão de Ciência, Tecnologia e Indústria para a Defesa Nacional, à Academia Chinesa de Ciências e à Comissão Central de Planejamento do Departamento de Defesa Nacional; divulgado no Congresso XXXXXX e no Congresso XXXXXX; divulgado parcialmente no Congresso XXXXXX.
Número de Série do Tema: 3760
Codinome: “Costa Vermelha”
1. Objetivo [Resumo]
Busca pela possível existência de inteligência extraterrestre e tentativa de estabelecer contato e comunicação.
2. Estudo teórico do Projeto Costa Vermelha
(1) Busca e monitoramento
Faixa de frequências de monitoramento: 1000 MHZ a 40 000 MHZ
Canais de monitoramento: 15 000
Principais frequências monitoradas:
Frequência do átomo de hidrogênio em 1420 MHz
Frequência da radiação do radical hidroxila em 1667 MHz
Frequência da radiação da molécula de água em 22 000 MHz
Faixa de alcance: uma esfera com a Terra no centro e mil anos-luz de raio, contendo aproximadamente 20 milhões de estrelas. Para uma lista de alvos, favor conferir o Apêndice 1.
(2) Transmissão de mensagens
Frequências de transmissão: 2800 MHz, 12 000 MHz, 22 000 MHz
Potência de transmissão: 10-25 megawatts
Alvos de transmissão: uma esfera com a Terra no centro e duzentos anos-luz de raio, contendo aproximadamente 100 mil estrelas. Para uma lista de alvos, favor conferir o Apêndice 2.
(3) Desenvolvimento do sistema de codificação autointerpretativo da Costa Vermelha
Princípio básico: a partir de leis universais e matemáticas básicas da física, construir um código linguístico elementar que possa ser compreendido por qualquer civilização que tenha domínio de álgebra básica, de geometria euclidiana e das leis da mecânica clássica (física não relativística).
Usando o código elementar mencionado, com acréscimo de imagens de baixa resolução, desenvolver gradualmente um sistema linguístico completo. Idiomas aceitos: chinês e esperanto.
A totalidade do conteúdo informacional do sistema deve ser de 680 KB. Os tempos de transmissão nos canais de 2800 MHz, 12 000 MHz e 22 000 MHz são, respectivamente, 1183 minutos, 224 minutos e 132 minutos.
3. Plano de implementação do projeto Costa Vermelha
(1) Conceito preliminar para o sistema de monitoramento e busca da Costa Vermelha [ainda sigiloso]
(2) Conceito preliminar para o sistema de transmissão da Costa Vermelha [ainda sigiloso]
(3) Plano preliminar de seleção de local para a base Costa Vermelha [omitido]
(4) Ideias preliminares quanto à formação da força Costa Vermelha a partir do 2º Corpo de Artilharia [ainda sigiloso]
4. Conteúdo da mensagem transmitida pela Costa Vermelha [Resumo]
Panorama da Terra (3,1 KB), panorama da vida na Terra (4,4 KB), panorama da sociedade humana (4,6 KB), história mundial básica (5,4 KB). Conteúdo total de informação: 17,5 KB.
A mensagem integral será enviada após a transmissão do sistema de codificação autointerpretativo. Os tempos de transmissão nos canais de 2800 MHz, 12 000 MHz e 22 000 MHz são, respectivamente, 31 minutos, 7,5 minutos e 3,5 minutos.
A mensagem será avaliada com cuidado por um comitê multidisciplinar, para garantir que não sejam reveladas as coordenadas da Terra em relação à Via Láctea. Entre os três canais, a transmissão nas frequências mais altas de 12 000 MHz e 22 000 MHz será minimizada para reduzir as chances de que a fonte da transmissão seja determinada com precisão.
IV. Mensagem para civilizações extraterrestres
Primeiro rascunho [Texto Completo]
Atenção, você, que recebeu esta mensagem! Esta mensagem foi enviada por um país que representa a justiça revolucionária na Terra! Antes disso, você talvez já tenha recebido outras mensagens enviadas da mesma direção. Essas mensagens foram enviadas por uma potência imperialista deste planeta. Essa superpotência está disputando o domínio mundial com outra superpotência, a fim de fazer retroceder a história da humanidade. Temos esperança de que você não dê ouvidos às mentiras dessas nações. Apoie a justiça, apoie a revolução!
[Instruções da Liderança Central] Isso está uma grande porcaria! Já basta espalharmos cartazes com caracteres garrafais* por todos os lados, mas não deveríamos mandá-los para o espaço. A liderança da Revolução Cultural não pode ter mais nenhum envolvimento com a Costa Vermelha. Uma mensagem de tamanha importância deve ser elaborada com cuidado. Provavelmente seria melhor que um comitê especial redigisse o comunicado, e que depois o texto fosse debatido e aprovado em uma reunião do politburo.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
Segundo Rascunho [omitido]
Terceiro Rascunho [omitido]
Quarto Rascunho [Texto Completo]
Estendemos a vocês, habitantes de outro mundo, nossos mais calorosos cumprimentos. Após ler a seguinte mensagem, vocês terão uma noção básica da civilização na Terra. Através de muito trabalho e criatividade, a raça humana construiu uma civilização esplêndida, que floresceu com uma multiplicidade de culturas. Também começamos a compreender as leis que regem o mundo natural e o desenvolvimento das sociedades humanas. Valorizamos todas as nossas conquistas.
Mesmo assim, nosso mundo ainda tem falhas. Há ódio, assim como preconceito e guerra. Por conta de conflitos entre as forças de produção e as relações de produção, a distribuição de riqueza é extremamente desigual, e grandes parcelas da humanidade vivem na pobreza e na miséria.
As sociedades humanas estão se esforçando muito para resolver as dificuldades e os problemas que enfrentam, lutando para criar um futuro melhor para a civilização da Terra. O país que enviou esta mensagem participa desse esforço. Nós nos dedicamos a desenvolver uma sociedade ideal que respeite na plenitude o trabalho e o valor de cada indivíduo da raça humana, que atenda integralmente as necessidades materiais e espirituais de todos, de modo que a civilização da Terra possa se aperfeiçoar.
Movidos pelas melhores intenções, desejamos estabelecer contato com outras sociedades civilizadas do universo. Desejamos trabalhar junto com vocês para desenvolver uma vida melhor neste vasto universo.
V. Políticas e estratégias relacionadas
1. Consideração de políticas e estratégias após recepção de mensagem por inteligência extraterrestre [omitido]
2. Consideração de políticas e estratégias após estabelecimento de contato com inteligência extraterrestre [omitido]
[Instruções da Liderança Central] É importante reservar um tempo em nossa agenda cheia para fazer algo sem qualquer relação com nossas necessidades imediatas. Esse projeto permitiu um pouco de reflexão sobre questões que nunca tivemos tempo de analisar. De fato, só podemos ponderar essas questões quando obtivermos um distanciamento suficiente. Isso já basta para justificar o Projeto Costa Vermelha.
Será maravilhoso se o universo realmente tiver outras inteligências e outras sociedades! Observadores externos são os que têm a perspectiva mais clara. Só alguém realmente neutro será capaz de comentar se somos os heróis ou os vilões da história.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
* A crença popular passou a associar cartazes manuscritos com grandes caracteres chineses à Revolução Cultural. No entanto, vem de longa data a história do uso desse material como instrumento de propaganda na China, tanto antes como depois da Revolução Cultural.
PARTE II - Três Corpos
4. FRONTEIRAS DA CIÊNCIA
Mais de quarenta anos depois
Para Wang Miao, os quatro sujeitos que vieram procurá-lo pareciam uma combinação um tanto estranha: dois policiais e dois militares fardados. Se os militares fossem policiais armados, seria relativamente compreensível, mas na verdade eram oficiais do ELP.
Wang ficou irritado assim que viu os policiais. Não tinha problema com o mais jovem — pelo menos era educado. Mas o outro, vestido à paisana, lhe deu nos nervos na mesma hora. Era corpulento e tinha os músculos do rosto salientes. Usava um casaco de couro sujo, fedia a cigarro e falava alto: exatamente o tipo de pessoa que Wang desprezava.
— Wang Miao?
A maneira sem cerimônia com que o policial se dirigiu a ele, tão direto e mal-educado, incomodou Wang. Para piorar, o sujeito acendeu um cigarro, sem nem sequer pedir permissão. Antes que Wang pudesse responder, o homem fez um gesto com a cabeça para o policial mais novo, que mostrou o distintivo.
Após acender o cigarro, o policial mais velho fez menção de entrar no apartamento de Wang.
— Por favor, não fume na minha casa — disse Wang, impedindo a passagem.
— Ah, desculpe, professor Wang. — O policial jovem sorriu. — Este é o capitão Shi Qiang.
— Ele olhou para Shi com uma expressão consternada.
— Tudo bem, podemos conversar no corredor — respondeu Shi, que deu uma longa tragada. Embora quase metade do cigarro tenha virado cinzas, ele não soprou muita fumaça. Inclinou a cabeça para o policial mais novo. — Você pergunta, então.
— Professor Wang, queremos saber se o senhor teve algum contato recente com membros da Fronteiras da Ciência — disse o policial jovem.
— A Fronteiras da Ciência está cheia de acadêmicos famosos e muito influentes. Por que não posso ter contato com um grupo acadêmico internacional legítimo?
— Preste atenção no jeito que fala! — respondeu Shi. — A gente disse alguma coisa sobre não ser legítimo? A gente disse que você não podia ter contato com eles? — Em seguida, soprou a nuvem de fumaça que havia tragado antes bem no rosto de Wang.
— Então está bem. Por favor, respeitem minha privacidade. Não preciso responder a suas perguntas.
— Sua privacidade? Você é um acadêmico famoso. Tem responsabilidade com o bem-estar da população. — Shi jogou fora a guimba do cigarro e pegou outro de um maço amassado.
— Eu tenho o direito de não responder. Por favor, se retirem. — Wang se virou para voltar para dentro.
— Espere! — gritou Shi. Ele fez um gesto para o policial jovem a seu lado. — Passe para ele o endereço e o telefone. Você pode vir à tarde.
— Afinal, o que vocês querem? — perguntou Wang, agora com uma ponta de raiva na voz. A discussão atraiu os vizinhos para o corredor, curiosos para ver o que estava acontecendo.
— Capitão Shi! O senhor disse que… — O policial jovem se afastou um pouco com Shi e continuou falando aos sussurros, em um tom insistente. Aparentemente, Wang não era o único incomodado com a postura grosseira daquele homem.
— Professor Wang, por favor, não nos entenda mal. — Um dos oficiais do Exército, um major, se adiantou. — Vai haver uma reunião importante na tarde de hoje, que contará com a presença de diversos acadêmicos e especialistas. O general nos enviou para fazer o convite ao senhor.
— Tenho um compromisso marcado para a tarde de hoje.
— Sabemos disso. O general já conversou com o diretor do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia. Não podemos realizar essa reunião sem o senhor. Se não puder comparecer, precisaremos adiá-la.
Shi e o policial jovem não falaram nada, apenas se viraram e desceram a escada. Os dois oficiais do Exército viram a dupla ir embora e pareceram suspirar de alívio.
— Qual é o problema daquele cara? — murmurou o major para o outro oficial.
— Ele tem um péssimo histórico. Durante uma situação com reféns há alguns anos, ele agiu de maneira impulsiva, sem consideração pela vida dos demais. No final, três pessoas da mesma família morreram nas mãos dos bandidos. Dizem que ele também tem amigos no crime organizado e usa uma gangue para combater outra. No ano passado, praticou tortura para extrair confissões e deixou um dos suspeitos incapacitado para sempre. Foi por isso que ele foi suspenso da força…
Wang Miao desconfiava que os oficiais tinham a intenção de que ele entreouvisse a conversa. Talvez quisessem mostrar que eram diferentes daquele policial grosseiro, talvez quisessem deixá-lo curioso sobre a missão.
— Como é que um homem assim faz parte do Centro de Comando em Batalha? — perguntou o major.
— O general pediu especificamente para que ele participasse. Acho que deve ter algumas habilidades especiais. De qualquer forma, a função dele é bastante restrita. Além de questões de segurança pública, ele não tem permissão para fazer muita coisa.
Centro de Comando em Batalha? Wang olhou para os dois oficiais, perdido.
O carro enviado para buscar Wang Miao seguiu com o professor para um grande complexo na periferia da cidade. Como a porta só estava identificada por um número, sem letreiro, Wang deduziu que o edifício era das Forças Armadas, não da polícia.
Wang se surpreendeu com o caos que reinava na enorme sala de reuniões. Viu à sua volta muitos computadores em condições variadas de desordem. Como não havia mesas suficientes,
algumas estações de trabalho estavam instaladas no chão mesmo, onde cabos de rede e fios formavam um emaranhado. Em vez de prateleiras, o monte de roteadores estava largado em cima dos servidores. Havia papel branco espalhado por todos os lados. Em alguns cantos da enorme sala, telões de projeção formavam ângulos estranhos, como se fossem barracas de ciganos. Havia uma nuvem de fumaça no ar… Wang Miao não sabia se aquilo era o Centro de Comando em Batalha, mas sabia de uma coisa: fosse lá qual fosse a situação, era importante demais para eles se preocuparem com as aparências.
A mesa de reunião, formada pela junção de várias mesas menores, estava coberta de documentos e objetos variados. Os presentes tinham a roupa amarrotada e pareciam exaustos. Quem estava de gravata havia afrouxado o nó. Parecia que todo mundo ali tinha passado a noite em claro.
Um general de brigada chamado Chang Weisi presidia a reunião, e metade dos presentes era composta por oficiais das Forças Armadas. Após uma breve apresentação, Wang descobriu que muitos eram da polícia. Os demais eram acadêmicos como ele, incluindo alguns cientistas proeminentes especializados em pesquisa de base.
Wang também percebeu quatro estrangeiros e ficou chocado ao descobrir quem eram: um coronel da Aeronáutica dos Estados Unidos e um coronel do Exército britânico, ambos adidos da Otan, além de dois agentes da CIA, aparentemente na condição de observadores.
No rosto de todos em volta da mesa, Wang percebeu um mesmo sentimento: Fizemos tudo o que dava. Vamos acabar logo com esta merda.
Wang Miao viu Shi Qiang sentado à mesa. Em contraste com a grosseria do dia anterior, Shi chamou Wang de “Professor” ao cumprimentá-lo. Mas o sorriso debochado irritou Wang. Ele não queria ficar sentado ao lado de Shi, porém não teve escolha, pois era a única cadeira sobrando. A nuvem já densa de fumaça aumentou.
Conforme os documentos eram distribuídos, Shi se aproximou de Wang.
— Professor Wang, pelo que entendi o senhor pesquisa alguma espécie de… material novo?
— Nanomaterial — respondeu Wang.
— Já ouvi falar. Esse negócio é muito forte, né? O senhor acha que pode ser usado para cometer crimes? — Como Shi continuava estampando um meio sorriso, Wang não sabia se ele estava brincando.
— Como assim?
— Pois é, ouvi falar que um fio feito com esse negócio poderia ser usado para erguer um caminhão. Se bandidos roubassem um pouco desse material e fizessem uma faca, por acaso não conseguiriam cortar um carro ao meio só com um golpe?
— Não é preciso fazer uma faca. Esse tipo de material pode ser montado em uma linha cem vezes mais fina que um fio de cabelo. Se você estendesse essa linha em uma rua, um carro que passasse seria cortado ao meio, como manteiga… Agora, o que não pode ser usado para cometer crimes? Até uma faca cega de escamar peixe!
Shi começou a tirar um documento do envelope à sua frente e voltou a guardá-lo, perdendo o interesse de repente.
— Tem razão. Até mesmo um peixe pode ser usado para cometer crimes. Já tive um caso
assim de assassinato. Uma vez uma vadia capou o marido. Sabe o que ela usou? Uma tilápia congelada que estava no freezer! As barbatanas do bicho pareciam navalhas…
— Não quero saber. Você me chamou para esta reunião para falar disso?
— Peixe? Nanomateriais? Não, não, nada a ver com isso. — Shi se aproximou e sussurrou no ouvido de Wang. — Não seja legal com esses caras. Eles têm preconceito com a gente. Só querem tirar informação, mas nunca vão nos dizer nada. Olhe só para mim. Estou aqui há um mês e ainda não sei de nada, que nem você.
— Camaradas — disse o general Chang —, vamos começar. De todas as zonas de combate no mundo, esta se tornou o ponto de convergência. Precisamos deixar os camaradas presentes a par da atual situação.
Wang estranhou a expressão “zona de combate”. Também percebeu que o general não parecia disposto a explicar em detalhes o contexto da situação para pessoas como ele, o que reforçava a sugestão de Shi. Além disso, o general Chang havia usado a palavra “camaradas” duas vezes em sua breve introdução. Wang olhou para os agentes da Otan e da CIA sentados à sua frente. O general não acrescentara “cavalheiros”.
— Eles também são camaradas. Pelo menos é assim que todos se chamam por aqui — sussurrou Shi para Wang, apontando o cigarro para os quatro estrangeiros.
Wang ficou perplexo ao ver que Shi adivinhara seus pensamentos e achou impressionante o poder de observação dele.
— Da Shi, apague o cigarro. Já temos bastante fumaça aqui — disse o general Chang, enquanto folheava alguns documentos. Ele tratou Shi Qiang por um apelido, “Grande Shi”.
Shi procurou um cinzeiro, mas não achou. Por fim, largou o cigarro em uma xícara. Levantou a mão e, antes que Chang tivesse tempo de perceber, falou alto:
— General, gostaria de fazer um pedido que já fiz em outras reuniões: quero paridade de informação.
O general Chang levantou a cabeça.
— Nenhuma operação militar jamais teve paridade de informação. Peço desculpas a todos os acadêmicos, mas não posso passar mais detalhes.
— Nós não somos como os cabeçudos — respondeu Shi. — A polícia tem sido parte do Centro de Comando em Batalha desde o começo. Mas, até agora, ainda não sabemos do que se trata. Vocês insistem em nos manter afastados. Aprendem o que precisam das nossas técnicas e depois vão nos expulsando, um de cada vez.
Outros policiais presentes murmuraram para que Shi calasse a boca. Wang ficou surpreso de ver que Shi se atrevia a falar daquele jeito com um homem da patente de Chang. Só que a resposta de Chang foi ainda mais surpreendente.
— Da Shi, parece que você continua com o mesmo problema de quando estava no Exército. Por acaso acha que está falando pela polícia? Em razão de seu péssimo histórico, você tinha sido suspenso por vários meses e estava prestes a ser expulso da força. Intercedi a seu favor porque reconheço sua experiência. Você deveria dar valor a esta oportunidade.
Shi continuou com um tom grosseiro.
— Então estou trabalhando na esperança de que, com bons serviços prestados, eu possa me
redimir? Achei que você tinha falado que todas as minhas técnicas eram desonestas e corruptas.
— Mas são úteis. — Chang acenou com a cabeça para Shi. — A única coisa que nos importa é que elas sejam úteis. Em tempos de guerra, não podemos nos dar ao luxo de ter muitos escrúpulos.
— Não podemos ser meticulosos demais — disse um dos agentes da CIA, falando em perfeito mandarim padrão moderno. — Não podemos mais pensar de forma convencional.
O coronel britânico também parecia entender chinês. Ele assentiu com a cabeça.
— Ser ou não ser… — acrescentou ele, em inglês. — É uma questão de vida ou morte.
— O que ele está falando? — perguntou Shi a Wang.
— Nada — respondeu Wang de modo mecânico. A conversa ali parecia sair direto de um sonho. Tempos de guerra? Cadê essa guerra? Ele se virou para olhar por um dos janelões. Pelo vidro, vislumbrou Beijing ao longe: o sol da primavera iluminava os carros que enchiam as ruas como um rio denso; alguém passeava com um cachorro pela grama; crianças brincavam…
O que é mais real? O mundo lá fora ou aqui dentro destas paredes?
— O inimigo intensificou o padrão de ataques recentemente — disse o general Chang. — Os alvos ainda são cientistas de alto escalão. Por favor, passem os olhos pela lista de nomes no documento.
Wang tirou a primeira folha do documento, impressa com caracteres grandes. A lista parecia ter sido feita às pressas e continha nomes em chinês e inglês.
— Professor Wang, ao ver esses nomes, algum chama sua atenção? — perguntou o general Chang.
— Conheço três. Todos são pesquisadores famosos que atuam na vanguarda do estudo da física. — Wang estava um pouco distraído. Seus olhos se fixaram no último nome da lista. Em sua mente, os dois caracteres pareciam assumir uma cor diferente dos nomes anteriores. Como é que o nome dela aparece aqui? O que aconteceu com ela?
— Conhece ela? — Shi apontou para o nome com seu dedo grosso e amarelado de fumante. Wang não respondeu. — Rá. Não conhece. Mas quer conhecer?
Agora Wang Miao entendia por que o general Chang havia pedido para trabalhar com aquele homem. Shi, que parecia vulgar e descuidado, tinha olhos de águia. Talvez não fosse um policial bom, mas com certeza era temível.
Um ano antes, Wang Miao fora responsável pelos componentes de escala nano para o projeto de acelerador de partículas de alta energia “Sinotron II”. Certa tarde, durante um rápido intervalo no canteiro de obras de Liangxiang, Wang ficou impressionado com o cenário. Como fotógrafo de paisagens amador, muitas vezes Wang via as cenas à sua volta como composições artísticas.
O principal elemento da composição era o solenoide do eletroímã supercondutor que eles ainda estavam instalando. Com cerca de dez metros de altura e apenas parcialmente construído, o eletroímã se projetava como um monstro feito de pedaços gigantescos de metal e de uma confusão de tubos de refrigeração criogênica. Como um monte de entulho da Revolução Industrial, a estrutura transpirava a frieza inumana tecnológica e a barbárie do aço.
Na frente desse monstro de metal estava a figura esbelta de uma jovem. A iluminação da
composição também era fantástica: o monstro de metal se encontrava imerso na sombra de uma cobertura temporária para obras, o que enfatizava ainda mais o aspecto grave e duro. Apesar disso, um raio de sol vespertino passava pelo buraco no centro do abrigo, atingindo a mulher. O brilho suave iluminava os cabelos macios e dava destaque para o pescoço branco visível acima do colarinho do macacão, como se uma flor solitária desabrochasse em meio a uma ruína metálica após uma tempestade violenta…
— O que você está olhando? Volte ao trabalho!
Wang despertou do devaneio com um choque, mas logo percebeu que o diretor do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia não estava falando com ele, e sim com um jovem engenheiro que também tinha ficado olhando para a mulher. Ao voltar da arte para a realidade da vida, Wang notou que a jovem não era uma operária comum — o engenheiro-chefe estava ao lado dela, explicando algo com um tom respeitoso.
— Quem é ela? — perguntou Wang ao diretor.
— Você devia saber — respondeu o diretor, traçando um círculo grande com a mão. — O primeiro experimento neste acelerador de vinte bilhões de yuans provavelmente vai ser um teste do modelo de supercordas dela. Acontece que tempo de experiência pesa no ramo da física teórica e, em outra situação, ela não seria vista como experiente o bastante para ser a primeira da fila. Só que, como aqueles acadêmicos com mais bagagem não se atreveram a aparecer antes, com medo de passar vergonha caso suas teorias fracassassem, ela ganhou a chance.
— O quê? Yang Dong é… uma mulher?
— Pois é — disse o diretor. — Só descobrimos quando finalmente a conhecemos, dois dias atrás.
— Ela tem algum problema psicológico? — perguntou o jovem engenheiro. — Por que ela não quer conceder entrevistas para a mídia? Será que ela é como Qian Zhongshu,* que morreu sem nunca ter aparecido na TV? — As palavras de Wang estavam marcadas por uma ponta de autodepreciação. Ele ainda não era famoso o bastante para chamar a atenção da mídia, que dirá para recusar convites de entrevista.
— Mas pelo menos nós sabíamos que Qian era homem. Aposto que Yang passou por algumas experiências estranhas na infância. Talvez tenha ficado um pouco autista por causa disso.
Yang se aproximou do engenheiro-chefe. Quando passaram, ela sorriu para Wang e os demais, fazendo um gesto sutil com a cabeça, sem falar nada. Wang se lembrava daqueles olhos límpidos.
À noite, sentado no escritório, Wang estava admirando as poucas fotografias de paisagem penduradas na parede: eram as criações de que ele mais se orgulhava. Fixou os olhos em uma cena de fronteira: um vale desolado que terminava em uma montanha coberta de neve. Na parte mais próxima do vale, metade de uma árvore morta, desgastada por muitos anos de exposição, ocupava um terço da foto. Em sua imaginação, Wang colocou a figura da mulher que não saía de seus pensamentos no fundo do vale. Ficou surpreso ao constatar que o cenário todo pareceu ganhar vida, como se o mundo da fotografia reconhecesse aquela figura minúscula e reagisse, como se o cenário todo existisse para ela.
Em seguida, Wang a imaginou em cada uma das outras fotografias, às vezes colando os olhos
dela no céu vazio acima das paisagens. Essas imagens também ganharam vida, alcançando uma beleza que Wang jamais havia imaginado.
Wang sempre havia pensado que suas fotografias careciam de algum tipo de espírito. Agora entendia que o que faltava era ela.
— Todos os físicos nessa lista cometeram suicídio nos últimos dois meses — disse o general Chang.
Wang ficou chocado. Aos poucos, as paisagens em preto e branco se desvaneceram em sua mente. As fotografias já não possuíam a figura dela no primeiro plano, e seus olhos foram riscados do firmamento. Aqueles mundos estavam todos mortos.
— Quando… isso aconteceu? — perguntou Wang, em tom mecânico.
— Nos últimos dois meses — repetiu Chang.
— Você está se referindo ao último nome, não é? — indagou Shi, satisfeito. — Ela foi a última a se suicidar. Na noite retrasada, uma overdose de remédios para dormir. A morte foi pacífica. Sem dor.
Por um instante, Wang sentiu-se grato a Shi.
— Por quê? — perguntou Wang. Os cenários mortos daquelas fotos de paisagem continuavam martelando em sua cabeça.
— Nossa única certeza — respondeu o general Chang — é a seguinte: todos cometeram suicídio pelo mesmo motivo. Mas é difícil levantar hipóteses. Talvez seja impossível para nós, que não somos especialistas, cogitar o motivo. O documento contém trechos das cartas de suicídio. Todos vocês podem examiná-los após a reunião.
Wang folheou as páginas das cartas: todas pareciam ensaios extensos.
— Dr. Ding, por favor, o senhor poderia mostrar a mensagem de Yang Dong ao professor Wang? A dela é a mais curta e, talvez, a mais representativa.
O homem em questão, Ding Yi, havia permanecido em silêncio até aquele momento. Após mais um instante, ele enfim pegou um envelope branco e entregou para Wang por cima da mesa.
— Ele era o namorado de Yang — sussurrou Shi. Wang se lembrava de ter visto Ding no canteiro de obras do acelerador de partículas em Liangxiang. Ele era um teórico que havia ficado famoso ao descobrir os macroátomos quando estava estudando relâmpagos globulares. Wang tirou do envelope uma folha fina e de formato irregular, com uma fragrância sutil… não de papel, mas de bétula. Havia uma única linha de caracteres escritos em uma caligrafia elegante:
Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá. Sei que o que estou fazendo é irresponsável. Mas não tenho escolha.
O papel não estava nem assinado. Ela se fora.
— A física… não existe? — Wang não fazia ideia do que pensar. O general Chang fechou a pasta.
— O arquivo também contém informações específicas relativas aos resultados experimentais obtidos após a finalização dos três aceleradores de partículas mais novos do mundo. Como é
bastante técnico, não trataremos disso aqui. O primeiro objeto de nossa investigação é a Fronteiras da Ciência. A Unesco determinou que 2005 seria o Ano Mundial da Física, e essa organização se formou gradativamente, a partir dos diversos congressos e encontros acadêmicos realizados ao longo daquele ano por físicos do mundo inteiro. Dr. Ding, já que o senhor estuda física teórica, poderia nos dar mais informações sobre essa organização?
Ding confirmou com a cabeça.
— Não tenho nenhuma relação direta com a Fronteiras da Ciência, mas a organização é famosa no meio acadêmico. O objetivo central dela é ser uma resposta para o seguinte problema: desde a segunda metade do século XX, a física perdeu aos poucos a concisão e a simplicidade das teorias clássicas. Os modelos teóricos modernos se tornaram cada vez mais complexos, vagos e imprecisos. A verificação experimental se tornou mais difícil também. Isso tudo é um sinal de que a vanguarda da pesquisa em física parece estar chegando a um limite.
“Os membros da Fronteiras da Ciência querem experimentar uma nova forma de pensar. Para simplificar: eles querem usar os métodos científicos para descobrir os limites da ciência, para tentar descobrir se existe limite para a extensão e a precisão com que a ciência pode conhecer a natureza, um limite que a ciência não pode transpor. O desenvolvimento da física moderna parece sugerir que essa linha já foi alcançada.”
— Muito bem — disse o general Chang. — De acordo com nossas investigações, a maioria dos pesquisadores que se suicidaram tem alguma ligação com a Fronteiras da Ciência, e alguns até faziam parte dela. Mas não encontramos indícios de drogas psicotrópicas nem de técnicas similares à manipulação ideológica presente em seitas religiosas. Em outras palavras, embora tenham sido influenciados pela Fronteiras da Ciência, isso ficou limitado a relações acadêmicas legítimas. Professor Wang, visto que a organização entrou em contato com o senhor recentemente, gostaríamos de pedir algumas informações.
— Incluindo o nome de seus contatos — acrescentou Shi de maneira grosseira —, o horário e o local dos encontros, o assunto das conversas e eventuais trocas de cartas ou e-mails…
— Cale-se, Da Shi! — disse o general Chang.
— Por acaso acha que vamos esquecer que você tem boca se não a mantiver aberta o tempo todo?
Shi pegou a xícara, viu a guimba de cigarro enfiada no chá e voltou a colocá-la na mesa.
As perguntas de Shi voltaram a deixar Wang irritado, a mesma sensação que um homem teria ao descobrir que engoliu uma mosca junto com a comida. A gratidão experimentada havia pouco desapareceu sem deixar vestígios. Mas ele se conteve e respondeu:
— Meu contato com a Fronteiras da Ciência começou com Shen Yufei, uma física japonesa descendente de chineses que trabalha atualmente para uma empresa japonesa aqui em Beijing. Ela já trabalhou em um laboratório da Mitsubishi com pesquisa sobre nanotecnologia. Nós nos conhecemos em um congresso no começo deste ano. Por intermédio dela, conheci alguns de seus amigos físicos, todos integrantes da Fronteiras da Ciência, alguns chineses, alguns estrangeiros. Em nossas conversas, todos os assuntos eram… como dizer? Bem radicais. Todos os temas estavam relacionados à pergunta que o dr. Ding acabou de mencionar: qual é o limite da ciência?
“A princípio, eu não tinha muito interesse nesses assuntos, que só encarava como um passatempo. Trabalho com pesquisa aplicada e não conheço muito dessas questões teóricas. Estava interessado principalmente em ouvir os debates e as discussões que eles travavam. Todos eram grandes pensadores, com pontos de vistas originais, e eu sentia que minha mente se expandia com as conversas. Com o tempo, fui ficando mais interessado. Mas os debates se limitavam à teoria pura e nada mais. Eles me convidaram uma vez a entrar para a Fronteiras da Ciência. Só que, caso eu tivesse aceitado, comparecer às discussões teria se transformado em obrigação. Como eu não tinha muito tempo livre nem energia de sobra, recusei.”
— Professor Wang — disse o general Chang —, gostaríamos que o senhor aceitasse o convite e entrasse para a Fronteiras da Ciência. Esse é o principal motivo para termos insistido em sua presença na reunião de hoje. Por intermédio do senhor, gostaríamos de saber mais sobre as atividades internas da organização.
— Vocês querem que eu seja um espião? — Wang não estava à vontade.
— Um espião! — Shi riu.
— Só queremos que o senhor nos passe algumas informações. Não temos nenhuma outra via de acesso.
Wang balançou a cabeça.
— Sinto muito, general. Não posso fazer isso.
— Professor Wang, a Fronteiras da Ciência é composta de pensadores internacionais de primeira linha. O trabalho de investigação é extremamente complexo e delicado. Para nós, seria como pisar em ovos. Sem a ajuda de alguém do meio acadêmico, não temos como fazer nenhum progresso. Por isso estamos fazendo esse pedido. Mas respeitaremos sua vontade. Se o senhor não aceitar, vamos entender.
— Eu ando… muito atarefado. Não tenho tempo para isso.
— Tudo bem, professor Wang. Não vamos mais desperdiçar o seu tempo. Obrigado por vir a esta reunião.
Wang esperou mais alguns segundos até perceber que havia sido dispensado.
O general Chang o acompanhou gentilmente até a porta. Dava para ouvir a voz alta de Shi atrás deles.
— É melhor assim. Nem concordo com o plano mesmo. Muitos CDFs já se mataram. Mandar esse cara seria o mesmo que jogar um pedaço de carne dentro de um canil.
Wang se virou, foi até Shi, reprimiu a raiva e disse:
— O seu jeito de falar não é adequado para um bom policial.
— Quem disse que eu sou um bom policial?
— Não sei por que esses pesquisadores se mataram, mas você não devia falar deles com tanto desdém. A mente brilhante desses estudiosos trouxe contribuições inigualáveis para a humanidade.
— Você está dizendo que eles são melhores do que eu? — Ainda sentado, Shi ergueu os olhos para encarar Wang. — Eu pelo menos não me mataria só porque alguém me falou uma besteira.
— Você acha que eu me mataria?
— Tenho que me preocupar com a sua segurança. Lá estava aquele sorrisinho debochado de novo.
— Acho que eu estaria muito mais seguro que você nesse tipo de situação. Você deve saber que a capacidade de uma pessoa de discernir a verdade é diretamente proporcional ao conhecimento que ela tem.
— Não sei, não. Digamos que alguém como você…
— Silêncio, Da Shi! — disse o general Chang. — Mais uma palavra e você será expulso!
— Não tem problema — respondeu Wang. — Deixe falar. — Ele se virou para o general Chang. — Mudei de ideia. Vou entrar para a Fronteiras da Ciência, como vocês querem.
— Ótimo! — Shi balançou a cabeça com força. — Fique atento depois de entrar. Obtenha informações sempre que for possível. Por exemplo, dê uma olhada na tela dos computadores deles, decore endereços de e-mail ou de sites…
— Basta! Você não entendeu. Não quero ser um espião. Só quero provar que você não passa de um idiota!
— Se você continuar vivo por algum tempo depois de entrar, já vai ser uma ótima prova. Mas eu temo por sua segurança… — Shi levantou o rosto, e a expressão debochada se transformou em um sorriso maldoso.
— É claro que vou continuar vivo! Mas nunca mais quero ver você.
Eles mantiveram Wang afastado enquanto os outros iam embora para que ele não topasse com Shi Qiang de novo. Depois, o general Chang acompanhou Wang até o pé da escada e chamou um carro para levá-lo de volta para casa.
— Não se preocupe com Shi Qiang — disse ele para Wang. — Ele é daquele jeito mesmo. Na verdade, Shi é um policial muito experiente e um especialista em antiterrorismo. Vinte anos atrás, era soldado da minha companhia.
Enquanto os dois se aproximavam do carro, Chang acrescentou:
— Professor Wang, o senhor deve ter muitas perguntas.
— O que aquilo tudo que vocês falaram lá dentro tem a ver com as Forças Armadas?
— A guerra tem tudo a ver com o Exército.
— Mas onde é que está essa guerra? Este talvez seja o período mais pacífico da história. Chang o encarou com um sorriso indecifrável.
— O senhor saberá em breve. Todo mundo saberá. Professor Wang, já aconteceu algo com o senhor que mudou a sua vida da noite para o dia? Alguma circunstância que tenha feito com que o mundo se tornasse um lugar totalmente diferente para o senhor?
— Não.
— Então o senhor teve sorte na vida. Mesmo que o mundo seja cheio de imprevistos, o senhor nunca se deparou com uma crise.
Wang revirou as palavras na cabeça, ainda sem entender.
— Acho que isso vale para a maioria das pessoas.
— Então a maioria das pessoas teve sorte na vida.
— Mas… muitas gerações viveram dessa forma simples.
— Todas tiveram sorte.
— Preciso confessar que não estou me sentindo muito esperto hoje. O senhor está sugerindo que…
— Sim, que a humanidade teve sorte ao longo de toda sua história. Desde a Idade da Pedra até hoje, nunca aconteceu nenhuma crise de verdade. Tivemos sorte, muita sorte. Agora, como tudo isso foi sorte, um dia teria que acabar. Vou mais longe: já acabou. Prepare-se para o pior.
Embora Wang quisesse saber mais, Chang balançou a cabeça e se despediu, evitando novas perguntas.
Depois de Wang entrar no carro, o motorista quis saber para onde deveria levar o passageiro. Wang informou o endereço e perguntou:
— Ah, não foi você que me trouxe aqui? Achei que fosse o mesmo carro.
— Não, não fui eu. Eu trouxe o dr. Ding.
Wang teve uma ideia nova. Pediu para o motorista levá-lo ao endereço de Ding.
* Qian Zhongshu (1910-98) foi uma das mentes literárias chinesas mais famosas do século XX. Erudito, mordaz e recluso, ele insistia em rejeitar convites para aparecer na mídia. Poderia ser considerado uma versão chinesa de Thomas Pynchon.
5. UMA PARTIDA DE SINUCA
Assim que abriu a porta do apartamento de três quartos novinho em folha de Ding Yi, Wang sentiu cheiro de álcool. Ding estava sentado no sofá, com a TV ligada, olhando para o teto. O apartamento estava inacabado, só com alguns móveis e poucos itens de decoração, e a sala de estar imensa parecia muito vazia. O objeto que mais chamava a atenção era a mesa de sinuca no canto.
Ding não parecia contrariado com o fato de Wang ter entrado sem ser convidado. Era nítido que estava com vontade de conversar com alguém.
— Comprei o apartamento há uns três meses — comentou Ding. — Por quê? Será que achei mesmo que ela ia querer começar uma família? — Pela sua risada, parecia que estava bêbado.
— Vocês dois… — Wang queria saber os detalhes da vida de Yang Dong, mas não sabia como perguntar.
— Ela parecia uma estrela, sempre muito distante. Até a luz que ela lançava em mim era fria.
— Ding foi até uma das janelas e olhou para o céu noturno.
Wang não falou nada. A única coisa que ele queria era ouvir a voz dela. Porém, um ano antes, enquanto o sol descia no oeste, no instante em que cruzaram os olhares, nenhum dos dois falou nada. Wang nunca escutara a voz dela.
Ding fez um gesto com a mão, como se tentasse espantar algo.
— Professor Wang, você tinha razão. Não se envolva com a polícia nem com os militares. São todos uns idiotas. A morte daqueles físicos não teve nada a ver com a Fronteiras da Ciência. Já expliquei para eles diversas vezes, mas não consegui fazê-los entender.
— Parece que eles realizaram uma investigação independente.
— Isso mesmo, e a abrangência dessa investigação foi global. Eles já deviam saber que dois dos mortos nunca tiveram contato com a Fronteiras da Ciência, incluindo… Yang Dong. — Parecia que Ding tinha dificuldade para pronunciar aquele nome.
— Ding Yi, você sabe que já estou envolvido. Então… gostaria de saber o motivo que levou Yang a fazer… aquela escolha. Acho que você sabe de alguma coisa. — Wang achou que devia ter soado muito estúpido enquanto se esforçava para disfarçar suas verdadeiras intenções.
— Se você souber mais, só vai se afundar nisso tudo. Por enquanto, seu envolvimento é superficial. Agora, com mais conhecimento, seu espírito também será sugado para dentro de um poço, e aí você estará em apuros.
— Eu trabalho com pesquisa aplicada. Não sou tão sensível como vocês, teóricos.
— Muito bem. Você joga sinuca? — Ding foi até a mesa de jogo.
— Arriscava umas tacadas na faculdade.
— Nós dois adorávamos jogar. Lembrava a colisão de partículas no acelerador. — Ding pegou duas bolas: uma preta e uma branca. Colocou a bola preta perto de uma das caçapas, e deixou a branca a cerca de dez centímetros. — Você consegue encaçapar a bola preta?
— Tão de perto assim? Todo mundo consegue.
— Tente.
Wang pegou o taco, deu um golpe de leve na bola branca e jogou a bola preta na caçapa.
— Ótima jogada. Venha, vamos colocar a mesa em um lugar diferente. — Ding orientou o confuso Wang a levantar a mesa pesada. Juntos, eles a arrastaram até outro canto da sala, perto de uma janela. Em seguida, Ding pegou e colocou a bola preta perto da caçapa e, mais uma vez, apanhou e posicionou a bola branca a cerca de dez centímetros de distância. — Você acha que consegue de novo?
— Claro.
— Vá em frente.
— Vamos tentar em outro lugar. — Eles ergueram e levaram a mesa até um terceiro canto da sala. Ding dispôs as bolas como antes. — Pronto.
— Sabe de uma coisa, nós…
— Pronto!
Wang deu de ombros, impotente. Ele encaçapou a bola preta pela terceira vez.
Eles deslocaram a mesa mais duas vezes: uma para perto da porta da sala, outra de volta à posição original. Ding dispôs as bolas outras duas vezes, e Wang acertou outras duas vezes. A essa altura, os dois estavam ligeiramente sem fôlego.
— Bom, essa é a conclusão do nosso experimento. Vamos analisar os resultados. — Ding acendeu um cigarro antes de prosseguir. — Realizamos o mesmo experimento cinco vezes. Quatro dos experimentos diferiram em local e tempo. Dois deles foram no mesmo local, mas em momentos diferentes. Você ficou chocado com os resultados? — Ele abriu os braços em um gesto exagerado. — Cinco vezes! Cada experimento de colisão rendeu exatamente o mesmo resultado!
— O que você está tentando dizer? — perguntou Wang, ainda sem ar.
— Você consegue explicar esse resultado incrível? Por favor, use a linguagem da física.
— Certo… Durante os cinco experimentos, a massa das duas bolas nunca se alterou. Em termos de localização, contanto que consideremos como referência a superfície da mesa, também não houve mudança. A velocidade da bola branca ao atingir a bola preta também permaneceu basicamente igual. Portanto, a transferência de energia entre as duas bolas não mudou. Logo, em todos os cinco experimentos, o resultado foi a bola preta cair na caçapa.
Ding pegou uma garrafa de conhaque e dois copos sujos no chão. Encheu os dois e entregou um para Wang. Ele recusou.
— Ora, vamos comemorar. Descobrimos um grande princípio da natureza: as leis da física não variam no tempo e no espaço. Todas as leis da física, em toda a história da humanidade, do
princípio de Arquimedes até a teoria das cordas, todas as descobertas científicas, todos os frutos intelectuais da nossa espécie são subprodutos dessa grande lei. Comparados a nós, teóricos como Einstein e Hawking não passam de meros engenheiros práticos.
— Ainda não entendo o que você está querendo dizer.
— Imagine outro conjunto de resultados. Na primeira vez, a bola branca lança a preta para dentro da caçapa. Na segunda, a bola preta rebate para outra direção. Na terceira, a bola preta voa até o teto. Na quarta, a bola preta atravessa a sala como um pardal assustado e acaba se escondendo no bolso do seu paletó. Na quinta, a bola preta sai voando quase na velocidade da luz, quebra a borda da mesa de sinuca, atravessa a parede e abandona a Terra e o sistema solar, tal como Asimov descreveu certa vez.* O que você acharia nesse caso?
Ding encarou Wang. Após um longo silêncio, Wang por fim disse:
— Isso aconteceu mesmo. Não é verdade?
Ding esvaziou os dois copos em suas mãos. Ele ficou olhando para a mesa de sinuca como se estivesse vendo um demônio.
— Aconteceu. Nos últimos anos, finalmente obtivemos o equipamento necessário para conduzir experiências e testar teorias fundamentais. Três “mesas de sinuca” caras foram construídas: uma na América do Norte, outra na Europa, e a terceira em Liangxiang, como você sabe. Seu Centro de Pesquisa em Nanotecnologia recebeu muito dinheiro por causa dela.
“Esses aceleradores de partículas de alta energia aumentaram em uma ordem de magnitude a quantidade de energia disponível para a colisão de partículas, um nível inédito para a raça humana. Porém, com os equipamentos novos, as mesmas partículas, os mesmos níveis de energia e os mesmos parâmetros experimentais apresentavam resultados diferentes. Os resultados variavam não só com aceleradores diferentes, mas até quando os experimentos eram realizados em um mesmo acelerador em momentos diferentes. Os físicos entraram em pânico. Repetiram os experimentos de colisão com ultra-alta energia várias vezes, usando as mesmas condições, mas o resultado sempre era diferente e parecia não haver padrão nenhum.”
— O que isso significa? — perguntou Wang. Quando percebeu que Ding o encarava sem falar nada, acrescentou: — Ah, eu sou de nanotecnologia, e também trabalho com estruturas em escala micro. Mas isso é muito maior, em ordens de magnitude, do que a escala em que você trabalha. Por favor, me explique.
— Significa que as leis da física não são invariáveis no tempo e no espaço.
— O que isso significa?
— Acho que você pode deduzir o resto. Até o general Chang entendeu. Ele é um homem muito esperto.
Wang olhou pela janela, pensativo. As luzes da cidade estavam tão claras que as estrelas no céu noturno tinham sumido.
— Significa que as leis da física que poderiam se aplicar em qualquer lugar do universo não existem, o que significa que a física… também não existe. — Wang se virou para a janela de novo.
— “Sei que o que estou fazendo é irresponsável. Mas não tenho escolha” — disse Ding. — Essa era a segunda parte da mensagem dela. Você acabou de topar com a primeira parte. Agora
consegue entendê-la? Pelo menos um pouco?
Wang pegou e alisou um pouco a bola branca, antes de recolocá-la na mesa.
— Para alguém que explora a vanguarda da teoria, isso seria mesmo uma catástrofe.
— Para se realizar algo em física teórica é preciso ter quase uma fé religiosa. É fácil ser conduzido até o abismo.
Quando os dois se despediram, Ding passou um endereço para Wang.
— Se você tiver tempo, por favor, faça uma visita à mãe de Yang Dong. Ela e a mãe sempre moraram juntas, e a mãe vivia para a filha. Agora a velha não tem mais ninguém.
— Ding, é nítido que você sabe muito mais do que eu. Pode me falar mais? Você acredita mesmo que as leis da física não são invariáveis no tempo e no espaço?
— Não sei de nada. — Ding ficou encarando Wang por um bom tempo. Por fim, disse: — Mas eis a questão.
Wang sabia que ele só estava terminando o que o coronel britânico tinha começado a falar: Ser ou não ser: eis a questão.
* Ver o conto “The Billiard Ball”, de Isaac Asimov. (N. A.)
6. O FRANCO-ATIRADOR E
O CRIADOR DE AVES
O dia seguinte era o começo do fim de semana. Wang se levantou cedo e saiu de bicicleta. Como fotógrafo amador, seus temas preferidos eram cenas de natureza sem presença humana. No entanto, como já estava na meia-idade, não tinha mais energia para se entregar a passeios tão indulgentes e só tirava fotos de cenas urbanas.
De modo consciente ou não, costumava escolher cantos da cidade que retivessem algum aspecto do mundo selvagem: um lago ressecado em um parque, a terra recém-revirada em um canteiro de obras, um pouco de mato tentando brotar das rachaduras de um pedaço de concreto. Para eliminar a extravagância de cores da cidade no fundo, ele só usava filme preto e branco. De maneira um tanto inesperada, havia desenvolvido um estilo próprio e chamado um pouco de atenção. Seus trabalhos foram escolhidos para duas exposições, e Wang fazia parte da Associação de Fotógrafos. Sempre que saía para tirar fotos, pegava a bicicleta e circulava pela cidade em busca de inspiração e composições cativantes. Com frequência, passava o dia inteiro fora.
Naquela manhã, Wang se sentia estranho. Embora seu estilo fotográfico tendesse para o clássico, calmo e digno, parecia que naquela oportunidade ele não conseguiria entrar no clima necessário para composições desse tipo. Em sua cabeça, a cidade, despertando do sono, parecia construída sobre areia movediça. A estabilidade era ilusória. Wang havia sonhado com aquelas duas bolas de sinuca a noite inteira. Elas voavam por um espaço negro sem formar qualquer padrão, e a bola preta desaparecia no fundo escuro e só revelava sua existência de vez em quando, ao obscurecer a branca.
Será que a natureza fundamental da matéria poderia mesmo ser a ausência de leis? Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário ocorrido em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?
Quando voltou a si, percebeu que estava ao pé do recém-concluído edifício da Televisão Central da China. Ele parou no acostamento e levantou a cabeça para contemplar a gigantesca torre em formato de A, tentando retomar a sensação de estabilidade. Seu olhar acompanhou a ponta reta do edifício, cintilando na luz da manhã e apontando para as profundezas azuis e infinitas do céu. De repente, algumas palavras apareceram na sua mente: “franco-atirador” e “criador de aves”.
Quando os integrantes da Fronteiras da Ciência debatiam a física, usavam muito a abreviação “FC”. Não estavam falando de “ficção científica”, e sim das expressões “franco-atirador” e “criador de aves”. Era uma referência a duas hipóteses, ambas relacionadas com a natureza fundamental das leis do universo.
Na hipótese do franco-atirador, um atirador competente dispara contra um alvo, criando furos de dez em dez centímetros. Agora, digamos que a superfície do alvo seja habitada por criaturas inteligentes bidimensionais. Seus cientistas, ao observar o universo, descobrem uma grande lei: “Existe um furo no universo a cada dez centímetros”. Eles interpretaram equivocadamente o resultado do capricho momentâneo do franco-atirador, achando que fosse uma lei permanente do universo.
A hipótese do criador de aves, por sua vez, tem um quê de história de terror. Todo dia de manhã, um criador de perus aparece para alimentar as aves. Um peru cientista, após observar esse padrão se repetir sem alterações durante quase um ano, faz a seguinte descoberta: “Todo dia de manhã, às onze, a comida chega”. Na manhã da véspera de Natal, o cientista anuncia essa lei para os demais perus. Porém, às onze da manhã desse dia, a comida não chega: o criador de perus aparece e mata todas as aves.
Wang sentiu a estrada sob seus pés se deslocar como areia movediça. O edifício em forma de A pareceu balançar e estremecer. Ele logo voltou os olhos para a rua.
Para se livrar da ansiedade, Wang se forçou a usar todo o rolo de filme. Ele voltou para casa antes do almoço. Sua esposa já havia saído com o filho deles e ficaria fora por algum tempo. Normalmente, Wang teria se apressado para revelar o filme, mas naquele dia estava sem ânimo. Após um almoço rápido e simples, decidiu tirar um cochilo. Como não havia dormido bem na noite anterior, quando acordou já eram quase cinco da tarde. Só então se lembrou do rolo de filme e entrou na apertada sala escura que tinha sido convertida a partir de um closet.
Depois de revelar o filme, Wang começou a olhar os negativos para ver se alguma das fotos merecia ampliação. Porém, viu algo estranho logo na primeira imagem, em uma foto de um gramado pequeno ao lado de um shopping grande. O centro do negativo continha uma linha de marcas brancas minúsculas que, vistas mais de perto, eram na verdade números: 1200:00:00.
A segunda foto também tinha números: 1199:49:33. Assim como a terceira: 1199:40:18.
Na verdade, todas as fotos do rolo tinham números parecidos, até a trigésima sexta (e última) imagem: 1194:16:37.
O primeiro pensamento de Wang foi que havia algo errado com o filme. A câmera usada era uma Leica M2 de 1988 — totalmente analógica, de modo que era impossível o aparelho acrescentar uma marcação de data. Com a lente excepcional e os mecanismos internos sofisticados, ainda era considerada uma excelente câmera profissional até mesmo para padrões digitais.
Ao reexaminar os negativos, Wang descobriu outra peculiaridade com os números: eles pareciam se adaptar ao fundo. Quando o fundo era preto, os números eram brancos, e vice-versa. A mudança parecia ter sido concebida para maximizar o contraste dos números em favor da visibilidade. No momento em que Wang examinava o décimo sexto negativo, seu coração já estava acelerado, e ele sentiu um calafrio subindo pela espinha.
A foto era de uma árvore morta na frente de um muro antigo, manchado, com partes pretas e brancas. Em um fundo assim, seria difícil ler até em cores. No entanto, na foto, os números assumiram uma posição vertical para acompanhar a curva do tronco da árvore, possibilitando que os dígitos brancos aparecessem contra a cor escura da árvore morta, como se fossem uma serpente rastejante.
Wang começou a analisar o padrão matemático dos números. À primeira vista, achou que fosse alguma sequência predeterminada, mas a diferença entre os números não era constante. Em seguida, imaginou que os números representavam o tempo em forma de horas, minutos e segundos. Pegou seu registro de fotografias, que marcava a hora exata em que cada foto tinha sido tirada, até os segundos, e descobriu que a diferença entre os números de duas fotos consecutivas correspondia à diferença de tempo entre as horas em que elas foram batidas.
Uma contagem regressiva.
A contagem começava com 1200 horas. E agora restavam cerca de 1194 horas, pouco menos de cinquenta dias.
Agora? Não, no momento em que tirei a última foto. Será que a contagem continua?
Wang foi até a sala escura, pôs um rolo novo na Leica e começou a tirar fotos aleatórias. Saiu até para a varanda a fim de dar alguns cliques externos. Depois, retirou o filme e voltou para a sala escura. No filme revelado, os números voltaram a aparecer em cada negativo como se fossem fantasmas. O primeiro estava marcado 1187:27:39. A diferença equivalia ao tempo passado entre a última foto do rolo anterior e a primeira do novo. Depois disso, os números diminuíam a uma taxa de três ou quatro segundos por imagem: 1187:27:35, 1187:27:31, 1187:27:27, 1187:27:24… tal qual os intervalos das fotos rápidas que havia tirado.
A contagem continuava.
Wang colocou mais um rolo na máquina. Tirou várias fotos apressadamente, inclusive algumas com a tampa da lente fechada. Quando estava tirando o rolo da máquina, sua mulher e o filho chegaram. Antes de entrar na sala escura para revelar o filme, ele colocou outro rolo na Leica e pediu para a mulher.
— Aqui, termine este rolo para mim.
— O que devo fotografar? — perguntou a esposa, encarando o marido, espantada. Wang nunca havia permitido que ninguém encostasse em sua câmera, embora para ela e para o filho aquilo não despertasse nenhum interesse. Aos olhos deles, era só uma antiguidade sem graça que custava mais de vinte mil yuans.
— Tanto faz. Tire foto do que quiser. — Wang enfiou a câmera nas mãos dela e se meteu na sala escura.
— Tudo bem. Dou Dou, que tal eu tirar umas fotos suas? — A esposa dele virou a lente para o filho.
De repente, Wang vislumbrou a imagem dos dígitos fantasmagóricos estampada no rosto de seu filho, como a corda de uma forca. Sentiu um arrepio.
— Não, isso não. Tire foto de outra coisa.
— Por que não consigo apertar de novo? — perguntou ela. Wang ensinou a esposa a rodar o filme para avançá-lo.
— Assim. Você precisa fazer isso depois de cada foto. Em seguida, ele voltou para dentro da sala escura.
— Muito complicado! — A esposa de Wang, médica, não conseguia entender por que alguém usaria um equipamento tão caro e obsoleto quando havia no mercado opções de câmeras digitais de dez a vinte megapixels. Sem falar que o marido usava filme preto e branco!
Depois de revelar o terceiro filme, Wang levantou a película na frente da luz vermelha. Viu que a contagem regressiva fantasmagórica continuava. Os números apareciam com clareza em todas as fotos aleatórias, incluindo as poucas tiradas com a lente tampada: 1187:19:06, 1187:19:03, 1187:18:59, 1187:18:56…
Sua esposa bateu à porta da sala escura e disse que tinha terminado de tirar as fotos. Wang abriu a porta e pegou a câmera. Suas mãos tremiam enquanto ele tirava o rolo. Wang ignorou o olhar de preocupação da mulher, voltou com o filme para dentro da sala escura e fechou a porta. Trabalhou às pressas e sem cuidado, derrubando revelador e fixador pelo chão todo. Pouco tempo depois, as imagens estavam reveladas. Ele fechou os olhos e rezou em silêncio. Por favor, não apareça. Seja o que for, por favor, não apareça agora. Que não seja a minha hora…
Examinou o filme molhado com uma lupa. Não havia contagem. Sua mulher tinha deixado o obturador com uma velocidade baixa, e o manuseio amador fizera com que todas as imagens ficassem desfocadas. Mesmo assim, para Wang, aquelas eram as fotos mais agradáveis que tinha visto na vida.
Wang saiu da sala escura e soltou um grande suspiro. Estava coberto de suor. A esposa estava na cozinha, preparando o jantar, e o filho brincava no quarto. Ele se sentou no sofá e refletiu sobre a questão de modo mais racional.
Em primeiro lugar, os números, que registravam com precisão a passagem do tempo entre as fotos e exibiam sinais de inteligência, não podiam ter sido impressos previamente no filme. Algo expôs aquelas sequências numéricas no filme. Mas o quê? Será que a câmera estava com algum defeito? Será que algum mecanismo fora instalado sem que ele soubesse? Depois de tirar a lente e desmontar o aparelho, Wang examinou o interior com uma lupa, conferiu cada componente impecável e não viu nada fora do lugar. Em seguida, considerando que os números apareciam mesmo nas fotos tiradas com a lente coberta, Wang percebeu que a fonte de luz mais provável era alguma forma de raio invasor. Mas como isso era tecnologicamente possível? Onde estava a origem desses raios? Como eles poderiam ter sido controlados?
Pelo menos diante da tecnologia do momento, esse tipo de poder seria sobrenatural.
A fim de ver se a contagem fantasmagórica tinha desaparecido, Wang colocou outro filme na Leica e tirou mais fotos aleatórias. Quando o rolo foi revelado, a tranquilidade passageira de Wang foi abalada de novo. Ele sentiu que estava sendo levado à beira da insanidade. A contagem havia voltado. Pelo que os números mostravam, ela nunca tinha parado, só não aparecera no filme utilizado pela esposa.
1186:34:13, 1186:34:02, 1186:33:46, 1186:33:35…
Wang saiu correndo da sala escura e deixou o apartamento. Bateu com força à porta do vizinho, Zhang, professor aposentado.
— Professor Zhang, o senhor tem uma câmera? Não uma digital, mas uma analógica!
— Um fotógrafo profissional como você quer pegar minha câmera emprestada? O que aconteceu com seu aparelho caro? Só tenho câmeras digitais simples. Está tudo bem? Você está muito pálido.
— Por favor, me empreste a câmera.
— Aqui. Pode apagar as poucas fotos que estão na memória.
— Obrigado!
Wang pegou a câmera e voltou correndo para casa. Na verdade, tinha outras três câmeras analógicas e uma digital, mas achou que seria melhor pegar uma emprestada de outra pessoa. Ele olhou para a própria Leica no sofá, para o punhado de rolos de filme, parou para refletir e decidiu colocar um filme novo na Leica. Entregou a câmera digital emprestada para a esposa, que estava colocando a mesa para o jantar.
— Rápido! Tire mais algumas fotos, que nem antes.
— O que você está fazendo? Olhe para a sua cara! O que está acontecendo?
— Não se preocupe. Tire fotos!
Ela colocou os pratos na mesa e foi até Wang, com os olhos carregados de preocupação e medo.
Wang enfiou a Kodak nas mãos do filho de seis anos, que estava prestes a começar a jantar.
— Dou Dou, venha ajudar o papai. Aperte este botão. Assim mesmo. Isso foi uma foto. Aperte de novo. Isso foi outra foto. Fique tirando fotos assim. Fotografe tudo o que você quiser.
O menino aprendeu logo. Ficou muito interessado e tirou fotos rápidas. Wang se virou, pegou a Leica no sofá e começou a tirar fotos também. Pai e filho ficaram disparando os obturadores ensandecidamente. Perdida no meio dos flashes, a mulher de Wang começou a chorar.
— Wang Miao, sei que você tem estado sob muita pressão ultimamente, mas, por favor, espero que não tenha…
Wang terminou o filme da Leica e pegou a câmera digital do filho. Ficou pensando por um instante e então, para evitar a esposa, entrou no quarto e tirou mais algumas fotos com a câmera digital. Batia as fotos olhando pelo visor óptico em vez de pela tela LCD, porque tinha medo de conferir o resultado, embora logo fosse ter que encarar a situação.
Wang tirou o filme da Leica e voltou para a sala escura. Fechou a porta e trabalhou. Depois de revelar o filme, examinou as imagens com cuidado. Como tremia, precisou segurar a lupa com as duas mãos. Nos negativos, a contagem continuava.
Wang saiu da sala escura e começou a olhar as imagens digitais da Kodak. Na tela LCD, viu que as fotos tiradas pelo filho não tinham números, mas as suas mostravam com clareza a contagem, em sincronia com os números no filme.
Ao usar câmeras diferentes, Wang pretendia eliminar duas possíveis explicações: problemas com a Leica ou com o filme. Porém, ao permitir que o filho e a esposa tirassem algumas fotos, descobriu um resultado ainda mais estranho: a contagem só aparecia nas fotos que ele tirava!
Desesperado, Wang pegou o amontoado de filmes, que parecia um ninho embolado de cobras, um monte de cordas presas em um nó impossível.
Sabia que não teria como resolver esse mistério sozinho. Quem poderia ajudá-lo? Seus antigos
colegas da faculdade e os companheiros do Centro de Pesquisa não serviriam. Como ele, todos tinham mentalidade técnica. Por intuição, Wang sabia que esse problema ia além do lado técnico. Pensou em Ding Yi, mas o homem estava enfrentando sua própria crise espiritual. Por fim, se lembrou da Fronteiras da Ciência: seus integrantes eram grandes pensadores e continuavam de mente aberta. Então Wang ligou para o número de Shen Yufei.
— Dra. Shen, estou com um problema. Preciso encontrá-la.
— Venha — disse Shen, desligando em seguida.
Wang ficou surpreso. Shen era uma mulher de poucas palavras. Algumas pessoas na Fronteiras da Ciência brincavam que ela era a versão feminina de Hemingway. Mas o fato de Shen nem sequer ter perguntado qual era o problema deixou Wang sem saber se devia ficar tranquilo ou ainda mais ansioso.
Ele enfiou a confusão de filmes em uma bolsa e, com a câmera digital na mão, saiu às pressas do apartamento, enquanto a esposa o observava com um olhar ansioso. Wang podia ter pegado o carro, mas, mesmo na cidade muito iluminada, queria estar acompanhado. Chamou um táxi.
Shen morava em um condomínio de luxo acessível por um dos trens urbanos mais recentes. Naquela área, a iluminação era muito mais fraca. As casas ficavam dispostas em torno de um pequeno lago artificial abastecido de peixes, e à noite o lugar parecia um vilarejo.
Era nítido que Shen tinha uma condição financeira confortável, mas Wang nunca conseguiu descobrir a origem daquela riqueza. Nem o antigo cargo de pesquisadora nem o emprego atual em uma empresa privada poderiam fornecer uma renda tão grande. Apesar disso, o interior da casa não exibia sinais de luxo. O espaço era usado como ponto de encontro para a Fronteiras da Ciência, e Wang sempre achou que parecia uma biblioteca com uma sala de reuniões.
Na sala de estar, Wang se deparou com Wei Cheng, o marido de Shen. Wei tinha cerca de quarenta anos e o aspecto de um intelectual sóbrio e honesto. Além do nome, Wang sabia pouco sobre ele. Shen não havia falado muito ao apresentar o marido. Aparentemente, ele estava desempregado, já que passava o dia inteiro em casa. Nunca demonstrou interesse nas conversas da Fronteiras da Ciência, mas parecia acostumado à presença de tantos acadêmicos em sua casa.
No entanto, não era desocupado e parecia estar realizando alguma pesquisa em casa, sempre perdido em pensamentos. Toda vez que via algum visitante, cumprimentava de um jeito distraído e voltava para seu quarto no andar de cima. Passava a maior parte do dia ali dentro. Certa vez, Wang viu de relance o interior do quarto por uma porta entreaberta e reparou em algo impressionante: uma potente estação de trabalho da HP. Tinha certeza do que vira porque a estação de trabalho era do mesmo modelo utilizado por ele no Centro de Pesquisa: case cor de grafite, modelo RX8620, de quatro anos. Parecia muito estranho ter uma máquina que custava mais de um milhão de yuans só para uso pessoal. O que será que Wei Cheng fazia com aquilo o dia inteiro?
— Yufei está um pouco ocupada agora. Você pode esperar um instante? — perguntou Wei Cheng, antes de subir a escada. Wang tentou esperar, mas percebeu que não conseguia ficar parado, então foi atrás de Wei Cheng. Wei estava prestes a entrar no quarto com a estação de trabalho quando percebeu Wang atrás de si. Sem parecer irritado, apontou para o cômodo à
frente do seu e disse: — Ela está aí dentro.
Wang bateu à porta, que não estava trancada e se abriu depressa. Shen estava sentada diante de um computador, jogando. Wang ficou surpreso ao ver que ela estava com um traje V.
O traje V era um equipamento muito usado pela comunidade de gamers, composto por um capacete de visor panorâmico e uma jaqueta de resposta sensorial. O traje permitia que o jogador sentisse tudo o que acontecia no jogo: a força de um soco, uma punhalada, o calor de chamas etc. Também era capaz de gerar sensações de calor e frio extremos, e até de simular a exposição a uma nevasca.
Wang se aproximou de Shen pelas costas. Como o jogo só era exibido no visor panorâmico do capacete, a tela do computador não tinha nenhuma imagem colorida. De repente, Wang se lembrou do comentário de Shi Qiang quanto a decorar endereços de sites e e-mails. Ele olhou para o monitor, e a URL do site do jogo chamou sua atenção: www.3corpos.net
Shen tirou o capacete, a jaqueta e colocou os óculos, que pareciam grandes demais no rosto fino. Não esboçando nenhuma expressão, fez um gesto com a cabeça para Wang, sem dizer nada. Wang tirou a confusão de filmes da bolsa e começou a explicar a estranha experiência. Shen prestou muita atenção na história, pegando os filmes e olhando apenas casualmente para as fotos. Embora Wang tenha ficado surpreso, a postura de Shen confirmou que ela não ignorava o que estava acontecendo com ele. Wang quase parou de falar, mas Shen continuou acenando com a cabeça, indicando que ele deveria continuar.
Quando ele terminou, Shen falou pela primeira vez.
— Como anda o projeto de nanomateriais que você está conduzindo? Essa mudança de assunto deixou Wang confuso.
— O projeto de nanomateriais? O que ele tem a ver com isto? — Wang apontou para os filmes revelados.
Shen não respondeu, mas continuou encarando Wang, esperando que ele respondesse à pergunta. Aquele sempre tinha sido o estilo dela, nunca uma palavra desperdiçada.
— Interrompa a pesquisa — disse ela.
— O quê? — Wang não sabia se tinha ouvido direito. — Do que você está falando?
Shen ficou quieta.
— Interromper? É um projeto nacional fundamental!
Shen continuou sem falar nada, apenas o encarando com uma expressão tranquila.
— Você precisa me dar um motivo.
— Só interrompa. Tente.
— O que você sabe? Diga!
— Já falei tudo que podia.
— Não dá simplesmente para interromper a pesquisa. É impossível!
— Interrompa. Tente.
A conversa sobre a contagem regressiva acabou aí. Depois disso, por mais que Wang insistisse, Shen só repetia “Interrompa. Tente”.
— Agora eu entendo — disse Wang. — A Fronteiras da Ciência não é só um grupo de discussão sobre teoria fundamental, como vocês afirmavam. A ligação da organização com a realidade é muito mais complexa do que eu tinha imaginado.
— Não. É o contrário. Sua impressão se deve ao fato de que a Fronteiras da Ciência trata de questões muito mais fundamentais do que você imagina.
Desesperado, Wang se levantou para ir embora sem se despedir. Em silêncio, Shen acompanhou a visita até a porta e esperou que entrasse no táxi.
Na mesma hora, outro carro chegou e brecou de repente diante da porta. Um homem saiu. Com a luz fraca de dentro da casa, Wang reconheceu o sujeito imediatamente.
Era Pan Han, um dos integrantes mais proeminentes da Fronteiras da Ciência. Como biólogo, ele havia conseguido prever defeitos congênitos associados ao consumo prolongado de alimentos geneticamente modificados. Também previra os desastres ecológicos resultantes do cultivo de plantações geneticamente modificadas. Ao contrário dos profetas do apocalipse que prenunciavam catástrofes sem dar qualquer informação específica, as previsões de Pan sempre continham uma profusão de detalhes que mais tarde acabavam se confirmando. O índice de acerto do biólogo era tão alto que havia quem dissesse que ele vinha do futuro.
O outro motivo de sua fama era o fato de que ele tinha criado a primeira comunidade experimental da China. Diferente dos grupos utópicos que clamavam por uma “volta à natureza”, a China Pastoral não ficava na zona rural, e sim no meio de uma das maiores cidades do país. A comunidade não detinha nenhuma propriedade. Tudo o que era necessário para o dia a dia, incluindo alimentos, era obtido com o lixo urbano. Contrariando muitas previsões, a China Pastoral não só sobreviveu, como prosperou. Agora, contava com mais de três mil integrantes permanentes, e inúmeras pessoas haviam ingressado nela por períodos breves a fim de conhecer aquele estilo de vida.
Graças a esses dois sucessos, as opiniões de Pan a respeito de questões sociais tinham cada vez mais peso. Ele acreditava que o progresso tecnológico era uma doença da sociedade. A explosão do desenvolvimento tecnológico era análoga ao crescimento de células cancerígenas, e os resultados seriam os mesmos: o esgotamento de todas as fontes de nutrição, a destruição dos órgãos e, por fim, a morte do organismo. Ele defendia o fim de tecnologias nocivas, como combustíveis fósseis e energia nuclear, em favor da manutenção de tecnologias menos agressivas, como energia solar e energia hidrelétrica de pequena escala. Pan acreditava na descentralização gradual das metrópoles modernas mediante a distribuição mais eficiente das populações em cidades e vilarejos menores. Com base nas tecnologias mais avançadas, construiria uma nova sociedade agrícola.
— Ele está aqui? — perguntou Pan a Shen, apontando para a casa.
Shen não respondeu, mas não saiu do caminho.
— Preciso alertar tanto ele quanto você. Não nos obriguem a agir. — O tom de Pan era frio. Shen gritou para o taxista.
— Você já pode ir.
Quando o táxi saiu, Wang não conseguiu mais ouvir a conversa entre os dois, mas olhou para trás e viu que Shen não deixou Pan entrar na casa.
Quando Wang chegou em casa, já passava de meia-noite. Ao sair do táxi, um Volkswagen
Santana preto parou a seu lado. O vidro da janela abaixou, e uma nuvem de fumaça saiu de dentro. O corpulento Shi Qiang estava no banco do motorista.
— Professor Wang! Acadêmico Wang! Como o senhor tem passado esses últimos dias?
— Por acaso você está me seguindo? Não tem nada melhor para fazer?
— Ora, não me entenda mal. Eu poderia ter passado direto, mas preferi ser educado e dar um olá. O senhor está transformando minha gentileza em um esforço ingrato. — Shi exibiu o sorriso debochado característico. — E aí? Conseguiu descobrir alguma informação útil lá?
— Já falei, não quero tratar nada com você. Por favor, daqui para a frente me deixe em paz.
— Tudo bem. — Shi ligou o carro. — Não vou passar fome abrindo mão da hora extra que eu ganho para isto. Queria não ter perdido o jogo de futebol.
Wang entrou em casa. Sua esposa já estava dormindo. Ele a ouviu se revirar na cama, murmurando algo, ansiosa. Com certeza, o comportamento estranho do marido naquele dia tinha resultado em algum pesadelo. Wang tomou alguns comprimidos para dormir, deitou-se na cama e, depois de bastante tempo, adormeceu.
Seus sonhos foram caóticos, mas havia uma constante: a contagem regressiva fantasmagórica, suspensa no ar. Mesmo antes de dormir, ele já sabia que sonharia com aquilo. Nos sonhos, Wang atacou a contagem. Enlouquecido, ele golpeou a sequência numérica, mas nada que fizesse era capaz de mudar aquilo. Os números continuavam pairando no meio do sonho, avançando sem parar. Enfim, quando a frustração estava ficando quase insuportável, ele acordou.
Ao abrir os olhos, viu o teto, pouco nítido. Do lado de fora, as luzes da cidade lançavam um brilho fraco nas cortinas. Porém, teve companhia ao voltar à realidade: a contagem regressiva. Ela ainda pairava diante de seus olhos. Os números eram finos, mas brilhavam muito, com uma luminosidade branca intensa.
1180:05:00, 1180:04:59, 1180:04:58, 1180:04:57…
Wang olhou à sua volta, explorando as sombras difusas do quarto. Agora tinha certeza de que estava acordado, mas a contagem não desapareceu. Fechou os olhos, e a contagem continuou na escuridão, como um fiapo de mercúrio escorrendo pelas penas de um cisne negro. Wang abriu e esfregou os olhos, e ainda assim a contagem persistiu. Independente de para onde olhasse, os números permaneciam no centro de tudo.
Movido por um terror indescritível, Wang se sentou. A contagem se aferrava a ele. Wang saiu da cama, puxou as cortinas e abriu as janelas. A cidade, adormecida, ainda estava muito iluminada. A contagem pairava no meio desse cenário grandioso, como uma legenda em uma tela de cinema.
Wang sentiu-se sufocado. Tentou abafar um grito. Sua esposa acordou com o susto e, ansiosa, perguntou o que havia de errado. Wang se forçou para ficar calmo e tranquilizá-la, dizendo que não era nada. Voltou a se deitar na cama, fechou os olhos e passou o resto da noite difícil sob o brilho constante da contagem.
De manhã, tentou agir de maneira natural diante da família, mas não conseguiu enganar a esposa. Ela perguntou se os olhos de Wang estavam com algum problema, se ele estava conseguindo enxergar direito.
Depois do café, Wang ligou para o Centro de Pesquisa e pediu para tirar o dia de folga. Foi ao hospital. No caminho, a impiedosa contagem persistia estampada no mundo real, conseguindo ajustar o próprio brilho de modo a aparecer com clareza diante de qualquer fundo. Wang tentou até ofuscar os números por um tempo, olhando direto para o sol nascente. Mas não adiantou nada. Os números infernais ficaram pretos e se destacaram da esfera solar como sombras, o que pareceu ainda mais assustador.
O hospital Tongren estava muito movimentado, porém ele conseguiu uma consulta com um oftalmologista famoso, colega de faculdade de sua mulher. Wang pediu para o médico avaliá-lo, mas não descreveu nenhum sintoma. Após um exame cuidadoso, o oftalmologista disse que os dois olhos estavam normais, sem qualquer sinal de doença.
— Tem alguma coisa persistente incomodando meus olhos. Está sempre atrapalhando meu campo de visão. — Ao dizer isso, viu os números pairando diante do rosto do médico.
1175:11:34, 1175:11:33, 1175:11:32, 1175:11:31…
— Ah, você está falando de moscas volantes. — O oftalmologista pegou um receituário e começou a escrever. — Isso é comum na nossa idade, consequência de um obscurecimento do cristalino. Não é fácil de curar, mas também não é nada muito sério. Vou receitar um pouco de iodo em gotas e vitamina D… Pode ser que elas sumam, mas é bom não criar muita expectativa. Não se preocupe mesmo, isso não vai afetar sua visão. Só precisa se acostumar a ignorar.
— Moscas volantes… Pode me dizer qual é o aspecto delas?
— Não existe nenhuma forma definida. Varia de acordo com a pessoa. Para algumas, são pontinhos pretos minúsculos; para outras, parecem girinos.
— E se uma pessoa vê uma série de números?
— Você está vendo números?
— É, bem no meio do campo de visão.
O médico afastou o papel e a caneta e olhou para Wang com uma expressão de piedade.
— Assim que você entrou, percebi que tem trabalhado demais. No último reencontro da turma, Li Yao me disse que você estava sofrendo muita pressão no laboratório. Na nossa idade, precisamos tomar cuidado. Nossa saúde já não é mais a mesma.
— Quer dizer que isso tem um fundo psicológico?
— Se fosse outra pessoa, eu sugeriria uma consulta com um psiquiatra. Mas não é nada sério, só exaustão. Que tal você descansar por alguns dias? Tire umas férias. Vá ficar com Yao e seu filho… como é o nome dele? Dou Dou, certo? Não se preocupe. Isso vai sumir logo.
1175:10:02, 1175:10:01, 1175:10:00, 1175:09:59…
— Vou falar o que estou vendo. É uma contagem regressiva! Um segundo de cada vez, com precisão cirúrgica. Você está dizendo que isso está tudo na minha cabeça?
O médico abriu um sorriso tolerante.
— Sabe quanto a nossa visão pode ser afetada pela mente? Mês passado, recebemos uma paciente… uma menina, devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Ela estava no meio de uma aula quando, de repente, parou de enxergar, ficou completamente cega. Acontece que todos os testes
mostraram que não havia nenhum problema fisiológico nos olhos. Por fim, ela se tratou com um profissional do Setor de Psiquiatria durante um mês. Do nada, a visão voltou.
Wang sabia que estava perdendo tempo ali. Levantou-se.
— Tudo bem, vamos parar de falar dos meus olhos. Só quero fazer mais uma pergunta: você conhece algum fenômeno físico que possa agir à distância e levar uma pessoa a ter visões?
O médico pensou por um instante.
— Sim, conheço. Algum tempo atrás, participei da equipe médica que atendeu os tripulantes do veículo espacial Shenzhou 19. Alguns astronautas que realizaram atividades fora da nave disseram ter visto clarões que não existiam. Os astronautas na Estação Espacial Internacional descreveram experiências parecidas. Isso acontecia porque, durante períodos de atividade solar intensa, partículas de alta energia atingiam a retina e provocavam a visão dos clarões. Só que você está falando de números… até de uma contagem regressiva. Nenhuma atividade solar causaria isso.
Wang saiu do hospital meio atordoado. A contagem continuava pairando diante de seus olhos, e ele tinha a sensação de estar seguindo os números, seguindo um fantasma que se recusava a abandoná-lo. Comprou óculos escuros e colocou no rosto para que as pessoas não vissem seus olhos oscilando como se ele fosse um sonâmbulo.
Antes de entrar no laboratório principal do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia, Wang tirou os óculos. Ainda assim, seus colegas repararam que sua aparência traía um estado mental perturbado e o observaram com preocupação.
Wang viu que a câmara de reação principal no meio do laboratório continuava em funcionamento. O compartimento principal do aparato gigantesco era uma esfera ligada a muitos canos.
Eles haviam produzido quantidades reduzidas de um nanomaterial novo e ultraforte, que fora chamado de “lâmina voadora”. Porém, até o momento, todas as amostras eram feitas com técnicas de construção molecular — isto é, usando uma sonda molecular em escala nano para empilhar as moléculas uma a uma, como se fossem tijolos em um muro. Esse método demandava muitos recursos, e os resultados poderiam ser considerados as joias mais preciosas do mundo. Para a produção de quantidades grandes, essa forma não era muito prática.
No momento, o laboratório estava tentando desenvolver uma reação catalítica como substituto para a construção molecular, de modo que fosse possível empilhar uma grande quantidade de moléculas na ordem certa. A câmara de reação principal podia executar uma grande variedade de reações em pouco tempo, usando combinações moleculares diferentes. Havia tantas combinações possíveis que, com os métodos tradicionais de teste manual, o mesmo resultado teria demorado mais de cem anos. Além disso, o aparato extrapolava as reações que aconteciam com simulações matemáticas. Quando a reação alcançava determinado ponto, o computador gerava um modelo matemático com base em produtos intermediários e terminava o restante da reação com simulações, o que aumentava muito a eficiência do experimento.
Tão logo viu Wang, o diretor do laboratório correu até ele e começou a relatar uma série de defeitos ocorridos na câmara de reação principal — um ritual, instaurado recentemente, sempre que Wang chegava ao trabalho. Àquela altura, já fazia mais de um ano que a câmara de reação
principal estava em funcionamento constante, o que resultava em erros de medição que exigiam o desligamento do aparato para manutenção. No entanto, na condição de pesquisador-chefe do projeto, Wang insistia que a máquina só fosse desligada depois da conclusão do terceiro conjunto de combinações moleculares. Os técnicos eram obrigados a compensar com uma quantidade cada vez maior de gambiarras na câmara de reação. E essas gambiarras exigiam suas próprias gambiarras, uma situação que exauria a equipe de trabalho.
Mas o diretor do laboratório tomou o cuidado de não tocar no assunto do desligamento e da interrupção da máquina, pois sabia que esse tipo de tema tendia a enfurecer Wang Miao. Ele se limitou a listar as dificuldades, embora a intenção implícita fosse clara.
Havia engenheiros agitados em volta da câmara de reação principal, como médicos com um paciente em estado crítico, tentando fazê-lo resistir um pouco mais. Na frente disso tudo, a contagem regressiva apareceu.
1174:21:11, 1174:21:10, 1174:21:09, 1174:21:08… Interrompa. Tente. Wang pensou nas palavras de Shen.
— Quanto tempo levaria para desmontar completamente os sensores? — perguntou Wang.
— Quatro ou cinco dias. — Agora que o diretor do laboratório via uma fagulha de esperança, acrescentou às pressas: — Se a gente acelerar, vai levar só três dias. Posso garantir, chefe Wang!
Não estarei cedendo, pensou Wang. O equipamento precisa mesmo de manutenção, então é preciso interromper temporariamente o experimento. Não tem nenhum outro motivo. Wang se virou para o diretor do laboratório e olhou para ele através da contagem flutuante.
— Interrompa o experimento e realize a manutenção. Cumpra o cronograma prometido.
— Sem problema, chefe Wang. Vou passar um cronograma atualizado imediatamente. Podemos interromper a reação hoje à tarde!
— Podem interrompê-la agora mesmo.
O diretor o encarou, incrédulo, mas logo se empolgou de novo, como se tivesse medo de perder a oportunidade. Pegou o telefone e anunciou a ordem de interromper a reação. Pesquisadores e técnicos, todos exaustos, também se empolgaram. Sem perder um segundo, começaram o processo de desligamento da câmara de reação principal, acessando centenas de comutadores complexos. As diversas telas de controle foram se apagando, uma a uma, até a tela principal demonstrar que câmara de reação estava com seu status interrompido.
Quase ao mesmo tempo, a contagem regressiva nos olhos de Wang também parou. A última sequência era 1174:10:07. Alguns segundos depois, os números piscaram e sumiram.
Quando o mundo voltou ao normal, livre dos números fantasmagóricos, Wang soltou um suspiro demorado, como se acabasse de subir à superfície depois de ficar muito tempo embaixo d’água. Esgotado, sentou-se e percebeu que as outras pessoas ainda estavam olhando para ele.
Wang se virou para o diretor do laboratório.
— A manutenção dos sistemas é responsabilidade da Divisão de Equipamentos. Que tal vocês todos do grupo de pesquisa tirarem alguns dias de folga? Sei que todo mundo tem trabalhado muito.
— Chefe Wang, o senhor também está cansado. O engenheiro-chefe Zhang pode tomar conta de tudo por aqui. Por que o senhor não volta para casa e descansa também?
— Sim, estou cansado — respondeu Wang.
Depois que o diretor do laboratório foi embora, Wang pegou o celular e ligou para Shen Yufei. Ela atendeu depois de um toque.
— Quem ou o que está por trás disso? — perguntou Wang, tentando sem sucesso falar com um tom de voz calmo.
Silêncio.
— O que vai acontecer quando a contagem terminar?
— Você está me ouvindo?
— Estou.
— Por que nanomateriais? Isso não é um acelerador de partículas. Só pesquisa aplicada. Por acaso é digno de atenção?
— Não cabe a nós decidir se algo é ou não é digno de atenção.
— Já chega! — gritou Wang no telefone. De repente, o terror e o desespero dos últimos dias se transformaram em uma fúria incontrolável. — Você acha mesmo que serei enganado com esses truques fajutos? Acha que podem impedir o progresso da tecnologia? Confesso que, por enquanto, não consigo explicar como vocês estão fazendo isso. Mas é só porque não pude ver através da cortina do seu ilusionista barato.
— Quer dizer que você gostaria de ver a contagem regressiva em uma escala ainda maior?
A pergunta de Shen deixou Wang atordoado por um instante. Ele fez o possível para se acalmar, para não cair em uma armadilha.
— Pode guardar seus truques. E daí se você me mostrar em uma escala maior? Vai continuar sendo apenas uma ilusão. Vocês podem projetar um holograma no céu, como a Otan fez na última guerra. Com um laser potente o bastante, poderiam até projetar uma imagem na superfície da Lua! O franco-atirador e o criador de aves seriam capazes de manipular os elementos em uma escala inacessível aos seres humanos. Por exemplo, vocês podem fazer a contagem regressiva aparecer na superfície solar?
Wang ficou de boca aberta. Estava chocado com as próprias palavras. Sem se dar conta, citara as duas hipóteses que devia ter evitado. Sentia-se prestes a cair na mesma armadilha mental que capturara as outras vítimas.
— Não posso prever todos os seus truques — continuou ele, tentando tomar a iniciativa. — Talvez seu ilusionista fajuto consiga dar um jeito de fazer com que essa farsa parecesse real até no sol. Uma demonstração convincente de verdade precisa ser feita em uma escala ainda maior.
— A questão é se você aguenta — disse Shen. — Somos amigos. Quero ajudá-lo a evitar a sina de Yang Dong.
A referência ao nome de Yang provocou arrepios em Wang. Porém, sentindo outra onda de raiva, agiu impulsivamente.
— Você vai aceitar meu desafio?
— Claro.
— O que vocês vão fazer?
— Você tem um computador ligado à internet? Certo, acesse o seguinte site:
www.qsl.net/bg3tt/zl/mesdm.htm. Abriu? Agora imprima a página e fique com ela.
Wang viu que o site era apenas uma tabela de código Morse.
— Não entendi. Isto…
— Nos próximos dois dias, por favor, vá para algum lugar onde seja possível ver a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Vou enviar os detalhes para seu e-mail.
— O que… o que você vai fazer?
— Eu sei que seu projeto em nanomateriais foi interrompido. Você pretende retomá-lo?
— Claro. Daqui a três dias.
— Então a contagem regressiva vai continuar.
— Vou ver em que escala?
Seguiu-se um longo silêncio. Aquela mulher, que estava agindo como porta-voz de alguma força além de qualquer compreensão humana, cortou todas as saídas de Wang.
— Daqui a três dias, no dia 14, entre uma e cinco da manhã, o universo inteiro vai piscar para você.
7. TRÊS CORPOS: O REI WEN DE ZHOU E A LONGA NOITE
Wang ligou para Ding Yi. Só quando Ding atendeu o telefone foi que Wang se deu conta de que já era uma da manhã.
— Aqui é Wang Miao. Sinto muito por ligar tão tarde.
— Não tem problema. Não consigo dormir mesmo.
— Eu… vi algo e gostaria de sua ajuda. Você conhece alguma instituição na China que esteja observando a radiação cósmica de fundo em micro-ondas?
Embora Wang sentisse vontade de conversar com alguém sobre o que estava acontecendo, achou que seria melhor não deixar muita gente saber da contagem que só ele enxergava.
— Radiação cósmica de fundo em micro-ondas? Por que você se interessou por isso? Acho que você deve ter encontrado mesmo algum problema… Já foi ver a mãe de Yang Dong?
— Ah… sinto muito. Esqueci.
— Sem problema. Hoje em dia, muitos cientistas já viram… algo, como você. Todo mundo está distraído. Mas ainda acho que é melhor você fazer uma visita à mãe de Yang, que está bastante idosa e se recusa a contratar uma cuidadora. Se ela tiver alguma coisa que não consiga fazer sozinha na casa, por favor, dê uma ajuda… Ah, sim, a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Pode perguntar isso para a mãe de Yang. Antes de se aposentar, ela era astrofísica. Conhece bem essas instituições da China.
— Ótimo! Vou visitá-la hoje, depois do trabalho.
— Então já agradeço agora. Realmente não consigo mais olhar para nada que me lembre Yang Dong.
Depois de desligar o telefone, Wang se sentou na frente do computador e imprimiu uma tabela simples de código Morse. Já estava calmo o bastante para não pensar mais na contagem regressiva. Ficou refletindo sobre a Fronteiras da Ciência, Shen Yufei e o jogo de computador que ela estava rodando. A única certeza que tinha em relação a Shen era que ela não era o tipo de pessoa que gostava de jogos de computador. Shen era monossilábica e sempre dava a impressão de ser extremamente fria. Não era a frieza que algumas pessoas adotam como uma máscara — a frieza de Shen a preenchia por completo.
De modo inconsciente, Wang pensou nela como o sistema operacional extremamente obsoleto DOS: uma tela preta vazia, uma orientação de comando “C:\>” simples, um cursor piscante. O que
fosse digitado, o comando repetia. Nenhuma letra a mais, nenhuma mudança. Só que Wang descobrira que por trás do “C:\>” havia um abismo infinito.
Ela está mesmo interessada em um jogo? Um jogo que exige um traje V? Ela não tem filhos, então comprou o traje para uso próprio. Esse pensamento é absurdo.
Wang digitou o endereço da página no navegador. Tinha sido fácil decorar: www.3corpos.net. O site indicava que o jogo só oferecia acesso via traje V. Wang lembrou que a sala de descanso dos funcionários no Centro de Pesquisa em Nanotecnologia tinha um traje V. Ele saiu do laboratório principal, que já estava vazio, e foi até a sala da segurança para pegar a chave. Na sala de descanso, passou por mesas de sinuca e aparelhos de ginástica e viu o traje V do lado de um computador. Penou para vestir a jaqueta de resposta sensorial, colocou o capacete com visor panorâmico e ligou o computador.
Após entrar no jogo, Wang se viu no meio de uma planície desolada ao amanhecer. A planície era parda, indistinta, e era difícil perceber qualquer detalhe. Ao longe, um fiapo de luz branca no horizonte. O resto do céu estava coberto por estrelas cintilantes.
Aconteceu uma explosão barulhenta, e duas montanhas incandescentes caíram na terra distante. Uma luminosidade vermelha banhou a planície inteira. Quando a poeira enfim baixou, Wang avistou duas palavras gigantescas erguidas entre a terra e o céu: TRÊS CORPOS.
Em seguida, uma tela de cadastro. Wang criou o login “Hairen” e entrou.1
A planície continuava desolada, mas agora os compressores do traje V zumbiram e começaram a funcionar, e Wang sentiu rajadas de ar frio no corpo. Diante dele, apareceram duas figuras caminhando, duas silhuetas escuras contra a luz da alvorada. Wang correu até elas.
Constatou que as duas figuras eram masculinas. Os dois usavam longos mantos esburacados e se cobriam com peles de animais sujas. Cada um portava uma espada curta e larga de bronze. Um deles, que carregava um baú de madeira com metade de sua altura, se virou para encarar Wang. O rosto do homem estava tão sujo e enrugado quanto a pele de animal que o protegia, mas seus olhos eram aguçados e vivos, e as pupilas cintilavam com o brilho da manhã.
— Está frio — disse ele.
— Sim, muito frio.
— Este é o Período dos Reinos Combatentes — disse o homem, com o baú nas costas. — Eu sou o rei Wen de Zhou.
— Se não me engano, o rei Wen não pertence ao Período dos Reinos Combatentes — disse Wang.2
— Ele sobreviveu até agora — respondeu o outro homem. — O rei Zhou de Shang3 também está vivo. Eu sou um seguidor do rei Wen. Na verdade, o meu login é este: “Seguidor do rei Wen de Zhou”. Ele é um gênio, sabia?
— Meu login é “Hairen”. O que você está levando nas costas?
O rei Wen colocou o baú retangular no chão e o deixou em pé. Abriu uma das laterais como se fosse uma porta e revelou cinco compartimentos internos. Com a luz fraca, Wang viu que todas as camadas tinham um montinho de areia. Cada compartimento parecia receber areia do compartimento de cima, por um buraco pequeno.
— Uma espécie de ampulheta. A cada oito horas, toda a areia vai para a base. Ao virarmos três vezes, contamos um dia. Só que muitas vezes eu me esqueço de virar, então preciso do Seguidor para me lembrar.
— Vocês parecem estar percorrendo uma jornada muito longa. É preciso levar um relógio tão grande?
— De que outra forma mediríamos o tempo?
— Um relógio solar portátil seria muito mais conveniente. Ou então bastaria olhar para o sol e estimar o horário.
O rei Wen e o Seguidor trocaram um olhar e, em seguida, se viraram ao mesmo tempo para Wang, olhando-o como se fosse um idiota.
— O sol? Como é que o sol pode nos dizer a hora? Estamos no meio de uma Era Caótica. Wang estava prestes a perguntar o que significava aquele estranho termo quando o Seguidor
soltou um grito de lamento.
— Está muito frio! Vou morrer de frio!
Wang também sentia muito frio. Porém, como na maioria dos jogos bastava tirar o traje V para que o sistema deletasse o login imediatamente, ele não podia tirá-lo.
— Quando o sol nascer, vai esquentar — disse.
— Você está fingindo ser algum oráculo? Nem mesmo o rei Wen consegue prever o futuro. — O Seguidor balançou a cabeça, cheio de desdém.
— O que é que isso tem a ver com prever o futuro? É claro que o sol vai nascer daqui a uma ou duas horas. — Wang apontou para o fiapo de luz em cima do horizonte.
— Esta é uma Era Caótica!
— O que é uma Era Caótica?
— Sem contar as Eras Estáveis, todas as outras épocas são Eras Caóticas — respondeu o rei Wen, como se tivesse falado com uma criança ignorante.
Como para pontuar suas palavras, a luz no horizonte diminuiu e desapareceu logo depois. A noite cobriu tudo. As estrelas no céu ficaram ainda mais brilhantes.
— Então aquilo foi o crepúsculo, e não a alvorada? — perguntou Wang.
— Agora é manhã. Mas nem sempre o sol nasce de manhã. Assim são as Eras Caóticas. Wang estava achando difícil suportar o frio.
— Parece que o sol vai demorar muito para sair — disse, estremecendo e apontando para o horizonte indistinto.
— Por que você acha isso? É impossível ter certeza. Já falei, esta é uma Era Caótica. — O Seguidor se virou para o rei Wen. — Posso comer um pouco de peixe desidratado?
— De jeito nenhum. — O tom da voz do rei Wen não admitia discussão. — O que eu tenho mal dá para mim. Precisamos garantir que eu chegue a Zhao Ge, não você.4
Enquanto eles falavam, Wang percebeu que o céu começou a clarear em outra parte do horizonte. Não sabia ao certo as direções da bússola, mas tinha certeza de que, dessa vez, a direção era diferente da anterior. O céu ficou mais claro, e logo o sol daquele mundo nasceu. Era pequeno e azulado, como uma lua muito luminosa. Ainda assim, Wang sentiu um pouco de calor e pôde ver melhor a paisagem ao redor. Mas o dia não durou. O sol percorreu um arco pequeno por cima do horizonte e logo se pôs. A noite e o frio congelante voltaram a dominar tudo.
Os três viajantes pararam diante de uma árvore morta. O rei Wen e o Seguidor pegaram as espadas de bronze para cortar lenha, e Wang fez uma pilha com as toras. O Seguidor apanhou uma pedra e bateu com ela na lâmina da espada, até produzir faíscas. O calor da fogueira logo aqueceu a parte da frente do traje V de Wang, mas as costas continuavam frias.
— Devíamos queimar alguns dos corpos desidratados — disse o Seguidor. — Aí poderíamos fazer uma fogueira forte!
— Tire essa ideia da cabeça. Só o tirano rei Zhou faria algo assim.
— Vimos muitos corpos desidratados espalhados pela estrada. Como estavam rasgados, não poderão ser revividos quando forem reidratados. Se sua teoria funcionar de fato, que importa se queimarmos um ou outro? Podemos até comer alguns. O que são algumas vidas comparadas à importância de sua teoria?
— Pare com esse absurdo! Somos intelectuais!
Depois que a fogueira se extinguiu, os três continuaram a viagem. Como não conversaram muito, o sistema do jogo acelerou a passagem do tempo. O rei Wen girou depressa a ampulheta nas costas seis vezes, indicando o transcorrer de dois dias. O sol não nasceu nenhuma vez, nem sequer um vislumbre de luz no horizonte.
— Parece que o sol não vai nascer nunca mais — comentou Wang. Ele abriu o menu do jogo para dar uma olhada na barra de vida que, por causa do frio extremo, estava diminuindo constantemente.
— Você está fingindo de novo que é um oráculo — disse o Seguidor. Porém, dessa vez, ele e Wang terminaram a frase juntos. — Esta é uma Era Caótica!
No entanto, pouco depois, a aurora despontou no horizonte. O céu se iluminou rapidamente, e o sol subiu. Wang percebeu que, dessa vez, o sol era gigantesco. Quando apenas metade dele tinha nascido, ocupava pelo menos um quinto do horizonte visível. Os três viajantes foram cobertos por ondas de calor, e Wang sentiu-se revigorado. Mas, quando olhou para o rei Wen e o Seguidor, viu que a expressão dos dois era de terror, como se estivessem diante de um demônio.
— Rápido! Encontrem uma sombra! — gritou o Seguidor. Wang correu junto com eles. Os três se abaixaram atrás de uma pedra grande. A sombra da pedra foi diminuindo aos poucos. A terra ao redor ardia tanto que parecia estar em chamas. O gelo perpétuo abaixo deles derreteu depressa, e a superfície rígida do chão se transformou em um mar de lama, agitado por ondas de calor. Wang suava em profusão.
Quando o sol estava a pino, os três cobriram a cabeça com as peles de animal, mas a luz intensa ainda atravessava como flechas os buracos e as frestas. Eles contornaram a pedra até conseguirem abrigo em uma nova sombra, que tinha acabado de se formar do outro lado.
Após o pôr do sol, o ar continuou quente e abafado. Ensopados de suor, os viajantes se sentaram em cima da pedra.
— Viajar durante uma Era Caótica é como caminhar no inferno — disse o Seguidor, desanimado. — Não aguento mais. E ainda por cima não comi nada porque você não quis me dar nenhum peixe desidratado e não quer me deixar comer os corpos desidratados. O que…
— A única opção é desidratar você — disse o rei Wen, abanando-se com um pedaço de pele.
— Você não vai me abandonar depois, vai?
— Claro que não. Prometo levá-lo a Zhao Ge.
O Seguidor tirou o manto encharcado e, nu, se deitou no chão lamacento. Com os últimos raios de luz do sol já abaixo do horizonte, Wang viu água escorrendo do corpo do Seguidor. Ele sabia que não era mais suor. Toda a água do corpo dele estava sendo eliminada e espremida. O líquido formou alguns córregos pequenos na lama. O corpo amoleceu e se deformou, como uma vela derretida.
Dez minutos depois, toda a água fora expelida. No chão, o Seguidor tinha se transformado em um pedaço de couro com formato de homem. Os traços do rosto haviam se apagado e estavam indistintos.
— Ele morreu? — perguntou Wang, que se lembrava de ter visto pedaços de couro com formato de homens espalhados pela estrada. Alguns estavam rasgados e incompletos. Imaginou que fossem os corpos desidratados que o Seguidor havia mencionado.
— Não — respondeu o rei Wen. Depois de limpar a lama e a poeira, ele estendeu a pele do Seguidor em cima da pedra, enrolando-a como um balão sem ar. — Ele vai se recuperar daqui a pouco, quando o pusermos na água. É que nem quando colocamos cogumelos desidratados na água.
— Até os ossos ficaram moles?
— Sim. O esqueleto dele foi transformado em fibras desidratadas. Assim fica fácil de carregar.
— Neste mundo, qualquer um pode se desidratar e ser reidratado?
— Claro. Você também. Caso contrário, seria impossível sobreviver às Eras Caóticas. — O rei Wen entregou a pele enrolada para Wang. — Leve o Seguidor. Se abandoná-lo na estrada, ele vai ser queimado ou comido.
Wang recebeu a pele, um rolo apertado. Segurou aquilo debaixo do braço, e a sensação não foi assim tão estranha.
Com o Seguidor desidratado a cargo de Wang e a ampulheta nas costas do rei Wen, os dois retomaram a árdua viagem. Como nos dias anteriores, o progresso do sol não possuía nenhum padrão naquele mundo. Após uma noite longa e gélida que durava um período equivalente a vários dias, podia acontecer um dia curto e escaldante, e vice-versa. Os dois dependiam um do outro para sobreviver, acendendo fogueiras para resistir ao frio e mergulhando em lagos para fugir do calor.
Pelo menos o jogo acelerava o tempo. Um mês podia passar em meia hora de partida. Com isso, a viagem pela Era Caótica ao menos era tolerável para Wang.
Certo dia, após uma longa noite que durou quase uma semana (conforme a medição da ampulheta), o rei Wen deu um grito súbito de alegria ao apontar para o céu noturno.
— Estrelas voadoras! Duas estrelas voadoras!
Na verdade, Wang já havia percebido aqueles estranhos corpos celestes. Eram maiores que as estrelas e pareciam discos mais ou menos do tamanho de bolas de pingue-pongue. Deslocavam-se pelo céu a uma velocidade alta o bastante para que fosse possível identificar o movimento a olho nu. Mas era a primeira vez que uma dupla aparecia ao mesmo tempo.
— Sempre que aparecem duas estrelas voadoras — explicou o rei Wen —, significa que está prestes a começar uma Era Estável.
— Já vimos estrelas voadoras antes.
— Sim, mas só uma de cada vez.
— O máximo que dá para ver são duas?
— Não. Às vezes, aparecem três, mas não mais que isso.
— Se aparecerem três estrelas voadoras, é sinal de uma era ainda melhor? O rei Wen encarou Wang com uma expressão assustada.
— O que você está falando? Três estrelas voadoras… reze para que isso nunca aconteça.
O rei Wen tinha razão. A desejada Era Estável logo teve início. A aurora e o pôr do sol começaram a seguir um padrão. O ciclo de dias e noites passou a se estabilizar em um período de dezoito horas. A alternância sistemática do dia e da noite fez com que o clima ficasse agradável e ameno.
— Quanto tempo dura uma Era Estável? — perguntou Wang.
— Pode ser breve como um dia ou longa como um século. Ninguém consegue prever a duração. — O rei Wen se sentou na ampulheta e levantou a cabeça para olhar o sol do meio-dia.
— Segundo documentos históricos, a dinastia Zhou Ocidental viveu uma Era Estável que durou dois séculos. Que sorte nascer em uma época assim!
— Então quanto tempo dura uma Era Caótica?
— Já falei. Tirando as Eras Estáveis, as demais são Eras Caóticas. Cada uma ocupa o tempo não utilizado pelas outras.
— Quer dizer que este é um mundo onde não existem padrões?
— Exatamente. A civilização só pode se desenvolver no clima ameno das Eras Estáveis. Na maior parte do tempo, a humanidade precisa se desidratar e permanecer armazenada. Quando chega uma Era Estável duradoura, todos são revividos através da reidratação. E então as pessoas começam a construir e produzir.
— Como é possível prever a chegada e a duração de cada Era Estável?
— Como já disse, ninguém conseguiu fazer isso. Quando chega uma Era Estável, o rei decide com base na intuição se deve começar a reidratação em massa. Muitas vezes as pessoas são revividas, as plantações são semeadas, as cidades são construídas, a vida está prestes a ser retomada… e aí a Era Estável acaba. Frio e calor extremos logo destroem tudo. — O rei Wen estava apontando para Wang, com um brilho nos olhos. — Agora você sabe o objetivo deste jogo: usar o intelecto e o conhecimento para analisar todos os fenômenos até descobrir o padrão dos movimentos do sol. A sobrevivência da civilização depende disso.
— Com base em minhas observações, não existe padrão nenhum para os movimentos do sol.
— Isso se deve ao fato de que você não compreende a natureza fundamental do mundo.
— E você compreende?
— Sim. Por isso mesmo estou indo a Zhao Ge. Vou apresentar ao rei Zhou um calendário detalhado.
— Mas não vi sinal algum nesta viagem de que seja possível criar algo parecido.
— Prever o deslocamento do sol é possível apenas em Zhao Ge, pois é lá que yin e yang se encontram. Somente lá a sorte tirada é correta.
Os dois prosseguiram em meio às condições severas de mais uma Era Caótica, interrompida brevemente por uma curta Era Estável, até enfim chegarem a Zhao Ge.
Wang ouviu um rugido incessante que parecia um trovão. O som era gerado pelos vários pêndulos gigantes espalhados ao longo de Zhao Ge, todos com dezenas de metros de altura. Cada pêndulo era composto por uma rocha gigante suspensa por uma corda grossa, presa a uma ponte que ligava o topo de duas torres finas de pedra.
Todos os pêndulos estavam balançando, e o movimento era mantido por soldados em armaduras. Entoando cantos incompreensíveis, esses soldados puxavam de maneira ritmada cordas ligadas às rochas gigantes, aumentando o arco dos pêndulos quando eles perdiam velocidade. Wang percebeu que todos os pêndulos oscilavam em sincronia. De longe, a cena era magnífica: era como se vários relógios gigantescos tivessem sido erguidos na Terra, ou como se símbolos abstratos colossais tivessem caído do céu.
Os pêndulos gigantes cercavam uma pirâmide ainda mais imensa, uma montanha alta em meio às trevas da noite. Era o palácio do rei Zhou. Wang acompanhou o rei Wen por uma porta baixa na base da pirâmide, diante da qual alguns soldados patrulhavam na escuridão, silenciosos como fantasmas. A porta se abria para um túnel escuro, longo e estreito, que avançava pirâmide adentro, iluminado por algumas tochas.
O rei Wen conversava com Wang enquanto caminhavam.
— Durante uma Era Caótica, o país inteiro é desidratado. Mas o rei Zhou permanece desperto, um companheiro para a terra inerte. Para sobreviver a uma Era Caótica, é preciso morar em edifícios de paredes grossas como este e levar uma vida como no subterrâneo. Só assim é possível evitar o calor e o frio extremos.
Depois de percorrerem o túnel por muito tempo, os dois enfim chegaram ao Grande Salão no centro da pirâmide. Na verdade, o salão nem era tão grande assim, e Wang achou que lembrava uma caverna. Sem dúvida, o homem sentado em um estrado e coberto por uma pele multicolorida era o rei Zhou. Porém, o que chamou a atenção de Wang foi um homem vestido todo de preto. O manto preto se misturava com as sombras densas do Grande Salão, e o rosto pálido parecia estar flutuando.
— Este é Fu Xi5 — disse o rei Zhou, apresentando o homem de preto a Wang e ao rei Wen. Ele falou como se Wang e o rei Wen já estivessem ali e o homem de preto fosse o recém-chegado. — Ele acredita que o sol seja um deus temperamental. Quando o deus está acordado, seu humor é imprevisível, o que resulta em uma Era Caótica. Mas, quando dorme, sua respiração normaliza, o que resulta em uma Era Estável. Fu Xi sugeriu que eu construísse e deixasse aqueles pêndulos que vocês viram lá fora em movimento constante. Afirma que os pêndulos podem exercer um efeito hipnótico no deus sol e fazê-lo mergulhar em um sono prolongado. Como podemos ver, até agora o deus sol continua acordado, embora de vez em quando pareça tirar um cochilo rápido.
O rei Zhou fez um gesto com as mãos, e alguns criados trouxeram uma panela de barro e a depositaram na pequena mesa de pedra diante de Fu Xi. Mais tarde, Wang descobriu que era uma panela de sopa condimentada. Fu Xi suspirou, ergueu a panela e bebeu em goles enormes: o barulho de sua garganta ecoou na escuridão como os batimentos de um coração gigante. Após
engolir metade da sopa, virou o restante da panela sobre o próprio corpo. Em seguida, jogou a panela no chão e foi até um imenso caldeirão de bronze, suspenso acima de uma fogueira no canto do Grande Salão. Subiu na beirada do caldeirão e pulou para dentro, fazendo subir uma nuvem de vapor.
— Sente-se, Ji Chang6 — pediu o rei Zhou. — Vamos comer daqui a pouco. — Ele apontou para o caldeirão.
— Feitiçaria insensata — disse o rei Wen, lançando um olhar desdenhoso para o caldeirão.
— O que você descobriu sobre o sol? — perguntou o rei Zhou. A luz das chamas dançava em seus olhos.
— O sol não é um deus. O sol é yang, e a noite é yin. O mundo existe no equilíbrio entre yin e yang. Embora não possamos controlar o processo, podemos prevê-lo. — O rei Wen apanhou a espada de bronze e traçou um símbolo de yin-yang no chão, sob a fraca luz da fogueira. Em seguida, escavou os 64 hexagramas do I Ching em volta do símbolo, e o conjunto todo parecia uma roda de calendário. — Meu rei, este é o código do universo. Com ele, posso oferecer à sua dinastia um calendário preciso.
— Ji Chang, preciso saber quando virá a próxima Era Estável longa.
— Vou prevê-la para o senhor agora mesmo — respondeu o rei Wen. Ele se sentou de pernas cruzadas no meio do símbolo de yin-yang. Ergueu a cabeça para o teto do Grande Salão, e seu olhar parecia atravessar as pedras grossas da pirâmide e alcançar as estrelas. Os dedos das mãos começaram uma série de movimentos rápidos e complexos, como peças de uma máquina de calcular. Em meio ao silêncio, apenas a sopa no caldeirão emitia algum ruído, fervendo e borbulhando como se o xamã que estava sendo cozido ali dentro falasse durante o sono.
O rei Wen se levantou no meio do símbolo de yin-yang. Com a cabeça ainda apontada para o teto, ele disse:
— A próxima será uma Era Caótica de quarenta e um dias. Depois virá uma Era Estável de cinco dias. Em seguida, uma Era Caótica de vinte e três dias, e então uma Era Estável de dezoito dias. Depois teremos uma Era Caótica de oito dias. Mas, quando essa Era Caótica terminar, a Era Estável duradoura tão esperada pelo senhor, meu rei, começará. Essa Era Estável vai durar três anos e nove meses. Terá um clima tão ameno que será uma época dourada.
— Antes precisamos verificar suas previsões iniciais — disse o rei Zhou, impassível.
Wang ouviu um tremor alto vindo de cima. Uma placa de pedra no teto do Grande Salão se abriu, revelando uma passagem quadrada. Wang se ajeitou e viu que a passagem levava a outro túnel, que subia pelo centro da pirâmide. No final desse túnel, avistou algumas estrelas cintilantes.
O tempo do jogo se acelerou. De tantos em tantos segundos do tempo real, dois soldados giravam a ampulheta trazida pelo rei Wen, indicando a passagem de oito horas do tempo do jogo. A abertura no teto exibia luzes aleatórias, e de vez em quando um raio solar de uma Era Caótica irrompia no Grande Salão. Às vezes, a luz era fraca, como o luar. Às vezes, era muito forte, e o quadrado branco incandescente projetado no chão brilhava tanto que fazia as tochas do Grande Salão parecerem fracas.
Wang continuou contando as viradas da ampulheta. Depois de mais ou menos cento e vinte
viradas, o aspecto da luz solar que entrava pelo buraco no teto se regularizou. Tratava-se do começo da primeira das Eras Estáveis previstas.
Passadas mais quinze viradas da ampulheta, a luz cintilante da abertura voltou a ficar aleatória, o começo de mais uma Era Caótica. Seguiu-se outra Era Estável e outra Caótica. Os pontos de início e a duração das diversas eras não batiam exatamente com as previsões do rei Wen, mas chegavam perto. Ao fim de mais uma Era Caótica de oito dias, a Era Estável duradoura prevista por ele começou.
Wang continuou contando as viradas da ampulheta. Passaram-se vinte dias, e a luz que entrava no Grande Salão seguiu um padrão preciso. O tempo do jogo voltou à velocidade normal.
O rei Zhou gesticulou com a cabeça para o rei Wen.
— Construirei um monumento em sua homenagem, maior ainda que este palácio. O rei Wen fez uma reverência profunda.
— Meu rei, desperte sua dinastia e permita que ela prospere!
O rei Zhou se levantou no estrado e abriu os braços, como se quisesse envolver o mundo inteiro. Com uma voz estranha e transcendental, começou a entoar:
— Re-i-dra-tar…
Assim que a ordem foi dada, todo mundo que estava no Grande Salão correu para a porta. Wang seguiu o rei Wen de perto, e os dois saíram da pirâmide pelo túnel comprido por onde haviam entrado. Do lado de fora, Wang viu o sol de meio-dia cobrir a terra de calor. Em uma brisa no ar, sentiu as fragrâncias da primavera. O rei Wen e Wang foram juntos até um lago ali perto. O gelo na superfície da água havia derretido, e a luz do sol dançava em meio às marolas suaves.
Uma coluna de soldados urrava “Reidratar! Reidratar!” ao passar correndo na direção de um grande edifício de pedra, com a forma de um silo, situado perto do lago. Na estrada que levava a Zhao Ge, Wang vira muitos edifícios semelhantes, e o rei Wen contara que eram chamados de desidratórios, depósitos que armazenavam os corpos desidratados. Os soldados abriram as pesadas portas de pedra do desidratório e tiraram rolos de peles empoeiradas. Cada um andou até a margem do lago e jogou os rolos na água. Assim que encostavam na água, as peles começavam a se desenrolar e esticar. Em pouco tempo, o lago estava coberto por uma camada de peles flutuantes de formato humano, e cada uma se expandia ao absorver água. Aos poucos, as silhuetas humanas de pele se transformaram em corpos de carne e osso, que começaram a mostrar sinais de vida. Uma a uma, as pessoas se levantavam com esforço no lago, com a água batendo na cintura. Todas encaravam o mundo ensolarado com olhos escancarados, como se tivessem acabado de acordar de um sonho.
— Reidratar! — gritou um homem.
— Reidratar! Reidratar! — repetiram alegremente outras vozes.
Todos saíram do lago e correram nus até o desidratório. Pegaram mais peles e jogaram na água: ainda mais pessoas revividas saíram do lago. A cena se repetiu em cada lago e em cada lagoa. O mundo inteiro estava voltando à vida.
— Oh, céus! Meu dedo!
No meio do lago, Wang viu um homem que havia acabado de ser revivido. Ele estava
segurando uma das mãos e chorando. A mão estava sem o dedo médio, e o ferimento jorrava sangue na água. Outras pessoas, também recém-revividas, passaram felizes por ele em direção à margem, ignorando-o.
— Você ainda teve sorte — alguém disse ao homem. — Alguns perderam o braço ou toda a perna. Outros tiveram a cabeça inteirinha roída por ratos. Se a reidratação demorasse mais, talvez todo mundo acabasse virando comida dos ratos das Eras Caóticas.
— Ficamos desidratados por quanto tempo? — perguntou um dos revividos.
— Dá para ter uma ideia pela camada de poeira em cima do palácio. Ouvi dizer agora há pouco que o rei não é mais o mesmo. Mas não sei se é o filho ou o neto do rei antigo.
O trabalho de reidratação levou oito dias. Todos os corpos desidratados que estavam armazenados foram revividos, e o mundo ganhou vida nova. Ao longo desses oito dias, o povo desfrutou de ciclos regulares de aurora e pôr do sol, cada ciclo com exatamente vinte horas de duração. Aproveitando o clima de primavera, todos pronunciaram louvores emocionados ao sol e aos deuses que regiam o mundo.
Na noite do oitavo dia, as fogueiras espalhadas pelo mundo pareciam ainda mais numerosas que as estrelas no céu. As ruínas das cidades abandonadas durante as Eras Caóticas voltaram a se encher de sons e luzes. Como em todas as reidratações em massa do passado, as pessoas passariam a noite toda celebrando a vida nova que começaria após o amanhecer.
Mas o amanhecer não veio.
Todo dispositivo de medição de tempo indicava que a hora do nascer do sol já havia passado, mas o horizonte permanecia escuro em todas as direções. Mesmo depois de dez horas, nada de sinal do sol, nem sequer uma insinuação mínima de alvorada. A noite eterna durou um, dois dias inteiros. O frio agora pesava sobre a terra como uma mão gigantesca.
Dentro da pirâmide, o rei Wen se ajoelhou diante do rei Zhou.
— Meu rei — implorou ele —, por favor, não perca a fé em mim. Esta é uma situação temporária. Eu vi o yang do universo se agrupar, e o sol nascerá logo. A Era Estável e a primavera continuarão!
— Vamos começar a esquentar o caldeirão — disse o rei Zhou, suspirando.
— Rei! Rei! — Um ministro chegou correndo aos trancos pela entrada cavernosa do Grande Salão. — Tem… tem três estrelas voadoras no céu!
As pessoas dentro do Grande Salão ficaram atordoadas. O ar pareceu congelar. Só o rei Zhou permaneceu impassível. Ele se virou para Wang, com quem nunca havia trocado uma palavra.
— Você ainda não compreende o que o aparecimento das três estrelas voadoras representa, não é? Ji Chang, que tal você explicar?
— Elas indicam a chegada de um longo período de frio extremo, suficiente para transformar pedra em pó.
O rei Wen suspirou.
— De-si-dra-tar… — entoou mais uma vez o rei Zhou naquela voz estranha e transcendental. Fora da pirâmide, as pessoas já haviam começado o processo, se transformando outra vez em corpos desidratados para sobreviver à longa noite que se aproximava. Os mais sortudos tiveram tempo de ser estocados nos desidratórios, mas muitos sem a mesma estrela foram abandonados
nos campos vazios.
O rei Wen se levantou devagar e foi até o caldeirão em cima da fogueira intensa no canto do Grande Salão. Ele subiu na beirada do caldeirão e parou por uns segundos antes de pular para dentro. Talvez tivesse visto o rosto completamente cozido de Fu Xi rindo no meio da sopa.
— Deixem o fogo baixo — ordenou o rei Zhou, com a voz fraca. Virando-se para os outros, disse: — Vocês podem sair, se quiserem. O jogo não é mais divertido quando chega neste ponto.
Uma placa vermelha com a palavra SAÍDA apareceu em cima da entrada cavernosa do Grande Salão. Os jogadores seguiram em sua direção, logo sendo acompanhados por Wang. Eles percorreram o túnel comprido até enfim chegarem ao lado de fora da pirâmide. Foram recebidos por uma nevasca pesada sob o céu noturno. Wang tremeu com o frio penetrante, e um sinalizador em um canto do céu indicou que o tempo do jogo fora acelerado de novo.
A neve prosseguiu sem trégua durante dez dias. A essa altura, os flocos eram grandes e pesados, como sólidos pedaços de escuridão.
— A neve agora é composta de dióxido de carbono solidificado — sussurrou alguém perto de Wang. — Em outras palavras, gelo seco. — Wang se virou e percebeu que o interlocutor era o Seguidor.
Ao fim de mais dez dias, os flocos ficaram finos e translúcidos. Sob a luz fraca das poucas tochas na entrada do túnel comprido, os flocos de neve emitiam um brilho azulado suave, como se fossem pedaços dançantes de mica.
— Esses flocos agora são compostos de oxigênio e nitrogênio sólido. A atmosfera está desaparecendo por sedimentação, o que significa que a temperatura está perto do zero absoluto.
Aos poucos, a neve soterrou a pirâmide. As camadas inferiores eram formadas por neve de água; já as seguintes eram compostas de gelo seco; por fim, no topo, havia uma camada de neve feita de oxigênio e nitrogênio. O céu noturno ficou extraordinariamente límpido, e as estrelas brilhavam como um campo de fogueiras prateadas. Uma linha de texto apareceu na tela estrelada.
A noite longa durou quarenta e oito anos. A civilização número 137 foi destruída pelo frio extremo. Antes de sucumbir, essa civilização havia avançado até o Período dos Reinos Combatentes.
A semente da civilização permanece. Ela germinará e voltará a desabrochar no mundo imprevisível de Três Corpos.
Convidamos você a entrar novamente.
Antes de sair do jogo, Wang percebeu as três estrelas voadoras no céu. Próximas entre si, elas giravam como em uma estranha dança acima do abismo do espaço.
1. Hairen (UT) significa “Homem do Mar”. É um trocadilho com o nome de Wang Miao (SR), que pode significar “mar”.
2. O Período dos Reinos Combatentes se estendeu de 465 a.C. até 221 a.C. Mas o rei Wen de Zhou governou muito antes, entre 1099 a.C. e 1050 a.C. Ele é considerado o fundador da dinastia Zhou, que derrocou a corrupta dinastia Shang.
3. O rei Zhou de Shang governou entre 1075 a.C. e 1046 a.C. Foi o último rei da dinastia Shang e um notório tirano na história da China.
4. Zhao Ge era a capital da China de Shang, onde ficava a corte do rei Zhou.
5. Fu Xi é o primeiro dos Três Soberanos, uma figura mitológica chinesa. Ele foi um dos progenitores da raça humana, junto com a deusa Nüwa.
6. Ji Chang é o nome de nascimento do rei Wen.
8. YE WENJIE
Wang tirou o traje V e o capacete com visor panorâmico. A camisa estava empapada de suor, como se ele tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Ele saiu do Centro de Pesquisa, entrou no carro e dirigiu até o endereço passado por Ding Yi: a casa da mãe de Yang Dong.
Era Caótica, Era Caótica, Era Caótica…
Wang ficou revirando a ideia na cabeça. Por que o percurso do sol no céu de Três Corpos seria desprovido de qualquer regularidade ou padrão? O movimento de um planeta em torno de seu sol precisa ser periódico, quer a órbita seja mais circular ou mais elíptica. Uma irregularidade absoluta do deslocamento planetário é impossível…
Wang ficou irritado consigo mesmo. Balançou a cabeça, tentando afastar esses pensamentos.
É só um jogo! Mas eu perdi.
Era Caótica, Era Caótica, Era Caótica…
Droga! Chega! Por que estou pensando nisso? Por quê?
Wang não demorou para descobrir a resposta. Fazia anos que ele não disputava nenhum jogo
on-line, e era nítido que os equipamentos tinham evoluído muito nesse meio-tempo. Na sua juventude, quando era estudante, não havia efeitos como realidades virtuais e respostas multissensoriais. Só que Wang também sabia que a sensação de realismo em Três Corpos não tinha a ver com tecnologia de interface.
Ele se lembrava de uma aula de teoria da informação no terceiro ano da faculdade. O professor havia apresentado duas imagens: uma era a Qingming Shanghe Tu, a famosa pintura da dinastia Song, cheia de detalhes delicados e refinados, que mostrava o festival de Qingming; a outra era a foto de um céu ensolarado, cuja vastidão azul era interrompida apenas por um fiapo de nuvem que nem parecia estar ali. O professor perguntou à turma qual das imagens continha mais informação. A resposta foi que o conteúdo informacional da fotografia — a entropia dela — excedia o da pintura em uma ou duas ordens de magnitude.
O mesmo acontecia com Três Corpos. O imenso conteúdo informacional estava bem oculto. Wang conseguia senti-lo, mas não expressá-lo. De repente, percebeu que os criadores do jogo seguiram o extremo oposto do princípio adotado por outros designers. Normalmente, os designers de jogos tentavam exibir o máximo possível de informação para aumentar a sensação de realismo. Já os responsáveis por Três Corpos trataram de comprimir o conteúdo
informacional para dissimular uma realidade mais complexa, do mesmo jeito que a foto aparentemente vazia do céu.
Wang deixou os pensamentos voltarem ao mundo de Três Corpos.
Estrelas voadoras! O segredo deve estar atrás das estrelas voadoras. Uma estrela voadora, duas estrelas voadoras, três estrelas voadoras… o que elas representavam?
Enquanto divagava sobre isso, chegou ao seu destino.
Na frente do edifício residencial, Wang viu uma mulher grisalha e baixinha, com cerca de sessenta anos. Ela usava óculos e estava se esforçando para subir a escada com um cesto de compras. Wang imaginou que aquela era a mulher que ele tinha ido visitar.
Uma saudação rápida confirmou o palpite. Era mesmo a mãe de Yang Dong: Ye Wenjie. Após ouvir o motivo da visita de Wang Miao, ela se mostrou grata e satisfeita. Wang estava acostumado a intelectuais idosos como ela: o acúmulo dos anos havia desbastado toda rigidez e vivacidade de suas personalidades, deixando para trás apenas a delicadeza da água.
Wang subiu a escada com o cesto de compras para ela. Quando os dois chegaram ao apartamento, ele descobriu que não era tão calmo quanto havia imaginado: três crianças estavam brincando, sendo que a mais velha devia ter uns cinco anos e a mais nova ainda mal andava. Ye disse a Wang que eram todas filhas dos vizinhos.
— Elas gostam de brincar aqui. Como hoje é domingo e os pais precisam fazer hora extra, deixam as crianças comigo… Ah, Nan Nan, você terminou o desenho? Nossa, ficou ótimo! Vamos dar um título? “Patinhos no sol”? Parece ótimo. Deixe a vovó escrever para você. Também vou anotar a data: “9 de junho, por Nan Nan”. E o que você quer almoçar? Yang Yang, quer beringela frita? Claro! Nan Nan, quer ervilha que nem ontem? Não tem problema. E você, Mi Mi? Quer carninha? Ah, não, sua mãe me disse que você não pode comer muita carninha, é difícil digerir. Que tal então um peixinho? Olhe esse peixinho enorme que a vovó comprou…
Wang observou Ye e as crianças, absorto na conversa que mantinham. Ela deve querer netos. Mas, mesmo se Yang Dong estivesse viva, será que teria tido filhos?
Ye levou as compras para a cozinha.
— Xiao Wang — disse, quando voltou —, vou deixar os legumes um pouco de molho. — Ela havia passado a tratá-lo sem constrangimento por um diminutivo carinhoso. — Hoje em dia, usam tantos pesticidas que preciso deixar os legumes de molho por pelo menos duas horas antes de dar para as crianças… Não quer dar uma olhada no quarto de Dong Dong antes?
A sugestão, acrescentada ao final como se fosse a coisa mais natural do mundo, deixou Wang ansioso. Ela nitidamente havia percebido o real objetivo da visita. Ye se virou e voltou para a cozinha sem fitar Wang, para não ver o constrangimento dele. Wang ficou grato pela consideração.
Ele passou pelas três crianças, que brincavam animadas, e entrou no quarto indicado por Ye. Hesitou na frente da porta, tomado por uma sensação estranha. Era como se ele tivesse voltado à própria juventude sonhadora. Das profundezas de sua memória, surgiu o formigamento de uma tristeza frágil e pura como o orvalho, com uma nota de esperança.
Com delicadeza, empurrou a porta. No cômodo, sentiu uma inesperada fragrância sutil, um cheiro de mata. Parecia que havia entrado na cabana de um guarda-florestal: as paredes eram cobertas de tiras de cascas de árvore, as três banquetas eram pedaços de tronco sem decoração, a escrivaninha era formada por três troncos maiores agrupados. Já a cama parecia forrada com o mesmo material de junco utilizado pelas pessoas do nordeste da China dentro dos sapatos, para manter os pés aquecidos no clima frio. Tudo era grosseiro e de aspecto descuidado, sem qualquer sinal de preocupação estética. O trabalho de Yang Dong havia lhe proporcionado uma renda alta, e ela podia ter comprado um apartamento de luxo, mas preferiu morar ali com a mãe.
Wang foi até a mesa feita de troncos. Tinha uma decoração simples e nada que sugerisse qualquer indício de feminilidade ou de atividade acadêmica. Talvez objetos dessa natureza tivessem sido removidos, ou talvez nunca tivessem existido. Ele percebeu uma foto em preto e branco dentro de um porta-retratos de madeira, a imagem de uma mãe com a filha. Na foto, Yang Dong era pequena, e Ye Wenjie estava agachada para que as duas ficassem da mesma altura. Um vento forte bagunçava o cabelo comprido delas.
O fundo da fotografia era estranho: o céu parecia estar atrás de uma rede grande, estendida entre estruturas grossas de aço. Wang deduziu que era alguma antena parabólica tão grande que as beiradas não couberam no enquadramento.
No retrato, os olhos da pequena Yang Dong transmitiam um medo que comoveu Wang. Ela parecia apavorada com o mundo do lado de fora da foto.
Depois Wang reparou em um caderno espesso no canto da escrivaninha. Ficou espantado com o material, até que viu uma linha escrita com letra infantil na capa: Caderno de casca de bétula de Yang Dong. A palavra “bétula” estava escrita com letras do alfabeto pinyin, em vez do caractere chinês. Os anos haviam dado à casca cinzenta um tom claro de amarelo. Fez menção de encostar no caderno, hesitou e recolheu a mão.
— Tudo bem — disse Ye, na porta. — São desenhos que Yang Dong fez quando era pequena. Wang pegou o caderno de casca e folheou as páginas com cuidado. Ye datara cada desenho
para a filha, tal como tinha feito para Nan Nan agora há pouco, na sala.
Com base nas datas, Wang viu que Yang Dong tinha três anos quando fez os desenhos. Normalmente, crianças dessa idade são capazes de traçar pessoas e objetos com formas definidas, mas os desenhos de Yang Dong ainda eram uma confusão de linhas emaranhadas. Parecia que representavam uma espécie de raiva e desespero intensos, resultantes de um desejo frustrado de expressar algo — não era um sentimento que se esperaria de uma criança tão pequena.
Ye se sentou devagar na beira da cama, com os olhos fixos no caderno, perdida em pensamentos. Sua filha havia morrido ali mesmo, dando fim à própria vida durante o sono. Wang se sentou ao lado dela. Nunca havia sentido uma vontade tão intensa de partilhar o peso da dor de outra pessoa.
Ye pegou o caderno das mãos dele e o abraçou.
— Eu não sabia ensinar de um jeito apropriado para a idade dela — disse, em voz baixa. — Expus Dong Dong cedo demais a alguns temas muito abstratos, muito delicados. Quando ela demonstrou pela primeira vez um interesse por teorias abstratas, falei que a área não era fácil para as mulheres. Ela perguntou: “E a madame Curie?”. Respondi que a madame Curie nunca foi
aceita de verdade como parte da área. O sucesso dela era encarado como resultado de persistência e muito esforço, mas, sem ela, outra pessoa teria feito o trabalho. Na verdade, Wu Chien-Shiung foi ainda mais longe que a madame Curie.* Mas não é mesmo uma área para mulheres.
“Dong Dong não discutiu comigo, mas depois descobri que ela era mesmo diferente. Por exemplo, digamos que eu explicasse uma fórmula para ela. Outras crianças diriam: ‘Uau, que fórmula inteligente!’. Mas ela dizia: ‘Essa fórmula é muito elegante, muito bela’. A expressão no rosto era igual à de quando ela via uma flor silvestre bonita.
“O pai deixou alguns discos. Ela ouviu todos e, no fim, quando decidiu que um de Bach era seu preferido, ouviu várias vezes seguidas. Esse tipo de música não devia despertar o fascínio de uma criança. A princípio, achei que ela tivesse escolhido por capricho, mas quando perguntei o que sentia com a música, Dong Dong respondeu que conseguia ver na música um gigante construindo uma casa grande e complexa. O gigante ia acrescentando um pedaço de cada vez à estrutura e, quando a música acabava, a casa estava pronta…”
— A senhora foi uma excelente professora para sua filha — disse Wang.
— Não. Fracassei. Seu mundo era simples demais, e ela só contava com teorias imateriais. Quando as teorias ruíram, Dong Dong não tinha nada em que se apoiar para continuar viva.
— Professora Ye, não posso dizer que concordo com a senhora. Neste momento estão acontecendo coisas além da nossa imaginação. Nossas teorias sobre o mundo enfrentam um desafio sem precedentes, e sua filha não foi a única cientista a escolher aquele caminho.
— Mas ela era mulher. Uma mulher precisa ser como a água, capaz de fluir por cima e em volta de qualquer coisa.
Quando estava prestes a ir embora, Wang se lembrou do outro motivo da visita. Ele mencionou a Ye sua vontade de observar a radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
— Ah, sim. Tem dois lugares na China que trabalham com isso. Um é o observatório em Ürümqi. Acho que é um projeto do Centro de Observação do Ambiente e do Espaço, da Academia Chinesa de Ciências. O outro é bem perto daqui, um observatório de radioastronomia na periferia de Beijing, administrado pela Academia Chinesa de Ciências e pelo Centro Conjunto de Astrofísica da Universidade de Beijing. O de Ürümqi faz observações a partir do solo, e o daqui só recebe dados de satélites, embora esses dados sejam mais apurados e completos. Como um ex-aluno meu trabalha lá, posso fazer um telefonema e ver o que consigo para você.
Ye achou o número e discou. A conversa que se seguiu pareceu correr bem.
— Tudo certo — disse Ye ao desligar. — Vou lhe passar o endereço. Você pode ir quando quiser. Meu aluno se chama Sha Ruishan e vai estar no turno da noite amanhã… Acho que esta não é sua área de pesquisa, certo?
— Eu trabalho com nanotecnologia. Isto é para… outra coisa. — Wang temia que Ye fizesse mais perguntas sobre o que o levou a buscar aquele tipo de informação, mas ela não fez.
— Xiao Wang, você parece um pouco pálido. Como está sua saúde? — perguntou ela, com o rosto muito preocupado.
— Não é nada. Por favor, não se preocupe.
— Espere um instante. — Ye pegou uma caixinha de madeira de um armário. Wang viu na etiqueta que era ginseng. — Um velho amigo da base, um soldado, veio me visitar há alguns dias e me trouxe isto. Leve, leve! É desses plantados, não silvestre. Não é muito caro. Tenho pressão alta e não posso usar mesmo. Você pode cortar em fatias finas e fazer chá. Você está com um aspecto tão pálido que com certeza isso vai fazer bem. Você ainda é jovem, mas precisa tomar cuidado com a saúde.
Wang aceitou a caixa, e seu peito se encheu de alegria. Sentiu os olhos ficarem marejados. Era como se o coração, angustiado quase além do limite por causa dos últimos dias, tivesse sido acomodado em um monte de plumas.
— Professora Ye, virei visitá-la muitas vezes.
* Wu Chien-Shiung foi uma das físicas mais importantes da era moderna, tendo realizado muitas conquistas em física experimental. Ela foi a primeira a refutar com experimentos a hipótese da “lei de conservação de paridade” e, assim, fundamentar o trabalho dos físicos teóricos Tsung-Dao Lee e Chen-Ning Yang. (N. A.)
9. O UNIVERSO PISCA
Wang Miao tomou a estrada Jingmi até chegar ao distrito de Miyun. Dali, seguiu para Heilongtan, subiu a montanha por uma estrada sinuosa e chegou ao observatório de radioastronomia do Centro Astronômico Nacional da Academia Chinesa de Ciências. Ele viu uma fileira de vinte e oito antenas parabólicas, todas com nove metros de diâmetro: parecia uma fileira de espetaculares plantas de aço. No final, havia dois radiotelescópios altos, com cinquenta metros de diâmetro, construídos em 2006. Conforme Wang se aproximava, veio à sua mente o fundo do retrato de Ye com a filha.
No entanto, o trabalho de Sha Ruishan, o aluno de Ye, não tinha nada a ver com aqueles radiotelescópios. O laboratório do dr. Sha ficava encarregado sobretudo de receber os dados transmitidos por três satélites: o Cobe (Cosmic Background Explorer, ou Explorador da Radiação Cósmica de Fundo), lançado em 1989 e prestes a ser desativado; o WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe, ou Sonda de Anisotropia em Micro-Ondas Wilkinson); e o Planck, o observatório espacial lançado pela Agência Espacial Europeia em 2009.
A radiação cósmica de fundo em micro-ondas correspondia muito precisamente a um espectro térmico de corpo negro de 2,7255 K de temperatura e era muito isotrópica — ou seja, praticamente uniforme em todas as direções —, com flutuações mínimas da ordem de milionésimos de grau. O trabalho de Sha Ruishan era criar um mapa mais detalhado da radiação cósmica de fundo em micro-ondas a partir de dados observacionais.
O laboratório não era muito grande. Os equipamentos que recebiam os dados estavam entulhados na sala de computadores principal, e três terminais exibiam as informações enviadas pelos três satélites.
Sha ficou animado ao ver Wang. Nitidamente entediado com o longo isolamento e feliz por receber visitas, ele perguntou que tipo de dados Wang queria ver.
— Quero ver a flutuação geral da radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
— Você poderia… ser mais específico?
— Quer dizer… quero ver a flutuação isotrópica na radiação cósmica de fundo geral em micro-ondas, entre um e cinco por cento — disse ele, repetindo a mensagem do e-mail de Shen.
Sha sorriu. Desde a virada do século, o Observatório de Radioastronomia de Miyun passara a receber turistas. Para aumentar um pouco a renda, Sha costumava fazer o papel de guia turístico ou dar palestras. Aquele sorriso era o mesmo que distribuía aos turistas, pois já estava acostumado à impressionante ignorância científica deles.
— Professor Wang, imagino que você não seja um especialista do ramo, correto?
— Eu trabalho com nanotecnologia.
— Ah, faz sentido. Mas você deve ter algum conhecimento elementar sobre a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, certo?
— Não muito. Sei que, à medida que o universo esfriava depois do Big Bang, as “brasas” remanescentes se tornaram a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Essa radiação preenche todo o universo e pode ser observada na faixa de centímetros de comprimentos de onda. Acho que foi nos anos 1960 que dois americanos descobriram a radiação por acaso, quando estavam testando uma antena receptora supersensível de sinais via satélite…
— Isso já é mais do que suficiente — interrompeu Sha, fazendo um gesto com a mão. — Então você deve saber que, ao contrário das variações locais que observamos em diversas partes do universo, a flutuação geral da radiação cósmica de fundo em micro-ondas possui uma correlação com a expansão do universo. É uma mudança muito lenta, medida na escala da idade do universo. Mesmo com a sensibilidade do satélite Planck, uma observação constante ao longo de um milhão de anos poderia não detectar nenhuma variação. Mas você quer ver uma variação de cinco por cento hoje? Sabe o que isso significaria? O universo piscaria como se fosse uma lâmpada fluorescente que estivesse prestes a queimar!
E ele vai piscar para mim, pensou Wang.
— Deve ser uma brincadeira da professora Ye — disse Sha.
— Nada me deixaria mais feliz do que descobrir que não passa de uma brincadeira — respondeu Wang. Ele estava a ponto de dizer para Sha que Ye não sabia os detalhes do inusitado pedido, mas tinha medo de que Sha resolvesse não ajudá-lo se comentasse.
— Bom, já que a professora Ye me pediu para ajudá-lo, vamos fazer a observação. Não tem problema. Se você só quer uma precisão de um por cento, os dados do velho Cobe bastam. — Enquanto falava, Sha digitou rapidamente no terminal. Logo depois, apareceu uma linha verde na tela. — Esta curva é a medição em tempo real da radiação cósmica de fundo em micro-ondas geral. Ah, seria mais correto chamar de linha reta. A temperatura é de 2,725±0,002 K. A margem de erro se deve ao efeito Doppler resultante do deslocamento da Via Láctea, e já foi compensada. Se acontecer o tipo de variação que você está esperando, de mais de um por cento, esta linha vai ficar vermelha e se transformar em onda. Mas eu aposto que ela vai continuar uma linha verde reta até o fim do mundo. Se você quiser vê-la apresentar um tipo de flutuação observável a olho nu, talvez tenha que esperar até muito depois da morte do nosso Sol.
— Não estou interferindo em seu trabalho, não é?
— Não. Como você quer uma precisão muito baixa, podemos usar só alguns dados básicos do Cobe. Certo, está tudo pronto. A partir de agora, se uma flutuação grande como essa acontecer, os dados serão gravados automaticamente no disco rígido.
— Acho que deve acontecer por volta de uma da manhã.
— Uau, quanta precisão! Não tem problema, já que estou com o turno da noite mesmo. Você já jantou? Ótimo, então vou fazer um tour com você.
Era uma noite sem luar. Os dois caminharam ao longo da fileira de antenas, e Sha apontou para elas.
— É de tirar o fôlego, não? Pena que todas elas são como os ouvidos de um surdo.
— Por quê?
— Desde que a construção terminou, as faixas de observação têm sofrido interferência constante. Primeiro foram as torres de transmissão de pagers nos anos 1980. Agora é a correria para desenvolver redes móveis de comunicação e torres de transmissão para celulares. Estes telescópios são capazes de realizar muitas tarefas científicas, como explorar o céu, detectar fontes variáveis de rádio, observar os resquícios de supernovas, mas não temos como fazer a maioria dessas ações. Já reclamamos várias vezes para a Comissão Reguladora Estatal de Rádio, porém nunca adiantou nada. Como é que vamos conseguir mais atenção do que a China Mobile, a China Unicom, a China Netcom? Sem dinheiro, os segredos do universo não valem merda nenhuma. Pelo menos meu projeto só depende de dados de satélite e não tem nada a ver com estas “atrações turísticas”.
— Nos últimos anos, o financiamento de projetos de pesquisa básica tem tido um sucesso razoável, como na área da física de alta energia. Não seria melhor construir os observatórios em lugares mais afastados das cidades?
— No fim é tudo uma questão de dinheiro. Agora, nossa única opção é descobrir maneiras técnicas de bloquear interferências. Bom, seria muito melhor se a professora Ye estivesse aqui. Ela teve muito êxito nessa área.
E assim, como o assunto da conversa passou a ser Ye Wenjie, Wang finalmente soube da vida dela a partir de seu ex-aluno. Ficou sabendo que ela havia presenciado a morte do próprio pai durante a Revolução Cultural, que fora acusada injustamente no Corpo de Produção e Construção e depois meio que desapareceu até voltar a Beijing no começo dos anos 1990, quando passou a ensinar astrofísica na Universidade Tsinghua, onde o pai tinha sido professor, até se aposentar.
— Só recentemente foi revelado que ela havia passado mais de vinte anos na Base Costa Vermelha.
Wang ficou chocado.
— Quer dizer que aqueles boatos…
— A maioria era verdade. Um dos pesquisadores que desenvolveu o sistema de decodificação do Projeto Costa Vermelha emigrou para a Europa e escreveu um livro no ano passado. Essa obra deu origem a grande parte dos boatos que estão circulando. Muitas pessoas que participaram da Costa Vermelha ainda estão vivas.
— Isso é… uma lenda fantástica.
— Ainda mais por ter acontecido naqueles anos… absolutamente incrível.
Eles continuaram conversando por um tempo. Sha perguntou sobre o propósito por trás do inusitado pedido de Wang. Como ele evitou uma resposta clara, Sha não insistiu. A dignidade de especialista na área não permitia que Sha mostrasse muito interesse por um pedido que ia claramente contra seus conhecimentos profissionais.
Depois, eles foram a um bar para turistas e passaram duas horas lá. Sha bebia uma cerveja atrás da outra, e sua língua foi se soltando cada vez mais. Já Wang foi ficando ansioso e não parava de pensar naquela linha verde no laboratório. Só às dez para uma da manhã, Sha cedeu aos apelos constantes de Wang para que os dois voltassem.
Os holofotes que antes iluminavam a fileira de antenas haviam sido desligados, e as antenas passaram a formar uma imagem bidimensional simples diante do céu noturno, como se fossem uma série de símbolos abstratos. Todas encaravam o céu no mesmo ângulo, como se estivessem esperando algo, ansiosas. Wang estremeceu ao vê-las, apesar do agradável calor da noite primaveril: a imagem trazia lembranças dos pêndulos gigantes de Três Corpos.
Eles chegaram ao laboratório à uma em ponto. Quando olharam o terminal, a flutuação tinha acabado de começar. A linha reta virou uma onda, e a distância entre duas cristas era inconstante. Ela ficou vermelha, como uma cobra que despertava da hibernação, agitando-se à medida que a pele voltava a se encher de sangue.
— Deve ser um defeito no Cobe!
Sha encarava apavorado a linha ondulada.
— Não é um defeito. — O tom de Wang era extremamente calmo. Ele havia aprendido a se controlar diante daquele tipo de situação.
— Saberemos logo — respondeu Sha, que foi até os outros dois terminais e digitou rapidamente, reunindo os dados obtidos pelos satélites WMAP e Planck.
Três ondas passaram a se mover em sintonia nos três terminais, completamente idênticas.
Sha pegou e ligou um laptop às pressas. Conectou um cabo de rede e apanhou o telefone. Pelo que Wang conseguiu ouvir da conversa, percebeu que Sha estava tentando entrar em contato com o observatório radioastronômico de Ürümqi. Ele não explicou para Wang o que estava fazendo, mantendo os olhos fixos na janela do navegador do laptop. Wang reparou que a respiração dele estava acelerada.
Alguns minutos depois, uma onda vermelha apareceu na janela do navegador, mexendo no mesmo ritmo das outras três.
Os três satélites e o observatório em solo confirmaram um mesmo fato: o universo estava piscando.
— Você pode imprimir essa onda? — perguntou Wang.
Sha limpou o suor frio da testa e assentiu com a cabeça. Mexeu o mouse e clicou em IMPRIMIR. Wang pegou a primeira folha assim que ela saiu da impressora a laser e, com um lápis, começou a comparar a distância entre as cristas com a tabela de código Morse que tirou do bolso.
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Isso é 1108:21:37, pensou Wang.
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Isso é 1108:21:36.
A contagem regressiva continuava na escala do universo. Já haviam se passado 92 horas, e só restavam 1108 horas.
Nervoso, Sha andava de um lado para o outro, parando de vez em quando para olhar a sequência de números que Wang anotava.
— Você não pode me explicar o que está acontecendo? — gritou.
— Não sou capaz de explicar para você, dr. Sha. Acredite. — Wang afastou a pilha de papéis preenchidos com as ondas. Olhando a sequência de números, disse: — Talvez os três satélites e o observatório estejam com defeito.
— Você sabe que isso é impossível.
— E se tiver sido sabotagem?
— Também impossível! Alterar simultaneamente os dados de três satélites e de um observatório na Terra? Você está sugerindo um sabotador sobrenatural.
Wang assentiu com a cabeça. Na comparação com a ideia de que o universo estava piscando, ele teria preferido um sabotador sobrenatural. Só que então Sha destruiu aquele último raio de esperança.
— É fácil de confirmar. Se a radiação cósmica de fundo em micro-ondas está flutuando tanto assim, podemos verificar com os próprios olhos.
— Como assim? O comprimento de onda da radiação cósmica de fundo é de sete centímetros. São cinco ordens de magnitude abaixo do comprimento da luz visível. Como é que poderíamos ver isso?
— Com óculos 3K.
— Óculos 3K?
— Isso. É um brinquedo científico que criamos para o Planetário Capital. Com o nível atual da tecnologia, conseguimos fazer dos óculos uma miniatura da antena corneta de seis metros, utilizada por Penzias e Wilson há quase meio século para descobrir a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Depois, acrescentamos um conversor para comprimir em até cinco ordens de magnitude a radiação detectada, de modo a transformar as ondas de sete centímetros em uma luz vermelha visível. Assim, os visitantes podem colocar os óculos à noite e observar pessoalmente a radiação cósmica de fundo. E agora, podemos usá-los para ver o universo piscar.
— Onde eu encontro esses óculos?
— No Planetário Capital. Criamos mais de vinte unidades.
— Preciso arrumar um antes das cinco.
Sha pegou o telefone. Depois de vários toques, alguém atendeu do outro lado da linha. Sha precisou de muita energia para convencer a pessoa que tinha acordado no meio da noite a ir até o planetário e esperar a chegada de Wang dali a uma hora.
— Não vou com você — disse ele, quando Wang estava de saída. — Já vi o suficiente e não preciso de mais confirmação. Apesar disso, espero que você me explique a verdade quando achar que for a hora certa. Se esse fenômeno levar a algum resultado científico, não me esquecerei de você.
Wang abriu a porta do carro.
— A flutuação vai parar às cinco da manhã. Sugiro que você não procure mais depois. Acredite, não vai levar a lugar nenhum.
Sha encarou Wang por um bom tempo e assentiu.
— Entendo. Ultimamente vêm acontecendo coisas estranhas com cientistas…
— Sim.
— É a nossa vez?
— É a minha vez, pelo menos. Wang deu partida no motor.
Uma hora depois, Wang chegou ao novo planetário e saiu do carro. As luzes claras da cidade atravessavam as paredes translúcidas do imenso edifício de vidro e revelavam um vislumbre da estrutura interna. Wang pensou que se a intenção do arquiteto tinha sido expressar um sentimento a respeito do universo, o projeto era um sucesso: quanto mais algo fosse transparente, mais misterioso parecia. O próprio universo era transparente: alguém com um olhar aguçado o bastante podia ver tão longe quanto quisesse. Porém, quanto mais longe via, mais misterioso o universo ficava.
O funcionário sonolento do planetário estava esperando Wang na porta. Ele lhe entregou uma valise pequena e disse:
— Aí dentro tem cinco óculos 3K, todos com a bateria cheia. O botão esquerdo é para ligar. O sintonizador da direita é para ajustar o brilho. Tenho mais uns doze óculos lá em cima. Pode olhar à vontade, mas agora vou tirar um cochilo ali naquela sala. Esse dr. Sha deve estar maluco.
Ele entrou no planetário escurecido.
Wang abriu a valise no banco traseiro do carro e pegou um dos óculos 3K. Parecia a tela de dentro do capacete com visor panorâmico do traje V. Wang colocou os óculos no rosto e olhou para a cidade, que parecia igual, só menos iluminada. Então ele lembrou que precisava ligar os óculos.
A cidade se transformou em uma multidão de auréolas de brilho difuso. A maioria era fixa, mas algumas piscavam ou se mexiam. Wang percebeu que estas eram fontes de radiação na faixa centimétrica, todas convertidas para a luz visível. No centro de cada auréola havia uma fonte de radiação. Como os comprimentos originais das ondas eram muito longos, era impossível ver direito o formato delas.
Wang levantou a cabeça e viu um céu brilhando com uma luz vermelha suave. De repente, estava enxergando a radiação cósmica de fundo em micro-ondas.
A luz vermelha tinha se originado havia mais de dez bilhões de anos. Era o resquício do Big Bang, a brasa ainda quente da criação. Wang não conseguia enxergar nenhuma estrela. Em uma situação normal, como a luz visível estaria comprimida pelos óculos até ficar invisível, cada estrela deveria aparecer como um ponto preto. Mas a difração da onda de radiação centimétrica abafava quaisquer formas e detalhes.
Quando seus olhos se acostumaram à luz, Wang percebeu que o vermelho suave estava mesmo pulsando. O céu inteiro piscava, como se o universo não passasse de uma lamparina trêmula ao vento.
Sob a redoma cintilante do céu noturno, Wang teve a sensação repentina de que o universo encolhia até ficar tão pequeno que aprisionava apenas ele. O universo era um coração contraído,
e a luz vermelha que inundava tudo era o sangue translúcido que enchia o órgão. Suspenso no sangue, Wang constatou que a cintilação da luz vermelha não era periódica — a pulsação era irregular. Ele sentiu uma presença estranha, perversa e imensa, que jamais poderia ser compreendida pelo intelecto humano.
Wang tirou os óculos e foi abaixando até sentar no chão, recostado na roda do carro. A noite da cidade recuperou lentamente a realidade da luz visível, mas os olhos dele ficaram explorando, tentando capturar outras cenas. Havia um conjunto de lâmpadas neon junto à entrada do zoológico do outro lado da rua. Uma das lâmpadas estava prestes a queimar e piscava de modo irregular. Ali perto, as folhas de uma árvore pequena tremulavam com a brisa noturna, brilhando sem lógica ao refletir as luzes da rua. Ao longe, no topo do pináculo em estilo russo do Centro de Exposições de Beijing, a estrela vermelha refletia a luz dos carros que passavam abaixo do edifício, também piscando de maneira aleatória…
Ele tentou interpretar as cintilações como se fossem código Morse. Chegou a ter a sensação de que as dobras das bandeiras que tremulavam ali perto e os círculos concêntricos na poça da rua talvez estivessem enviando mensagens. Esforçou-se para compreender todas essas mensagens e sentiu cada segundo da contagem regressiva.
Wang não sabia quanto tempo passara ali. O funcionário do planetário enfim saiu e perguntou se ele havia terminado. No entanto, quando viu o rosto de Wang, o sono em seus olhos desapareceu e foi substituído por medo. Ele guardou os óculos, olhou para Wang por alguns segundos e foi embora às pressas com a valise.
Wang pegou o celular e ligou para Shen Yufei. Ela atendeu na hora. Talvez também estivesse com insônia.
— O que vai acontecer quando a contagem regressiva acabar? — perguntou Wang.
— Não sei. — E desligou.
O que será? Talvez a minha morte, como a de Yang Dong.
Ou talvez um desastre como o tsunami imenso que se espalhou pelo oceano Índico há mais de uma década. Ninguém associaria uma catástrofe dessas à minha pesquisa em nanotecnologia. Será que todos os desastres que já aconteceram, incluindo as duas guerras mundiais, foram também resultado do fim de alguma contagem regressiva fantasmagórica? Será que sempre havia alguém como eu, alguém que ninguém imaginava, alguém com toda a responsabilidade?
Ou talvez isso seja um sinal para o fim do mundo inteiro. Em um mundo perverso desses, isso seria um alívio.
Uma coisa era certa. Seja lá o que acontecesse no fim da contagem, ao longo das cerca de mil horas que faltavam, as possibilidades o torturariam terrivelmente, como demônios, até que ele sofresse um colapso mental completo.
Wang entrou no carro e deixou o planetário para trás. As ruas estavam relativamente desertas pouco antes do amanhecer. Apesar disso, ele não se atrevia a dirigir muito rápido, com a sensação de que, quanto mais corresse, maior seria a velocidade da contagem regressiva.
Assim que surgiu um vislumbre de luz no céu ao leste, ele estacionou e começou a caminhar sem rumo. Sua mente estava vazia: apenas a contagem pulsava diante do brilho vermelho fraco
da radiação cósmica de fundo. Aparentemente, ele havia se transformado em nada além de um mero cronômetro, um sino que dobrava para algum desconhecido.
O céu clareou. Wang estava cansado, então se sentou em um banco.
Quando levantou a cabeça para ver onde seu inconsciente o havia levado, Wang estremeceu. Estava diante da igreja de São José em Wangfujing. Sob a fraca luz branca do amanhecer, os
arcos românicos da igreja pareciam três dedos gigantes que indicavam algo no espaço para ele.
Quando Wang se levantou para ir embora, ouviu um fragmento de canto religioso e parou. Não era domingo, então provavelmente se tratava de um coral ensaiando um hino pentecostal. Enquanto escutava a melodia solene e sagrada, Wang Miao sentiu mais uma vez que o universo havia encolhido até ficar do tamanho de uma igreja vazia. O teto abobadado estava oculto pela luz vermelha irregular da radiação de fundo, e Wang era uma formiga andando pelas rachaduras do chão. Ele sentiu uma mão invisível gigantesca acariciar seu coração trêmulo e voltou a ser um bebê indefeso. Nas profundezas de sua mente, algo que antes o sustentava amoleceu como cera e cedeu. Wang cobriu os olhos e começou a chorar.
Suas lágrimas foram interrompidas por uma risada.
— Hahaha, mais um que já era. Ele se virou.
O capitão Shi Qiang estava em pé ao seu lado, soprando uma baforada de fumaça branca.
10. DA SHI
Shi se sentou ao lado de Wang e lhe entregou um molho de chaves.— Aqui. As chaves do seu carro, que você deixou no cruzamento de Dongdan. Se eu tivesse chegado um minuto atrasado, ele teria sido rebocado pelos guardas de trânsito.
Da Shi, se eu soubesse que você estava me seguindo, teria ficado mais tranquilo, pensou Wang, se referindo ao policial pelo apelido, mas guardando as palavras para si, por amor-próprio. Ele aceitou um cigarro de Da Shi e deu a primeira tragada em muitos anos, desde que havia parado de fumar.
— Como é que você está, meu amigo? Difícil de encarar? Eu falei que você não ia aguentar. Mas você insistiu em bancar o fortão.
— Você não teria como entender. — Wang deu mais algumas tragadas longas.
— Seu problema é que eu entendo bem demais… Certo, vamos arrumar alguma coisa para comer.
— Não estou com fome.
— Então vamos beber! Eu pago.
Wang entrou no carro de Da Shi, e eles foram para um pequeno restaurante ali perto. Ainda era cedo, e o lugar estava deserto.
— Duas porções de bucho frito e uma garrafa de er guo tou!* — gritou Da Shi, sem nem levantar a cabeça. Estava nítido que era um freguês habitual.
Quando olhou para os dois pratos cheios de tiras pretas de bucho, Wang sentiu o estômago vazio começar a se revirar e achou que fosse passar mal. Da Shi pediu um pouco de leite de soja morno e panquecas fritas, e Wang se forçou a comer um pouco.
Depois, eles beberam doses de er guo tou. Wang começou a sentir a cabeça leve e a língua solta. Aos poucos, foi contando para Da Shi o que havia acontecido nos últimos três dias, mesmo consciente de que Da Shi provavelmente já soubesse de tudo; talvez Da Shi soubesse até mais do que ele.
— Quer dizer que o universo estava… piscando para você? — perguntou Da Shi, chupando tiras de bucho como se fosse macarrão.
— Essa é uma metáfora muito adequada.
— Palhaçada.
— Sua falta de medo se deve à ignorância.
— Mais palhaçada. Vamos, beba!
Wang virou outra dose. O mundo tinha passado a girar, e só Shi Qiang, o devorador de tripas,
permanecia estável à sua frente.
— Da Shi — disse ele —, você já… refletiu sobre certas questões filosóficas elementares? Por exemplo, de onde viemos, para onde vamos, de onde veio o universo, para onde o universo vai, essa coisa toda?
— Não.
— Nunca?
— Nunca.
— Você com certeza já viu as estrelas. Nunca ficou fascinado ou curioso com o mistério delas?
— Eu nunca olho para o céu à noite.
— Como é possível? Achei que você costumasse trabalhar no turno da noite.
— Meu amigo, quando eu trabalho à noite, o suspeito foge se eu ficar olhando para o céu.
— Nós realmente não temos nenhuma afinidade. Certo. Beba!
— Para falar a verdade, mesmo se eu olhasse o céu à noite, não ficaria pensando nessas questões filosóficas. Tenho outras preocupações! Preciso quitar a casa, economizar para a faculdade do garoto e lidar com uma sequência interminável de casos… Sou um homem simples, sem coisas complicadas. Se você olhar dentro da minha garganta, vai conseguir enxergar até minha bunda. Claro, não consigo agradar meus chefes. Anos depois da minha baixa do Exército, minha carreira não está indo para lugar nenhum. Se eu não fosse muito bom no que faço, teria sido expulso há muito tempo… Você acha que isso não é preocupação suficiente? Acha que tenho tempo para ficar olhando as estrelas e filosofando?
— Tem razão. Certo, vire o copo!
— Mas eu cheguei a inventar uma regra básica.
— Diga.
— Qualquer coisa esquisita o bastante deve ser suspeita.
— Que… que regra idiota é essa?
— O que eu quero dizer é: sempre tem alguém por trás de coisas que parecem não ter explicação.
— Se você tivesse ao menos um conhecimento básico de ciências, saberia que é impossível qualquer força realizar as coisas que presenciei. Especialmente essa última. Manipular os acontecimentos na escala do universo… não só a ciência atual é incapaz de explicar isso, como eu também nem consigo imaginar como explicar fora da ciência. É algo mais do que sobrenatural. É sobre sei lá o quê…
— Estou falando, é palhaçada. Já vi muitas coisas esquisitas.
— Então diga o que eu devo fazer agora.
— Continue bebendo. Depois, durma.
— Certo.
Wang Miao não fazia ideia de como conseguiu voltar para o carro. Apenas caíra no banco traseiro e dormira um sono sem sonhos. Achou que não tinha dormido por muito tempo, mas, quando abriu os olhos, viu que o sol já estava quase se pondo no oeste.
Ele saiu do carro. Embora estivesse fraco pelo álcool que bebeu durante a madrugada, se sentia melhor. Percebeu que estava em uma esquina da Cidade Proibida. O pôr do sol iluminava o palácio ancestral e se dissolvia em pequenas ondas douradas no fosso. Aos olhos de Wang, o mundo voltou a parecer normal e estável.
Ele continuou sentado até o anoitecer, aproveitando uma paz que havia desaparecido de sua vida. O Santana preto que ele já conhecia muito bem passou pela rua e parou à sua frente. Shi Qiang saiu do carro.
— Dormiu bem? — resmungou Da Shi.
— Dormi. E agora?
— O quê? Para você? Vá jantar. Depois, beba mais um pouco. Depois, durma de novo.
— E depois?
— Depois? Você não precisa trabalhar amanhã?
— Mas a contagem regressiva… só faltam mil e noventa e uma horas.
— Foda-se a contagem regressiva. Sua prioridade agora é ter certeza de que consegue ficar de pé e não desmoronar. Depois a gente conversa sobre outras coisas.
— Da Shi, você pode me dizer algo sobre o que está realmente acontecendo? Estou implorando.
Da Shi encarou Wang por um instante. E riu.
— Já perdi a conta de quantas vezes falei exatamente a mesma coisa para o general Chang. Nós dois, você e eu, estamos no mesmo barco. Falando sério: não sei porra nenhuma. Ocupo um lugar muito baixo na hierarquia, e ninguém me diz nada. Às vezes isso parece um pesadelo.
— Mas você deve saber mais do que eu.
— Tudo bem. Vou contar o pouco que sei.
Da Shi apontou para a beirada do fosso em volta da Cidade Proibida. Os dois escolheram um lugar e se sentaram.
Já era noite, e o trânsito seguia intenso atrás deles, correndo ininterrupto como um rio. Os dois ficaram observando suas sombras crescendo e diminuindo em cima do fosso.
— No meu ramo, o trabalho é ligar vários pontos que parecem não ter nenhuma relação entre si. Quando a gente liga do jeito certo, a verdade aparece. Já tem algum tempo que vêm acontecendo algumas coisas estranhas.
“Por exemplo, vem ocorrendo uma onda inédita de crimes contra instituições acadêmicas e de pesquisa científica. Com certeza você soube da explosão no canteiro de obras do acelerador em Liangxiang. Teve também o assassinato daquele ganhador do Nobel… Todos esses crimes foram esdrúxulos: não por dinheiro, não por vingança. Nenhuma motivação política, só destruição pura.
“Outros acontecimentos estranhos não tiveram a ver com crimes. Por exemplo, a Fronteiras da Ciência e o suicídio daqueles acadêmicos. Ao mesmo tempo, a ousadia dos ambientalistas tem aumentado: multidões de manifestantes em canteiros de obras para impedir a construção de usinas nucleares e barragens de hidrelétricas, comunidades experimentais de ‘retorno à natureza’ e outras questões aparentemente triviais… Você costuma ir ao cinema?”
— Não, não muito.
— Todas as megaproduções recentes seguem temas rústicos. Os cenários são sempre
montanhas verdejantes e águas claras, com homens e mulheres angelicais de alguma época indefinida vivendo em harmonia com a natureza. Citando as palavras dos diretores, esses filmes “representam a beleza da vida antes de a ciência estragar a natureza”. Veja A fonte das flores de pessegueiro: claramente, é o tipo de filme que ninguém quer ver. Mas gastaram centenas de milhões na produção. Também fizeram um concurso de ficção científica que oferecia um prêmio de cinco milhões para a pessoa que imaginasse o futuro mais asqueroso de todos. Gastaram ainda mais algumas centenas de milhões para transformar os contos vencedores em filmes. E tem também esse monte de seita estranha aparecendo por todos os lados, com líderes que parecem ter muito dinheiro…
— O que essa última parte tem a ver com tudo o que você falou antes?
— Você precisa ligar todos os pontos. É claro que eu não precisava me preocupar com essas questões antes, mas, depois que me transferiram da unidade de crimes para o Centro de Comando em Batalha, isso passou a fazer parte do meu trabalho. Até o general Chang está impressionado com meu talento para ligar os pontos.
— E qual é sua conclusão?
— Tudo que está acontecendo é coordenado por uma pessoa que está nos bastidores e tem um objetivo: arruinar completamente as pesquisas científicas.
— Quem?
— Não faço ideia. Mas consigo pressentir o plano, um plano muito amplo e bem complicado: danificar complexos de pesquisa científica, assassinar alguns cientistas e enlouquecer e levar outros, como você, ao suicídio… Mas o objetivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda mais ignorantes do que as pessoas comuns.
— Essa sua última observação é muito perspicaz.
— Ao mesmo tempo, querem arruinar a reputação da ciência na sociedade. É claro que sempre teve gente envolvida em atividades contra a ciência, mas agora é algo coordenado.
— Acredito em você.
— Agora você acredita em mim. Um monte de gente da elite científica foi incapaz de perceber, e aí um cara como eu, que só fez escola técnica, encontra a resposta? Rá! Quando expliquei minha teoria, fui ridicularizado pelos intelectuais e pelos meus chefes.
— Se você tivesse me contado sua teoria antes, com certeza eu não teria rido. Veja aqueles picaretas que praticam pseudociência. Sabe de quem eles têm mais medo?
— Dos cientistas, claro.
— Não. Muitos dos melhores cientistas podem ser enganados pela pseudociência, às vezes dedicando a vida a ela. Mas a pseudociência tem medo de um tipo específico de gente, pessoas muito difíceis de enganar: mágicos. E com razão, porque muitos embustes pseudocientíficos foram desvendados por mágicos. Enfim, na comparação com os acadêmicos bitolados do mundo científico, você tem muito mais chance de perceber uma conspiração de grande escala, por causa da sua experiência como policial.
— Bom, tem muita gente mais esperta do que eu. Os figurões com poder nas mãos sabem muito bem da trama. Quando me ridicularizaram no começo, foi só porque eu não tinha explicado a teoria para as pessoas certas. Mais tarde, meu antigo comandante de companhia, o
general Chang, cuidou pessoalmente da minha transferência. Mas ainda não estou fazendo nada além de pequenos serviços… Pronto. Agora você sabe tanto quanto eu.
— Mais uma dúvida: o que isso tem a ver com as Forças Armadas?
— Também fiquei confuso. Quando perguntei, disseram que, agora que tem uma guerra, é claro que as Forças Armadas iam se envolver. Eu estava que nem você, achando que os caras só estavam falando besteira. Mas não, não era brincadeira. O Exército está mesmo em alerta máximo. Foram instalados vinte e tantos Centros de Comando em Batalha no planeta inteiro. E acima de todos existe mais um nível na hierarquia, mas ninguém conhece os detalhes.
— Quem é o inimigo?
— Não faço ideia. Agora temos representantes da Otan na sala de guerra do Estado-Maior do ELP, e há um monte de oficiais do ELP trabalhando no Pentágono. Quem é que sabe que merda a gente está enfrentando?
— Isso é tudo tão estranho. Você tem certeza de que é tudo verdade?
— Tenho vários amigos de longa data no Exército que hoje são generais, então sei de algumas coisas.
— A mídia não tem ideia nenhuma disso?
— Ah, essa é outra questão. Todos os países estão deixando isso bastante fechado, com sucesso até agora. Garanto que o inimigo é incrivelmente poderoso. As pessoas no comando estão apavoradas! Eu conheço muito bem o general Chang. Ele é o tipo de sujeito que não tem medo de nada, nem mesmo de o céu desabar. Só que percebi que ele está preocupado com algo muito pior agora. Parece que estão todos morrendo de medo e duvidam que tenham chance de vencer.
— Se o que você está dizendo for verdade, então todo mundo tem que ficar assustado.
— Todo mundo tem medo de algo. O inimigo também deve ter. Quanto mais poderosos eles forem, mais têm a perder para seus medos.
— Do que você acha que o inimigo tem medo?
— De vocês! Dos cientistas! O estranho é que, quanto menos prática for a área de pesquisa, maior é o medo deles em relação a vocês. Como teorias abstratas, o tipo de coisa com que Yang Dong trabalhava. Eles têm mais medo desse tipo de trabalho do que vocês têm do universo piscando. É por isso que são tão cruéis. Se matar vocês fosse resolver o problema, todos já estariam mortos. Mas a técnica mais eficaz ainda é embaralhar seus pensamentos. Quando um cientista morre, ele é substituído por outro. Mas se os pensamentos se confundem, a ciência acaba.
— Você está dizendo que eles têm medo da ciência de base?
— Sim, da ciência de base.
— Mas a natureza da minha pesquisa é muito diferente daquela do estudo de Yang Dong. Os nanomateriais com que trabalho não são ciência de base. É só um material muito forte. Como é que isso pode representar ameaça?
— Você é um caso atípico. Normalmente, eles não incomodam pessoas relacionadas com pesquisa aplicada. Talvez tenham bastante medo do material que você está desenvolvendo.
— Então o que eu deveria fazer?
— Vá trabalhar e continue a pesquisa. Essa é a melhor maneira de contra-atacar. Não se preocupe com essa contagem regressiva de merda. Se quiser relaxar um pouco depois do expediente, entre naquele jogo. Se conseguir vencer, talvez ajude.
— Aquele jogo? Três Corpos? Você acha que tem alguma relação com isso tudo?
— Com certeza tem alguma relação. Eu sei que vários especialistas do Centro de Comando em Batalha estão jogando também. Não é um jogo normal. Alguém como eu, destemido por ignorância, não tem como jogar. Precisa ser alguém entendido como você.
— Mais alguma coisa?
— Não. Se eu descobrir mais, aviso. Deixe o celular ligado, meu amigo. Fique de cabeça fria e, se tiver medo de novo, é só lembrar minha regra básica.
Da Shi foi embora antes que Wang tivesse chance de agradecer.
* Er guo tou é uma bebida destilada feita a partir do sorgo; às vezes, é chamada de “vodca chinesa”.
11. TRÊS CORPOS: MO ZI E CHAMAS FLAMEJANTES
Antes de voltar para casa, Wang Miao parou em uma loja para comprar um traje V. Assim que chegou, sua mulher disse que as pessoas do trabalho tinham passado o dia inteiro tentando entrar em contato com ele.
Wang ligou o celular, viu as mensagens e retornou algumas ligações. Prometeu que iria para o trabalho no dia seguinte. Durante o jantar, seguiu o conselho de Da Shi e bebeu um pouco mais.
Mas não estava com sono. Depois que a esposa foi dormir, ele se sentou na frente do computador, colocou o traje V novo e entrou em Três Corpos.
Planície desolada ao nascer do sol.
Wang se encontrava diante da pirâmide do rei Zhou. As camadas de neve que cobriam a construção haviam desaparecido, e os blocos de pedra estavam marcados pela erosão. O chão estava com uma cor diferente. Ao longe, havia alguns edifícios imensos, que Wang imaginou serem desidratórios, mas tinham uma forma diferente dos que ele vira na outra vez.
Tudo indicava que haviam se passado eras inteiras.
Sob a luz fraca do amanhecer, Wang procurou uma entrada. Quando encontrou, viu que a abertura tinha sido bloqueada por blocos de pedra. No entanto, ao lado, uma escadaria escavada na pirâmide levava até o ápice. Ele olhou para cima e viu que o topo fora aplainado para formar uma plataforma. A pirâmide, que antes era de estilo egípcio, agora parecia asteca.
Wang subiu a escada e chegou ao ápice. A plataforma parecia um observatório astronômico da Antiguidade. Em um dos cantos, havia um telescópio com vários metros de altura, cercado por outros telescópios menores. Em outro canto, Wang viu alguns instrumentos estranhos que lembravam antigas esferas armilares chinesas, modelos de objetos celestes.
Logo sua atenção foi atraída para a grande esfera de cobre no centro da plataforma. Com dois metros de diâmetro, ela estava em cima de uma máquina complexa. Movida por inúmeras engrenagens, a esfera girava lentamente. Wang percebeu que a direção e a velocidade da rotação mudavam sem parar. Debaixo da máquina, havia uma cavidade quadrada ampla. Com a iluminação tênue proporcionada pelas tochas no interior, Wang viu vultos que pareciam ser de escravos girando uma roda, que fornecia energia para a máquina do topo.
Um homem se aproximou de Wang. Como o rei Wen, o homem estava de costas para a fresta de luz do horizonte, parecendo um par de olhos brilhantes flutuando na escuridão. Era magro e
alto, com um manto preto esvoaçante. O cabelo estava amarrado sem muito cuidado no topo da cabeça, deixando algumas mechas balançando ao vento.
— Oi — disse o homem. — Meu nome é Mo Zi.*
— Oi, eu sou Hairen.
— Ah, conheço você! — Mo Zi ficou animado. — Você era um seguidor do rei Wen lá na civilização número 137.
— Segui o rei até aqui, sim. Mas nunca acreditei em suas teorias.
— Tem razão. — Mo Zi fez um gesto solene com a cabeça para Wang, e então se aproximou mais. — Durante os trezentos e sessenta e dois anos em que você esteve ausente, a civilização renasceu mais quatro vezes. Essas civilizações sofreram para se desenvolver ao longo da alternância irregular de Eras Caóticas e Eras Estáveis. A mais curta só conseguiu avançar até metade da Idade da Pedra, mas a civilização número 139 bateu um recorde e progrediu até a Era Industrial.
— Quer dizer que as pessoas dessa civilização descobriram as leis que regem os movimentos do sol?
Mo Zi riu e balançou a cabeça.
— De jeito nenhum. Elas só deram sorte.
— Mas o esforço para desvendar esse movimento nunca parou?
— É claro que não. Venha comigo, quero mostrar os esforços da última civilização.
Mo Zi conduziu Wang até um dos cantos da plataforma de observação. A terra se estendia diante deles como um velho pedaço de couro. Mo Zi apontou um dos telescópios menores para um ponto no chão e fez um gesto para Wang, que olhou pelo visor e se deparou com algo estranho: um esqueleto. A luz do amanhecer produzia um reflexo branco como a neve e fazia o esqueleto parecer muito refinado.
Por incrível que pareça, o esqueleto ficava de pé por conta própria. Tinha um porte gracioso e elegante. Uma das mãos estava sob o queixo, como se afagasse uma barba havia muito perdida. A cabeça estava ligeiramente inclinada para cima, como se questionasse o céu e a terra.
— Aquele é Confúcio — disse Mo Zi. — Ele acreditava que tudo precisava se adequar ao li, o conceito de ordem e decência, e que nada no universo podia dispensá-lo. Ele criou um sistema de ritos e pretendia usá-lo para prever os movimentos do sol.
— Já imagino o resultado.
— E tem razão. Ele calculou que o sol seguiria os ritos e previu uma Era Estável de cinco anos. E quer saber? Realmente aconteceu uma Era Estável… que durou um mês.
— E então, certo dia, o sol não nasceu mais?
— Não, o sol nasceu nesse dia também. Subiu até o meio do céu e depois se apagou.
— O quê? Apagou?
— Sim. Foi diminuindo gradualmente, cada vez menor, até se apagar de repente. Veio a noite. Ah, o frio. Confúcio ficou ali parado, congelou e se transformou em uma coluna de gelo. Não se mexeu até agora.
— Restou alguma coisa no céu depois que o sol se apagou?
— Apareceu uma estrela voadora no lugar, como uma alma que tivesse ficado para trás após a
morte do sol.
— Quer dizer que o sol desapareceu de repente e a estrela voadora apareceu também de repente? Você tem certeza?
— Sim, absoluta. Pode conferir os registros históricos. Foi documentado com bastante clareza.
— Hmmm… — refletiu Wang. Embora já tivesse criado algumas hipóteses vagas sobre a mecânica do mundo de Três Corpos, essa informação de Mo Zi derrubou todas as suas teorias.
— Como é que pode ser… repentino? — murmurou ele, irritado.
— Agora estamos na dinastia Han. Não sei se é a Han Ocidental ou a Han Oriental.
— Você continuou vivo até agora?
— Tenho uma missão: observar os movimentos precisos do sol. Aqueles xamãs, metafísicos e taoistas são todos inúteis. Assim como os famosos homens das letras, que nem sequer seriam capazes de distinguir entre tipos de grãos, eles não realizam trabalhos manuais e não sabem de nada prático. Não têm habilidade alguma para realizar experimentos e passam o dia inteiro imersos em seu misticismo. Já eu sou diferente. Eu sei fazer coisas. — Ele apontou para os vários instrumentos na plataforma.
— Você acha que esses objetos vão ajudá-lo a cumprir sua meta? — Wang fez um gesto com a cabeça especificamente para a enorme esfera de cobre.
— Também tenho teorias, mas não são místicas. Elas derivam de muitas e muitas observações. Em primeiro lugar, você sabe o que o universo é? Uma máquina.
— Isso não é muito profundo.
— Serei mais específico: o universo é uma esfera oca que flutua no meio de um mar de fogo. A superfície tem vários furos minúsculos e um grande. A luz do mar de chamas atravessa esses furos. Os minúsculos são estrelas, e o grande é o sol.
— Esse modelo é muito interessante. — Wang olhou outra vez para a enorme esfera de cobre e imaginou qual seria o propósito daquilo. — Mas sua teoria tem um problema. Quando o sol nasce ou se põe, é possível ver seu movimento diante de um fundo de estrelas fixas. Já em sua esfera oca, todos os furos permanecem em posições fixas uns em relação aos outros.
— Correto! É por isso que modifiquei meu modelo. A esfera universal é feita de duas esferas, uma dentro da outra. O céu que vemos é a superfície da esfera interna. A externa tem um buraco grande, e a interna tem muitos furos pequenos. A luz que passa pelo buraco da esfera externa se reflete e dispersa várias vezes no espaço entre as duas esferas, enchendo-a de luz. Em seguida, a luz passa pelos furos minúsculos da esfera interna, e é assim que vemos as estrelas.
— E o sol?
— O sol é a projeção do buraco grande da esfera externa na interna. Essa projeção é tão luminosa que atravessa a esfera interna como se ela fosse uma casca de ovo, e é assim que vemos o sol. Em volta do ponto de luz, os raios dispersados são também muito intensos e podem ser vistos pela casca interna. É por isso que podemos ver um céu claro durante o dia.
— Que força é essa que impulsiona as duas esferas na movimentação irregular?
— É a força do mar de fogo em volta das duas esferas.
— Mas o brilho e o tamanho do sol mudam com o tempo. Em seu modelo de duas cascas, o tamanho e o brilho do sol deviam ser fixos. Ainda que o brilho das chamas no mar de fogo fosse
inconstante, o tamanho do buraco não seria.
— Sua concepção do modelo é simplista demais. À medida que as condições no mar de fogo variam, as duas cascas se expandem ou se contraem. Isso resulta na variação de tamanho e brilho do sol.
— E as estrelas voadoras?
— Estrelas voadoras? Por que você liga para isso? Elas nem são importantes. Talvez não passem de um punhado qualquer de poeira flutuando dentro das esferas universais.
— Não, acho que as estrelas voadoras são extremamente importantes. Caso contrário, como é que seu modelo explica o apagamento súbito do sol durante a época de Confúcio?
— Isso foi uma exceção rara. Talvez tenha sido por causa de um ponto escuro ou em razão de uma nuvem no mar de fogo que casualmente passou na frente do buraco grande na casca externa.
Wang apontou para a grande esfera de cobre.
— Então este deve ser o seu modelo.
— Sim. Construí uma máquina para replicar o universo. As engrenagens complexas que movem a esfera simulam as forças do mar de fogo. As leis que regem esse movimento se baseiam na distribuição das chamas e nas correntes do mar de fogo. Deduzi tudo a partir de centenas de anos de observação.
— Essa esfera pode se contrair e se expandir?
— Claro. Neste instante, está se contraindo lentamente.
Wang usou o corrimão na beirada da plataforma como referência visual fixa. Percebeu que a afirmação de Mo Zi estava correta.
— E existe uma casca interna dentro dessa esfera?
— Claro. A casca interna se move dentro da externa por meio de outro conjunto complexo de mecanismos.
— É mesmo uma máquina projetada com habilidade! — O elogio de Wang era sincero. — Só não estou vendo um buraco grande na casca externa que possa lançar a luz do sol na casca interna.
— Não tem nenhum buraco. Instalei uma fonte de luz na superfície interna da casca externa para simular o buraco. A fonte de luz é composta do material luminescente acumulado de centenas de milhares de vaga-lumes. Usei uma luz fria porque a casca interna é feita de gesso translúcido, que não é um condutor térmico muito bom. Dessa forma, evito o problema de excesso de calor dentro da esfera, o que aconteceria com uma fonte de luz normal. Assim, o observador pode ficar mais tempo no interior.
— Tem uma pessoa dentro da esfera?
— Sim. Um escriba fica em cima de uma estante com rodas na base, bem no centro da esfera. Depois que configuramos o universo-modelo para corresponder ao estado atual do universo real, o movimento do modelo deve produzir uma simulação correta do futuro, incluindo os movimentos do sol. Quando o escriba registrar os movimentos solares, teremos um calendário preciso. Diante de nós está o sonho de centenas de civilizações anteriores.
“E parece que você chegou em um momento oportuno. De acordo com o universo-modelo, está prestes a começar uma Era Estável de quatro anos. Com base na minha previsão, o
imperador Wu de Han acaba de dar a ordem de reidratar. Vamos esperar o amanhecer!”
Mo Zi abriu a interface do jogo e aumentou ligeiramente a passagem do tempo. Um sol vermelho se ergueu no horizonte, e os vários lagos congelados espalhados pela planície começaram a derreter. Antes cobertos de poeira e misturados à terra parda, esses lagos agora pareciam vários espelhos d’água, como se a terra tivesse aberto muitos olhos. Ali de cima, Wang não conseguia enxergar os detalhes da reidratação, mas dava para ver que mais e mais pessoas se reuniam às margens dos lagos, como uma infestação de formigas saindo dos formigueiros na primavera. O mundo havia sido revivido mais uma vez.
— Não quer fazer parte desta vida maravilhosa? — perguntou Mo Zi, apontando para o chão abaixo deles. — Quando as mulheres são revividas, elas desejam amar. Já não há motivos para você ficar mais tempo aqui. O jogo acabou. Eu venci.
— Como maquinário, seu universo-modelo é de fato incomparável. Mas, quanto às previsões… Posso usar seu telescópio para uma observação?
— Por favor. — Mo Zi indicou o telescópio grande.
Wang foi até o instrumento e hesitou.
— Como eu faço para observar o sol?
Mo Zi pegou um pedaço redondo de vidro preto.
— Use este filtro de vidro escurecido. — Inseriu o objeto no visor do telescópio.
Wang apontou o telescópio para o sol, que estava a meio caminho do alto do céu. Ficou impressionado com a imaginação de Mo Zi: o sol parecia mesmo um buraco por onde se entrevia um mar de fogo, um pequeno vislumbre de um todo muito maior.
Porém, ao examinar com mais atenção a imagem no telescópio, ele percebeu que o sol era diferente do que ele estava acostumado a ver na vida real. Ali, o sol tinha um núcleo pequeno. Wang imaginou o sol como um olho. O núcleo parecia a pupila do olho e, embora pequeno, era luminoso e denso. Em contrapartida, as camadas ao seu redor pareciam etéreas, difusas, vaporosas. O fato de que Wang era capaz de enxergar o núcleo atrás das camadas externas indicava que essas camadas eram transparentes ou translúcidas, e que sua luz provavelmente não passava da luz dispersada do núcleo.
Wang ficou chocado com os detalhes na imagem do sol. Mais uma vez, teve certeza de que os designers do jogo haviam escondido em imagens superficialmente simples uma quantidade colossal de dados, esperando que os jogadores os revelassem.
Refletindo sobre o significado da estrutura do sol, Wang ficou empolgado. Como o tempo do jogo estava passando aceleradamente, o sol já estava se pondo. Wang se ergueu, ajustou o telescópio para apontar para o sol de novo e acompanhou a trajetória até ele mergulhar no horizonte.
Caiu a noite, e as fogueiras na terra eram uma reprodução do céu estrelado. Wang tirou o filtro de vidro escurecido e continuou explorando o céu. Seu maior interesse era as estrelas voadoras, e logo encontrou duas. Só teve tempo de examinar rapidamente uma delas, e então o sol nasceu de novo. Ele inseriu o filtro e continuou observando…
Wang realizou observações astronômicas dessa forma durante mais de dez dias, desfrutando a emoção das descobertas. De fato, o tempo acelerado do jogo ajudava as observações, já que o
movimento dos corpos celestes ficava mais perceptível.
No décimo sétimo dia da Era Estável, cinco horas após o momento previsto para a alvorada, o mundo continuava imerso nas trevas da noite escura. Multidões se aglomeraram diante da pirâmide, e suas incontáveis tochas tremeluziam com o vento frio.
— O sol provavelmente não vai nascer de novo. Está parecendo com o fim da civilização número 137 — disse Wang a Mo Zi.
Mo Zi afagou a barba e deu um sorriso confiante.
— Não fique nervoso. O sol nascerá em breve, e a Era Estável continuará. Já descobri o segredo do movimento da máquina universal. Minhas previsões não podem estar erradas.
Como se quisesse confirmar as palavras de Mo Zi, o céu acima do horizonte se iluminou com os primeiros raios da aurora. A multidão em volta da pirâmide gritou de alegria.
A luz branca aumentou muito mais depressa do que o normal, como se o sol nascente quisesse compensar o tempo perdido. Logo a luz cobria metade do firmamento, embora o sol ainda estivesse abaixo do horizonte. O mundo já estava claro como se fosse o meio do dia.
Wang olhou para o horizonte e viu que ele emitia um brilho ofuscante. O horizonte luminoso se curvou para o alto e formou um arco que se estendia de uma extremidade à outra do campo de visão dele. Wang logo percebeu que não estava vendo o horizonte, mas a borda do sol nascente, um sol de tamanho incomensurável.
Quando seus olhos se acostumaram ao brilho intenso, o horizonte ressurgiu no lugar de sempre. Wang viu colunas de fumaça negra subindo ao longe, ainda mais nítidas diante do fundo luminoso do disco solar. Um cavaleiro galopava depressa na direção da pirâmide, deixando para trás o sol nascente, e a poeira levantada pelos cascos do animal formava uma linha perceptível na planície.
A multidão abriu caminho, e Wang ouviu o cavaleiro gritar com todas as forças:
— Desidratar! Desidratar!
O cavaleiro era seguido por uma manada de gado, cavalos e outros animais. O corpo deles estava pegando fogo, e avançavam pelo chão como um tapete em chamas.
Metade do gigantesco disco solar já havia se erguido no horizonte, ocupando grande parte do céu. A terra parecia estar se afundando aos poucos diante de uma parede de luz. Wang conseguiu ver com nitidez as estruturas sutis da superfície solar: marés e ondas que cobriam o mar de chamas; manchas solares à deriva seguiam caminhos aleatórios como fantasmas; a coroa se estendia languidamente, como braços dourados.
No chão, como se fossem inúmeras toras de lenha arremessadas para dentro de uma fornalha, pessoas desidratadas ou não haviam começado a queimar. As chamas que consumiam aquelas vidas eram ainda mais intensas que carvão em brasa, mas logo se apagaram.
O sol gigante continuou subindo e em pouco tempo ocupou a maior parte do céu. Wang olhou para cima e sentiu uma mudança de perspectiva. De repente, não estava mais olhando para cima, e sim para baixo. A superfície do sol gigante se tornou uma terra flamejante, e ele sentiu como se estivesse caindo em direção ao inferno brilhante.
Os lagos começaram a evaporar, e nuvens de vapor branco se ergueram como nuvens atômicas. Depois de subir, elas se expandiram e se dissiparam, cobrindo as cinzas dos mortos.
— A Era Estável vai continuar. O universo é uma máquina. Eu criei essa máquina. A Era Estável vai continuar. O universo…
Wang virou a cabeça. Aquela voz pertencia a Mo Zi, que já estava pegando fogo. O corpo dele estava envolto em uma alta colina flamejante laranja, e sua pele enrugou e se transformou em carvão. Ainda assim, os olhos preservaram um brilho que se distinguia do fogo que o consumia. As mãos, já pedaços de carvão em chamas, ergueram a nuvem de cinzas revolutas que havia sido o calendário dele.
Wang também estava pegando fogo. Ele levantou as mãos e viu duas tochas.
O sol avançou bruscamente para o oeste, revelando o céu atrás de si. O astro logo desceu no horizonte, e dessa vez o solo pareceu se erguer diante da parede brilhante. Um pôr do sol impressionante se transformou em noite, como se um par de mãos gigantes puxasse um véu preto sobre um mundo que havia se transformado em cinzas.
A terra brilhou com uma luminosidade vermelha fraca, como um pedaço de carvão recém-tirado de uma fornalha. Por um breve instante, Wang viu as estrelas, mas logo nuvens de vapor e fumaça cobriram o céu e tudo o que havia na terra incandescente. O mundo mergulhou em um caos profundo. Apareceu uma linha de texto vermelho:
A civilização número 141 foi arruinada pelas chamas. Essa civilização havia avançado até o Período Han Oriental.
A semente da civilização permanece. Ela germinará e voltará a desabrochar no mundo imprevisível de Três
Corpos.
Convidamos você a entrar novamente.
Wang tirou o traje V. Depois de se acalmar um pouco, pensou mais uma vez que Três Corpos era uma tentativa deliberada de fingir ser apenas uma ilusão, embora na verdade possuísse alguma realidade subjacente. Em contrapartida, o mundo real diante de Wang havia começado a parecer complexo na superfície, mas na verdade muito simples, Qingming Shanghe Tu.
No dia seguinte, Wang foi até o Centro de Pesquisa em Nanotecnologia. Exceto por uma ligeira confusão motivada por sua ausência no dia anterior, tudo estava normal. O trabalho foi um calmante eficaz para ele. Enquanto esteve absorto, Wang não se preocupou com suas inquietações perturbadoras. Ele fez questão de permanecer ocupado o dia inteiro e só saiu do laboratório à noite.
Pouco depois de deixar o edifício do Centro de Pesquisa, Wang voltou a ser tomando pela sensação perturbadora. Sentia que o céu estrelado era uma lupa acima do mundo, e que ele era um inseto minúsculo sob a lente, sem ter onde se esconder.
Wang precisava se ocupar com alguma coisa. Então pensou em Ye Wenjie, a mãe de Yang Dong, e foi até a casa dela.
Ye estava sozinha. Quando Wang entrou, ela estava sentada no sofá, lendo. Wang percebeu que ela era míope e tinha vista cansada: Ye precisava trocar de óculos sempre que lia ou tinha que olhar para algo distante. Ela ficou muito feliz de ver Wang e disse que ele parecia muito melhor do que na visita anterior.
Wang deu uma risada.
— Tudo por causa de seu ginseng. Ye balançou a cabeça.
— O que eu lhe dei não era muito bom. A gente costumava encontrar ginseng silvestre de excelente qualidade nas redondezas da base. Uma vez achei um deste tamanho… Como será que aquilo está agora? Ouvi dizer que o lugar está deserto. Bom, acho que estou ficando velha mesmo. Hoje em dia, vivo pensando no passado.
— Ouvi falar que a senhora sofreu muito durante a Revolução Cultural.
— Foi Ruishan quem falou, não é? — Ye fez um gesto com a mão, como se tentasse afastar um fiapo de teia de aranha. — No passado, está tudo no passado… Ontem à noite, Ruishan me ligou. O rapaz estava tão agitado que foi difícil entender o que estava dizendo. Só consegui compreender que havia acontecido algo com você. Xiao Wang, preste atenção: quando você chegar à minha idade, vai perceber que tudo aquilo que parecia muito importante na verdade não importa quase nada.
— Obrigado — respondeu Wang.
Mais uma vez experimentou a alegria que vinha lhe fazendo tanta falta. Na condição atual, sua estabilidade mental dependia de dois pilares: aquela senhora idosa, que havia superado muitas tempestades e se tornado serena como a água, e Shi Qiang, o homem que não tinha medo de nada porque não sabia de nada.
— No que diz respeito à Revolução Cultural — continuou Ye —, tive bastante sorte. Quando eu achava que não tinha mais para onde ir, encontrei um lugar onde poderia sobreviver.
— A senhora se refere à Base Costa Vermelha?
— Aquilo foi realmente um projeto incrível. Eu achava que era tudo boato.
— Boatos, não. Se você quiser, posso contar um pouco do que vivi.
— Professora Ye, não passa de curiosidade. A senhora não precisa me contar, se não quiser.
— Não tem problema. Vamos supor que eu esteja precisando de alguém para me escutar.
— A senhora poderia fazer uma visita ao centro de convivência para idosos. Não se sentiria tão solitária se fosse lá de vez em quando.
— Muitos dos frequentadores eram meus colegas na universidade, mas, por algum motivo, não consigo me juntar a eles. Todos gostam de relembrar o passado, mas ninguém quer escutar, e todos ficam irritados quando outra pessoa conta uma história. Você é o único que está interessado na Costa Vermelha.
— Mas me falar dessas coisas… não é proibido?
— É verdade… ainda é confidencial. Só que depois da publicação daquele livro muitas outras pessoas que participaram do projeto começaram a contar suas histórias, então são meio que segredos conhecidos. O homem que escreveu aquele livro foi muito irresponsável. Mesmo sem levar em conta as motivações que teve, muitos detalhes do conteúdo estavam errados. Eu devia pelo menos corrigir esses erros.
Ye Wenjie então começou a contar a Wang sobre o que aconteceu com ela durante os anos passados na Costa Vermelha.
* Mo Zi fundou a escola de filosofia moísta durante o Período dos Reinos Combatentes. O próprio Mo Zi advogava pela importância da experiência e da lógica e era tido como um engenheiro e geômetra talentoso.
12. COSTA VERMELHA II
Ye não recebeu nenhuma função importante ao chegar à Base Costa Vermelha. Diante da vigilância atenta de um guarda, ela só tinha permissão para realizar algumas atividades técnicas.
Quando ainda estava no segundo ano da faculdade, Ye já havia conhecido o professor que se tornaria seu orientador para o trabalho de conclusão de curso. Ele havia comentado que, para Ye desenvolver pesquisas em astrofísica, não adiantava nada dominar a teoria sem conhecer métodos experimentais e técnicas de observação — pelo menos não na China. Embora o pai de Ye tivesse uma opinião muito diferente, ela tendia a concordar com o professor. Ye sempre tivera a impressão de que o pai era teórico demais.
Seu orientador era um dos pioneiros da radioastronomia na China. Influenciada por ele, Ye também desenvolveu um grande interesse por radioastronomia, estudando por conta própria engenharia elétrica e ciências da computação, que eram a base para realizar experimentos e observações na área. Durante os dois anos do curso de pós-graduação, eles testaram o primeiro radiotelescópio de pequena escala da China e acumularam muita experiência no ramo.
Ela nunca havia imaginado que esse conhecimento algum dia viria a ser útil na Base Costa Vermelha.
Com o tempo, Ye foi designada para o Departamento de Transmissão, encarregado pela manutenção e pelos reparos dos equipamentos. Logo ela se tornou parte indispensável das operações.
A princípio, achou essa situação um pouco confusa. Ye era a única pessoa da base que não usava farda. E, considerando seu status político, todos mantinham distância dela. Para superar a solidão, ela acabou se entregando de corpo e alma ao trabalho. No entanto, isso não bastava para explicar por que a base contava tanto com ela. Afinal, aquele era um projeto crucial de defesa. Como era possível que a equipe técnica fosse tão medíocre a ponto de Ye, sem diploma de engenharia nem qualquer experiência profissional de verdade, ter conseguido assumir sem maiores dificuldades o trabalho deles?
Ela não demorou a descobrir o motivo. Ao contrário das aparências, a equipe da base era composta pelos melhores oficiais técnicos do 2º Corpo de Artilharia. Mesmo se passasse a vida inteira estudando, Ye jamais chegaria aos pés daqueles excepcionais engenheiros elétricos e técnicos de computação. No entanto, a base ficava isolada, as condições eram péssimas, e o grosso do trabalho de pesquisa do Projeto Costa Vermelha já estava feito. Como só restavam atividades de manutenção, não havia muito espaço para resultados técnicos interessantes. A maioria das pessoas não queria se tornar indispensável, porque todos sabiam que, em projetos
altamente confidenciais como aquele, quando alguém era designado para uma função técnica essencial, dificilmente obteria uma transferência para fora da base. Por isso, todo mundo fazia um esforço deliberado para disfarçar a própria competência técnica no dia a dia de trabalho.
Mas ninguém podia parecer incompetente demais. Então, se o supervisor dissesse que era preciso ir para o leste, as pessoas se esforçariam muito para ir para o oeste, fingindo ignorância. A ideia era fazer o supervisor pensar o seguinte: Esse homem está trabalhando muito, mas tem capacidade limitada. Não adianta nada mantê-lo aqui, pois ele só vai atrapalhar. Muitos chegaram a conseguir uma transferência usando esse método.
Nessas condições, Ye se tornou aos poucos uma técnica essencial para a base. Mas o outro motivo que lhe permitiu alcançar essa posição a intrigava, e ela não conseguiu descobrir nenhuma explicação: a Base Costa Vermelha — pelo menos as áreas conhecidas por Ye — não possuía nenhuma tecnologia realmente avançada.
Com o passar do tempo, à medida que Ye prosseguia com seu trabalho no Departamento de Transmissão, as restrições impostas a ela foram sendo atenuadas, e até mesmo o guarda encarregado de vigiá-la acabou sendo transferido para outra função. Ye foi autorizada a mexer na maioria dos componentes dos sistemas da Costa Vermelha e a ler os documentos técnicos relevantes. Claro, ainda havia áreas de acesso proibido para Ye. Entre outros setores, ela não podia chegar nem perto dos sistemas de controle dos computadores. No entanto, Ye descobriu que esses sistemas exerciam um impacto muito menor na Costa Vermelha do que ela havia imaginado. Por exemplo, os computadores do Departamento de Transmissão se limitavam a três máquinas ainda mais primitivas que o DJS130.1 Os aparelhos usavam uma memória de núcleo magnético ineficiente e fita de papel como dispositivo de entrada, e o tempo máximo de funcionamento não passava de quinze horas. Ye também percebeu que a precisão do sistema de mira da Costa Vermelha era muito ruim, provavelmente até pior do que o de um canhão de artilharia.
Certo dia, o comissário Lei procurou Ye para uma conversa. Àquela altura, Yang Weining e Lei Zhicheng haviam trocado de lugar aos olhos dela. Durante aqueles anos, na condição de oficial técnico de patente mais alta, Yang não tinha um status político elevado nem muita autoridade em questões que não fossem técnicas. Ele precisava tomar cuidado com seus subordinados e falar com educação até mesmo com sentinelas, para não acabar tachado de intelectual resistente à reforma do pensamento e à colaboração com as massas. Assim, sempre que ele enfrentava dificuldades no trabalho, Ye virava seu saco de pancadas. No entanto, à medida que Ye foi ganhando importância como integrante da equipe técnica, o comissário Lei deixou de lado a grosseria e a frieza inicial e passou a tratá-la com gentileza.
— Wenjie — disse o comissário Lei —, a esta altura, você já conhece bastante bem o sistema de transmissão, que é também o componente ofensivo da Costa Vermelha, a principal peça. Você poderia me dizer sua opinião sobre o sistema como um todo?
Eles estavam sentados na beirada de um penhasco íngreme no pico do Radar, o lugar mais isolado da base. O penhasco parecia se abrir direto para um abismo infinito. No início, Ye tinha medo daquele lugar, mas com o tempo passou a gostar de ir ali sozinha.
Ye não sabia bem como responder à pergunta do comissário Lei. Ela só era responsável pela
manutenção dos equipamentos e não conhecia nada da Costa Vermelha como um todo, nem das operações, nem dos alvos etc. Na verdade, não tinha permissão para saber. Nem sequer tinha permissão para estar presente durante a transmissão. Ela refletiu sobre a questão, começou a falar e se conteve.
— Vá em frente, diga o que está pensando — pediu o comissário Lei, que arrancou uma folha de grama e ficou brincando com ela, distraído.
— É… é só um radiotransmissor.
— Isso mesmo, é só um radiotransmissor. — O comissário fez um gesto satisfeito com a cabeça. — Você conhece os fornos de micro-ondas?
Ye balançou a cabeça.
— São brinquedinhos de luxo do Ocidente capitalista. A comida é aquecida pela energia gerada ao absorver radiação de micro-ondas. Em minha estação de pesquisa anterior, para testarmos com precisão o envelhecimento de alta temperatura de certos componentes, importamos um aparelho desses. Depois do trabalho, a gente usava para esquentar pães mantou, assar batatas, esse tipo de coisa. É muito interessante. O interior se aquece enquanto a parte externa continua fria.
O comissário Lei se levantou e ficou andando de um lado para o outro. Estava tão perto da beirada do penhasco que deixou Ye nervosa.
— A Costa Vermelha é um forno de micro-ondas, e os alvos aquecidos são as naves espaciais inimigas. Se pudermos aplicar radiação de micro-ondas em um nível de energia específico de um décimo de watt por centímetro quadrado, conseguiremos incapacitar ou destruir muitos componentes eletrônicos de satélites de comunicações, radares e sistemas de navegação.
Ye finalmente entendeu. Embora a Costa Vermelha fosse apenas um radiotransmissor, estava longe de ser convencional. O aspecto mais surpreendente era a potência de transmissão: até vinte e cinco megawatts! Isso não era só mais potente do que qualquer transmissão de comunicações, mas também do que qualquer transmissão de radar. A Costa Vermelha contava com um conjunto de capacitores gigantescos. Como o consumo de energia era muito alto, os circuitos de transmissão também eram diferentes dos projetos convencionais. Ye agora entendia o propósito dessa potência ultra-alta no sistema, mas algo pareceu errado logo de cara.
— A emissão do sistema parece modulada.
— Isso mesmo. No entanto, a modulação não é igual à usada em comunicações convencionais via rádio. O objetivo não é acrescentar informações, mas alterar frequências e amplitudes para penetrar possíveis blindagens do inimigo. Claro, isso ainda é experimental.
Ye assentiu com a cabeça. Muitas de suas perguntas agora tinham resposta.
— Recentemente, dois satélites-alvo foram lançados a partir de Jiuquan. Os testes de ataque da Costa Vermelha foram realizados com sucesso. A temperatura dentro dos satélites chegou a quase mil graus, e todos os instrumentos e equipamentos fotográficos a bordo foram destruídos. Em guerras no futuro, a Costa Vermelha pode atingir os satélites de comunicações e reconhecimento do inimigo, como os satélites espiões KH-8, que os imperialistas americanos usam, assim como os KH-9, que estão prestes a ser lançados. Os satélites espiões dos revisionistas soviéticos, que têm uma órbita mais baixa, são ainda mais vulneráveis. Se for necessário, temos até capacidade para destruir a estação espacial Salyut, dos revisionistas soviéticos, e a Skylab, que os imperialistas americanos pretendem lançar no ano que vem.
— Comissário! O que você está contando para ela? — perguntou alguém atrás de Ye. Ela se virou e viu o engenheiro-chefe Yang Weining, que encarava o comissário Lei com um olhar grave.
— Isso é para o trabalho — respondeu o comissário Lei, antes de ir embora. Yang olhou para Ye sem falar nada e saiu. Ye ficou sozinha.
Foi ele quem me trouxe para cá, mas ainda não confia em mim, pensou Ye, desolada. Ela estava apreensiva com o comissário Lei. Na base, Lei tinha mais autoridade do que Yang, já que o comissário dava a palavra final na maioria das questões importantes. No entanto, a pressa com que Lei saiu com Yang parecia indicar que ele acreditava ter sido flagrado fazendo algo errado pelo engenheiro-chefe. Ye deduziu que Lei havia tomado uma decisão pessoal ao lhe revelar o verdadeiro objetivo do Projeto Costa Vermelha.
O que vai acontecer com ele agora? Ao olhar para as costas corpulentas do comissário Lei, ela sentiu uma onda de gratidão. Para Ye, confiança era um luxo que não se atrevia a desejar. Na comparação com Yang, Lei era quem mais se aproximava da imagem que ela fazia de um oficial militar de verdade, com a postura franca e direta de um soldado. Yang, por sua vez, nada mais era do que um intelectual típico da época: cauteloso, inseguro, interessado apenas na própria proteção. Embora Ye compreendesse aquilo, o vasto abismo entre os dois aumentou.
No dia seguinte, Ye foi retirada do Departamento de Transmissão e transferida para o Departamento de Monitoração. A princípio, achou que a mudança tivesse relação com o incidente do dia anterior, uma tentativa de afastá-la do núcleo da Costa Vermelha. Porém, ao chegar ao Departamento de Monitoração, percebeu que aquilo parecia mais o coração da Costa Vermelha. Embora os dois departamentos dividissem alguns recursos, como a antena, o nível da tecnologia do Departamento de Monitoração era muito mais avançado.
O Departamento de Monitoração tinha um radiorreceptor muito sofisticado e sensível. Um maser2 de ondas progressivas com cristal de rubi amplificava os sinais recebidos pela antena gigante e, para minimizar a interferência, o núcleo do sistema receptor estava imerso em hélio líquido a –269 graus Celsius. Assim, o sistema receptor era capaz de captar até mesmo sinais muito fracos. Ye não podia deixar de imaginar como aquele equipamento seria maravilhoso para estudos em radioastronomia.
O sistema de computadores do Departamento de Monitoração também era muito maior e mais complexo do que o do Departamento de Transmissão. Ao entrar pela primeira vez na sala de controle principal, Ye viu uma fileira de telas de tubo de raios catódicos. Ficou impressionada ao observar que todas exibiam linhas de programação e que os operadores podiam editar e testar os códigos com o teclado. Quando tinha aprendido programação na faculdade, o código-fonte sempre era escrito nas marcações de papéis de programação especiais e, depois, transferido para uma fita de papel com uma máquina de escrever. Ye ouvira falar de teclados e telas como dispositivos de entrada, mas era a primeira vez que via aquilo.
Os softwares disponíveis a deixaram ainda mais impressionada. Ye aprendeu sobre algo chamado FORTRAN, que permitia que a programação usasse uma linguagem semelhante à
linguagem natural. Dava até para inserir equações matemáticas diretamente no código! Programar com isso era muitíssimo mais eficiente do que programar com linguagem de máquina. E havia também um negócio chamado base de dados, que facilitava o armazenamento e a manipulação de quantidades imensas de informação.
Dois dias depois, o comissário Lei chamou Ye para mais uma conversa. Dessa vez, eles estavam na sala de controle principal do Departamento de Monitoração, na frente da fileira de telas de luz verde. Yang Weining se sentou perto deles, sem fazer parte da conversa, mas também sem querer sair, o que deixou Ye bastante incomodada.
— Wenjie — começou o comissário Lei —, vou explicar o trabalho do Departamento de Monitoração. Em poucas palavras, o objetivo é buscar atividades inimigas no espaço, interceptar comunicações das embarcações espaciais inimigas entre si e com o solo, colaborar com nossos centros de telemetria, rastreamento e comando para determinar a órbita de embarcações espaciais inimigas e fornecer informações aos sistemas de combate da Costa Vermelha. Resumindo, os olhos da Costa Vermelha estão aqui.
— Comissário Lei — interrompeu Yang —, acho que o que o senhor está fazendo não é uma boa ideia. Não precisa contar essas coisas para ela.
Ye olhou para Yang e disse, ansiosa:
— Comissário, se isso não for adequado, então…
— Não, não, Wenjie. — O comissário levantou a mão para interromper Ye e se virou para Yang. — Chefe Yang, vou repetir o que disse em outro momento. Isso é para o trabalho. Para que Wenjie possa cumprir melhor suas obrigações, precisa saber dos objetivos.
Yang se levantou.
— Relatarei isso aos nossos superiores.
— Claro, é um direito seu. Mas não se preocupe, chefe Yang, eu assumirei a responsabilidade por qualquer coisa.
Yang saiu com uma expressão fechada.
— Não se preocupe com o chefe Yang. É só o jeito dele. — O comissário Lei deu uma risadinha e balançou a cabeça. Em seguida, olhou para Ye e assumiu uma entonação solene. — Wenjie, quando trouxemos você para a base, o objetivo era simples. Os sistemas de monitoramento da Costa Vermelha costumavam sofrer interferência causada pela radiação eletromagnética de explosões e manchas solares. Por coincidência, vimos seu artigo e percebemos que você havia estudado as atividades solares. Como entre os pesquisadores chineses seu modelo de previsão era o mais preciso, resolvemos pedir sua ajuda para resolver esse problema.
“Só que, depois que você chegou, demonstrou ter muito talento, então decidimos lhe atribuir mais responsabilidades. Minha ideia foi a seguinte: nomeá-la primeiro para o Departamento de Transmissão e depois para o Departamento de Monitoração. Desse modo, você obteria uma compreensão abrangente da Costa Vermelha como um todo e nós poderíamos esperar para ver que outra função delegar mais à frente.
“Claro, como você pode ver, esse plano enfrentou alguma resistência. Mas eu confio em você, Wenjie. Quero deixar claro: até agora, a confiança depositada em você é toda minha, pessoal.
Espero que você possa continuar trabalhando muito e conquiste a confiança de toda a organização.”
O comissário Lei colocou a mão no ombro de Ye. Ela sentiu a simpatia e a força daquele gesto.
— Wenjie, vou dizer o que espero que aconteça: um dia, ainda pretendo chamá-la de camarada Ye.
Lei se levantou e saiu andando com o porte confiante dos soldados. Ye sentiu os olhos se encherem de lágrimas, fazendo com que os códigos de programação na tela parecessem chamas inconstantes. Aquela foi a primeira vez que ela chorou desde a morte do pai.
Conforme se acostumava com o trabalho do Departamento de Monitoração, Ye descobriu que ali se destacava muito menos do que no Departamento de Transmissão. Seu conhecimento em ciências da computação estava desatualizado, e ela precisou aprender as técnicas de programação do zero. Embora o comissário Lei confiasse nela, Ye continuava sob restrições severas: por exemplo, tinha autorização para ver o código-fonte dos programas, mas não podia chegar nem perto da base de dados.
No dia a dia, Ye permanecia principalmente sob a supervisão de Yang, que passou a tratá-la de maneira ainda mais grosseira e ficava irritado com ela por qualquer motivo. O comissário Lei conversou com ele sobre isso diversas vezes, em vão. Parecia que Yang era consumido por uma ansiedade misteriosa assim que via Ye.
Aos poucos, à medida que foi percebendo cada vez mais elementos inexplicáveis no trabalho, Ye se deu conta de que o Projeto Costa Vermelha era muito mais complexo do que havia imaginado.
Certo dia, o sistema de monitoramento interceptou uma transmissão que, após decodificação por computador, revelou ser algumas fotos de satélite. As imagens desfocadas foram enviadas à Seção de Exploração e Mapeamento do Estado-Maior, que após proceder à interpretação descobriu que eram fotos de alvos militares importantes na China, incluindo o porto naval de Qingdao e algumas fábricas importantes do programa Terceira Frente.3 Os analistas confirmaram que as imagens tinham origem no sistema de reconhecimento americano KH-9.
O primeiro satélite KH-9 acabara de ser lançado. Embora concebido sobretudo para recuperar imagens para os serviços de inteligência, o satélite também estava sendo usado para testar uma técnica mais avançada de transmissão via rádio de imagens digitais. Como a tecnologia ainda não estava muito desenvolvida, o satélite transmitia a uma frequência baixa, o que aumentava a faixa de recepção o bastante para que pudesse ser interceptada pela Costa Vermelha. Além disso, como era apenas um teste, a criptografia não era muito complexa e podia ser decifrada com pouca dificuldade.
Sem dúvida, o KH-9 era um alvo importante para ser monitorado, pois representava uma oportunidade rara de obter mais informações sobre os sistemas de reconhecimento via satélite dos americanos. Porém, depois do terceiro dia, Yang Weining deu ordem para mudar a frequência e a direção do monitoramento e abandonou o alvo. Ye não conseguia entender essa decisão.
Outra situação também a deixou chocada. Embora Ye agora fizesse parte do Departamento de
Monitoração, às vezes o Departamento de Transmissão ainda precisava de sua ajuda. Certa vez, viu sem querer os ajustes de frequência de algumas das transmissões futuras. Descobriu que as frequências designadas para as transmissões 304, 318 e 325 estavam abaixo da faixa de micro-ondas e não resultariam em nenhum efeito de aquecimento no alvo.
Um dia, do nada, um oficial chamou Ye para a sala da administração central da base.
Considerando o tom e a expressão do oficial, Ye percebeu que algo não estava certo.
Ao entrar na sala, a cena lhe pareceu familiar: todos os oficiais superiores da base estavam presentes, além de outros dois que ela não conhecia. No entanto, só de olhar ela percebeu que eles estavam acima na hierarquia.
Todos aqueles olhares frios se viraram para Ye. Porém, graças à sensibilidade desenvolvida nos anos turbulentos, ela se deu conta de que não era a única pessoa em apuros por ali. Na pior das hipóteses, era uma coadjuvante. O comissário Lei estava sentado em um canto, com uma expressão desolada.
Ele finalmente vai pagar por ter confiado em mim, pensou ela. Na mesma hora, Ye decidiu que faria o possível para salvá-lo: assumiria a responsabilidade por tudo e até mentiria, se fosse preciso.
Só que o comissário Lei foi o primeiro a se manifestar, e suas palavras revelaram algo completamente inesperado.
— Ye Wenjie, devo deixar claro desde já que não concordo com o que está prestes a acontecer. A decisão foi tomada pelo engenheiro-chefe Yang, após consulta a nossos superiores. Ele será o único responsável por todas as consequências.
O comissário Lei se virou para Yang, que fez um gesto solene com a cabeça.
— Para que pudéssemos aproveitar melhor suas competências na Base Costa Vermelha — continuou Lei —, o engenheiro-chefe Yang solicitou reiteradamente a nossos superiores permissão para abandonar a história de fachada e abrir o jogo com você. Nossos camaradas do Departamento de Política do Exército — ele indicou os dois oficiais que Ye não conhecia — foram enviados para investigar sua situação profissional. Por fim, com a aprovação dos nossos superiores, decidimos informá-la da verdadeira natureza do Projeto Costa Vermelha.
Só depois de uma longa pausa foi que Ye enfim entendeu o significado das palavras do comissário Lei: ele havia mentido para ela o tempo todo.
— Espero que você valorize esta oportunidade e trabalhe muito para redimir seus pecados. A partir de agora, sua postura deverá ser impecável. Qualquer comportamento reacionário será punido com rigor! — O comissário Lei encarou Ye. Era uma pessoa completamente diferente da imagem que Ye havia formado. — Ficou claro? Ótimo. Agora o chefe Yang pode explicar.
Os outros saíram, deixando na sala apenas Yang e Ye.
— Se você não quiser, ainda dá tempo.
Ye percebeu o peso por trás dessas palavras. Enfim compreendia a ansiedade de Yang sempre que se esbarravam nas últimas semanas. Para que pudessem aproveitar totalmente as competências dela, seria necessário abrir o jogo sobre a Costa Vermelha. No entanto, essa decisão apagaria o último raio de esperança de uma possível saída do pico do Radar. Se dissesse sim, Ye realmente passaria o resto da vida na Base Costa Vermelha.
— Eu aceito.
Assim, naquela noite de começo de verão, enquanto o vento uivava na gigantesca antena parabólica e a floresta se agitava na distante cordilheira Grande Khingan, Yang Weining explicou a Ye Wenjie a verdadeira natureza da Costa Vermelha.
Era um conto de fadas extraordinário, ainda mais inacreditável que as mentiras do comissário Lei.
1. Minicomputador chinês de dezesseies bits projetado com base no modelo americano Data General Nova.
2. Parecido com um laser, mas usado para radiação eletromagnética, geralmente micro-ondas, fora do espectro da luz visível.
3. O programa Terceira Frente era um esforço militar secreto de industrialização durante a Revolução Cultural, com o objetivo de construir fábricas no interior da China, onde seriam menos vulneráveis a ataques americanos e soviéticos.
13. COSTA VERMELHA III
DOCUMENTOS SELECIONADOS DO PROJETO COSTA VERMELHA
Estes documentos perderam o status de confidencial três anos depois que Ye Wenjie revelou a Wang Miao os bastidores da Costa Vermelha e proporcionam informações complementares ao que ela contou.
I. Uma questão amplamente ignorada pelas tendências da pesquisa científica mundial de base
(Publicado originalmente em Referência Interna, XX/XX/196X)
[Resumo] Levando em consideração a história moderna e contemporânea, existem dois caminhos possíveis para que os resultados de pesquisas científicas de base sejam convertidos em aplicações práticas: o modo gradualista e o modo saltacional.
Modo gradualista: resultados teóricos de base são aplicados gradualmente à tecnologia; avanços se acumulam até que seja realizada uma descoberta. Exemplos recentes incluem o desenvolvimento da tecnologia espacial.
Modo saltacional: resultados teóricos de base se tornam tecnologia aplicada rapidamente, levando a um salto tecnológico. Exemplos recentes incluem o aparecimento de armas nucleares. Até os anos 1940, alguns dos mais brilhantes físicos ainda achavam que jamais seria possível liberar a energia do átomo. Mas as armas nucleares apareceram logo depois. Definimos a ocorrência de um salto tecnológico quando uma grande faixa da ciência de base se converte em tecnologia durante um intervalo de tempo extremamente breve.
Neste momento, tanto a Otan quanto o Pacto de Varsóvia atuam e investem maciçamente em pesquisa de base, de modo que um ou dois saltos tecnológicos podem acontecer a qualquer momento. Esses acontecimentos representarão uma ameaça significativa ao nosso planejamento estratégico.
Este artigo defende que atualmente estamos orientados demais para o modo gradualista de desenvolvimento tecnológico, sem prestar atenção suficiente à possibilidade de saltos tecnológicos. Partindo de uma posição mais favorável, deveríamos elaborar uma estratégia abrangente e um conjunto amplo de princípios para que possamos apresentar uma resposta apropriada quando ocorrerem saltos tecnológicos.
Áreas em que é mais provável a ocorrência de saltos tecnológicos:
Física: [omitido]
Biologia: [omitido]
Ciências da computação: [omitido]
Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti): de todas as áreas, esta é a que apresenta maior possibilidade de salto tecnológico. Se ocorrer um salto nesta área, o impacto será superior ao total dos saltos tecnológicos ocorridos nas outras três áreas.
[Texto completo] [omitido]
[Instruções da Liderança Central] Distribuir este artigo para a equipe apropriada e organizar grupos de discussão. Nem todos vão concordar com as opiniões deste artigo, mas não podemos rotular o autor de maneira intempestiva. O importante é considerar o raciocínio do autor a longo prazo. Alguns camaradas são incapazes de enxergar além do próprio nariz, talvez em razão do ambiente político mais complexo, talvez em virtude de sua própria arrogância. Isso não é bom. Pontos cegos estratégicos são extremamente perigosos.
Na minha opinião, entre as quatro áreas passíveis de saltos tecnológicos, a que menos observamos é a última. Ela merece alguma dose de atenção, e deveríamos analisar a questão sistematicamente e a fundo.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
II. Relatório de estudo sobre a possibilidade de saltos tecnológicos em decorrência da busca por inteligência extraterrestre
1. Tendências atuais da pesquisa internacional [Resumo]
(1) Estados Unidos e outras nações da Otan: o caso científico e a necessidade do programa Seti são aceitos de modo geral, e há forte apoio da academia.
Projeto Ozma: em 1960, o Observatório Radioastronômico Nacional de Green Bank, na Virgínia Ocidental, procurou inteligência extraterrestre com um radiotelescópio de vinte e seis metros de diâmetro. O projeto examinou as estrelas Tau Ceti e Epsilon Eridani ao longo de duzentas horas, usando faixas próximas da frequência de 1420 giga-hertz. O projeto Ozma II, que analisará mais alvos e uma faixa de frequências maior, está planejado para 1972.
Sondas: as sondas Pioneer 10 e Pioneer 11, cada uma contendo uma placa de metal com informações sobre nossa civilização na Terra, estão com lançamento previsto para 1972. As sondas Voyager 1 e Voyager 2, cada uma contendo uma gravação de áudio, estão com lançamento previsto para 1977.
Observatório de Arecibo, Porto Rico: construído em 1963, é um instrumento importante para o Seti. Tem uma área de coleta de cerca de 80 mil metros quadrados, extensão maior do que a soma das áreas de coleta de todos os outros radiotelescópios do mundo. Quando combinado ao sistema de computadores do observatório, é capaz de monitorar ao mesmo tempo 65 mil canais, além de realizar transmissões de energia ultra-alta.
(2) União Soviética: embora haja poucas fontes de inteligência disponíveis, existem indicações de grandes investimentos na área. Em comparação com países da Otan, a pesquisa parece mais sistemática e de longo prazo. De acordo com certos canais de informação isolados, existem planos para construir um sistema global de radiotelescópios de síntese de abertura em interferometria de linha de base muito longa (VLBI). Quando o sistema estiver concluído, será o mais potente do mundo para exploração do espaço sideral.
2. Análise preliminar de padrões sociais de civilizações extraterrestres mediante uma concepção materialista da história [omitido]
3. Análise preliminar da influência de civilizações extraterrestres em tendências sociais e políticas da humanidade [omitido]
4. Análise preliminar da influência que um possível contato com civilizações extraterrestres exercerá nos padrões internacionais da atualidade
(1) Contato unidirecional (apenas a recepção de mensagens enviadas por uma inteligência extraterrestre): [omitido]
(2) Contato bidirecional (troca de mensagens com uma inteligência extraterrestre e contato direto): [omitido]
5. Perigo e consequências do contato inicial de superpotências com uma inteligência extraterrestre e do monopólio desse contato
(1) Análise das consequências caso os imperialistas americanos e a Otan façam o primeiro contato com uma inteligência extraterrestre e monopolizem esse contato: [ainda sigiloso]
(2) Análise das consequências caso os revisionistas soviéticos e o Pacto de Varsóvia façam o primeiro contato com uma inteligência extraterrestre e monopolizem esse contato: [ainda sigiloso]
[Instruções da Liderança Central] Outras nações já enviaram mensagens para o
espaço. É perigoso se os extraterrestres só ouvirem a voz delas. Também precisamos nos pronunciar. Só assim eles terão uma imagem completa da sociedade humana. Não é possível saber a verdade ouvindo apenas um dos lados. Devemos providenciar isso o quanto antes.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
III. Relatório de estudo sobre a fase inicial do Projeto Costa Vermelha (XX/XX/196x)
ULTRASSECRETO
Número de cópias: 2
Documento do resumo: Documento central número XXXXXX, encaminhado à Comissão de Ciência, Tecnologia e Indústria para a Defesa Nacional, à Academia Chinesa de Ciências e à Comissão Central de Planejamento do Departamento de Defesa Nacional; divulgado no Congresso XXXXXX e no Congresso XXXXXX; divulgado parcialmente no Congresso XXXXXX.
Número de Série do Tema: 3760
Codinome: “Costa Vermelha”
1. Objetivo [Resumo]
Busca pela possível existência de inteligência extraterrestre e tentativa de estabelecer contato e comunicação.
2. Estudo teórico do Projeto Costa Vermelha
(1) Busca e monitoramento
Faixa de frequências de monitoramento: 1000 MHZ a 40 000 MHZ
Canais de monitoramento: 15 000
Principais frequências monitoradas:
Frequência do átomo de hidrogênio em 1420 MHz
Frequência da radiação do radical hidroxila em 1667 MHz
Frequência da radiação da molécula de água em 22 000 MHz
Faixa de alcance: uma esfera com a Terra no centro e mil anos-luz de raio, contendo aproximadamente 20 milhões de estrelas. Para uma lista de alvos, favor conferir o Apêndice 1.
(2) Transmissão de mensagens
Frequências de transmissão: 2800 MHz, 12 000 MHz, 22 000 MHz
Potência de transmissão: 10-25 megawatts
Alvos de transmissão: uma esfera com a Terra no centro e duzentos anos-luz de raio, contendo aproximadamente 100 mil estrelas. Para uma lista de alvos, favor conferir o Apêndice 2.
(3) Desenvolvimento do sistema de codificação autointerpretativo da Costa Vermelha
Princípio básico: a partir de leis universais e matemáticas básicas da física, construir um código linguístico elementar que possa ser compreendido por qualquer civilização que tenha domínio de álgebra básica, de geometria euclidiana e das leis da mecânica clássica (física não relativística).
Usando o código elementar mencionado, com acréscimo de imagens de baixa resolução, desenvolver gradualmente um sistema linguístico completo. Idiomas aceitos: chinês e esperanto.
A totalidade do conteúdo informacional do sistema deve ser de 680 KB. Os tempos de transmissão nos canais de 2800 MHz, 12 000 MHz e 22 000 MHz são, respectivamente, 1183 minutos, 224 minutos e 132 minutos.
3. Plano de implementação do projeto Costa Vermelha
(1) Conceito preliminar para o sistema de monitoramento e busca da Costa Vermelha [ainda sigiloso]
(2) Conceito preliminar para o sistema de transmissão da Costa Vermelha [ainda sigiloso]
(3) Plano preliminar de seleção de local para a base Costa Vermelha [omitido]
(4) Ideias preliminares quanto à formação da força Costa Vermelha a partir do 2º Corpo de Artilharia [ainda sigiloso]
4. Conteúdo da mensagem transmitida pela Costa Vermelha [Resumo]
Panorama da Terra (3,1 KB), panorama da vida na Terra (4,4 KB), panorama da sociedade humana (4,6 KB), história mundial básica (5,4 KB). Conteúdo total de informação: 17,5 KB.
A mensagem integral será enviada após a transmissão do sistema de codificação autointerpretativo. Os tempos de transmissão nos canais de 2800 MHz, 12 000 MHz e 22 000 MHz são, respectivamente, 31 minutos, 7,5 minutos e 3,5 minutos.
A mensagem será avaliada com cuidado por um comitê multidisciplinar, para garantir que não sejam reveladas as coordenadas da Terra em relação à Via Láctea. Entre os três canais, a transmissão nas frequências mais altas de 12 000 MHz e 22 000 MHz será minimizada para reduzir as chances de que a fonte da transmissão seja determinada com precisão.
IV. Mensagem para civilizações extraterrestres
Primeiro rascunho [Texto Completo]
Atenção, você, que recebeu esta mensagem! Esta mensagem foi enviada por um país que representa a justiça revolucionária na Terra! Antes disso, você talvez já tenha recebido outras mensagens enviadas da mesma direção. Essas mensagens foram enviadas por uma potência imperialista deste planeta. Essa superpotência está disputando o domínio mundial com outra superpotência, a fim de fazer retroceder a história da humanidade. Temos esperança de que você não dê ouvidos às mentiras dessas nações. Apoie a justiça, apoie a revolução!
[Instruções da Liderança Central] Isso está uma grande porcaria! Já basta espalharmos cartazes com caracteres garrafais* por todos os lados, mas não deveríamos mandá-los para o espaço. A liderança da Revolução Cultural não pode ter mais nenhum envolvimento com a Costa Vermelha. Uma mensagem de tamanha importância deve ser elaborada com cuidado. Provavelmente seria melhor que um comitê especial redigisse o comunicado, e que depois o texto fosse debatido e aprovado em uma reunião do politburo.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
Segundo Rascunho [omitido]
Terceiro Rascunho [omitido]
Quarto Rascunho [Texto Completo]
Estendemos a vocês, habitantes de outro mundo, nossos mais calorosos cumprimentos. Após ler a seguinte mensagem, vocês terão uma noção básica da civilização na Terra. Através de muito trabalho e criatividade, a raça humana construiu uma civilização esplêndida, que floresceu com uma multiplicidade de culturas. Também começamos a compreender as leis que regem o mundo natural e o desenvolvimento das sociedades humanas. Valorizamos todas as nossas conquistas.
Mesmo assim, nosso mundo ainda tem falhas. Há ódio, assim como preconceito e guerra. Por conta de conflitos entre as forças de produção e as relações de produção, a distribuição de riqueza é extremamente desigual, e grandes parcelas da humanidade vivem na pobreza e na miséria.
As sociedades humanas estão se esforçando muito para resolver as dificuldades e os problemas que enfrentam, lutando para criar um futuro melhor para a civilização da Terra. O país que enviou esta mensagem participa desse esforço. Nós nos dedicamos a desenvolver uma sociedade ideal que respeite na plenitude o trabalho e o valor de cada indivíduo da raça humana, que atenda integralmente as necessidades materiais e espirituais de todos, de modo que a civilização da Terra possa se aperfeiçoar.
Movidos pelas melhores intenções, desejamos estabelecer contato com outras sociedades civilizadas do universo. Desejamos trabalhar junto com vocês para desenvolver uma vida melhor neste vasto universo.
V. Políticas e estratégias relacionadas
1. Consideração de políticas e estratégias após recepção de mensagem por inteligência extraterrestre [omitido]
2. Consideração de políticas e estratégias após estabelecimento de contato com inteligência extraterrestre [omitido]
[Instruções da Liderança Central] É importante reservar um tempo em nossa agenda cheia para fazer algo sem qualquer relação com nossas necessidades imediatas. Esse projeto permitiu um pouco de reflexão sobre questões que nunca tivemos tempo de analisar. De fato, só podemos ponderar essas questões quando obtivermos um distanciamento suficiente. Isso já basta para justificar o Projeto Costa Vermelha.
Será maravilhoso se o universo realmente tiver outras inteligências e outras sociedades! Observadores externos são os que têm a perspectiva mais clara. Só alguém realmente neutro será capaz de comentar se somos os heróis ou os vilões da história.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
* A crença popular passou a associar cartazes manuscritos com grandes caracteres chineses à Revolução Cultural. No entanto, vem de longa data a história do uso desse material como instrumento de propaganda na China, tanto antes como depois da Revolução Cultural.
